AÇÕES DE ENFERMAGEM À GESTANTE COM SÍNDROME HIPERTENSIVA DA GESTAÇÃO: SOB UM OLHAR DA PESQUISA INTEGRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509301830


Lara Gripp Cordeiro dos Santos Ferreira
Maria Fiama Moreira Gonçalves Lovatini
Maria Luíza Costa Amâncio
Orientadora: Flávia dos Santos Lugão de Souza


RESUMO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, investigou as práticas de enfermagem voltadas para gestantes com Síndrome Hipertensiva Específica da Gestação (SHEG), uma das principais causas de morbimortalidade materna e neonatal no Brasil. A pesquisa foi realizada nas bases de dados SciELO, BVS e LILACS, utilizando os descritores “Cuidados de Enfermagem”, “Gestantes”, “Gravidez de alto risco”, “Toxemia gravídica” e “Pré-eclâmpsia”. Foram selecionados 12 artigos publicados entre 2010 e 2025. Os resultados destacam o papel fundamental da enfermagem na detecção precoce, manejo e prevenção de complicações da SHEG. A atuação do enfermeiro inclui a aferição seriada da pressão arterial, controle de peso, avaliação de edemas e investigação de sintomas como cefaleia e alterações visuais. Além disso, a educação em saúde para a gestante e sua família é uma estratégia essencial para o autocuidado e adesão ao tratamento. A análise dos estudos reforça a importância de uma assistência de enfermagem qualificada e humanizada no pré-natal para garantir desfechos favoráveis para mãe e feto, reduzindo os impactos negativos da SHEG na saúde pública.

Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem; Síndrome Hipertensiva Específica da Gestação; Pré-eclâmpsia; Saúde Materno-Infantil.

ABSTRACT

This integrative literature review investigated nursing practices for pregnant women with Specific Pregnancy Hypertensive Syndrome (SPHS), a leading cause of maternal and neonatal morbidity and mortality in Brazil. The research was conducted in the SciELO, BVS, and LILACS databases, using the descriptors “Nursing Care,” “Pregnant Women,” “High-Risk Pregnancy,” “Pregnancy Toxemia,” and “Preeclampsia.” Twelve articles published between 2010 and 2025 were selected. The results highlight the fundamental role of nursing in the early detection, management, and prevention of SPHS complications. Nurses’ responsibilities include serial blood pressure measurements, weight control, edema assessment, and investigation of symptoms such as headache and visual changes. Furthermore, health education for pregnant women and their families is an essential strategy for self-care and treatment adherence. The analysis of these studies reinforces the importance of qualified and humanized nursing care during prenatal care to ensure favorable outcomes for both mother and fetus, reducing the negative impacts of HSHS on public health.

Keywords: Nursing Care; Pregnancy-Specific Hypertensive Syndrome; Preeclampsia; Maternal and Child Health.

1. INTRODUÇÃO

Para Silveira et al. (2024) a gestação é marcada por intensas mudanças fisiológicas, nas quais o organismo feminino se adapta gradualmente à nova condição. Por ser uma experiência fisiológica natural, a maior parte dessas alterações ocorre de forma espontânea e sem complicações, caracterizando a gestação de baixo risco ou habitual. Contudo, uma parcela das gestantes apresenta intercorrências e complicações que demandam atenção especializada 

Entre essas complicações, destaca-se a síndrome hipertensiva específica da gestação (SHEG), que ocupa uma posição de destaque na morbimortalidade global, segundo Sá, (2021), sendo a segunda principal causa de complicações e morte materna. Trata-se de uma enfermidade multissistêmica, geralmente manifestada na segunda metade da gestação, com possíveis desdobramentos até o puerpério. 

Ferreira et al. (2024) caracteriza a SHEG por hipertensão arterial sistólica superior ou igual a 140 mmHg ou diastólica igual ou acima de 90 mmHg, associada a proteinúria, edema e outros sinais e sintomas que variam conforme a evolução clínica em cada paciente 

Além de óbitos, Ruiz et al. (2015) descrevem que a SHEG provoca diversas complicações maternas, como deslocamento prematuro de placenta, insuficiência respiratória, choque, edema pulmonar agudo e hemorragia pós-parto. Do ponto de vista neonatal, pode resultar em prematuridade, restrição de crescimento intrauterino e baixo peso ao nascer 

De acordo com Abrahão et al. (2020) a SHEG afeta aproximadamente 5 a 10% das gestantes no Brasil, sendo a segunda principal causa de mortalidade materna e neonatal, atrás apenas de mortes relacionadas a hemorragias, que representam 14% dos casos. Dada sua alta prevalência, a SHEG se torna um tema de grande relevância para estudo e intervenção. Muitos desses desfechos adversos poderiam ser evitados por meio da identificação precoce de sinais e sintomas e da atuação eficaz dos profissionais de enfermagem, que são o primeiro ponto de contato com essas pacientes.

Esses profissionais desempenham um papel fundamental no acolhimento e acompanhamento de gestantes em situações vulneráveis, especialmente durante o processo de parto e nascimento (Silveira et al., 2024). 

Assim, Damasceno e Cardoso (2022), afirmam que a enfermagem assume um papel crucial na assistência às gestantes, já que a SHEG demanda estratégias de prevenção e manejo ao longo da gestação e do puerpério. Os profissionais de enfermagem estão preparados para oferecer um cuidado integral e humanizado a essas mulheres. 

Assim, este estudo busca explorar, com base na literatura científica, as práticas de enfermagem voltadas para gestantes acometidas pela SHEG e descrever os principais cuidados de enfermagem relacionados a essa enfermidade gestacional, ampliando o conhecimento e fomentando discussões sobre o tema.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, cujo levantamento bibliográfico foi realizado nas bases de dados relevantes na área da saúde como, na Scientific Eletronic Library Online (SciELO), na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Esse método permite compreender realidades a partir de múltiplos estudos científicos e com variadas metodologias.

A pesquisa seguiu as seguintes etapas: 1. Seleção do tema; 2. Busca e escolha dos artigos científicos nas bases de dados; 3. Categorização dos estudos; 4. Avaliação dos estudos incluídos; 5. Análise e interpretação dos resultados e 6. Apresentação da súmula do estudo.

O estudo foi elaborado entre os meses de março a setembro de 2025. Foram utilizados os descritores encontrados na base Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Cuidados de Enfermagem; Gestantes; Gravidez de alto risco; Toxemia gravídica; Pré-eclâmpsia.

Os critérios de inclusão determinados para a seleção dos artigos foram: artigos completos, idioma em português e publicados nos anos de 2010 a 2025. A exclusão pautou-se em artigos incompletos, fora dos anos de publicação proposto pela pesquisa e, também, que não se encontravam na língua portuguesa. 

Os critérios de exclusão foram artigos que não foram publicados na língua portuguesa, anteriores a 2010, e que não se enquadravam na área de cuidados de enfermagem.

Para realização da pesquisa, utilizou-se o operador booleano AND entre os descritores escolhidos para o estudo. Obteve-se como primeiro resultado 2.009 artigos. No segundo momento, após a filtragem com critérios de inclusão e exclusão, restaram 35 artigos, dos quais foram selecionados 12 artigos que versavam sobre os cuidados de enfermagem a gestantes com síndrome hipertensiva específica da gestação.

Segue no quadro 1 os resultados da seleção dos artigos a partir dos descritores.

Quadro 1. Total de artigos a partir dos descritores.

Base/no de artigos
DESCRITORESSciELO%BVS%LILACS%
Cuidados de Enfermagem; Gestantes; Gravidez de alto risco; Toxemia gravídica; Pré-eclâmpsia.115057,2%75937,8%1005,0%
Total de artigos selecionados60,5%40,5%22%

Fonte: Autor do estudo, (2025).

Utilizando-se os descritores: “Cuidados de Enfermagem”; “Gestantes”; “Gravidez de alto risco”; “Toxemia gravídica”; “Pré-eclâmpsia”; e após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, encontramos na base de dados SciELO um total de 6 artigos, correspondendo a 0,5% do total de estudos selecionados.

Na Biblioteca Virtual em Saúde BVS, foram identificados 4 artigos, representando 0,5% do total. Na Base de dados LILACS, foram identificados 2 artigos, representando 2% do total de artigos selecionados. Apesar de um número reduzido, a LILACS se destaca por ser uma fonte especializada na área da saúde, reunindo literatura científica relevante para pesquisas na área. 

Segue no quadro 2 os valores dos artigos selecionados em cada revista.

Quadro 2 – Total de artigos selecionados em cada revista.

REVISTASNº Artigos%
Cadernos de atenção básica do Ministério da Saúde18,3%
Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research18,3%
Revista Nursing217,0%
Revista Gaúcha de Enfermagem18,3%
Revista Científica da Escola Estadual de Saúde Pública de Goiás18,3%
Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia18,3%
Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento18,3%
Revista da Associação Médica Brasileira18,3%
Revista FT18,3%
Revista Brasileira de Terapia Intensiva18,3%
Revista Brasileira de Anestesiologia18,3%
Total de artigos selecionados12100,0%

Fonte: Autoras do estudo, (2025)

No fluxograma 1 segue em destaque o descarte dos artigos após a implementação dos filtros: idioma e corte temporal (2010 a 2025) e a seleção dos 12 artigos para a organização do estudo.

Fluxograma 1: Descartes dos artigos da base Google Acadêmico após a implementação dos filtros e critérios de exclusão.

Fonte: Autoras do estudo, 2025.

Nesta fase, os artigos inclusos, extraídos e selecionados, após leitura detalhada, foram organizados e categorizados, permitindo a organização das próximas etapas do estudo.

3. RESULTADOS 

A partir dos 12 artigos selecionados iremos compor a etapa dos resultados, segue no quadro 3 os autores, títulos, ano de publicação, revista e metodologia.

Quadro 3. Artigos selecionados para o estudo, de acordo os autores, títulos, ano de publicação, revista e metodologia.

AUTORESTÍTULO DO ARTIGOANO REVISTAMETODOLOGIA
BRASILAtenção ao pré-natal de baixo risco.2012BVS SaúdeRevisão de Integrativa 
WAYHS et al.Hematoma subdural agudo espontâneo e hemorragia intracerebral em paciente com microangiopatia trombótica gestacional.2013Revista Brasileira de Terapia Intensiva.Relato de caso
XU, SHEN e WANG.Pesando riscos e benefícios: lições aprendidas com as intervenções terapêuticas de um caso com pré-eclâmpsia grave.2013Revista Brasileira de Anestesiologia.Relato de caso
OLIVEIRA e COSTA.Óbitos fetais e neonatais entre casos de near miss (quase acidente) materno?  2013Revista da Associação Médica Brasileira.Estudo descritivo
RUIZ et al.Associação entre síndromes hipertensivas e hemorragia pós-parto.2016Revista Gaúcha de Enfermagem.Estudo epidemiológico seccional
OLIVEIRA et al.Cuidados de enfermagem a gestante com síndrome hipertensiva: revisão integrativa.2018BJSCR.Revisão integrativa
SANTOS e BRASILEIRO.Enfermagem e os cuidados emergenciais na doença hipertensiva específica na gravidez.2018Revista Científica Multidisciplinar.Revisão integrativa
ABRAHÃO et al.Atuação do enfermeiro a pacientes portadoras de síndrome hipertensiva específica da gestação.2020Revista Científica da Escola Estadual de Saúde Pública de GoiásEstudo descritivo
SÁ.Maternal Mortality and the Public Health Service in Brazil.2021Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.Estudo descritivo
DAMASCENO e CARDOSO.O papel da enfermagem nas síndromes hipertensivas da gravidez: Revisão integrativa.2022Nursing.Revisão integrativa
FERREIRA et al.Hipertensão arterial na gestação.2024Nursing.Revisão integrativa
SILVEIRA et al.Os cuidados de enfermagem à pacientes com síndrome hipertensiva específica da gestação (SHEG).2024Revista FT.Revisão integrativa

Fonte: Autoras do estudo (2025).

No que se refere ao tipo de pesquisa, cinco (41,7%) eram revisões integrativas, três (25,0%) eram estudos descritivos, dois (16,7%) se tratava de relatos de caso, um (8,3%) era um estudo epidemiológico e um (8,3%) uma revisão integrativa para desenvolvimento de diretrizes.

Segue no gráfico 1 a distribuição dos artigos segundo o tipo de pesquisa.

Gráfico 1. Distribuição dos artigos segundo o tipo de pesquisa.

Fonte: Autoras do estudo, (2025).

Em relação ao ano de publicação, dos 12 artigos selecionados, 1 foi publicado em 2012, 4 em 2013, 1 em 2016, 2 em 2018, 1 em 2020, 1 em 2021, 1 em 2022, 2 em 2024. Segue no gráfico 2 a distribuição dos estudos quanto ao ano de publicação.

Gráfico 2. Distribuição dos estudos quanto ao ano de publicação.

Fonte: Autores do estudo, (2025).

No que se refere à área de conhecimento, a maioria dos estudos (75,0%) pertence à área da Enfermagem, destacando o protagonismo desse profissional na assistência aos pacientes com hanseníase, enquanto os demais 25,0% são oriundos da Medicina e outras áreas da Saúde.

Gráfico 3. Área de publicação dos estudos.

Fonte: Autores do estudo, 2025.

4. DISCUSSÃO

Para a elaboração das discussões os artigos foram lidos, analisados e em seguida, construído a contextualização a partir de 2 tópicos: 4.1) Fisiologia da Gestação; 4.2) A Síndrome Hipertensiva da Gestação, do diagnóstico ao tratamento; 4.3) Cuidados de enfermagem à mulher com Síndrome Hipertensiva da Gestação. 

4.1 Fisiologia da Gestação

Para Silveira et al (2024), a gestação é caracterizada por adaptações fisiológicas amplas e integradas que permitem adequar o organismo materno às necessidades crescentes do feto, da placenta e da própria gestante, envolvendo diversas alterações endócrinas, hemodinâmicas, respiratórias e renais.

Segundo Ferreira et al (2024), no sistema cardiovascular, observa-se uma redução significativa da resistência vascular periférica (cerca de 20 a 40%), iniciada logo no primeiro trimestre, o que favorece o aumento do débito cardíaco em até 30 a 50%, atingindo o ápice entre o segundo e terceiros trimestres. Esse aumento do débito cardíaco ocorre predominantemente por elevação do volume sistólico, especialmente nas primeiras semanas, e aumento da frequência cardíaca em fases mais avançadas da gestação.

Complementa Wayhs et al (2013), que simultaneamente, há expansão do volume sanguíneo materno, com incremento de 30 a 50% no volume plasmático, gerando anemia hemodilucional e reduzindo a pressão oncótica sérica, que são mecanismos que contribuem à estabilização hemodinâmica diante de perdas esperadas no parto. Essas mudanças são mediadas por hormônios da gestação, como estrogênio, progesterona e relaxina, que promovem vasodilatação e ativam o sistema renina–angiotensina–aldosterona (RAAS), sustentando a retenção hídrica e o aumento da perfusão vascular.

No sistema respiratório, Ferreira et al (2024), afirma que ocorre elevação do diafragma, e a despeito disso, o volume corrente aumenta em até 30 a 40%, juntamente com a ventilação minuto, levando à alcalose respiratória compensada. Essa é uma importante adaptação para otimizar a oxigenação fetal.

Em termos renais, Wayhs et al (2013), verifica o aumento expressivo do fluxo plasmático renal (40 a 65%) e da taxa de filtração glomerular (50 a 85%), resultando em níveis reduzidos de ureia e creatinina séricas, reflexo da hiperfiltração renal adaptativa.

Ainda segundo Wayhs et al (2013), a gestação também é marcada por dilatação fisiológica do sistema coletor renal — ureteres e pelve renal — especialmente à direita, predispõe a estase urinária e, consequentemente, eleva o risco de infecção urinária.

Santos e Brasileiro (2023), citam que as modificações hormonais envolvem ainda maior secreção de prolactina, hCG, hPL, cortisol e aldosterona, com impactos no metabolismo maternal, promovendo lipólise, resistência insulínica e aumento da demanda calórica e proteica, ajustando o estado nutricional para o feto e preparando para a lactação, e que esses ajustes metabólicos também contribuem para a predisposição ao diabetes gestacional, pela resistência à insulina imposta pelo hPL e cortisol, que elevam os níveis glicêmicos maternos em favor do suprimento fetal.

Outra adaptação relevante segundo Ferreira et al (2024), ocorre no sistema hematológico: ocorre hipercoagulabilidade do sangue materno, provocada por aumento na produção hepática de fatores de coagulação, com risco aumentado de trombose e embolia. Essa é uma medida protetiva na gestação, mas que exige vigilância.

Em síntese, a fisiologia da gestação envolve um delicado equilíbrio multissistêmico. Alterações cardiovasculares, respiratórias, renais, endócrinas e metabólicas atuam de forma coordenada para sustentar o crescimento fetal, manter a homeostase materna e preparar o corpo para o parto e a lactação, constituindo um modelo notável de plasticidade biológica adaptativa.

4.2 A Síndrome Hipertensiva da Gestação, do diagnóstico ao tratamento.

Para Sá, (2021), a SHEG, também conhecida em suas diferentes manifestações como pré-eclâmpsia e eclâmpsia, representa uma das mais temidas complicações obstétricas, sendo um desafio constante para a saúde materno-infantil.

No Brasil, a SHEG assume proporções de um grave problema de saúde pública. Estatísticas apontam que as desordens hipertensivas na gestação são a principal causa de morte materna no país. Estima-se que a condição afete entre 5% a 10% das gestantes brasileiras, com um impacto ainda maior em regiões com maior vulnerabilidade social e acesso limitado a um pré-natal de qualidade (SÁ, 2013).

Santos e Brasileiro (2018), afirmam que a atuação da equipe de enfermagem atua estrategicamente para a detecção precoce, o manejo adequado e a prevenção das complicações associadas à SHEG. 

Os sinais e sintomas da SHEG podem variar de sutis a severos, o que reforça a necessidade de uma vigilância constante durante o pré-natal. Oliveira e Costa (2013), citam que além da elevação da pressão arterial e do edema, especialmente em face e mãos, os sintomas de alerta para formas mais graves incluem cefaleia persistente e intensa, alterações visuais como escotomas (pontos luminosos) ou visão turva, dor na região epigástrica e uma rápida progressão do inchaço. A evolução para a eclâmpsia, a forma mais grave, é marcada pelo surgimento de convulsões, representando uma emergência médica com alto risco de mortalidade tanto para a mãe quanto para o feto.

Oliveira et al. (2018), alertam que no processo diagnóstico da SHG, o enfermeiro tem papel fundamental na identificação precoce de sinais e sintomas que podem indicar elevação pressórica e complicações associadas. Isso inclui a realização da pré-consulta de enfermagem, aferição correta e seriada da pressão arterial, verificação de ganho ponderal abrupto, avaliação da presença de edema, investigação de queixas como cefaleia, alterações visuais e dor epigástrica. Além disso, cabe ao enfermeiro a solicitação de exames de rotina previstos nos protocolos da Atenção Primária, como urina tipo I e proteinúria, quando regulamentado localmente, além do encaminhamento imediato da gestante para avaliação médica diante de achados sugestivos de pré-eclâmpsia ou de situações de risco.

No estudo de Ruiz, (2016) descreve que a hipertensão arterial (pressão arterial ≥ 140/90 mmHg) após a 20ª semana de gestação, frequentemente acompanhada de proteinúria (perda de proteína na urina), indicando um acometimento multissistêmico que pode afetar rins, fígado, cérebro e o sistema de coagulação. Sua fisiopatologia ainda não é completamente elucidada, mas acredita-se que a principal causa esteja relacionada a uma placentação inadequada, que leva a uma resposta inflamatória sistêmica e disfunção do endotélio (a camada interna dos vasos sanguíneos), resultando no quadro hipertensivo e suas complicações.

Sá, (2021), afirma que o diagnóstico geralmente é estabelecido pela elevação persistente da pressão arterial (PA ≥ 140/90 mmHg), confirmada em duas medições com intervalo de pelo menos quatro horas. A presença de proteinúria e alterações em órgãos-alvo, como disfunção renal, plaquetopenia ou sinais de envolvimento hepático, orienta a distinção entre hipertensão gestacional simples e pré-eclâmpsia.

Em termos de manejo não farmacológico, sobretudo em casos de hipertensão leve, Oliveira e Costa (2013), recomendam repouso relativo e monitorização ambulatorial da PA; mudanças no estilo de vida e orientação quanto à ingestão de cálcio ou ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose pode ser disparadores de profilaxia, especialmente em gestantes com risco aumentado para pré-eclâmpsia.

O tratamento medicamentoso deve ser iniciado quando a PA persistente atinge ≥140/90 mmHg e especialmente concordar com metas terapêuticas de manter PA ≤ 140/90 mmHg (ou ≤ 140/85 mmHg na visão de algumas diretrizes). Fármacos de escolha incluem metildopa, nifedipino (em formulação de liberação prolongada) e betabloqueadores seguros (como metoprolol), enquanto IECA, BRA e inibidores da renina são contraindicados devido ao risco teratogênico (SILVEIRA et al., 2024).

Ainda em Silveira et al, (2024), encontramos que nas emergências hipertensiva (PA ≥ 160/110 mmHg), a hospitalização é mandatória. A administração rápida de anti-hipertensivos como hidralazina IV, nifedipino oral de ação imediata ou labetalol é recomendada para redução controlada da PA, evitando quedas abruptas que comprometam a perfusão materno-fetal.

No âmbito do tratamento, Oliveira e Costa (2013), corroboram com vários autores que a atuação do enfermeiro está centrada no cuidado contínuo e na educação em saúde. Isso envolve o acompanhamento sistemático da gestante com SHG, a orientação quanto à adesão às consultas de pré-natal de alto risco, estímulo ao repouso relativo, incentivo a hábitos de vida saudáveis e monitoramento rigoroso da pressão arterial durante o acompanhamento. O enfermeiro também é responsável por executar as prescrições médicas, garantindo a administração segura de medicamentos anti-hipertensivos, observando possíveis efeitos adversos, além de promover ações de acolhimento, escuta ativa e apoio emocional à gestante e sua família, fundamentais para reduzir ansiedade e aumentar a adesão ao tratamento.

Finalmente, Sá (2021), afirma que o parto constitui o tratamento definitivo das SHG, especialmente nos casos de pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou síndrome HELLP; a decisão sobre o momento e via do parto deve considerar a idade gestacional e o equilíbrio entre riscos maternos e neonatais. Após o parto, é essencial acompanhamento da PA e reavaliação da necessidade de medicação anti-hipertensiva no puerpério imediato e tardio.

Em suma, o manejo da síndrome hipertensiva da gestação exige diagnóstico preciso, vigilância contínua, tratamento medicamentoso e condutas emergenciais bem definidas, culminando, quando apropriado, na resolução da gestação por parto. Essa abordagem sistêmica reduz consideravelmente os riscos maternos e fetais associados às complicações dessa condição.

4.3 Cuidados de enfermagem à mulher com Síndrome Hipertensiva da Gestação

A atuação do enfermeiro no pré-natal, ofertado de forma universal e gratuita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), é a principal ação para a prevenção de complicações e a promoção de uma gestação saudável. Conforme preconiza o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012), a consulta de enfermagem constitui um espaço privilegiado para o acolhimento da gestante, permitindo a criação de um vínculo de confiança que é essencial para a adesão ao acompanhamento. 

Segundo Ferreira et al (2024), nesse primeiro contato, o enfermeiro realiza uma anamnese detalhada, investigando ativamente os fatores de risco, como histórico familiar, hipertensão arterial crônica, obesidade ou complicações em gestações anteriores, estabelecendo desde o início um plano de cuidado individualizado. A assistência de enfermagem à gestante com SHEG ultrapassa a execução de procedimentos técnicos e a vigilância em ambiente hospitalar. A educação em saúde emerge como uma ferramenta estratégica e transversal, capacitando a mulher e sua família a se tornarem agentes ativos no processo de cuidado. Esta abordagem, centrada no diálogo e na troca de saberes, é fundamental para a prevenção de complicações, a adesão ao tratamento e a promoção da segurança da paciente em todos os níveis de atenção, desde o pré-natal na Unidade Básica de Saúde até as orientações de alta hospitalar.

Dentro da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS), a gestante tem acesso a todos os exames laboratoriais e de imagem necessários para o monitoramento de sua condição, como a proteinúria, hemograma e ultrassonografias. O enfermeiro, como membro central da equipe de Saúde da Família, está plenamente capacitado para solicitar e interpretar os resultados desses exames de rotina. A correta aferição da pressão arterial, seguindo rigorosamente a técnica recomendada, e a vigilância contínua de sinais como o ganho de peso excessivo e a presença de edemas, são ações fundamentais que permitem a detecção precoce de alterações (BRASIL, 2012). Essa vigilância constante é a principal ferramenta para identificar os primeiros indícios de que a gestação pode estar evoluindo para um quadro de alto risco.

Damasceno e Cardoso, (2022) afirmam que, ao identificar qualquer alteração nos sinais vitais, nos resultados de exames ou no relato de sintomas de alerta pela gestante — como cefaleia persistente, alterações visuais ou dor epigástrica —, o enfermeiro possui a autonomia e o dever de agir prontamente. Sua atuação, respaldada pelos protocolos do Ministério da Saúde (BRASIL, 2012), inclui a discussão do caso com a equipe multiprofissional e o encaminhamento ágil e organizado da gestante para um serviço de referência de alto risco. Essa articulação entre a Atenção Primária e os serviços especializados garante a continuidade do cuidado e é decisiva para prevenir desfechos graves, como a eclâmpsia, protegendo a saúde e a vida tanto da mãe quanto do feto.

É fundamental ressaltar que, embora o acompanhamento profissional seja a base do cuidado, a participação ativa da gestante é um componente indispensável para o sucesso da prevenção. Mesmo as mulheres acompanhadas na rede de saúde suplementar (particular) devem ser orientadas a manter um estado de alerta constante em relação ao seu corpo.

A responsabilidade de observar e comunicar imediatamente ao seu médico qualquer sintoma atípico, como dores de cabeça que não cedem, inchaços súbitos, alterações na visão ou dor na região do estômago, é fundamental. 

Para Ferreira et al. (2024), essa parceria entre a paciente e o profissional de saúde, baseada na comunicação transparente, é a chave para uma intervenção rápida, que pode efetivamente prevenir a evolução para as formas mais graves da doença.

Quando a SHEG evolui para suas formas mais graves, a internação hospitalar torna-se necessária, e a assistência de enfermagem assume um papel central e decisivo para a estabilização do quadro e a prevenção de desfechos fatais. 

Para Silveira (2024), nesse cenário de alta complexidade, o cuidado se intensifica, exigindo do enfermeiro não apenas conhecimento técnico aprofundado, mas também uma capacidade ímpar de observação e tomada de decisão rápida. A atuação se concentra em dois eixos principais: o monitoramento contínuo e rigoroso dos parâmetros vitais e a administração segura de medicamentos de alta vigilância.

O monitoramento contínuo é a base para a avaliação da progressão da doença e da resposta terapêutica. Conforme destacam Santos e Brasileiro, (2018) ao abordarem os cuidados emergenciais, a vigilância de enfermagem deve ser ininterrupta e meticulosa. Isso se traduz na aferição seriada da pressão arterial, em intervalos curtos, para detectar picos hipertensivos que possam preceder uma crise.

Além disso, o controle rigoroso do balanço hídrico, por meio da mensuração da diurese, é fundamental, pois a oligúria (redução do volume urinário) pode ser um dos primeiros sinais de comprometimento renal e agravamento da pré-eclâmpsia.

A avaliação neurológica, que inclui a verificação do nível de consciência e a pesquisa de reflexos tendinosos profundos, é crucial para antecipar o risco de uma convulsão iminente. Simultaneamente, o monitoramento da vitalidade fetal, por meio da ausculta dos batimentos cardíacos ou cardiotocografia, garante que o bem-estar do feto seja constantemente avaliado, fornecendo dados essenciais para a decisão da equipe sobre o momento ideal para a interrupção da gestação.

Paralelamente ao monitoramento, a administração segura de medicamentos é uma das responsabilidades mais críticas do enfermeiro no manejo da SHEG grave. Para Abrahão et al. (2020), o papel do profissional vai muito além da simples execução da prescrição médica. Na administração de anti-hipertensivos e, especialmente, do sulfato de magnésio, fármaco de eleição para a prevenção e tratamento da eclâmpsia, o enfermeiro deve ter domínio sobre diluição, dosagem e velocidade de infusão. 

Como ilustrado no complexo estudo de caso apresentado por Xu, Shen e Wang (2013), o manejo terapêutico da pré-eclâmpsia grave é um delicado equilíbrio entre riscos e benefícios. O sulfato de magnésio, embora eficaz, possui uma janela terapêutica estreita, e a vigilância para sinais de intoxicação é uma atribuição intransferível da enfermagem. Isso inclui o monitoramento constante da frequência respiratória (risco de depressão respiratória), a avaliação do reflexo patelar (cuja ausência é um sinal clássico de toxicidade) e a observação do débito urinário, garantindo que a terapia traga proteção, e não um risco adicional à paciente. Segue no quadro 4 os principais problemas de enfermagem à gestante com SHEG e os cuidados de enfermagem para o controle e qualidade da assistência prestada a essa clientela.

Quadro 4. Principais problemas de enfermagem a gestante com SHEG e os cuidados de enfermagem.

PROBLEMASCUIDADOS DE ENFERMAGEM
Pressão altaAferir a pressão arterial periodicamente, utilizando técnica padronizada.

Registrar e monitorar tendências de elevação ou flutuações da PA.

Orientar a gestante sobre a importância da adesão às consultas e às orientações médicas.

Administrar medicamentos conforme prescrição.
Dor de cabeça intensaAvaliar características da dor (local, intensidade, frequência) e registrar evolução.

Encaminhar imediatamente ao médico caso a dor seja súbita, intensa ou associada a outros sinais de alerta.

Proporcionar ambiente tranquilo e escuro para aliviar o desconforto
Alterações visuaisObservar relato de visão turva, manchas ou fotofobia e registrar detalhadamente.

Notificar a equipe médica de forma imediata para avaliação complementar.

Orientar a gestante a evitar esforços visuais e atividades que exijam atenção
InchaçoAvaliar presença, localização e intensidade do edema, registrando evolução.

Orientar sobre elevação de membros inferiores e repouso relativo.

Ensinar a gestante a identificar alterações súbitas ou assimétricas que exijam atenção médica.
Dor abdominalMonitorar intensidade, localização e frequência da dor.

Comunicar imediatamente ao médico, pois pode indicar complicações hepáticas ou pré-eclâmpsia grave.

Proporcionar conforto, mantendo posição adequada e ambiente calmo.
Náuseas e vômitosAvaliar frequência e intensidade, registrando episódios.

Orientar ingestão de pequenas refeições fracionadas e hidratação adequada, conforme orientação médica.

Monitorar sinais de desidratação ou desequilíbrio eletrolítico.
Ganho de peso rápidoRegistrar peso semanalmente ou conforme protocolo da unidade.

Observar padrões de retenção hídrica associados a edema.

Orientar sobre dieta equilibrada, hidratação e importância de relatar alterações abruptas.
Dificuldade para respirarAvaliar frequência respiratória, esforço e saturação de oxigênio, se disponível.

Posicionar a gestante de maneira a facilitar a ventilação (semi-Fowler).

Comunicar imediatamente ao médico qualquer agravamento ou sinais de edema pulmonar.
ConvulsõesGarantir segurança da gestante durante o episódio (proteger cabeça, afastar objetos próximos).

Monitorar sinais vitais e nível de consciência antes, durante e após a convulsão.

Acionar a equipe médica imediatamente e preparar medicação anticonvulsivante conforme prescrição.

Fonte: Abrahão et al. (2020), adaptado pelas autoras do estudo, (2025).

Transversal a todos os níveis de atenção, a educação em saúde constitui uma ferramenta poderosa na prática de enfermagem. Abrahão et al. (2020) enfatizam que o enfermeiro, ao atuar como educador, empodera a gestante e sua rede de apoio para o autocuidado. Orientar ativamente sobre os sinais de alerta e a importância da adesão ao plano terapêutico transforma a paciente em uma protagonista do seu cuidado, sendo uma estratégia fundamental para a prevenção de complicações graves como a eclâmpsia e a síndrome HELLP.

Finalmente, a educação em saúde se estende ao período do puerpério e ao planejamento para o futuro. Ruiz (2016), enfatiza que as orientações de alta hospitalar devem incluir a importância de manter o acompanhamento da pressão arterial, mesmo após o parto, e de discutir com a equipe de saúde as opções de planejamento reprodutivo. 

Informar a mulher que um histórico de SHEG é um fator de risco para futuras gestações e para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares ao longo da vida é um ato de cuidado integral. Dessa forma, a educação em saúde promovida pela enfermagem não se limita a resolver a crise aguda, mas visa promover a saúde da mulher a longo prazo, consolidando seu papel indispensável na linha de cuidado materno-infantil.

5. CONCLUSÃO

Este trabalho teve como objetivo explorar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as práticas de enfermagem direcionadas a gestantes que apresentam a Síndrome Hipertensiva Específica da Gestação (SHEG). A SHEG é uma condição que representa um desafio significativo na saúde materno-infantil, sendo uma das principais causas de morbimortalidade em gestantes no Brasil. A metodologia empregada permitiu a análise de artigos científicos publicados em bases de dados relevantes, como SciELO, BVS e LILACS, abrangendo um período de 2010 a 2025, o que garantiu a inclusão de informações atualizadas e pertinentes ao tema.

Os resultados obtidos reforçam a importância crucial da atuação da equipe de enfermagem no manejo da SHEG. Ficou evidente que o enfermeiro desempenha um papel central em todas as etapas do cuidado, desde a identificação precoce dos sinais e sintomas até a implementação de estratégias de prevenção e tratamento das complicações. A capacidade de realizar uma pré-consulta de enfermagem detalhada, a aferição precisa e seriada da pressão arterial, o monitoramento do ganho de peso, a avaliação de edemas e a investigação de queixas como cefaleia e alterações visuais são ações que se mostraram fundamentais para a detecção precoce da síndrome.

Além das ações de monitoramento e diagnóstico, a enfermagem se destaca na promoção da educação em saúde. A orientação às gestantes e suas famílias sobre a importância do pré-natal, os sinais de alerta da SHEG e as medidas de autocuidado contribui significativamente para a adesão ao tratamento e para a melhoria dos desfechos. Essa abordagem educativa e humanizada é essencial para empoderar a gestante, tornando-a protagonista de seu próprio cuidado e favorecendo um ambiente de confiança e colaboração com a equipe de saúde.

É importante ressaltar que a SHEG é uma condição multissistêmica que exige um cuidado integral e contínuo. As adaptações fisiológicas da gestação, embora naturais, podem ser comprometidas pela síndrome, o que demanda uma vigilância constante e intervenções rápidas quando necessário. A literatura analisada demonstrou que a atuação qualificada do enfermeiro, baseada em evidências científicas, é capaz de minimizar os riscos associados à SHEG, tanto para a mãe quanto para o feto, contribuindo para a redução das taxas de morbimortalidade materna e neonatal.

O estudo sublinha o papel indispensável da enfermagem na assistência à gestante com SHEG. A dedicação, o conhecimento técnico-científico e a capacidade de oferecer um cuidado humanizado são pilares para garantir a segurança e o bem-estar dessas mulheres. A continuidade de pesquisas e a implementação de protocolos baseados nas melhores práticas são essenciais para aprimorar ainda mais a qualidade da assistência e fortalecer a saúde pública no que tange à saúde materno-infantil. O investimento na formação e capacitação dos profissionais de enfermagem é, portanto, um caminho promissor para enfrentar os desafios impostos pela SHEG e assegurar um futuro mais saudável para mães e bebês.

REFERÊNCIAS

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