REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202503211444
Gustavo Machado de Rezende1
RESUMO
Introdução: As hérnias inguinoescrotais gigantes (HIG) são raras, crônicas e frequentemente associadas a complicações sérias, como obstrução intestinal e dermatites. Elas exigem abordagens cirúrgicas complexas devido ao risco elevado de complicações e à falta de diretrizes claras para o tratamento. Objetivo: Discutir as técnicas cirúrgicas utilizadas no tratamento de hérnias inguinoescrotais gigantes. Metodologia: Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, utilizando as bases de dados PubMed e BVS, com a busca por estudos publicados entre 2015 e 2025. Foram incluídos estudos de coorte, ensaios clínicos e estudos de caso, excluindo revisões, teses e artigos duplicados. Resultados e Discussão: O tratamento da HIG inclui o uso de tomografia computadorizada para avaliação detalhada e reparo cirúrgico, sendo necessário cuidado devido ao grande volume do conteúdo herniário. A hernioplastia de Lichtenstein e a utilização de técnicas como pneumoperitônio progressivo mostraram-se eficazes para evitar complicações como a síndrome do compartimento abdominal. Estudo de caso demonstrou bons resultados com a técnica de Lichtenstein, enquanto outros métodos também mostraram eficácia no manejo, destacando a necessidade de abordagens cuidadosas e monitoramento pós-operatório rigoroso. Conclusão: O tratamento de HIG exige técnicas cirúrgicas específicas e cuidadosas para minimizar complicações. A utilização de exames como a tomografia e o controle da pressão intra-abdominal são essenciais para o planejamento da cirurgia, e a hernioplastia de Lichtenstein é uma abordagem recomendada. A recuperação pós-operatória requer vigilância constante para evitar infecções e garantir o sucesso do tratamento.
Palavras-chave: Hérnia escrotal; Cirurgia; Hérnia inguinoescrotal.
ABSTRACT
Introduction: Giant inguinoscrotal hernias (GIH) are rare, chronic, and often associated with serious complications such as intestinal obstruction and dermatitis. They require complex surgical approaches due to the high risk of complications and the lack of clear treatment guidelines. Objective: Aim to discuss the surgical techniques used in the treatment of giant inguinoscrotal hernias. Methodology: A narrative literature review was conducted using the PubMed and BVS databases, searching for studies published between 2015 and 2025. Cohort studies, clinical trials, and case studies were included, while reviews, theses, and duplicate articles were excluded. Results and Discussion: The treatment of GIH includes the use of computed tomography for detailed evaluation and surgical repair, with careful attention required due to the large volume of herniated content. Lichtenstein hernioplasty and techniques such as progressive pneumoperitoneum have proven effective in preventing complications like abdominal compartment syndrome. A case study demonstrated good results with the Lichtenstein technique, while other methods also showed effectiveness in management, highlighting the need for careful approaches and strict postoperative monitoring. Conclusion: The treatment of GIH requires specific and careful surgical techniques to minimize complications. The use of imaging, such as tomography, and the control of intra-abdominal pressure are essential for surgical planning, with Lichtenstein hernioplasty being a recommended approach. Postoperative recovery requires constant vigilance to prevent infections and ensure treatment success.
Keywords: Scrotal hernia; Surgery; Inguinoscrotal hernia.
INTRODUÇÃO
As hérnias inguinais (HI) são bastante comuns, e o procedimento para repará-las é um dos mais realizados no Ocidente. Enquanto a maioria das HI são tratadas com o uso de telas, as hérnias inguinoescrotais gigantes (HIG) são mais raras e costumam ser crônicas, com o defeito da hérnia se expandindo ao longo do tempo. Isso pode levar à “perda de domínio”, quando uma grande parte das vísceras se projeta no saco herniário. As definições de HIG variam, mas em geral, envolvem a extensão do saco abaixo da coxa (Koller; Oberholzer; Rössler, 2024).
As HIG são condições pouco frequentes, mas casos relatados mostram maior prevalência em áreas rurais, muitas vezes devido ao desconhecimento ou receio de tratamento cirúrgico. Essa patologia pode afetar seriamente o estilo de vida dos pacientes, ocasionando complicações como dificuldades de mobilidade nos membros inferiores, obstrução intestinal, além de problemas dermatológicos, como dermatites e úlceras (Muñoz Pérez et al., 2023).
O reparo cirúrgico de HIG é desafiador, especialmente devido ao risco de complicações, como aumento da pressão intra-abdominal e dificuldades na cicatrização. Algumas abordagens incluem ressecção e separação das camadas da parede abdominal, e, frequentemente, é necessária a reconstrução do escroto para evitar problemas pós-operatórios (Koller; Oberholzer; Rössler, 2024).
O manejo da HIG é delicado devido às complicações associadas. Sua abordagem cirúrgica é complexa e carece de diretrizes claras. A escassez de estudos padronizados torna a investigação essencial para melhorar os tratamentos. Sendo assim, o objetivo do estudo foi discutir as técnicas cirúrgicas para o tratamento de hérnias inguinoescrotais gigantes.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura nas bases de dados da PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados os termos de busca “”Scrotal hernia“, “surgery” e “inguinoscrotal hernia”, intercalados pelo operador booleano “AND”. Incluíram-se estudos transversais, prospectivos, de coorte, ensaios clínicos e estudos de caso publicados nos últimos 10 anos (2015-2025) nos idiomas português, inglês ou espanhol. Excluíram-se estudos de revisão, teses, dissertações, artigos pagos e duplicados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O manejo da HIG inclui o uso de tomografia computadorizada com contraste para avaliação detalhada, seguida de reparo cirúrgico aberto. É importante realizar o procedimento com cuidado para evitar complicações como disfunção diafragmática, obstrução intestinal, deiscência da ferida e síndrome do compartimento abdominal. A cirurgia deve ser feita com atenção, devido ao grande volume de conteúdo herniário, que pode levar a complicações se reduzido abruptamente. O risco de recorrência após a cirurgia é maior em comparação com HI mais comuns, exigindo monitoramento contínuo (Brondfield; Dhaliwal, 2016).
No estudo de caso de Baca-Prieto & Domínguez-Carrillo (2017), o tratamento envolveu a utilização de um cateter Tenckhoff no quadrante superior esquerdo do abdômen, com insuflação abdominal de ar para monitoramento da pressão intra-abdominal, que foi gradualmente aumentada até atingir 20 cmH2O. Após estabilização clínica, no décimo dia de internação, foi realizada a cirurgia para reposicionar o intestino na cavidade abdominal e remover o saco herniário. A parede abdominal foi reforçada com um mal composto, e o paciente teve uma recuperação pós-operatória sem complicações, alcançando uma boa qualidade de vida.
Já na pesquisa de Tarchouli et al. (2015), o manejo cirúrgico foi realizado por meio de uma incisão inguinal clássica, utilizando a técnica de hernioplastia de Lichtenstein sem tensão. Nesse procedimento, não foi necessário realizar qualquer manobra de redução de volume ou aumento abdominal, além da realização de uma omentectomia parcial. A técnica escolhida mostrou-se a mais adequada para o caso, oferecendo bons resultados tanto para o paciente quanto para o cirurgião. Dessa forma, segundo os autores, a hernioplastia sem tensão de Lichtenstein é considerada a abordagem ideal em situações de HIG.
Segundo Staubitz et al. (2017), o tratamento geralmente é realizado por meio de uma incisão inguinal aberta, sendo, em alguns casos, complementado por uma abordagem abdominal. É importante destacar que a utilização de pneumoperitônio progressivo pode ser uma opção, visando evitar a síndrome compartimental abdominal, embora, no caso relatado, o paciente tenha recusado essa técnica. Além disso, a hernioplastia foi executada com a inserção de uma tela pré-muscular na posição de Lichtenstein, sem necessidade de ressecção intestinal, evitando complicações graves, como peritonite e sepse. A orquiectomia foi realizada devido a aderências no saco herniário, e a abordagem laparoscópica foi mencionada como uma possibilidade para casos específicos.
Nesse contexto, a Sociedade Brasileira de Hérnia (SBH) traz que a terapêutica para estes pacientes deve incluir uma abordagem cuidadosa, com a redução do conteúdo herniário e reparo da parede abdominal, utilizando técnicas apropriadas. Muitas vezes, o uso de prótese é necessário para reforçar a área enfraquecida. A drenagem correta e o acompanhamento rigoroso no pós-operatório são essenciais para prevenir complicações, como infecções e hematomas. Além disso, a mobilização da bolsa escrotal deve ser feita com precaução para evitar lesões nos órgãos envolvidos (Claus et al., 2019).
CONCLUSÃO
O tratamento de HIG exige uma abordagem cuidadosa, com técnicas cirúrgicas específicas para minimizar o risco de complicações. A utilização de métodos como a tomografia computadorizada e a monitorização da pressão intra-abdominal são importantes para planejar a cirurgia e evitar danos aos órgãos. Procedimentos como a hernioplastia de Lichtenstein são frequentemente escolhidos devido aos bons resultados, desde que realizados com atenção. A recuperação pós-operatória requer um monitoramento constante para prevenir infecções e garantir a eficácia do tratamento.
REFERÊNCIAS
BACA-PRIETO, J. E.; DOMÍNGUEZ-CARRILLO, L. G. Hernia Gigante inguino-escrotal. Revista de gastroenterologia de México, v. 82, n. 1, p. 89-91, 2017.
BRONDFIELD, Sam; DHALIWAL, Gurpreet. Giant inguinoscrotal hernia. Journal of General Internal Medicine, v. 31, p. 1537-1537, 2016.
CLAUS, Christiano Marlo Paggi et al. Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia (SBH) para o manejo das hérnias inguinocrurais em adultos. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 46, p. e20192226, 2019.
KOLLER, Alyssa; OBERHOLZER, Jose; RÖSSLER, Fabian. Giant Inguino-Scrotal Hernia With Loss of Domain: Surgical Report and Literature Review. Cureus, v. 16, n. 11, 2024.
MUÑOZ PÉREZ, David Felipe et al. Hernia inguinoescrotal gigante: un caso infrecuente. Revista de cirugía, v. 75, n. 4, p. 288-292, 2023.
TARCHOULI, Mohamed et al. Giant inguinoscrotal hernia containing intestinal segments and urinary bladder successfully repaired by simple hernioplasty technique: a case report. Journal of Medical Case Reports, v. 9, p. 1-4, 2015.
STAUBITZ, Julia Isabelle et al. Surgical treatment strategies for giant inguinoscrotal hernia–a case report with review of the literature. BMC surgery, v. 17, p. 1-7, 2017.
1Médico Residente em Cirurgia Geral – Hospital de Base do Distrito Federal, Brasília, DF.E-mail: gustavomrezende@outlook.com