REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202502150220
Lara Coviello Mendes de Campos
Cairo Faraco Alonso Y Alonso
1. RESUMO
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune crônica, multissistêmica e de manifestação polimórfica, frequentemente associada a sintomas abdominais. Este trabalho relata o caso de uma paciente de 30 anos com LES em atividade, que apresentou abdome agudo obstrutivo devido à enterite lúpica, uma complicação rara e grave da doença. Inicialmente tratada com manejo conservador, incluindo corticoides e antieméticos, a paciente necessitou de laparotomia exploradora após recidiva dos sintomas, evidenciando inflamação intestinal e íleo adinâmico. O tratamento incluiu pulsoterapia e antibioticoterapia, com boa evolução clínica. O caso destaca a importância de incluir a enterite lúpica entre os diagnósticos diferenciais em pacientes com LES e dor abdominal, reforçando o impacto do diagnóstico e manejo precoces no desfecho dos pacientes. A raridade da condição exige vigilância e maior divulgação na literatura médica.
2. PALAVRAS-CHAVE:
Lúpus Eritematoso Sistêmico; Abdome Agudo Obstrutivo
3. INTRODUÇÃO
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença crônica inflamatória, multissistêmica, autoimune, de causa idiopática, que pode se apresentar de forma atípica e polimórfica. (1)
Epidemiologicamente, é mais comum em mulheres (até 10 vezes, quando comparado aos homens), na raça negra, e com diagnóstico por volta da segunda e terceira décadas de vida. (1)
Como dito anteriormente, não há um padrão clássico de acometimento. Inclui sintomas gerais e constitucionais, como anorexia, perda de peso, linfadenopatia, febre e lesões cutâneas. (1)
A dor abdominal é uma queixa frequente entre os pacientes com LES, encontrada em até 40% dos casos. Dentre as causas, a enterite lúpica, uma vasculite ou inflamação na parede intestinal, é uma complicação rara, porém grave do LES, devendo ser precocemente diagnosticada e tratada. (2)
4. DESENVOLVIMENTO
No presente relato, a gastroparesia resultou em abdome agudo obstrutivo. Trata-se de paciente do sexo feminino, 30 anos, com diagnóstico e seguimento regular de LES, em uso prednisona, azatioprina e hidroxicloroquina. Foi admitida na emergência com dor abdominal importante, náuseas, vômitos e distensão abdominal.
Na Tomografia Computadorizada de abdome, evidenciando espessamento parietal da quarta porção do duodeno, distensão líquida da câmara gástrica e alças do delgado, e moderada quantidade de líquido na pelve. Também foi realizada Endoscopia Digestiva Alta, com esofagite erosiva aguda, gastroparesia e gastrite hemorrágica.
Recebeu alta após 9 dias internada na enfermaria de clínica médica com hipótese de gastroparesia secundária ao LES, em tratamento conservador e prescrição de antieméticos.
Após 2 meses, retorna ao serviço de emergência com dor abdominal em cólica e vômitos. À radiografia de trânsito intestinal, evidenciado interrupção da progressão do contraste. Constatado abdome agudo obstrutivo e submetida a laparotomia exploradora, que evidenciou moderada quantidade de líquido inflamatório seroso, distensão difusa de alças de delgado e hiperemia – inclusive de mesogástrio, sem pontos de obstrução. Apêndice cecal hiperemiado, realizado apendicectomia tática.
No caso, a paciente evoluiu com íleo adinâmico e leucopenia, sendo feito ciclo de antibiótico e pulsoterapia com corticoide, devido ao LES em atividade. Recebeu alta hospitalar com resolução do quadro, contrarreferenciada ao seguimento ambulatorial.
A lembrança de enterite lúpica entre os diagnósticos diferenciais em pacientes com LES com queixa de dor abdominal se torna indispensável, já que o manejo precoce desta complicação repercute positivamente no desfecho dos pacientes. (5)
A escassez de casos semelhantes na literatura, chama a atenção da comunidade médica a fim de manter a vigilância no subdiagnóstico da condição.
5. CONCLUSÃO
A enterite lúpica é uma complicação rara do LES, presente em apenas 1 a 2% dos que se apresentam com dor abdominal. A fisiopatologia não está claramente elucidada, mas muitos autores acreditam que depósitos de imunocomplexos causam lesões microvasculares. (3)
A apresentação clínica varia de dor abdominal, diarreia, distensão abdominal, à abdome agudo. A dor abdominal é o principal sintoma (até 97%), e ascite o principal sinal clínico (até 70%). Epidemiologicamente, comparando a literatura e o caso exposto, a paciente se enquadra, sendo compatível o sexo e a idade de apresentação. (3)
Foi descrito um caso semelhante, há poucos anos. A paciente em questão tinha o mesmo perfil clínico-epidemiológico, com relato de dor abdominal difusa, náuseas, vômitos e diarreia; com discretos sinais de irritação peritoneal. No caso, houve boa resposta ao tratamento conservador com antibioticoterapia para foco abdominal (por possibilidade de translocação bacteriana) e altas doses de corticoide. (2)
Na investigação, o exame de imagem inicial é a Radiografia, e o padrão-ouro é a Tomografia Computadorizada, que evidenciou distensão de alças intestinais, espessamento focal ou difuso da parede intestinal, realce alterado, ingurgitamento de vasos mesentéricos, atenuação da gordura mesentérica e ascite. (4)
O tratamento, se não cirúrgico, inclui corticoide em altas doses ou pulsoterapia. No caso exposto, mesmo após a cirurgia, foi necessário terapia supressora. (4)
A avaliação de dor abdominal traz um leque de possíveis diagnósticos. Em pacientes com LES, o desafio é ainda maior ao considerarmos possíveis interações medicamentosas, imunossupressão e acometimento da própria doença. (5)
6. REFERÊNCIAS
- CLÍNICA MÉDICA. Vol. 5 – Doenças Endócrinas e Metabólicas, Doenças Ósseas, Doenças Reumatológicas. [s.l.]: MANOLE, 2024
- MATHIAS, C. et al. Enterite mesentérica como complicação rara do lúpus eritematoso sistêmico. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, v. 19, n. 2, p. 116–119, 2021.
- BYUN, J. H. et al. CT Features of Systemic Lupus Erythematosus in Patients with Acute Abdominal Pain: Emphasis on Ischemic Bowel Disease. Radiology, v. 211, n. 1, p. 203–209, 1999.
- KIM, Y. G. et al. Acute abdominal pain in systemic lupus erythematosus: factors contributing to recurrence of lupus enteritis. Annals of the Rheumatic Diseases, v. 65, n. 11, p. 1537–1538, 2006.
- ZAMBONI, S. et al. Severe enteritis in systemic lupus erythematosus. Blucher Medical Proceedings, p. 245–245, 2019.