UENP IN THE COMMUNITY: A REPORT ON THE EXPERIENCE OF UNIVERSITY EXTENSION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202508281551
Bruno Peres de Araújo1; Maria Paula Medeiros Coutinho1; Milena Tisque1; Naara Santos Moreira1; Thaissa Maria Sartório1; Cristiano Massao Tashima2; Liza Ogawa2; Natália Maria Maciel Guerra Silva2; Thaise Castanho da Silva2; Simone Cristina Castanho Sabaini de Melo2
RESUMO
O Projeto de Extensão “UENP na Comunidade” visa promover a aproximação entre a universidade e a sociedade por meio de ações educativas e preventivas em saúde, realizadas de forma interdisciplinar e adaptadas às necessidades dos participantes. Este estudo apresenta o relato de experiência das atividades desenvolvidas entre setembro de 2024 e agosto de 2025, período em que o programa contou com financiamento da Itaipu Parquetec. As ações ocorreram em Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), escolas de ensino fundamental e médio, Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e evento comunitário, abrangendo palestras, apresentações teatrais e exposições, além de estratégias complementares de comunicação por meio das redes sociais. A equipe foi composta por quatro bolsistas e três voluntários, que atuaram no planejamento, execução e registro das atividades. Os resultados apontam amplo alcance e engajamento, com interação entre diferentes públicos e expansão da presença digital do projeto, que registrou crescimento expressivo de seguidores e visualizações no Instagram. A participação nas ações contribuiu para a formação acadêmica e cidadã dos estudantes, desenvolvendo competências técnicas, comunicacionais e éticas, além de fortalecer o vínculo com a comunidade. Conclui-se que o ‘UENP na Comunidade’ cumpre seu papel social e acadêmico, evidenciando a extensão universitária como prática transformadora, capaz de gerar impacto positivo na comunidade e na formação dos futuros profissionais.
Palavras-chave: Saúde pública. Extensão universitária. Projetos comunitários. Desigualdades sociais. Conscientização comunitária.
1. INTRODUÇÃO
A extensão universitária representa um dos pilares fundamentais da educação superior, ao lado do ensino e da pesquisa, conforme preconizado pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988). No contexto brasileiro, ela tem assumido um papel estratégico na aproximação entre universidades públicas e comunidades, sobretudo em regiões marcadas por desigualdades sociais e limitações no acesso a políticas públicas.
Na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), o Programa de Extensão “Saúde e Bem-Estar: A UENP na Comunidade” foi concebido em 2023, a partir da necessidade de implementar a inserção da extensão no currículo do curso de Enfermagem, conforme previsto na Resolução interna que regulamenta essa diretriz institucional (RESOLUÇÃO 003/2022 CEPE-UENP). Voltado inicialmente para os estudantes ingressantes, o programa surgiu como estratégia para integrar a formação acadêmica à realidade social do território, promovendo vivências práticas alinhadas às demandas comunitárias.
Estruturado em cinco subprojetos interligados — “Saúde Ambiental e Controle de Vetores”, “Educação em Saúde: as Parasitoses Intestinais em Humanos e Animais”, “Medicação e Saúde”, “Jovens Socorristas” e “Além dos Tabus Sexuais” — o programa abrange temas prioritários da saúde pública e da educação preventiva. Desenvolvido por estudantes e professores de diferentes áreas do conhecimento, busca consolidar o vínculo entre universidade e comunidade por meio do diálogo, da escuta ativa e da atuação interprofissional.
Este artigo tem como objetivo relatar as ações desenvolvidas no âmbito do programa, evidenciando as áreas de atuação e o público atendido.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
Referencial teórico/Estado da arte
A extensão universitária é historicamente compreendida como uma das três funções indissociáveis do ensino superior brasileiro, conforme estabelecido pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988). No entanto, o modo como ela se concretiza, suas finalidades, seus vínculos com o território e sua articulação com o ensino e a pesquisa são aspectos que vêm sendo tensionados ao longo do tempo. A própria ideia de extensão tem sido objeto de disputas teóricas e políticas, o que revela seu caráter dinâmico, contextual e em permanente construção (SILVA, 2020; CRISTOFOLETTI, SERAFIM, 2020).
Paulo Freire (1975) aponta que a extensão não pode ser compreendida como mero repasse de saberes acadêmicos, mas sim como um processo dialógico e horizontal, fundado na escuta ativa e na coautoria do conhecimento. Nesse sentido, Freire critica a ideia de “extensão bancária” e propõe a superação da lógica verticalizada, defendendo que o verdadeiro conhecimento se constrói na interação crítica entre sujeitos.
De forma complementar, Boaventura de Sousa Santos (2008) propõe a noção de ecologia de saberes, segundo a qual a universidade deve reconhecer a legitimidade dos saberes populares e locais, promovendo trocas de saberes que enriqueçam tanto o campo acadêmico quanto a prática social.
Esse entendimento da extensão é incorporado pela Política Nacional de Extensão Universitária (FORPROEX, 2012) e pela Resolução nº 7/2018, que regulamenta a Meta 12.7 do Plano Nacional de Educação. Essa resolução determina que, no mínimo, 10% da carga horária dos cursos de graduação seja dedicada a atividades de extensão, articuladas com o ensino e a pesquisa, e orientadas à transformação social. O texto normativo reforça a extensão como prática educativa, interdisciplinar e politicamente comprometida, demandando das instituições a construção de estratégias curriculares efetivas.
Silva (2020), afirma que a extensão universitária é um conceito em constante reformulação, moldado pelas demandas sociais e pelas disputas em torno do papel da universidade pública. O autor defende que a extensão deve ser compreendida como uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que permite à universidade devolver à sociedade os conhecimentos produzidos, também lhe confere a oportunidade de revisar seus métodos, conteúdos e formas de atuação. Assim, a extensão passa a ser um instrumento de democratização do saber e de reinvenção institucional.
A prática extensionista também vem sendo analisada a partir de relatos de experiência com forte inserção territorial, como o programa NEPIA da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). No trabalho de Costa et al. (2021), observa-se como a extensão pode atuar como instrumento de assessoria e defesa de direitos humanos, promovendo a articulação entre ensino, pesquisa e políticas públicas. O estudo reforça o papel da extensão como espaço de resistência e transformação, especialmente em contextos marcados por violações de direitos e desigualdades sociais.
Nesse conjunto de referenciais, torna-se possível compreender a extensão não como função secundária, mas como eixo estruturante da formação cidadã e da responsabilidade social institucional. O programa “Saúde e Bem-Estar: A UENP na Comunidade”, ao articular diferentes subprojetos temáticos com base em demandas concretas dos territórios onde se insere, se alinha a essa concepção crítica e processual de extensão, na qual a produção de conhecimento está intimamente ligada ao enfrentamento de problemas sociais e à formação para a prática transformadora.
3. METODOLOGIA
O Programa de Extensão “UENP na Comunidade” foi criado em 2023 com o objetivo de integrar ações de educação em saúde ao ensino de graduação, em consonância com a Resolução nº 7/2018 do Ministério da Educação e com a Resolução nº 003/2022 – CEPE/UENP, que dispõe sobre a curricularização da extensão.
Este trabalho descreve o funcionamento do programa no período de setembro de 2024 a agosto de 2025, quando recebeu financiamento da Itaipu Parquetec.
As ações desenvolvidas estão organizadas em cinco subprojetos temáticos: Saúde Ambiental e Controle de Vetores; Educação em Saúde: Parasitoses Intestinais em Humanos e Animais; Medicação e Saúde; Jovens Socorristas; Além dos Tabus Sexuais.
Equipe
A equipe executora foi composta por quatro estudantes bolsistas e três voluntários do curso de Enfermagem da UENP. A distribuição das atividades ocorreu de forma colaborativa, considerando a demanda e o perfil de cada subprojeto. O acompanhamento geral é realizado pela coordenadora do programa, enquanto docentes orientadores, com expertise nas respectivas áreas, atuam em cada subprojeto, oferecendo suporte técnico e científico.
Planejamento das ações
O planejamento ocorreu mensalmente, por meio da elaboração de um cronograma que definia: tema a ser abordado; participantes; local de execução; materiais e recursos necessários; estratégias pedagógicas a serem utilizadas.
Público participante e locais de atuação
As ações foram direcionadas a diferentes segmentos sociais, incluindo crianças de Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), estudantes do ensino fundamental e médio e profissionais da saúde. As atividades foram realizadas em CMEIs, escolas e Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
As ações desenvolvidas nas instituições de ensino foram previamente autorizadas pela gestão da unidade escolar e executadas sob supervisão da coordenação responsável pelo ambiente, garantindo tanto a participação segura dos alunos quanto a regularidade do registro fotográfico para fins de divulgação.
Estratégias e recursos utilizados
Foram adotadas metodologias ativas e recursos educativos variados, como palestras, apresentações teatrais e eventos temáticos. No subprojeto Saúde Ambiental e Controle de Vetores, utilizou-se maquete demonstrativa para identificação de potenciais criadouros de mosquitos vetores e escorpiões, bem como material impresso (panfletos) para reforço das mensagens.
Registro e comunicação
As atividades foram documentadas por registro fotográfico. Além das ações presenciais, foi utilizada uma plataforma digital (Instagram – @uenpnacomunidade) como ferramenta complementar de divulgação e educação em saúde. O conteúdo postado foi planejado conforme os temas dos subprojetos e elaborado em linguagem acessível, visando ampliar o alcance das orientações oferecidas.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Entre setembro de 2024 e agosto de 2025, período de financiamento pela Itaipu Parquetec, o Programa “UENP na Comunidade” desenvolveu ações presenciais e digitais que impactaram diferentes públicos e contextos.
Alcance digital
O perfil do Programa no Instagram, @uenpnacomunidade, passou de 302 para 532 seguidores nos últimos três meses, representando um aumento de 75%. Nesse período, foram registradas 35.846 visualizações, com maior engajamento nas publicações sobre educação sexual e primeiros socorros. A postagem de maior alcance obteve 3.000 visualizações.
O público digital é majoritariamente feminino (73,8%), com predominância de pessoas jovens (40,2% entre 18 e 24 anos e 29,5% entre 25 e 34 anos). Em relação à localização, destaca-se Bandeirantes-PR, que concentra 55,7% dos seguidores.
No total acumulado do período analisado, o perfil conta com 535 seguidores, sete destaques, 94 publicações e 88.600 visualizações.
Ações presenciais
Foram realizadas 20 ações educativas em escolas e CMEIs, com palestras e apresentações teatrais, atingindo 405 estudantes. As atividades foram complementadas por panfletos explicativos, cartazes ilustrativos, maquetes, atividades lúdicas e orientações práticas, adequadas ao perfil do público.
Nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), o público foi majoritariamente idoso, recebendo orientações sobre saúde, prevenção de doenças e cuidados específicos.
Evento para a Comunidade
O Encontro da UENP com a Comunidade teve sua segunda edição no Ginásio de Esportes Chinelão, em Bandeirantes-PR, reunindo mais de 1.000 participantes entre estudantes e comunidade em geral.
As ações incluíram aferição de pressão arterial, testes de glicemia capilar, distribuição de preservativos, kits de higiene bucal e materiais informativos sobre prevenção de doenças crônicas e cuidados gerais de saúde. Também foram entregues cartilhas e folders educativos sobre saúde ambiental, uso seguro de medicamentos, práticas de saúde sexual e prevenção de parasitoses intestinais.
Atividades lúdicas e educativas foram direcionadas especialmente para crianças e idosos, facilitando a compreensão e estimulando a participação.
Participação em eventos científicos
O programa esteve presente ainda em eventos acadêmicos e institucionais, com a apresentação de trabalhos na Semana Integrada de Enfermagem da UEL, “Mudanças Climáticas e COP30” promovido pela Itaipu Parquetec, no XVIII Congresso Latino-americano de Medicina Social e Saúde Coletiva e no V Congresso Nacional de Enfermagem da UENP.
A experiência do programa “UENP na Comunidade” dialoga com a compreensão contemporânea de extensão universitária apresentada por Silva (2020) e Cristofoletti e Serafim (2020), que a reconhecem como dimensão indissociável do ensino e da pesquisa, com potencial estratégico para efetivar o compromisso social das universidades públicas. Esses autores destacam a superação do paradigma assistencialista, predominante nas fases iniciais da extensão no Brasil, em favor de uma prática dialógica e transformadora, capaz de promover a construção compartilhada do conhecimento.
Cristofoletti e Serafim (2020) apontam que a extensão, quando articulada a um planejamento consistente e ao envolvimento de múltiplos atores, pode ampliar o acesso à informação, fomentar competências técnicas e éticas nos estudantes e gerar impacto social positivo.
A participação nas atividades extensionistas, contribuiu para o desenvolvimento acadêmico e pessoal dos bolsistas e voluntários. A vivência em diferentes contextos — como escolas, unidades de saúde e eventos comunitários — possibilitou o aprimoramento de competências técnicas, a ampliação da capacidade de comunicação e a experiência na mediação de conteúdos científicos de forma acessível a públicos diversos. Além disso, a atuação colaborativa no planejamento e execução das ações favoreceu o trabalho em equipe, o senso de responsabilidade e a autonomia na condução das atividades, fortalecendo o compromisso social e o vínculo dos estudantes com a comunidade.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Projeto de Extensão “UENP na Comunidade” demonstra efetividade ao integrar ações educativas, preventivas e de promoção da saúde, articuladas de forma coerente com seus objetivos e com as demandas do território em que atua. Suas atividades favorecem a aproximação entre universidade e sociedade, estimulando interações sociais, a difusão de informações em saúde e o fortalecimento do cuidado humanizado, sempre orientado por princípios de equidade e compromisso social.
A atuação dos subprojetos ressalta a capacidade da extensão universitária para promover educação em saúde, incentivar práticas de autocuidado e contribuir para o desenvolvimento social e científico. Além disso, a participação de bolsistas e voluntários possibilita oportunidades de aprendizado, que ampliam competências técnicas e fortalecem a formação cidadã e o vínculo com a comunidade.
O uso das mídias sociais, como ferramenta complementar às ações presenciais, potencializa o alcance do projeto, garantindo a disseminação de informações de maneira acessível, dinâmica e alinhada aos hábitos de consumo de conteúdo da população. Os resultados obtidos, expressos no engajamento comunitário e na formação dos discentes, reafirmam a importância e a necessidade de iniciativas extensionistas estruturadas e contínuas, que consolidam uma universidade inclusiva, participativa e socialmente responsável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1Discentes do Curso Superior de Enfermagem da Universidade Estadual do Norte do Paraná do Campus Luiz Meneghel e-mail: brunnoparaujo29@gmail.com, mpmc2112@gmail.com, milenatisque34@gmail.com, naara.moreira@discente.uenp.edu.br, thaissa.sartorio@discente.uenp.edu.br
2Docentes do Curso Superior Enfermagem da Universidade Estadual do Norte do Paraná do Campus Luiz Meneghel e-mail: cristianotashima@uenp.edu.br, lizaogawa@gmail.com, natyguerra@uenp.edu.br, thaise.castanho@uenp.edu.br, sccastanho@gmail.com.
