REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202503222045
Tiago Cardoso da Silva¹,
Joelson Rodrigues Farias²,
Irene Crislene da Fonseca Lobo³,
Esleane Vilela Vasconcelos⁴,
Cláudia Ribeiro Menezes⁵
Introdução
A criptococose é uma patologia de característica sistêmica com etiologia por um fungo do gênero Cryptococcus. A doença é oportunista e tem como porta de entrada as vias aéreas superiores, acometendo principalmente o pulmão e o sistema nervoso central Em pacientes imunocompetentes, a meningoencefalite é a principal patologia, cuja etiologia está relacionado pelo C. gattii. Em pacientes com o sistema imune debilitado, como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), a variante C. neoformans de natureza oportunista, é a principal causa de meningoencefalite, o que pode levar à morte. Como em outras micoses endêmicas, a criptococose em indivíduos com o sistema imunológico deprimido pode ser bastante grave, demandando longos períodos de tratamento. O diagnóstico é clínico e laboratorial com a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR), onde identifica os criptococos. Nesse sentido, o enfermeiro por meio da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), apresenta um papel essencial no tratamento e cuidado ao paciente com Criptococose, uma vez que ao realizar a coleta de dados, o profissional enfermeiro poderá identificar os diagnósticos de enfermagem e a partir deles, traçar as intervenções necessárias para a melhora do quadro clínico do paciente. Dessa forma, ao operacionalizar a SAEo enfermeiro realiza os serviços de enfermagem complexos e importantes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), assegurando uma assistência integral ao paciente crítico, padronizando os serviços e cuidados de enfermagem ao passo que atende as necessidades dos usuários.
Objetivo: relatar a experiência vivenciada em uma UTI por acadêmicos de enfermagem da Universidade Federal do Pará, a partir da utilização da SAE.
Descrição da experiência: Este estudo descritivo, do tipo relato de experiência, foi realizado durante as práticas do componente curricular Enfermagem em Cuidados Intensivos da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Pará. A experiência ocorreu em um hospital universitário de referência em doenças infectocontagiosas e parasitárias na região Norte, no mês de setembro de 2023.
Os diagnósticos de enfermagem foram definidos com base na Taxonomia da NANDA-I (International Nursing Diagnoses), e as intervenções foram orientadas pela Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC). Durante a assistência prestada, observou-se a importância do domínio técnico e teórico da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), dada a complexidade dos cuidados exigidos pelo paciente crítico no ambiente de terapia intensiva.
O caso envolveu um paciente com neurocriptococose, considerado raro na unidade e com prognóstico reservado. Inicialmente, a sintomatologia não era conclusiva para infecção fúngica, mas, com a piora do quadro psicomotor e a progressão do rebaixamento do nível de consciência, foi realizada a coleta do líquido cefalorraquidiano (LCR), confirmando o diagnóstico. Com isso, foi possível iniciar o tratamento adequado.
O paciente permaneceu em baixo nível de consciência, necessitando de sedação, analgesia e antifúngicos para controle da agitação psicomotora, alívio da dor e combate à infecção. No decorrer da internação, desenvolveu insuficiência respiratória, possivelmente relacionada à porta de entrada pulmonar da infecção, exigindo intubação e posterior traqueostomia.
Diante do quadro, a equipe de enfermagem desempenhou um papel essencial na implementação da SAE, assegurando prevenção de riscos, promoção do conforto e otimização do tratamento, visando a melhoria do estado clínico do paciente.
Resultados:
Paciente admitido na UTI em 01/09/2023 após relato de cefaléia persistente desde o início de agosto, com múltiplas idas a unidades de pronto atendimento (UPA) no interior do Estado. Na última consulta, além da cefaleia, apresentou agitação psicomotora e diminuição da acuidade visual, sendo referenciado a um hospital psiquiátrico na capital. Durante a internação, realizou-se coleta do líquido cefalorraquidiano (LCR), confirmando a presença de fungos de criptococose. O paciente foi então encaminhado para um hospital de referência para tratamento específico. Encontrava-se sedado, intubado e em ventilação mecânica, com saturação de oxigênio (SatO₂) adequada, sem necessidade de drogas vasoativas. Mantinha diurese por cateter vesical de demora e iniciou antibioticoterapia com anfotericina B lipossomal e flucitosina.
Em 06/09/2023, permanecia em ventilação mecânica PSV (Pressure Support Ventilation), com parâmetros de FiO₂ 21%, FR 17 rpm e PEEP 6 cmH₂O. Apresentava episódios de agitação e tosse produtiva. Exame físico evidenciava pupilas isofotorreagentes, lesões granuladas e sangramento em lábios superior e inferior. Monitorizado em multiparâmetro, apresentava FC 139 bpm, SpO₂ 99%, FR 19 rpm, T 37,3°C e PA 141×96 mmHg, recebendo precedex (10 ml/h) e morfina (4 ml/h) por cateter venoso central em veia jugular direita. À ausculta pulmonar, murmúrios vesiculares com ruídos adventícios. Tórax simétrico e expansivo. Abdome plano e flácido, com ruídos hidroaéreos presentes. Mantinha sonda vesical de demora com diurese regular, bolsa coletora abaixo do nível da bexiga e esvaziamento adequado. Ausência de evacuação no plantão. Extremidades apresentavam edema em membros superiores e equimose em membro superior direito. Pele íntegra, sem lesões por pressão, com placa de proteção em região sacral e trocanter. Foram realizados cuidados de enfermagem, incluindo higiene corporal e oral com clorexidina 0,12%, hidratação da pele, massagem de conforto e elevação da cabeceira com rodas travadas. Seguiu em monitorização multiparamétrica contínua.
Em 13/09/2023, evoluiu para um quadro consciente, responsivo e colaborativo, traqueostomizado em ar ambiente, apresentando tosse produtiva e secretiva, além de relato de dor na região dorsal. Permaneceu monitorizado, com sinais vitais estáveis: FC: 136 bpm (normocárdico), SpO₂: 97%, FR: 18 rpm (eupneico), T: 36,6°C (afebril), PA: 133×96 mmHg (normotenso). O cateter venoso central em veia jugular esquerda apresentava inserção hiperemiada, sendo realizada antissepsia com clorexidina alcoólica e cobertura com gaze e filme transparente. Precedex e morfina foram suspensos por ordem médica. Exame físico evidenciava tórax simétrico, murmúrios vesiculares presentes com ruídos adventícios bilaterais e batimentos normofonéticos em dois tempos. Abdome normotenso, com ruídos hidroaéreos presentes. Mantinha sonda nasoenteral fixada, recebendo dieta enteral a 42 ml/h. Sem edemas e com boa perfusão em membros superiores e inferiores. Diurese espontânea em fraldas e evacuação ausente. Pele íntegra, sem lesões por pressão.
Realizou-se a Sistematização da Assistência de Enfermagem com os seguintes diagnósticos e condutas, respectivamente:
1. Ventilação Espontânea Prejudicada relacionada à intubação orotraqueal, fadiga dos músculos respiratórios e infecção fúngica no sistema nervoso central, evidenciada pelo uso de ventilação mecânica, traqueostomia e tosse produtiva.
Intervenções: Monitorização respiratória (3350) – Avaliar padrões respiratórios e saturação de oxigênio; Aspiração de vias aéreas (3160) – Remover secreções traqueobrônquicas para evitar complicações pulmonares; Cuidados com a ventilação mecânica (3300) – Ajustar parâmetros ventilatórios conforme necessidade, Posicionamento no leito (0840) – Manter cabeceira elevada entre 30° e 45° para facilitar a expansão pulmonar.
2. Mobilidade Física Prejudicada relacionada à sedação, imobilidade prolongada e estado crítico, evidenciada pela dependência para mudanças de decúbito e risco de lesão por pressão.
Intervenções: Mudança de decúbito (0840) – Reposicionar o paciente a cada duas horas; Prevenção de úlcera por pressão (3540) – Avaliar integridade da pele e utilizar superfícies de alívio de pressão; Exercícios passivos (0200) – Mobilizar membros superiores e inferiores para evitar contraturas; Cuidados com o paciente acamado (0740) – Realizar higiene corporal e manter ambiente confortável.
3. Risco de Integridade da Pele Prejudicada relacionado ao uso prolongado de cateter central, sonda vesical e presença de edema em membros superiores.
Intervenções: Cuidado com a pele (3584) – Inspecionar diariamente e manter a pele hidratada; Manejo de úlceras por pressão (3530) – Utilizar superfícies de redistribuição de pressão e proteger áreas vulneráveis; Higiene oral (1710) – Utilizar clorexidina 0,12% para prevenção de infecções; Monitorização da pele (3590) – Observar sinais de irritação e lesões precoces.
4. Risco de Infecção relacionado ao uso de dispositivos invasivos, infecção fúngica sistêmica e imunossupressão.
Intervenções: Controle de infecção (6540) – Manter técnica asséptica na manipulação de dispositivos; Cuidados com dispositivos invasivos (2440) – Realizar antissepsia do cateter central com clorexidina alcoólica; Administração de medicamentos (2300) – Garantir administração correta de antifúngicos e antibióticos; Monitorização de sinais de infecção (6650) – Avaliar temperatura e presença de secreções anormais.
5. Confusão Aguda relacionada à infecção no sistema nervoso central e uso de sedativos, evidenciada pela agitação psicomotora, alteração na acuidade visual e rebaixamento do nível de consciência.
Intervenções: Monitorização neurológica (2620) – Avaliar nível de consciência regularmente utilizando a escala de RASS; Manejo da confusão (6450) – Manter um ambiente calmo e seguro para o paciente; Controle da dor (1400) – Administrar analgesia conforme prescrição e avaliar resposta ao tratamento; Cuidados com a segurança do paciente (6490) – Minimizar estímulos excessivos e utilizar contenções se necessário.
Considerações Finais:
A experiência vivenciada pelo grupo possibilitou a aplicação prática da SAE na UTI, evidenciando sua importância na assistência ao paciente crítico. A correta implementação dessa ferramenta, essencial no processo de enfermagem, garante um atendimento adequado às necessidades do paciente e padroniza os cuidados prestados.
Além disso, compreender a fisiopatologia da criptococose, seus sinais e sintomas, é fundamental para uma abordagem eficaz. Isso permite coletar dados com precisão, estabelecer diagnósticos, elaborar um planejamento adequado e implementar intervenções assertivas, sempre reavaliando a conduta para otimizar os resultados da assistência.
Referências
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