A RELAÇÃO ENTRE A INFECÇÃO POR DENGUE E O DESENVOLVIMENTO DE TRANSTORNOS DEPRESSIVOS

THE RELATIONSHIP BETWEEN DENGUE INFECTION AND THE DEVELOPMENT OF DEPRESSIVE DISORDERS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511231016


Morgana Sousa da Cunha¹; Leonardo Pinho Amaral; Naiury Fontenele Silva; Pedro Henrique Gomes de Azevedo; Maria Vitória Pereira de Sousa; Thaís Rodrigues Melos; Ana Carolina Machado Leódido²; Francisco Elezier Xavier Magalhães³; Manoel Dias de Souza Filho⁴; Valécia Natália Carvalho da Silva⁵.


Resumo

Introdução: A dengue é uma arbovirose viral de grande relevância para a saúde pública, especialmente em países tropicais como o Brasil. Além dos impactos físicos, a infecção pode desencadear sofrimento emocional e psicológico, destacando-se os sintomas depressivos. Estudos recentes sugerem que doenças infecciosas, como a dengue, podem afetar o sistema nervoso central e contribuir para o desenvolvimento de transtornos mentais. Objetivo: Investigar, por meio de uma revisão sistemática, a relação entre a infecção por dengue e o desenvolvimento de transtornos depressivos, considerando fatores biológicos, sociais e psicossociais. Métodos: A pesquisa seguiu as diretrizes PRISMA e foi realizada nas bases PubMed, ScienceDirect, SciELO e LILACS, incluindo artigos publicados entre 2010 e 2025. Foram selecionados estudos de acesso aberto, envolvendo seres humanos e que abordassem a relação entre dengue e saúde mental. Os dados foram organizados em tabelas e avaliados quanto à qualidade metodológica. Resultados: Dos 11.037 artigos inicialmente identificados, apenas 10 atenderam aos critérios de inclusão. Os estudos revelaram uma correlação significativa entre a infecção por dengue e o aumento do risco de depressão, ansiedade e distúrbios do sono. Fatores como vulnerabilidade social, comorbidades, alterações inflamatórias e estresse psicossocial foram identificados como moduladores do sofrimento psíquico. Conclusão: A dengue pode desencadear impactos relevantes na saúde mental, especialmente nos primeiros meses após a infecção. Os achados reforçam a importância de abordagens interdisciplinares e de políticas públicas integradas que considerem os aspectos clínicos, emocionais e sociais da doença.

Palavras-chave: Dengue, Transtorno Depressivo, Saúde Mental.

1 INTRODUÇÃO

A dengue, arbovirose viral causada por quatro sorotipos do vírus (DEN-1 a DEN-4), é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um desafio global de saúde pública, especialmente em regiões tropicais e subtropicais (HASAN et al., 2016). No Brasil, a doença é monitorada pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), que permite identificar padrões epidemiológicos e orientar ações de controle e prevenção (BRASIL, 2023).

Além dos impactos físicos, é essencial considerar os efeitos emocionais e psicológicos da dengue, especialmente em casos graves. A depressão, por exemplo, pode surgir como resposta ao estresse causado por hospitalizações, dor intensa, risco de morte e isolamento social. Como síndrome, ela envolve alterações de humor, cognição, comportamento e funções vegetativas, podendo ser agravada por fatores sociais e econômicos adversos (DEL PORTO, 1999).

O SINAN, ao organizar dados sobre casos prováveis, confirmados e óbitos, pode auxiliar na análise de consequências secundárias da dengue, como transtornos neuropsiquiátricos. O Guia de Vigilância em Saúde destaca que doenças infecciosas afetam múltiplos sistemas e que a vigilância deve considerar fatores biológicos, ambientais e sociais (BRASIL, 2023). Isso abre espaço para estudos sobre a relação entre dengue e sintomas depressivos em grupos vulneráveis.

O Ministério da Saúde reforça que o enfrentamento da dengue deve ir além do controle do vetor, incluindo ações integradas com atenção à dimensão psicossocial e consideração dos determinantes sociais da saúde (BRASIL, 2023). Os surtos recentes, impulsionados por urbanização irregular, mudanças climáticas e falhas no controle do Aedes aegypti, aumentam o risco de formas graves da doença, como a dengue hemorrágica (BRASIL, 2024).

Pacientes hospitalizados ou com quadros graves podem vivenciar sofrimento emocional intenso, medo e ansiedade, favorecendo o desenvolvimento de depressão. As epidemias também geram impactos sociais e econômicos, como afastamentos do trabalho, custos com tratamento e sobrecarga dos serviços de saúde, exigindo respostas intersetoriais (SOUZA, 2008).

Apesar da vasta produção científica sobre os aspectos clínicos da dengue, há escassez de estudos sobre seus efeitos psicossociais. Este trabalho propõe uma revisão sistemática para investigar a influência da infecção pelo vírus da dengue no desenvolvimento de transtornos depressivos, considerando fatores agravantes, frequência dos sintomas, tempo de manifestação e consequências para a saúde mental (VALLE; PIMENTA; CUNHA, 2016).

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A relação entre doenças infecciosas e transtornos mentais é amplamente discutida na literatura científica, particularmente no contexto de arbovírus como a dengue. Segundo Del Porto (1999), a depressão é uma síndrome multifatorial que engloba alterações de humor, função cognitiva, comportamento e função autonômica, podendo ser desencadeada ou exacerbada por eventos estressantes como doenças graves e hospitalizações.

2.1 A DENGUE COMO PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA

A dengue é um arbovírus viral causado por quatro sorotipos virais (DEN-1 a DEN-4), transmitidos principalmente pelo mosquito Aedes aegypti. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera-a um importante desafio global de saúde pública, especialmente em países tropicais e subtropicais (HASAN et al., 2016). No Brasil, o Sistema de Informações sobre Agravos de Notificação (SINAN) permite o monitoramento da doença e a identificação de padrões epidemiológicos (BRASIL, 2023).

2.2 EFEITOS PSICOSSOCIAIS DA DENGUE

Além dos sintomas físicos, a dengue pode causar sofrimento emocional e psicológico. Estudos indicam que pacientes afetados por essa doença, especialmente em casos graves, podem apresentar sintomas de ansiedade, depressão e distúrbios do sono (SHIH et al., 2024). Fatores como isolamento social, dor intensa, risco de morte e hospitalização contribuem para essa situação.

Van Krugten et al. (2017) identificaram indicadores de risco para depressão, como comorbidades, traumas na infância e vulnerabilidade socioeconômica — fatores comuns em populações afetadas por epidemias de dengue. Hossain et al. (2014) enfatizam que, em países de baixa renda, o acesso limitado a serviços de saúde mental agrava o sofrimento psicológico.

2.3 MECANISMOS BIOLÓGICOS ENVOLVIDOS

De uma perspectiva fisiopatológica, infecções virais como a dengue podem ativar mediadores inflamatórios — citocinas, quimiocinas e prostaglandinas — que afetam o sistema nervoso central, contribuindo para alterações neuropsiquiátricas (WILAIRATANA et al., 2023). Song et al. (2023) também enfatizam o papel da disfunção mitocondrial, do estresse oxidativo e da neuroinflamação como fatores-chave na fisiopatologia da depressão.

2.4 DETERMINANTES SOCIAIS E CLIMÁTICOS

A literatura também indica que a incidência de dengue está associada a fatores climáticos e sociais. Sousa et al. (2018) demonstraram que a temperatura, a umidade e a precipitação influenciam diretamente a disseminação do vírus. Santos et al. (2023) enfatizam que a vulnerabilidade social exacerba os efeitos da doença, tanto físicos quanto psicológicos.

3 METODOLOGIA

Este estudo é uma revisão sistemática da literatura que investiga a relação entre a infecção por dengue e o desenvolvimento de transtornos depressivos, seguindo as diretrizes do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que garantem rigor na identificação, seleção e análise dos estudos.

A busca foi realizada nas bases PubMed, ScienceDirect, SciELO e LILACS, considerando publicações entre 2010 e 2025, com acesso aberto e envolvendo seres humanos. Utilizaram-se os termos ―Dengue‖, ―Transtorno Depressivo‖, ―Depressive Disorder‖, ―Saúde

Mental‖ e ―Mental Health‖, combinados em pares e trios, com adaptações dos vocabulários MeSH e DeCS para maior precisão.

Foram incluídos estudos experimentais, observacionais, revisões sistemáticas e metanálises, publicados em português ou inglês, com foco em pacientes com dengue e análise dos impactos na saúde mental, especialmente transtornos depressivos. Os estudos também precisavam estar indexados na base MEDLINE.

Excluíram-se dissertações, teses, resenhas de livros, anais de eventos, editoriais, artigos duplicados, publicações sem relação direta com o tema, opiniões, estudos de intervenção e relatos de casos.

A seleção seguiu o protocolo PRISMA: remoção de duplicatas, triagem por título e resumo, e leitura integral dos textos elegíveis, com aplicação rigorosa dos critérios de inclusão e exclusão.

A triagem e seleção dos estudos foram realizadas de forma independente. Os dados extraídos foram organizados em uma tabela contendo: base de dados, título, ano de publicação, tipo de estudo, metodologia utilizada e referência completa.

A avaliação da qualidade metodológica foi feita por meio de leitura crítica em pares, considerando critérios como risco de viés, consistência dos resultados, aplicabilidade dos achados e clareza metodológica. Essa análise contribuiu para reforçar a confiabilidade dos resultados e orientar a discussão sobre a validade das evidências encontradas.

Figura 1. Fluxograma de identificação, triagem, elegibilidade e análise dos estudos incluídos nesta revisão sistemática.

Fonte: Autoria própria – Dados da pesquisa, (2025)

A busca inicial identificou 11.037 artigos. Após aplicar o filtro de 15 anos e remover

duplicatas, 6.263 estudos seguiram para a triagem. A seleção foi feita com base na leitura de títulos e resumos, e, quando necessário, dos textos completos, conforme os critérios de inclusão definidos.Foram selecionados 11 artigos para leitura integral, dos quais 10 atenderam aos critérios e foram incluídos na revisão. O processo de seleção seguiu o modelo PRISMA e está representado na Figura 1.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A busca inicial identificou 11.037 artigos. Após aplicar o filtro de 15 anos e remover duplicatas, 6.263 estudos seguiram para triagem. A seleção foi feita com base na leitura de títulos e resumos, complementada pela análise dos textos completos quando necessário, visando verificar a adequação aos objetivos da pesquisa.

Ao final, 10 estudos foram considerados elegíveis e incluídos na análise. As informações estão organizadas no Quadro 1, com dados sobre autores, ano de publicação, população estudada, objetivos, metodologia e principais resultados.

Quadro 1. Características dos estudos incluídos.

AUTORES/ANOPOPULAÇÃOOBJETIVOSMETODOLOGIARESULTADOS
Shih et al. (2024).População geral de Taiwan com histórico de dengue. O estudo analisou dados de 45.334 pacientes diagnosticados com dengue e comparou com um grupo de 226.670 indivíduos sem a doença.Investigar a relação entre infecção por dengue e o risco de desenvolver transtornos de ansiedade, depressão e distúrbios do sono.Trata-se de um estudo de coorte baseado em dados populacionais. Os pesquisadores analisaram registros médicos para comparar a incidência de transtornos psicológicos em pacientes com dengue em relação a um grupo de controle sem a infecção.Foi identificada uma correlação significativa entre a infecção por dengue e o aumento do risco de transtornos psicológicos, indicando a importância do monitoramento da saúde mental desses pacientes. Dengue associada a maior risco de depressão, ansiedade e distúrbios do sono após infecção.
Santos et al. (2023)Casos registrados de dengue, Zika e chikungunya na América Latina.Comparar morbidade entre arboviroses e identificar fatores de risco.Revisão epidemiológica com dados secundários.Dengue apresentou maior morbidade; comorbidades e vulnerabilidade social agravaram os casos.
Sousa et al. (2018)Dados ecológicos de regiões brasileiras.Analisar influência de variáveis climáticas na incidência de dengue.Estudo ecológico com análise estatística georreferenciada.Temperatura, umidade e precipitação influenciam diretamente a incidência de dengue.
Van Krugten et al. (2017).Especialistas em saúde mental.Identificar indicadores para necessidade de cuidados especializados em depressão.Estudo Delphi com painel de especialistas.48 indicadores identificados, incluindo comorbidades, trauma infantil e vulnerabilidade socioeconômica.
Hossain et al. (2014).População adulta de Bangladesh.Revisar prevalência e acesso ao cuidado em saúde mental em país de baixa renda.Revisão integrativa de estudos epidemiológicos.Prevalência de transtornos mentais entre 6,5% e 31%; acesso limitado por pobreza, estigma e falta de serviços.
Wang et al. (2017).41.000 pacientes ambulatoriais em diversos países.Estimar prevalência de sintomas depressivos em ambientes clínicos.Meta-análise de estudos observacionais.Prevalência média de 27%; maior em países em desenvolvimento.
Silva et al. (2018).Pessoas com hipertensão arterial.Verificar relação entre estresse, ansiedade e hipertensão.Revisão integrativa de literatura.Estresse e ansiedade modulam hipertensão; propõe cuidado integral entre saúde física e mental.
Wilairatana et al. (2023).Estudos sobre infecções virais e inflamação.Revisar papel de mediadores inflamatórios na resposta neuropsiquiátrica.Revisão narrativa de literatura biomédica.Citocinas, quimiocinas e prostaglandinas afetam SNC e podem contribuir para sintomas depressivos.
Miao et al. (2023).Estudos sobre depressão e mitocôndrias.Explorar papel da disfunção mitocondrial na fisiopatologia da depressão.Revisão sistemática de estudos moleculares.Estresse oxidativo, falhas na mitofagia e neuroinflamação contribuem para depressão.
Wang et al. (2020).Estudos observacionais sobre COVID-19.Sintetizar fatores associados à ansiedade e depressão na fase inicial da pandemia.Revisão sistemática de 20 estudos (19 transversais).Divórcio, doenças crônicas, exposição à mídia e sintomas físicos aumentaram sofrimento psíquico; medidas preventivas e boa informação foram fatores protetores.

Fonte: Autoria Própria.

A revisão sistemática identificou uma correlação entre a infecção por dengue e o aumento do risco de transtornos depressivos, especialmente nos primeiros meses após a doença. Apesar do número limitado de estudos, os achados sugerem impactos significativos na saúde mental, organizados em três eixos temáticos:

1. IMPACTO DA DENGUE NA SAÚDE MENTAL

Estudo realizado em Taiwan demonstrou que indivíduos infectados apresentaram maior risco de desenvolver depressão, ansiedade e distúrbios do sono após a fase aguda da dengue (SHIH et al., 2024), indicando sofrimento psíquico persistente.

2. FATORES MODULADORES DO SOFRIMENTO PSÍQUICO

Wang et al. (2017) apontaram prevalência média de sintomas depressivos de 27% em pacientes ambulatoriais, com taxas mais altas em países em desenvolvimento (WANG et al., 2017). Hossain et al. (2014) destacaram barreiras ao cuidado em saúde mental em contextos de baixa renda, como pobreza, estigma e falta de serviços especializados (HOSSAIN et al., 2014).

Santos et al. (2023) reforçaram a associação entre dengue e vulnerabilidade social, evidenciando que fatores climáticos como temperatura e umidade influenciam a incidência da doença (SANTOS et al., 2023). Sousa et al. (2018) também destacaram a sensibilidade da dengue às variáveis ambientais, reforçando sua relação com desigualdades sociais (SOUSA et al., 2018).

Van Krugten et al. (2017) identificaram 48 indicadores relacionados à necessidade de cuidados especializados em depressão, como comorbidades, trauma infantil, prejuízo psicossocial e vulnerabilidade socioeconômica, fatores também presentes em casos graves de dengue (VAN KRUGTEN et al., 2017). Bezerra et al. (2021) mostraram que estresse, ansiedade e depressão influenciam doenças físicas como hipertensão, defendendo uma abordagem integral entre corpo e mente (BEZERRA et al., 2021).

3. MECANISMOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS ENVOLVIDOS

Soares et al. (2023) exploraram os mecanismos inflamatórios que ligam infecções virais à depressão, destacando o papel de citocinas, quimiocinas e prostaglandinas na alteração do sistema nervoso central (SOARES et al., 2023). Song et al. (2023) aprofundaram os efeitos da disfunção mitocondrial, estresse oxidativo e falhas na mitofagia como fatores centrais na fisiopatologia da depressão agravada por infecções virais (SONG et al., 2023). Lin & Lin (2020), em estudo sobre os impactos da COVID-19, identificaram fatores psicossociais como divórcio, doenças crônicas, histórico psiquiátrico e perda econômica como estressores para depressão e ansiedade, enquanto o acesso à informação confiável e medidas preventivas atuaram como fatores protetores (LIN; LIN, 2020).

A análise da revisão sistemática revelou uma associação significativa entre a infecção por dengue e o aumento do risco de transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade e distúrbios do sono, especialmente em indivíduos vulneráveis (SHIH et al., 2024). Embora poucos estudos tenham sido incluídos na revisão, essa limitação metodológica evidencia uma lacuna científica relevante, sem invalidar os achados.

Santos et al. (2023) destacam que a dengue apresenta a maior morbidade entre os arbovírus, com hospitalizações frequentes e complicações graves em populações vulneráveis (SANTOS et al., 2023). Estudos também apontam que a dengue é sensível ao clima, com incidência influenciada por variáveis ambientais que afetam a saúde mental (SOUSA et al., 2018). Indicadores como comorbidades, trauma infantil e vulnerabilidade socioeconômica estão associados à necessidade de cuidados especializados em depressão e podem estar presentes em pacientes com dengue grave (VAN KRUGTEN et al., 2017).

Hossain et al. (2014) mostram que, em países de baixa renda, a prevalência de transtornos mentais é elevada, dificultada por pobreza, estigma e ausência de serviços paralelos importantes para o contexto brasileiro (HOSSAIN et al., 2014). Wang et al. (2017) encontraram uma prevalência média de sintomas depressivos de 27% em pacientes ambulatoriais, com taxas mais altas em países em desenvolvimento, reforçando a necessidade de triagem precoce (WANG et al., 2017).

Bezerra et al. (2021) evidenciam que estresse, ansiedade e depressão atuam como moduladores da hipertensão arterial, defendendo uma abordagem integrativa entre mente e corpo (BEZERRA et al., 2021). Wilairatana et al. (2023) descrevem como mediadores inflamatórios ativados pela dengue como citocinas e prostaglandinas que afetam o sistema nervoso central, contribuindo para sintomas depressivos (SOARES et al., 2023). Miao et al. (2023) aprofundam essa relação ao destacar que a disfunção mitocondrial é um fator central na fisiopatologia da depressão, agravada por infecções virais (SONG et al., 2023).

Além disso, Lin & Lin (2020), em revisão sobre os impactos psicossociais da COVID-19, identificaram fatores como perda econômica, isolamento social, exposição excessiva à mídia e sintomas físicos como estressores para ansiedade e depressão. Por outro lado, o acesso à informação confiável e medidas preventivas atuaram como fatores protetores (LIN; LIN, 2020). Esses achados são relevantes para o contexto da dengue, onde o medo da infecção, a desinformação e a precariedade dos serviços de saúde podem intensificar o sofrimento emocional.

Com base nos resultados, propõe-se o desenvolvimento de um protocolo de triagem psicossocial para pacientes com dengue, especialmente em atenção primária em regiões endêmicas. Esse protocolo seria aplicado entre 30 e 90 dias após o diagnóstico, período crítico para o surgimento de sintomas depressivos. A triagem incluiria instrumentos validados, como o PHQ-9, além de questões sobre sono, ansiedade, histórico emocional e suporte social. Profissionais de saúde seriam capacitados para aplicar o protocolo de forma breve e sensível, durante atendimentos ou visitas domiciliares. Pacientes com pontuação elevada seriam encaminhados para atendimento psicológico ou psiquiátrico, com prioridade na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Fatores bioquímicos, climáticos e sociais — como os descritos por Wilairatana (SOARES et al., 2023), Sousa et al. (2018), Santos et al. (2023), Hossain et al. (2014), Wang et al. (2017), Miao et al. (SONG et al., 2023)¹⁷, Silva et al. (BEZERRA et al., 2021) e Wang et al. (LIN; LIN, 2020) devem ser considerados na formulação de políticas públicas. A dengue, como doença sensível à inflamação, ao clima e à vulnerabilidade social, exige ações integradas entre saúde, meio ambiente e assistência social.

Os indicadores identificados por van Krugten et al. (2017) podem servir como base para o desenvolvimento de ferramentas de triagem precoce em pacientes com dengue e sofrimento emocional, facilitando o encaminhamento para cuidados especializados e reduzindo o impacto funcional e social da depressão.

Por fim, os achados reforçam a importância de políticas públicas integradas que combinem vigilância epidemiológica, atenção psicossocial e educação em saúde. A inclusão de profissionais de saúde mental na atenção primária e o treinamento de agentes comunitários para identificar sinais de sofrimento psíquico podem ampliar esses esforços e minimizar o impacto da dengue na saúde mental da população.

No entanto, este estudo apresenta limitações importantes, especialmente relacionadas à escassez de materiais com robustez científica e à heterogeneidade metodológica entre os trabalhos analisados. A limitada quantidade de pesquisas específicas sobre a interface entre dengue e transtornos depressivos dificulta conclusões mais generalizáveis e impõe cautela na interpretação dos resultados. Esses desafios evidenciam a necessidade de ampliar a produção científica sobre o tema, com metodologias mais consistentes e amostras representativas..

5 CONCLUSÃO

Esta revisão sistemática identificou uma correlação relevante entre a infecção por dengue e o aumento do risco de transtornos depressivos, particularmente nos primeiros meses após o diagnóstico (SHIH et al., 2024). Os achados apontam que a experiência da doença, associada a fatores fisiológicos e psicossociais, pode desencadear manifestações emocionais significativas, reforçando a importância de considerar a saúde mental como parte do cuidado integral ao paciente. Embora o número reduzido de estudos incluídos represente uma limitação metodológica, os resultados convergem para a compreensão de que a dengue pode exercer impacto expressivo sobre o bem-estar psicológico.

Diante disso, recomenda-se que pesquisas futuras aprofundem essa relação em diferentes contextos culturais, socioeconômicos e epidemiológicos, ampliando a compreensão dos fatores que modulam essa associação. Estudos longitudinais, bem como investigações voltadas aos mecanismos biológicos envolvidos, poderão contribuir para esclarecer trajetórias clínicas e potenciais vias fisiopatológicas. Além disso, a integração entre ações de vigilância epidemiológica e estratégias de atenção psicossocial se apresenta como uma perspectiva promissora para fortalecer intervenções mais eficazes, preventivas e humanizadas, favorecendo um cuidado verdadeiramente integral.

REFERÊNCIAS

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¹Discente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba. E-mail:morgsousa37@gmail.com;
²Coordenadora e Responsável Técnica do Laboratório Escola de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba – UFDPar;
³Docente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar) e Docente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba;
⁴Doutor em Biotecnologia – RENORBIO (UFPI). E-mail:manoeldias@ufdpar.edu.br;
⁵Docente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba. Doutora em Biotecnologia – RENORBIO (UFDPar). E-mail:valeciacs@gmail.com.