A MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL E PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL EM USUÁRIOS DE UM CAPS AD III: RELATO DE EXPERIÊNCIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202503272156


Bruna Rodrigues dos Anjos1
Fernanda da Rosa2
Ítalo Jordão Santiago Santos3
Melissa Chaves Kern4


Resumo: Este relato de experiência tem como objetivo compartilhar os conhecimentos adquiridos e os desafios enfrentados na condução de um grupo terapêutico de música em um CAPS AD III, destacando seus impactos na reabilitação psicossocial dos participantes. A experiência foi conduzida a partir de uma abordagem qualitativa, com registro sistemático em notas de campo, e análise de conteúdo dos processos vivenciados. Observou-se que a música favoreceu a expressão emocional, a socialização e o fortalecimento de vínculos, contribuindo para a ampliação das trocas sociais e o exercício da cidadania, aspectos fundamentais da reabilitação psicossocial. No entanto, desafios como o manejo de desconfortos emocionais e conflitos emergiram ao longo do processo, exigindo estratégias de acolhimento e mediação. A experiência evidenciou a potência da música como recurso terapêutico e apontou caminhos para aprimorar sua aplicação em contextos de saúde mental. Espera-se que este relato contribua para a atuação de outros profissionais da área, fomentando reflexões sobre as possibilidades e limites dos grupos terapêuticos musicais.

Palavras-chave: Música; Saúde mental; Reabilitação psicossocial; Grupos terapêuticos; CAPS AD.

Abstract: This experience report aims to share the acquired knowledge and challenges faced in conducting a music therapy group at a CAPS AD III, highlighting its impacts on the psychosocial rehabilitation of participants. The experience was conducted using a qualitative approach, with systematic recording in field notes and content analysis of the processes experienced. It was observed that music facilitated emotional expression, socialization, and the strengthening of bonds, contributing to the expansion of social exchanges and the exercise of citizenship—fundamental aspects of psychosocial rehabilitation. However, challenges such as managing emotional distress and conflicts emerged throughout the process, requiring welcoming and mediation strategies. The experience demonstrated the power of music as a therapeutic resource and suggested ways to improve its application in mental health contexts. It is expected that this report will contribute to the work of other professionals in the field, fostering reflections on the possibilities and limitations of therapeutic music groups.

Keywords: Music; Mental health; Psychosocial rehabilitation; Therapeutic groups; CAPS AD.

Introdução 

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi estabelecida como parte das diretrizes da Reforma Psiquiátrica no Brasil, com o objetivo de oferecer suporte integral a pessoas em sofrimento psíquico e usuários de substâncias psicoativas. Dentro dessa rede, os Centros de Atenção Psicossocial para tratamento de álcool e outras drogas (CAPS AD) desempenham papel fundamental ao promover atendimentos individuais e coletivos, focados na reabilitação psicossocial e na redução de danos (BRASIL, 2011). As atividades desenvolvidas nesses espaços são pautadas pelos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e da luta antimanicomial, incluindo oficinas e grupos terapêuticos que incentivam a participação ativa dos usuários no processo de cuidado.

Os grupos terapêuticos e oficinas utilizam elementos culturais como estratégias de inserção social e resgate de autonomia, proporcionando espaços de acolhimento e expressão (MAGALHÃES & BRAGA, 2023). Essas atividades promovem encontros que estimulam a cidadania, a convivência entre diferentes indivíduos e a liberdade de expressão (LAPPANN-BOTTI & LABATE, 2004; KANTORSKI et al., 2011). Entre os diversos recursos utilizados nos CAPS, a música se destaca como um instrumento terapêutico, contribuindo para a expressão emocional, fortalecimento de vínculos e reabilitação psicossocial dos participantes (SANTOS et al., 2016).

A reabilitação psicossocial pode ser compreendida como um processo que busca a reconstrução da vida cotidiana de pessoas em sofrimento psíquico, promovendo sua autonomia e participação ativa na sociedade. Esse conceito vai além da estabilização clínica, envolvendo a reinserção nos âmbitos familiar, social e do trabalho. Trata-se, portanto, de possibilitar o exercício da cidadania e o fortalecimento das relações interpessoais, permitindo que os sujeitos ampliem sua capacidade de estabelecer vínculos e contratos sociais no dia a dia (SANCHES & VECCHIA, 2020). 

No contexto dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as práticas terapêuticas que utilizam a arte, como a música, podem desempenhar um papel fundamental nesse processo, pois favorecem a expressão subjetiva, a socialização e o fortalecimento dos laços comunitários. Através do envolvimento em atividades musicais, os participantes podem ressignificar experiências, exercitar habilidades de comunicação e colaboração, além de experimentar um senso de pertencimento que contribui para sua recuperação psicossocial. Dessa forma, os grupos terapêuticos musicais se mostram como um importante instrumento de cuidado em liberdade, alinhado aos princípios da Reforma Psiquiátrica e à perspectiva da reabilitação psicossocial.  

Em um CAPS AD III localizado no Distrito Federal, unidade em que foi realizado este trabalho, um dos grupos terapêuticos implementados utiliza a música como ferramenta de cuidado, envolvendo usuários do acolhimento noturno, da Unidade de Acolhimento Transitório (UA) e outros frequentadores do serviço. O acolhimento noturno é uma modalidade de atendimento voltada a indivíduos em processo de desintoxicação e/ou que necessitam de suporte clínico e psicossocial (BRASIL, 2012). A UA, por sua vez, oferece acompanhamento terapêutico e protetivo a pessoas em vulnerabilidade social associada ao uso de substâncias psicoativas (BRASIL, 2012). Nesse contexto, a diversidade dos participantes torna relevante o planejamento de atividades que contemplem diferentes necessidades e potencializem os benefícios da música na reabilitação psicossocial.

Ao ingressarmos no serviço, em março de 2023, identificamos a ausência de um grupo de música ativo, devido ao afastamento da facilitadora responsável. Essa lacuna foi prontamente percebida pelos usuários, em especial aqueles da Unidade de Acolhimento, que expressaram a necessidade da retomada da atividade. Usuários do acolhimento noturno também manifestaram interesse no retorno do grupo, reconhecendo sua importância como espaço de lazer, convivência e fortalecimento de vínculos. A abordagem espontânea e interativa adotada nas sessões musicais favorece a reflexão, a sensibilização e a expressão, reforçando a música como um recurso promotor de saúde mental (SANTOS, 2022).

O lazer é um direito fundamental assegurado pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 2016), mas, para muitos usuários do CAPS AD III, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade social ou em situação de rua, o acesso a atividades recreativas é limitado. Para esses indivíduos, o lazer muitas vezes se restringe ao uso de substâncias psicoativas ou se torna um privilégio distante. O grupo de música, ao proporcionar momentos de interação cultural e lúdica, ressignifica suas experiências e oferece novas alternativas de convivência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social, não se restringindo à ausência de doenças (OMS, 1946). Sob essa perspectiva, a saúde mental é essencial para a qualidade de vida e deve ser promovida por meio de estratégias que fortaleçam o equilíbrio emocional e psicossocial dos indivíduos. Programas que visam o bem-estar da população, como as atividades terapêuticas oferecidas nos CAPS, tornam-se ferramentas importantes nesse processo.

Diante desse contexto, este relato de experiência tem como objetivo compartilhar os conhecimentos adquiridos e os desafios enfrentados na condução de um grupo terapêutico de música em um CAPS AD III, enfatizando seus impactos na reabilitação psicossocial dos participantes e na promoção de saúde. A partir da análise da experiência conduzida em um CAPS AD III, serão abordados três aspectos centrais: (1) a contribuição da prática musical para a expressão de emoções em indivíduos em sofrimento psíquico; (2) o papel da música no fortalecimento de vínculos e no desenvolvimento de habilidades de convivência; e (3) os processos pelos quais a música favorece a ressignificação de experiências pessoais e a reconstrução da identidade. Parte-se da premissa de que a utilização da música como recurso terapêutico nesse contexto fortalece o vínculo dos usuários com o serviço e proporciona um ambiente lúdico e acolhedor, favorecendo a reabilitação psicossocial e a promoção da saúde mental.

Metodologia

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa descritiva, desenvolvida a partir de um relato de experiência sobre a prática de um grupo de música realizado por uma enfermeira e um assistente social em um CAPS AD III. A pesquisa foi conduzida no contexto do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto (PRMSMA), tendo como principal estratégia metodológica a observação participante durante a execução do grupo. A coleta de dados foi realizada por meio de registros em notas de campo elaboradas pelos pesquisadores-facilitadores, com a análise baseada na técnica de análise de conteúdo, que, conforme Bardin apud Santos (2012), é um método de categorias que permite a classificação dos componentes do significado da mensagem, sendo uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo extraído das comunicações e sua respectiva interpretação. Essa técnica permite, portanto, a organização e interpretação de dados qualitativos, auxiliando na observação dos efeitos observados.

A investigação se deu em um ambiente aberto e dinâmico, no qual os usuários do serviço puderam participar livremente conforme sua disponibilidade. O único critério para a participação foi o vínculo com o CAPS AD III na condição de usuário do serviço, sem exigência de participação contínua ou número fixo de participantes, uma vez que o público atendido pelo CAPS AD III apresenta um fluxo constante, especialmente no acolhimento noturno.

Os encontros ocorreram ao longo de 11 sessões com duração média de uma hora e meia e em uma sala do serviço destinada a atividades grupais, com capacidade para cerca de 20 pessoas organizadas em círculo, favorecendo a interação entre os participantes. Foi utilizada uma caixa de som para tocar as músicas escolhidas. Durante a realização do grupo, os pesquisadores atuaram como facilitadores, conduzindo as atividades de forma espontânea e promovendo um ambiente de acolhimento e expressão. A coleta de dados foi pautada na observação sistemática das interações e dinâmicas do grupo, garantindo o anonimato dos usuários e preservando a ética na pesquisa.

A análise dos dados foi realizada de maneira contínua ao longo da pesquisa, buscando identificar padrões e significados emergentes a partir dos registros em notas de campo. Para minimizar possíveis parcialidades, a interpretação do material coletado foi conduzida pelos dois pesquisadores-facilitadores, garantindo maior rigor na sistematização das informações. Além disso, a análise foi enriquecida com um referencial bibliográfico sobre o trabalho com grupos em saúde mental e pesquisa documental referente às normativas e diretrizes institucionais que orientam as práticas nos CAPS AD.

Dessa forma, a metodologia adotada permitiu compreender de maneira aprofundada a experiência dos usuários no grupo de música e seu potencial enquanto ferramenta de reabilitação psicossocial, destacando os aspectos que favoreceram a expressão emocional, o fortalecimento de vínculos e a ressignificação de experiências individuais.

 Resultados e Discussão

O trabalho com grupos na saúde mental vai de encontro ao disposto pela Reforma Psiquiátrica brasileira, que se constitui como um novo paradigma na atenção a pessoas com sofrimento psíquico, em contraponto ao modelo de instituição total dos manicômios. Kantorski et al. (2011) atentam para a construção de um modelo de assistência integral à saúde das pessoas em sofrimento psíquico. Tal modelo compreende a inserção do sujeito de forma a considerar suas relações sociais, para além de sua doença mental. Desta forma, o sofrimento não deve ser tratado de forma isolada, mas considerando uma série de fatores externos, sendo necessário para tal uma abordagem multifatorial.

Nesse contexto, este estudo busca compreender como os grupos terapêuticos de música podem atuar como instrumento de reabilitação psicossocial e promoção de saúde mental dentro do CAPS AD, analisando as interações e expressões dos participantes ao longo dos encontros.

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) constituem-se como serviços territoriais de tratamento a sujeitos com algum tipo de sofrimento psíquico. Diferente dos hospitais psiquiátricos, instituições fechadas em que as pessoas são tratadas a partir da privação de liberdade, estigma e sob o viés do poder biomédico, os CAPS trabalham na perspectiva da reabilitação psicossocial, apostando em abordagens terapêuticas para além do uso de medicamentos e da individualização do sofrimento psíquico.

A música pode ser utilizada como instrumento terapêutico em grupo, pois exerce influência sobre o indivíduo de forma ampla e diversificada. Ela estimula o afeto e a socialização, facilitando abordagens diversas e interdisciplinares e promovendo conforto e prazer no convívio social, além da interação entre indivíduos e profissionais (BRASIL, 2017). 

Nos primeiros encontros do grupo de música sob condução dos pesquisadores-facilitadores, foi estabelecida uma dinâmica inicial de apresentação, repetida nos encontros seguintes, como forma de os participantes se conhecerem e estreitarem laços entre si e com a equipe. A dinâmica consistia sempre em uma rodada de apresentação, com uma pergunta norteadora para “quebrar o gelo”. Também foi definido que, em cada encontro, os participantes anotariam suas músicas de preferência em uma lista, conforme o tema do dia. Nos dois primeiros encontros, ainda sem temas específicos, houve momentos significativos de expressão pessoal, reflexão e convivência. Os participantes e a equipe ouviram e cantaram músicas, discutiram letras e compartilharam interpretações pessoais. Além disso, foi possível observar identificação e troca de perspectivas entre os participantes a partir das músicas escolhidas, o que favoreceu a aproximação entre eles. Essas interações reforçam a hipótese de que o grupo de música pode contribuir para a reabilitação psicossocial ao promover espaços de pertencimento e compartilhamento.

A convivência demonstrou ser um dispositivo fundamental tanto para o cuidado quanto para a inserção social. Resende (2019) destaca que, ao estabelecer proximidade, cria-se um espaço de escuta e reconhecimento mútuo, favorecendo a compreensão do sofrimento e a construção de intervenções mais eficazes. Além disso, essa convivência possui um caráter político, ampliando a participação dos indivíduos no território e nas relações sociais. Nesse sentido, as oficinas do grupo de música se mostraram potentes para estimular essa conexão, promovendo não apenas momentos de expressão individual, mas também de pertencimento e fortalecimento de vínculos para além do espaço do CAPS.

Em outro encontro, dedicado ao Dia da Luta Antimanicomial, foi promovida uma discussão sobre o significado da data, destacando a importância da ressignificação de saberes e da superação de paradigmas relacionados ao tratamento do sofrimento mental. Refletiu-se sobre a implementação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e demais serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos como avanços fundamentais nesse contexto. Durante a atividade, foram reproduzidas músicas como Balada do Louco (Os Mutantes), Metamorfose Ambulante (Raul Seixas) e Para Não Dizer Que Não Falei das Flores (Geraldo Vandré), cujas letras, de forma explícita ou implícita, dialogam com o tema da loucura. A partir dessas canções, o encontro estimulou um debate significativo, no qual os participantes compartilharam experiências de estigma e exclusão, mas também expressaram um fortalecimento identitário enquanto sujeitos políticos.

A dinâmica de troca e reflexões sobre a loucura e o estigma vai de encontro aos princípios da Reforma Psiquiátrica, que desde seu surgimento, propõe um novo olhar sobre o sofrimento mental. Ela critica o modelo psiquiátrico tradicional e reforça a importância da inclusão, cidadania e liberdade dos indivíduos em sofrimento psíquico. A Reforma Psiquiátrica, conforme destacam Amarante & Torre (2018), está associada à construção de um um novo discurso e de uma nova prática de cuidado à loucura e ao sofrimento mental, contra o viés psicopatológico e manicomial e a favor da inclusão social. 

Em encontro cuja proposta foi um diálogo sobre músicas que os participantes consideram representativas de sua própria identidade, observou-se um grande interesse dos participantes em justificar suas escolhas, relacionando as músicas escolhidas a aspectos pessoais, bem como um envolvimento ativo na escuta e nas falas dos colegas. Duarte (s.d.) destaca que a música adquire significado de duas formas: quando está associada a percepções coletivas entre os ouvintes e quando se vincula à subjetividade individual. Nesse sentido, Merriam apud Hummes (2004), aponta que a música desempenha uma função essencial na expressão emocional, atuando como meio de liberação de sentimentos e pensamentos, manifestos ou não. Além disso, possibilita a criatividade, alívio emocional e, potencialmente, a resolução de conflitos.

Em outro encontro, o tema trabalhado foi músicas que tratam de afeto. Iniciamos com uma discussão sobre o significado de afeto para cada integrante, o que gerou uma interessante discussão a partir de diferentes perspectivas. Os participantes mencionaram o afeto como carinho, cuidado e amor ao próximo, associando essas reflexões a músicas como Pais e Filhos, da banda Legião Urbana, e Trem-Bala, de Ana Vilela. Curiosamente, essas músicas já haviam surgido em outros encontros, mesmo quando os temas centrais eram distintos, o que reforça sua ressonância emocional para os participantes.

A proposta do grupo de música contribuiu para o fortalecimento dos vínculos entre usuários e também entre usuários e equipe, pois o compartilhamento de experiências pessoais e a validação de emoções ocorreram de maneira espontânea. Além disso, houve um movimento de troca, em que tanto os participantes quanto a equipe profissional sugeriram estratégias de enfrentamento a situações vivenciadas compartilhadas nos encontros. Bechelli & Santos (2005) destacam que a possibilidade de expressão de emoções em grupo, sem julgamentos, cria um ambiente favorável à confiança e à integração entre participantes. Dessa forma, o grupo se configura como um espaço de acolhimento, no qual os vínculos e os processos de identificação desempenham papel central na experiência vivida.

Entretanto, junto a esses benefícios, também emergiram desafios inerentes ao trabalho com grupos terapêuticos, especialmente diante das diferentes subjetividades e vulnerabilidades dos participantes. Foram identificados desafios como desconforto emocional diante da exposição de questões pessoais e eventuais conflitos entre os participantes, que, em alguns momentos, impactaram a dinâmica dos encontros. No entanto, esses desafios foram cuidadosamente manejados pela equipe profissional, por meio de estratégias como a validação de sentimentos, o acolhimento das dificuldades e a mediação de conflitos, assegurando um ambiente terapêutico e preservando o bem-estar dos participantes.

Durante a execução dos encontros, foi observado que as músicas suscitaram  compartilhamento de sentimentos, lembranças e experiências entre os usuários, que traziam comentários sobre sua forma de ver a vida e seu curso, ou mesmo de maneira mais leve como algo os inspirava. Isso mostrou-se como uma maneira de fazer vínculo junto ao grupo e também entre os indivíduos, fazendo com que não fosse apenas uma reunião de indivíduos, mas uma atividade de cunho terapêutico, obtida através da música que desempenha o papel de estímulo à criação de vínculos e fortalece as habilidade de convivência. 

Em relação ao terceiro aspecto, a prática do grupo revelou-se um instrumento potente para a ressignificação de experiências pessoais, permitindo aos participantes reconstruir e reafirmar suas identidades. Ao se envolverem no processo criativo e expressivo da música, muitos indivíduos conseguiram revisitar e dar novos significados a momentos difíceis de suas trajetórias, criando um espaço em que suas vivências poderiam ser revisitadas de forma mais positiva. Essa ressignificação não só favoreceu a reconexão de aspectos de suas identidades que haviam sido abalados com o sofrimento psíquico, mas também fortaleceu o sentimento de pertencimento e autoestima, elementos fundamentais para a reabilitação psicossocial. A música, assim, se configurou como um meio de reconstrução de si, em que os participantes puderam se reencontrar e se afirmar enquanto sujeitos ativos em sua própria história.

Considerações finais 

As análises realizadas ao longo desta pesquisa evidenciam que os grupos terapêuticos de música podem atuar como importantes dispositivos de reabilitação psicossocial no contexto do CAPS AD III. Os encontros proporcionaram um espaço de expressão e troca, no qual os participantes puderam fortalecer vínculos, compartilhar experiências e desenvolver habilidades emocionais e sociais. O ambiente criado favoreceu a construção de relações de confiança entre usuários e profissionais, reforçando o caráter terapêutico da convivência.

Além disso, a música demonstrou ser um potente meio para a ressignificação de memórias e para o estímulo da criatividade, o que contribuiu para o alívio do sofrimento psíquico e para a promoção do bem-estar dos participantes. Esses elementos indicam que os objetivos do estudo foram atingidos, confirmando a hipótese de que a utilização da música em grupos terapêuticos favorece a socialização e o pertencimento, aspectos fundamentais no processo de reabilitação psicossocial.

No entanto, algumas limitações foram observadas, como a complexidade do manejo de conflitos e do desconforto emocional gerado durante alguns encontros, o que exigiu estratégias cuidadosas por parte da equipe facilitadora. Sugere-se que estudos futuros explorem metodologias complementares para aprofundar a compreensão dos impactos da música na saúde mental, bem como investigações que acompanhem os efeitos dessa prática a longo prazo.

Por fim, este estudo reforça a importância da ampliação de estratégias terapêuticas baseadas na arte dentro dos serviços de saúde mental, destacando o papel da música não apenas como ferramenta de expressão individual, mas também como um instrumento de fortalecimento de vínculos e promoção da inclusão social.

Referências 

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1 Enfermeira residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto (PRMSMA) da ESPDF/FEPECS/SES-DF
2 Terapeuta Ocupacional preceptora do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto (PRMSMA) da ESPDF/FEPECS/SES-DF
3 Assistente Social residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto (PRMSMA) da ESPDF/FEPECS/SES-DF
4 Psicóloga tutora do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto (PRMSMA) da ESPDF/FEPECS/SES-DF, Mestre em Psicologia Clínica e Cultura (Psicc) pela Universidade de Brasília – UnB