A INTERFERÊNCIA DA LINHA FÉRREA NO DESENHO URBANO NAS CIDADES DO INTERIOR DE SÃO PAULO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511052239


Victor Hugo Pedro Francisco Fernandes
Esp. Nayara Sequetto Beraldo


RESUMO

O presente artigo tem como objetivo analisar como a presença e o traçado das linhas férreas influenciam a regionalização dos espaços e a morfologia dos territórios urbanos nas cidades do interior de São Paulo, identificando os impactos dessa infraestrutura no desenvolvimento e na organização do desenho urbano. Trata-se de uma Revisão de Literatura, por meio das bases de dados SciELO e Google Scholar com recorte temporal de 2020 à 2025. A pesquisa foi conduzida com base na ferramenta PICo, a partir da qual foi formulada a seguinte pergunta norteadora: Como a presença e o traçado das linhas férreas influenciam a regionalização dos espaços e a morfologia dos territórios urbanos nas cidades do interior de São Paulo, e quais impactos essa infraestrutura exerce sobre o desenvolvimento e a organização do desenho urbano? Sua desativação pode gerar fragmentação, marginalização e desigualdades, destacando a necessidade de requalificação para restaurar a integração urbana.

Palavras Chaves: Ferrovias; Planejamento urbano; Urbanismo; Morfologia Urbana.

ABSTRACT

This article aims to analyze how the presence and layout of railway lines influence the regionalization of spaces and the morphology of urban territories in the cities of the interior of São Paulo, identifying the impacts of this infrastructure on the development and organization of urban design. This is a Literature Review, through the SciELO and Google Scholar databases with a time frame from 2020 to 2025. The research was conducted based on the PICo tool, from which the following guiding question was formulated: How do the presence and layout of railway lines influence the regionalization of spaces and the morphology of urban territories in the cities of the interior of São Paulo, and what impacts does this infrastructure have on the development and organization of urban design? Its deactivation can generate fragmentation, marginalization and inequalities, highlighting the need for requalification to restore urban integration.

Keywords: Railways; Urban planning; Urbanism; Urban Morphology.

1.    INTRODUÇÃO

Desde o final do século XIX, o interior do Estado de São Paulo começou a experimentar transformações territoriais profundas com a implantação das ferrovias, especialmente no contexto da expansão da cafeicultura, e essas linhas férreas se configuraram como vetor primordial de articulação entre regiões produtoras e os portos, permitindo transportar café e outros produtos agrícolas para mercados nacionais e internacionais, favorecendo o crescimento de centros urbanos próximos às estações ferroviárias e induzindo a criação de municípios inteiros em função da ferrovia (Ribeiro, 2021).

Além de catalisadores econômicos, as ferrovias exerceram influência sobre a morfologia territorial dos municípios, pois a localização das estações, geralmente escolhidas por critérios geográficos, políticos ou vinculados aos interesses dos grandes proprietários rurais, determinou padrões de ocupação urbana ao seu redor, com arranjos de infraestrutura viária, habitação operária, comércio local, depósitos e oficinas ferroviárias, de modo que essas infraestruturas passaram a funcionar como pontos nodais que estruturavam a malha urbana, gerando eixos de crescimento e definindo o formato da cidade ao longo do tempo (Sampaio; Gomes, 2022).

Nos estudos mais recentes, observa-se que, embora muitas dessas ferrovias tenham perdido força como modal dominante frente à ascensão do transporte rodoviário, sobretudo a partir da metade do século XX, o legado físico e espacial permanece visível, com elementos patrimoniais como estações, vilas de ferroviários, galpões, viadutos e traçados abandonados interferindo no desenho urbano atual, seja como barreiras físicas ou como espaços com potencial para requalificação urbana, evidenciando a importância de compreender esse legado para formular políticas de planejamento urbano mais integradas que considerem tanto a preservação quanto as possibilidades de reinserção da infraestrutura ferroviária no tecido urbano contemporâneo (Ribeiro, 2021).

A análise da interferência da linha férrea no desenho urbano das cidades médias e pequenas do interior paulista é de relevância crescente, especialmente em um contexto contemporâneo que busca integrar o patrimônio histórico com as necessidades de desenvolvimento sustentável, e estudos recentes evidenciam como as ferrovias, embora tenham perdido protagonismo no transporte de passageiros, continuam a influenciar a organização espacial e os processos urbanos dessas localidades (Sampaio; Gomes, 2022).

A presença da ferrovia moldou a configuração urbana de cidades médias e pequenas do interior paulista, influenciando padrões de ocupação, núcleos urbanos e eixos de crescimento, e enquanto impulsionou o desenvolvimento econômico ao facilitar o transporte de mercadorias, a desativação de trechos gerou áreas degradadas, evidenciando a necessidade de estratégias de requalificação que considerem patrimônio histórico e aspectos ambientais (Calheiro; Schirmer, 2025). Compreender essa interferência é fundamental para políticas públicas que promovam desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida (Oliveira, 2024).

O traçado das ferrovias desempenhou um papel crucial na configuração das cidades médias e pequenas, determinando padrões de ocupação e estabelecendo núcleos urbanos ao redor das estações, e em cidades como Caruaru a ferrovia foi um fator estruturante, influenciando o crescimento urbano e a organização do espaço, sendo que, inicialmente instalada em áreas periféricas, tornou-se uma barreira para a expansão urbana, delimitando o crescimento da cidade e criando zonas de transição entre áreas urbanas e rurais (Maia, 2024).

Impactos da permanência ou abandono das ferrovias no desenho urbano: a presença ou desativação das ferrovias influencia diretamente a configuração urbana, determinando padrões de ocupação, acessibilidade e uso do solo, e em cidades como Pelotas a ferrovia foi um fator estruturante, influenciando o crescimento urbano e a organização do espaço (Bicca; Oliveira, 2025).

Integração ou fragmentação do tecido urbano devido às barreiras físicas impostas pela linha férrea: as ferrovias, ao atravessarem áreas urbanas, podem atuar como barreiras físicas que segregam espaços e dificultam a continuidade do tecido urbano, e estudos indicam que a presença de linhas férreas pode resultar em áreas isoladas, com impacto na mobilidade e acessibilidade (Getlinger; Vieira, 2021).

Desafios contemporâneos de requalificação e reintegração dos espaços ferroviários: a desativação das ferrovias deixou um legado de áreas ociosas e antigas zonas industriais, muitas vezes localizadas em pontos estratégicos das cidades, e esses espaços, quando não planejados adequadamente, podem se tornar focos de degradação urbana, sendo que há um crescente reconhecimento do potencial desses locais para a revitalização urbana, com iniciativas buscando transformar essas áreas em espaços públicos, culturais ou comerciais, promovendo a integração da memória ferroviária ao desenvolvimento urbano contemporâneo (Perpétuo; Coelho, 2021).

Este estudo justifica-se pela importância de compreender como as ferrovias influenciaram a formação e o desenvolvimento urbano das cidades médias e pequenas, especialmente no interior paulista. A relevância da pesquisa está em analisar os efeitos da implantação e da desativação das linhas férreas, que transformaram o território, gerando tanto oportunidades quanto desafios para o planejamento urbano. A investigação busca contribuir para o entendimento do papel dessas infraestruturas na configuração atual das cidades e para a formulação de estratégias de requalificação que aliem preservação do patrimônio ferroviário e desenvolvimento urbano sustentável.

Logo, o objetivo geral deste estudo é analisar como a presença e o traçado das linhas férreas influenciam a regionalização dos espaços e a morfologia dos territórios urbanos nas cidades do interior de São Paulo, identificando os impactos dessa infraestrutura no desenvolvimento e na organização do desenho urbano.

2.    DESENVOLVIMENTO

2.1  Contextualização do Artigo

As ferrovias, desde sua implantação no interior paulista no final do século XIX, exerceram papel determinante na formação e transformação do espaço urbano, influenciando o crescimento econômico, a configuração territorial e os atuais desafios de requalificação e integração dos espaços ferroviários ao tecido urbano contemporâneo. Essas infraestruturas, inicialmente voltadas ao escoamento da produção cafeeira, tornaram-se elementos estruturantes do espaço urbano, influenciando a localização de núcleos habitacionais, áreas industriais e eixos de crescimento das cidades. Mesmo após a perda de relevância frente ao transporte rodoviário, o legado físico e simbólico das ferrovias permanece visível, manifestando-se em estações, vilas operárias e traçados que ainda moldam o tecido urbano. Diante desse cenário, compreender o papel histórico e contemporâneo das ferrovias é essencial para repensar estratégias de planejamento que conciliem preservação patrimonial, requalificação de áreas degradadas e desenvolvimento urbano sustentável.

2.2  Materiais e métodos

O presente trabalho caracteriza-se como uma Revisão de Literatura, método de investigação que busca localizar, analisar e sintetizar o conhecimento disponível sobre um tema específico, a partir de diferentes fontes escritas, como livros, artigos científicos, relatórios, teses, dissertações e outros documentos relevantes, com o objetivo de responder a uma questão de pesquisa definida (Universidade de São Paulo, 2024).

Para realizar esta revisão, foram seguidas as etapas recomendadas pelo método. De acordo com o objetivo geral proposto, a ferramenta PICo pode ser definida considerando como População (P) as cidades do interior do Estado de São Paulo, como Intervenção (I) a presença e o traçado das linhas férreas, e como Contexto (Co) a regionalização dos espaços e a morfologia dos territórios urbanos. Assim, a pergunta norteadora foi formulada da seguinte maneira: Como a presença e o traçado das linhas férreas influenciam a regionalização dos espaços e a morfologia dos territórios urbanos nas cidades do interior de São Paulo, e quais impactos essa infraestrutura exerce sobre o desenvolvimento e a organização do desenho urbano?

Em seguida, procedeu-se à seleção e busca de artigos relevantes sobre o tema, onde a busca dos artigos científicos ocorreu nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Google Scholar, com recorte temporal de 2020 a 2025.

Os artigos foram selecionados a partir dos seguintes descritores: Ferrovias (Railways); Planejamento urbano (Urban planning); Urbanismo (Urbanism); sendo associadas aos operadores booleanos AND e OR e utilizadas todas as combinações possíveis.

Após a busca dos artigos conforme a estratégia descrita, foram selecionados artigos originais, gratuitos e completos que atendiam aos critérios de inclusão estabelecidos, ou seja, que tivessem como objetivo estudar e/ou analisar como a presença e o traçado das linhas férreas influenciam a regionalização dos espaços e a morfologia dos territórios urbanos nas cidades do interior de São Paulo, que tivessem sido publicados nos últimos cinco anos e estivessem em língua inglesa e/ou portuguesa, sendo excluídos aqueles que se repetiam na pesquisa ou que não se não enquadravam nos critérios de inclusão.

Foram selecionados, no total, 10 artigos originais para a realização da discussão.

A Tabela 1, demonstra que após a pesquisa com as palavras-chave estabelecidas.

Tabela 1 – Seleção dos artigos nas bases de dados.

Fonte: Autoria própria (2025).

No total, foram identificados 1.967 artigos nas bases de dados consultadas, sendo 1.900 do Google Scholar e 67 do SciELO. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, permaneceram 130 estudos (100 do Google Scholar e 30 do SciELO), dos quais 50 foram pré-selecionados com base na leitura dos títulos e resumos (35 do Google Scholar e 15 do SciELO). Ao final, 10 artigos foram selecionados para leitura na íntegra por apresentarem maior relevância ao tema proposto, sendo 8 provenientes do Google Scholar e 2 do SciELO.

2.3  Resultados

A análise conjunta dos dez estudos evidencia que 100% dos autores, sendo eles Francisco (2021); Mateus e Watzel (2023); Stafusa e Ghirardello (2020); Pacetti (2020); Tavares e Scapol (2025); Oliveira (2022); Lêdo e Constantino (2021); Aguiar (2024); Oliveira e Carignani (2024); e Favareto e Fernandes (2020), reconhecem o papel estruturador das ferrovias na gênese e desenvolvimento urbano das cidades do interior paulista e, em alguns casos, de contextos internacionais comparativos. Em linhas gerais, há consenso de que a ferrovia funcionou como elemento central de ordenamento territorial, definindo eixos de crescimento, padrões de traçado e a localização das atividades econômicas.

Autores como Francisco (2021), Stafusa e Ghirardello (2020), Oliveira (2022) e Aguiar (2024) convergem ao afirmar que a implantação das linhas férreas determina diretamente a morfologia urbana das cidades, condicionando o traçado das vias, a posição da estação e a expansão dos núcleos urbanos. Esses estudos compartilham a ideia de que o modelo de urbanização ferroviária padronizado, baseado em traçados regulares e estações centrais, estruturou não apenas o espaço físico, mas também a identidade simbólica e social das cidades, um fenômeno observado em cerca de 30% dos trabalhos.

Por outro lado, Pacetti (2020) e Aguiar (2024) destacam que, embora a ferrovia tenha sido fundamental em sua origem, a desativação ou abandono dessas infraestruturas gerou efeitos negativos, como fragmentação urbana, marginalização de áreas centrais e descaracterização do patrimônio ferroviário. Esse grupo de estudos (aproximadamente 20%) enfatiza o contraste entre o passado estruturante e o presente de degradação, propondo a requalificação e reintegração dos espaços ferroviários ao tecido urbano contemporâneo.

No mesmo sentido, Favareto e Fernandes (2020) e Lêdo e Constantino (2021) abordam a necessidade de requalificação dos espaços urbanos degradados, seja nos baixios e áreas residuais da ferrovia em Presidente Prudente, seja nos espaços livres fragmentados de Parapuã. Ambos sugerem ações de reativação social e ambiental, intervenções efêmeras, recuperação de cursos d’água e reconexão de áreas descontinuadas, convergindo em torno da perspectiva de uma urbanidade mais inclusiva e sustentável. Esses estudos representam cerca de 20% do conjunto analisado.

Mateus e Watzel (2023) e Tavares e Scapol (2025) ampliam a discussão ao relacionar a infraestrutura ferroviária e viária com a produção de desigualdades socioespaciais, indicando que, embora as infraestruturas ampliem a conectividade, elas também reproduzem segregações urbanas quando não acompanhadas de planejamento participativo e design inclusivo, sendo que aproximadamente 20% dos autores exploram essa dimensão crítica, ressaltando o desafio de integrar desenvolvimento urbano e justiça espacial.

Já Oliveira e Carignani (2024) introduzem uma leitura complementar ao discutir o processo de modernização urbana e transformação morfológica de um bairro planejado em Uberlândia, destacando a relação entre forma urbana e dinâmicas socioeconômicas, sendo que aproximadamente 10% dos autores exploram essa perspectiva, reforçando a importância de compreender a evolução morfológica e funcional das cidades como fenômeno dinâmico e interdependente.

2.4  Discussão

2.4.1 Influência das ferrovias na regionalização e morfologia urbana

A análise conjunta dos dez estudos evidencia que 100% dos autores (Francisco, 2021; Mateus e Watzel, 2023; Stafusa e Ghirardello, 2020; Pacetti, 2020; Tavares e Scapol, 2025; Oliveira, 2022; Lêdo e Constantino, 2021; Aguiar, 2024; Oliveira e Carignani, 2024; e Favareto e Fernandes, 2020), reconhecem o papel estruturador das ferrovias na regionalização e na morfologia urbana das cidades do interior paulista e em alguns contextos comparativos, como em Campanhã (Portugal) e Uberlândia (MG). Há consenso de que as linhas férreas funcionaram como eixo organizador do território, definindo núcleos urbanos, padrões de traçado, hierarquias espaciais e direções de expansão, influenciando a ocupação do solo, o surgimento de centralidades e a relação entre cidades e regiões.

Segundo Francisco (2021), Stafusa e Ghirardello (2020), Oliveira (2022) e Aguiar (2024) enfatizam que a ferrovia foi decisiva na estruturação linear e hierárquica das cidades, estabelecendo núcleos urbanos próximos às estações e conectando os municípios em redes regionais, representando aproximadamente 30% dos estudos, e destacam que o traçado ferroviário determinou a forma das ruas, a disposição dos lotes e a organização funcional das cidades, consolidando cidades como Bauru, Santa Fé do Sul, Rubinéia e Presidente Prudente como polos regionais estratégicos.

Em uma perspectiva complementar, Mateus e Watzel (2023) e Tavares e Scapol (2025) abordam a relação histórica da ferrovia com a expansão urbana e segregação socioespacial, mostrando que, embora o traçado ferroviário tenha estruturado e orientado o crescimento linear das cidades, ele também reproduziu centralidades e periferias com desigualdades de acesso à infraestrutura e aos serviços urbanos, representando cerca de 20% do total e trazendo a dimensão social e econômica da urbanização ferroviária.

Pacetti (2020) e Favareto e Fernandes (2020), por sua vez, apresentam uma visão crítica sobre os efeitos de desativação ou abandono das linhas férreas em certas cidades, como Presidente Prudente, destacando que a ferrovia, ao mesmo tempo em que estruturou o crescimento urbano, criou fronteiras internas e fragmentações espaciais, evidenciando que o legado ferroviário pode gerar tanto integração quanto segregação, dependendo do estado de conservação e do planejamento urbano contemporâneo, representando 20% do conjunto analisado.

Lêdo e Constantino (2021) reforçam que o binômio café/ferrovia foi decisivo para a formação de cidades do Oeste Paulista, como Parapuã, determinando traçados ortogonais, crescimento linear e organização espacial voltada para fins lucrativos, destacando ainda que a ferrovia contribuiu para a fragmentação do tecido urbano e a pouca integração dos espaços livres, evidenciando impactos morfológicos e sociais específicos, o que corresponde a 10% dos autores.

Por fim, Oliveira e Carignani (2024), ao analisar Uberlândia, apresentam uma perspectiva complementar fora do contexto paulista direto, mostrando que o traçado ferroviário estruturou bairros e primeiros eixos de crescimento, reforçando a importância da ferrovia como agente de regionalização e ordenamento urbano, representando também 10% do conjunto.

Em síntese, todos os autores reconhecem a ferrovia como elemento estruturador da morfologia urbana e da regionalização, com 40% destacando seu papel na estruturação linear e hierárquica das cidades, 20% abordando impactos socioespaciais e desigualdades geradas pelo traçado ferroviário, 20% discutindo efeitos de abandono e fragmentação urbana, 10% enfatizando a influência do binômio café/ferrovia na morfologia urbana e 10% apresentando análises complementares em contextos fora do foco paulista direto, evidenciando um consenso amplo quanto à centralidade das ferrovias na formação urbana, mas também divergências sobre as consequências contemporâneas, o que aponta para desafios na requalificação, integração e gestão dos espaços ferroviários.

2.4.2  Impactos socioeconômicos e urbanos da infraestrutura ferroviária.

A análise dos dez estudos indica que 100% dos autores (Francisco, 2021; Mateus e Watzel, 2023; Stafusa e Ghirardello, 2020; Pacetti, 2020; Tavares e Scapol, 2025; Oliveira, 2022; Lêdo e Constantino, 2021; Aguiar, 2024; Oliveira e Carignani, 2024; e Favareto e Fernandes, 2020), reconhecem que a infraestrutura ferroviária teve papel determinante no desenvolvimento econômico, na mobilidade e na acessibilidade das cidades do interior paulista e de contextos comparativos, promovendo o escoamento de produtos, o transporte de pessoas e a formação de núcleos urbanos. Há consenso entre Francisco (2021), Stafusa e Ghirardello (2020), Oliveira (2022) e Aguiar (2024), de que a ferrovia funcionou como vetor da integração regional e estímulo à urbanização, valorizando terrenos e fortalecendo a economia local.

Autores como Francisco (2021), Stafusa e Ghirardello (2020), Oliveira (2022) e Aguiar (2024) enfatizam que as ferrovias impulsionaram diretamente o crescimento urbano e econômico, estruturando bairros, zonas industriais e eixos comerciais, consolidando cidades como Bauru, Santa Fé do Sul e Presidente Prudente como polos regionais estratégicos, representando aproximadamente 30% do conjunto, destacando ainda que o traçado ferroviário moldou a centralidade urbana e a identidade espacial, evidenciando o impacto contínuo das linhas na configuração das cidades.

Em uma perspectiva complementar, Mateus e Watzel (2023) e Tavares e Scapol (2025) discutem os efeitos da desativação ou requalificação das áreas ferroviárias sobre desigualdade urbana, exclusão territorial e mobilidade reduzida, representando cerca de 20% dos autores, mostrando que a falta de planejamento inclusivo e a fragmentação urbana podem reproduzir desigualdades socioespaciais, e ressaltando a importância da requalificação orientada à inclusão social e à mobilidade sustentável.

Pacetti (2020) e Favareto e Fernandes (2020) apresentam uma visão crítica similar, destacando que a desativação das ferrovias provocou fragmentação do tecido urbano, degradação de áreas lindeiras e perda de conectividade, evidenciando impactos negativos na integração social e econômica, também representando 20% do conjunto, sendo a requalificação desses espaços apontada como estratégia para restaurar a integração urbana e ressignificar o patrimônio histórico.

Lêdo e Constantino (2021) enfatizam que, no Oeste Paulista, o binômio café/ferrovia impulsionou o desenvolvimento econômico, mas a posterior desativação de trechos gerou perda de identidade territorial, fragmentação urbana e desconexão ambiental, representando 10% dos autores.

De forma complementar, Oliveira e Carignani (2024) evidenciam que a requalificação das áreas ferroviárias em Uberlândia possibilitou a criação de novos usos e centralidades urbanas, como o subcentro do bairro Roosevelt, mostrando que a ferrovia continua a influenciar a morfologia e a dinâmica urbana, correspondendo a 10% dos autores.

Em síntese, 100% reconhecem o papel das ferrovias no desenvolvimento econômico, mobilidade e acessibilidade urbana, 40% destacam impactos diretos sobre a estrutura urbana, bairros e centralidades, 20% abordam desigualdade urbana e exclusão territorial decorrentes da desativação, 20% discutem efeitos de abandono, degradação e fragmentação urbana, 10% enfatizam o binômio café/ferrovia e suas consequências morfológicas, e 10% analisam processos de requalificação e criação de novas centralidades, observando-se um consenso sobre a importância histórica das ferrovias para o crescimento urbano e econômico, mas também uma convergência crítica em relação aos impactos contemporâneos da desativação, evidenciando desafios para a requalificação, reintegração e sustentabilidade dos espaços ferroviários.

3.  CONSIDERAÇÕES FINAIS

As ferrovias exerceram papel central na configuração urbana e regional das cidades do interior paulista, atuando como eixo estruturador do território, definindo padrões de traçado, localização de núcleos urbanos e hierarquias espaciais. Essa infraestrutura influenciou diretamente a ocupação do solo, a formação de centralidades e a articulação entre municípios, consolidando cidades como Bauru, Presidente Prudente e Santa Fé do Sul como pólos regionais estratégicos.

Além do impacto físico, a presença das ferrovias foi decisiva para o desenvolvimento econômico e social, promovendo o transporte de mercadorias e pessoas, a valorização fundiária e a integração regional. A relação entre ferrovia e urbanização moldou bairros, zonas industriais e eixos comerciais, reforçando a identidade urbana e a funcionalidade dos territórios analisados.

Por outro lado, a desativação ou abandono das linhas férreas gerou fragmentação do tecido urbano, degradação de áreas lindeiras, perda de conectividade e desigualdades socioespaciais, evidenciando a necessidade de políticas de requalificação. Intervenções urbanísticas, ambientais e sociais podem recuperar esses espaços, integrando-os ao tecido urbano contemporâneo e promovendo inclusão, mobilidade e sustentabilidade.

Em síntese, as ferrovias foram fundamentais para a formação e o desenvolvimento das cidades do interior paulista, mas sua preservação e reintegração apresentam desafios atuais, demandando planejamento urbano atento à memória histórica, à funcionalidade econômica e à equidade social.

4.   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, V.M. As ferrovias e a formação das cidades paulistas: a relação entre o traçado ferroviário e o desenho urbano de Presidente Prudente. 2024. 100 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Ciências e Tecnologia – FCT UNESP), Presidente Prudente, 2024.

BICCA, R.R.; OLIVEIRA, A.L.C. de. A ferrovia e a produção da forma urbana: o caso do bairro Simões Lopes em Pelotas/RS. Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v. 18, n. 5, p. 1-22, 2025. DOI: 10.55905/revconv.18n.5-036. Acesso em: 8 out. 2025.

CALHEIRO, D.; SCHIRMER, G.J. Transformações na paisagem adjacente às ferrovias de cachoeira do sul: impactos da (não) ação humana e da urbanização. Aracê, [S. l.], v. 7, n. 9, p. e7782 , 2025. DOI: 10.56238/arev7n9-037. Acesso em: 8 out. 2025.

FAVARETO, J.S. dos S.; FERNANDES, F.D. da C. de M. Repensar a cidade: intervenção efêmera como instrumento de discussão de espaços residuais no centro da cidade de Presidente Prudente – SP. Colloquium Socialis, Presidente Prudente, v. 4, n. 2, p. 73-91, 2020. DOI: 10.5747/cs.2020.v04.n2.s096. Acesso em: 8 out. 2025.

FRANCISCO, A.M. A quadrícula como estratégia de desenho urbano das cidades planejadas ao longo da linha férrea na Alta Sorocabana. Oculum Ensaios, [S. l.], v. 18, n. 1, p. 1-16, 2021. DOI: 10.24220/2318-0919v18e2021a4781. Acesso em: 8 out. 2025.

GETLINGER, D.C. V.; VIEIRA, J.L. Barreiras urbanas, segregação territorial e vulnerabilidade social na Várzea do Cangaíba, São Paulo. In: UIA 2021 RIO: 27th World Congress of Architects, 2021, Rio de Janeiro. Anais Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2021. Disponível em: https://www.acsa- arch.org/proceedings/International%20Proceedings/ACSA. Intl.2021/ACSA.Intl.2021.27.pdf. Acesso em: 8 out. 2025.

LÊDO, Maria Gabriela Silva; CONSTANTINO, Norma Regina Truppel. Parapuã (SP) e a requalificação de espaços livres ao longo dos rios urbanos: uma abordagem sistêmica. Revista Cidades Verdes, [S.I], v. 9, n. 22, p. 25-40, 2021. Disponível em: https://www.academia.edu/download/73491140/2688.pdf. Acesso em: 8 out. 2025.

MAIA, D.S. Ferrovia e Centralidade em Cidades Médias do Nordeste Brasileiro: Estruturação e a Constituição do Centro da Cidade de Caruaru-PE. Espaço Aberto, [S.I], v. 14, n.1, p. 77-100, 2024. DOI: 10.36403/espacoaberto.2024.61220. Acesso em: 8 out. 2025.

MATEUS, V. da S.; WATZEL, M.P.P. Inadequação socioespacial urbanística de duas das principais avenidas de Marília-SP. In: UNIVERSIDADE DE MARÍLIA (UNIMAR). Livro do III Seminário de Iniciação Científica – SEMIC Junior. Marília: UNIMAR, 2023. p. 24–25.

OLIVEIRA, C.C.T. de. A formação urbana de Bauru e a ferrovia: uma leitura do espaço urbano a partir das transformações no território ferroviário. 2022. 197 p. Dissertação (Mestre em Arquitetura e Urbanismo, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Bauru), Bauru, 2022.

OLIVEIRA, C. C. T. de; CARIGNANI, G. História e Urbanização : A formação dos Municípios de Ourinhos e Assis – SP no contexto da expansão ferroviária. Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade, [S. l.], v. 1, n. 33, p. e68199, 2024. DOI: 10.23925/2176-4174.v3.2024e68199. Acesso em: 8 out. 2025.

OLIVEIRA, C.C.T. de. Transformações urbanas pós ferrovia em Assis – SP e Ourinhos – SP. VERNÁCULA – Territórios Contemporâneos, [S. l.], v. 2, n. 6, p. 1-16, 2024. DOI: 10.18312/verncula.v2i6.2579. Acesso em: 8 out. 2025.

PACETTI, Ana Maria. Ferrovia e dinâmica urbana: o caso das estações de Campanhã e de Presidente Prudente. Cadernos de Pesquisa da Escola da Cidade, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 1-14, 2020. Disponível em: https://ojs.escoladacidade.org/index.php/cadernos/article/view/97. Acesso em: 8 out. 2025.

SAMPAIO, C.E. de A.; GOMES, M.T.S. A Ferrovia Sorocabana: o auge, a decadência, a concessão à iniciativa privada e a proposta de reativação. Revista Científica, Presidente Prudente, [S.I], v. 24, n. 48, p. 26-922, 2022. DOI: https://doi.org/10.46551/rc24482692202208. Acesso em: 8 out. 2025.

STAFUSA, Vitor Mendes; GHIRARDELLO, Nilson. Santa Fé do Sul e Rubinéia (SP): condicionantes da história urbana no Extremo Noroeste Paulista. In: Anais do XVIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo (SHCU). São Paulo: UNESP – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, 2020. p. 39–54.

RIBEIRO, E.B. Entre braços e brasões: um olhar sobre o desenvolvimento ferroviário no interior paulista. PosFAUUSP, São Paulo, Brasil, v. 27, n. 51, p. e162737, 2021. DOI: 10.11606/issn.2317-2762.posfau.2020.162737. Acesso em: 8 out. 2025.

TAVARES, J.C.; SCAPOL, C.B. Infraestruturas na metrópole: conflitos no tecido urbano de Campinas-SP. PARC: Pesquisa em Arquitetura e Construção, Campinas, São Paulo, v. 16, n. 0, p. e025022, 2025. DOI: 10.20396/parc.v16i00.8678227. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/parc/article/view/8678277. Acesso em: 8 out. 2025.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Título: Revisão de Literatura. 2024. Disponível em: <https://www.ip.usp.br/site/biblioteca/revisao-de-literatura/>.Acesso em: 15 de Abr. 2024.