A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM SOBRE CUIDADOS PALIATIVOS: EXPLORANDO DESAFIOS E HABILIDADES

THE IMPORTANCE OF NURSING PROFESSIONALS’ KNOWLEDGE ABOUT PALLIATIVE CARE: EXPLORING CHALLENGES AND SKILLS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511081747


Daniela de Sousa Veloso1; Gabriela Mariussi Legramanti2; Joice Mara Claro da Silva3; Karina Augustinho Bernardes Trombini4; Rafael de Castro Nascimento5; Sabrina Piccinelli Zanchettin Silva6; Silvia Manfrin Alves Correia7; Nilva Cristina de Oliveira Silva8


Resumo

Este estudo aborda a importância do conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos, compreendidos como uma abordagem de cuidado voltada a pacientes com doenças ameaçadoras da vida — sejam terminais ou não — com o objetivo de aliviar sintomas, garantir conforto e promover qualidade de vida, respeitando suas vontades e necessidades. A pesquisa evidencia a carência de formação específica e contínua nessa área, refletida no sentimento de despreparo frequentemente relatado por enfermeiros, sobretudo devido à ausência desse conteúdo durante a graduação. O principal objetivo do estudo é promover a conscientização sobre a relevância dos cuidados paliativos e destacar o papel fundamental do enfermeiro nesse contexto, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes e oferecendo suporte adequado às famílias. A metodologia adotada foi qualitativa, baseada em revisão bibliográfica em bases de dados científicas relevantes, como Scielo, BVS e PubMed com análise crítica dos dados coletados, utilizando os seguintes descritores: cuidados paliativos, enfermagem, assistência. Durante a pesquisa, foram encontrados 736 artigos dos quais 8 foram selecionados para análise final. A revisão permitiu identificar lacunas na formação dos enfermeiros e suas implicações na prática clínica, abordando aspectos essenciais como manejo da dor, comunicação efetiva, apoio emocional e o cuidado holístico. Conclui-se que o aprimoramento do conhecimento e a capacitação contínua em cuidados paliativos são indispensáveis para um atendimento humanizado, que assegure dignidade, conforto e acolhimento ao paciente em momentos críticos de sua trajetória.

Palavras-chave: assistência de enfermagem, cuidados paliativos, acolhimento.

Abstract

This study addresses the importance of nursing professionals’ knowledge about palliative care, understood as a care approach aimed at patients with life-threatening illnesses whether terminal or not with the goal of relieving symptoms, ensuring comfort, and promoting quality of life while respecting their wishes and needs. The research highlights the lack of specific and ongoing training in this area, reflected in the frequent reports of unpreparedness by nurses, especially due to the absence of this content during undergraduate education. The main objective of the study is to raise awareness about the relevance of palliative care and to highlight the fundamental role of nurses in this context, contributing to the improvement of patients’ quality of life and providing adequate support to families. The methodology adopted was qualitative, based on a literature review of relevant scientific databases, with a critical analysis of the collected data. The review made it possible to identify gaps in nurses’ training and their implications in clinical practice, addressing essential aspects such as pain management, effective communication, emotional support, and holistic care. It is concluded that the enhancement of knowledge and continuous training in palliative care are essential for humanized care that ensures dignity, comfort, and compassion for the patient during critical moments of their journey.

Keywords: Nursing; Palliative care; Compassionate care; Holistic care.

1. INTRODUÇÃO

Quando falamos em cuidados paliativos (CP), é necessário retornarmos ao movimento dos CP na década de 1970, no século XX, liderado por Cicely Saunders, inglesa com formação em enfermagem, medicina e assistência social, que graças a sua visão, foi capaz de promover esse movimento que hoje conhecemos por CP. Cicely defendia a “dor como um todo”, ou seja, o paciente focando em seus aspectos físicos, emocionais e espirituais. (MOURA, 2019).

Saunders é reconhecida principalmente por criar o primeiro movimento de Hospices, o St. Christopher’s Hospice de Londres, 1967. Cicely expos a importância do uso de medicamentos opioides e a participação de amigos e familiares nessa fase dos CP. (MOURA, 2019).

Os cuidados paliativos são uma abordagem de assistência à saúde que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças em fase terminal, como o câncer, o qual é muito associado. De forma geral, os cuidados paliativos não se restringem apenas ao câncer, mas também em doenças crônicas, neurológicas, cardiovasculares, pulmonares e renais. OS CP não focam no tratamento das doenças, mas sim, no alívio de sintomas e no bem-estar geral do paciente, focando em aspectos físicos, psicossociais e espirituais, de forma holística. (SOUZA, et al, 2022).

Os CP vêm se tornando cada vez mais necessários nos sistemas de saúde, a principal característica é o cuidado integral prestado e a família como núcleo central de apoio. Cicely defendia que a enfermagem prestada para esses pacientes se baseia na compaixão, assistência, comunicação e humanização do cuidado. (CONCEPCIÓN, 2022).

Contudo, sabemos que existem recomendações da OMS/OPAS para profissionais capacitados em CP, no entanto, sabemos sobre a escassez desses profissionais e a necessidade de se ampliar a formação e capacitação de equipes especializadas nos campos de graduação. O cenário atual se encontra em declínio para profissionais de enfermagem, não evidenciando currículos com habilidades necessárias para que os enfermeiros lidem com situações cotidianas presentes nos CP. (CONCEPCIÓN, 2022).

Através dos CP, o profissional tem uma relação mais pessoal com o paciente e seus familiares. A partir disso, surge a necessidade da responsabilidade para saber lidar com as diversas situações. (PEREIRA, et al, 2021).

Nesse sentido, o conhecimento especializado dos enfermeiros, principalmente na enfermagem assistencial e da equipe de saúde da família, se torna fundamental para a implementação de cuidados eficazes para esses pacientes. Profissionais bem-preparados estão aptos a identificar e implementar medidas coerentes diante a sintomas e tratamentos, oferecendo suporte psicológico e intervenções que respeitem a dignidade e vontades do paciente, de forma holística.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Cuidados Paliativos – Necessidade de capacitação aos profissionais da saúde.

Os cuidados paliativos representam uma abordagem essencial na assistência à saúde, voltada para a melhoria da qualidade de vida de pacientes com doenças ameaçadoras da vida e de seus familiares, por meio da prevenção e alívio do sofrimento. No contexto da enfermagem, a capacitação adequada sobre cuidados paliativos torna-se um requisito indispensável para assegurar um atendimento humanizado, ético e eficaz. Dessa forma, analisar a importância do conhecimento dos profissionais de enfermagem nesse campo é crucial para compreender como essa formação impacta diretamente a qualidade do atendimento prestado (SILVA, 2019).

A formação dos profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos influência de maneira decisiva na condução das práticas clínicas. Quando bem capacitados, os enfermeiros conseguem atuar de forma integrada, oferecendo suporte físico, emocional e espiritual aos pacientes. Como destaca Silva et al. (2019, p. 253863), “a comunicação eficaz entre equipe e paciente é fundamental para o sucesso dos cuidados paliativos”, sendo essa uma habilidade que depende diretamente da formação recebida pelos profissionais.

Entretanto, ainda persistem lacunas significativas na formação de enfermeiros nesse campo. Muitos cursos de graduação abordam o tema de maneira superficial, o que compromete a preparação dos profissionais para lidar com a complexidade dos casos que exigem cuidados paliativos. Santos et al. (2018, p. 98) observaram que “os profissionais de saúde demonstraram insegurança e desconhecimento sobre práticas paliativas”, o que reforça a necessidade de maior aprofundamento sobre o tema na formação acadêmica.

Essas lacunas têm implicações graves na prática clínica. A ausência de conhecimentos específicos pode resultar em condutas inadequadas, tratamentos desnecessários e falhas na comunicação com os pacientes e seus familiares. Além disso, a falta de preparo pode afetar a tomada de decisões, comprometendo o bem- estar e a dignidade do paciente em fim de vida. Como relatam Souza et al. (2022, p. 3), “as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde na prática dos cuidados paliativos são reflexo da carência de capacitação e suporte institucional”. Outro aspecto fundamental da formação em cuidados paliativos diz respeito à humanização do atendimento. O conhecimento técnico-científico deve estar aliado a uma postura ética, empática e acolhedora. Ferreira et al. (2020, p. 127) destacam que “os pacientes oncológicos em cuidados paliativos demandam uma atenção integral que vá além do tratamento médico”, evidenciando a importância do preparo emocional e relacional dos enfermeiros.

Nesse sentido, a capacitação dos profissionais de enfermagem deve incluir estratégias para o alívio de sintomas físicos, como dor e fadiga, bem como habilidades para lidar com o sofrimento psíquico e espiritual dos pacientes. Silva, R. A. et al. (2020, p. 238) enfatizam que “a humanização do cuidado exige sensibilidade, escuta ativa e compreensão das necessidades individuais dos pacientes com câncer em cuidados paliativos”. Tal abordagem demanda formação contínua e reflexiva.

O apoio emocional oferecido pelos enfermeiros também é influenciado pela sua formação. Profissionais bem-preparados são capazes de estabelecer vínculos de confiança, acolher medos e angústias e proporcionar conforto em momentos de grande vulnerabilidade. Silva, L. M. et al. (2019, p. 253863) reforçam que “a comunicação sensível é essencial para o acolhimento das demandas emocionais dos pacientes”, sendo essa uma competência a ser desenvolvida ainda na graduação.

O impacto da capacitação se estende também ao trabalho em equipe. O conhecimento em cuidados paliativos favorece a integração entre os diversos membros da equipe multiprofissional, promovendo uma abordagem colaborativa e centrada no paciente. Souza et al. (2022, p. 5) argumentam que “a capacitação dos profissionais favorece o diálogo interprofissional e fortalece o planejamento compartilhado do cuidado”, essencial para a eficácia das ações paliativas.

Além disso, a formação adequada permite que o enfermeiro compreenda a importância da autonomia do paciente e da sua participação nas decisões sobre o tratamento. Isso está alinhado aos princípios da bioética e ao respeito pela dignidade humana. Como afirmam Ferreira et al. (2020, p. 128), “a escuta das preferências dos pacientes é um componente indispensável no processo de cuidado humanizado”.

A falta de preparo, por outro lado, pode gerar sentimento de frustração, ansiedade e até mesmo burnout nos profissionais, especialmente quando se deparam com o sofrimento contínuo e a terminalidade da vida. Santos et al. (2018, p. 980775) destacam que “o despreparo dos profissionais diante da morte causa sofrimento e sensação de impotência”, o que compromete tanto o cuidado quanto a saúde mental da equipe.

Dessa forma, a inclusão de conteúdos teóricos e práticos sobre cuidados paliativos nos currículos de enfermagem é uma necessidade urgente. A formação inicial deve ser complementada por programas de educação continuada, que possibilitem a atualização e o aperfeiçoamento constante dos profissionais. Souza et al. (2022, p. 6) defendem que “a educação permanente é estratégica para fortalecer as práticas paliativas nos serviços de saúde”.

Outro ponto importante é a criação de espaços de reflexão e suporte para os enfermeiros, como grupos de escuta e supervisão clínica, que contribuam para o manejo das emoções e da sobrecarga. A valorização desses aspectos contribui para a construção de uma prática mais ética, segura e humanizada.

É necessário também que gestores e instituições de saúde reconheçam a importância dos cuidados paliativos e invistam em políticas de capacitação, protocolos assistenciais e estrutura física adequada. Silva, R. A. et al. (2020, 240) apontam que “a efetivação dos cuidados paliativos depende do comprometimento institucional com a formação e o apoio aos profissionais”.

A formação em cuidados paliativos deve, portanto, ser compreendida como um direito do profissional e uma condição para o exercício pleno da sua função. Sem esse preparo, é impossível garantir o cuidado integral e digno que os pacientes em situação de vulnerabilidade demandam. Ferreira et al. (2020, p. 130) ressaltam que “o cuidado paliativo é uma expressão de humanidade e solidariedade no contexto da saúde”.

Em síntese, a qualificação dos profissionais de enfermagem em cuidados paliativos está diretamente relacionada à qualidade do atendimento prestado, ao alívio do sofrimento e à promoção da dignidade dos pacientes. Investir nessa formação é investir em uma saúde mais humana e sensível às reais necessidades da vida.

Portanto, identificar as lacunas formativas e suas consequências, bem como avaliar a relação entre capacitação e qualidade do cuidado, é essencial para o aprimoramento das práticas de enfermagem. Apenas por meio de uma formação sólida e contínua será possível transformar o cuidado paliativo em um pilar ético e técnico do sistema de saúde.

Conclui-se que o conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos é uma ferramenta fundamental para assegurar o bem-estar de pacientes em fase terminal. A formação adequada permite não apenas o manejo de sintomas físicos, mas também o acolhimento das dimensões emocionais, sociais e espirituais, promovendo um cuidado verdadeiramente integral.

Lacuna na formação dos profissionais.

A formação dos profissionais de enfermagem no campo dos cuidados paliativos é um fator decisivo para a qualidade da assistência prestada a pacientes em condição terminal. A complexidade dos cuidados nesse contexto exige mais do que conhecimentos técnicos; requer sensibilidade, preparo emocional e habilidades específicas voltadas para o alívio do sofrimento e o respeito à dignidade humana (SILVA, 2019).

De acordo com Minosso (2019) estudos apontam lacunas significativas na formação acadêmica e continuada desses profissionais, refletindo diretamente na prática clínica. Essa deficiência gera impactos não apenas na qualidade do atendimento, mas também no bem-estar do próprio profissional diante das situações de dor e morte.

De acordo com a pesquisa realizada por Minosso (2019, p. 123), futuros enfermeiros em países lusófonos demonstram “crenças limitadas de autoeficácia em cuidados paliativos”, o que evidencia a necessidade de intervenções pedagógicas mais eficazes nas instituições de ensino. Essa limitação compromete o desenvolvimento de competências essenciais, como o manejo da dor, a comunicação com o paciente e a família, e a tomada de decisões éticas diante do sofrimento iminente.

A lacuna formativa também é apontada na pesquisa realizada por Pereira et al. (2021, p. 432), na qual se afirma que “grande parte dos profissionais desconhece os princípios básicos dos cuidados paliativos, o que pode comprometer a assistência integral ao paciente”. Tal desconhecimento impede que os enfermeiros reconheçam os sinais de declínio funcional e limita a sua atuação nas fases mais críticas da doença, impactando negativamente o controle de sintomas e o conforto do paciente.

Os cuidados paliativos exigem uma abordagem integral e multidisciplinar, conforme defende González (2005, p. 3), ao afirmar que “o cuidado paliativo não se limita à assistência médica, mas deve abranger aspectos psicológicos, sociais e espirituais”. Essa perspectiva exige do enfermeiro uma postura ampliada de cuidado, que vai além da técnica e incorpora práticas comunicativas, escuta ativa e apoio emocional, aspectos muitas vezes negligenciados nos currículos de formação.

A ausência de uma formação adequada interfere diretamente na capacidade do profissional de prestar cuidados humanizados e centrados no paciente. Conforme destaca o estudo da revista Aquichan (2022, p. 4), “a carência de preparo específico torna o enfermeiro vulnerável e pode gerar atitudes inadequadas diante do sofrimento do paciente e da sua família”. Essa vulnerabilidade, por sua vez, contribui para o aumento do desgaste emocional e do estresse ocupacional entre os profissionais.

Por outro lado, a capacitação continuada mostra-se eficaz na superação dessas limitações. Programas de educação permanente, workshops e cursos específicos podem ampliar o repertório técnico e emocional dos profissionais, como afirma Minosso (2019, p. 178): “a intervenção pedagógica direcionada aos cuidados paliativos contribui significativamente para o fortalecimento da autoeficácia e da confiança do profissional”. Dessa forma, o cuidado prestado se torna mais seguro, empático e resolutivo.

É importante destacar que o desconhecimento dos princípios paliativistas pode gerar ações contraproducentes na assistência, como o prolongamento desnecessário do sofrimento e a medicalização excessiva. Pereira et al. (2021, p. 434) reforçam que “a falta de conhecimento pode levar o profissional a adotar condutas que vão contra os objetivos dos cuidados paliativos, como a obstinação terapêutica”. Isso fere o princípio da não maleficência e compromete a qualidade de vida do paciente.

Além disso, a formação deficitária compromete a habilidade do enfermeiro em lidar com a morte como um processo natural. Muitos profissionais ainda veem o óbito como uma falha terapêutica, o que gera sentimento de frustração e insegurança. Conforme aponta o estudo da revista Aquichan (2022, p. 6), “há uma necessidade urgente de desconstruir o paradigma curativista e preparar o enfermeiro para acolher o processo de finitude com ética e empatia”. Essa mudança de mentalidade só é possível com formação sólida e contínua.

A qualidade do cuidado paliativo está diretamente associada à competência do enfermeiro em identificar e aliviar sintomas como dor, dispneia, ansiedade e fadiga. González (2005, p. 7) enfatiza que “o controle dos sintomas é a base do cuidado paliativo eficaz”, e que sua ausência leva à desumanização do atendimento. Quando bem-preparado, o profissional é capaz de planejar intervenções seguras e individualizadas, promovendo conforto e bem-estar.

Outro aspecto fundamental é a comunicação com o paciente e seus familiares. Uma escuta qualificada, aliada à transmissão clara de informações, fortalece o vínculo terapêutico e favorece a aceitação do processo de morte. No entanto, como destaca Minosso (2019, p. 204), “a comunicação em cuidados paliativos ainda é pouco abordada nas grades curriculares de enfermagem”, o que dificulta a atuação empática e assertiva do enfermeiro.

O apoio emocional também faz parte das atribuições do enfermeiro em cuidados paliativos, sendo crucial para a manutenção da dignidade do paciente. A escassez de preparo nessa dimensão do cuidado pode resultar em abandono afetivo e no agravamento do sofrimento psíquico do paciente. O estudo de Pereira et al. (2021, p. 433) aponta que “profissionais que não se sentem preparados evitam o contato emocional com o paciente terminal”, o que compromete a integralidade da assistência.

Diante disso, torna-se evidente a relação entre a capacitação dos enfermeiros e a qualidade do manejo de suas atribuições. Enfermeiros bem formados atuam com mais autonomia, segurança e empatia, sendo capazes de proporcionar cuidados centrados na pessoa. A lacuna na formação, ao contrário, perpetua práticas mecanizadas e distantes das necessidades reais dos pacientes em cuidados paliativos (MINOSSO, 2019).

A análise dos estudos revisados indica que a inclusão de conteúdos específicos sobre cuidados paliativos nos cursos de graduação e pós-graduação em enfermagem é uma medida urgente. Além disso, é necessário fomentar políticas institucionais de educação permanente que abordem não apenas os aspectos clínicos, mas também os éticos, comunicacionais e emocionais do cuidado.

A superação da lacuna formativa em cuidados paliativos é uma responsabilidade coletiva, envolvendo instituições de ensino, gestores de saúde e os próprios profissionais (AQUICHAN, 2022). O fortalecimento da formação é essencial para garantir um cuidado digno, humano e qualificado àqueles que enfrentam o fim da vida. Assim, promover a capacitação adequada dos enfermeiros representa não apenas um avanço técnico, mas um compromisso ético com o respeito à vida e à morte.

Desta forma, em nosso entender, o conhecimento aprofundado sobre cuidados paliativos deve ser um componente central na formação do enfermeiro, pois impacta diretamente a qualidade da assistência prestada. A ausência desse conhecimento compromete o alívio do sofrimento e a humanização do cuidado,

reforçando a necessidade de políticas de capacitação contínua. Diante da complexidade do processo de morrer, é urgente formar profissionais sensíveis, preparados e comprometidos com a dignidade do paciente até o fim da vida.

3. OBJETIVOS

1.1 Objetivos gerais

Analisar a importância do conhecimento dos profissionais de enfermagem acerca dos cuidados paliativos, destacando como essa formação impacta a qualidade do atendimento prestado a pacientes nesta condição.

1.2  Objetivos específicos

Identificar as lacunas na formação dos profissionais de enfermagem em cuidados paliativos e suas consequências na prática clínica e avaliar a relação entre a capacitação dos enfermeiros e o manejo das suas atribuições quanto a prestação de serviços aos pacientes, como no alívio de sintomas, alívio do sofrimento e apoio emocional.

4. MATERIAIS E MÉTODOS

Revisão integrativa, com o seguinte tema deliberado: A importância do conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre de cuidados paliativos. A seleção da amostra deu-se por meio do acesso à base de dados: BVS, PubMed, Scielo. Empregou-se a equivalência de descritores como: “Cuidados paliativos”, “Assistência de Enfermagem”, “Acolhimento de enfermagem”.

Os dados coletados foram organizados e analisados. Foram identificados padrões e tendências coerentes com o tema abordado nos achados da literatura. Como critérios de inclusão: artigos completos com resumos e relacionados ao objeto de pesquisa, indexados nas bases de dados referidas em um período de maio de 2018 a dezembro de 2023.

Com essa metodologia, espera-se proporcionar uma visão abrangente sobre a importância do conhecimento dos profissionais de enfermagem em cuidados paliativos e como é realizada essa abordagem, sobre identificar seus padrões de necessidade.

Figura 1 – Artigos selecionados conforme critérios de inclusão:

Fonte: Elaborado pelos autores.

5. RESULTADOS

A pesquisa final foi composta por uma amostra de 8 artigos, de acordo com os critérios de inclusão propostos e dispostos conforme tabela 1 e 2

Tabela 1 – Estudos encontrados

Fonte: Elaborado pelos autores.

Tabela 2 – Principais resultados encontrados conforme objetivo, metodologia e conclusão.

Fonte: Elaborado pelos autores.

6. DISCUSSÃO

A partir da seleção de 8 produções científicas para compor essa revisão, buscou- se compreender a importância do conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos. A investigação parte do princípio de que o domínio conceitual, metodológico e ético sobre essa prática é um requisito inalienável para a promoção de um cuidado para além do viés biomédico, adentrando os domínios do sofrimento humano em suas múltiplas expressões, físicas, psíquicas, sociais e espirituais.

Antes de se debruçar na temática proposta, julga-se necessário inserir o conceito de cuidados paliativos, que segundo Minosso (2019) a partir da definição dada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), traz que é uma abordagem interdisciplinar que visa promover qualidade de vida a pacientes e familiares diante de doenças ameaçadoras da continuidade da vida. A promoção ocorre por meio da prevenção e do alívio do sofrimento, fundamentados na detecção precoce, na avaliação e manejo da dor e de demais problemas de ordem física, psicossocial e espiritual.

Em outras palavras, como aponta Pereira et al. (2021), busca-se amparar, de forma integral, pessoas no processo de adoecimento, acolhendo suas necessidades clínicas, mas também os aspectos emocionais, sociais e espirituais que permeiam sua vivência frente à finitude.

Contudo, em seu estudo, Silva et al. (2018) discute-se que o conhecimento dos enfermeiros acerca dos cuidados paliativos revela-se, em parte, deficiente. Os resultados da pesquisa, realizada com 59 enfermeiros, corroboram outros estudos que indicam limitações na compreensão dos cuidados paliativos por esses profissionais, situação que se relaciona ao déficit de abordagem sobre o cuidado aos pacientes fora da possibilidade terapêutica durante a formação acadêmica.

Os autores enfatizam que ainda há cursos de graduação em Enfermagem estruturados sob um modelo centrado nos aspectos fisiopatológicos da doença, com foco prioritário na cura e na reabilitação. Direcionamento formativo que acaba por gerar nos futuros profissionais sentimento de impotência, frustração e insegurança, uma vez que não são devidamente preparados para lidar com a fase terminal do processo de adoecimento. De fato, observa-se a ausência de uma preparação adequada para o enfrentamento dessa realidade, diferente do que ocorre com o preparo voltado à preservação e manutenção da vida (Silva et al., 2018).

No estudo realizado por Minosso (2019), com uma amostra de 545 estudantes de Enfermagem, constatou-se um baixo nível de conhecimento em relação aos cuidados paliativos, acompanhado de dificuldades práticas e equívocos conceituais sobre o tema. Achados que reiteram o problema da formação acadêmica em enfermagem, e mostram um panorama preocupante quanto à capacidade dos futuros profissionais de lidarem diante da terminalidade e do sofrimento irreversível. A autora explica ainda que, quando o currículo acadêmico negligência o ensino dos cuidados paliativos, perpetua-se um ciclo de profissionais despreparados para abordar as dimensões psicológica, espiritual e social do paciente em fase avançada de doença.

Para Concepción (2022), o cenário atual dos cuidados paliativos enfrenta a dificuldade de uma formação ainda desalinhada às exigências dessa prática. O autor evidencia a carência tanto nos currículos de graduação quanto na formação pós-graduada, sinalizando falhas na qualificação profissional.

Corroborando os resultados anteriormente mencionados, Pereira et al. (2021), em um estudo conduzido com 20 profissionais de enfermagem, também identificaram dificuldades significativas desses trabalhadores no atendimento a pacientes inseridos no contexto dos cuidados paliativos. O estudo evidencia que os profissionais possuem uma percepção contraditória acerca dessa prática, o que se manifesta na presença de fatores que intervêm negativamente na efetiva implementação dos cuidados paliativos. Soma-se a isso o desconhecimento em relação às legislações, diretrizes e normativas que orientam e regulamentam tal modalidade de cuidado. Os próprios participantes do estudo reconhecem a necessidade de capacitação e treinamento voltados à abordagem dos cuidados paliativos, tanto no âmbito da formação inicial quanto no desenvolvimento profissional continuado.

O estudo de Alves e Oliveira (2022), com 23 profissionais de saúde, também evidenciou a fragilidade na formação acadêmica para atuação em cuidados paliativos, destacando a necessidade de maior investimento em capacitação. Os participantes foram unânimes ao apontar a carência de discussões sobre terminalidade e qualidade da morte durante a formação, o que compromete a preparação para lidar com o fim da vida de forma ética e qualificada.

O estudo de Sartori et al. (2023), realizado com 14 profissionais de saúde, revelou dificuldades na compreensão e no enfrentamento dos cuidados paliativos no âmbito ambulatorial e domiciliar. Quando questionados sobre a prática dos cuidados paliativos em sua rotina, os profissionais tendiam a associá-los quase que exclusivamente ao ambiente hospitalar, sendo necessário estimulá-los para que considerassem a articulação com a Atenção Primária à Saúde (APS) como espaço possível e pertinente para tais cuidados. Entre as principais barreiras identificadas para o desenvolvimento efetivo dos cuidados paliativos, destacou-se a baixa capacitação dos profissionais envolvidos, evidenciando uma limitação formativa que compromete a expansão e a qualidade dessa assistência fora do contexto hospitalar.

O estudo de Souza et al. (2023), realizado com 10 enfermeiras assistenciais, apresentou resultados semelhantes aos autores supracitados, visto que revelou um déficit de conhecimento sobre os princípios dos cuidados paliativos, com repercussões na prática assistencial. As participantes demonstraram divergências na compreensão dos conflitos bioéticos inerentes à terminalidade da vida, além de dificuldades no manejo da dor e de outros sintomas característicos dos CP. Embora 60% das enfermeiras afirmassem sentir-se aptas a prestar cuidados paliativos, a maioria apresentou certo desconhecimento sobre o tema, evidenciando uma incongruência entre a autopercepção de competência e a efetiva preparação para o cuidado nesse contexto.

O estudo de Souza et al. (2022), realizado com 10 profissionais da equipe de enfermagem atuantes no setor de cuidados paliativos de um hospital, revelou que, para a maioria dos entrevistados, a atuação em cuidados paliativos não foi fruto de uma escolha deliberada ou do domínio de conhecimentos adquiridos durante a formação acadêmica. O cenário investigado evidenciou a ausência de abordagem adequada sobre o tema nas instituições de ensino, bem como a necessidade de melhor qualificação dos profissionais de saúde nessas áreas.

Observa-se, portanto, que todos os estudos analisados convergem ao evidenciar a fragilidade na formação dos profissionais de enfermagem em cuidados paliativos, marcada por desconhecimento e/ou despreparo em relação a aspectos conceituais, técnicas e éticas. Observa-se um preparo insuficiente tanto na graduação quanto na formação continuada, limitando a atuação qualificada diante da terminalidade.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os principais achados neste estudo permitem afirmar que o conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos é imprescindível para a oferta de uma assistência integral, humanizada e alinhada às reais necessidades de pacientes acometidos por doenças ameaçadoras à vida, sejam ou não em fase terminal. Os cuidados paliativos, ao priorizarem o alívio de sintomas, o conforto e a promoção da qualidade de vida, demandam do enfermeiro competências técnicas, habilidades éticas, comunicacionais e emocionais para respeitar as vontades do paciente e oferecer suporte às famílias.

Contudo, em todos os estudos analisados, identificou-se um ponto comum: a insuficiência na formação acadêmica e na capacitação continuada dos profissionais de enfermagem quanto à prática dos cuidados paliativos. As produções científicas evidenciam um cenário de desconhecimento, insegurança e dificuldades na prática, principalmente no manejo da dor, na comunicação sobre a terminalidade e na condução ética do cuidado, fatores que comprometem a qualidade da assistência e a humanização deste processo.

Diante disso, reafirma-se a necessidade de reestruturar os currículos de graduação e de investir em programas permanentes de capacitação e educação em serviço, de modo a qualificar o enfermeiro para seu papel nesse contexto. O fortalecimento do conhecimento em cuidados paliativos é um passo indispensável para transformar o cuidado prestado, promovendo a dignidade em todas as suas fases.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Graduação em Enfermagem

2Graduação em Enfermagem

3Especialista em Enfermagem obstétrica, Obstetrícia Social e Unidade de Terapia Intensiva

4Especialista em Unidade de Terapia Intensiva, Urgência e Emergência, Oncologia e Enfermagem do Trabalho.

5Especialista em Doenças Crônicas e Cuidados Paliativos

6Doutora em Enfermagem

7Mestre em Promoção de Saúde

7Mestre em Saúde e Educação