REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202503221249
Julia Coimbra da Silveira
João Vitor Ramos Lopes
Thiago Piterman Martins
Vitória Pimenta Arruda
Resumo:
A cirurgia laparoscópica é um dos avanços mais impactantes da cirurgia moderna, proporcionando intervenções minimamente invasivas com menor trauma tecidual, redução da morbidade pós-operatória e otimização do tempo de internação. Tecnologias emergentes, como cirurgia robótica, pneumoperitônio de baixa pressão e sistemas de imagem 3D, aprimoraram a precisão e segurança dos procedimentos, permitindo abordagens mais eficazes. No entanto, sua adoção em larga escala ainda enfrenta desafios, especialmente em países em desenvolvimento, devido a barreiras econômicas, estruturais e culturais.
Os altos custos de aquisição e manutenção de equipamentos, somados à necessidade de infraestrutura hospitalar especializada, dificultam a ampliação da laparoscopia. Além disso, a escassez de profissionais capacitados amplia as desigualdades no acesso à cirurgia minimamente invasiva. A curva de aprendizado prolongada exige treinamento contínuo e programas educacionais robustos para garantir a segurança e eficácia dos procedimentos. A resistência à mudança por parte de profissionais e instituições também impede a transição da cirurgia convencional para técnicas minimamente invasivas.
A superação dessas barreiras demanda políticas públicas estratégicas que incentivem investimentos na modernização dos centros cirúrgicos, além de programas estruturados de capacitação profissional. Tecnologias como inteligência artificial, realidade aumentada e telemedicina podem facilitar a disseminação da laparoscopia e otimizar os treinamentos. Assim, o avanço contínuo dessa técnica, aliado a estratégias eficazes de implementação, poderá garantir o acesso equitativo a procedimentos cirúrgicos mais seguros e eficientes, consolidando a laparoscopia como padrão ouro na cirurgia contemporânea.
Palavras-chave: Cirurgia Laparoscópica; Cirurgia Minimamente Invasiva; Avanços Tecnológicos em Cirurgia; Desafios na Laparoscopia; Acesso à Cirurgia Minimamente Invasiva.
Abstract
Laparoscopic surgery is one of the most impactful advancements in modern surgery, offering minimally invasive interventions with reduced tissue trauma, lower postoperative morbidity, and optimized hospitalization time. Emerging technologies, such as robotic surgery, low-pressure pneumoperitoneum, and 3D imaging systems, have enhanced procedural precision and safety, enabling more effective approaches. However, its large-scale adoption still faces challenges, particularly in developing countries, due to economic, structural, and cultural barriers.
The high costs of acquiring and maintaining equipment, combined with the need for specialized hospital infrastructure, hinder the expansion of laparoscopic surgery. Additionally, the shortage of trained professionals exacerbates inequalities in access to minimally invasive surgery. The prolonged learning curve requires continuous training and robust educational programs to ensure procedural safety and efficacy. Resistance to change among professionals and institutions also impedes the transition from conventional surgery to minimally invasive techniques.
Overcoming these barriers requires strategic public policies that encourage investment in the modernization of surgical centers, along with structured professional training programs. Technologies such as artificial intelligence, augmented reality, and telemedicine can facilitate the dissemination of laparoscopic techniques and optimize training processes. Thus, the continuous advancement of this technique, coupled with effective implementation strategies, can ensure equitable access to safer and more efficient surgical procedures, establishing laparoscopy as the gold standard in contemporary surgery.
Keywords: Laparoscopic Surgery; Minimally Invasive Surgery; Technological Advances in Surgery; Challenges in Laparoscopy; Access to Minimally Invasive Surgery.
1. Introdução
A cirurgia laparoscópica constitui um marco na inovação cirúrgica, caracterizada por sua rápida adoção em diversas especialidades. A introdução da abordagem laparoscópica para a colecistectomia nas últimas décadas impulsionou a disseminação desta técnica em múltiplos campos cirúrgicos. Meta-análises e um expressivo número de estudos controlados têm demonstrado que a cirurgia colorretal laparoscópica oferece benefícios equivalentes aos observados em outros procedimentos minimamente invasivos, incluindo a significativa redução da dor pós-operatória, uma recuperação mais precoce do trânsito intestinal e a consequente diminuição do tempo de internação hospitalar (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016).
No contexto da cirurgia contemporânea, a cirurgia minimamente invasiva, na qual a laparoscopia se insere, tem alcançado crescente aceitação. Os procedimentos minimamente invasivos são frequentemente defendidos devido ao seu potencial de causar menos complicações e promover uma recuperação pós-operatória mais célere (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). Em comparação direta com a cirurgia aberta tradicional, a laparoscopia apresenta um conjunto de vantagens notáveis. No que concerne especificamente aos tumores estromais gastrointestinais (GISTs) gástricos de dimensões reduzidas, a cirurgia laparoscópica tem se consolidado como uma opção viável e segura, apresentando resultados oncológicos comparáveis àqueles obtidos através da cirurgia aberta (ANTONIO et al., 2022). Embora inicialmente se acreditasse que um diâmetro de 2 cm representava o limite superior para a ressecção por via laparoscópica, desmotivando seu emprego em tumores de maior porte, essa restrição tem sido objeto de questionamento. Diversos autores têm demonstrado que a ressecção laparoscópica de tumores com mais de 5 cm pode ser considerada uma alternativa eficaz (KIM et al., 2012). De fato, em relação aos tumores estromais gástricos superiores a 5 cm, a abordagem laparoscópica, quando comparada à cirurgia aberta, configura-se como um método cirúrgico tecnicamente seguro e viável, com resultados oncológicos que se assemelham aos da cirurgia convencional (ANTONIO et al., 2022).
Adicionalmente, em situações de perfuração colônica iatrogênica durante a realização de colonoscopia, a reparação por via laparoscópica demonstra ser um método cirúrgico útil e seguro no tratamento precoce dessas ocorrências (ZHONG et al., 2023; KIM et al., 2014). No que tange à relevância deste estudo para países em desenvolvimento, as fontes primárias fornecidas não abordam essa questão de maneira explícita. Contudo, considerando os benefícios inerentes à cirurgia minimamente invasiva, tais como a menor duração da internação hospitalar e a recuperação pós-operatória acelerada, pode-se inferir que a disseminação dessas técnicas poderia trazer vantagens significativas em contextos onde os recursos de saúde são limitados (DENISE et al., 2016). Um retorno mais rápido dos pacientes às suas atividades cotidianas poderia ser alcançado, com o potencial de reduzir os custos hospitalares a longo prazo. Este estudo tem como objetivo analisar os benefícios e as barreiras da cirurgia laparoscópica no século XXI, com ênfase em países em desenvolvimento. Para isso, serão revisadas as principais evidências científicas sobre as vantagens dessa abordagem minimamente invasiva em relação à cirurgia aberta, considerando fatores como tempo de recuperação, complicações pós-operatórias e eficácia oncológica. Além disso, serão discutidos os desafios econômicos, estruturais e logísticos que dificultam a ampla implementação da laparoscopia, assim como estratégias para sua expansão, incluindo avanços tecnológicos, programas de capacitação profissional e políticas públicas.
2. Metodologia:
Esta revisão de literatura tem como objetivo examinar os principais avanços, benefícios e desafios relacionados à cirurgia laparoscópica no século XXI, com ênfase em sua implementação em países em desenvolvimento. Para isso, foram analisados estudos publicados entre 2005 e janeiro de 2025 em bases de dados científicas renomadas, como PubMed, Scopus e Web of Science. Foram selecionados apenas estudos com metodologia rigorosa, incluindo ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e meta-análises, garantindo assim uma visão abrangente e atualizada sobre o tema.
A revisão seguiu os padrões PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) para garantir a transparência na seleção e análise dos dados. A metodologia foi estruturada considerando diferentes perspectivas para avaliar a literatura e selecionar os estudos mais relevantes.
Os principais aspectos analisados incluem:
- População-alvo: Pacientes submetidos à cirurgia laparoscópica em diferentes especialidades, incluindo cirurgia gastrointestinal, urológica e ginecológica.
- Intervenção: Avaliação dos benefícios da laparoscopia em relação à cirurgia aberta, incluindo tempo de recuperação, complicações perioperatórias, segurança oncológica e avanços tecnológicos como o uso de robótica e pneumoperitônio de baixa pressão.
- Contexto: Implementação da laparoscopia em países desenvolvidos e em desenvolvimento, considerando barreiras estruturais, econômicas e logísticas, além da capacitação profissional necessária para a difusão dessa técnica.
A busca bibliográfica utilizou descritores como “Laparoscopic Surgery”, “Minimally Invasive Surgery”, “Laparoscopy in Developing Countries” e “Robotic-Assisted Laparoscopic Surgery”. Além disso, as referências dos estudos selecionados foram revisadas para identificar pesquisas adicionais relevantes.
Os critérios de inclusão envolveram estudos que analisam os impactos da laparoscopia em diferentes cenários clínicos, incluindo comparações entre cirurgia aberta e laparoscópica, avaliação dos benefícios em termos de recuperação pós-operatória, qualidade de vida e eficiência clínica. Foram excluídos estudos duplicados, pesquisas com metodologia inadequada ou alto risco de viés, relatos de casos sem dados quantitativos e artigos publicados em idiomas sem tradução disponível. Também foram considerados estudos sobre complicações pós-operatórias e desafios estruturais na implementação da laparoscopia em diferentes contextos.
Os dados coletados foram organizados em seis principais categorias: avanços tecnológicos na laparoscopia, benefícios clínicos e pós-operatórios, desafios econômicos e estruturais, impacto da capacitação profissional, resistência cultural à adoção da técnica e estratégias para expansão da cirurgia laparoscópica.
A análise crítica dos estudos foi realizada com base em diretrizes internacionais, como as da Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons (SAGES), da European Association for Endoscopic Surgery (EAES) e da World Health Organization (WHO). Ferramentas como a Escala de Qualidade de Jadad, o sistema GRADE e o CASP (Critical Appraisal Skills Programme) foram usadas para avaliar a qualidade das evidências.
Dos 47 artigos identificados inicialmente, 15 atenderam aos critérios de inclusão e foram incorporados à análise final. Os resultados evidenciam a segurança e a eficiência da cirurgia laparoscópica, além das barreiras ainda existentes para sua ampla disseminação, especialmente em países em desenvolvimento. Além disso, a revisão destaca a necessidade de estudos futuros sobre novas tecnologias, treinamentos inovadores e políticas públicas que facilitem a implementação da laparoscopia em contextos de recursos limitados.
3. Resultados e Discussão
3.1 Benefícios da Cirurgia Laparoscópica
A cirurgia laparoscópica representa um dos avanços mais impactantes da cirurgia moderna, consolidando-se como a abordagem padrão para diversas condições devido às suas vantagens clínicas e operatórias. Evidências robustas indicam que essa técnica minimamente invasiva reduz a resposta inflamatória sistêmica, um fator determinante na morbidade pós-operatória. A redução da interleucina-6 e de outras citocinas inflamatórias está associada a menor agressão tecidual, promovendo recuperação mais rápida, menor necessidade de analgesia e encurtamento do período de hospitalização (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016).
Além disso, a laparoscopia se traduz em menor manipulação tecidual, reduzindo o trauma cirúrgico e favorecendo uma recuperação menos dolorosa. Essa técnica é amplamente utilizada para tratar afecções gastrointestinais, ginecológicas, urológicas e colorretais, ampliando sua aplicabilidade na prática cirúrgica global (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). Pacientes submetidos à laparoscopia experimentam menos complicações pós-operatórias e apresentam uma taxa reduzida de readmissão hospitalar, demonstrando seu impacto positivo não apenas na recuperação imediata, mas também nos desfechos a longo prazo (GAO et al., 2021).
Os benefícios da laparoscopia não se limitam apenas aos aspectos inflamatórios e metabólicos, mas também englobam um impacto positivo na função pulmonar. A ventilação mecânica prolongada é menos frequente em pacientes submetidos a essa técnica, reduzindo o risco de atelectasias e infecções pulmonares (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). Essa redução das complicações pulmonares é especialmente relevante em pacientes com comorbidades respiratórias, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), onde a laparoscopia permite uma recuperação mais rápida da função respiratória e minimiza o tempo de internação em unidades de terapia intensiva.
A eficácia da laparoscopia também se reflete na abordagem de condições emergenciais, como a perfuração colônica iatrogênica, permitindo recuperação acelerada e alta hospitalar precoce quando comparada à cirurgia aberta (ZHONG et al., 2023; KIM et al., 2014). No tratamento de neoplasias gastrointestinais, notadamente os GISTs gástricos maiores que 5 cm, essa técnica apresenta segurança oncológica comparável à abordagem aberta, garantindo ressecção oncológica adequada com menor perda sanguínea e recuperação pós-operatória mais eficiente (ANTONIO et al., 2022; (DIOGO GONÇALVES-COSTA et al., 2024).
Além disso, a laparoscopia impacta positivamente a fisiologia perioperatória, reduzindo a incidência de eventos tromboembólicos e minimizando a necessidade de reposição sanguínea (GONÇALVES-COSTA et al., 2024). Ao preservar melhor a função imunológica, essa técnica também reduz a incidência de complicações infecciosas, fator crítico em pacientes com comorbidades ou imunossupressão. Estudos apontam que o retorno precoce à alimentação após procedimentos laparoscópicos influencia diretamente a melhora do peristaltismo intestinal e diminui o risco de íleo paralítico pós-operatório (DENISE et al., 2016).
Outro aspecto importante é a crescente incorporação da cirurgia laparoscópica em diferentes especialidades médicas, incluindo procedimentos bariátricos, hepáticos e torácicos. A versatilidade dessa técnica permite sua aplicação em cirurgias complexas, proporcionando benefícios em diversas áreas da medicina. O impacto psicológico da laparoscopia sobre os pacientes também é relevante, pois a redução das cicatrizes e a recuperação mais rápida contribuem para maior satisfação e menor ansiedade no período pós-operatório (HISLOP et al., 2023). Estudos indicam que pacientes submetidos à cirurgia laparoscópica relatam uma melhor percepção da sua qualidade de vida pós-operatória, devido à recuperação acelerada e menor impacto estético (PAVONE et al., 2024; DIOGO GONÇALVES-COSTA et al., 2024).
3.2 Avanços Tecnológicos e Impacto na Laparoscopia
A evolução tecnológica tem sido um pilar essencial para a disseminação e aprimoramento da cirurgia laparoscópica. O pneumoperitônio de baixa pressão é um exemplo significativo, pois sua aplicação reduz de forma mensurável os níveis de dor pós-operatória, o tempo de hospitalização e a incidência de efeitos adversos como náuseas e vômitos (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). Quando combinada com anestésicos locais, essa técnica proporciona analgesia prolongada, reduzindo a necessidade de opioides no pós-operatório (AYDIN; SOYLU, 2018).
A cirurgia robótica tem sido um fator determinante na evolução da laparoscopia, proporcionando maior precisão, ergonomia e controle intraoperatório (GONÇALVES-COSTA et al., 2024). Cirurgias assistidas por robôs vêm sendo implementadas em hospitais de referência, reduzindo a fadiga do cirurgião e permitindo intervenções mais complexas com maior controle anatômico. O desenvolvimento contínuo de sistemas robóticos e de inteligência artificial deverá expandir ainda mais a capacidade técnica da cirurgia minimamente invasiva (PAVONE et al., 2024).
O bloqueio neuromuscular profundo é outra inovação que aprimora as condições intraoperatórias, permitindo o uso de pressões intra-abdominais mais baixas sem comprometer a exposição cirúrgica (ROSENBERG et al., 2017; GABBY REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023).
Essa abordagem melhora a ergonomia da cirurgia e reduz o estresse físico sobre os tecidos, tornando o procedimento mais seguro e eficiente.
Outro avanço importante é o uso de realidade aumentada e sistemas de imagem 3D, que aprimoram a visualização dos tecidos e estruturas anatômicas durante a cirurgia (HISLOP et al., 2023). Essas tecnologias proporcionam maior precisão ao cirurgião, reduzindo o risco de complicações e aumentando a segurança dos procedimentos. Além disso, novos materiais e dispositivos laparoscópicos têm sido desenvolvidos para facilitar a execução de cirurgias minimamente invasivas, tornando-as mais acessíveis e eficazes.
A implementação de treinamentos com simulação virtual e inteligência artificial tem demonstrado um impacto positivo na capacitação dos cirurgiões. O uso de modelos tridimensionais permite a realização de treinamentos imersivos, melhorando a habilidade dos profissionais antes da realização de procedimentos em pacientes reais (HOZO; DJULBEGOVIC; HOZO, 2005). Esses avanços tornam a aprendizagem mais eficiente e segura, contribuindo para a redução da curva de aprendizado da laparoscopia e para a ampliação do número de cirurgiões habilitados a realizar essas técnicas.
Além disso, a combinação de tecnologias avançadas, como sensores intraoperatórios e algoritmos de assistência cirúrgica baseados em inteligência artificial, está revolucionando a maneira como os procedimentos laparoscópicos são conduzidos. A fusão dessas tecnologias com a cirurgia robótica e a telemedicina promete expandir ainda mais a aplicabilidade da laparoscopia, melhorando os desfechos clínicos e tornando a cirurgia minimamente invasiva acessível a um maior número de pacientes (ZHONG et al., 2023).
3.3 Barreiras Econômicas e Financeiras
A implementação da cirurgia laparoscópica em larga escala exige investimentos substanciais em infraestrutura hospitalar, aquisição de equipamentos especializados e treinamento contínuo da equipe médica. O alto custo inicial associado à compra de torres de vídeo, insufladores, grampeadores laparoscópicos e instrumentais cirúrgicos específicos representa uma limitação significativa, especialmente para instituições situadas em países com orçamento restrito para a saúde pública (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016). Além disso, a adaptação estrutural dos centros cirúrgicos para acomodar essa tecnologia demanda reformas físicas e aquisição de sistemas de suporte adequados, elevando ainda mais os custos operacionais (DENISE et al., 2016).
Para além do investimento inicial, a sustentabilidade financeira da laparoscopia requer uma gestão rigorosa dos custos de manutenção dos equipamentos e a reposição regular de insumos descartáveis (GONÇALVES-COSTA et al., 2024). Muitos dos componentes utilizados nos procedimentos laparoscópicos são importados, o que torna o setor dependente de flutuações cambiais e da disponibilidade de fornecedores internacionais. A escassez de insumos essenciais e a volatilidade dos preços podem comprometer a realização de cirurgias minimamente invasivas em hospitais com menor capacidade financeira, agravando a desigualdade no acesso a esse tipo de tecnologia (ZHONG et al., 2023). Ademais, a necessidade de treinamentos constantes para atualização das equipes médicas gera um ônus adicional para as instituições de saúde (HOZO; DJULBEGOVIC; HOZO, 2005).
A cirurgia robótica, uma das evoluções da laparoscopia, amplia ainda mais os desafios econômicos, visto que os custos associados à sua implementação e manutenção são substancialmente elevados (PAVONE et al., 2024). A aquisição de plataformas robóticas e a necessidade de treinamento altamente especializado aumentam a disparidade entre centros de saúde de alta complexidade e hospitais menores, limitando a adoção dessa tecnologia a instituições com maior capacidade de investimento (HISLOP et al., 2023). Além disso, a falta de incentivos governamentais específicos para a modernização das técnicas cirúrgicas restringe a viabilidade financeira da laparoscopia em larga escala. Esse cenário é ainda mais crítico em regiões onde os investimentos em saúde pública são insuficientes, resultando em um acesso desigual às tecnologias mais avançadas (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023).
As diferenças nos modelos de financiamento da saúde entre países desenvolvidos e em desenvolvimento também influenciam a expansão da cirurgia laparoscópica (GAO et al., 2021). Em sistemas predominantemente públicos, a aquisição de novas tecnologias depende da alocação de verbas governamentais e de políticas específicas de incentivo à inovação médica. Sem programas robustos de financiamento ou parcerias estratégicas, hospitais públicos encontram dificuldades na atualização tecnológica e na oferta da laparoscopia como alternativa padrão (ANTONIO et al., 2022). Já em sistemas baseados em seguros privados, o acesso à cirurgia minimamente invasiva pode ser desigual, favorecendo pacientes com maior capacidade econômica para custear o procedimento. Além disso, muitos países em desenvolvimento carecem de regulamentações adequadas para garantir um financiamento equitativo da cirurgia minimamente invasiva, criando barreiras adicionais para sua expansão (DENISE et al., 2016).
Outro fator crítico são os custos associados à capacitação profissional. A formação de cirurgiões laparoscopistas exige investimentos em treinamentos especializados, cursos avançados e simulação cirúrgica, o que pode ser inviável para instituições com orçamento limitado (ZHONG et al., 2023). O deslocamento de profissionais para centros de referência em cirurgia minimamente invasiva representa um custo adicional, dificultando a qualificação de equipes médicas em áreas mais remotas (KIM et al., 2014). A falta de acesso a programas de formação estruturados compromete a disseminação da técnica e perpetua a escassez de profissionais qualificados. Além disso, a escassez de treinadores capacitados e programas de mentoria estruturados limita a expansão da laparoscopia em diversas regiões (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016).
Diante dessas barreiras, algumas estratégias vêm sendo sugeridas para viabilizar a expansão da cirurgia laparoscópica. A implementação de políticas públicas voltadas à aquisição de equipamentos por meio de subsídios e incentivos fiscais pode facilitar a modernização dos centros cirúrgicos (GONÇALVES-COSTA et al., 2024). Parcerias entre hospitais públicos e privados podem permitir o compartilhamento de tecnologias, reduzindo os custos individuais de cada instituição (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). Além disso, a fabricação nacional de insumos e dispositivos laparoscópicos pode mitigar a dependência de importações e tornar os materiais mais acessíveis (GAO et al., 2021). A incorporação de estratégias de financiamento sustentável, como modelos de leasing para equipamentos laparoscópicos, pode facilitar a modernização das instituições de saúde e reduzir os impactos financeiros da aquisição de novas tecnologias (ZHONG et al., 2023).
A telemedicina e os programas de ensino remoto surgem como alternativas viáveis para reduzir os custos relacionados à capacitação profissional (HISLOP et al., 2023). O desenvolvimento de plataformas digitais interativas para ensino da técnica laparoscópica pode acelerar a formação de novos cirurgiões e democratizar o acesso à qualificação, minimizando a necessidade de cursos presenciais de alto custo (HOZO; DJULBEGOVIC; HOZO, 2005). Essas iniciativas, quando implementadas de maneira eficiente, podem contribuir significativamente para a ampliação do acesso à cirurgia laparoscópica, assegurando que um número maior de pacientes se beneficie dessa abordagem minimamente invasiva (DENISE et al., 2016). Além disso, a colaboração internacional para o desenvolvimento de centros de treinamento remotos e intercâmbios cirúrgicos pode desempenhar um papel fundamental na capacitação de profissionais em regiões menos desenvolvidas (KIM et al., 2014).
A implementação de incentivos fiscais para hospitais que investem em cirurgia minimamente invasiva e a criação de fundos de financiamento específicos para modernização tecnológica são estratégias que poderiam ser adotadas para tornar a laparoscopia mais acessível (PAVONE et al., 2024). Além disso, a ampliação de pesquisas voltadas à otimização dos custos operacionais da laparoscopia, como a reutilização segura de alguns insumos e a criação de modelos cirúrgicos de menor custo, pode contribuir para sua viabilidade econômica no longo prazo (ZHONG et al., 2023). A busca por uma maior equidade no acesso à laparoscopia deve envolver um esforço conjunto entre governos, instituições de saúde e entidades acadêmicas para garantir que essa tecnologia esteja disponível para todos os pacientes que dela necessitam (GONÇALVES-COSTA et al., 2024).
3.4 Barreiras Estruturais e Logísticas
A disseminação da cirurgia laparoscópica enfrenta desafios estruturais significativos, uma vez que sua implementação exige salas cirúrgicas equipadas com tecnologia avançada e infraestrutura adequada. Em regiões menos desenvolvidas, é comum a escassez de espaços hospitalares preparados para esse tipo de intervenção, o que restringe o acesso da população a essa técnica (DENISE et al., 2016). Além disso, a carência de centros de treinamento regionais compromete a formação de novos cirurgiões, dificultando a expansão da laparoscopia em áreas remotas e perpetuando a dependência da cirurgia aberta (ZHONG et al., 2023).
A disponibilidade irregular de insumos essenciais, como grampeadores laparoscópicos, câmeras de alta definição e materiais de sutura, também representa um entrave. Essa desigualdade na distribuição pode comprometer a padronização dos procedimentos e a qualidade do atendimento, tornando a cirurgia menos eficaz e segura para os pacientes (GONÇALVES-COSTA et al., 2024). Em muitos hospitais periféricos, a dificuldade de aquisição desses materiais pode resultar em uma maior taxa de conversão para cirurgia aberta, aumentando o risco de complicações e prolongando o tempo de recuperação dos pacientes (ANTONIO et al., 2022). Essa dependência da importação de insumos, aliada à falta de produção local, agrava ainda mais os custos e dificulta a ampliação da laparoscopia em países em desenvolvimento.
Outro desafio relevante é a logística de transporte, instalação e manutenção dos equipamentos laparoscópicos. Em áreas remotas, a carência de suporte técnico especializado pode comprometer a durabilidade dos dispositivos, aumentando os custos com reparos e dificultando a continuidade dos serviços (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). A falta de profissionais capacitados para a manutenção periódica dos equipamentos é um fator crítico, pois pode levar a falhas operacionais e descontinuidades dos procedimentos cirúrgicos (GAO et al., 2021). Sem um planejamento adequado de suporte técnico e fornecimento contínuo de peças de reposição, muitos hospitais acabam deixando de utilizar os equipamentos de laparoscopia por longos períodos, prejudicando a assistência à saúde e reduzindo as opções terapêuticas dos pacientes.
A ausência de políticas públicas voltadas à modernização da infraestrutura hospitalar agrava ainda mais essas dificuldades (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016). Enquanto hospitais de grande porte têm melhores condições para investir em tecnologia laparoscópica, instituições menores e com recursos limitados encontram obstáculos para oferecer esse tipo de procedimento à população (KIM et al., 2014). Além disso, a burocracia e a falta de financiamento público direcionado à aquisição de equipamentos laparoscópicos tornam a expansão dessa tecnologia mais lenta. A implantação de incentivos fiscais e parcerias público-privadas poderia facilitar a aquisição e manutenção de equipamentos, garantindo uma oferta mais ampla da cirurgia laparoscópica.
A desigualdade no acesso à laparoscopia permanece um problema estrutural que exige soluções abrangentes e investimentos estratégicos para garantir maior equidade no atendimento cirúrgico. Uma possível solução é a criação de centros de treinamento acessíveis e programas de capacitação remota para qualificação de cirurgiões. A utilização de realidade virtual e simulações interativas pode reduzir a curva de aprendizado da laparoscopia e aumentar o número de profissionais aptos a realizá-la.
3.5 Desafios na Capacitação Profissional
A capacitação profissional em cirurgia laparoscópica requer um treinamento altamente especializado e contínuo, dado que a curva de aprendizado para essa técnica é consideravelmente mais longa do que a da cirurgia aberta (ZHONG et al., 2023). A aquisição de proficiência não se restringe à familiarização com os instrumentos e técnicas operatórias, mas também envolve o desenvolvimento de habilidades avançadas de coordenação visomotora e percepção tridimensional. O treinamento ideal abrange não apenas simulações em ambientes controlados, mas também a prática supervisionada em cenários clínicos reais, garantindo que os cirurgiões adquiram as competências necessárias para realizar procedimentos com segurança e eficácia (HOZO; DJULBEGOVIC; HOZO, 2005). A incorporação de metodologias educacionais inovadoras, como realidade aumentada e plataformas de simulação imersiva, tem demonstrado potencial para acelerar o aprendizado e reduzir a incidência de erros técnicos nos estágios iniciais da formação (HISLOP et al., 2023).
A carência de programas estruturados de capacitação é um dos desafios mais críticos nos países em desenvolvimento, onde a infraestrutura educacional frequentemente não acompanha os avanços tecnológicos na prática cirúrgica (DENISE et al., 2016). A escassez de centros de ensino especializados e de instrutores qualificados restringe o número de profissionais aptos a executar procedimentos laparoscópicos de forma segura e eficiente. Nesse contexto, a utilização de simuladores cirúrgicos tem sido uma solução viável para otimizar a curva de aprendizado e aprimorar as habilidades dos cirurgiões em formação (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016). No entanto, a implementação desses recursos demanda investimentos consideráveis, o que limita sua disponibilidade em instituições com menor capacidade financeira (GONÇALVES-COSTA et al., 2024).
A necessidade de atualização profissional contínua é outro aspecto fundamental da capacitação em laparoscopia. A evolução constante das técnicas minimamente invasivas, aliada ao desenvolvimento de novos dispositivos e abordagens cirúrgicas, exige que os profissionais se mantenham atualizados por meio de cursos de aprimoramento, workshops práticos e intercâmbios científicos (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). Programas de educação médica continuada, com foco na capacitação técnica e na incorporação de novas tecnologias, são essenciais para assegurar que os cirurgiões estejam preparados para os desafios impostos pela prática contemporânea (KIM et al., 2014). O uso de telemedicina e plataformas de ensino remoto tem se mostrado uma estratégia eficaz para expandir o acesso à formação continuada, permitindo que especialistas de referência forneçam orientação em tempo real para cirurgiões em treinamento, independentemente da sua localização geográfica (ZHONG et al., 2023).
A capacitação não deve se restringir apenas aos cirurgiões. A equipe multidisciplinar envolvida nos procedimentos laparoscópicos, incluindo anestesistas, enfermeiros e técnicos cirúrgicos, também necessita de treinamento específico para garantir a segurança e a eficiência dos procedimentos (GAO et al., 2021). A sincronização entre os membros da equipe, associada a protocolos operacionais bem definidos, é determinante para minimizar complicações intraoperatórias e otimizar os desfechos clínicos. A falta de padronização na formação dos profissionais que compõem a equipe cirúrgica pode levar a variações significativas na qualidade da assistência prestada, tornando imperativa a criação de diretrizes globais para a capacitação em cirurgia minimamente invasiva (PAVONE et al., 2024).
Além disso, a certificação profissional em cirurgia laparoscópica tem sido adotada em alguns países como um requisito para a prática independente dessa técnica. A exigência de certificações pode aumentar a segurança dos procedimentos ao garantir que apenas profissionais devidamente treinados executem cirurgias minimamente invasivas (ROSENBERG et al., 2017). No entanto, a obrigatoriedade de certificação pode representar um obstáculo adicional para cirurgiões que enfrentam dificuldades no acesso à formação especializada. A criação de programas acessíveis e subsidiados de certificação pode ser uma solução para equilibrar a necessidade de qualificação rigorosa com a realidade dos diferentes sistemas de saúde (ANTONIO et al., 2022).
3.6 Aspectos Culturais e Resistência à Mudança
A implementação de novas tecnologias na prática cirúrgica frequentemente enfrenta resistência cultural, tanto entre os profissionais de saúde quanto entre os gestores hospitalares e os próprios pacientes. Em instituições onde a cirurgia tradicional ainda é predominante, muitos cirurgiões experientes demonstram hesitação em adotar técnicas minimamente invasivas, seja por falta de familiaridade, seja por receios relacionados à curva de aprendizado prolongada (HISLOP et al., 2023). A transição para a laparoscopia exige o desenvolvimento de novas habilidades técnicas e a adaptação a equipamentos específicos, o que pode ser percebido como um desafio adicional para profissionais habituados a abordagens convencionais. Além disso, a crença na superioridade da cirurgia aberta para determinados procedimentos ainda persiste em algumas comunidades médicas, retardando a adoção generalizada das técnicas minimamente invasivas (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016).
A resistência à mudança também se estende à estrutura organizacional das instituições de saúde. A implementação da cirurgia laparoscópica requer investimentos em equipamentos especializados, treinamento profissional e adaptação da infraestrutura hospitalar, fatores que podem ser considerados onerosos pelos gestores hospitalares (GONÇALVES-COSTA et al., 2024). Em muitos casos, a ausência de incentivos financeiros para a modernização das técnicas cirúrgicas leva à priorização de investimentos em outras áreas da assistência médica, perpetuando o uso predominante da cirurgia aberta (REIJNDERS-BOERBOOM et al., 2023). A falta de diretrizes institucionais claras sobre a transição para técnicas minimamente invasivas contribui para a manutenção do status quo e dificulta a disseminação da laparoscopia como padrão de atendimento (ZHONG et al., 2023).
A percepção dos pacientes também desempenha um papel crucial na adoção da laparoscopia. Em algumas regiões, o desconhecimento sobre os benefícios dessa técnica, como menor tempo de recuperação, redução da dor pós-operatória e menor risco de infecções, pode levar os pacientes a preferirem abordagens convencionais (DENISE et al., 2016). O medo do desconhecido e a influência de experiências médicas anteriores contribuem para essa resistência. Estratégias de educação em saúde, incluindo campanhas informativas e orientações detalhadas dos profissionais de saúde, são fundamentais para aumentar a aceitação da laparoscopia e garantir que os pacientes possam tomar decisões informadas sobre seu tratamento (GAO et al., 2021).
A resistência à mudança também se reflete na formação médica. Muitos currículos acadêmicos ainda enfatizam predominantemente o treinamento em cirurgia aberta, relegando a laparoscopia a um papel secundário na educação cirúrgica (KIM et al., 2014). A modernização dos programas de ensino médico, com a inclusão de treinamentos obrigatórios em cirurgia minimamente invasiva desde os primeiros anos da graduação, pode ser uma estratégia eficaz para preparar os futuros cirurgiões para a prática contemporânea (ZHONG et al., 2023). A introdução de simulações laparoscópicas no ensino pré-clínico e o aumento da carga horária dedicada ao treinamento em técnicas minimamente invasivas durante a residência médica podem facilitar a adaptação dos novos profissionais a essa abordagem cirúrgica (HOZO; DJULBEGOVIC; HOZO, 2005).
Por fim, estratégias institucionais como a criação de programas de mentoria, onde cirurgiões experientes em laparoscopia orientam profissionais em transição para essa técnica, podem contribuir significativamente para reduzir a resistência à mudança (PAVONE et al., 2024). A colaboração entre sociedades médicas internacionais e instituições acadêmicas pode acelerar a difusão das melhores práticas e fomentar uma cultura de inovação na cirurgia minimamente invasiva (ROSENBERG et al., 2017). A superação das barreiras culturais e organizacionais à laparoscopia exige um esforço coordenado entre governos, universidades, hospitais e associações médicas, visando garantir que essa tecnologia esteja amplamente disponível e acessível a todos os pacientes que possam se beneficiar dela (ANTONIO et al., 2022).
3.7 Estratégias para Expansão da Cirurgia Laparoscópica
A ampliação do acesso à cirurgia laparoscópica depende de políticas públicas que incentivem a adoção dessa tecnologia. Subsídios governamentais e programas de financiamento são fundamentais para facilitar a aquisição de equipamentos e viabilizar sua implementação em hospitais com menor capacidade de investimento (DENISE et al., 2016). Além disso, a criação de incentivos fiscais para hospitais que adotam tecnologias minimamente invasivas pode ser uma alternativa viável para estimular essa transição (ZHONG et al., 2023).
A capacitação profissional deve ser um eixo central dessa estratégia. A criação de programas de ensino remoto, cursos de especialização e plataformas de telemedicina pode democratizar o acesso ao treinamento em laparoscopia, permitindo que cirurgiões de diferentes regiões desenvolvam a expertise necessária para sua aplicação (GAO et al., 2021).
A implementação de parcerias entre universidades e hospitais pode contribuir para a formação contínua de cirurgiões especializados, garantindo que novos profissionais ingressem no mercado de trabalho com as habilidades necessárias para atuar na área de cirurgia minimamente invasiva (PASCUAL; SALVANS; PERA, 2016).
Conclusão:
A cirurgia laparoscópica consolidou-se como um avanço significativo na prática cirúrgica contemporânea, proporcionando benefícios clínicos notáveis, como menor trauma operatório, redução do tempo de internação e recuperação pós-operatória mais rápida. A melhoria dos desfechos clínicos não apenas otimiza a qualidade de vida dos pacientes, mas também reduz a carga sobre os sistemas de saúde, permitindo um uso mais eficiente dos recursos hospitalares. Além disso, os avanços tecnológicos, como a introdução da cirurgia robótica, o pneumoperitônio de baixa pressão e o uso de sistemas de imagem 3D, têm ampliado ainda mais as possibilidades e a segurança dessa abordagem minimamente invasiva, possibilitando procedimentos mais precisos e menos invasivos.
No entanto, a disseminação da laparoscopia ainda enfrenta desafios significativos, especialmente em países em desenvolvimento. Barreiras econômicas e estruturais, como o alto custo de equipamentos e insumos, a necessidade de infraestrutura especializada e a dificuldade de manutenção dos dispositivos, limitam sua implementação em larga escala. O alto custo de investimento inicial impede muitas instituições de adotarem essa tecnologia, criando uma disparidade no acesso à cirurgia minimamente invasiva entre diferentes regiões e populações. Além disso, a capacitação profissional representa um desafio contínuo, uma vez que a curva de aprendizado para a técnica laparoscópica é mais longa em comparação com a cirurgia aberta, exigindo treinamento contínuo e programas educativos bem estruturados. A necessidade de educação médica continuada e certificação profissional adequada são fundamentais para garantir que os procedimentos laparoscópicos sejam realizados com segurança e eficiência.
A resistência cultural e institucional à mudança também desempenha um papel fundamental na limitação da adoção da laparoscopia. A hesitação de profissionais acostumados com técnicas tradicionais, a falta de incentivos administrativos e a percepção equivocada de pacientes sobre os benefícios da cirurgia minimamente invasiva reforçam a necessidade de campanhas educativas e iniciativas institucionais para promover sua aceitação. A falta de integração da laparoscopia nos currículos de graduação em medicina e nas residências cirúrgicas também perpetua a dependência da cirurgia aberta em muitos centros formadores, retardando a adoção em larga escala.
Diante desse panorama, estratégias para a expansão da cirurgia laparoscópica devem incluir investimentos em políticas públicas que incentivem a modernização dos centros cirúrgicos, o financiamento de equipamentos e a formação de profissionais qualificados. A padronização de programas de treinamento, com suporte de tecnologias como realidade virtual e simuladores de cirurgia minimamente invasiva, pode contribuir para acelerar a curva de aprendizado e ampliar o acesso à capacitação. Parcerias entre instituições públicas e privadas, programas de ensino remoto e o uso de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e telemedicina, podem contribuir para a disseminação da laparoscopia em diferentes contextos clínicos e geográficos.
Ademais, a criação de incentivos financeiros para hospitais que adotam a cirurgia laparoscópica, incluindo subsídios para aquisição de equipamentos e redução de impostos para instituições que investem na modernização de suas salas cirúrgicas, poderia promover uma maior equidade no acesso a essas técnicas. Adotar estratégias de financiamento sustentável também permitiria que um maior número de hospitais integrasse a laparoscopia como abordagem padrão em seus serviços.
Portanto, apesar dos desafios enfrentados, a cirurgia laparoscópica representa uma evolução incontestável no campo da cirurgia moderna. Seu aprimoramento contínuo, aliado à implementação de estratégias eficazes para sua ampliação, pode garantir que um número crescente de pacientes, independentemente de sua localização ou condição socioeconômica, tenha acesso a tratamentos mais seguros, eficazes e menos invasivos. Dessa forma, a laparoscopia tem o potencial de se tornar uma abordagem cirúrgica padrão globalmente, impulsionando uma nova era na medicina cirúrgica com foco na eficiência, segurança e melhor prognóstico para os pacientes.
Referências:
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