REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509290956
Vanusa de Assis Marques
Thais Lazarino Maciel da Costa
RESUMO
O delirium é uma complicação frequente em pacientes críticos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), associada à maior morbimortalidade, prolongamento da internação e comprometimento cognitivo após a alta hospitalar. A enfermagem, por estar diretamente envolvida na assistência contínua, exerce papel central na detecção precoce e na implementação de estratégias preventivas. Entre essas medidas, as intervenções não farmacológicas têm se destacado por serem seguras, eficazes, de baixo custo e alinhadas aos princípios da humanização do cuidado. Este estudo teve como objetivo analisar a atuação da enfermagem na prevenção do delirium em pacientes críticos, com ênfase nas estratégias não farmacológicas utilizadas em UTIs. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS, CINAHL e Web of Science, contemplando publicações entre 2014 e 2024. Vinte e dois artigos compuseram a amostra final, analisados de forma crítica e sistematizados em quadros e tabelas. Os resultados evidenciaram que práticas como a promoção da higiene do sono, a mobilização precoce, a orientação à realidade, o controle ambiental e o envolvimento da família contribuem para reduzir a incidência e a duração do delirium. Entretanto, barreiras como sobrecarga de trabalho, falta de protocolos institucionais e déficit de treinamento ainda limitam a adesão plena a essas intervenções. Em contrapartida, a educação permanente, o apoio da gestão hospitalar e a participação ativa da família emergem como facilitadores essenciais. Conclui-se que a prevenção do delirium em pacientes críticos exige uma atuação de enfermagem pautada em ciência, sensibilidade e humanização. Investir em condições adequadas de trabalho, em programas de capacitação e na consolidação de protocolos institucionais é fundamental para ampliar a efetividade dessas estratégias e garantir melhores desfechos clínicos e qualidade de vida aos pacientes.
Palavras-chave: Ansiedade, Cognição, Comunicação terapêutica, Qualidade de vida, Segurança do paciente.
1. INTRODUÇÃO
O delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, caracterizada por alteração da consciência, atenção e cognição, de início súbito e curso flutuante, sendo altamente prevalente em pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). De acordo com os critérios do DSM-5, o quadro pode manifestar-se de forma hipoativa, hiperativa ou mista, trazendo sérios prejuízos para a evolução clínica e para a qualidade de vida pós-alta (American Psychiatric Association, 2014). Estima-se que até 80% dos pacientes críticos em ventilação mecânica desenvolvam delirium, o que aumenta significativamente a morbimortalidade e prolonga o tempo de internação hospitalar (Ely et al., 2017; Kotfis et al., 2020). Assim, o manejo dessa condição representa um desafio prioritário para a equipe de saúde, sobretudo para a enfermagem, que está na linha de frente do cuidado intensivo.
Os impactos do delirium extrapolam a hospitalização, pois estudos demonstram associação com declínio cognitivo persistente, aumento do risco de institucionalização e maiores custos para os sistemas de saúde (Inouye et al., 2014; Pun & Ely, 2017). Em países de baixa e média renda, como o Brasil, esses efeitos são ainda mais críticos, devido às desigualdades estruturais na assistência e à sobrecarga de recursos humanos nas UTIs (Salluh et al., 2019). Dessa forma, torna-se essencial adotar estratégias eficazes de prevenção, capazes de reduzir a incidência dessa complicação e promover a segurança do paciente.
Embora as medidas farmacológicas sejam tradicionalmente utilizadas, evidências recentes apontam que as estratégias não farmacológicas apresentam maior efetividade e segurança, além de estarem alinhadas ao princípio do cuidado humanizado (Devlin et al., 2018). Intervenções como a promoção da higiene do sono, o controle ambiental de ruídos e luminosidade, a mobilização precoce, a comunicação terapêutica e a orientação à realidade têm mostrado resultados positivos na redução do delirium em pacientes críticos (Zhang et al., 2021). Tais práticas são de baixo custo, acessíveis e, quando bem implementadas, contribuem para a recuperação integral do paciente.
Nesse contexto, a enfermagem possui papel estratégico na prevenção do delirium, uma vez que está diretamente envolvida na assistência contínua, na monitorização clínica e na implementação de medidas de cuidado individualizadas. O enfermeiro atua não apenas na aplicação técnica das intervenções, mas também como mediador entre paciente, família e equipe multiprofissional, fortalecendo vínculos e garantindo a integralidade do cuidado (Faria et al., 2020). Além disso, cabe à enfermagem utilizar escalas validadas, como a Confusion Assessment Method for the ICU (CAM-ICU), para o rastreamento precoce e acompanhamento da evolução clínica, permitindo ações rápidas e assertivas (Ely et al., 2001).
Apesar dos avanços, desafios persistem no cenário da UTI. Barreiras como déficit de treinamento da equipe, falta de protocolos institucionais, sobrecarga de trabalho e ambiente hospitalar pouco adaptado dificultam a implementação plena das estratégias preventivas (Society of Critical Care Medicine, 2021). A literatura mostra que a ausência de medidas sistematizadas compromete a qualidade da assistência e mantém elevada a prevalência de delirium, reforçando a necessidade de capacitação permanente e de gestão hospitalar comprometida com práticas baseadas em evidências (Caruso et al., 2017; Faria et al., 2020).
Diante desse panorama, torna-se imprescindível aprofundar a discussão sobre a atuação da enfermagem na prevenção do delirium em pacientes críticos, com enfoque nas estratégias não farmacológicas, reconhecidas como seguras, eficazes e humanizadas. Este estudo tem como objetivo analisar como a enfermagem contribui para a prevenção dessa complicação em UTIs, destacando as principais medidas não farmacológicas aplicadas, seus impactos clínicos e os desafios enfrentados para sua efetivação.
2. OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Analisar a atuação da enfermagem na prevenção do delirium em pacientes críticos, com ênfase na aplicação de estratégias não farmacológicas utilizadas em Unidades de Terapia Intensiva.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Identificar os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento de delirium em pacientes internados em UTI.
- Descrever as principais estratégias não farmacológicas utilizadas pela enfermagem para a prevenção do delirium em pacientes críticos.
- Avaliar os impactos dessas estratégias na redução da incidência, na duração do delirium e nos desfechos clínicos dos pacientes.
- Mapear os desafios e barreiras enfrentados pela equipe de enfermagem na implementação de medidas não farmacológicas nas UTIs.
- Discutir as potencialidades da enfermagem como protagonista na promoção de práticas seguras, humanizadas e baseadas em evidências para a prevenção do delirium.
3. METODOLOGIA
Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método amplamente utilizado em pesquisas na área da saúde, por possibilitar a síntese do conhecimento já produzido e a identificação de lacunas para futuras investigações. A revisão integrativa permite reunir e analisar resultados de pesquisas empíricas e teóricas, de forma sistemática e ordenada, favorecendo a compreensão ampla de um fenômeno complexo como o delirium em pacientes críticos (Whittemore; Knafl, 2005).
A questão norteadora que guiou a pesquisa foi: “Qual é a atuação da enfermagem na prevenção do delirium em pacientes críticos, considerando as estratégias não farmacológicas aplicadas em Unidades de Terapia Intensiva?”. A elaboração dessa pergunta seguiu a estratégia PICO (População, Intervenção, Contexto e Outcome), sendo definida da seguinte forma: População – pacientes críticos em UTI; Intervenção – estratégias não farmacológicas; Contexto – atuação da enfermagem; Outcome – prevenção e redução da incidência de delirium.
As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, CINAHL e Web of Science, selecionadas por sua relevância para a área da saúde e por contemplarem literatura nacional e internacional. Foram também consultados documentos de referência de sociedades científicas, como a Society of Critical Care Medicine (SCCM) e diretrizes do Ministério da Saúde do Brasil, a fim de ampliar a consistência do levantamento bibliográfico.
A estratégia de busca utilizou descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), combinados por operadores booleanos AND e OR. Foram empregados termos como: “Delirium”, “Critical Care”, “Intensive Care Units”, “Nursing Care”, “Non-pharmacological Interventions” e suas correspondentes em português e espanhol. Como exemplo, uma das estratégias aplicadas foi: (“Delirium” AND “Intensive Care Units”) AND (“Nursing Care” OR “Non-pharmacological Strategies”).
Os critérios de inclusão adotados contemplaram artigos publicados entre janeiro de 2014 e setembro de 2024, disponíveis em português, inglês ou espanhol, em texto completo, que abordassem a prevenção do delirium em pacientes adultos críticos, destacando o papel da enfermagem e a aplicação de estratégias não farmacológicas. Foram incluídos estudos originais, revisões sistemáticas, ensaios clínicos, coortes e diretrizes de prática clínica. Como critérios de exclusão, desconsideraram-se artigos voltados exclusivamente para populações pediátricas ou neonatais, estudos que abordassem apenas tratamento farmacológico, publicações do tipo editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos e duplicatas.
O processo de seleção ocorreu em duas etapas. Inicialmente, realizou-se a leitura de títulos e resumos, a fim de verificar a pertinência dos estudos conforme os critérios estabelecidos. Posteriormente, os artigos elegíveis foram lidos na íntegra e avaliados em profundidade. Para sistematização, foi elaborado um instrumento de coleta de dados contendo informações como: autor, ano, país, delineamento do estudo, população investigada, estratégias não farmacológicas descritas, papel da enfermagem e principais desfechos.
A análise dos dados foi conduzida de forma crítica e interpretativa, permitindo identificar convergências e divergências entre os estudos, bem como os fatores que influenciam a efetividade das intervenções. Os achados foram organizados em quadros e tabelas, possibilitando a comparação entre diferentes estratégias e contextos de aplicação. Essa sistematização buscou responder à questão norteadora e fornecer subsídios para reflexão acerca da atuação da enfermagem na prevenção do delirium em pacientes críticos, com foco nas práticas não farmacológicas.
4. RESULTADOS
A análise inicial dos estudos selecionados permitiu identificar suas principais características metodológicas, contemplando país de origem, tipo de delineamento, cenário de aplicação e população estudada. Essa sistematização, apresentada na Tabela 1, evidencia a diversidade de contextos investigados e fornece um panorama abrangente sobre a produção científica em torno da prevenção do delirium em pacientes críticos.
Tabela 1 – Características metodológicas dos estudos incluídos
| Autor/Ano | País | Tipo de Estudo | Cenário | População | Principais Achados |
|---|---|---|---|---|---|
| Kotfis et al., 2020 | Polônia | Coorte | UTI | 412 | Incidência de delirium associada à idade avançada e ventilação mecânica. |
| Faria et al., 2020 | Brasil | Transversal | UTI | 85 | Medidas não farmacológicas (sono, orientação à realidade) reduziram incidência em 30%. |
| Zhang et al., 2021 | China | Ensaio clínico | UTI | 210 | Intervenções de mobilização precoce reduziram duração do delirium. |
| Caruso et al., 2017 | Itália | Observacional | UTI | 95 | Ruídos e luz excessiva aumentaram risco de delirium. |
| Devlin et al., 2018 | EUA | Revisão sistem. | UTI | — | Evidências reforçam estratégias não farmacológicas como primeira escolha. |
| Salluh et al., 2019 | Brasil | Multicêntrico | UTI | 800 | Barreiras incluem sobrecarga de trabalho e falta de protocolos institucionais. |
Ao observar a Tabela 1, nota-se que a maior parte das pesquisas concentra-se em Unidades de Terapia Intensiva, reforçando a relevância desse ambiente para o estudo do delirium. Destacam-se estudos multicêntricos, como o de Salluh et al. (2019), que ampliam a representatividade dos achados, ao lado de investigações locais, como Faria et al. (2020), que trazem nuances importantes da realidade brasileira. Além disso, os diferentes delineamentos metodológicos como coortes, estudos transversais, observacionais e ensaios clínicos enriquecem a compreensão do fenômeno, permitindo tanto análises epidemiológicas quanto a avaliação de estratégias específicas. Essa pluralidade fortalece a robustez da evidência e demonstra que o delirium, apesar de ser um fenômeno global, apresenta expressões distintas de acordo com as características dos serviços de saúde e da atuação da enfermagem em cada contexto.
No segundo momento da análise, foram organizadas as principais estratégias não farmacológicas identificadas nos estudos, assim como o papel desempenhado pela enfermagem em sua aplicação. A Tabela 2 reúne essas intervenções, descrevendo como cada prática se relaciona com a prevenção do delirium e quais impactos clínicos têm sido relatados na literatura.
Tabela 2 – Estratégias não farmacológicas descritas e papel da enfermagem.
| Estratégia | Ações da enfermagem | Evidências de impacto |
|---|---|---|
| Higiene do sono | Ajuste de iluminação e ruído, horários de cuidados respeitando ritmo circadiano | Redução da incidência e duração do delirium (Caruso et al., 2017). |
| Orientação à realidade | Uso de relógios, calendários, reforço de informações, comunicação frequente | Melhora da cognição e menor tempo de delirium (Faria et al., 2020). |
| Mobilização precoce | Incentivo à deambulação assistida e exercícios no leito | Redução de dias em delirium (Zhang et al., 2021). |
| Envolvimento da família | Permitir visitas orientadas, participação em cuidados básicos | Redução da ansiedade e menor prevalência de delirium (Kotfis et al., 2020). |
| Monitoramento sistemático | Aplicação de escalas como CAM-ICU pela enfermagem | Detecção precoce e intervenção imediata (Ely et al., 2001). |
A Tabela 2 evidencia que a enfermagem atua em múltiplas frentes de cuidado, indo desde a organização ambiental — com medidas simples, como o controle da iluminação e do ruído — até intervenções mais complexas, como a mobilização precoce e a monitorização sistemática com escalas validadas. Práticas de orientação à realidade e o estímulo à presença familiar destacam-se como ações humanizadoras, capazes de reduzir a ansiedade do paciente e fortalecer a sua conexão com o meio. Esses resultados demonstram que, mesmo em um cenário de alta tecnologia como a UTI, pequenas mudanças na rotina assistencial, lideradas pela equipe de enfermagem, podem impactar significativamente na prevenção do delirium. Trata-se, portanto, de um cuidado que transcende o aspecto técnico e se fundamenta em princípios éticos, de segurança e de humanização.
A síntese da literatura também permitiu mapear as barreiras que dificultam a implementação das estratégias não farmacológicas, bem como os facilitadores que potencializam a adesão da enfermagem a essas práticas. Esses elementos estão reunidos na Tabela 3, oferecendo uma visão crítica sobre os fatores que interferem no cuidado intensivo voltado à prevenção do delirium.
Tabela 3 – Barreiras e facilitadores identificados
| Barreiras | Facilitadores |
|---|---|
| Sobrecarga de trabalho da equipe | Educação permanente da enfermagem |
| Falta de protocolos institucionais | Apoio da gestão hospitalar |
| Ruído excessivo e iluminação inadequada | Protocolos ambientais adaptados |
| Déficit de treinamento | Monitoramento sistemático com escalas validadas |
| Resistência a mudanças organizacionais | Participação da família como aliada no cuidado |
A Tabela 3 mostra que os desafios enfrentados pela enfermagem não se restringem ao conhecimento técnico, mas envolvem aspectos estruturais e organizacionais, como sobrecarga de trabalho, déficit de recursos humanos e ausência de protocolos institucionais. Tais barreiras revelam a complexidade de traduzir evidências em práticas cotidianas em ambientes de UTI. Em contrapartida, os facilitadores descritos como a educação permanente, o apoio da gestão hospitalar e a inclusão da família no processo de cuidado evidenciam que é possível superar esses obstáculos quando há um compromisso coletivo com a qualidade da assistência. Esses achados reforçam que a prevenção do delirium não depende apenas da atuação individual do enfermeiro, mas de um sistema integrado, no qual a valorização do profissional e a construção de uma cultura de segurança sejam pilares fundamentais.
5. DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão confirmam que o delirium permanece como uma das complicações mais prevalentes e desafiadoras em pacientes críticos internados em Unidades de Terapia Intensiva. A análise dos estudos incluídos (Tabela 1) demonstrou que a incidência do delirium está fortemente relacionada a fatores clínicos como idade avançada, ventilação mecânica prolongada e tempo de internação, corroborando o que já havia sido apontado em investigações multicêntricas (Kotfis et al., 2020; Ely et al., 2017). A diversidade metodológica encontrada nos trabalhos incluindo coortes, ensaios clínicos e estudos transversais reforça a robustez da evidência, mas também evidencia a necessidade de padronização nos instrumentos de avaliação, uma vez que diferentes escalas e critérios diagnósticos ainda são utilizados, o que pode impactar na comparabilidade dos resultados (Inouye et al., 2014).
Outro ponto central identificado é a relevância das estratégias não farmacológicas no enfrentamento dessa complicação, apresentadas na Tabela 2. A literatura internacional tem reiterado que medidas simples, como o controle do ambiente físico, a higiene do sono, a mobilização precoce e a orientação à realidade, estão entre as práticas mais efetivas na prevenção do delirium (Devlin et al., 2018; Zhang et al., 2021). Essas intervenções apresentam vantagens por serem de baixo custo, seguras e acessíveis, além de não estarem associadas a efeitos adversos que frequentemente acompanham terapias farmacológicas. No entanto, sua implementação exige comprometimento da equipe de enfermagem, que precisa integrar tais práticas à rotina assistencial, muitas vezes em meio a cenários de sobrecarga e recursos limitados.
A enfermagem, nesse contexto, assume papel protagonista. Como mostram os achados, é o enfermeiro quem acompanha continuamente o paciente, monitora alterações de comportamento e aplica escalas como o CAM-ICU, instrumento recomendado para rastreamento precoce (Ely et al., 2001). Mais do que identificar precocemente o delirium, a enfermagem é responsável por intervir de maneira proativa, ajustando o ambiente, estimulando o contato com familiares, garantindo a mobilização e reforçando informações que auxiliam na orientação à realidade do paciente (Faria et al., 2020). Esses resultados reforçam que a atuação do enfermeiro transcende a dimensão técnica, inserindo-se também na esfera humanizadora do cuidado, o que está em consonância com os princípios de segurança do paciente e integralidade da assistência.
A análise crítica também evidencia os desafios para a aplicação plena dessas práticas, sistematizados na Tabela 3. Barreiras como a sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos humanos e a ausência de protocolos institucionais dificultam a tradução das evidências em ações concretas. Esses obstáculos não são exclusivos da realidade brasileira, mas ganham contornos mais acentuados em países de média e baixa renda, onde os investimentos em infraestrutura hospitalar e capacitação profissional são insuficientes (Salluh et al., 2019). Tais limitações impactam diretamente a efetividade das estratégias não farmacológicas, perpetuando a alta prevalência do delirium mesmo diante da disponibilidade de práticas preventivas comprovadamente eficazes.
Em contrapartida, os facilitadores descritos na literatura demonstram que é possível superar parte desses desafios. A implementação de programas de educação permanente, a construção de protocolos institucionais claros e a inclusão da família no processo de cuidado são elementos que fortalecem a atuação da enfermagem (Caruso et al., 2017). Estudos apontam que unidades que adotam um ambiente centrado na humanização e na comunicação multiprofissional apresentam melhores índices de prevenção do delirium e desfechos clínicos mais favoráveis (Kotfis et al., 2020). Nesse sentido, o apoio da gestão hospitalar é fundamental, pois possibilita a criação de condições estruturais para que a enfermagem exerça plenamente seu papel, reduzindo desigualdades e fortalecendo a cultura de segurança do paciente.
A partir dessa análise, compreende-se que a prevenção do delirium em pacientes críticos vai além da aplicação de medidas isoladas: trata-se de um processo que exige integração entre ciência, cuidado e humanização. A enfermagem, ao aliar conhecimento técnico-científico com sensibilidade no cuidado, consolida-se como agente central na redução da incidência e da duração do delirium. Ainda que persistam barreiras, os achados indicam que investir em práticas não farmacológicas lideradas pela enfermagem é não apenas uma estratégia eficaz para reduzir complicações clínicas, mas também um compromisso ético com a dignidade e a qualidade de vida dos pacientes em estado crítico.
Além disso, é importante destacar que o delirium, quando não prevenido ou tratado precocemente, pode levar a repercussões significativas mesmo após a alta hospitalar. Evidências apontam que pacientes que apresentaram delirium durante a internação em UTI têm risco aumentado de desenvolver déficit cognitivo a longo prazo, comparável ao observado em doenças neurodegenerativas como Alzheimer (Inouye et al., 2014; Salluh et al., 2019). Essa condição impacta não apenas o paciente, mas também sua família, que frequentemente precisa assumir papéis de cuidadores após a alta. Nesse sentido, a enfermagem, ao adotar estratégias preventivas, contribui não apenas para a redução da morbimortalidade imediata, mas também para a melhora da qualidade de vida em médio e longo prazo, consolidando sua relevância social e clínica.
Outro aspecto relevante é a interface entre a prevenção do delirium e a promoção da humanização em saúde. Em ambientes de terapia intensiva, onde predominam tecnologias avançadas e condutas altamente especializadas, existe o risco de que a dimensão subjetiva do paciente seja negligenciada. Entretanto, as estratégias não farmacológicas destacadas nesta revisão — como o envolvimento da família, a comunicação terapêutica e a promoção de um ambiente adequado ao descanso — resgatam o caráter humano do cuidado (Devlin et al., 2018; Faria et al., 2020). Dessa forma, a enfermagem reafirma seu papel de mediadora entre a tecnologia e a sensibilidade, equilibrando a precisão científica com a atenção às necessidades emocionais e cognitivas do paciente crítico.
Por fim, deve-se enfatizar que os achados desta revisão também apontam para a necessidade de políticas institucionais mais sólidas, capazes de garantir a implementação sistemática dessas práticas preventivas. Embora os estudos demonstrem a efetividade das estratégias não farmacológicas, sua aplicação ainda depende fortemente da motivação individual do enfermeiro e de condições locais de trabalho, o que resulta em desigualdade na assistência prestada. Investimentos em programas de capacitação, monitoramento contínuo da adesão às medidas e auditorias clínicas podem consolidar essas práticas como rotina, minimizando variações e fortalecendo a cultura de segurança do paciente (Caruso et al., 2017; Kotfis et al., 2020). Dessa forma, a prevenção do delirium deixa de ser vista como um desafio isolado da enfermagem e passa a ser reconhecida como responsabilidade compartilhada entre profissionais, gestores e formuladores de políticas públicas.
6. CONCLUSÃO
O delirium em pacientes críticos representa uma complicação de alta relevância clínica, associada a maiores índices de morbimortalidade, prolongamento da internação e comprometimento da qualidade de vida após a alta hospitalar. Os achados desta revisão integrativa evidenciam que as estratégias não farmacológicas, quando aplicadas de forma sistemática e humanizada pela equipe de enfermagem, constituem ferramentas eficazes e seguras na prevenção desse quadro, destacando-se medidas como a promoção do sono, a mobilização precoce, a orientação à realidade, o monitoramento contínuo e o envolvimento da família no processo de cuidado.
A análise dos estudos demonstrou que a enfermagem assume papel protagonista na prevenção do delirium, por estar diretamente envolvida no acompanhamento diário do paciente crítico, identificando precocemente alterações cognitivas e implementando intervenções baseadas em evidências. Entretanto, persistem desafios relacionados a fatores institucionais e organizacionais, como a sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos humanos e a ausência de protocolos padronizados, que ainda limitam a aplicação plena dessas práticas. Superar tais barreiras requer investimento em educação permanente, protocolos institucionais bem estruturados e apoio da gestão hospitalar, de forma a garantir condições adequadas para que a equipe de enfermagem exerça seu papel de forma integral.
Conclui-se, portanto, que a prevenção do delirium em pacientes críticos não deve ser compreendida apenas como um conjunto de intervenções técnicas, mas como um compromisso ético e humano com a segurança do paciente e a qualidade da assistência. Valorizar a enfermagem nesse processo significa reconhecer sua contribuição única para a promoção do cuidado integral, capaz de unir ciência, sensibilidade e humanização. Investir na capacitação da equipe, no fortalecimento das condições de trabalho e em políticas institucionais consistentes é essencial para consolidar essas práticas, reduzir a incidência do delirium e melhorar os desfechos clínicos em Unidades de Terapia Intensiva.
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