REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602151130
Cristiane Natividade Monteiro
Orientadora: Profª Joelma Karin Sagica Fernandes Paschoal
RESUMO
Introdução: O Transtorno do Espectro Autista é caracterizado por desafios nas áreas de comunicação, interação social e comportamento. A prevalência atual é estimada em 1:36 crianças, o que equivale a aproximadamente 1 em cada 36 crianças são diagnosticadas com TEA no Brasil. Relato de caso: W. K. S. A., natural de Capanema, município do nordeste do Pará, nasceu de parto normal, a termo, acima do peso, apgar 9/10, sem intercorrências neonatais imediatas, estava com atraso na fala e dificuldade em interagir com os pais e assim foi transferido para FSCMPA, a fim de ter uma melhor análise técnica. Mãe, 32 anos, G2P1A0, nega consanguinidade, chegou a fazer o uso do fármaco valproato durante até as 5 semanas da gestação, nega uso de drogas e diz que há pessoas com condições neuropsiquiátricas na família. Relata que a gestação foi planejada, iniciada com acompanhamento pré-natal precoce e realizada em maternidade de referência. Durante o pré-natal, foram realizadas ultrassonografias morfológicas e exames laboratoriais regulares, sem identificação de anormalidades estruturais ou genéticas. Discussão: No caso descrito, a mãe tem 32 anos, com histórico familiar de autismo, teve o início do seu pré-natal logo com 6 semanas de gestação, realizou várias ultrassonografias, e nenhuma identificou malformações congênitas. Aos 12 meses, a mãe começou a perceber atrasos no desenvolvimento do filho, do sexo masculino, em comparação com outras crianças da mesma idade. Observou dificuldade em manter contato visual, ausência de gestos comunicativos, como apontar ou acenar e ausência de balbucio progressivo. Além disso, foi notado comportamentos repetitivos, como balançar as mãos e fixação intensa em objetos específicos, como rodas de brinquedos. Durante a consulta, observou-se ausência de gestos comunicativos, desinteresse em brincar com outras crianças e comportamentos repetitivos. Após avaliação multidisciplinar, além de testes padronizados e observação comportamental, confirmou-se o diagnóstico de TEA. A intervenção precoce incluiu terapia ocupacional, fonoaudiologia e orientação aos pais. Conclusão: A relevância do Transtorno do Espectro Autista (TEA) está diretamente relacionada ao impacto que exerce sobre o desenvolvimento infantil e à necessidade de intervenções precoces para otimizar o prognóstico. Embora o TEA não possua cura, a identificação de sinais precoces entre 12 a 24 meses é essencial para guiar profissionais de saúde no diagnóstico.
Palavras-chave: Autismo. Sintomas precoces. Interação social.
ABSTRACT
Introduction: Autism Spectrum Disorder is characterized by challenges in the areas of communication, social interaction and behavior. The current prevalence is estimated at 1:36 children, which equates to approximately 1 in 36 children being diagnosed with ASD in Brazil. Case report: W. K. S. A., a native of Capanema, a municipality in the northeast of Pará, was born by normal delivery, at term, overweight, apgar 9/10, with no immediate neonatal complications, had speech delays and difficulty interacting with his parents, so he was transferred to the FSCMPA for a better technical analysis. Mother, 32 years old, G2P1A0, denies consanguinity, used the drug valproate for up to 5 weeks of pregnancy, denies drug use and says that there are people with neuropsychiatric conditions in the family. She reports that the pregnancy was planned, started with early prenatal care and took place in a referral maternity hospital. During prenatal care, morphological ultrasounds and regular laboratory tests were carried out, with no structural or genetic abnormalities identified. Discussion: In the case described, the mother is 32 years old, has a family history of autism, started her prenatal care as early as 6 weeks gestation, had several ultrasounds, and none identified congenital malformations. At the age of 12 months, the mother began to notice delays in her male child’s development compared to other children of the same age. He observed difficulty in maintaining eye contact, absence of communicative gestures such as pointing or waving and absence of progressive babbling. In addition, repetitive behaviors were noted, such as hand waving and intense fixation on specific objects, such as toy wheels. During the consultation, they observed a lack of communicative gestures, a lack of interest in playing with other children and repetitive behaviors. After a multidisciplinary assessment, in addition to standardized tests and behavioral observation, the diagnosis of ASD was confirmed. Early intervention included occupational therapy, speech therapy and parental guidance. Conclusion: The relevance of Autism Spectrum Disorder (ASD) is directly related to its impact on child development and the need for early interventions to optimize prognosis. Although ASD cannot be cured, the identification of early signs between 12 and 24 months is essential to guide health professionals in the diagnosis.
Keywords: Autism. Early symptoms. Social interaction.
1 INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio no neurodesenvolvimento, marcado por dificuldades na interação social, comunicação e comportamento. Este é um espectro que engloba uma vasta gama de sintomas e intensidade, tornando cada situação singular. Normalmente, o autismo é detectado nos primeiros anos de vida e necessita de intervenções específicas para assegurar o crescimento e o bem-estar das crianças e de seus familiares 1.
No Brasil, estima-se que 1 em cada 36 crianças nasça com Transtorno do Espectro Autista, de acordo com informações recentes realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na qual trata-se de uma agência de Departamento de Saúde e Serviços nos Estados Unidos 2.
Os principais sintomas do TEA em crianças nos primeiros meses incluem falta de resposta ao nome, ausência de sorriso social, atraso no balbucio, gestos limitados e comportamentos repetitivos. A observação cuidadosa dos pais e a aplicação de ferramentas de triagem por profissionais de saúde são essenciais para a identificação precoce desses sinais 3.
A prevalência do transtorno é maior em meninos, com uma relação aproximada de 4 meninos para cada menina diagnosticada. Em meninas, os sintomas podem ser mais discretos, resultando em diagnósticos subestimados e esses dados destacam a necessidade de conscientizar profissionais da saúde e familiares sobre a detecção antecipada dos sintomas 4.
As causas do autismo são multifatoriais, com forte influência genética, nas quais vão desde a possível alteração na divisão meiótica, especialmente relacionadas a mutações dos genes como SHANK3, e outros fatores ambientais durante a gestação, desempenham papéis importantes 5.
Como ainda não há exames específicos que identifiquem a condição durante a gestação, então o pré-natal de mães de crianças com TEA não é diferenciado. Assim, o acompanhamento pré-natal segue os protocolos gerais, focando na saúde materna e no desenvolvimento do feto, sem a detecção direta de sinais relacionados ao autismo 6.
Em termos fenotípicos, crianças autistas não exibem diferenças físicas em comparação com outras crianças. As particularidades do Transtorno do Espectro Autista, como problemas de comunicação ou interação social, só se tornam claras com o progresso do comportamento, normalmente a partir do segundo ano de vida, enfatizando a importância do monitoramento pediátrico7.
Além disso, deve-se mencionar que, não há um único cromossomo responsável, mas mutações em várias regiões genômicas contribuem para o desenvolvimento do TEA, destacando a complexidade de sua etiologia8.
A expectativa de vida de crianças com TEA é semelhante à de outras crianças, já que o distúrbio não impacta diretamente a expectativa de vida. O termo “mosaicismo” no autismo se refere à diversidade genética e ambiental que influencia as manifestações clínicas, destacando a diversidade dos casos9.
O prognóstico de vida é amplamente positivo, permitindo que a maioria das crianças com autismo alcance a fase adulta, no entanto, o grau de independência na vida adulta está diretamente relacionado ao nível de suporte recebido durante a infância e a adolescência10.
Os progressos na medicina e na terapia têm garantido uma qualidade de vida superior para crianças com Transtorno do Espectro Autista, até porque, desde o desenvolvimento de instrumentos de triagem mais sensíveis até a forma com que as terapias comportamentais e ocupacionais, as ações têm sido adaptadas para satisfazer as demandas particulares de cada criança, fomentando sua inclusão social11.
Os médicos devem tratar o diagnóstico e o tratamento do TEA com empatia, oferecendo diretrizes precisas e suporte emocional às famílias, até porque, as entidades governamentais e ONGs, tais como associações de pais e centros de apoio, têm um papel fundamental no apoio às famílias, disponibilizando recursos educacionais e serviços especializados12.
2 OBJETIVOS
2.1 GERAL
– Identificar os sinais iniciais de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças de 12 a 24 meses, incentivando a identificação e a intervenção a tempo de aprimorar o desenvolvimento e a qualidade de vida.
2.2 ESPECÍFICOS
– Analisar os principais comportamentos e atrasos no desenvolvimento associados ao TEA em crianças de 12 a 24 meses.
– Explorar métodos e ferramentas de triagem utilizadas para a detecção precoce do TEA, com foco na aplicabilidade em consultas pediátricas.
– Orientar familiares e profissionais de saúde sobre a importância do diagnóstico precoce e as intervenções disponíveis para potencializar os resultados clínicos e sociais.
3 MÉTODOS
3.1 TIPO DE ESTUDO
O presente trabalho caracteriza-se um estudo descritivo e quantitativo a partir de dados disponibilizados pelo Scientific Electronic Library Online (Scielo) e pela plataforma “ScienceDirect”, nos quais, respectivamente, é uma ferramenta com um dos mairores suportes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a Science é a maior editora de literatura médica do mundo, voltada especificamente, para estudantes e profissionais da área da saúde
3.2 ASPECTOS ÉTICOS
Por tratar-se de um estudo no qual a fonte dos dados foi secundária e estão disponibilizadas livremente ao público, não foi necessário submeter à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), haja vista que não cursou com a participação direta da população alvo desta pesquisa, dispensando a solicitação de consentimento e permitindo assim o sigilo no que diz respeito as informações pessoais do público alvo.
3.3 COLETA E FONTE DE DADOS
Foram utilizados dados através do site do Ministério da Saúde, no qual disponibiliza materiais educativos, diretrizes e protocolos relacionados ao Transtorno do Espectro Autista, onde dispõe de dados atualizados até o ano de 2024 sobre o TEA. Os dados foram coletados através do endereço eletrônico https://www.gov.br/saude/pt-br. Os conteúdos foram utilizados como referências para embasamento teórico, acrescentando as informações da prevalência da quantidade de autistas presentes no Brasil atualmente.
Outros sites, também para coleta de dados e buscar relatórios e guias relacionados a transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo o TEA, com dados globais foi o da “Organização Mundial da Saúde”, através do site “https://www.who.int/pt/about”, juntamente com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), visando o auxílio de guias de práticas clínicas para pediatras, incluindo o manejo de transtornos do neurodesenvolvimento, pelo site https://www.sbp.com.br/, bem como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de acordo com o Censo Demográfico de 2022, onde detalha de forma específica os dados demográficos e epidemiológicos relevantes sobre o TEA no Brasil.
3.4 NÚMERO DE REGISTROS A SEREM OBSERVADOS OU NÚMERO DE PARTICIPANTES
A coletividade estudada nos eventos no Brasil foi entre os anos de 2010 e 2024, com a faixa etária entre 12 e 24 meses, nos quais as informações constam no o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de acordo com o Censo Demográfico de 2022, onde detalha de forma específica os dados demográficos e epidemiológicos relevantes sobre o TEA no Brasil.
3.5 VARIÁVEIS DO ESTUDO
As variáveis utilizadas, de acordo com os objetivos do estudo, foram os dados obtidos no Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC) e no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) entre janeiro de 2010 e dezembro de 2024. Os dados registrados no SIM, extraídos da Declaração de Óbito (DO), e no SINASC, a partir da Declaração de Nascido Vivo (DNV), permitiram a análise de variáveis relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). As variáveis avaliadas incluíram: ano de nascimento, sexo, faixa etária e fatores associados ao diagnóstico ou evolução clínica do TEA, bem como sua classificação em relação a causas evitáveis ou fatores agravantes relacionados ao transtorno.
3.6 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Foram incluídos no estudo todos os casos de crianças entre 12 e 24 meses diagnosticadas ou com suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA), registrados entre os anos de 2010 e 2024 no Brasil. Os dados considerados envolvem informações clínicas, diagnósticas e sociodemográficas, provenientes de sistemas oficiais de saúde, como o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC) e o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), para análise e tabulação das variáveis relacionadas ao desenvolvimento infantil e fatores associados ao TEA.
3.7 CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Os dados registrados fora do período estabelecido não foram analisados, caracterizando o principal critério de exclusão deste estudo.
3.8 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
As informações obtidas, no período entre outubro de 2024 e janeiro de 2025, serviram como fundamento teórico para embasar, de forma específica e técnica, as referências bibliográficas ao longo do texto. Foram pesquisados relatórios e manuais sobre distúrbios neurodesenvolvimentais, incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA), em fontes fidedignas como a Organização Mundial da Saúde (OMS), para obter informações globais sobre o assunto e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), através de seu site oficial disponibilizou manuais de práticas clínicas para o manejo do TEA.
4 RELATO DE CASO
W. K. S. A., 18 meses, masculino, natural de CAPANEMA-PA, nasceu de parto normal no Hospital Regional do Baixo Tocatins (Hospital Santa Rosa), foi encaminhado ao ambulatório pediátrico devido a suspeita de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.
A mãe, 27 anos, G2P2, realizou pré-natal adequado, com ultrassonografias sem anormalidades detectáveis, nega consanguinidade, porém chegou a fazer o uso do fármaco valproato durante até as 5 semanas da gestação, relata que há pessoas com condições neuropsiquiátricas na família, nega uso de drogas e o uso de substâncias durante a gestação. O parto foi normal, a termo, Apgar 9/10, peso de 3.200g e sem intercorrências neonatais.
A anamnese revelou preocupações da mãe quanto à falta de interação social e comunicação da criança. Aos 12 meses, não respondia consistentemente ao chamado pelo nome, apresentava ausência de balbucio e não realizava gestos comunicativos, como apontar ou acenar. O histórico familiar incluiu um primo materno diagnosticado com TEA.
A avaliação médica evidenciou a falta de contato visual durante a consulta e atitudes repetitivas, como balançar as mãos e alinhar brinquedos. Não foram identificadas irregularidades neurológicas ou motoras claras. O crescimento em peso e altura estava em conformidade com a idade.
Foi aplicada a escala de triagem M-CHAT-R/F (Modified Checklist for Autism in Toddlers), que indicou alto risco para TEA. Exames complementares, como audiometria, descartaram perda auditiva como causa do atraso na comunicação. A avaliação neurológica revelou padrões de processamento sensorial alterados, com hipersensibilidade a estímulos auditivos e táteis.
Foi iniciada uma intervenção precoce com enfoque em terapia comportamental baseada em ABA (Applied Behavior Analysis) e fonoaudiologia para estimulação da linguagem. Orientações foram fornecidas à família sobre estratégias para promover interação e comunicação, além de encaminhamento ao serviço de genética clínica para investigação etiológica.
A criança, aos 24 meses, mostrou progressos na imitação motora e na utilização de gestos, apesar de a linguagem verbal ainda se restringir a algumas palavras isoladas. O monitoramento constante e as ações antecipadas foram cruciais para a progressão do quadro.
Outro aspecto relevante no caso foi à hipersensibilidade sensorial, frequentemente encontrada em crianças com TEA. No caso de W. K. S. A., o incômodo extremo com sons ambientes, como o barulho do liquidificador, dificultava a adaptação a situações comuns no ambiente doméstico. Além disso, comportamentos restritivos, como preferência exclusiva por alimentos com textura pastosa, foram identificados, requerendo acompanhamento nutricional.
O tratamento clínico abrangeu não apenas terapia comportamental e fonoaudiológica, mas também apoio psicopedagógico e orientações para o ambiente escolar. Embora a idade ainda seja jovem para ingressar no ambiente escolar convencional, foi sugerida a realização de atividades em pequenos grupos para fomentar competências sociais fundamentais.
Os estágios do crescimento infantil são instrumentos cruciais para identificar possíveis desvios no neurodesenvolvimento. No Transtorno do Espectro Autista, além do retardo no desenvolvimento da linguagem, é frequente notar problemas em dividir a atenção, como seguir o apontamento de outra pessoa ou manter conversas não verbais, características que também se fizeram presentes no caso descrito. Isso enfatiza a importância de protocolos de triagem padronizados, como o M-CHAT-R/F, utilizados em consultas regulares entre 16 e 30 meses.
Além dos aspectos mencionados, é fundamental compreender que os sinais precoces do Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem variar amplamente entre as crianças. No caso do paciente L.R.S., comportamentos como hiperfoco em objetos específicos e ausência de interesse por brincadeiras interativas com os pais foram observados ao longo da evolução do quadro. Esses sinais reforçam a importância de um olhar clínico atento durante as consultas de puericultura, especialmente nos primeiros dois anos de vida.
A inclusão da família no processo de intervenção foi crucial para a adesão às terapias. No caso relatado, a mãe do paciente participou ativamente das sessões com a equipe multidisciplinar, sendo orientada a realizar atividades interativas em casa, como jogos sensoriais e leitura compartilhada, para reforçar o vínculo e estimular o desenvolvimento. A abordagem centrada na família é especialmente eficaz no contexto de intervenções precoces.
É muito é importante destacar que o diagnóstico de TEA é clínico e baseado em critérios estabelecidos no DSM-5, mas a exclusão de condições associadas, como epilepsia e desordens genéticas, também é parte integrante do manejo. No caso de W. K. S. A., exames como eletroencefalograma e ressonância magnética foram realizados, sem alterações significativas. No entanto, o acompanhamento neurológico foi mantido como medida preventiva.
O relato evidencia que a identificação precoce, aliada à intervenção multidisciplinar, não só favorece o prognóstico da criança, mas também reduz significativamente o impacto do transtorno na dinâmica familiar.
5 DISCUSSÃO
Sabe-se que, os fatores de risco para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) são múltiplos e envolvem interações complexas entre fatores genéticos e ambientais. Pode acontecer a mutação ou deleção genética, principalmente alterações em genes específicos, como os relacionados à neurodesenvolvimento (ex.: SHANK3, CHD8, PTEN), estão associados ao TEA. No caso em questão, há histórico familiar incluiu um primo materno, de primeiro grau, diagnosticado com TEA.
No caso descrito, a mãe, 32 anos, realizou pré-natal adequado, com ultrassonografias sem anormalidades detectáveis, nega consanguinidade, o uso de drogas, mas aduz que até 5 semanas da gestação chegou a usar o fármaco “valproato”. O pai tem 34 anos, ou seja, sem idade avançada, o que em alguns estudos está associada a um aumento na probabilidade de mutações genéticas espontâneas que podem contribuir para o TEA13.
Outros pontos, também que merecem destaque é com relação a causas genéticas relacionadas, como é o caso da esclerose tuberosa, onde alterações cromossômicas microscopicamentes visíveis, como duplicação 15q11-q13 e as deleções 2q37, 22q11.2 e 22q13.3. Há também as conhecidas na forma de comorbidades com síndromes genéticas monogênicas, como as síndromes do X-frágil (FMR1) e Rett (MECP2), Esclerose Tuberosa (TSC1 e TSC2), síndrome de Angelman (UBE3A), Neurofibromatose (NF1) e outros14.
Não foram relatadas complicações no pré-natal e perinatais, pois poderia haver hipótese de infecções virais ou bacterianas, como rubéola ou citomegalovírus, nas quais poderiam interferir no desenvolvimento cerebral fetal.
A questão também de hipóxia neonatal também foi descartada, da mesma forma em questão do baixo peso e a prematuridade extrema não foram os casos. Nas ultrassonografias morfológicas realizadas e exames laboratoriais regulares, sem identificação de anormalidades estruturais ou genéticas.
A mãe começou o seu pré-natal logo com 6 semanas de gestação, em posto local em Capanema-PA. Após isso, no Hospital Regional do Baixo Tocatins (Hospital Santa Rosa), realizou várias ultrassonografias, e nenhuma identificou malformações congênitas. No entanto, não foi investigado de forma mais detalhada com relação ao uso do fármaco utilizado durante a gravidez.
Nesse sentido, é de suma importância saber que o valproato é um anticonvulsivante que atravessa a barreira placentária e interfere na modulação de processos epigenéticos, como a acetilação de histonas e na regulação de genes essenciais para a neurogênese15.
Alguns estudos mostram que a exposição intrauterina ao valproato pode alterar o padrão de conectividade neuronal e levar a anomalias na migração celular, formação de sinapses e plasticidade cerebral. Além disso, o medicamento está associado a efeitos teratogênicos, como defeitos no tubo neural, que podem ser relacionados com alterações funcionais em áreas cerebrais envolvidas na socialização e comunicação15.
Por essas razões, o valproato deve ser evitado em mulheres grávidas, especialmente durante o primeiro trimestre, salvo em situações onde o benefício supera o risco, como em casos de epilepsia refratária. Quando o uso é inevitável, o acompanhamento gestacional rigoroso e a avaliação precoce do desenvolvimento da criança são fundamentais.
No desenvolvimento motor, crianças com TEA podem apresentar padrões atípicos, como marcha na ponta dos pés ou movimentos corporais repetitivos, como balançar as mãos. Embora nem sempre sejam específicos ao autismo, esses comportamentos devem ser avaliados em conjunto com outros sinais. Em alguns casos, há um desenvolvimento inicial aparentemente normal, seguido de uma perda de habilidades adquiridas, como linguagem ou interação social, um fenômeno conhecido como regressão, que frequentemente ocorre entre 18 e 24 meses16.
Em termos clínicos, o diagnóstico inicial do TEA é fundamentado em critérios comportamentais estabelecidos no DSM-5, uma vez que não existem biomarcadores específicos disponíveis. Entre os indícios iniciais, é notável a dificuldade no contato visual, que pode se apresentar como falta de reação ao olhar do cuidador ou ausência de troca de olhares durante interações sociais. Adicionalmente, a falta de sorrisos sociais12.
A incidência atual do Transtorno do Espectro Autista é estimada em 1:36 crianças, o que equivale a aproximadamente 1 em cada 36 crianças diagnosticadas com TEA no Brasil, predominante em meninos. Do ponto de vista genético, pesquisas indicam que os meninos podem ser mais propensos a mutações ligadas ao TEA, como as ligadas a genes ligados ao cromossomo X. Isso ocorre porque os meninos têm apenas uma cópia deste cromossomo, enquanto as meninas têm duas, proporcionando um efeito de proteção por redundância genética17.
Logo, é importante destacar que o diagnóstico de TEA é clínico e baseado em critérios estabelecidos no DSM-5, mas a exclusão de condições associadas, como epilepsia e desordens genéticas, também é parte integrante do manejo. No caso de W.K.S.A., exames como eletroencefalograma e ressonância magnética foram realizados, sem alterações significativas.
No entanto, o acompanhamento neurológico foi mantido como medida preventiva.
6 CONCLUSÃO
Percebe-se que, a relevância de um diagnóstico precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças, especialmente na faixa etária de 12 a 24 meses, período crítico para o desenvolvimento neuropsicomotor é muito importante. O caso do paciente W. K. S. A. ilustra como a identificação de sinais precoces, como ausência de resposta ao chamado pelo nome, atraso na comunicação verbal e não verbal, bem como comportamentos repetitivos e hipersensibilidade sensorial, podem orientar intervenções precoces e multidisciplinares, essenciais para a modulação do prognóstico.
O uso de ferramentas de triagem padronizadas, como a M-CHAT-R/F, provou ser um método eficaz para identificar crianças com risco de TEA, possibilitando a avaliação inicial e a elaboração de um plano terapêutico personalizado. Simultaneamente, foram descartadas condições relacionadas, tais como deficiência auditiva, epilepsia e síndromes genéticas, através de exames adicionais, sublinhando a importância de um diagnóstico completo.
Sempre que possível, deve-se discutir sobre os aspectos sensoriais muitas vezes ignorados, como a hipersensibilidade a estímulos táteis e auditivos, que afetaram diretamente a rotina da criança e demandaram a execução de modificações no ambiente e assistência nutricional.
Portanto, entende-se que a identificação precoce dos sintomas do TEA, juntamente com a aplicação de estratégias terapêuticas focadas na criança e na família, não só impulsiona o crescimento infantil, mas também diminui consideravelmente o efeito emocional e social sobre os responsáveis.
Por fim, é importante enfatizar a importância da formação contínua para profissionais da saúde e seus familiares, além da ampliação de programas de detecção e intervenção precoce em grande escala, como componente das políticas públicas de saúde direcionadas a crianças com TEA.
REFERÊNCIAS
1. ALMEIDA, Maíra Lopes; NEVES, Anamaria Silva. A Popularização Diagnóstica do Autismo: uma Falsa Epidemia?. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/WY8Zj3BbWsqJCz6GvqGFbCR/. Acesso em: 02 jan. 2025.
2. AUTISMO E REALIDADE. Levantamento é divulgado a cada dois anos; em 2004, o total era de 1 a cada 166. Disponível em: Acesso em: https://autismoerealidade.org.br/2023/04/14/uma-a-cada-36-criancas-e-autista-segundo-cdc/. 02 jan. 2025.
3. CAMARGO, S. P. H. 7 RISPOLI, M. (2013). Análise do comportamento aplicada como intervenção para o autismo: definição, características e pressupostos filosóficos. In: Revista Educação Especial. V. 26 n. 47 p. 639-650.
4. KLIN, Ami. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 28, n. suppl. 1, p. s3-s11, 2006.
5. OLIVEIRA-GRIESI Karina; SERTIÉ, Andreá Laurato. Transtornos do espectro autista: um guia atualizado para aconselhamento genético. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eins/a/YMg4cNph3j7wfttqmKzYsst/?lang=pt. Acesso em: 04 jan. 2025.
6. MATOS, Rosana do S. Pinheiro. As dificuldades de aprendizagem em pessoa com Autismo e as Contribuições da Análise do Comportamento Aplicada ABA. Journal of Specialist, [S. l.], v. 4, n. 4, p. 1-20, 1 abr. 2018.
7. SANTOS, Gilmaci. O autismo no Brasil. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=407566.Acesso em: 03 jan. 2025.
8. CUCOLICCHIO, S. et. al. Correlação entre as escalas CARS e ATA no diagnóstico de autismo. Medicina de Reabilitação. São Bernardo do Campo, São Paulo, v.29, n.1, p.6-8, 2010.
9. PEREIRA, Lucia Leite; SAUER, Drielle Paparella. O Transtorno do Espectro Autista na residência em pediatria. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/items/f9048d4b-3c714a7c-ad76-b146b825d5d6/full. Acesso em:17 jan. 2025.
10. GIRIANELLI, Vania Reis; TOMAZELLI, Jeane; SILVA, Cosme Marcelo Furtado Passos da; FERNANDES, Conceição Santos. Diagnóstico precoce do autismo e outros transtornos do desenvolvimento, Brasil. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/JBftZkCxZ6SYbqkJhyvCGYP/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 18 jan. 2025.
11. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Manual de orientação: Transtorno do Espectro do Autismo. Rio de Janeiro: SBP, 2019.
12. SILVA, Micheline; MULICK, James A. Diagnosticando o transtorno autista: aspectos fundamentais e considerações práticas. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/RP6tV9RTtbLNF9fnqvrMVXk/?lang=pt. Acesso: 18 jan. 2025.
13. BORGES, Liana Alves de Freitas Soares; YAMAMOTO, Isadora Rosa; LOPES, Ariel Pamela da Silva; MELO, Amanda Alexandre; SIQUEIRA, Benara Otoni de; PEREIRA, Bianca Leite; SOUZA, , Cecília Miranda Tozetti de. Aumento nos casos de Transtorno do Espectro Autista em crianças: fatores e implicações. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/download/4534/4518/9878. Acesso em: 19 jan. 2025.
14. FREITAS, Ariane Miranda de; BRUNONI, Décio; MUSSOLINI, Juliana Lopes. Transtorno do espectro autista: estudo de uma série de casos com alterações genéticas. Disponível em: https://doi.org/10.5935/cadernosdisturbios.v17n2p101-110. Acesso em: 18 jan. 2025.
15. BARROS NETO, Sebastião Gonçalves de; BRUNONI, Decio; CYSNEIROS, Roberta Monterazzo. Abordagem psicofarmacológica no transtorno do espectro autista: uma revisão narrativa. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-03072019000200004. Acesso em: 20 jan. 2025.
16. FERNANDES, Conceição Santos; TOMAZELLI, Jeane; GIRIANELLI, Vania Reis. Diagnóstico de autismo no século XXI: evolução dos domínios nas categorizações nosológicas. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/4W4CXjDCTH7G7nGXVPk7ShK/. Acesso em: 19 jan. 2025.
17. FACION, J. R. Transtornos invasivos do desenvolvimento e transtornos de comportamento disruptivo. 2a ed. Curitiba, PR: IBPEX, 2015.
