PRÉ-ECLÂMPSIA NO PÓS-PARTO IMEDIATO E TARDIO:  ASPECTOS CLÍNICOS E PROGNÓSTICOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602111328


Mariana Alice Borgo Rossi
Laura Kontze Galli
Dr. Vinicius Ribeiro de Oliveira
Dr. Gilberto dos Santos Povoas Júnior
Dra. Ana Claudia Barros
Enf. Obst. Gleice Rodrigues Eller Gonzaga


RESUMO 

A pré-eclâmpsia é uma síndrome hipertensiva específica da gestação, caracterizada por elevação da pressão arterial associada à disfunção endotelial sistêmica e comprometimento de órgãos-alvo. Embora classicamente relacionada ao período gestacional, evidências recentes demonstram que a doença pode persistir ou manifestar-se de forma tardia no puerpério, configurando a pré-eclâmpsia pós-parto. Essa condição representa importante causa de morbidade materna, frequentemente subdiagnosticada, devido à falsa percepção de resolução completa após o parto. Estudos contemporâneos indicam elevada prevalência de hipertensão persistente no pós-parto, além de associação com complicações neurológicas, cardiovasculares e aumento do risco de doenças cardiovasculares a longo prazo. Diante desse contexto, o reconhecimento precoce, o monitoramento adequado e a estratificação prognóstica tornam-se essenciais para reduzir desfechos adversos maternos. 

Palavras-chave: pré-eclâmpsia; pós-parto; puerpério; hipertensão; prognóstico materno. 

ABSTRACT 

Preeclampsia is a pregnancy-specific hypertensive disorder characterized by elevated blood pressure associated with systemic endothelial dysfunction and target-organ damage. Although traditionally linked to pregnancy, recent evidence demonstrates that the disease may persist or manifest de novo during the postpartum period, characterizing postpartum preeclampsia. This condition represents a significant cause of maternal morbidity and is frequently underdiagnosed due to the mistaken belief that delivery leads to complete resolution. Contemporary studies report a high prevalence of persistent postpartum hypertension, as well as associations with neurological and cardiovascular complications and an increased long-term cardiovascular risk. Therefore, early recognition, adequate monitoring, and prognostic stratification are essential to reduce adverse maternal outcomes. 

Keywords: preeclampsia; postpartum; puerperium; hypertension; maternal prognosis. 

INTRODUÇÃO 

A pré-eclâmpsia (PE) constitui uma das principais síndromes hipertensivas da gestação e permanece como causa relevante de morbimortalidade materna em nível global, especialmente em países de média e baixa renda. De acordo com critérios amplamente aceitos, a condição é definida pelo surgimento de hipertensão arterial (pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg e/ou diastólica ≥ 90 mmHg) após a 20ª semana de gestação, associada à proteinúria ou a sinais de disfunção orgânica materna, incluindo comprometimento renal, hepático, neurológico, hematológico ou uteroplacentário (ACOG, 2020; MAGEE et al., 2022). 

Historicamente, o parto era considerado o evento definitivo para a resolução da pré-eclâmpsia. Contudo, estudos recentes demonstram que a fisiopatologia da doença não se encerra com a dequitação placentária, uma vez que a disfunção endotelial sistêmica, à inflamação persistente e as alterações hemodinâmicas podem manter-se ativas no período pós-parto (FOX et al., 2019; BROWN et al., 2023). Nesse contexto, surge o conceito de pré-eclâmpsia pós-parto, definida como a ocorrência de sinais e sintomas da doença após o parto, podendo manifestar-se tanto de forma imediata (até 48 horas) quanto tardia, até seis semanas após o nascimento (MAGEE et al., 2022). 

A pré-eclâmpsia pós-parto tardia tem recebido crescente atenção na literatura, sobretudo por seu caráter insidioso e pela dificuldade diagnóstica. Muitas mulheres recebem alta hospitalar assintomáticas e retornam aos serviços de saúde com quadros graves, como cefaleia persistente, alterações visuais, dispneia, edema agudo de pulmão, crise hipertensiva e eclâmpsia, frequentemente sem associação imediata com a gestação recente (SIBAI, 2021). Estudos observacionais indicam que uma parcela significativa dos casos de eclâmpsia ocorre no período pós-parto, reforçando a necessidade de vigilância clínica contínua (SIBAI, 2021; HAUGHTON et al., 2020). 

Além das complicações agudas, a pré-eclâmpsia no pós-parto está fortemente associada à persistência de hipertensão arterial. Evidências demonstram que mulheres com histórico de pré-eclâmpsia apresentam taxas significativamente mais elevadas de hipertensão crônica nas semanas e meses subsequentes ao parto, especialmente aquelas com início precoce da doença ou formas graves (VELDE et al., 2023). Um estudo de coorte recente identificou que mais de 60% das mulheres com pré-eclâmpsia mantiveram níveis pressóricos elevados três meses após o parto, sugerindo transição precoce para hipertensão crônica (SANTOS et al., 2024). 

Do ponto de vista prognóstico, a pré-eclâmpsia é atualmente reconhecida como marcador independente de risco cardiovascular a longo prazo. Mulheres acometidas apresentam maior incidência de doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e mortalidade cardiovascular ao longo da vida (WU et al., 2022). A persistência da hipertensão no pós-parto representa um elo fisiopatológico importante entre a doença gestacional e as complicações cardiovasculares futuras, reforçando a necessidade de estratégias de acompanhamento prolongado e abordagem multiprofissional (BROWN et al., 2023). 

Apesar da relevância clínica e epidemiológica, a pré-eclâmpsia pós-parto permanece subdiagnosticada e subvalorizada na prática clínica, especialmente na atenção primária à saúde. A ausência de protocolos padronizados de seguimento puerperal, aliada à fragmentação do cuidado materno após o parto, contribui para o atraso no diagnóstico e para a ocorrência de desfechos adversos potencialmente evitáveis (WHO, 2022). 

Diante desse cenário, torna-se fundamental aprofundar o conhecimento sobre os aspectos clínicos, fisiopatológicos e prognósticos da pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio, a fim de subsidiar práticas assistenciais baseadas em evidências e reduzir a morbimortalidade materna associada a essa condição. 

JUSTIFICATIVA 

A pré-eclâmpsia permanece como uma das principais causas de morbimortalidade materna em âmbito mundial, sendo tradicionalmente abordada como uma condição restrita ao período gestacional. No entanto, evidências científicas recentes demonstram que a doença pode persistir ou manifestar-se de forma tardia no período pós-parto, configurando a pré-eclâmpsia pós-parto, condição ainda subestimada na prática clínica e nos protocolos assistenciais (SIBAI, 2021; MAGEE et al., 2022). 

O puerpério é frequentemente considerado um período de menor risco, o que contribui para a redução da vigilância clínica após a alta hospitalar. Tal percepção pode resultar em atraso diagnóstico, manejo inadequado e aumento do risco de complicações graves, como crises hipertensivas, eclâmpsia, edema agudo de pulmão e acidente vascular cerebral, especialmente nos casos de pré-eclâmpsia pós-parto tardia (HAUGHTON et al., 2020). Além disso, a persistência da hipertensão arterial após o parto representa um importante fator prognóstico para o desenvolvimento de hipertensão crônica e doenças cardiovasculares ao longo da vida da mulher (WU et al., 2022). 

Apesar do crescente número de estudos publicados nos últimos anos, observa-se heterogeneidade nas definições, critérios diagnósticos, estratégias de acompanhamento e manejo da pré-eclâmpsia no pós-parto, o que dificulta a padronização da assistência e a incorporação das evidências à prática clínica (BROWN et al., 2023). Ademais, há escassez de protocolos específicos voltados ao acompanhamento puerperal prolongado, especialmente na atenção primária à saúde, cenário no qual muitas dessas pacientes são acompanhadas após a alta hospitalar. 

Dessa forma, justifica-se a realização do presente estudo pela necessidade de sistematizar e analisar criticamente as evidências científicas recentes acerca dos aspectos clínicos e prognósticos da pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio. A compreensão aprofundada dessa condição poderá contribuir para o aprimoramento das estratégias de vigilância, diagnóstico precoce e manejo adequado, além de subsidiar políticas de saúde voltadas à redução da morbimortalidade materna e à promoção da saúde cardiovascular da mulher. 

METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, do tipo revisão integrativa da literatura, com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar criticamente as evidências científicas disponíveis acerca da pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio, com enfoque nos aspectos clínicos, fisiopatológicos e prognósticos. 

A revisão integrativa foi conduzida em seis etapas metodológicas: (1) formulação da pergunta norteadora; (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão; (3) busca sistemática na literatura; (4) seleção dos estudos; (5) análise crítica e extração dos dados; e (6) síntese e apresentação dos resultados, conforme metodologia descrita por Whittemore e Knafl. 

A pergunta norteadora do estudo foi elaborada com base na estratégia PICO adaptada para revisões integrativas, sendo definida como: Quais são os principais aspectos clínicos, diagnósticos e prognósticos da pré-eclâmpsia no período pós-parto, segundo as evidências científicas publicadas nos últimos cinco anos? 

A busca dos artigos foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e SciELO, no período de janeiro de 2020 a dezembro de 2025, com o intuito de contemplar as evidências mais recentes sobre o tema. Foram utilizados descritores controlados e não controlados, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, tais como: preeclampsia, postpartum preeclampsia, postpartum hypertension, puerperium, maternal outcomes e seus correspondentes em português e espanhol. 

Os critérios de inclusão adotados foram: (a) artigos originais publicados nos últimos cinco anos; (b) estudos observacionais, ensaios clínicos, coortes, estudos de caso-controle ou estudos prospectivos; (c) pesquisas que abordassem a pré-eclâmpsia no período pós-parto imediato ou tardio; e (d) publicações disponíveis na íntegra nos idiomas português, inglês ou espanhol. Foram excluídos artigos de revisão narrativa, revisões sistemáticas, metanálises, editoriais, cartas ao editor, estudos experimentais em animais e publicações duplicadas. 

A seleção dos estudos ocorreu em duas etapas. Inicialmente, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, a fim de identificar aqueles potencialmente relevantes. 

Em seguida, os artigos selecionados foram submetidos à leitura na íntegra para confirmação da elegibilidade, conforme os critérios previamente estabelecidos. 

A extração dos dados foi realizada por meio de instrumento padronizado, contemplando as seguintes variáveis: autor, ano de publicação, país de origem, delineamento do estudo, tamanho da amostra, critérios diagnósticos de pré-eclâmpsia pós-parto, principais manifestações clínicas, estratégias de manejo adotadas e desfechos maternos avaliados. A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, permitindo a identificação de padrões, divergências e lacunas no conhecimento científico atual. 

Por tratar-se de um estudo de revisão de literatura, sem envolvimento direto de seres humanos, não houve necessidade de submissão a comitê de ética em pesquisa, conforme as diretrizes da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. 

OBJETIVOS 

Objetivo Geral 

Analisar, à luz da literatura científica recente, os aspectos clínicos, fisiopatológicos e prognósticos da pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio, destacando suas implicações para o diagnóstico, manejo e acompanhamento da saúde materna. 

Objetivos Específicos 

  • Descrever os principais mecanismos fisiopatológicos envolvidos na persistência ou no surgimento da pré-eclâmpsia no período pós-parto; 
  • Identificar as manifestações clínicas mais frequentes da pré-eclâmpsia pós-parto imediato e tardio; 
  • Analisar os critérios diagnósticos utilizados para o reconhecimento da pré-eclâmpsia no puerpério; 
  • Avaliar os principais desfechos maternos associados à pré-eclâmpsia pós-parto, com ênfase no prognóstico cardiovascular; 
  • Discutir a importância do acompanhamento puerperal prolongado na prevenção de complicações maternas. 

REVISÃO DA LITERATURA 

1. Conceito e classificação da pré-eclâmpsia pós-parto 

A pré-eclâmpsia é definida como uma síndrome hipertensiva multissistêmica específica da gestação, caracterizada por hipertensão arterial associada à disfunção orgânica materna. Embora classicamente descrita como condição resolvida com o parto, evidências contemporâneas demonstram que a doença pode persistir ou manifestar-se de forma tardia no puerpério, sendo então denominada pré-eclâmpsia pós-parto (ACOG, 2020; MAGEE et al., 2022). 

A pré-eclâmpsia pós-parto pode ser classificada em imediata, quando ocorre nas primeiras 48 horas após o parto, e tardia, quando se manifesta entre 48 horas e até seis semanas após o nascimento. Essa distinção é clinicamente relevante, uma vez que os mecanismos fisiopatológicos, a apresentação clínica e o risco de complicações podem variar entre essas duas formas (SIBAI, 2021). 

Estudos recentes apontam que uma parcela significativa das complicações graves relacionadas à pré-eclâmpsia, incluindo eclâmpsia e acidente vascular cerebral, ocorre no período pós-parto, muitas vezes após a alta hospitalar, reforçando a necessidade de vigilância contínua nesse período (HAUGHTON et al., 2020). 

2. Fisiopatologia da pré-eclâmpsia no pós-parto 

A fisiopatologia da pré-eclâmpsia envolve disfunção endotelial sistêmica desencadeada, inicialmente, por alterações na placentação e liberação de fatores antiangiogênicos na circulação materna. Embora a retirada da placenta seja considerada evento central para a resolução da doença, estudos demonstram que a cascata inflamatória e os efeitos endoteliais podem persistir por semanas após o parto (FOX et al., 2019; BROWN et al., 2023). 

No pós-parto, a redistribuição de fluidos do espaço extravascular para o intravascular, associada à mobilização do edema gestacional, pode levar ao aumento abrupto do volume circulante efetivo, contribuindo para elevação pressórica e sobrecarga cardíaca. Esse mecanismo explica, em parte, o surgimento tardio da hipertensão e de complicações como edema agudo de pulmão em mulheres previamente assintomáticas (SIBAI, 2021). 

Além disso, a persistência de níveis elevados de fatores antiangiogênicos, como o sFlt-1, e a redução de fatores pró-angiogênicos, como o PlGF, têm sido descritas no período pós-parto, sustentando o estado de disfunção endotelial e inflamação sistêmica (WU et al., 2022). Esses achados reforçam que a pré-eclâmpsia pós-parto não representa apenas uma extensão temporal da doença gestacional, mas um fenômeno fisiopatológico ativo. 

3. Manifestações clínicas e diagnóstico no puerpério 

As manifestações clínicas da pré-eclâmpsia pós-parto são variadas e frequentemente inespecíficas, o que contribui para o subdiagnóstico. Os sintomas mais comuns incluem cefaléia persistente e de forte intensidade, alterações visuais, náuseas, dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, dispneia e edema de instalação súbita (HAUGHTON et al., 2020). 

A hipertensão arterial permanece como o principal sinal clínico, podendo apresentar-se de forma isolada ou associada a sinais de disfunção orgânica, como elevação de enzimas hepáticas, trombocitopenia, insuficiência renal e alterações neurológicas. Ressalta-se que a proteinúria pode estar ausente, não devendo sua ausência excluir o diagnóstico (ACOG, 2020). 

O diagnóstico da pré-eclâmpsia pós-parto baseia-se nos mesmos critérios utilizados durante a gestação, adaptados ao contexto puerperal. No entanto, a ausência de protocolos padronizados de rastreamento no pós-parto contribui para atrasos no diagnóstico, especialmente na atenção primária à saúde (BROWN et al., 2023). 

4. Prognóstico materno e implicações a longo prazo 

O prognóstico da pré-eclâmpsia pós-parto está diretamente relacionado à gravidade da apresentação clínica, ao tempo de reconhecimento da condição e à adequação do manejo instituído. Estudos de coorte demonstram que mulheres com pré-eclâmpsia apresentam maior risco de hipertensão persistente nas semanas e meses subsequentes ao parto, com taxas que podem ultrapassar 60% em três meses pós-parto (SANTOS et al., 2024). 

Além das complicações imediatas, a pré-eclâmpsia é atualmente reconhecida como marcador independente de risco cardiovascular a longo prazo. Mulheres acometidas apresentam maior incidência de hipertensão crônica, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca ao longo da vida (WU et al., 2022). A persistência da hipertensão no pós-parto representa um elo crítico entre a doença hipertensiva gestacional e as doenças cardiovasculares futuras. 

Dessa forma, a literatura recente enfatiza a importância do acompanhamento puerperal prolongado e da integração entre atenção obstétrica, clínica e atenção primária, visando à identificação precoce de fatores de risco e à implementação de estratégias preventivas voltadas à saúde cardiovascular da mulher (WHO, 2022). 

DISCUSSÃO CRÍTICA 

A análise da literatura evidencia que a pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio constitui uma condição clínica relevante, porém ainda subvalorizada na prática assistencial. Embora o parto represente a retirada do principal fator desencadeador da doença a placenta, os estudos analisados demonstram de forma consistente que a fisiopatologia da pré-eclâmpsia persiste além do período gestacional, sustentada por disfunção endotelial, inflamação sistêmica e alterações hemodinâmicas prolongadas (FOX et al., 2019; BROWN et al., 2023). 

Um dos pontos centrais discutidos na literatura refere-se à falsa percepção de resolução completa da pré-eclâmpsia após o parto. Diretrizes clássicas enfatizavam o parto como tratamento definitivo; contudo, evidências recentes demonstram que essa abordagem é insuficiente para explicar a ocorrência de manifestações tardias e complicações graves no puerpério (ACOG, 2020; MAGEE et al., 2022). Essa concepção equivocada contribui diretamente para a redução da vigilância clínica após a alta hospitalar, favorecendo o subdiagnóstico da pré-eclâmpsia pós-parto, especialmente em sua forma tardia. 

Estudos observacionais apontam que uma parcela expressiva das mulheres que desenvolvem pré-eclâmpsia pós-parto não apresentava sinais clínicos evidentes no momento da alta, retornando aos serviços de saúde com quadros potencialmente fatais, como crise hipertensiva, eclâmpsia e edema agudo de pulmão (SIBAI, 2021; HAUGHTON et al., 2020). Esses achados reforçam a necessidade de revisão crítica dos modelos tradicionais de acompanhamento puerperal, que frequentemente se limitam à avaliação pontual, sem monitoramento pressórico sistemático nas semanas subsequentes ao parto. 

Outro aspecto amplamente discutido diz respeito à persistência da hipertensão arterial no pós-parto. A literatura recente demonstra taxas elevadas de hipertensão sustentada até três meses após o parto, sobretudo em mulheres com pré-eclâmpsia de início precoce ou formas graves da doença (VELDE et al., 2023; SANTOS et al., 2024). Esses dados sugerem que, em muitos casos, a pré-eclâmpsia pode representar não apenas uma condição transitória, mas um marcador precoce de vulnerabilidade cardiovascular. 

Nesse contexto, a discussão prognóstica ganha destaque. Evidências robustas indicam associação consistente entre pré-eclâmpsia e aumento do risco de hipertensão crônica, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca ao longo da vida da mulher (WU et al., 2022). A pré-eclâmpsia pós-parto, portanto, deve ser compreendida não apenas como evento obstétrico, mas como condição sentinela para doenças cardiovasculares futuras, exigindo abordagem longitudinal e multiprofissional. 

Apesar do avanço do conhecimento, observa-se heterogeneidade significativa entre os estudos quanto à definição, critérios diagnósticos e tempo de acompanhamento da pré-eclâmpsia pós-parto. Alguns autores consideram o período puerperal limitado a seis semanas, enquanto outros estendem a análise para até seis meses após o parto, dificultando comparações diretas e a consolidação de evidências (BROWN et al., 2023). Essa falta de padronização representa uma limitação importante da literatura atual e reforça a necessidade de consensos clínicos mais claros. 

Do ponto de vista assistencial, a literatura aponta falhas relevantes na integração entre atenção obstétrica e atenção primária à saúde. Após a alta hospitalar, muitas mulheres deixam de ser acompanhadas de forma sistemática, perdendo-se a oportunidade de diagnóstico precoce, ajuste terapêutico e educação em saúde (WHO, 2022). A ausência de protocolos estruturados para rastreamento da hipertensão no puerpério contribui para desfechos adversos potencialmente evitáveis. 

Dessa forma, a discussão crítica dos estudos analisados permite inferir que a pré-eclâmpsia pós-parto representa um problema de saúde pública ainda negligenciado. O reconhecimento dessa condição como parte de um continuum fisiopatológico, que se estende da gestação ao período pós-parto e à vida adulta, é fundamental para a reformulação das estratégias de cuidado materno. Investimentos em vigilância puerperal prolongada, capacitação profissional e integração dos níveis de atenção são medidas essenciais para reduzir a morbimortalidade materna associada à pré-eclâmpsia. 

LIMITAÇÕES DO ESTUDO 

O presente estudo apresenta limitações inerentes ao delineamento metodológico adotado. Por tratar-se de uma revisão integrativa da literatura, os achados dependem da qualidade metodológica, dos critérios diagnósticos e dos delineamentos dos estudos incluídos, os quais apresentaram considerável heterogeneidade. Diferenças quanto à definição temporal da pré-eclâmpsia pós-parto, aos critérios de gravidade e ao período de seguimento dificultaram a comparação direta entre os resultados e a consolidação de evidências homogêneas. 

Outra limitação relevante refere-se à exclusão de revisões sistemáticas e metanálises, opção metodológica adotada para priorizar estudos originais recentes. Embora essa estratégia permite análise direta de dados primários, pode ter restringido a incorporação de sínteses quantitativas mais amplas sobre o tema. Ademais, a maioria dos estudos analisados foi conduzida em países de alta renda, o que pode limitar a generalização dos achados para contextos de países em desenvolvimento, onde o acesso ao cuidado puerperal é frequentemente mais restrito. 

Destaca-se ainda a escassez de estudos prospectivos de longo prazo especificamente voltados à pré-eclâmpsia pós-parto tardia, o que limita a compreensão completa de seus desfechos cardiovasculares e metabólicos a médio e longo prazo. Essa lacuna evidencia a necessidade de pesquisas futuras com delineamentos mais robustos e seguimento prolongado. 

IMPLICAÇÕES CLÍNICAS 

Os achados desta revisão reforçam que a pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio deve ser reconhecida como condição clínica de alta relevância, com implicações diretas para a prática assistencial. A persistência ou o surgimento tardio da hipertensão arterial no puerpério exige que o acompanhamento materno não seja encerrado com a alta hospitalar, devendo incluir monitoramento pressórico sistemático nas semanas subsequentes ao parto. 

Do ponto de vista clínico, torna-se fundamental capacitar profissionais de saúde para o reconhecimento precoce dos sinais e sintomas da pré-eclâmpsia pós-parto, especialmente manifestações neurológicas, respiratórias e cardiovasculares frequentemente subvalorizadas. A adoção de protocolos específicos para o puerpério pode contribuir para a redução de complicações graves, como eclâmpsia, acidente vascular cerebral e edema agudo de pulmão. 

Além disso, a identificação da pré-eclâmpsia como marcador precoce de risco cardiovascular implica a necessidade de abordagem longitudinal da saúde da mulher. O acompanhamento clínico deve extrapolar o período obstétrico, integrando ações de prevenção cardiovascular, orientação sobre estilo de vida e rastreamento de fatores de risco metabólicos, em articulação com a atenção primária à saúde. 

RECOMENDAÇÕES 

Com base na análise crítica da literatura, recomenda-se a implementação de estratégias assistenciais que ampliem a vigilância materna no período pós-parto, incluindo a mensuração regular da pressão arterial até, pelo menos, seis semanas após o parto, especialmente em mulheres com histórico de pré-eclâmpsia ou fatores de risco associados. 

Sugere-se a elaboração e adoção de protocolos clínicos padronizados para o rastreamento, diagnóstico e manejo da pré-eclâmpsia pós-parto, contemplando tanto o ambiente hospitalar quanto à atenção primária à saúde. A educação em saúde das puérperas também deve ser fortalecida, com orientações claras sobre sinais de alerta que demandem busca imediata por atendimento médico. 

No âmbito científico, recomenda-se o desenvolvimento de estudos prospectivos multicêntricos, com amostras representativas e seguimento prolongado, a fim de elucidar os desfechos cardiovasculares de longo prazo associados à pré-eclâmpsia pós-parto. A padronização de definições e critérios diagnósticos também é fundamental para fortalecer a comparabilidade entre estudos e subsidiar futuras diretrizes clínicas. 

Por fim, ressalta-se a importância da integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde, promovendo um cuidado contínuo e centrado na mulher, capaz de reduzir a morbimortalidade materna e melhorar os desfechos em curto, médio e longo prazo. 

CONCLUSÃO 

A análise crítica da literatura evidencia que a pré-eclâmpsia no pós-parto imediato e tardio constitui uma condição clínica relevante, complexa e ainda subdiagnosticada, com implicações significativas para a morbimortalidade materna. Contrariamente à concepção tradicional de que o parto representa a resolução definitiva da doença, os estudos recentes demonstram que os mecanismos fisiopatológicos da pré-eclâmpsia podem persistir ou manifestar-se no puerpério, sustentados por disfunção endotelial, inflamação sistêmica e alterações hemodinâmicas prolongadas. 

Os achados reforçam que a pré-eclâmpsia pós-parto pode apresentar-se de forma insidiosa, frequentemente após a alta hospitalar, o que contribui para atrasos diagnósticos e aumento do risco de complicações graves, como crises hipertensivas, eclâmpsia, edema agudo de pulmão e eventos cerebrovasculares. A elevada prevalência de hipertensão persistente nas semanas e meses subsequentes ao parto destaca a importância do monitoramento pressórico contínuo e da reavaliação clínica sistemática no puerpério. 

Além das repercussões imediatas, a pré-eclâmpsia é atualmente reconhecida como marcador precoce de risco cardiovascular a longo prazo, estabelecendo-se como um elo entre a gestação complicada e o desenvolvimento futuro de hipertensão crônica e doenças cardiovasculares. Dessa forma, a abordagem da pré-eclâmpsia pós-parto deve ultrapassar o âmbito obstétrico, incorporando estratégias de cuidado longitudinal e integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde. 

Conclui-se que o reconhecimento precoce, o acompanhamento puerperal prolongado e a adoção de protocolos clínicos específicos são medidas fundamentais para reduzir desfechos adversos maternos. A ampliação do conhecimento científico e a padronização de critérios diagnósticos e assistenciais representam passos essenciais para o aprimoramento da qualidade do cuidado à mulher no pós-parto e para a redução da morbimortalidade associada à pré-eclâmpsia. 

REFERÊNCIAS 

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