REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602111205
Rubiane Gomes de Barros¹
Orientadora: Profa. Andréa Ramos Rocha²
RESUMO
A Atrofia Muscular Espinhal (AME) é uma doença genética rara, de herança autossômica recessiva, caracterizada pela degeneração progressiva dos neurônios motores alfa localizados na medula espinhal, resultando em hipotonia, fraqueza muscular e comprometimento de funções vitais como respiração e deglutição. O presente estudo tem como objetivo revisar, à luz da Biomedicina, os aspectos genéticos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos relacionados à AME, com foco na contribuição dos avanços científicos e tecnológicos para o diagnóstico precoce e o desenvolvimento de tratamentos inovadores. Realizou-se uma revisão da literatura, com abordagem qualitativa, por meio da análise de artigos publicados em bases científicas como PubMed, Scielo, BIREME e Google Scholar, entre os anos de 2020 e 2025. Os dados revelam que a AME é causada principalmente pela mutação ou deleção do gene SMN1, com variações fenotípicas moduladas pelo número de cópias do gene SMN2. O diagnóstico genético molecular é essencial para a confirmação da doença, além de fornecer subsídios para o prognóstico. O tratamento tem avançado com o uso de terapias gênicas e medicamentos modificadores do RNA, mas a doença ainda carece de cura definitiva. A Biomedicina, por sua natureza interdisciplinar, tem papel fundamental tanto no diagnóstico preciso quanto na investigação de novas terapias e suporte multidisciplinar aos pacientes.
Palavras-chave: Atrofia Muscular Espinhal. Biomedicina. Diagnóstico Molecular. SMN1. Terapia Gênica.
INTRODUÇÃO
A Atrofia Muscular Espinhal (AME) é uma doença neuromuscular hereditária caracterizada pela perda progressiva de neurônios motores localizados no corno anterior da medula espinhal. Essa degeneração causa fraqueza muscular simétrica e hipotonia,levando à atrofia muscular, insuficiência respiratória e,em muitos casos, à morte precoce. Trata-se de uma doença rara, com prevalência estimada em um a cada 6.000 a 10.000 nascimentos vivos, e incidência global de aproximadamente um a cada 40 a 50 indivíduos portadores do alelo mutado do gene SMN1 (Sales;Soliani; Sanches, 2022).
Do ponto de vista biomédico, a AME representa um modelo paradigmático de como as alterações genéticas podem-se manifestar com grande impacto neurológico e motor. Os avanços no conhecimento genético e molecular da doença possibilitaram o desenvolvimento de testes diagnósticos específicos e de terapias com base em modificação genética, sendo uma das poucas doenças genéticas com terapias modificadoras da progressão disponíveis.
Neste contexto, o presente trabalho visa integrar os principais conhecimentos sobre a AME sob a perspectiva da Biomedicina, discutindo sua fisiopatologia, as técnicas de diagnóstico laboratorial utilizadas, bem como os avanços terapêuticos e as limitações atuais, enfatizando a importância do biomédico no processo diagnóstico, de pesquisa e de apoio terapêutico.
OBJETIVO
Revisar a literatura científica com ênfase biomédica sobre a Atrofia Muscular Espinhal, abordando seus aspectos genéticos, fisiopatológicos, diagnósticos laboratoriais e terapêuticos, com destaque para os avanços em farmacogenética e biotecnologia no manejo clínico da doença.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão da literatura, com abordagem qualitativa e descritiva. Foram selecionados artigos científicos, revisões sistemáticas e documentos técnicos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis nas bases de dados PubMed, Scielo, BIREME e Google Scholar. Utilizaram-se os descritores: “Atrofia Muscular Espinhal”, “SMN1”, “Diagnóstico Molecular”, “Terapia Gênica” e “Biomedicina”. Foram priorizados materiais em português e inglês que abordassem aspectos biomoleculares, diagnóstico laboratorial, farmacoterapia e perspectivas terapêuticas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A AME é causada principalmente por mutações ou deleções homozigóticas no gene SMN1 (Survival of Motor Neuron 1), localizado no braço longo do cromossomo 5 (5q13). Este gene é responsável pela produção da proteína SMN, essencial para a sobrevivência e funcionamento dos neurônios motores. Indivíduos afetados geralmente possuem também o gene SMN2, que é funcionalmente deficiente, pois sua transcrição exclui o éxon 7 em 90% dos casos, gerando uma forma truncada e instável da proteína (Aslesh; Yokota, 2022).
O número de cópias do SMN2 é inversamente proporcional à gravidade da doença, sendo utilizado como fator prognóstico: indivíduos com mais cópias geralmente apresentam formas menos severas (tipos 3 e 4), enquanto pacientes com poucas cópias (1 ou 2) tendem a desenvolver AME tipo 1, a forma mais letal (Alves et al., 2024).
A degeneração dos neurônios motores leva a um conjunto de manifestações clínicas, incluindo hipotonia, fasciculações, dificuldade de sucção, deglutição e respiração, escoliose e infecções respiratórias de repetição. A morte neuronal é irreversível, o que torna o diagnóstico precoce e o tratamento imediato essenciais para preservar a função motora (Sales; Soliani; Sanches, 2022).
O diagnóstico da AME é realizado por meio da análise genética, com destaque para a técnica de PCR em tempo real (qPCR) e MLPA (Multiplex Ligation- dependent Probe Amplification), que permitem a identificação da deleção homozigótica do gene SMN1 e a quantificação das cópias de SMN2 (Prior; Leach; Finanger, 2024). Estas metodologias são fundamentais para confirmar o diagnóstico e orientar as decisões terapêuticas.
Do ponto de vista laboratorial, biomarcadores secundários como CK (creatina quinase), função respiratória e avaliação de mobilidade são úteis para o acompanhamento da progressão da doença e resposta ao tratamento. Em centros de pesquisa, também se investiga a presença de biomarcadores moleculares e metabólicos para identificação precoce em programas de triagem neonatal (Alves et al., 2024). O papel do biomédico se destaca na execução e interpretação de exames genéticos, no aconselhamento familiar em parceria com geneticistas e na pesquisa translacional para identificação de novos alvos terapêuticos (Prior; Leach; Finanger, 2024).
A AME foi historicamente uma doença sem opções terapêuticas efetivas, restrita a cuidados paliativos. No entanto, a última década foi marcada por avanços significativos, com o desenvolvimento de terapias gênicas e moduladoras do RNA (Aslesh; Yokota, 2022). Os principais fármacos atualmente aprovados incluem:
Nusinersena (Spinraza®): oligonucleotídeo antissenso administrado por via intratecal, promove a inclusão do éxon 7 no RNA do gene SMN2, elevando os níveis de proteína SMN. Onasemnogeno abeparvoveque (Zolgensma®): terapia gênica de dose única por infusão intravenosa, que introduz uma cópia funcional do gene SMN1 utilizando vetor viral AAV9.Risdiplam (Evrysdi®): modulador oral do splicing do RNA do SMN2, com indicação para os tipos 1, 2 e 3 da doença (Rodrigues et al., 2022, p. 141).
Apesar da eficácia comprovada, essas terapias possuem custos extremamente elevados e não estão amplamente disponíveis no sistema público de saúde, o que compromete a equidade no tratamento (Sales; Soliani; Sanches,2022).
Além dos tratamentos baseados em SMN, diversas abordagens “não-SMN” estão sendo investigadas, como o uso de neuroprotetores, agentes antiinflamatórios, estimuladores de regeneração muscular e terapias com células-tronco. A terapia combinada, utilizando medicamentos que atuam em vias complementares, representa uma perspectiva promissora (Rodrigues et al., 2022).
A AME demanda uma abordagem multidisciplinar, envolvendo fisioterapia respiratória e motora, acompanhamento nutricional, terapia ocupacional, fonoaudiologia e suporte psicológico. A Biomedicina, além do diagnóstico molecular, tem papel essencial na investigação de novas terapias e no monitoramento de biomarcadores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Atrofia Muscular Espinhal é uma doença genética grave e complexa, que impõe desafios ao diagnóstico precoce, ao acesso à terapêutica e à manutenção da qualidade de vida dos pacientes. A atuação do profissional biomédico é central em todas as etapas — desde a confirmação diagnóstica por técnicas de biologia molecular, até a colaboração em pesquisa clínica e desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.
Os avanços científicos vêm promovendo uma revolução no tratamento da AME, mas a equidade no acesso e a efetiva implementação das terapias ainda são desafios significativos. Investimentos em pesquisa translacional, programas de triagem neonatal e políticas públicas de acesso são fundamentais para transformar a trajetória dos pacientes com AME no Brasil. A reportagem exibida , em 18 de maio de 2025, trouxe maior visibilidade à Atrofia Muscular Espinhal, destacando seu caráter raro, genético e degenerativo. A matéria abordou o impacto transformador do Zolgensma — uma terapia gênica inovadora — na vida de crianças diagnosticadas com AME, mas também evidenciou os desafios relacionados ao seu elevado custo, que chega a milhões de reais. Além disso, destacou a luta constante das famílias para garantir o acesso ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que recentemente incorporou a medicação. Esse cenário reforça a necessidade urgente de políticas públicas mais robustas, capazes de garantir equidade no acesso às terapias avançadas, assegurando que inovações científicas beneficiem efetivamente toda a população.
REFERÊNCIAS
ALVES, Jacqueline Sanae Okasaki Padellaetal. Uma análise da atrofia muscular espinhal.RevistaEletrônicaAcervo Saúde, v.24,n.4,p.e15591-e15591,2024.
ASLESH T, YOKOTA T. Restoring SMN Expression: An Overview of the TherapeuticDevelopmentsfortheTreatmentofSpinalMuscularAtrophy. Cells, 2022; 11(3): 417.
PRIOR TW, LEACH ME, FINANGER EL. Atrofia Muscular Espinhal. 19 de setembrode2024editores. Gene Reviews® [Internet]. Seattle (WA): Universidade de Washington, Seattle; 1993-2025.
RODRIGUES, Vídia Karine Souza et al. Aspectos clínicos, terapêuticos e medicamentos da atrofia muscular espinhal (AME): uma revisão integrativa da literatura. Revista JRG Estudos Acadêmicos, v.5, n.11, p.134-146, 2022.
SALES, Cecilia Maria Prates; SOLIANI, F.C.B.G.; SANCHES, Ana Cláudia Soncini. Farmacoterapia da atrofia muscular espinhal. Inst, v. 40, n. 2, p. 119-26, 2022.
1Discente do curso de Biomedicina da Faculdade Anhanguera de Pelotas.
2Orientadora: Prof. do curso de Biomedicina da Faculdade Anhanguera de Pelotas.
