ADVANCES IN SURGICAL TECHNIQUES FOR THE CORRECTION OF HALLUX VALGUM: A SYSTEMATIC REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602082052
Caio Cesar Valentini Fernandes1
Yuri de Moraes Facó2
Alessandro Domenico Bruno Crapis3
RESUMO
O Hálux Valgo é uma deformidade progressiva do pé que causa dor e pode requerer cirurgia conforme a gravidade. Este estudo tem como objetivo revisar os avanços recentes nas técnicas cirúrgicas empregadas na correção do Hálux Valgo, comparando os métodos minimamente invasivos e tradicionais quanto à eficácia clínica e radiográfica, tempo operatório e complicações. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, sem meta-análise, com pesquisa na base de dados PubMed e Google Scholar. De um total de 8.122 artigos encontrados na base de dados Google Scholar e 7 artigos na PubMed, foram incluídos 8 estudos. A análise incluiu 911 pacientes com Hálux Valgo e comparou técnicas cirúrgicas tradicionais e minimamente invasivas. Os métodos modernos, como osteotomias percutâneas, piezocirurgia, cirurgia assistida por modelo tridimensional e fluoroscopia, apresentaram os melhores resultados funcionais pela escala AOFAS, com maior satisfação dos pacientes. Radiograficamente, ambos corrigiram os ângulos HVA e IMA, mas as técnicas modernas mostraram maior precisão. O tempo operatório foi menor nas abordagens minimamente invasivas (12,4 vs 17,1 min), no uso de torniquete (41,5 vs 50,8 min) e na fluoroscopia (2,5 vs 3,3 min). Nos métodos convencionais, houve mais complicações, como infecções, fístulas, abscessos, trombose venosa profunda e metatarsalgia. As técnicas minimamente invasivas mostram vantagens claras sobre os métodos tradicionais na correção do hálux valgo, oferecendo melhor recuperação e menos complicações. Contudo, são necessários mais estudos padronizados e de longo prazo para consolidar esses resultados.
Palavras-chave: hálux valgo; joanete; procedimentos ortopédicos.
ABSTRACT
Halux valgus is a progressive foot deformity that causes pain and may require surgery depending on severity. This study aims to review recent advances in surgical techniques used to correct hallux valgus, comparing minimally invasive and traditional methods in terms of clinical and radiographic efficacy, operative time, and complications. This is a systematic literature review, without meta-analysis, with research in the PubMed and Google Scholar databases. Of a total of 8,122 articles found in the Google Scholar database and 7 articles in PubMed, 8 studies were included. The analysis included 911 patients with hallux valgus and compared traditional and minimally invasive surgical techniques. Modern methods, such as percutaneous osteotomies, piezosurgery, 3D model-assisted surgery, and fluoroscopy, presented the best functional results according to the AOFAS scale, with greater patient satisfaction. Radiographically, both corrected the HVA and IMA angles, but modern techniques showed greater accuracy. Operative time was shorter with minimally invasive approaches (12.4 vs. 17.1 min), tourniquet use (41.5 vs. 50.8 min), and fluoroscopy (2.5 vs. 3.3 min). Conventional methods presented more complications, such as infections, fistulas, abscesses, deep vein thrombosis, and metatarsalgia. Minimally invasive techniques show clear advantages over traditional methods in hallux valgus correction, offering better recovery and fewer complications. However, further standardized, long-term studies are needed to consolidate these results.
Keywords: hallux valgus; bunion; orthopedic procedures.
Introdução
O hálux valgo (HV), conhecido como joanete, foi descrito pela primeira vez pelo cirurgião alemão Carl Hueter em 1870, como uma subluxação estática da primeira articulação metatarsofalângica com desvio lateral do hálux e desvio medial do primeiro metatarso (Matar; Platt, 2021; Kuhn; Alvi, 2023). É uma deformidade frequente nos pés que causa o desvio do dedão e pode provocar dor intensa com o tempo (Shi et al., 2020). Acontece em indivíduos de todas a idades (Cai et al., 2023), com ocorrência principalmente após os 40 anos (Shi et al., 2020) e 60 anos (Radcliffe; Sakkab; Mcalister, 2025), e uma menor incidência de 2% a 4% em crianças e adolescentes (Knörr et al., 2022). Em mulheres adultas, a deformidade por HV pode chegar a 30%, sobretudo entre as que usam sapatos ou saltos altos (Kuhn; Alvi, 2023).
A condição afeta a mobilidade e a qualidade de vida. É progressiva e contribui para a ocorrência de dor e dificuldade para caminhar (Shi et al., 2020; Lucattelli et al., 2020; Nair et al., 2022). A sua origem é multifatorial, que inclui fatores genéticos, o uso de calçados inadequados e instabilidade articular (Shi et al., 2020).
O HV é uma condição complexa e tridimensional, que afeta os planos frontal, transversal e sagital (Ferreira et al., 2023). A gravidade costuma ser avaliada de forma simples, a partir de dois ângulos. O primeiro é o ângulo do hállux valgo (AHV), quando está entre 15° e 30° (leve), entre 30° e 40° (moderado) e acima de 40° (grave). Outro parâmetro é o ângulo entre o primeiro e o segundo metatarsos, chamado ângulo intermetatarsal (AIM), classificado como leve se for menor que 10°, moderado entre 10° e 15°, e grave quando ultrapassa 15° (Li et al., 2024). A avaliação do HV deve ser feita com o paciente sentado e em pé, considerando o alinhamento de toda a perna e do retropé, que influenciam na distribuição da carga e no planejamento cirúrgico. Através do exame radiológico, com diferentes métodos, é possível estimar a rotação metatarsiana (Wagner; Wagner, 2020).
Essa condição pode vir acompanhada de outras deformidades nos dedos, como “dedo em garra” ou calosidades, causando dor significativa, sendo que, em alguns casos, é necessário corrigir essas alterações junto com a cirurgia do hállux. As avaliações neurológicas e vasculares são importantes, pois as alterações nesses sistemas costumam interferir no tratamento e exigir apoio de outras especialidades (Shi et al., 2020).
Quando o tratamento conservador falha, a cirurgia passa a ser uma opção, sendo que a técnica é escolhida de acordo com a gravidade da deformidade e as condições clínicas do paciente (Shi et al., 2020). O tratamento cirúrgico do HV inclui diversas técnicas, como osteotomias, artrodeses e procedimentos em partes moles, muitas vezes combinados. Nos últimos anos, cirurgias menos invasivas têm ganhado espaço, oferecendo recuperação mais rápida e menos dor (Nair et al., 2022).
As técnicas minimamente invasivas evoluíram em três gerações: a primeira, com a osteotomia de Isham, uma osteotomia oblíqua intra-articular e incompleta da cabeça do primeiro metatarso que não corrige o ângulo intermetatarsal; a segunda, com osteotomias como Bösch e SERI, e utiliza fios de Kirschner; e a terceira, baseada no Chevron, inclui fixação com parafusos. Já as técnicas abertas, como Chevron, Kramer e SCARF, ainda são bastante utilizadas e permitem um maior controle da correção, mas com maior agressão tecidual (Trinka, 2021). Apesar das variações nos métodos, os resultados e as taxas de complicações são semelhantes e a principal complicação observada é a recorrência da deformidade após o procedimento (Lucattelli et al., 2020).
As técnicas percutâneas para correção de HV, seguem um protocolo específico. A cirurgia, feita sem torniquete, inclui bunionectomia em casos de joanete proeminente; osteotomias como a de Reverdin-Isham e proximal do primeiro metatarso (M1), realizadas com brocas especiais para preservar as estruturas ósseas. Em casos raros, também se realizam a tenotomia do adutor e osteotomia tipo Akin. A imobilização cuidadosa com curativos posicionais garante a estabilidade e permite a deambulação precoce com calçado apropriado (Knörr et al., 2022).
Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo revisar os avanços recentes nas técnicas cirúrgicas empregadas na correção do Hállux Valgo, comparando os métodos minimamente invasivos e tradicionais quanto à eficácia clínica e radiográfica, tempo operatório e complicações.
Metodologia
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, sem meta-análise. Seguiu-se as etapas de pesquisa na base de dados, com seleção de artigos, extração das principais informações, síntese, avaliação e interpretação. Foi utilizado a estratégia PICOS (P: população; I: intervenção/exposição; C: comparação; O: desfecho; S: tipo de estudo.

Esta revisão sistemática vem responder a seguinte pergunta PICOS: Quais são os benefícios clínicos e radiográficos das técnicas cirúrgicas minimamente invasivas em comparação às técnicas tradicionais abertas no tratamento do hállux valgo? Na pesquisa bibliográfica foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Hálux Valgo; Joanete; Procedimentos Ortopédicos.
A pesquisa foi realizada na base de dados PubMed e Google Scholar. Foram aplicados filtros de recorte temporal, com publicações no período de 2020 a 2025. As estratégias de busca utilizaram os termos combinados em inglês (“surgical techniques for correcting hallus valgums”; “hallux valgus correction surgery transveron osteotomy”), e filtros específicos para tipo de estudo e intervalo de tempo.
Foram incluídos: 1) Estudos clínicos (randomizados, prospectivos, retrospectivos) que avaliem técnicas cirúrgicas para correção de hálux valgo em adultos; 2) Estudos que comparem técnicas tradicionais (abertas) e minimamente invasivas; 3) Publicações em inglês; 4) Estudos com avaliação de desfechos clínicos e radiográficos, como escore funcional (AOFAS), ângulos radiográficos (HVA, IMA, DMAA), tempo operatório, tempo de recuperação, complicações e satisfação do paciente; 5) Artigos publicados nos últimos 5 anos (2020 a 2025).
Foram excluídos: 1) Estudos realizados com pacientes pediátricos; 2) Estudos sem dados originais; 3) Estudos que não apresentam resultados clínicos ou radiográficos claros; 4) Publicações sem acesso ao texto completo; 5) Estudos direcionados a tratamentos não cirúrgicos do hálux valgo.
De um total de 8.122 artigos encontrados na base de dados Google Scholar e 7 artigos na PubMed, após critérios de inclusão e exclusão, e remoção de duplicatas, foram incluídos nesta revisão sistemática da literatura um total de 8 artigos (Lucattelli et al., 2020; Torrent et al., 2021; Mosca et al., 2022; Süer et al., 2024; Zhanaspayev et al., 2024; Blitz et al., 2024a; Blitz et al., 2024b; Blitz et al., 2024c), conforme a Figura 1. Destes estudos, 4 artigos foram encontrados na PubMed e 4 artigos no Google Scholar.
Figura 1 – Fluxograma de seleção dos estudos.

Fonte: Autor (2025)
Resultados
A Tabela 1 reúne os principais estudos incluídos nesta revisão sistemática, detalhando os autores, desenhos metodológicos, amostras, técnicas operatórias empregadas, formas de avaliação clínica e radiográfica, principais resultados e complicações observadas. Entre os estudos analisados, dois (2) são prospectivos, três (3) são ensaios clínicos randomizados e três (3) são retrospectivos. No total, a amostra envolveu 911 pacientes com diagnóstico de Hálux Valgo, o que permitiu uma análise das diferentes abordagens cirúrgicas e de seus desfechos.
Tabela 1 – Características dos estudos incluídos na revisão
| Autor, Ano | Desenho do Estudo | Amostra | Técnica Operatória | Avaliação Clínica/Radiográfica | Resultados Principais | Complicações |
| Lucattelli et al., 2020 | Estudo prospectivo de série de casos | n:195 Pacientes consecutivos com HV sintomático unilateral; 177 mulheres (média de 46,9 anos) 18 homens (média de 51,8 anos) | Técnica percutânea sem fixação interna (WOS): osteotomia com brocas, liberação de partes moles, curativo corretivo e carga imediata com calçado especial. | Escala AOFAS Radiografias com HVA, IMA, DMAA e posição dos sesamoides (pré e pós-op) | AOFAS: melhora de 54,7 para 89,6 (p = 0,002) Correção média: HVA 15,5°, IMA 5,4°, DMAA 5,4° ; 94% satisfeitos ou muito satisfeitos | 19 complicações (9,7%), sendo a principal a recorrência da deformidade. Infecção local (n: 2); Trombose venosa profunda (n: 1): Consolidação óssea tardia (n: 5); Metatarsalgia de transferência (n: 2); Inclinação medial da cabeça do metatarso (n: 2); Recorrência do HV (n: 7). |
| Torrent et al., 2021 | Ensaio clínico randomizado prospectivo | n:58 Pacientes (30 MI, 28 aberto), média de idade: 60,7–64,2 anos | Osteotomia em lenço por técnica minimamente invasiva (MI) vs. cirurgia aberta; ambas com fixação com parafuso canulado | AOFAS, EVA (dor), tempo operatório, exposição à radiação, ângulos HVA, IMA, DMAA em radiografias com apoio de peso | Resultados clínicos e radiográficos equivalentes; tempo operatório menor e dor imediata menor no grupo MI; radiação 14x maior no grupo MI | Grupo MI: 2 recorrências de HV (sem necessidade de revisão), 1 remoção de parafuso por irritação cutânea; Grupo aberto: 2 cicatrizes hipertróficas |
| Mosca et al., 2022 | Ensaio clínico randomizado, triplo-cego, controlado, unicêntrico | n: 34Pacientes com HV leve a moderado | Osteotomia linear distal do 1º metatarso (técnica SERI), com piezocirurgia (GP) ou serra oscilante (GC) | Escore AOFAS, EVA, tempo de consolidação óssea, ângulos HVA e IMA, avaliação radiográfica seriada em 7 tempos | AOFAS semelhante entre grupos, leve superioridade no grupo piezoelétrico; consolidação óssea mais rápida no grupo GP | 3 complicações no grupo GC: 1 caso de trombose venosa profunda tratado clinicamente, 2 casos de retardo na cicatrização tratados com curativo |
| Süer et al., 2024 | Ensaio clínico randomizado, dois grupos com pós-teste | n:30 Pacientes (15 TS, 15 3DS); idade média: 44,7 anos; predominância masculina | Osteotomia Chevron distal; grupo 3DS com simulação prévia em modelo 3D como guia cirúrgico | Ângulos HV, IM, DMAA, lateralização, encurtamento e deslocamento plantar da cabeça do 1º metatarso; tempo de osteotomia, torniquete e fluoroscopia; AOFAS | Grupo 3DS teve menor tempo operatório (12,4 vs 17,1 min), menor tempo de torniquete (41,5 vs 50,8 min) e menos uso de fluoroscopia (2,5 vs 3,3); melhor lateralização e alinhamento ósseo O grupo 3DS apresentou um número maior de pontuações AOFAS | 1 caso de infecção superficial no grupo 3DS, tratado com antibiótico oral e curativos; nenhuma outra complicação relevante relatada |
| Zhanaspayev et al., 2024 | Ensaio clínico prospectivo | 30 pés (28 mulheres, 2 homens) com HV moderado ou grave, joanete de Tailor e metatarsalgia | Lapidus modificado, artrodese M2-M3, fusão M4-M5, fixador externo original, osteotomia de Akin, correção completa do antepé deformado | AOFAS pré e pós-operatório; ângulos HVA, IMA, M1M2 e M1M5; radiografias em 3 tempos (pré, pós e acompanhamento) | Melhora significativa do AOFAS (mediana de 65 para 80 pontos); correção eficaz dos ângulos com manutenção nos seguimentos; melhora da metatarsalgia | Pequena perda da correção no seguimento; Complicações: Metatarsalgia recorrente; Abscesso com vermelhidão e edema local; Fístulas de ligadura; Recorrência leve do hállux valgo |
| Blitz et al., 2024a | Estudo retrospectivo observacional | n: 122 pacientes / 172 pés | Osteotomia subcapital metatarsiana MI de 3ª geração com fixação percutânea com 1-2 parafusos (Transveron™ em maioria). Liberação do adutor e osteotomia de Akin, quando necessário. Fluoroscopia intraop. utilizada. | Acompanhamento médio de 8,2 meses. Avaliação com radiografias anteroposteriores e laterais com carga. Classificação da consolidação óssea em FMR Tipo I, II e III. | Melhora significativa nos ângulos HVA e IMA em todos os tipos de FMR (p < 0,001). Distribuição: Tipo I (17,4%), Tipo II (42,4%), Tipo III (40,1%). Sem correlação com idade, sexo, lateralidade etc. | Sem relato de complicações graves. Pacientes excluídos em caso de infecção com necessidade de drenagem, falha de fixação, fratura ou necessidade de reoperação antes da consolidação óssea. |
| Blitz et al., 2024b | Estudo retrospectivo observacional | 16 pés (15 pacientes); maioria mulheres; idade média 61,6 anos | Osteotomia subcapital minimamente invasiva do primeiro metatarso (MIBS) com fixação percutânea com 1 ou 2 parafusos MI (técnica de 3º geração) | Avaliação de ângulos radiográficos (HVA, IMA), número e posição dos parafusos, padrão de fratura, zona de entrada e saída dos parafusos (ZAC e ZCP), presença de comorbidades, IMC, lateralidade, idade, sexo. Radiografias e TC utilizadas. | Explosão metatarsiana tipo I foi a mais comum (50%); tipo II (31%), tipo III (19%). Maioria (75%) ocorreu na ZCP. Fixação com dois parafusos teve maior associação com fraturas (p < 0,05). Tratamento conservador (75%). | Complicações classificadas como “explosão metatarsiana”, com diferentes tipos (I, II, III). Maior risco com uso de dois parafusos. Casos mais graves (Tipo II e III) exigiram cirurgia aberta com fixação interna. |
| Blitz et al., 2024c | Estudo retrospectivo observacional | n:427 Pacientes (638 pés) submetidos à MIBS.Média de idade: 46,5 anos | Osteotomia subcapital do primeiro metatarso com broca Shannon e fixação percutânea com 1 a 2 parafusos MI (4.0 mm), colocados sob fluoroscopia, partindo da base medial do primeiro metatarso em direção à cortical lateral. | Medição radiográfica do “Cortical Runway” (distância entre osteotomia e saída do parafuso na cortical lateral); avaliação do IMA e HVA | 82,4% dos pés com 1 parafuso; 17,6% com 2. Distância média do parafuso-âncora: 10,4 mm. 5 zonas de estabilidade (perigo, vulnerável, padrão, segura, segurança). | Pacientes com complicações pós-operatórias (infecção, falha de fixação, explosão metatarsal ou reoperação) foram excluídos da análise. Não houve relato de novas complicações na amostra incluída. |
Legenda: AOFAS: Sociedade Americana de Ortopedia do Pé e Tornozelo; DMAA: ângulo articular metatarsiano distal; EVA: Escala Visual Analógica; FMR: regeneração do primeiro metatarso; GP: Grupo Piezoelétrico; GC: Grupo Controle; HVA: ângulo de hálux valgo; HV: hálux valgo; IAPF: ângulo intermetatarsal entre o fragmento proximal; IMA: ângulo intermetatarsal; IM: intermetatarsal; M: metatarso, MI: minimamente invasiva; MIBS: cirurgia minimamente invasiva para joanete; SERI: Simples, eficaz, rápido, barato; TS: cirurgia tradicional; WOS: técnica percutânea sem fixação interna; 3DS: cirurgia assistida por modelo tridimensional; ZCP: Zona de Compra Cortical
Fonte: Autor (2025)
Entre os estudos analisados, os métodos considerados convencionais foram os utilizados por Torrent et al. (2021), no grupo de cirurgia aberta tradicional, e por Zhanaspayev et al. (2024), que empregou técnicas abertas com correção ampla do antepé deformado. Já os métodos modernos ou minimamente invasivos incluem os utilizados por Lucattelli et al. (2020), Mosca et al. (2022), Süer et al. (2024), e os três estudos de Blitz et al. (2024a, 2024b, 2024c), que exploraram técnicas como osteotomias percutâneas, piezocirurgia, cirurgia assistida por modelo tridimensional e uso de parafusos MI com apoio de fluoroscopia intraoperatória.
Eficácia clínica
A eficácia clínica das técnicas cirúrgicas foi avaliada predominantemente através da escala AOFAS (American Orthopaedic Foot and Ankle Society), que mensura função, dor e alinhamento. As técnicas minimamente invasivas (MI) demonstraram melhora significativa nos escores pós-operatórios. Em Lucattelli et al. (2020), a média do AOFAS passou de 54,7 para 89,6 pontos, com 94% dos pacientes relatando estar satisfeitos ou muito satisfeitos. Mosca et al. (2022) encontraram escores satisfatórios em ambos os grupos (piezocirurgia e serra oscilante), com leve vantagem para o grupo submetido à piezocirurgia. Já em Süer et al. (2024), o grupo que utilizou simulação 3D teve maior pontuação AOFAS em comparação ao grupo convencional (Osteotomia Chevron distal). Nos métodos abertos, como o de Zhanaspayev et al. (2024), também houve melhora (de 65 para 80), embora com menor expressividade e maior incidência de desconfortos pós-operatórios. Logo, ao analisar os resultados dos estudos, percebeu-se que ambos os métodos (tradicionais e avançados) são eficazes, porém, as técnicas minimamente invasivas tendem a proporcionar uma melhor recuperação funcional.
Eficácia radiográfica
Todos os estudos relataram correções importantes dos ângulos HVA (hálux valgo) e IMA (ângulo intermetatarsiano), independentemente da técnica. Lucattelli et al. (2020) apresentou correção média do HVA de 15,5° e do IMA de 5,4°, e outros estudos como Blitz et al. (2024a) confirmaram a melhora dos ângulos em diferentes padrões de consolidação óssea. As abordagens modernas, como a piezocirurgia e o uso de guias cirúrgicos em 3D, mostraram ainda maior precisão no realinhamento, como evidenciado por Mosca et al. (2022) e Süer et al. (2024). Em contraste, os métodos convencionais também obtiveram correções adequadas, como no estudo de Zhanaspayev et al. (2024), na osteotomia de Akin, com tendência à pequena perda da correção ao longo do seguimento, indicando que os métodos modernos oferecem uma maior precisão e estabilidade nos desfechos cirúrgicos.
Tempo operatório
O tempo operatório foi, em geral, menor nas técnicas minimamente invasivas, como evidenciado em Süer et al. (2024), onde o grupo com cirurgia assistida por modelo tridimensional teve um tempo médio de 12,4 minutos contra 17,1 minutos no grupo convencional (Osteotomia Chevron distal). Torrent et al. (2021) também observou tempo cirúrgico reduzido no grupo MI e menor dor pós-operatória imediata. Os métodos modernos mostraram um menor tempo de torniquete (41,5 vs 50,8 min) e menor exposição à fluoroscopia (2,5 vs 3,3) em alguns casos (Süer et al., 2024).
Complicações
As técnicas minimamente invasivas apresentaram uma baixa taxa de complicações graves, com relatos pontuais de recorrência da deformidade (Lucattelli et al., 2020), explosões metatarsianas (Blitz et al., 2024b), e retardo na cicatrização (Mosca et al., 2022), geralmente manejadas de forma conservadora. Em contrapartida, os métodos convencionais apresentaram complicações mais variadas e frequentes, incluindo infecções locais, fístulas, abscessos, trombose venosa profunda e metatarsalgia recorrente, como visto nos estudos de Zhanaspayev et al. (2024), Torrent et al. (2021) e no grupo controle de Mosca et al. (2022).
Discussão
O hálux valgo (HV) é uma condição frequente que tradicionalmente era tratado com cirurgias abertas. A cirurgia minimamente invasiva (MIS), ganhou força nos últimos 5 a 10 anos, devido aos avanços técnicos e melhores resultados. As primeiras gerações, nas décadas de 1990 e 2000, apresentavam altas taxas de complicações e pouca aceitação clínica. Com o tempo, a terceira e a quarta geração de MIS revolucionaram a abordagem, utilizando osteotomias extra-articulares com fixação interna estável por parafusos (Radcliffe; Sakkab; Mcalister, 2025).
A 1ª e 2ª gerações apresentavam altos índices de complicações, com osteotomias instáveis e fixações precárias. A 3ª geração, nos anos 2000, introduziu a osteotomia Chevron com dois parafusos internos, oferecendo mais estabilidade. A 4ª geração substituiu o corte em Chevron por um transverso, mantendo dois parafusos (Blitz, 2025). A MIS de terceira geração para a correção do HV utiliza, principalmente, as técnicas Chevron-Akin Minimamente Invasiva (MICA) e a osteotomia transversa percutânea. Ambas buscam preservar os tecidos, permitem melhor a correção rotacional e reduzem as complicações como dor e rigidez articular. A MICA é uma osteotomia extra-articular feita com broca de Shannon e fixada com parafusos canulados, que permite uma maior mobilidade e estabilidade. Já a técnica transversa tem o potencial para corrigir melhor a rotação do metatarso. A correta orientação dos parafusos e o uso de fluoroscopia são fundamentais para bons resultados (Li et al., 2024).
Já a 5ª e 6ª gerações, mais recentes, trouxeram inovações como a osteotomia Transveron™ e o uso de apenas um parafuso, com design específico para promover a cicatrização óssea secundária, o melhor controle rotacional e o menor risco de fraturas (Blitz, 2025). Atualmente, a MIS tem ganhado destaque no tratamento do HV por causar menos trauma, promover a recuperação mais rápida e gerar menos dor. Essa técnica já evoluiu para a terceira geração, com bons resultados clínicos, sendo que para uma maior segurança e para reduzir as complicações, é necessário que o cirurgião conheça bem a anatomia local, tenha experiência prévia em cirurgias abertas e realize o treinamento específico em MIS (Li et al., 2024). Essas técnicas atuais oferecem menor trauma, melhor recuperação e estética, considerando que o uso de fresas Shannon e parafusos adequados minimiza os riscos e garante uma maior precisão e segurança cirúrgica (Radcliffe; Sakkab; Mcalister, 2025).
A evolução das técnicas cirúrgicas para a correção do hálux valgo (HV) demonstra que existe um movimento progressivo em direção a procedimentos menos invasivos, direcionados na precisão, menor agressão tecidual e otimização dos resultados clínicos e funcionais.
Lucattelli et al. (2020) demonstraram que a técnica percutânea sem fixação interna (WOS) é válida e segura na correção do HV, com resultados duradouros e comparáveis a outras abordagens. Perceberam que a experiência do cirurgião e o design específico da fresa contribuíram para a ausência de complicações neurovasculares. A técnica mostrou boa correção clínica e satisfação da maioria dos pacientes, porém, é preciso de treinamento adequado para evitar as complicações, com indicação para ser aplicada em casos unilaterais e isolados de HV, o que limita a sua aplicabilidade universal.
Complementando, Zhanaspayev et al. (2024) confirmaram a validade do procedimento de Lapidus, em correções multiplanares do HV, principalmente na correção do ângulo intermetatarsal (IMA) consistente e no controle da metatarsalgia, com resolução dos sintomas em mais de 80% dos casos. Diferente da técnica de Lucattelli, o procedimento é mais invasivo e necessita de um maior tempo de internação, mesmo que proporcione resultados radiográficos consistentes. A associação de osteotomias em metatarsos menores aponta a existência de uma maior abordagem, porém exige maior complexidade operatória e recursos intraoperatórios, como dispositivos corretivos.
Em outra direção, Süer et al. (2024) evidenciaram os benefícios concretos da simulação 3D no planejamento cirúrgico. A técnica reduziu o tempo cirúrgico, em que no grupo de cirurgia assistida por modelo tridimensional, o tempo médio de osteotomia + lateralização + fixação foi de 12,4 ± 1,2 minutos, contra 17,1 ± 1,5 no grupo de cirurgia tradicional. O tempo de torniquete foi menor (41,5 ± 3,8 vs. 50,8 ± 3,4 min). A técnica também reduziu o uso de fluoroscopia (2,5 ± 0,6 vs. 3,3 ± 0,8), todos com p < 0,001. Houve melhor correção do ângulo intermetatarsal e lateralização controlada da cabeça do metatarso (cerca de 5 mm ou 25% da largura óssea), e menor deslocamento plantar e encurtamento mais adequado do primeiro metatarso (p < 0,001). Percebe-se que, em comparação às abordagens tradicionais, houve vantagens objetivas tanto em parâmetros intraoperatórios quanto na correção angular. Logo, o uso da tecnologia tridimensional pode ser vista como um avanço estratégico, principalmente em centros que possuem de infraestrutura para esse tipo de planejamento.
Mosca et al. (2022) exploraram a piezocirurgia como inovação na correção do HV. Apesar do maior tempo operatório inicial (75,2 ± 10,8 s vs e 14,4 ± 10,8 s), os resultados clínicos, como a redução da dor e melhora na pontuação AOFAS, foram semelhantes ou ligeiramente superiores ao método tradicional. O grande diferencial foi a redução significativa no tempo de consolidação óssea (71,4 11,4, intervalo 49–97 vs 86,4 18,3, intervalo 51–114; (p < 0,05), o que pode permitir reabilitação mais precoce e retorno mais rápido às atividades diárias. A escolha do primeiro metatarso mostrou-se compatível com o uso da ferramenta piezoelétrica, confirmando o seu potencial em cirurgias de pequeno porte. A diminuição da dor aos 90 dias também comprova a efetividade da técnica, independentemente do instrumento utilizado.
Torrent et al. (2021) compararam diretamente a osteotomia em lenço minimamente invasiva (MI) com a técnica aberta, evidenciando equivalência nos resultados clínicos e radiográficos, com melhora significativa nos escores AOFAS, HVA, IMA e DMAA. A vantagem da técnica MI foi o menor tempo operatório e a redução da dor no pós-operatório imediato. As taxas de complicações foram baixas em ambos os grupos, com apenas um caso de remoção de parafuso no grupo MI e duas cicatrizes hipertróficas no grupo aberto.
Blitz et al. (2024a) ao propor a classificação para caracterizar a regeneração do primeiro metatarso (FMR) após osteotomia subcapital, evidenciaram que, de 172 pés, houve predominância dos tipos II (formação de calo médio e lateral ao parafuso de ancoragem óssea MI; 42,4%) e III (regeneração robusta do primeiro metatarso; 40,1%), indicando formação de calo mais extensa e, consequentemente, maior estabilidade. Todos os tipos de FMR resultaram em consolidação óssea, e os ganhos radiográficos em IMA e HVA foram estatisticamente significativos em todos os grupos (p < 0,0001). O uso de apenas um parafuso em 85% dos casos mostrou ser funcional, confirmando que, mesmo com grande deslocamento ósseo e carga precoce, a regeneração pode ocorrer de modo estável.
Blitz et al. (2024b) evidenciaram uma complicação rara, porém relevante, que foi a explosão metatarsiana, observada após a cirurgia minimamente invasiva para correção do HV. Foi identificado três tipos distintos de fraturas, associadas principalmente ao posicionamento do parafuso de ancoragem e à quantidade de osso cortical envolvida. A maioria dos casos foi do tipo I, entre a osteotomia e o parafuso, na maioria das vezes, em pacientes com fixação menos estável. Os riscos de fraturas foram aumentados devido ao posicionamento incorreto do parafuso na “zona de saída cortical” (CPZ) e a falta de apoio na “zona de ancoragem esponjosa”, nos tipos II e III. A maior instabilidade também foi associada à fixação com dois parafusos.
Em outro estudo, Blitz et al. (2024c) reforça a importância da estabilidade dos parafusos no CPZ durante a cirurgia minimamente invasiva para HV. Os autores validaram uma classificação em cinco zonas de estabilidade com base na distância entre a osteotomia e a saída do parafuso na cortical lateral, o “cortical runway”, identificando a zona de risco (“no-go”) como aquela com menos de 3 mm. A experiência do cirurgião aumentou progressivamente essa distância, reduzindo as falhas de posicionamento e a colocação de dois parafusos, quando viável, favoreceu uma maior estabilidade.
Os estudos de Blitz et al. (2024a–c) mostram que, embora as técnicas minimamente invasivas promovam uma boa regeneração e carga precoce, existem riscos de fraturas específicas, explosão metatarsiana, quando os princípios de estabilidade não são respeitados. Nesse contexto, a experiência do cirurgião e o uso adequado de fixação são decisivos na prevenção dessas complicações.
Assim, os estudos incluídos nesta revisão sistemática convergem quanto à efetividade das técnicas minimamente invasivas na correção do HV, com melhoras nos escores funcionais, dor, parâmetros radiográficos e tempo de recuperação. Por outro lado, divergem em relação à complexidade técnica e riscos de complicações. Diante disso, os estudos apontam que os avanços das técnicas cirúrgicas são promissores, mas demandam a necessidade de capacitação adequada, seleção criteriosa dos pacientes e adaptação à infraestrutura disponível.
Algumas limitações desta revisão precisam ser citadas. As principais, referem-se à heterogeneidade metodológica dos trabalhos incluídos, com variações nas técnicas cirúrgicas e nos critérios de seleção dos pacientes, o que dificulta a comparação direta entre os resultados. Em parte dos estudos, o acompanhamento pós-operatório foi curto, comprometendo a avaliação de recidivas e complicações tardias. Outro ponto importante é a dependência da experiência do cirurgião, nas técnicas minimamente invasivas, em que o sucesso está diretamente relacionado à curva de aprendizado. Por fim, destaca-se algumas técnicas mais modernas, como o uso de piezocirurgia ou planejamento 3D, que necessitam de tecnologias que não estão popularmente disponíveis, limitando a sua aplicabilidade em diferentes realidades clínicas.
Considerações Finais
Esta revisão permitiu comparar as técnicas cirúrgicas tradicionais e minimamente invasivas (MI) aplicadas à correção do hálux valgo (HV), evidenciando que os métodos modernos apresentam resultados clínicos, radiográficos e funcionais superiores em diversos aspectos. Entre os principais achados, destaca-se que as abordagens minimamente invasivas, como as técnicas Chevron-Akin Minimamente Invasiva – MICA, osteotomia transversa percutânea e Transveron™, associadas ao uso de recursos como planejamento 3D e piezocirurgia, proporcionaram os melhores escores funcionais (AOFAS), o menor tempo operatório, a menor dor pós-operatória, correção angular mais precisa (HVA e IMA) e a menor taxa de complicações graves, quando comparadas aos métodos tradicionais.
Os estudos demonstraram que a curva de aprendizado e a experiência do cirurgião são fatores fundamentais para o sucesso das técnicas minimamente invasivas, principalmente para evitar complicações como explosões metatarsianas e falhas de fixação. As evidências apontam que, embora os métodos tradicionais ainda ofereçam bons desfechos, as técnicas minimamente invasivas representam um avanço em direção a procedimentos mais seguros, rápidos, menos traumáticos e com recuperação otimizada. Porém, mesmo que as técnicas minimamente invasivas apresentem resultados promissores e estejam redefinindo o padrão ouro na cirurgia do Hálux Valgo, a sua adoção plena depende de evidências robustas, treinamento adequado e viabilidade estrutural.
Contudo, a heterogeneidade dos estudos incluídos nesta revisão sistemática, as indicações cirúrgicas e os métodos avaliativos limitam a generalização dos resultados. A falta de padronização dificulta as comparações diretas, e muitos estudos ainda apresentam tamanho amostral reduzido ou curto acompanhamento pós-operatório. Diante disso, propõe-se que futuros estudos realizem seguimentos de longo prazo, para a avaliação de recidivas, complicações tardias e durabilidade dos resultados.
Referências
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1Médico, Residente em Ortopedia e Traumatologia, Hospital Regional de Sobradinho, Brasília, Distrito Federal, Brasil
2Médico, Especialista em Ortopedia e Traumatologia, Hospital Regional de Sobradinho, Brasília, Distrito Federal, Brasil
3Médico, Especialista em Ortopedia e Traumatologia, Hospital Regional de Sobradinho, Brasília, Distrito Federal, Brasil
