LEISHMANIOSE VISCERAL CANINA EM FOCO: DESAFIOS CLÍNICOS, DIAGNÓSTICOS E ESTRATÉGIAS DE CONTROLE

CANINE VISCERAL LEISHMANIASIS: CLINICAL CHALLENGES, DIAGNOSTIC APPROACHES AND CONTROL STRATEGIES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601312150


Leticia Mantovani Silva1; Ana Luiza Paula Borges2; Júlia Marcela Vasconcélos de Moraes Vilela3; Gabriel Lopes Germano4; Diego Silva Lima5; Mariana Paz Rodrigues Dias6; Nadielli Pereira Bonifácio7; Rejane Guerra Ribeiro Simm8; Thays Nascimento Costa Garcia9; Tales Dias do Prado10


RESUMO

A leishmaniose visceral canina (LVC) é uma zoonose de caráter crônico e distribuição global, causada pelo protozoário Leishmania infantum e transmitida por flebotomíneos. Trata-se de uma enfermidade de grande relevância para a medicina veterinária e para a saúde pública, uma vez que o cão doméstico atua como principal reservatório urbano, contribuindo para a manutenção do ciclo de transmissão ao ser humano. A doença apresenta ampla variabilidade clínica, podendo manifestar-se de forma assintomática ou com comprometimento multissistêmico, o que dificulta o diagnóstico precoce e o manejo adequado. Além disso, limitações terapêuticas, persistência parasitária e fatores ambientais e socioeconômicos tornam o controle da LVC um desafio contínuo. Diante desse contexto, o presente trabalho teve como objetivo realizar uma revisão de literatura sobre a leishmaniose visceral canina, abordando aspectos epidemiológicos, ciclo biológico, vetores, fisiopatogenia, manifestações clínicas, métodos diagnósticos, tratamento, prognóstico e medidas de prevenção e controle. A sistematização de informações atualizadas evidencia a necessidade de estratégias integradas, fundamentadas no conceito de saúde única, visando subsidiar a prática clínica veterinária e fortalecer ações de vigilância e controle da doença.

Palavras-chave: epidemiologia; saúde única; zoonoses.

ABSTRACT

Canine visceral leishmaniasis (CVL) is a chronic zoonotic disease of global distribution caused by the protozoan Leishmania infantum and transmitted by phlebotomine sand flies. It represents a major concern in veterinary medicine and public health, as domestic dogs act as the main urban reservoir, sustaining parasite transmission to humans. The disease exhibits a wide spectrum of clinical manifestations, ranging from asymptomatic infection to severe multisystemic involvement, which complicates early diagnosis and appropriate management. In addition, therapeutic limitations, parasite persistence, and environmental and socioeconomic factors pose significant challenges to disease control. Therefore, this study aimed to conduct a literature review on canine visceral leishmaniasis, addressing epidemiological aspects, biological cycle, vectors, pathophysiology, clinical manifestations, diagnostic methods, treatment, prognosis, and prevention and control measures. The integration of updated scientific evidence highlights the importance of combined strategies based on the One Health approach to support veterinary clinical practice and strengthen surveillance and control programs.

Keywords: infectious diseases; public health; reservoirs.

REVISÃO DA LITERATURA

Introdução

A Leishmaniose Visceral Canina é uma enfermidade de origem infecciosa, causada por um protozoário Leishmania infantum. Popularmente, é conhecida como calazar e esplenomegalia tropical. Transmitida pelo flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, conhecido comumente como mosquito-palha, a transmissão acontece pela picada das fêmeas do inseto infectado, que é capaz de transmitir os parasitos enquanto se nutre do sangue do hospedeiro (FERNANDEZ et al., 2021).

Considerada uma zoonose de evolução crônica, a doença acomete não somente os seres humanos, mas também animais de diversas espécies silvestres (gambá, roedores, canídeos) e domésticos (cão, cavalo), sendo o cão o principal hospedeiro nas espécies domésticas (SANTIAGO et al., 2021).

Predominante em regiões tropicais e subtropicais, há registros de incidência de leishmaniose visceral em mais de 80 países. No Brasil, a doença é endêmica principalmente nas regiões Nordeste, Norte, Sudeste e Centro-Oeste (OLIVEIRA et al., 2008; SANTIAGO et al., 2021).

Com maior índice em países emergentes, expõe a face socioeconômica relacionada à enfermidade, que possui maior influência em áreas com infraestrutura deficiente. O aumento descontrolado da população, a existência de matéria orgânica e a ausência de fiscalização ambiental contribuem para a multiplicação do vetor e, por isso, para a propagação da enfermidade (OPAS, 2022).

Essa enfermidade representa um desafio constante, tanto para a medicina veterinária quanto para a saúde pública, pois os cães atuam como reservatórios do parasita, contribuindo para a perpetuação da cadeia de transmissão ao ser humano (BANETH et al., 2023; BURZA et al., 2018).

Diante da complexidade da Leishmaniose Visceral Canina, o conhecimento dos aspectos epidemiológicos é fundamental para o desenvolvimento de estratégias eficazes de controle e para a adoção de medidas integradas, que envolvam diagnóstico adequado e tratamento dos animais, ações de controle do vetor e conscientização da população. A atuação conjunta entre órgãos da saúde, meio ambiente e sociedade é essencial para reduzir os riscos e o impacto da zoonose no Brasil (SANTIAGO et al., 2021).

A compreensão contemporânea da leishmaniose visceral canina reconhece que a infecção por Leishmania infantum apresenta amplo espectro clínico-imunológico, no qual a carga parasitária, o perfil de resposta imune e o grau de comprometimento orgânico determinam a expressão da doença. Nessa perspectiva, a avaliação integrada do paciente e a classificação clínica têm sido discutidas em consensos e revisões que reforçam a necessidade de correlacionar sinais clínicos, títulos sorológicos, detecção do parasita e parâmetros laboratoriais — especialmente renais — para melhor definição de gravidade e conduta (SOLANO-GALLEGO et al., 2009; BANETH et al., 2023).

No campo diagnóstico, embora testes sorológicos permaneçam amplamente utilizados, a literatura ressalta limitações como reações cruzadas e variação de sensibilidade em animais assintomáticos, motivando o uso combinado com métodos parasitológicos e moleculares. A PCR (incluindo qPCR) tem se consolidado como ferramenta útil não apenas para confirmação, mas também para monitoramento de carga parasitária, sobretudo quando associada ao estadiamento e ao seguimento clínico-laboratorial, reduzindo o risco de interpretações isoladas que podem comprometer decisões em saúde pública (ROATT et al., 2020; CHAKRAVARTY et al., 2019).

Em relação à terapêutica, destaca-se que o tratamento frequentemente busca o controle clínico e a redução da infectividade, e não a eliminação completa do parasita, o que explica recidivas e a necessidade de acompanhamento prolongado. Revisões internacionais têm reforçado o papel do estado imunológico do hospedeiro, da adesão ao tratamento, da presença de comorbidades e do comprometimento renal como fatores críticos para resposta e prognóstico, além de discutirem desafios como persistência parasitária e potencial seleção de resistência (MARCONDES; DAY, 2019; BANETH et al., 2023).

No controle e prevenção, a abordagem de Saúde Única tem sido reiterada como essencial, uma vez que a transmissão depende de determinantes ambientais, densidade de reservatórios, dinâmica vetorial e vulnerabilidades sociais. Estudos e revisões sobre leishmanioses apontam que medidas isoladas tendem a apresentar impacto limitado, sendo mais efetivas ações combinadas que incluam manejo ambiental, proteção individual e animal (repelentes), vigilância ativa e educação em saúde, adaptadas ao contexto local (READY, 2014; ALVAR et al., 2012).

Ainda no contexto preventivo, a literatura evidencia que estratégias baseadas exclusivamente em intervenções sobre a população canina, sem integração com ações entomológicas e ambientais, são insuficientes para interromper a transmissão. Assim, recomenda-se que programas de controle sejam estruturados com base em evidências, incluindo avaliação contínua de efetividade e aceitação social das medidas, além de fortalecimento das redes de diagnóstico e notificação para responder à expansão urbana e à reemergência em diferentes regiões (READY, 2014; BANETH et al., 2023).

A consolidação de achados recentes, aliada a referências clássicas amplamente reconhecidas, em uma revisão de literatura abrangente e atualizada, permite aprofundar a compreensão sobre a leishmaniose visceral canina, uma enfermidade de elevada complexidade clínica, imunológica e epidemiológica. Revisões desse tipo são fundamentais para integrar informações dispersas na literatura, identificar consensos e lacunas no conhecimento, além de fornecer subsídios científicos confiáveis para a prática clínica veterinária, a tomada de decisão em saúde pública e o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de vigilância, prevenção e controle da LVC (SOLANO-GALLEGO et al., 2011; ALVAR et al., 2012; BANETH et al., 2023).

Diante do exposto, justifica-se a realização deste trabalho, cujo objetivo é reunir e discutir, por meio de uma revisão de literatura, aspectos relacionados à epidemiologia, ciclo biológico, vetores, fisiopatogenia, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento, prognóstico e medidas de prevenção e controle da leishmaniose visceral canina, contribuindo para o aprimoramento do conhecimento técnico-científico e para o fortalecimento de ações clínicas e de saúde pública voltadas ao enfrentamento dessa zoonose.

Aspectos epidemiológicos

A Leishmaniose Visceral Canina é uma zoonose de expansão global e urbana, especialmente no Brasil, sendo endêmica, com maior incidência nas regiões Norte e Nordeste (BANETH et al., 2023). No Brasil, a doença está amplamente disseminada, com expansão de áreas endêmicas desde a década de 1980, que começou em zonas rurais e, atualmente, também se encontra em centros urbanos. Essa urbanização associa-se ao crescimento das cidades, com preferência por moradias urbanas, ocasionando a presença de vetores em ambientes peridomiciliares, ao aumento do contato entre cães e humanos, e a fatores de saneamento precário e presença de matéria orgânica, que favorecem o aumento dos flebotomíneos (OLIVEIRA et al., 2008; TEIXEIRA-NETO et al., 2014; ROATT et al., 2020).

Diversos fatores influenciam a dinâmica epidemiológica da Leishmaniose Visceral Canina, incluindo aspectos climáticos, como o aquecimento global, que favorecem o aumento populacional dos flebotomíneos, sua expansão para novas regiões e o prolongamento do período anual de atividade vetorial. A crescente resistência, tanto do parasita quanto dos insetos, aos medicamentos e inseticidas utilizados, somada ao fato de ainda não existir uma terapia totalmente eficaz contra a enfermidade, constitui elemento determinante (READY, 2014; NAVI et al., 2024).

A deslocação de animais de áreas endêmicas para áreas não endêmicas favorece a disseminação da doença, pois o deslocamento desses animais pode espalhar a enfermidade para áreas não endêmicas, constituindo risco para iniciar o foco da doença em locais que tenham presença de flebótomos (BRASILEISH, 2018).

Formas parasitárias

Os parasitos do gênero Leishmania apresentam duas formas morfológicas principais, sendo elas a forma promastigota e a forma amastigota, que se alternam entre o hospedeiro invertebrado e o vertebrado (NOGUEIRA; RIBEIRO, 2015; SOLANO-GALLEGO et al., 2009).

A forma promastigota caracteriza-se por ser uma estrutura alongada e móvel, com flagelo livre e comprido na região anterior, núcleo central e cinetoplasto bem definido. Corresponde a um parasito móvel e extracelular, que pode ser encontrado no tubo digestivo dos hospedeiros invertebrados e em meios de cultura; multiplica-se e, posteriormente, migra para a probóscide, sendo a forma infectante para o hospedeiro vertebrado (BANETH et al., 2023).

A forma amastigota apresenta-se com estruturas ovóides ou redondas, sem flagelo livre, com núcleo central e cinetoplasto em forma de bastão evidentes em preparações coradas. É encontrada no sistema fagocítico mononuclear dos hospedeiros vertebrados, sendo intracelular, sem movimentos, e os macrófagos são considerados a célula hospedeira. Trata-se de forma intracelular obrigatória, na qual se multiplica por divisão binária dentro dos fagolisossomos. Dessa forma, essa fase corresponde à forma replicativa no hospedeiro vertebrado, incluindo o homem e animais domésticos (BURZA et al., 2018; SOLANO-GALLEGO et al., 2009).

Ciclo biológico

As espécies pertencentes ao gênero Leishmania spp. apresentam ciclo biológico heteroxênico, uma vez que necessitam de hospedeiros distintos para a sua manutenção, envolvendo vertebrados e invertebrados (BURZA et al., 2018; SOLANO-GALLEGO et al., 2009).

Conforme os estágios de desenvolvimento do parasito, há quatro formas de promastigotas: procíclica, leptomodiana, nectomonadiana e metacíclica. O ciclo inicia-se quando a fêmea de flebotomíneo infectada realiza o repasto sanguíneo em um hospedeiro. Nesse momento, as formas promastigotas metacíclicas — estágio infectante do parasito — serão inoculadas na pele. Uma vez no organismo do hospedeiro, essas formas são fagocitadas por células do sistema fagocítico, sobretudo os macrófagos, nos quais ocorre a diferenciação em amastigotas, caracterizada pela perda do flagelo. No interior dos vacúolos, a multiplicação das amastigotas acontece por divisão binária, promovendo lise celular e posterior disseminação para novas células. A propagação dá-se, principalmente, pela via linfática, alcançando linfonodos regionais e, em seguida, órgãos hemolinfáticos (SANTIAGO et al., 2021; SOLANO-GALLEGO et al., 2009).

Quando um flebotomíneo ainda não infectado se nutre do sangue de um hospedeiro parasitado, ingere macrófagos contendo amastigotas ou formas livres circulantes. No tubo digestivo do vetor, essas amastigotas transformam-se em promastigotas procíclicas, dotadas de motilidade e capacidade replicativa. Posteriormente, desenvolvem-se no intestino médio e diferenciam-se em promastigotas metacíclicas, que migram para a porção anterior do aparelho bucal. Em nova picada, essas formas infectantes são transmitidas a outro vertebrado, completando o ciclo (SOLANO-GALLEGO et al., 2009; BURZA et al., 2018).

O tempo necessário para o crescimento do parasito no vetor relaciona-se à temperatura ambiental, variando entre sete e quatorze dias, quando os valores ultrapassam 18 °C (BURZA et al., 2018).

Vetor biológico

O inseto transmissor da Leishmania é o flebotomíneo, pertencente à família Psychodidae e à subfamília Phlebotominae. Esses dípteros são amplamente distribuídos em regiões tropicais e subtropicais e apresentam reconhecida importância epidemiológica na transmissão das leishmanioses, uma vez que são os únicos artrópodes capazes de promover a transmissão biológica do protozoário ao hospedeiro vertebrado (BURZA et al., 2018). Das mais de 800 espécies de flebotomíneos descritas mundialmente, apenas uma parcela apresenta competência vetorial comprovada, sendo responsáveis pela manutenção do ciclo da doença em diferentes ecossistemas (ESCCAP, 2022).

Algumas espécies de flebotomíneos atuam como vetores específicos de determinadas espécies de Leishmania, enquanto outras demonstram capacidade de transmitir múltiplos parasitos. A competência vetorial depende de uma série de fatores biológicos, incluindo a resistência do protozoário às enzimas digestivas do inseto, a presença de receptores específicos no intestino médio que possibilitam a adesão dos promastigotas e a capacidade do parasito de completar seu desenvolvimento no interior do vetor (SOLANO-GALLEGO et al., 2009).

Os flebotomíneos são insetos holometábolos, apresentando metamorfose completa com os estágios de ovo, larva (com quatro ínstares), pupa e adulto. As formas imaturas desenvolvem-se em ambientes terrestres ricos em matéria orgânica, como solo úmido, detritos vegetais e locais sombreados, enquanto os adultos possuem hábito aéreo e comportamento predominantemente crepuscular ou noturno (ESCCAP, 2022). Os insetos adultos são de pequeno porte, raramente ultrapassando 3,5 mm de comprimento, apresentam corpo recoberto por pelos, asas estreitas dispostas em formato de “V” durante o repouso, coloração variável e aparelho bucal alongado, adaptado à hematofagia (BURZA et al., 2018).

O voo dos flebotomíneos é curto e relativamente lento, o que limita sua dispersão natural a distâncias reduzidas, geralmente inferiores a um quilômetro do local de reprodução. Contudo, fatores ambientais como correntes de vento e alterações antrópicas podem ampliar essa dispersão, favorecendo a expansão da área de risco para transmissão da leishmaniose visceral canina (READY, 2014).

Tanto machos quanto fêmeas alimentam-se de açúcares provenientes de plantas e secreções naturais; entretanto, apenas as fêmeas necessitam de repasto sanguíneo para o desenvolvimento e maturação dos ovos, sendo, portanto, as responsáveis pela transmissão do parasito. A hematofagia ocorre predominantemente no período noturno ou crepuscular, embora possa acontecer durante o dia quando os insetos são perturbados, concentrando-se em áreas expostas do corpo dos hospedeiros, como focinho, orelhas, pálpebras e membros (SOLANO-GALLEGO et al., 2009; BURZA et al., 2018).

Esses insetos apresentam elevada plasticidade ecológica, adaptando-se a ambientes rurais, periurbanos e urbanos. Os abrigos mais frequentes incluem locais úmidos, sombreados e protegidos, como frestas em paredes, residências, canis, estábulos, cavernas, rochas e áreas com solo rico em matéria orgânica e vegetação densa, o que favorece sua manutenção próxima às habitações humanas e aos reservatórios domésticos (BRASIL, 2022).

A atividade dos flebotomíneos é fortemente influenciada por fatores climáticos, especialmente temperatura e umidade. Condições ambientais com temperaturas entre 15 °C e 28 °C, associadas à elevada umidade relativa, favorecem o aumento da densidade populacional do vetor. Em contrapartida, chuvas intensas e ventos fortes reduzem significativamente sua atividade. Dessa forma, observa-se variação sazonal da população, com maior atividade em períodos mais quentes do ano, embora, em regiões tropicais, algumas espécies possam manter-se ativas durante todo o ano (NOGUEIRA; RIBEIRO, 2015).

Fisiopatogenia

Os cães infectados por Leishmania infantum podem ser classificados em resistentes ou susceptíveis, de acordo com sua capacidade de controlar a multiplicação parasitária. Animais resistentes conseguem manter a carga parasitária baixa e permanecer assintomáticos, enquanto os susceptíveis desenvolvem manifestações clínicas devido à incapacidade de gerar resposta imunitária eficaz (SANTIAGO et al., 2021, p. 6; BURZA et al., 2018).

O protozoário instala-se em células do sistema imune, como macrófagos e neutrófilos, sendo transmitido pela picada dos flebotomíneos, cujo processo de alimentação provoca microlesões cutâneas e deposição de substâncias inflamatórias. Durante a inoculação, além dos promastigotas, o vetor transmite outros componentes que favorecem a instalação do parasito (SONI et al., 2019).

A interação entre parasito e sistema imunitário determina a evolução clínica. Em cães resistentes, predomina uma resposta celular capaz de ativar macrófagos e destruir o protozoário. Para os susceptíveis, observa-se uma resposta predominantemente humoral, caracterizada por produção excessiva de anticorpos e formação de imunocomplexos, que favorecem a disseminação do parasito e o aparecimento de manifestações clínicas, como esplenomegalia, linfadenomegalia, glomerulonefrite e vasculite (OPAS, 2022).

A hiperglobulinemia policlonal, típica da leishmaniose canina, contribui para processos imunopatológicos e não desempenha papel protetor. Em contrapartida, a persistência do parasito deve-se à capacidade de modular a resposta imunitária do hospedeiro, promovendo desequilíbrio entre mecanismos celulares e humorais, o que resulta em cronicidade e agravamento da doença (SONI et al., 2019).

Transmissão

A Leishmaniose Visceral Canina é causada por protozoários do gênero Leishmania. A transmissão ocorre por meio da picada de fêmeas de flebotomíneos infectados, pertencentes principalmente ao gênero Lutzomyia nas Américas. Durante o repasto sanguíneo, o vetor introduz na pele do hospedeiro as formas promastigotas metacíclicas, que são rapidamente internalizadas por células do sistema fagocítico, iniciando o processo infeccioso (BANETH et al., 2023).

No ambiente doméstico, o cão constitui o principal reservatório de Leishmania infantum, desempenhando papel central na manutenção do ciclo de transmissão. Outros animais, como felinos, roedores e algumas espécies silvestres, também podem abrigar o parasito, embora sua importância epidemiológica varie de acordo com fatores regionais e ecológicos (BANETH et al., 2023; BURZA et al., 2018).

A ocorrência da doença está intimamente associada às condições ambientais favoráveis à sobrevivência e proliferação dos vetores, como temperatura elevada, umidade, presença de matéria orgânica acumulada e áreas sombreadas. Além disso, a proximidade entre humanos e animais favorece o aumento populacional dos flebotomíneos e, consequentemente, eleva o risco de transmissão (SANTIAGO et al., 2021; BRASIL, 2017).

Cabe destacar que a transmissão direta entre cães, ou entre cães e humanos, não ocorre, sendo imprescindível a participação do vetor. Contudo, há relatos de formas alternativas de transmissão, como a congênita, venérea ou por transfusão sanguínea, que, apesar de documentadas, possuem menor relevância na manutenção da doença (SOLANO-GALLEGO et al., 2009; SANTIAGO et al., 2021).

Assim, a dinâmica epidemiológica da Leishmaniose Visceral Canina resulta da interação entre vetor, reservatórios animais, hospedeiro humano e fatores ambientais, explicando sua ampla distribuição e a complexidade no controle da enfermidade (BANETH et al., 2023; CHAKRAVARTY et al., 2019).

Manifestações sistêmicas

A leishmaniose visceral canina caracteriza-se como uma enfermidade crônica e multissistêmica, marcada por sinais clínicos heterogêneos e, muitas vezes, pouco específicos, que podem manifestar-se desde alguns meses até vários anos após a infecção. Essa variabilidade clínica decorre da interação entre o parasito e o sistema imunológico do hospedeiro, envolvendo diferentes mecanismos patogênicos e graus de comprometimento orgânico. Em cães, é frequente a ocorrência concomitante de manifestações viscerais e cutâneas, refletindo a natureza sistêmica da infecção (SOLANO-GALLEGO et al., 2011).

A disseminação do protozoário no organismo ocorre principalmente por meio de células do sistema fagocítico mononuclear, como macrófagos parasitados, presentes em múltiplos órgãos e fluidos corporais. Esse processo desencadeia respostas inflamatórias de caráter granulomatoso ou piogranulomatoso, além de mecanismos imunomediados que promovem infiltração celular intensa, levando a alterações estruturais progressivas e comprometimento funcional dos tecidos afetados (BURZA et al., 2018).

Entre os sinais clínicos mais frequentemente observados destacam-se lesões cutâneas, linfadenomegalia localizada ou generalizada, esplenomegalia, perda de condição corporal, intolerância ao exercício, mucosas hipocoradas, alterações do apetite, letargia, poliúria, polidipsia, além de manifestações como epistaxe, onicogrifose, febre, vômitos e diarreia. Esses sinais podem ocorrer de forma isolada ou associada, variando conforme a resposta imunológica do animal e o estágio da doença (BANETH et al., 2023).

A linfadenomegalia e a esplenomegalia constituem alterações clínicas comuns e estão relacionadas à hiperplasia do tecido linfoide em resposta à infecção. O aumento acentuado dos linfonodos pode, em alguns casos, mimetizar quadros neoplásicos, como linfomas. Em fases avançadas da enfermidade, entretanto, pode ocorrer redução do volume ganglionar concomitante à progressiva deterioração da condição corporal do animal (SOLANO-GALLEGO et al., 2011).

O baço representa um importante reservatório do parasito, uma vez que a resposta imunológica local apresenta eficácia limitada, favorecendo a persistência de elevadas cargas parasitárias nesse órgão. A esplenomegalia pode ser avaliada por meio de exames de imagem, especialmente a ultrassonografia abdominal, que auxilia tanto no diagnóstico quanto no acompanhamento clínico dos cães acometidos (BRASIL, 2022).

A medula óssea também é frequentemente comprometida, apresentando inflamação granulomatosa, aumento da população linfoplasmocitária e alterações nas linhagens hematopoiéticas. Essas modificações estão diretamente associadas ao desenvolvimento de anemia e trombocitopenia, alterações hematológicas comuns na leishmaniose visceral canina e relevantes para o prognóstico da doença (CHAKRAVARTY et al., 2019).

Os rins figuram entre os órgãos mais afetados na leishmaniose canina, sendo a nefropatia uma das manifestações clínicas de maior impacto. O comprometimento renal pode variar desde proteinúria subclínica até quadros de síndrome nefrótica ou insuficiência renal crônica, frequentemente responsável pelo óbito dos animais infectados. Os sinais clínicos associados incluem poliúria, polidipsia, vômitos, perda de peso, anorexia e palidez de mucosas (SOLANO-GALLEGO et al., 2011).

As lesões renais associadas à leishmaniose resultam, predominantemente, da deposição de imunocomplexos nos glomérulos, levando ao desenvolvimento de glomerulonefrite. Alterações túbulo-intersticiais também são frequentes, decorrentes tanto da progressão da lesão glomerular quanto de processos inflamatórios e fibróticos no interstício renal. Esses achados configuram os principais padrões histopatológicos observados na doença (BURZA et al., 2018).

Manifestações hemorrágicas podem ocorrer, sendo a epistaxe uma das alterações mais relatadas, enquanto hematúria e hematoquezia são observadas com menor frequência. A epistaxe pode apresentar-se de forma aguda ou recorrente e, em casos mais graves, representar risco à vida do animal em razão da dificuldade de controle e das perdas sanguíneas associadas (BANETH et al., 2023).

Essas alterações hemorrágicas estão relacionadas a distúrbios dos mecanismos de hemostasia, tanto primários quanto secundários, frequentemente associados à vasculite mediada por imunocomplexos, trombocitopenia, hiperviscosidade sanguínea e redução de fatores de coagulação, conforme descrito em diretrizes nacionais de vigilância e manejo da enfermidade (BRASIL, 2022).

As manifestações oculares apresentam ampla variabilidade e, em alguns casos, constituem o principal sinal clínico da leishmaniose visceral canina. Entre as alterações mais frequentes incluem-se conjuntivite, blefarite, queratoconjuntivite, uveíte, glaucoma, panuveíte e panoftalmite, geralmente de caráter bilateral nos estágios mais avançados da doença (ROATT et al., 2020).

Alterações gastrointestinais são consideradas menos frequentes, mas podem estar presentes, sobretudo em casos associados a comprometimento hepático ou intestinal. A diarreia crônica destaca-se como a manifestação mais comum nesses quadros, devendo a leishmaniose ser considerada diagnóstico diferencial em cães provenientes de áreas endêmicas (BANETH et al., 2023).

Lesões na cavidade oral, como nódulos, úlceras linguais e estomatite ulcerativa multifocal ou difusa, também podem ser observadas. Essas alterações podem resultar da migração de macrófagos infectados para áreas de microtrauma na mucosa oral ou da ingestão acidental de flebotomíneos infectados durante o comportamento alimentar (SOLANO-GALLEGO et al., 2011).

O comprometimento hepático manifesta-se, principalmente, por hepatomegalia e, ocasionalmente, pela presença de nódulos, embora a insuficiência hepática franca seja rara. O processo infeccioso pode induzir respostas inflamatórias associadas à formação de granulomas no parênquima hepático, decorrentes da infiltração de macrófagos parasitados, contribuindo para alterações funcionais desse órgão (BANETH et al., 2023).

Alterações cutâneas

As lesões cutâneas, tanto localizadas quanto generalizadas, constituem a manifestação clínica mais frequente na Leishmaniose Visceral Canina, sendo observadas em aproximadamente 56% a 90% dos cães acometidos pela forma clínica da enfermidade (SOUSA‐PAULA et al., 2020). A presença do parasito nos tecidos da pele decorre, em geral, da disseminação hematógena, excetuando-se a reação inflamatória diretamente relacionada ao ponto de inoculação das formas promastigotas. Embora alterações dermatológicas possam ocorrer de forma isolada, é comum que os animais com sinais cutâneos também apresentem comprometimento visceral (EVANGELISTA et al., 2022).

A diversidade de tipos de lesão em um mesmo indivíduo está associada à maior susceptibilidade de determinadas regiões cutâneas a traumas mecânicos e/ou a alterações vasculares. Em cães, ocorrem mais comumente processos inflamatórios piogranulomatosos, que acometem a pele, podendo, em menor escala, estar relacionados à deposição de complexos imunológicos. As lesões relatadas incluem dermatite com ou sem alopécia, de distribuição multifocal ou generalizada, principalmente na cabeça, região periocular, ponta de orelhas e membros. Também são descritas onicogrifose, caracterizada por hipertrofia e acentuada curvatura das unhas, e alterações vasculares e metabólicas (SANTIAGO et al., 2021; SILVA et al., 2021).

Adicionalmente, a presença de doenças cutâneas concomitantes, como sarna sarcóptica, dermatite atópica, hipotireoidismo, ou complicações secundárias, como piodermatite bacteriana, dermatofitose, demodicose e dermatite por Malassezia, pode mascarar ou dificultar o reconhecimento das lesões provocadas pela infecção por Leishmania (BRASILEISH, 2018).

Diagnóstico

O diagnóstico da Leishmaniose Visceral Canina é dificultado pela variabilidade e inespecificidade dos sinais clínicos e laboratoriais. Em áreas endêmicas, a investigação deve incluir não apenas cães sintomáticos, mas também animais assintomáticos, viajantes, reprodutores e doadores de sangue (BANETH et al., 2023).

A abordagem diagnóstica exige anamnese, exame físico detalhado, análises laboratoriais, exames específicos e estadiamento clínico. Entre os exames laboratoriais de rotina destacam-se hemograma, bioquímica sérica, urinálise e exames de imagem, embora com baixa especificidade (NOGUEIRA; RIBEIRO, 2015).

Os testes parasitológicos diretos, como citologia, histologia, imunohistoquímica, cultura e xenodiagnóstico, apresentam alta especificidade, mas sensibilidade variável. Os métodos moleculares, sobretudo a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) em tempo real, permitem maior precisão, identificação da espécie e quantificação da carga parasitária (SONI et al., 2019; SANTIAGO et al., 2021; ROATT et al., 2020).

Os testes sorológicos — Teste de Imunofluorescência Indireta (IFAT), Ensaio de Imunoabsorção Enzimática (ELISA) e imunocromatográficos — são os mais aplicados na prática clínica. O IFAT é considerado padrão de referência, enquanto o ELISA permite melhor padronização dos resultados. Os testes rápidos, como os imunocromatográficos, utilizados como triagem para anticorpos anti-Leishmania em sangue, soro ou plasma, embora práticos, apresentam menor sensibilidade e devem ser confirmados por métodos quantitativos SOLANO-GALLEGO et al., 2009; ROATT et al., 2020).

Portanto, o diagnóstico da Leishmaniose Visceral Canina deve combinar diferentes métodos, considerando aspectos clínicos, laboratoriais e epidemiológicos, para aumentar a acurácia e reduzir falsos negativos ou positivos (SOLANO-GALLEGO et al., 2009).

O estadiamento clínico constitui a última etapa do diagnóstico da leishmaniose canina, sendo fundamental para orientar o tratamento, a monitorização e o prognóstico. A determinação do estádio requer avaliação clínica em conjunto com avaliação laboratorial completa, associada a testes sorológicos e à identificação do parasito, o que permite classificar a gravidade da enfermidade e definir o protocolo terapêutico mais adequado (CHAKRAVARTY et al., 2019).

O acompanhamento clínico e laboratorial de cães sintomáticos e assintomáticos é indispensável para avaliar a evolução da doença, possibilitando identificar progressão ou regressão do quadro. A Leishmaniose Visceral Canina é uma doença de notificação compulsória em todo o território nacional, conforme a legislação brasileira (SILVA et al., 2021; SANTIAGO et al., 2021).

Tratamento

O tratamento da leishmaniose visceral canina tem como objetivos principais o controle dos sinais clínicos, a melhora da resposta imunológica celular, a redução da carga parasitária e a diminuição da infectividade do animal ao vetor. Apesar dos avanços terapêuticos, a eliminação completa do parasito raramente é alcançada, sendo mais comum a obtenção de remissão clínica temporária ou prolongada. Dessa forma, a doença deve ser compreendida como crônica, exigindo acompanhamento contínuo e individualizado (BANETH et al., 2023).

Os protocolos terapêuticos atualmente recomendados baseiam-se, de modo geral, na associação de fármacos leishmanicidas e leishmaniostáticos, visando reduzir a multiplicação do parasito e modular a resposta imunológica do hospedeiro. Estudos e diretrizes internacionais ressaltam que a resposta ao tratamento depende de fatores como o estágio clínico da doença, o grau de comprometimento renal, a presença de comorbidades e a adesão ao protocolo instituído (SOLANO-GALLEGO et al., 2011).

Além da terapia específica, o suporte clínico-nutricional desempenha papel fundamental no manejo dos cães acometidos. Dietas balanceadas, com ajuste do teor proteico conforme a função renal, suplementação de ácidos graxos essenciais, antioxidantes e micronutrientes contribuem para a melhora do estado geral, da resposta imune e da qualidade de vida dos pacientes (MARCONDES; DAY, 2019).

O uso de repelentes e coleiras impregnadas com inseticidas de ação prolongada é considerado medida indispensável durante e após o tratamento, uma vez que reduz significativamente o risco de reinfecção e a transmissão do parasito ao vetor. Dessa forma, o manejo terapêutico deve ser integrado às estratégias de controle vetorial, reforçando o caráter multidimensional do enfrentamento da leishmaniose visceral canina (BRASIL, 2022).

Apesar da melhora clínica observada na maioria dos animais tratados, recidivas podem ocorrer, especialmente quando o acompanhamento é irregular ou quando há comprometimento renal avançado. Nesses casos, pode ser necessária a reavaliação do protocolo terapêutico, ajustes de dosagem ou a introdução de terapias complementares, sempre sob supervisão médico-veterinária (BANETH et al., 2023).

Prognóstico

O prognóstico da leishmaniose visceral canina está diretamente relacionado ao estágio clínico da doença, à resposta ao tratamento instituído e, principalmente, ao grau de comprometimento renal. Animais diagnosticados precocemente e sem alterações renais significativas tendem a apresentar prognóstico mais favorável, enquanto a presença de nefropatia constitui o principal fator negativo associado à sobrevida (SOLANO-GALLEGO et al., 2011).

A monitorização clínica e laboratorial periódica é essencial para avaliar a evolução da enfermidade e a eficácia do tratamento. Recomenda-se a realização de exames físicos regulares, hemograma, perfil bioquímico, urinálise com relação proteína/creatinina, proteinograma e testes específicos para detecção do parasito, permitindo identificar precocemente sinais de progressão ou recidiva da doença (BANETH et al., 2023).

Em cães infectados, porém clinicamente assintomáticos, o acompanhamento deve ser mantido com intervalos regulares, uma vez que a infecção pode evoluir de forma silenciosa. Alterações laboratoriais compatíveis com leishmaniose podem preceder o aparecimento de sinais clínicos, justificando a importância da vigilância contínua nesses animais (BRASIL, 2022).

A resposta sorológica ao tratamento apresenta comportamento variável. Em alguns cães, observa-se redução gradual dos títulos de anticorpos ao longo do tempo, enquanto em outros essa redução não ocorre, mesmo diante de melhora clínica. O aumento significativo dos títulos sorológicos ou da carga parasitária pode indicar recidiva ou falha terapêutica, devendo ser interpretado em conjunto com os achados clínicos e laboratoriais (ROATT et al., 2020).

De modo geral, a insuficiência renal crônica representa a principal causa de óbito em cães com leishmaniose visceral, especialmente quando associada a anemia, distúrbios eletrolíticos e acidose metabólica. A presença de doenças concomitantes também influencia negativamente o prognóstico, reforçando a necessidade de abordagem clínica abrangente e individualizada (BANETH et al., 2023).

Prevenção e controle

A prevenção e o controle da leishmaniose visceral canina representam um desafio para a saúde pública, uma vez que envolvem a interação entre o vetor, os reservatórios animais, o ambiente e o hospedeiro humano. As estratégias adotadas devem ser adaptadas à realidade epidemiológica de cada região, considerando fatores ambientais, sociais e culturais (READY, 2014).

As medidas preventivas incluem principalmente o controle do vetor, a proteção individual dos cães e o manejo ambiental. O uso de coleiras impregnadas com inseticidas e repelentes tópicos demonstrou eficácia na redução das picadas de flebotomíneos, constituindo uma das principais ferramentas para diminuir o risco de infecção e transmissão da doença (ESCCAP, 2022).

O manejo ambiental, com eliminação de matéria orgânica acumulada, limpeza de quintais, uso de telas em portas e janelas e redução de abrigos favoráveis ao vetor, complementa as estratégias de proteção individual. Essas ações são fundamentais para reduzir a densidade populacional de flebotomíneos em áreas domiciliares e peridomiciliares (BRASIL, 2022).

Historicamente, estratégias baseadas exclusivamente na eutanásia de cães soropositivos mostraram-se insuficientes para o controle da doença, além de apresentarem baixa aceitação social. Atualmente, recomenda-se a adoção de medidas integradas fundamentadas no conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental (BANETH et al., 2023).

Dessa forma, a prevenção eficaz da leishmaniose visceral canina depende da associação entre vigilância epidemiológica, controle vetorial, proteção dos animais, educação sanitária da população e fortalecimento dos sistemas de diagnóstico e notificação. A atuação conjunta de tutores, profissionais de saúde e autoridades públicas é essencial para reduzir a disseminação da doença e seus impactos sobre a saúde coletiva (READY, 2014).

Implicações na saúde pública

A Leishmaniose Visceral Canina é uma zoonose de grande importância para a saúde pública, já que acomete seres humanos e animais, tendo o cão doméstico como principal reservatório urbano de Leishmania infantum. A convivência próxima entre cães infectados e pessoas em regiões endêmicas favorece a manutenção do ciclo da doença, visto que o parasito é transmitido por flebotomíneos infectados (BANETH et al., 2023).

Sob a perspectiva epidemiológica, a quantidade de cães soropositivos em determinada localidade está diretamente relacionada à ocorrência de casos humanos. A elevada densidade populacional de animais infectados eleva o risco de transmissão, enquanto a circulação desses cães entre regiões endêmicas e não endêmicas contribui para a expansão da enfermidade em novas áreas (DOS SANTOS MARQUES et al., 2017).

O controle da Leishmaniose Visceral Canina canina representa um desafio para a saúde pública, principalmente pela dificuldade de diagnóstico, pela ausência de terapias que eliminem completamente o parasito e pelo caráter crônico da infecção. Mesmo após o tratamento, muitos cães continuam sendo portadores, podendo transmitir o protozoário aos vetores, apesar da melhora clínica aparente (SELIM et al., 2021).

As ações de controle utilizadas, como a eutanásia de cães soropositivos, o emprego de repelentes e o combate ao vetor, mostram-se pouco eficazes quando implementadas de forma isolada. Por esse motivo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e diversos pesquisadores recomendam estratégias integradas, que combinem vigilância epidemiológica, diagnóstico precoce, manejo adequado dos animais, controle vetorial e educação sanitária da população (READY, 2014).

Dessa forma, a Leishmaniose Visceral Canina extrapola o âmbito veterinário e constitui um problema coletivo, que exige atuação conjunta entre medicina humana, medicina veterinária e meio ambiente, em consonância com o conceito de saúde única. Somente uma abordagem multidisciplinar pode reduzir a transmissão e os impactos socioeconômicos relacionados à doença (ZACARIAS et al., 2017).

CONCLUSÃO

A leishmaniose visceral canina configura-se como uma enfermidade de elevada complexidade, com importantes repercussões clínicas, epidemiológicas e de saúde pública. Ao longo desta revisão de literatura, foi possível evidenciar que a doença apresenta ampla distribuição geográfica, caráter zoonótico relevante e forte associação com fatores ambientais, socioeconômicos e imunológicos. A diversidade de manifestações clínicas, aliada à dificuldade diagnóstica, à natureza crônica da infecção e às limitações terapêuticas, reforça a necessidade de conhecimento aprofundado e abordagem integrada por parte dos profissionais envolvidos no manejo da enfermidade.

Dessa forma, a sistematização de informações atualizadas sobre epidemiologia, ciclo biológico, vetores, fisiopatogenia, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento, prognóstico, prevenção e controle contribui significativamente para o aprimoramento da prática clínica veterinária e para o fortalecimento de estratégias de vigilância e controle da leishmaniose visceral canina. Revisões de literatura abrangentes, como a apresentada neste trabalho, desempenham papel fundamental na consolidação do conhecimento científico, no suporte à tomada de decisões em saúde pública e na promoção de ações baseadas no conceito de saúde única, visando à redução do impacto da LVC em animais e seres humanos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVAR, J. et al. Leishmaniasis worldwide and global estimates of its incidence. PLoS ONE, v. 7, n. 5, e35671, 2012.

AYRES, E. C. B. S. et al. Clinical and parasitological impact of short-term treatment with miltefosine and allopurinol in dogs with visceral leishmaniasis. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 31, n. 1, e018521, 2022.

BANETH, G. et al. Canine leishmaniosis – new concepts and insights on an expanding zoonosis: part one. Trends in Parasitology, v. 39, n. 2, p. 98–112, 2023.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde: volume 3. 1. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 286 p.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 122 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_controle_leishmaniose_visceral_1edicao.pdf. Acesso em: 13 set. 2025.

BRASILEISH. Diretrizes para o diagnóstico, estadiamento, tratamento e prevenção da leishmaniose canina. Belo Horizonte: Brasileish, 2018. Disponível em: https://www.brasileish.com.br/diretrises.html. Acesso em: 20 set. 2025.

BURZA, S.; CROFT, S. L.; BOELAERT, M. Leishmaniasis. The Lancet, v. 392, n. 10151, p. 951–970, 2018.

CHAKRAVARTY, J.; SUNDAR, S. Drug resistance in leishmaniasis. Journal of Global Infectious Diseases, v. 11, n. 3, p. 83–90, 2019.

ESCCAP – European Scientific Counsel Companion Animal Parasites. Control of ectoparasites in dogs and cats (Guideline 03). 7th ed. Malvern: ESCCAP, 2022.

FERNANDEZ, M. A. et al. Epidemiology of visceral leishmaniasis in the Americas. Parasites & Vectors, v. 14, 2021.

MARCONDES, M.; DAY, M. J. Current status and management of canine leishmaniosis in Latin America. Research in Veterinary Science, v. 123, p. 261–272, 2019.

NAVI, Z. et al. Is there an association between climate change and leishmaniasis? A geomedical survey. Infectious Diseases of Poverty, v. 13, n. 1, p. 1–12, 2024.

NOGUEIRA, F. S.; RIBEIRO, M. G. Leishmaniose visceral canina: aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos. Clínica Veterinária, v. 20, n. 116, p. 42–54, 2015.

OLIVEIRA, C. L. D. et al. Visceral leishmaniasis in large Brazilian cities: challenges for control. Cadernos de Saúde Pública, v. 24, n. 12, p. 2953–2962, 2008.

OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde. Leishmanioses: informe epidemiológico. Brasília: OPAS, 2022.

READY, P. D. Epidemiology of visceral leishmaniasis. Clinical Epidemiology, v. 6, p. 147–154, 2014.

ROATT, B. M. et al. Immunological response and diagnosis of canine visceral leishmaniasis. Frontiers in Immunology, v. 11, p. 1–13, 2020.

SANTIAGO, M. E. B. et al. Leishmaniose visceral canina: aspectos clínicos, diagnóstico e controle. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária, v. 19, n. 2, p. 1–12, 2021.

SOLANO-GALLEGO, L. et al. Directions for the diagnosis, clinical staging, treatment and prevention of canine leishmaniosis. Veterinary Parasitology, v. 165, n. 1–2, p. 1–18, 2011.

TEIXEIRA-NETO, R. G. et al. Canine visceral leishmaniasis in an urban setting of Southeastern Brazil: an ecological study involving spatial analysis. Parasites & Vectors, v. 7, 485, 2014.


1acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV

2acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV

3acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV

4Médico Veterinário

5Médico Veterinário

6profa Dr. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV

7profa Dr. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV

8professora Dra.Titular da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV

9profa. Ma. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV

10professor Dr. Titular da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV