PERFIL CLÍNICO E VARIABILIDADE FENOTÍPICA NO TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512311325


Maria Gisélia Alves da Silva
Bruna Siqueira Amaral Freitas
Maria Eduarda Vieira Alves
Ana Clara Silva Menério
César Roberto da Silva
Lucas Antônio dos Santos Silva
Élio Batista Alves
Lisandra Karoline Silva Lima
Jakson Henrique Silva
Orientador:  Prof. Me. Kaíque Ferreira Alves


RESUMO 

Introdução:  O  Transtorno  do  Espectro  Autista   (TEA)  caracteriza-se   por  déficits persistentes  na  comunicação  e  interação  social,  associados a  padrões  restritos  e repetitivos  de  comportamento.   Considerando  a   ampla   heterogeneidade  de   sua expressão  clínica,  este  estudo  teve  como  objetivo  sintetizar  as  evidências  atuais sobre  o  perfil   clínico  de  crianças  com  TEA.  Objetivo:  Analisar  e  sintetizar  as evidências científicas recentes sobre o perfil clínico e a variabilidade fenotípica em crianças  com  Transtorno  do   Espectro  Autista.   Metodologia:  Trata-se   de   uma revisão  narrativa  da  literatura,   realizada  nas  bases   PubMed/MEDLINE,  SciELO, Scopus   e   PEDro,   incluindo   estudos   publicados   entre   2020   e   2025.   Foram selecionados artigos originais que abordaram características  motoras,  linguísticas, comportamentais,  sensoriais  e  comorbidades  associadas  ao  TEA   em  crianças. Resultados: Os estudos identificados mostraram ampla variabilidade clínica no TEA infantil,  incluindo  hipotonia,  atraso   motor,  déficits  sociocomunicativos,  atraso  de linguagem,    regressão   e    comorbidades    como   distúrbios    do    sono.     Fatores sociodemográficos   influenciaram   o   tempo   até   o   diagnóstico.   Discussão:   Os achados reforçam que os domínios afetados no TEA interagem de forma integrada, com     marcadores     motores,     linguísticos     e      comportamentais     contribuindo conjuntamente  para  a   identificação  precoce.   Desigualdades  sociais   impactam  o reconhecimento  do  transtorno.  Conclusão:  A   heterogeneidade  do  TEA  exige avaliação multidimensional e ações que promovam diagnóstico precoce, capacitação profissional e redução das desigualdades no acesso ao cuidado. 

Palavras-chaves: autismo; transtorno do espectro autista; criança; transtornos do Neurodesenvolvimento 

ABSTRACT 

Introduction: Autism Spectrum Disorder (ASD) is characterized by persistent deficits in  communication  and  social  interaction,  associated  with  restricted  and  repetitive patterns of behavior.  Given the wide  heterogeneity  of  its  clinical expression, this study aimed to synthesize current evidence on the clinical profile of children with ASD. Objective: To analyze and synthesize recent scientific evidence on the clinical profile and phenotypic variability in children with Autism Spectrum Disorder.  Methodology:  This  is a  narrative  literature  review  conducted  using the PubMed/MEDLINE,  SciELO,  Scopus,  and  PEDro  databases,  including  studies published  between 2020  and 2025.  Original articles addressing  motor,  language, behavioral,  sensory  characteristics,  and  comorbidities  associated  with  ASD  in children were selected. Results: The identified studies demonstrated wide clinical variability in childhood ASD, including hypotonia, motor delay, socio-communicative deficits,  language  delay,  regression,  and  comorbidities  such  as  sleep  disorders. Sociodemographic  factors  influenced  the  time  to  diagnosis.  Discussion:  The findings reinforce that the affected domains in ASD interact in an integrated manner, with   motor,    language,   and   behavioral    markers   jointly    contributing to   early identification.   Social   inequalities   impact   the  recognition   of the disorder.  Conclusion:  The  heterogeneity  of  ASD   requires   a  multidimensional assessment and actions aimed at promoting early diagnosis, professional training, and the reduction of inequalities in access to care.

Keywords: autism; autism spectrum disorder; child; neurodevelopmental disorder.

INTRODUÇÃO 

O Transtorno do  Espectro Autista,  é  um  transtorno do  neurodesenvolvimento caracterizado  por  déficits  persistentes  na  comunicação  e  na  interação  social, combinados com  padrões  restritos  e  repetitivos  de  comportamento,  interesses  ou atividades  (APA,  2013).  Desde  sua  descrição  inicial  por  Leo  Kanner  em  1943,  o entendimento  sobre  o  TEA  evoluiu  significativamente,  principalmente  no  que  diz respeito à sua etiologia, apresentação clínica e heterogeneidade de manifestações (Schwartzman, 2011). 

A  prevalência  global  do  TEA  vem   crescendo   nas  últimas  décadas,  sendo atualmente   estimada   em   1   para   cada   36   crianças,   de   acordo   com   dados internacionais.   Esse  aumento  tem  sido   relacionado  à  ampliação  dos  critérios diagnósticos, maior conscientização das famílias e profissionais de saúde, além da expansão dos serviços de rastreamento e intervenção precoce (Lord et al., 2020). No Brasil, embora ainda haja carência de dados epidemiológicos robustos, o  IBGE incluiu recentemente variáveis relacionadas ao autismo no Censo Demográfico, com previsão de resultados consolidados para 2025. 

A apresentação clínica do TEA é ampla e variável, podendo envolver déficits na comunicação  social,  padrões  comportamentais repetitivos, alterações sensoriais, distúrbios do sono, dificuldades alimentares, comorbidades psiquiátricas e condições médicas associadas como epilepsia e distúrbios gastrointestinais  (Ruggieri,  2024; Penisi  et  al.,  2021). Essa  diversidade clínica torna essencial a   caracterização detalhada do  perfil  clínico de crianças com TEA, permitindo melhor  compreensão das necessidades individuais e das estratégias terapêuticas mais adequadas. 

Diante disso, torna-se fundamental sintetizar as evidências científicas disponíveis  sobre o perfil clínico de crianças  com TEA, contribuindo para o aprimoramento   das práticas de avaliação e intervenção precoce, bem como subsidiando políticas     públicas e programas de atenção integral ao neurodesenvolvimento. Assim, o objetivo desse estudo é  analisar  e  sintetizar  as evidências  científicas  acerca do   perfil clínico e da variabilidade fenotípica em crianças com Transtorno do Espectro Autista.

METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, com abordagem qualitativa elaborada com o propósito de reunir, analisar e interpretar criticamente as evidências científicas mais  recentes acerca do  perfil clínico de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esse tipo de revisão permite uma abordagem abrangente  e  contextualizada,  integrando  resultados  de  diferentes  delineamentos metodológicos, a fim de fornecer uma compreensão atualizada e aprofundada sobre as manifestações clínicas do TEA na infância. 

A  busca  pelos  estudos foi  conduzida  de  maneira sistematizada em  bases  de dados    amplamente     reconhecidas     pela     relevância     na     área     da    saúde: PubMed/MEDLINE,    SciELO,    Scopus    e    PEDro.      Essas    plataformas    foram selecionadas  por sua capacidade de  reunir literatura  internacional atualizada e de alta qualidade  metodológica.  Para  a  construção  das  estratégias  de  busca,  foram utilizados  descritores  padronizados  dos  vocabulários  DeCS  e  MeSH,  combinados por operadores booleanos, incluindo: “Autism Spectrum  Disorder”, “Child” , “Clinical Profile”, “Pediatric Autism” e “Neurodevelopmental Disorders”, associados por AND e OR para garantir abrangência e precisão na identificação dos estudos pertinentes. 

Com o  objetivo  de garantir atualidade  e  relevância  científica, foram  incluídos exclusivamente  artigos   publicados   nos   últimos   cinco   anos,  compreendendo  o período   de   2020   a   2025.    Foram   considerados   elegíveis    estudos   originais, observacionais  que abordassem diretamente características clínicas, comportamentais,  cognitivas, sensoriais ou comorbidades associadas ao TEA em crianças de 0 a  15 anos. Foram aceitos artigos publicados em português, inglês ou espanhol e disponíveis na  íntegra.  Estudos que tratassem exclusivamente adultos, pesquisas  de  revisão  de  literatura,  pesquisas  sem   descrição  de   perfil  clínico, trabalhos duplicados ou não relacionados ao tema foram excluídos. 

A seleção dos estudos ocorreu em três etapas: triagem por título, análise dos resumos e leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis. Essa avaliação foi realizada   por   dois   revisores   de   forma   independente,   garantindo   maior   rigor metodológico e minimização de vieses. Quando necessário, um terceiro revisor foi consultado para solucionar divergências. Após a seleção, os dados essenciais dos estudos incluídos foram extraídos e organizados em uma matriz analítica contendo informações  sobre  autor,  ano  de  publicação,  país,  desenho  metodológico,  faixa etária analisada e principais características clínicas descritas na literatura. A síntese dos  resultados  foi  apresentada  de  forma   descritiva   enfatizando  convergências, particularidades e lacunas identificadas nas evidências recentes. 

Por tratar-se de  uma  revisão de  literatura  baseada  exclusivamente em dados secundários, sem envolvimento direto de seres humanos, esta pesquisa está isenta de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelece a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Ainda assim, todos os procedimentos foram conduzidos de acordo com os padrões éticos e acadêmicos, assegurando a fidedignidade, a transparência e a integridade científica da presente revisão. 

RESULTADOS 

A busca na base de dados resultou em um total inicial de 438 estudos. Após a remoção  de  duplicatas,  425  estudos  permaneceram  para  análise.   Em  seguida, realizou-se a triagem  por títulos e resumos, sendo selecionados 58 estudos para leitura do texto completo. Destes, 25 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade  previamente  estabelecidos. Ao final do  processo,  5 estudos foram incluídos para análise qualitativa, por apresentarem maior aderência ao objetivo proposto e relevância clínica para a temática investigada. 

O processo de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos está descrito no fluxograma 1. 

Fluxograma 1: Processo de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos artigos.

Os  estudos   excluídos  após  a leitura   do   texto    completo   apresentaram, principalmente,  inadequação  ao  objetivo  do  estudo,  amostras  que  não  incluíam exclusivamente  crianças,  ausência  de  descrição  detalhada  do  perfil  clínico  ou foco predominante em intervenções específicas, sem abordagem da variabilidade fenotípica. 

O número   reduzido   de   estudos   incluídos   na   análise  qualitativa   reflete   a especificidade  do  recorte  temático  adotado,  bem  como  os  critérios  de  inclusão estabelecidos, priorizando pesquisas que abordassem de forma abrangente o perfil clínico e a variabilidade fenotípica no Transtorno do  Espectro Autista em população infantil. Tal estratégia visou assegurar maior consistência e relevância dos achados analisados. 

Tabela 1: Caracterização dos estudos.

DISCUSSÃO 

Os estudos analisados demonstram, de forma convergente, que o Transtorno do   Espectro    Autista   (TEA)     apresenta    uma   expressão     clínica    amplamente heterogênea,   resultado   da    interação   entre   domínios    motores,   comunicativos, linguísticos, comportamentais e biológicos. Os achados de Lopez-Espejo et al. (2021) reforçam essa multidimensionalidade ao identificarem a hipotonia generalizada como um  marcador  motor  recorrente  e  clinicamente  significativo  nos  primeiros  anos  de vida. O comprometimento do tô nus, associado ao atraso na aquisição da marcha e à maior   incidência   de   estereotipias,   dialoga   com   evidências    internacionais   que apontam déficits motores como um componente do fenótipo do TEA. 

Ao  relacionar  esses  achados  com  o  estudo  de  Sicherman  et  al.,  (2021), observa-se  que,  embora  os   marcadores   sociocomunicativos   continuem  sendo fundamentais  para  o  diagnóstico  precoce,  há  crescente  reconhecimento  de  que sinais motores e comportamentais operam de forma interdependente. O déficit de comunicação social e os comportamentos repetitivos identificados como preditores robustos do diagnóstico precoce compartilham vias neurobiológicas com os sistemas motores,   conforme   demonstrado   em   estudos   de   neuroimagem   que   apontam alterações   em   circuitos   corticoestriatais,    cerebelares   e   frontolímbicos,   todos envolvidos  tanto  na  coordenação   motora  quanto   na   regulação  comportamental (Mosconi   et  al.,  2015;   Kern   et  al.,  2020).   Dessa  forma,   a  articulação  entre marcadores motores e sociocomportamentais amplia e sustenta a necessidade de protocolos de rastreio multidimensionais. 

A relevância dos domínios linguísticos, evidenciada pelos achados de Chen et al.  (2023) e  Oneib et  al.  (2022),  reforça  ainda  mais  a  complexidade do TEA.  Em ambos os estudos, o atraso significativo de linguagem e os episódios de regressão despontam como sinais altamente sensíveis para a suspeita diagnóstica, o que está em consonância com a literatura global, que aponta atrasos ou desvios na aquisição da  linguagem  em  mais  de  60%  dos  casos  (Tager-Flusberg,  2016;  Ozonoff et  al., 2018).  Além disso,  a   recorrência   de  episódios  de   regressão,   observada  em aproximadamente  um  quinto  das   crianças,   corrobora  estudos   longitudinais  que descrevem  a  regressão  como  um  fenótipo  clínico  associado  a  pior  prognóstico  e maior gravidade funcional (Barger et al., 2013). 

Um aspecto decisivo  ressaltado  pelos  estudos chineses e  marroquinos  é o papel  modulador  das  variáveis  sociodemográficas.  A   influência  do  sexo,   renda familiar  e   escolaridade   dos   cuidadores   sobre   o   tempo   até   o   diagnóstico   é amplamente reconhecida em estudos epidemiológicos internacionais (Daniels et al., 2012;  Maenner  et  al.,  2023). Tais achados  ilustram  a  dimensão social do TEA e reforçam   a   ideia   de   que,   embora   os   sinais   clínicos   sejam   universais,   seu reconhecimento depende de fatores contextuais que determinam desigualdades no acesso ao cuidado especializado. 

O estudo de Khanna et al. (2024) aprofunda essa compreensão ao destacar a relevância  das  comorbidades  sistêmicas,  especialmente  distúrbios  do  sono  e alterações   gastrointestinais,   como    moduladores   da    gravidade   dos   sintomas comportamentais. Comorbidades desse tipo estão entre as mais frequentes no TEA, afetando entre 40% e 70% das crianças, segundo meta-análises recentes (Sikora et al.,  2022;  Leader  et  al.,  2021).  Além  de   interferirem  no  bem-estar  geral,  essas condições têm sido associadas a maior irritabilidade, pior desempenho adaptativo e maior severidade em escalas comportamentais, sustentando a perspectiva de que o TEA deve ser compreendido como um transtorno sistêmico, cujos múltiplos domínios interagem dinamicamente. 

A  convergência  desses  achados   provenientes  de   contextos  tão   diversos quanto  Chile,  Estados  Unidos,  China,  Marrocos  e  Índia,  revela  uma  estabilidade transnacional na expressão clínica central do TEA, apesar das diferenças culturais e estruturais.  Revisões globais da  Organização  Mundial da Saúde e dos Centros de Controle  e   Prevenção   de   Doenças   (OMS,   2021;   CDC,  2023)   reforçam  essa consistência,  embora  destaquem  que  o  tempo  até  o  diagnóstico  e  o  acesso  às intervenções   variem   amplamente   em   função   de   fatores   socioeconômicos    e estruturais. 

CONCLUSÃO 

O conjunto das evidências analisadas demonstra que o Transtorno do  Espectro Autista   apresenta   ampla    heterogeneidade   clínica,   exigindo     uma   abordagem diagnóstica  multidimensional  que   integre  sinais   motores,  atrasos  de   linguagem, regressão  do  desenvolvimento,  alterações  sociocomportamentais  e  comorbidades sistêmicas.    Os    achados,    consistentes    em    diferentes    países    e    contextos socioculturais,   reforçam   que,   embora    existam   desigualdades    no   acesso   ao diagnóstico,   o   fenótipo   central   do    TEA    mantém   estabilidade   transnacional, destacando a importância de protocolos de rastreio abrangentes e sensíveis. Assim, conclui-se que a identificação precoce e o cuidado integral dependem da articulação entre avaliação  interdisciplinar,  sensibilização  profissional  e  políticas  públicas  que reduzam   barreiras   estruturais,    promovendo   intervenções    oportunas   e     maior equidade no acompanhamento do desenvolvimento infantil.

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