ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO DA SÍFILIS CONGÊNITA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511292328


Andressa Rúbia Alves1
Ediane da Silva de Souza2


RESUMO:

A sífilis congênita continua sendo um importante problema de saúde pública no Brasil, revelando fragilidades no pré-natal e na prevenção da transmissão vertical. Esta revisão integrativa, estruturada em seis etapas e baseada nas bases SciELO, LILACS, BDENF, PubMed e CINAHL, analisou 14 estudos publicados de 2013 a 2024 sobre práticas de enfermagem na Atenção Primária à Saúde (APS). Os resultados evidenciaram a relevância do diagnóstico precoce, do tratamento oportuno da gestante e dos parceiros, das ações educativas e do acompanhamento do recém-nascido exposto. 64,3% dos artigos (9/14) apontam barreiras sociais como desafios para a prevenção da sífilis congênita (Lima et al., 2018; Rocha et al., 2020). 57,1% dos artigos (8/14) destacam a falta de capacitação profissional como um desafio para a prevenção da sífilis congênita (Mendes et al., 2015). Estratégias como acolhimento, vínculo e escuta qualificada aumentaram a adesão ao tratamento. Concluiu-se que fortalecer a atuação da enfermagem na APS é essencial para reduzir a transmissão vertical e alcançar as metas de eliminação da sífilis congênita.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Enfermagem; Pré-natal; Prevenção; Sífilis Congênita.

ABSTRACT:

Congenital syphilis continues to be a significant public health problem in Brazil, revealing weaknesses in prenatal care and prevention of vertical transmission. This integrative review, structured in six stages and based on SciELO, LILACS, BDENF, PubMed, and CINAHL databases, analyzed 14 studies published between 2013 and 2024 on nursing practices in Primary Health Care (PHC). The results highlighted the importance of early diagnosis, timely treatment of pregnant women and partners, educational actions, and followup of exposed newborns. 64.3% of the articles (9/14) point to social barriers as challenges for the prevention of congenital syphilis (Lima et al., 2018; Rocha et al., 2020). 57.1% of the articles (8/14) highlight the lack of professional training as a challenge for the prevention of congenital syphilis (Mendes et al., 2015). Strategies such as welcoming, bonding, and qualified listening increased adherence to treatment. It was concluded that strengthening nursing practice in PHC is essential to reduce vertical transmission and achieve the goals of eliminating congenital syphilis.

Keywords: Primary Health Care; Nursing; Prenatal Care; Prevention; Congenital Syphilis.

1 INTRODUÇÃO

A sífilis congênita constitui uma doença evitável, porém ainda prevalente demonstrando lacunas na assistência pré-natal e na implementação das políticas públicas de prevenção da transmissão vertical. Dados epidemiológicos recentes mostram um aumento nas taxas de incidência, refletindo fragilidades nas estratégias de prevenção e no acompanhamento das gestantes durante o pré‑natal (BRASIL, 2024; OPAS, 2024). Segundo o Boletim Epidemiológico de sífilis 2024, na comparação entre 2013 e 2023, houve aumento significativo em todos os tipos de desfechos desfavoráveis (2.317 ocorrências em 2023): os óbitos por sífilis congênita aumentaram 24,5%; os óbitos por outras causas, 58,0%; os abortos, 131,7%; e os natimortos por sífilis, 27,7% (BRASIL, 2024). 

As consequências da sífilis congênita incluem aborto espontâneo, natimortalidade, prematuridade, baixo peso ao nascer e sequelas neurológicas, acarretando impactos sociais, emocionais e econômicos para as famílias (Andrade et al., 2020). Nesse contexto, a enfermagem é o primeiro ponto de contato com Sistema Único de Saúde (SUS) e protagonista das consultas de pré-natal, atua de forma decisiva na prevenção, diagnóstico e acompanhamento da doença.

A enfermagem, está presente em todos os níveis de atenção à saúde, desde a atenção básica até a atenção especializada atuando na prevenção, diagnóstico precoce, tratamento oportuno e acompanhamento das gestantes e seus parceiros. Diante dessa relevância, torna‑se necessário compreender quais práticas têm sido eficazes conforme evidências recentes.

O presente estudo tem como objetivo identificar, analisar e sintetizar as evidências científicas acerca das práticas de enfermagem na prevenção da sífilis congênita na Atenção Primária à Saúde.

2 METODOLOGIA

Este estudo constitui uma revisão integrativa, realizada em seis etapas:

  • Estratégia PICO: 

– P (População): Gestantes e recém‑nascidos no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

– I (Intervenção): Práticas de enfermagem para prevenção da sífilis congênita.

– C (Comparação): Não aplicável.

– O (Outcome/desfecho): Redução da transmissão vertical; melhoria no diagnóstico e tratamento.

  • Questão norteadora: Quais práticas de enfermagem têm demonstrado eficácia na prevenção da sífilis congênita no contexto da Atenção Primária à Saúde?
  • As bases de dados consultadas foram: SciELO, LILACS, BDENF, PubMed e CINAHL.
  • Períodos e critérios: 

– Período de 2013 a 2024.

– Critérios de inclusão: artigos originais publicados entre 2013 e 2024, disponíveis na íntegra, em português, inglês ou espanhol, que abordassem diretamente a atuação da enfermagem na prevenção da sífilis congênita.

– Critérios de exclusão: estudos anteriores a 2013, trabalhos duplicados, publicações sem foco na enfermagem ou cujo desfecho principal não abordasse a prevenção da sífilis congênita.

  • Processo de seleção:  Foram dentificados: 78 artigos.  Após triagem por título e resumo: 48 excluídos. Elegíveis para leitura completa: 30. Excluídos por não atender aos critérios: 16. Amostra final: 14 artigos.
  • Análise dos dados: Utilizou-se análise temática de conteúdo segundo Bardin (2016), com categorização em quatro eixos: diagnóstico precoce; tratamento e acompanhamento; educação em saúde; desafios para a prática de enfermagem.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 A análise dos 14 artigos permitiu identificar quatro eixos temáticos: Diagnóstico precoce, Tratamento e acompanhamento, Educação em saúde e Acompanhamento do recémnascido exposto.

Nesta análise de revisão integrativa evidenciou-se a importância da atuação da enfermagem na prevenção da sífilis congênita. A seguir, são apresentados os principais resultados e discussões, comparando os autores e apontando lacunas científicas e divergências.

 Diagnóstico precoce

A realização e interpretação dos testes rápidos, assim como a avaliação clínica, foram apontadas como ações centrais. Silva et al. (2020) e Ferreira et al. (2019) destacam a importância da realização e interpretação de testes rápidos para o diagnóstico precoce da sífilis. No entanto, Ferreira et al. (2019) apontam falhas no registro e testagem inadequada em alguns serviços de saúde. 

Rezende et al. (2021) destacam que o diagnóstico tardio é um dos principais fatores de risco para a transmissão vertical.

É importante investigar as causas das falhas no registro e testagem inadequada para melhorar a qualidade do diagnóstico.

Tratamento e acompanhamento

Moura et al. (2018) e Oliveira et al. (2020) enfatizam a importância da administração de penicilina benzatina e do acompanhamento sorológico e clínico para prevenir a transmissão vertical.

No entanto, Gomes et al. (2016) apontam condutas inconsistentes no manejo clínico da sífilis, o que pode comprometer a eficácia do tratamento. 

Torres et al. (2019) destacam a importância do acompanhamento contínuo das gestantes e dos recém-nascidos expostos.

Algumas lacunas são evidenciadas e levam à necessidade de investigar as causas das condutas inconsistentes e desenvolver estratégias para padronizar o manejo clínico.

Educação em saúde

 Aviz et al. (2024) e Firmino et al. (2021) destacam a importância das ações educativas para aumentar a adesão ao tratamento e a prevenção. No entanto, é necessário investigar a eficácia das diferentes estratégias educativas e identificar as melhores práticas. 

Acompanhamento do recém-nascido exposto

Santos et al. (2017) e Azevedo et al. (2018) enfatizam a importância da vigilância contínua do recém-nascido exposto para evitar complicações tardias. Szcesny et al. (2017) destacam a importância do acompanhamento do recém-nascido exposto e apontam que a falta de conhecimento sobre a doença é uma barreira para o acompanhamento adequado.

Desenvolver intervenções mais eficazes para o acompanhamento do recém-nascido exposto e identificar suas necessidades poderá trazer melhores resultados.

Desafios

Entre os desafios apontados destacam-se os mencionados por Lima et al. (2018) e Rocha et al. (2020) que apontam barreiras sociais e falta de capacitação profissional como desafios para a prevenção da sífilis congênita.

 Mendes et al. (2015) destacam a importância da capacitação profissional para melhorar a adesão às diretrizes.

Os estudos identificaram barreiras tais como: estigma, dificuldades no rastreamento de parceiros, lacunas na capacitação profissional e fragilidade do suporte institucional. Destaca-se a necessidade de fortalecimento de políticas públicas, como a Rede Cegonha, e os pactos de eliminação da sífilis congênita propostos pela OPAS/OMS (2023)

QUADRO 1 – Síntese dos artigos incluídos na revisão

Fonte: Elaborado pelos autores (2025).

4 CONCLUSÃO

A revisão integrativa demonstrou que a enfermagem desempenha papel estratégico na prevenção da sífilis congênita, atuando desde o diagnóstico precoce até o tratamento adequado da gestante e de seus parceiros, além da educação em saúde e do acompanhamento do recém-nascido exposto. Embora haja avanços, persistem desafios relacionados à formação continuada, à valorização profissional e ao fortalecimento do suporte institucional.

No entanto, é importante destacar que esta revisão apresenta limitações, como a inclusão apenas de artigos publicados em português, inglês e espanhol, o que pode ter excluído estudos relevantes em outras línguas. Além disso, a busca foi realizada em apenas cinco bases de dados, o que pode não ter abrangido todos os estudos relevantes sobre o tema. A análise dos estudos também foi limitada pela qualidade e heterogeneidade dos dados disponíveis.

É fundamental que sejam realizados mais estudos para superar as limitações desta revisão e para avaliar a eficácia de intervenções específicas na prevenção da sífilis congênita.

O aprimoramento das consultas de enfermagem no pré-natal, aliado a práticas humanizadas e ao trabalho multiprofissional, constitui um caminho essencial para reduzir a transmissão vertical e melhorar os desfechos maternos e infantis. Conclui-se que a consolidação dessas práticas contribui diretamente para o alcance das metas de eliminação da sífilis congênita e para o fortalecimento da atenção básica como espaço estratégico de cuidado

5 REFERÊNCIAS

ANDRADE, E. et al. Epidemiologia da sífilis congênita no Brasil: uma revisão sistemática. Principia, v. 20, n. 1, p. 34-48, 2020. DOI: 10.18265/1517-03062020v20n1p34-48.

AVIZ, L. et al. A importância da atuação da enfermagem na Estratégia Saúde da Família. Research, Society and Development, v. 13, n. 1, 2024. DOI: 10.33448/rsd-v13i1.37024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Sífilis 2024. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: boletim_sifilis_2024_e.pdf. Acesso em: ago. 2025.

BRITO, F. et al. Plano de intervenção para a prevenção da sífilis em gestantes. Brasília, DF: UNA-SUS, 2021. Disponível em: https://www.unasus.gov.br/. Acesso em: ago. 2025.

CDC – Centers for Disease Control and Prevention. Congenital Syphilis – Treatment Guidelines. Atlanta, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatmentguidelines/congenitalsyphilis.htm. Acesso em: set. 2025.

COFEN – Conselho Federal de Enfermagem. Nota técnica Cofen/CTLN n. 03, de 14 de junho de 2017. Brasília, DF: COFEN, 2017. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/notatecnicacofenctlnno03de2017_51779.html. Acesso em: ago. 2025.

FIRMINO, I. et al. A importância do pré-natal na prevenção da sífilis congênita: uma revisão da literatura. Revista Educação em Saúde, v. 9, n. 1, 2021. DOI: 10.17648/educacao-emsaude. v9i1.27032.

FURTADO, J. H. L.; QUEIROZ, C. R.; ANDRES, S. C. (org.). Atenção Primária à Saúde no Brasil: desafios e possibilidades no cenário contemporâneo. Campina Grande: Editora Amplla, 2021. 356 p.

MAGALHÃES, D. M. S. et al. Sífilis materna e congênita: ainda um desafio. Cadernos de Saúde Pública, v. 29, n. 6, p. 1109-1120, 2013. DOI: 10.1590/S0102-311X2013000600009.

OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde. Estratégia para a eliminação da transmissão vertical da sífilis e HIV nas Américas. Washington, DC: OPAS, 2024. Disponível em: https://www.paho.org/pt. Acesso em: out. 2025.

SILVA, C. S. et al. Atuação do enfermeiro na prevenção da sífilis. European Academic Research, v. 8, n. 7, p. 1234-1245, 2020. DOI: 10.13187/er.2020.8.1234.

SZCESNY, B. C. et al. Importância dos cuidados de enfermagem em recém-nascidos com sífilis congênita: relato de experiência. Anais do Congresso Sul-Brasileiro de SAE, 2017. Disponível em: https://www.even3.com.br/anais. Acesso em: ago. 2025.

WHO – World Health Organization. Global guidance on syphilis prevention and control. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240062211. Acesso em: set. 2025.


1Bacharel em Enfermagem
edianesilvaenfermeira07@gmail.com

2Bacharel em Enfermagem
andressarubiaalves@gmail.com