SILENCES IN PEDIATRICS: EMOTIONAL STRATEGIES OF NURSING PROFESSIONALS IN THE FACE OF INFANT DEATH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511242158
Tainara Reginatto Borges1
Fernanda Gava Salcher2
Resumo
Objetivo: analisar a vivência de profissionais de enfermagem diante da morte infantil, identificando os principais desafios emocionais e as estratégias de enfrentamento relatadas na literatura nacional e internacional. Métodos: revisão integrativa de abordagem qualitativa, conduzida com base no checklist PRISMA. Foram pesquisadas nas bases da SciElo, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde, com descritores controlados combinados por operadores booleanos. A amostra final foi composta por oito artigos publicados entre 2015 e 2025. Resultados: observou-se que os profissionais de enfermagem enfrentam intenso sofrimento emocional diante da morte infantil, marcado por sentimento de impotência, tristeza e culpa. As estratégias mais utilizadas incluem apoio entre colegas, espiritualidade e distanciamento emocional. Contudo, a ausência de preparo acadêmico e institucional agrava o sofrimento e aumenta o risco de Burnout. Conclusão: a vivência da morte infantil exige maior preparo emocional e suporte institucional aos profissionais de enfermagem. A inserção de conteúdos sobre terminalidade e luto na formação acadêmica e a implementação de programas de apoio psicológico podem reduzir o impacto emocional e promover uma assistência mais humanizada.
Palavras-chave: Enfermagem Pediátrica. Luto. Atitude Frente à Morte. Cuidados de Enfermagem. Habilidades de Enfrentamento.
1. INTRODUÇÃO
A morte infantil permanece como um dos eventos mais desafiadores para os sistemas de saúde em todo o mundo, tanto pelo impacto social e emocional quanto pelas repercussões nos indicadores de saúde pública. Embora os avanços tecnológicos tenham contribuído para maior sobrevida de crianças criticamente enfermas, a perda na infância ainda mobiliza profissionais e famílias, resultando em experiências dolorosas e complexas. Esses aspectos evidenciam a importância de práticas que considerem a integralidade do cuidado e incluem também a saúde emocional dos trabalhadores que vivenciam essas situações (Menin et al., 2015; Nina et al., 2021; Souza et al., 2018; Souza et al., 2019).
No contexto brasileiro, a assistência pediátrica apresenta avanços significativos com a consolidação do Sistema Único de Saúde. Entretanto, quando a morte é inevitável, os profissionais de enfermagem relatam dificuldades em lidar com a terminalidade, associando-a a sentimentos de impotência, sofrimento e fracasso. Tais achados demonstram que, além da complexidade clínica, a morte infantil repercute diretamente na saúde emocional da equipe de enfermagem, que permanece ao lado da criança e da família durante todo o processo de cuidado (Souza et al., 2018; Souza et al., 2019).
A literatura internacional também tem discutido esse fenômeno, apontando que a falta de preparo acadêmico e a ausência de programas de suporte institucional ampliam a vulnerabilidade dos profissionais. Estudos realizados no Chile identificaram alto risco de burnout em equipes pediátricas e oncológicas, mas observaram que o apoio ao luto pode atuar como fator protetor, reduzindo a despersonalização e fortalecendo a realização pessoal. Esses resultados reforçam a necessidade de compreender a experiência da enfermagem frente à morte infantil em diferentes contextos e apontam uma lacuna de conhecimento no cenário brasileiro (Paula et al., 2017; Paula et al., 2018).
Considerando a relevância desse fenômeno, o presente estudo também dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 3, que visa assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos em todas as idades, e o ODS 8, que trata de trabalho decente e bem-estar para os profissionais. Dessa forma, investir em pesquisas sobre a morte infantil e suas repercussões nos trabalhadores de saúde é essencial para fortalecer práticas humanizadas, políticas institucionais e estratégias formativas. Diante disso, a questão norteadora estabelecida foi: quais os desafios emocionais os profissionais de enfermagem enfrentam diante do óbito infantil e quais estratégias são adotadas para lidar com essas situações?
2. METODOLOGIA
Tratou-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, elaborada com base no checklist PRISMA, a fim de garantir rigor e transparência em todas as etapas do processo. O estudo teve como objetivo reunir e sintetizar evidências científicas sobre a vivência de profissionais de enfermagem diante da morte infantil, permitindo uma análise crítica e comparativa dos achados nacionais e internacionais. Esse delineamento foi escolhido por possibilitar a inclusão de diferentes tipos de métodos de pesquisa, ampliando a compreensão sobre a temática investigada.
A coleta de dados foi realizada nas bases Scielo, Lilacs e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): enfermagem pediátrica, luto, atitude frente a morte, cuidados de enfermagem e habilidades de enfrentamento, e combinados por meio do operador booleano (OR).
Foram adotados como critérios de inclusão artigos originais e completos disponíveis na íntegra, que abordaram direta e exclusivamente a vivência de profissionais de enfermagem diante da morte de crianças em contextos hospitalares, artigos em português, inglês e espanhol, publicados entre os anos de 2015 e 2025. Excluíram-se artigos de revisão, dissertações, teses, editoriais, relatos de experiência, textos repetidos e estudos que não respondiam à questão norteadora. O processo de seleção ocorreu em etapas sequenciais, iniciando-se pela leitura dos títulos e resumos e, posteriormente, pela leitura na íntegra dos artigos elegíveis. Todas as etapas de triagem, elegibilidade e inclusão foram sistematizadas em fluxograma conforme recomendações do PRISMA.
Os dados extraídos foram organizados em um quadro sinóptico, contemplando informações relativas a autores, ano de publicação, local do estudo, objetivo, métodos e principais resultados. A análise foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, permitindo identificar padrões de semelhanças e divergências entre os estudos. A partir desse processo, os artigos foram, agrupados em categorias temáticas, que subsidiaram a construção da discussão. Por se tratar de um estudo que utilizou exclusivamente publicações disponíveis em domínio público, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, sendo respeitados os princípios éticos de autoria e integridade científica durante todo o desenvolvimento do trabalho.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A busca nas bases de dados resultou em 1.950.311 estudos identificados inicialmente. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 1.089.873 artigos foram encontrados. Após leitura integral e detalhada dos artigos, a amostra final da revisão foi composta por oito artigos, conforme apresentado no Fluxograma de Seleção dos Estudos (Figura 1).

Os estudos incluídos foram analisados quanto ao ano de publicação, local, objetivo, método e principais resultados, conforme descrito na Tabela 1. Observou-se que a maioria dos trabalhos abordou a vivência de profissionais de enfermagem diante do processo de morte e morrer infantil, destacando sentimentos de impotência, sofrimento e desgaste emocional, além da ausência de preparo acadêmico e institucional para lidar com a terminalidade. Outros estudos enfatizaram a presença de estratégias de enfrentamento, como apoio entre colegas, espiritualidade e distanciamento emocional, bem como a necessidade de programas de suporte institucional ao luto para reduzir o risco de burnout.
A análise dos artigos incluídos nesta revisão permitiu compreender as repercussões emocionais e profissionais da morte infantil na enfermagem, bem como identificar estratégias utilizadas no enfrentamento dessa realidade e a necessidade de preparo institucional. Os estudos estão apresentados no Quadro 1, que reúne as informações essenciais da amostra analisada. Com base neles, foi possível elencar três categorias temáticas: impacto emocional da morte infantil nos profissionais de enfermagem, estratégias de enfrentamento utilizadas diante da perda pediátrica e necessidade de preparo acadêmico e suporte institucional.
Quadro 1. Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa
| Autor/cidade/ano | Título | Objetivo | Método | Resultado |
| MENIN GE, et al., Rio Grande do Sul, 2015 | Terminalidade na vida infantil: percepções e sentimentos de enfermeiros | Compreender as percepções e sentimentos do profissional enfermeiro diante do processo de morte e morrer infantil | Qualitativa e exploratória, pautada por categorias temáticas. Participaram da pesquisa sete enfermeiros da unidade de terapia intensiva mista neonatal e pediátrica de um hospital geral da região noroeste do Rio Grande do Sul. | Os enfermeiros enfrentam grande dificuldade em aceitar a morte infantil, sentindo impotência e sofrimento. O estudo evidenciou o despreparo emocional devido à falta de suporte acadêmico e institucional, fragilizando o cuidado de enfermagem nesse processo apesar de sua essencialidade |
| GOÉS ERS et al., São Paulo, 2023 | Sobrevivendo ao processo de morte e morrer de crianças e adolescentes: vivências de profissionais de enfermagem | Compreender como os profissionais de enfermagem de uma Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica vivenciam o processo de luto decorrente da morte de crianças e adolescentes | Pesquisa qualitativa, realizada em hospital público do estado de São Paulo, com doze profissionais de enfermagem, por meio de entrevistas aberta com a questão norteadora “Conte-me, em detalhes, como você tem enfrentado o luto após a morte de uma criança ou adolescente na UTI Pediátrica”. Resultados emergiram seis categorias que foram organizadas em dois eixos temáticos | Os profissionais vivenciam a morte infantil com sofrimento e impotência. Utilizam estratégias de enfrentamento, como apoio entre colegas, espiritualidade e distanciamento emocional. Embora o desgaste psicológico seja evidente, a experiência também promove reflexões sobre a vida e fortalece vínculos na equipe. |
| Paula VV et al., Chile, 2018 | Perception support in professionals and technicians grief of pediatric intensive care units in public hospitals | Investigar como profissionais de saúde que atuam em UTIs Pediátricas de hospitais públicos percebem o apoio recebido em seus processos de luto após a morte de pacientes | Estudo quantitativo, descritivo correlacional, realizado com profissionais e técnicos de enfermagem em UTIs Pediátricas. Foram aplicados instrumentos padronizados para avaliar apoio ao luto e burnout; análise estatística incluiu testes de correlação | A maioria dos participantes está em risco de Burnout e exaustão emocional, mas reconhece apoio no luto, especialmente entre mulheres e equipes oncológicas. Maior percepção de apoio está associada a menos despersonalização e maior realização pessoal. O estudo sugere implementação de programas de suporte ao luto para reduzir os efeitos negativos. |
| Paula VV et al., Chile, 2017 | Apoyo en duelo y Burnout en equipos de enfermería de unidades pediátricas de hospitales chilenos | Analisar prevalência de Burnout e percepção de apoio ao luto em profissionais de enfermagem de unidades pediátricas de alta complexidade | Estudo descritivo, correlacional e transversal. Aplicação do Maslach Burnout Inventory e da Grief Support Health Care Scale em 210 profissionais e técnicos de saúde de hospitais públicos chilenos | Foi identificado alto risco de Burnout à exaustão emocional e baixa realização pessoal. Em contrapartida, profissionais que perceberam maior apoio ao luto relataram menor despersonalização e maior satisfação no trabalho. O estudo recomenda programas institucionais de suporte contínuo ao luto como estratégia para reduzir o desgaste emocional |
| SOUZA PSN et al., Curitiba, 2018 | Processo de morrer em unidade de terapia intensiva pediátrica | Discutir sobre como profissionais de enfermagem lidam com o processo de morte e morrer, e identificar os impactos causados na assistência durante esse processo nas unidades de cuidados intensivos pediátricos | Qualitativo e exploratório descritivo, utilizando análise de conteúdo proposta por Bardin | Os enfermeiros relataram culpa, fracasso e negação diante da morte infantil. O estudo apontou lacunas no preparo profissional, tornando a experiência dolorosa, e enfatizou a necessidade de educação permanente para apoiar a equipe no enfrentamento da finitude |
| Paula VV et al., Santiago, 2017 | Relación entre Apoyo en duelo y el síndrome de Burnout en profesionales y técnicos de la salud infantil | Determinar a prevalência de Burnout e a percepção de apoio ao luto entre profissionais e técnicos de saúde em oncologia pediátrica e terapia intensiva | Estudo quantitativo, descritivo correlacional transversal. Aplicação do Maslach Burnout Inventory e da Grief Support Health Care Scale em 210 profissionais. Análise estatística com teste de Student e correlações de Pearson Spearman | Cerca de 71% dos participantes estavam em risco de burnout. Mais da metade relatou alto apoio ao luto, especialmente mulheres e equipes oncológicas. O reconhecimento do vínculo e luto após a morte reduziu a despersonalização e aumentou a realização pessoal, sendo o apoio um fator protetor contra o Burnout |
| Souza FF et al., Salvador, 2019 | O enfermeiro em face ao processo de morte do paciente pediátrico | Compreender como o enfermeiro vivencia o processo de morte de crianças no contexto da assistência pediátrica e quais sentimentos e estratégias emergem nessa experiência | Estudo qualitativo, exploratório e descritivo. Foram realizadas entrevistas com enfermeiros atuantes em um hospital pediátrico em Salvador – BA; os dados foram submetidos à análise de conteúdo | Os enfermeiros enfrentam a morte infantil com sofrimento e tristeza profunda, frequentemente associada a fracasso emocional. A falta de preparo acadêmico e institucional para lidar com a finitude aumenta a vulnerabilidade emocional da equipe |
| Nina RVAH et al., Ribeirão Preto, 2021 | As diversas faces da morte de crianças na perspectiva de médicos e enfermeiros | Analisar diferentes perspectivas dos médicos e enfermeiros sobre o processo de morte infantil, abordando as experiências emocionais e estratégias de um enfrentamento durante essa vivência no ambiente hospitalar | Estudo de abordagem qualitativa, com médicos e enfermeiros de três Unidade de Terapia Intensiva (UTI Neonatal, UTI Pediátrica e UTI Cardiológica) de um hospital de ensino. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas gravadas, transcritas e analisadas segundo análise de conteúdo na modalidade temática | A morte infantil causa sofrimento emocional em médicos e enfermeiros, com sentimentos de impotência e tristeza. Estratégias como apoio entre colegas e distanciamento emocional são usadas, mas a falta de preparo aumenta o impacto emocional |
Categoria 1 – Impacto emocional da morte infantil nos profissionais de enfermagem
A morte de crianças é reconhecida como uma das experiências mais dolorosas para a equipe de enfermagem. Os estudos analisados evidenciaram sentimentos recorrentes de impotência, sofrimento, tristeza profunda e até fracasso profissional diante da terminalidade pediátrica. Esses achados revelam que o enfrentamento da morte infantil não se limita ao contexto familiar, mas afeta de forma intensa o bem-estar psicológico dos profissionais que prestam o cuidado direto (Menin et al., 2015; Souza et al., 2019).
No cenário nacional, pesquisas apontam que muitos enfermeiros associam a morte da criança a uma falha pessoal ou profissional, o que intensifica a dor emocional e a sensação de despreparo. Esse aspecto é agravado pela ausência de suporte institucional adequado, o que fragiliza ainda mais a vivência da equipe. Os dados sugerem que, no Brasil, o peso emocional da perda pediátrica ainda é vivenciado de maneira solitária pelos profissionais (Souza et al., 2018).
Já em estudos internacionais, especialmente no Chile, os achados também confirmam o impacto emocional da morte infantil, mas destacam a existência de fatores protetores, como a percepção de apoio ao luto. Pesquisas demonstram que profissionais que recebem suporte estruturado apresentam menor despersonalização e maior realização pessoal, em contraste com aqueles que não contam com esses recursos. Essa diferença evidencia como o contexto institucional pode modificar a forma como a morte é elaborada pela equipe (Paula et al., 2017; Paula et al., 2018).
Assim, percebe-se concordância entre os estudos de diferentes países quanto à intensidade do sofrimento emocional causado pela morte pediátrica. Contudo, enquanto no Brasil predomina a ênfase no despreparo e na vulnerabilidade psicológica, a literatura internacional aponta que programas de apoio ao luto têm potencial para amenizar esses efeitos. Esse contraste revela uma lacuna importante a ser superada na prática nacional, onde ainda há pouco investimento em ações voltadas ao cuidado com os profissionais.
Categoria 2 – Estratégias de enfrentamento utilizadas diante da perda pediátrica
Mesmo diante de intenso sofrimento, os profissionais de enfermagem buscam estratégias para lidar com a terminalidade infantil. Entre as mais frequentes estão o apoio mútuo entre colegas, a espiritualidade e o distanciamento emocional. Essas práticas são relatadas como fundamentais para atenuar a sobrecarga psicológica, oferecendo meios de continuar atuando sem comprometer totalmente o bem-estar mental (Goés et al., 2023; Nina et al., 2021). O apoio entre colegas aparece como uma das estratégias mais eficazes, já que permite compartilhar experiências, sentimentos e angústias, criando uma rede de solidariedade dentro da própria equipe. Além disso, a espiritualidade é descrita como um recurso de conforto, proporcionando sentido ao sofrimento e esperança em meio à dor. No entanto, o distanciamento emocional, apesar de frequente, pode se tornar uma barreira para a humanização do cuidado, comprometendo o vínculo com o paciente e sua família.
Na literatura internacional, há concordância quanto ao valor da espiritualidade e da solidariedade entre colegas como formas de enfrentamento. Porém, alguns estudos alertam que a dependência excessiva do distanciamento emocional pode gerar frieza no cuidado e dificultar o processo de luto dos familiares. Essa divergência sugere que, embora as estratégias de autopreservação sejam necessárias, elas precisam ser equilibradas com práticas empáticas e acolhedoras (Paula et al., 2018).
Dessa forma, observa-se que as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos profissionais revelam tanto potencialidades quanto fragilidades. Se, por um lado, funcionam como mecanismos de proteção, por outro podem reduzir a qualidade da assistência quando aplicadas de forma desequilibrada. Assim, torna-se essencial estimular práticas que promovam tanto o cuidado com os profissionais quanto a manutenção da sensibilidade necessária ao acompanhamento das famílias enlutadas.
Categoria 3 – Necessidade de preparo acadêmico e suporte institucional
Um dos achados mais consistentes entre os estudos é a ausência de preparo acadêmico e suporte institucional adequado para lidar com a morte infantil. Muitos profissionais relatam nunca terem sido orientados, durante a graduação, sobre como enfrentar situações de terminalidade e luto. Essa lacuna gera insegurança, amplia o sofrimento emocional e dificulta a prestação de uma assistência humanizada (Menin et al., 2015).
A falta de políticas institucionais de apoio também foi destacada, com relatos de que a morte infantil raramente é acompanhada por ações formais de acolhimento aos profissionais. Isso contribui para a sensação de abandono emocional da equipe e aumenta o risco de burnout, como apontado em diferentes pesquisas nacionais. A ausência de preparo e de suporte repercute não apenas no bem-estar dos profissionais, mas também na qualidade do cuidado prestado (Souza et al., 2018).
Em contrapartida, estudos internacionais destacam os benefícios da implementação de programas de suporte ao luto no ambiente institucional. Tais iniciativas reduzem significativamente os efeitos negativos da perda, como exaustão emocional e despersonalização, além de promoverem maior realização pessoal entre os profissionais. Esses resultados sugerem que a diferença entre os contextos está menos na experiência da perda em si e mais no suporte oferecido às equipes (Paula et al., 2017; Paula et al., 2018).
Portanto, essa categoria revela uma concordância ampla quanto à necessidade de preparo acadêmico e institucional, mas uma divergência entre países no estágio de implementação dessas medidas. Enquanto em alguns contextos internacionais já existem iniciativas estruturadas de apoio, no Brasil essa discussão ainda é incipiente. Avançar nessa direção é essencial para reduzir o sofrimento dos profissionais e fortalecer a qualidade da assistência diante da terminalidade pediátrica.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A morte infantil representa uma das experiências mais dolorosas e complexas para os profissionais de enfermagem. A revisão integrativa evidenciou que o sofrimento emocional é uma constante, marcado por sentimentos de impotência, tristeza e culpa, que se intensificam pela falta de preparo acadêmico e de suporte institucional.
Apesar disso, as estratégias de enfrentamento, como o apoio entre colegas, a espiritualidade e o distanciamento emocional, mostram-se essenciais para a continuidade do cuidado. No entanto, o distanciamento excessivo pode comprometer a humanização da assistência.
Assim, é fundamental que instituições de ensino e de saúde reconheçam a relevância desse tema, promovendo formações específicas e políticas de acolhimento que contemplem o luto profissional. Tais ações podem contribuir para reduzir o desgaste emocional, fortalecer o vínculo entre as equipes e aprimorar a qualidade do cuidado diante da terminalidade pediátrica.
REFERÊNCIAS
MENIN, G. E. et al. Terminalidade da vida infantil: percepções e sentimentos de enfermeiros. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 36, n. 4, p. 65–72, 2015.
SOUZA, P. S. N. et al. Processo de morrer em unidade de terapia intensiva pediátrica. Cogitare Enfermagem, v. 23, n. 1, e51433, 2018.
PAULA, V. V. et al. Apoyo en duelo y burnout en equipos de enfermería de unidades pediátricas de hospitales chilenos. Enfermería Global, v. 16, n. 47, p. 81–94, 2017.
PAULA, V. V. et al. Relación entre apoyo en duelo y el síndrome de burnout en profesionales y técnicos de la salud infantil. Revista Chilena de Pediatría, v. 88, n. 5, p. 590–598, 2017.
PAULA, V. V. et al. Perception of support in professionals’ and technicians’ grief of pediatric intensive care units in public hospitals. Revista Chilena de Pediatría, v. 89, n. 2, p. 185–193, 2018.
SOUZA, F. F. et al. O enfermeiro em face ao processo de morte do paciente pediátrico. Revista Baiana de Enfermagem, v. 33, e32318, 2019.
GOÉS, E. R. S. et al. Sobrevivendo ao processo de morte e morrer de crianças e adolescentes: vivências de profissionais de enfermagem. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 57, e20230145, 2023.
NINA, R. V. A. H. et al. As diversas faces da morte de crianças na perspectiva de médicos e enfermeiros. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 29, e3489, 2021.
1Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Faculdade da Serra Gaúcha Campus Caxias do Sul e mail: tainarareginatto@hotmail.com
2Docente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Faculdade da Serra Gaúcha Campus Caxias do Sul. Mestre em Medicina Pediátrica e Saúde da Criança (PUCRS). e-mail: fernanda.salcher@fsg.edu.br
