REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511231934
Ana Livia Correia Vieira1; Carlos Miguel dos Santos2; Carlos André Campos Ribeiro3; Ellen Raienne Garcia de Sousa4; Juliana Rodrigues5; Mayra Da Conceição Cavalcante6; Pablo de Matos Monteiro7; Maury Luz Pereira8
RESUMO:
A leucemia linfoide constitui uma neoplasia hematológica caracterizada pela substituição do tecido hematopoiético por clones malignos, resultando em citopenias e manifestações clínicas variadas. Este estudo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura, comparando a leucemia linfoide aguda (LLA) e a leucemia linfoide crônica (LLC). A busca foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS, utilizando os descritores Leucemia linfoide aguda; Leucemia linfoide crônica, com critérios de inclusão que contemplaram artigos publicados entre 2020 e 2025, em português e com acesso ao texto completo. Dos 716 artigos inicialmente identificados, apenas cinco atenderam aos critérios estabelecidos. Os resultados evidenciam que a LLA apresenta curso clínico agressivo, com proliferação de linfoblastos imaturos e manifestações súbitas, frequentemente acompanhadas por anemia, trombocitopenia e infiltrações extramedulares. Em contraste, a LLC se desenvolve de forma lenta e indolente, com predomínio de linfócitos B maduros, podendo evoluir com alterações genéticas adquiridas, como deleção 13q14 e mutações em TP53, associadas à progressão da doença e pior prognóstico. Conclui- se que a diferenciação entre LLA e LLC é essencial para o diagnóstico precoce, definição do prognóstico e escolha terapêutica adequada, reforçando a importância da integração entre parâmetros clínicos, imunofenotípicos e genéticos.
PALAVRAS – CHAVE: Leucemia linfoide aguda, Leucemia linfoide crônica, Neoplasias hematológicas.
ABSTRACT:
Lymphoid leukemia is a hematologic neoplasm characterized by the replacement of normal hematopoietic tissue by malignant clones, leading to cytopenias and diverse clinical manifestations. This study aimed to compare the acute (ALL) and chronic (CLL) forms of lymphoid leukemia through an integrative literature review. Searches were conducted in PubMed, SciELO, and LILACS databases, using the descriptors Lymphoid leukemia AND acute AND chronic, between 2020 and 2025, including articles in Portuguese and with free access. From 716 initially identified studies, only five met the inclusion criteria and were analyzed. Results indicated that ALL has an aggressive clinical course, characterized by rapid expansion of immature lymphoblasts, leading to sudden and severe manifestations such as anemia, thrombocytopenia, and extramedullary infiltration. In contrast, CLL evolves indolently, with predominance of mature B lymphocytes, but may acquire secondary alterations, such as 13q14 deletion and TP53 mutations, associated with therapeutic resistance and worse prognosis. It is concluded that differentiating between ALL and CLL is essential for early diagnosis, prognosis definition, and therapeutic decision-making, reinforcing the importance of integrating clinical, immunophenotypic, and genetic parameters.
KEYWORDS: Acute lymphoid leukemia, Chronic lymphoid leukemia, Hematologic neoplasms.
1. INTRODUÇÃO
As neoplasias representam doenças resultantes da proliferação anormal de células com mutações genéticas, essas nas quais se tornam capazes de escapar da regulação homeostática, ou seja, de processos que o organismo utiliza para se manter em equilíbrio. Assim, acumulando-se de forma desordenada e, em muitos casos, invadindo tecidos e comprometendo o funcionamento de múltiplos sistemas corporais (Majérus, 2022).
O organismo utiliza o processo de renovação celular para garantir esse equilíbrio, em indivíduos saudáveis, é coordenado por mecanismos de sinalização molecular que asseguram a harmonia entre divisão, especialização e morte programada. Já as neoplasias, possuem alterações somáticas em genes essenciais, como proto-oncogenes, genes supressores de tumor e genes de reparo do DNA, possibilitam que células transformadas evitem a apoptose, mantenham a autorrenovação e promovam angiogênese exacerbada, resultando no crescimento celular desregulado (Machado et al., 2022)
Existem neoplasias de diversos tipos e entre elas, as doenças hematológicas como linfomas, leucemias e mielomas, apresentam uma elevada complexidade fisiopatológica e diversidade clínica (Ferreira, 2010). Estudos como o de Severino (2023) essas circunstancias afetam principalmente a medula óssea, o sangue e os tecidos linfoides, correspondendo a cerca de 10% de todos os diagnósticos de câncer no mundo, o que impacta diretamente na qualidade de vida e na sobrevida dos pacientes.
A leucemia se divide em duas classes, classe mieloide e classe linfoide, enquanto a mieloide afeta de forma mais direta as células que são células precursoras dos glóbulos vermelhos, plaquetas e leucócitos do tipo granulócitos, a linfoide afeta as células linfocíticas, nas quais são células do sistema imunológico responsáveis pela produção de anticorpos e pela resposta imunológica e contribuem para defesa, além disso, em ambos os tipos de leucemia, há a presença de fase aguda e fase crônica. (Barbosa, 2015).
Na leucemia linfoide aguda (LLA), há a presença de linfoblastos de forma exacerbada, visto que acontece uma proliferação rápida e descontrolada de linfoblastos imaturos (CD34+/TdT+) que se acumulam na medula óssea e no sangue periférico, levando a manifestação de forma repentina com um quadro clinico grave, cursando com evolução agressiva e sintomas de instalação súbita (Rocha, 2024).
Já na leucemia linfoide crônica (LLC), acontece uma predominância de linfócitos B maduros (CD19+/CD5+) com a atividade proliferativa baixa, porém com evolução clonal secundária a alterações como deleções em 13q14 ou mutações em TP53 (Rocha, 2024).
Diante do exposto, a diferenciação entre a LLA e a LLC se revelam fundamental para um diagnóstico preciso, uma vez que suas manifestações clínicas, imunofenotípicas e genéticas apresentam características distintas. Assim, é justificável a análise comparativa entre as dua neoplasias.
2. METODOLOGIA
O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e qualitativo, com o objetivo de comparar os aspectos clínicos, imunofenotípicos e genéticos da leucemia linfoide aguda (LLA) e da leucemia linfoide crônica (LLC).
A revisão foi conduzida entre agosto e setembro de 2025, nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS, por meio da combinação de descritores controlados e não controlados, utilizando os operadores booleanos para ampliar a sensibilidade da busca. As expressões utilizadas foram:
(“Leucemia linfoide aguda” OR “Leucemia linfoblástica aguda”) AND (“Leucemia linfoide crônica” OR “Leucemia linfocítica crônica”);(“Lymphoid leukemia” AND “acute” AND “chronic”);(“LLA” AND “LLC”) AND (“diagnóstico” OR “imunofenótipo” OR “genética” OR “tratamento”).
Foram incluídos artigos publicados entre 2020 e 2025, em português ou inglês, com acesso gratuito ao texto completo, que abordassem comparativamente as duas formas de leucemia linfoide em seres humanos. Excluíram-se trabalhos duplicados, revisões narrativas sem critérios metodológicos, relatos de caso isolados, editoriais, resumos de congresso e estudos que não apresentavam relação direta com LLA ou LLC.
A busca sistematizada nas bases PubMed, SciELO e LILACS resultou em um total de 716 artigos inicialmente identificados. Após a exclusão de duplicatas e aplicação dos critérios de elegibilidade (idioma, período de publicação e acesso ao texto completo), restaram 86 publicações. Destas, 8 foram consideradas potencialmente relevantes após leitura dos resumos, e 5 artigos compuseram a amostra final da revisão, conforme demonstrado na Tabela 1.

Fonte:De autoria própria, 2025.
3. RESULTADOS
Na tabela abaixo apresenta a quantidade de artigos encontrados na busca nas bases científicas adotadas para este estudo.
Tabela 1. Número de artigos encontrados e palavras-chave utilizadas.

Fonte: De autória própria, 2025.
Os resultados obtidos demonstram que há um volume expressivo de estudos publicados sobre o tema, especialmente em bases internacionais como a PubMed. No entanto, apenas uma fração desses trabalhos abordava de forma comparativa as características clínicas, imunofenotípicas e genéticas da leucemia linfoide aguda (LLA) e da leucemia linfoide crônica (LLC), o que reforça a importância desta revisão integrativa para sintetizar evidências recentes sobre essas neoplasias hematológicas.
Os estudos apontam que a LLA, apesar de mais agressiva, responde melhor a protocolos intensivos de quimioterapia e transplante de medula óssea em fases precoces (Machado et al., 2022). Já a LLC, por sua vez, apresenta resistência progressiva associada a mutações em TP53, demandando o uso de terapias-alvo como inibidores de BTK e moduladores da apoptose, conforme observado por Rocha (2024). Tais diferenças confirmam o papel determinante do perfil genético no direcionamento terapêutico.
Em contrapartida, a LLC apresenta evolução mais lenta, com acúmulo de linfócitos B maduros (CD19+/CD5+) e atividade proliferativa reduzida. No entanto, alterações genéticas adquiridas, como deleção 13q14 e mutações no gene TP53, foram descritas como fatores de progressão clonal e mau prognóstico (Rocha, 2024).
4. DISCUSSÃO
A análise comparativa entre leucemia linfoide aguda e crônica demonstra diferenças marcantes quanto ao curso clínico, imunofenótipo e alterações genéticas. A leucemia linfoide aguda, ao ter sua manifestação mais rápida e agressiva, exige um diagnóstico precoce e intervenção imediata, dada sua associação com manifestações graves e comprometimento sistêmico. Já a leucemia linfoide crônica apresenta comportamento mais passivo, mas não estática, já que pode adquirir mutações secundárias capazes de alterar o prognóstico e dificultar a resposta terapêutica (Campos, 2011).
No contexto terapêutico, a leucemia linfoide aguda é tradicionalmente tratada com esquemas quimioterápicos intensivos em múltiplas fases, frequentemente associados ao transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas em pacientes de alto risco ou refratários. Nos últimos anos, a incorporação de terapias-alvo e imunoterapias, como os anticorpos monoclonais (anti-CD19) e as células T com receptor quimérico (CAR-T cells), tem ampliado as possibilidades de tratamento em pacientes com recidiva ou refratariedade, proporcionando taxas superiores de resposta e sobrevida (Campos, 2011).
Por outro lado, na Leucemia linfoide crônica, as terapias-alvo representam um marco, especialmente com o desenvolvimento dos inibidores da tirosina quinase de Bruton (BTK), que interferem diretamente na via de sinalização do receptor de células B, fundamental para a sobrevivência das células neoplásicas.Na leucemia linfoide aguda, a rápida progressão, a gravidade clínica e o risco de infiltrações extramedulares reforçam a necessidade de diagnóstico precoce e tratamento imediato, geralmente envolvendo protocolos quimioterápicos intensivos e, em alguns casos, transplante de medula óssea (Barbosa, 2015).
Na leucemia linfoide crônica, embora a progressão seja lenta, a doença é marcada por heterogeneidade biológica e clínica, em alguns casos a LLC permanece estável por anos, sem necessidade de tratamento, já em outros evolui de forma mais agressiva, com rápida progressão da doença, a LLC também contém alterações moleculares adquiridas ao longo do tempo (como TP53) impactam diretamente no prognóstico e na resposta às terapias convencionais (Rocha, 2024).
Comparativamente, enquanto a leucemia linfoide aguda demanda intervenções rápidas e agressivas, a leucemia linfoide crônica exige monitoramento prolongado e abordagem terapêutica personalizada. Essa diferenciação evidencia o papel fundamental do imunofenótipo e da caracterização genética não apenas no diagnóstico, mas também na estratificação prognóstica e na determinação da estratégia terapêutica mais apropriada.
Apesar do avanço nas terapias personalizadas, observa-se escassez de estudos comparativos recentes que integrem simultaneamente os aspectos clínicos, moleculares e terapêuticos da LLA e da LLC, o que reforça a relevância desta revisão ao sintetizar essas evidências.
5. CONCLUSÃO
A análise comparativa entre a leucemia linfoide aguda (LLA) e a leucemia linfoide crônica (LLC) evidenciou diferenças marcantes quanto ao curso clínico,
perfil imunofenotípico e alterações genéticas. A LLA caracteriza-se por proliferação rápida de linfoblastos imaturos (CD34+/TdT+), resultando em evolução agressiva e necessidade de diagnóstico e tratamento imediatos.
Em contrapartida, a LLC apresenta acúmulo lento de linfócitos B maduros (CD19+/CD5+), com comportamento mais indolente, porém suscetível a mutações secundárias como deleção 13q14 e mutações em TP53 que influenciam diretamente o prognóstico e a resposta terapêutica.
Os avanços recentes em terapias-alvo e imunoterapias vêm ampliando as possibilidades de tratamento e sobrevida dos pacientes, destacando-se os inibidores da tirosina quinase de Bruton (BTK), os moduladores da apoptose e as células CAR-T. Ainda assim, persistem lacunas na literatura quanto a estudos comparativos que integrem simultaneamente os aspectos clínicos, genéticos e moleculares das leucemias linfoides, especialmente em populações latino-americanas.
Portanto, esta revisão integrativa reforça a importância de abordagens diagnósticas e terapêuticas personalizadas, pautadas em critérios moleculares e imunofenotípicos, para aprimorar o manejo clínico, o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes com LLA e LLC.
REFERÊNCIAS
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CAMPOS, S. E, Toboso-Navasa A, Romero-Camarero I, et al. Acute lymphoblastic leukemia and developmental biology: a crucial interrelationship. Cell Cycle. 2011;10(20):3473-86. doi: https://doi.org/10.4161/cc.10.20.11979
FERREIRA JM. Incidência, Mortalidade e sobrevida de leucemia e linfoma no município de Fortaleza, Ceará [dissertação]. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz; 2010. Acesso em: 11 set. 2025. Disponível em: https://www.arca.fiocruz. br/handle/icict/2483.
MAJÉRUS, M. A. The cause of cancer: The unifying theory. Advances in Cancer Biology – Metastasis, v. 4, p. 2667-3940, jul. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.adcanc.2022.100034.
MACHADO, R. L.; SÁ, J. V.; ZATTA, J. G.; SANTOS, A. C. Avaliação da taxa de mortalidade por leucemia nas regiões brasileiras no período entre 2010 e 2020. Revista Brasileira de Educação, Saúde e Bem-Estar, v. 1, n. 3, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.29327/2335218.1.3-11.
ROCHA, M. A.; TAVARES, E. Ver de Fora para Dentro: Um caso de leucemia cutis no contexto de leucemia linfoide crônica. Gazeta Médica, Queluz, v. 11, n. 2, p. 154- 158, jun. 2024. Acesso em: 9 set. 2025. Disponível em: http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2184-06282024000200154.
SEVERINO, V. V. et al. Avanços terapêuticos de última geração para cânceres hematológicos: leucemia, linfoma e mieloma. Brazilian Journal of Implant Health Science, v. 5, n. 5, p. 99–111, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.36557/26748169.2023v5n5p99-111.
1Discente da Faculdade Supremo Redentor – FACSUR
2Discente da Faculdade Supremo Redentor – FACSUR
3Discente da Faculdade Supremo Redentor – FACSUR
4Discente da Faculdade Supremo Redentor – FACSUR
5Discente da Faculdade Supremo Redentor – FACSUR
6Discente da Faculdade Supremo Redentor – FACSUR
7Orientador da Faculdade Supremo Redentor- FACSUR
8Orientador da Faculdade Supremo Redentor- FACSUR
