REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511210527
Michaella Batista Nogueira
Samira Gomes Lima
Orientador(a): Prof(a). Dr(a). Jéssica Pereira Barbosa
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo analisar a influência da cultura da magreza extrema na adoção de práticas alimentares prejudiciais entre mulheres adolescentes e jovens adultas. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, que buscou compreender como as mídias sociais, especialmente o TikTok e o Instagram, contribuem para a disseminação de padrões corporais irreais e para o aumento da insatisfação com a imagem corporal. Foram incluídos artigos científicos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis nas bases National Library of Medicine (PubMed) e ScienceDirect, que abordassem a relação entre uso de redes sociais, cultura da magreza e transtornos alimentares. Os resultados evidenciam que os conteúdos digitalmente mediados, os filtros de imagem e os algoritmos de recomendação intensificam a comparação social e a internalização de ideais estéticos inatingíveis. Essa exposição constante está associada à adoção de dietas restritivas, ao uso de medicamentos para emagrecimento e ao desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais, como anorexia e bulimia. Observou-se também a crescente medicalização da estética e a normalização de práticas de controle corporal sem respaldo científico. Conclui-se que as mídias sociais exercem papel central na propagação da cultura da magreza, reforçando a vulnerabilidade de jovens mulheres diante da pressão estética e das expectativas irreais de beleza. Destaca-se, portanto, a necessidade de políticas públicas, ações educativas e intervenções multidisciplinares voltadas à promoção da saúde mental, à valorização da diversidade corporal e ao uso consciente das redes sociais.
Palavras-chave: imagem corporal; cultura da magreza; transtornos alimentares; redes sociais; comportamento alimentar.
ABSTRACT
This study aims to analyze the influence of the extreme thinness culture on the adoption of harmful eating practices among adolescent and young adult women. It is an integrative literature review designed to understand how social media, especially TikTok and Instagram, contribute to the dissemination of unrealistic body standards and to increased body image dissatisfaction. Scientific articles published between 2020 and 2025 were selected from National Library of Medicine (PubMed) and ScienceDirect databases, focusing on the relationship between social media use, thinness culture, and eating disorders. The results show that digital content, image filters, and algorithmic recommendations intensify social comparison and the internalization of unattainable aesthetic ideals. Constant exposure to such content is associated with restrictive diets, the use of weight-loss drugs, and the development of disordered eating behaviors such as anorexia and bulimia. Moreover, the growing medicalization of aesthetics and normalization of body control practices without scientific support were observed. It is concluded that social media play a central role in promoting the culture of thinness, reinforcing the vulnerability of young women to aesthetic pressure and unrealistic beauty expectations. Therefore, public policies, educational programs, and multidisciplinary interventions are essential to promote mental health, body diversity, and conscious social media use.
Keywords: body image; thinness culture; eating disorders; social media; eating behavior.
1. INTRODUÇÃO
Atualmente, o corpo ocupa um lugar central nos discursos sociais, sendo considerado um símbolo de identidade, status e pertencimento. A busca pela beleza, antes associada à arte e às expressões culturais, passou nas últimas décadas a adquirir contornos comerciais e midiáticos. O corpo físico tornou-se um capital simbólico, um meio de expressão individual e social, sendo frequentemente moldado por padrões estéticos impostos pela mídia e pela cultura digital (Vieira, 2016).
Nas últimas três décadas, o culto ao corpo intensificou-se, especialmente com a ascensão das redes sociais, que transformaram a forma como as pessoas percebem, comparam e avaliam seus corpos. A exposição constante a imagens idealizadas nas plataformas digitais criou uma cultura de vigilância estética, em que o valor pessoal é frequentemente associado à aparência física (Santaella, 2004). O corpo, antes expressão de subjetividade, passou a ser objeto de comparação e validação pública.
O padrão de beleza corporal, ainda que variável ao longo do tempo e das culturas, é amplamente utilizado pelas mídias como instrumento de persuasão. Corpos magros, tonificados e esteticamente padronizados são apresentados como ideais de sucesso, saúde e aceitação social. Essa padronização, entretanto, é excludente e inatingível para a maioria das pessoas, gerando frustração, insegurança e sofrimento psíquico (Hoff, 2005; Queiroz, 2000).
Com a popularização das mídias sociais, especialmente o TikTok e o Instagram, novas formas de exposição e comparação corporal surgiram. Essas plataformas, por meio de algoritmos de recomendação, intensificam o contato com conteúdos voltados à aparência, dietas restritivas e práticas alimentares extremas. Estudos recentes (Griffiths et al., 2024; Blackburn; Hogg, 2024) evidenciam que usuários com maior tempo de uso dessas redes apresentam maior internalização de padrões de beleza e maior risco de desenvolver insatisfação corporal e comportamentos alimentares prejudiciais.
Diante desse cenário, observa-se o crescimento de transtornos alimentares (TA) entre adolescentes e jovens adultas, grupo mais vulnerável aos efeitos das comparações sociais e da pressão estética. Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5, 2022), os principais transtornos alimentares incluem a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar periódica, todos caracterizados por distorção da imagem corporal e comportamento alimentar disfuncional.
Além disso, a exposição constante a conteúdos que associam magreza à saúde e sucesso reforça o fenômeno da medicalização da estética, com o uso crescente de medicamentos e suplementos para perda de peso sem acompanhamento profissional adequado (Bloom et al., 2025; Rušić et al., 2025). Essa tendência reflete uma nova faceta da cultura da magreza, que combina a pressão estética tradicional com a influência mercadológica das redes sociais.
Entre os mais afetados por essa realidade estão as adolescentes e jovens mulheres, que vivenciam uma fase marcada por inseguranças e pela busca de pertencimento social. Pesquisas como as de Rodgers et al. (2020) e Ding (2025) demonstram que essa população é especialmente suscetível à internalização de ideais corporais irreais e ao desenvolvimento de práticas alimentares restritivas, compulsivas ou compensatórias.
Nesse contexto, torna-se essencial discutir de forma crítica a influência da cultura da magreza extrema na adoção de práticas alimentares prejudiciais, analisando o papel das mídias sociais na formação e manutenção desses comportamentos. Refletir sobre esse fenômeno é fundamental para promover a valorização da diversidade corporal, a aceitação do corpo real e o incentivo a hábitos alimentares saudáveis e sustentáveis, com foco no bem-estar físico e mental.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Imagem corporal e padrões de beleza
2.1.1 Conceito de imagem corporal
A imagem corporal representa um componente essencial da identidade e da percepção de si, abrangendo não apenas a forma como o indivíduo enxerga seu corpo, mas também os sentimentos, pensamentos e comportamentos associados a essa percepção. De acordo com Hosseini et al. (2020), ela engloba dimensões cognitivas, perceptivas, afetivas e comportamentais que, juntas, determinam o grau de satisfação com a aparência e influenciam diretamente o bem-estar psicológico.
As representações sobre a imagem corporal são moldadas por fatores sociais, culturais e psicológicos, sendo influenciadas pela busca constante por um corpo idealizado, amplamente promovido pela mídia e pelas redes sociais (Brandão et al., 2020; Lucena et al., 2020). Atualmente, o conceito de imagem corporal ultrapassa a mera percepção estética e está profundamente relacionado à autoestima, ao pertencimento social e à identidade pessoal. Segundo Ding et al. (2025), a forma como as pessoas avaliam o próprio corpo é cada vez mais influenciada por algoritmos e conteúdos digitais, que determinam quais corpos são valorizados e quais são invisibilizados nas plataformas on-line. Compreender o conceito de imagem corporal, portanto, exige uma abordagem interdisciplinar que integre aspectos biológicos, emocionais e socioculturais.
2.1.2 Fatores que influenciam a percepção da imagem corporal
A percepção corporal é construída de forma subjetiva e multifatorial, envolvendo dimensões biológicas, psicológicas e sociais. Entre os principais fatores que influenciam essa percepção estão o sexo, a idade, o índice de massa corporal (IMC) e o nível socioeconômico, que moldam a imagem corporal ao longo do desenvolvimento (Silva et al., 2022). As mulheres, em especial, demonstram maior insatisfação corporal, resultado tanto de expectativas culturais quanto de comparações sociais reforçadas pelas mídias digitais (Gama et al., 2020; Marques et al., 2019).
O contexto social exerce papel determinante na construção da autoimagem. Relações familiares, experiências escolares e, sobretudo, o uso das redes sociais contribuem para consolidar ideais estéticos muitas vezes inatingíveis. Para Souza e Tavares (2021), a exposição a representações corporais manipuladas digitalmente, como ocorre em plataformas como Instagram e TikTok, favorece o surgimento de sentimentos de inadequação e comparação constante. Essa busca por validação social, frequentemente expressa por curtidas e comentários, tem sido apontada como um dos principais gatilhos para a distorção da autoimagem e o desenvolvimento de comportamentos alimentares restritivos (Griffiths et al., 2024; Blackburn; Hogg, 2024).
Além dos fatores individuais e sociais, a cultura desempenha papel central na percepção da imagem corporal. Em muitas sociedades, o corpo feminino é visto como um símbolo de sucesso, saúde e status, o que leva à valorização da magreza e da juventude como padrões ideais (Moreira; Bastos, 2017; Costa et al., 2018). Esse ideal, amplificado pela mídia, é reforçado por influenciadores e campanhas publicitárias que associam magreza à felicidade e autocontrole. Segundo Dopelt e Houminer-Klepar (2025), esse processo é intensificado pelas redes sociais, que direcionam usuários vulneráveis a conteúdos relacionados a dietas extremas e estética corporal. Assim, a imagem corporal é formada a partir da interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais, refletindo valores coletivos sobre o que é considerado belo ou aceitável fisicamente.
2.1.3 Construção social dos padrões de beleza e seus efeitos na autoimagem
Historicamente, o corpo sempre foi objeto de controle e representação cultural. Desde o surgimento do capitalismo, no século XVII, o corpo passou a ser visto não apenas como expressão individual, mas também como instrumento de status e poder (Aranha; Martins, 1996). Na contemporaneidade, esse processo atinge novos níveis, com o corpo transformado em mercadoria simbólica e alvo de constante vigilância social (Daolio, 1995).
A sociedade atual valoriza determinados padrões estéticos que, embora variem de acordo com o contexto cultural, mantêm em comum a idealização de corpos magros, jovens e simétricos. Essa idealização é sustentada pela indústria da moda, da beleza e, mais recentemente, pelas redes sociais, que moldam o imaginário coletivo sobre o que é considerado belo e desejável (Bittar; Soares, 2020; Santaella, 2004).
Na adolescência e juventude, período marcado por intensas transformações físicas e emocionais, a pressão estética torna-se ainda mais intensa. Estudos como os de McComb e Mills (2022) demonstram que novos ideais, como o corpo “slim-thick”, substituem o ideal magro, mas continuam a reproduzir as mesmas dinâmicas de comparação social e insatisfação corporal. Movimentos recentes, como o body positivity e o body neutrality, buscam contrapor essa lógica, promovendo aceitação e funcionalidade corporal, mas parte de seu conteúdo ainda reforça padrões estéticos idealizados (Hallward; Feng; Duncan, 2023).
Dessa forma, os padrões de beleza são socialmente construídos e historicamente moldados por forças econômicas, culturais e midiáticas. A supervalorização da aparência e a exposição constante a imagens idealizadas nas redes sociais contribuem para o surgimento de distorções da autoimagem, reduzindo o corpo a um objeto de consumo e controle, e ampliando o risco de transtornos alimentares e sofrimento psicológico entre adolescentes e jovens adultas.
2.2 Influência das mídias sociais na percepção corporal
2.2.1 O papel das mídias sociais na disseminação de padrões de beleza
O papel das mídias sociais na formação de padrões de beleza tem se tornado um dos temas mais debatidos na contemporaneidade. Nos últimos anos, plataformas como TikTok e Instagram passaram a desempenhar papel central na forma como adolescentes e jovens adultas percebem e constroem sua autoimagem. Segundo pesquisa de Nogueira e Albuquerque (2021), cerca de 58% dos adolescentes consideram as redes sociais como o principal fator de influência na definição do que entendem por “beleza ideal”. Essa percepção reforça a noção de que a mídia atua como mediadora cultural na construção dos significados atribuídos ao corpo e à aparência.
Griffiths et al. (2024) destacam que os algoritmos dessas plataformas ampliam automaticamente a exposição de usuários a conteúdos voltados para dietas restritivas e ideais de magreza, intensificando sentimentos de inadequação e insatisfação corporal. De modo semelhante, Blackburn e Hogg (2024) observaram que a visualização de vídeos pró-anorexia reduziu a satisfação com o próprio corpo e aumentou a internalização de padrões estéticos entre mulheres jovens. Esses achados reforçam que as mídias digitais não apenas reproduzem padrões de beleza, mas também moldam comportamentos e percepções, criando uma cultura de comparação constante.
As mídias sociais, ao funcionarem como vitrines de estilos de vida idealizados, tornam-se espaços simbólicos de validação social, nos quais o corpo é tratado como um projeto em constante aperfeiçoamento (Silva et al., 2018; Sirqueira et al., 2021). A exposição contínua a corpos magros, tonificados e editados digitalmente estimula a busca incessante por um ideal estético inalcançável, frequentemente associado ao sucesso e à aceitação. De acordo com Vaz et al. (2022), campanhas publicitárias e influenciadores digitais reforçam a ideia de que o consumo de produtos e serviços de beleza é um caminho para alcançar satisfação pessoal e pertencimento social. Assim, as redes sociais consolidam-se como instrumentos que não apenas divulgam, mas também legitimam os padrões corporais hegemônicos, ampliando a pressão estética e o risco de adoção de práticas alimentares nocivas.
2.2.2 Influência das redes sociais na autoimagem
A influência das redes sociais sobre a autoimagem feminina tem sido amplamente documentada em estudos recentes. A exposição contínua a imagens e conteúdos idealizados tem se mostrado um fator determinante no desenvolvimento de distorções corporais e transtornos alimentares (Paula; Lopes, 2023; Freitas et al., 2024). Segundo Ding et al. (2025), o contato prolongado com conteúdos comparativos e comentários de cunho estético está diretamente relacionado ao aumento de sintomas de ansiedade, insatisfação corporal e comportamentos alimentares restritivos.
Além disso, observa-se que a lógica de funcionamento dessas plataformas opera em um ciclo de retroalimentação: o prazer imediato de receber curtidas e comentários positivos é rapidamente substituído por sentimentos de frustração e inadequação, reforçando o uso compulsivo das redes (Vaz et al., 2022; Lopes et al., 2024). Para Dopelt e Houminer-Klepar (2025), essa dinâmica intensifica a vulnerabilidade emocional, uma vez que o valor pessoal passa a ser medido pela aceitação virtual. Tal processo de autoavaliação constante pode gerar um desequilíbrio entre a autoimagem percebida e a imagem real, especialmente entre mulheres jovens, grupo mais suscetível à internalização dos padrões de magreza.
De forma mais ampla, a disseminação de conteúdos sobre dietas extremas, suplementos e medicamentos para emagrecimento contribui para a medicalização da estética, naturalizando práticas potencialmente perigosas. Estudos recentes mostram que a exposição a vídeos que promovem o uso de agonistas de GLP-1 e outras substâncias voltadas à perda de peso aumenta a percepção de inadequação corporal e o desejo de mudança constante (Chow et al., 2022; Lee; Lee, 2021). Esse fenômeno reforça a necessidade de uma abordagem crítica sobre o impacto das redes na saúde mental e alimentar, reconhecendo que a busca pelo corpo ideal muitas vezes está mais relacionada à aprovação social do que à promoção de bem-estar.
2.2.3 Efeitos dos filtros e algoritmos na autoimagem
O uso de filtros e o funcionamento dos algoritmos nas redes sociais exercem um papel significativo na construção da autoimagem contemporânea. Tais recursos, ao aprimorarem artificialmente rostos e corpos, criam uma dissociação entre a imagem real e a digital, estabelecendo padrões de beleza inatingíveis (Tinoco et al., 2023; Sulzbach; Tiggemann, 2023). Pesquisas recentes mostram que adolescentes expostos a filtros faciais com frequência tendem a apresentar maior insatisfação corporal, baixa autoestima e desejo por intervenções estéticas precoces (Souza; Figueiredo, 2021).
De acordo com Hallward, Feng e Duncan (2023), os filtros promovem uma estética de “aperfeiçoamento permanente”, em que imperfeições naturais são apagadas e traços uniformizados, reforçando a percepção de que o valor pessoal está diretamente ligado à aparência. Esse fenômeno é amplificado pelos algoritmos das plataformas, que privilegiam conteúdos visualmente atraentes e altamente engajantes, criando um ciclo de visibilidade condicionado à conformidade estética. Para Mushtaq et al. (2023), essa lógica algorítmica favorece a homogeneização dos corpos, reduzindo a diversidade e incentivando comportamentos de comparação e autocrítica.
Durante a adolescência, fase em que a identidade corporal está em formação, a exposição constante a essas imagens idealizadas pode gerar sérias consequências psicológicas, como baixa autoestima, distorção da autoimagem e transtornos alimentares (Ferreira, 2020; Dunker, 2023). A criação do chamado “corpo virtual” uma versão editada e idealizada de si mesmo torna-se um ideal de referência, provocando rejeição da própria aparência e sofrimento emocional (Souza, 2020). Assim, os filtros e algoritmos, ao invés de promoverem expressão individual, acabam por reforçar padrões excludentes e um ciclo contínuo de insatisfação corporal e busca pela perfeição estética.
2.3 Transtornos Alimentares e Comportamentos Relacionados
2.3.1 Definição e tipos de transtornos alimentares
Os transtornos alimentares (TA) são distúrbios mentais graves caracterizados por padrões persistentes de comportamento alimentar disfuncional, distorção da imagem corporal e preocupação excessiva com o peso e a forma física. De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR), publicado pela American Psychiatric Association (2022), os principais tipos de TA incluem a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar periódica. Embora possuam critérios diagnósticos distintos, todos compartilham sintomas que resultam em sofrimento psicológico intenso, prejuízos nas atividades diárias e risco significativo à saúde física e mental.
O Clinical Practice Guideline for Eating Disorders (NHMRC, 2023) complementa essas definições ao enfatizar que tais transtornos estão frequentemente associados a fatores emocionais, sociais e culturais. O documento ressalta que os TA não se limitam à alimentação, mas refletem dificuldades no controle emocional e na autoimagem. Além disso, alerta para a presença de comportamentos alimentares desordenados, como jejuns prolongados, dietas extremamente restritivas e uso indevido de medicamentos para emagrecimento que, mesmo sem preencher critérios diagnósticos formais, oferecem riscos importantes à saúde física e psicológica.
2.3.2 Anorexia nervosa: características e impactos
A anorexia nervosa é caracterizada pela restrição alimentar persistente, recusa em manter um peso corporal mínimo adequado e medo intenso de engordar, mesmo diante de baixo peso (APA, 2022). Pessoas com esse transtorno apresentam distorção significativa da imagem corporal e frequentemente negam a gravidade de sua condição. Entre os comportamentos mais comuns estão a restrição calórica severa, o uso de laxantes ou diuréticos e a prática excessiva de exercícios físicos (Conti; Cordás, 2009).
A anorexia afeta majoritariamente adolescentes e jovens adultas, embora também possa ocorrer em homens. Os efeitos físicos incluem desnutrição, osteopenia, alterações hormonais, hipotensão e bradicardia, podendo evoluir para falência orgânica em casos graves. Psicologicamente, observa-se elevação dos níveis de ansiedade, depressão e isolamento social. De acordo com Hay et al. (2017), a anorexia nervosa apresenta uma das maiores taxas de mortalidade entre os transtornos mentais, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e da intervenção multiprofissional, envolvendo nutricionistas, psicólogos e psiquiatras.
2.3.3 Bulimia nervosa: características e impactos
A bulimia nervosa é caracterizada por episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, jejuns ou exercícios físicos excessivos (APA, 2022). Diferentemente da anorexia, indivíduos com bulimia geralmente mantêm peso corporal dentro da faixa considerada normal, o que pode dificultar o diagnóstico (NHMRC, 2023).
Os prejuízos físicos incluem desidratação, alterações eletrolíticas, arritmias cardíacas e erosão dentária devido à acidez provocada pelos vômitos. No campo emocional, há sentimentos de culpa, vergonha, baixa autoestima e impulsividade, que perpetuam o ciclo de compulsão e purgação (Souza; Almeida, 2021). Conforme o Clinical Practice Guideline for Eating Disorders (NHMRC, 2023), o tratamento deve abordar simultaneamente os aspectos nutricionais, emocionais e comportamentais, promovendo o resgate da autoestima e a reestruturação da relação com o corpo e com a alimentação.
2.3.4 Relação entre transtornos alimentares e imagem corporal
A relação entre imagem corporal e transtornos alimentares é estreita e bidirecional. A insatisfação com o corpo é frequentemente o gatilho para o desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais, e, por sua vez, esses comportamentos reforçam as distorções da autoimagem (Cash; Smolak, 2011;
Silva et al., 2020). Em muitos casos, indivíduos com anorexia ou bulimia percebem-se com sobrepeso mesmo quando apresentam baixo índice de massa corporal, perpetuando o ciclo de restrição e autocrítica.
Estudos recentes indicam que a exposição constante às mídias sociais agrava essa relação, ao promover comparações e reforçar ideais corporais inalcançáveis (Griffiths et al., 2024; Ding et al., 2025). Essa dinâmica intensifica a autopercepção negativa e contribui para o surgimento de sintomas de ansiedade, depressão e comportamentos compensatórios (Hallward; Feng; Duncan, 2023). Dessa forma, compreender a distorção da imagem corporal é essencial para o manejo clínico dos transtornos alimentares, permitindo intervenções que integrem aspectos nutricionais, psicológicos e sociais.
2.4 Normas Culturais e sua influência na imagem corporal
2.4.1 Definição de normas culturais
As normas culturais correspondem a construções sociais que orientam comportamentos, valores e crenças em diferentes contextos históricos e sociais. Elas funcionam como parâmetros simbólicos que determinam o que é considerado aceitável, desejável ou desviado dentro de uma sociedade (Moscovici, 2004). Durante a adolescência e juventude — fases de intensa formação identitária — essas normas exercem papel decisivo na construção da autoimagem e na busca por pertencimento (Berger; Luckmann, 2004).
No campo da imagem corporal, essas normas assumem grande relevância, pois definem padrões estéticos idealizados e, muitas vezes, inatingíveis. Tais modelos são internalizados como metas pessoais, principalmente entre mulheres jovens, moldando a forma como percebem e avaliam seus corpos (Tiggemann, 2011; Griffiths et al., 2024). A internalização desses modelos atua como um filtro social e psicológico que orienta a identidade corporal e pode gerar sentimentos de inadequação e rejeição quando há discrepância entre o corpo real e o idealizado.
Além disso, a reafirmação constante desses padrões por meio das mídias sociais e interações digitais reforça a noção de que o corpo é um elemento de validação social. Essa pressão simbólica, associada ao culto da aparência, faz com que adolescentes e jovens adultas interpretem a conformidade estética como um requisito para aceitação e sucesso (Perloff, 2014; Ding et al., 2025). Assim, o corpo passa a ser entendido não apenas como uma dimensão biológica, mas como uma construção social que reflete valores, ideologias e hierarquias culturais.
2.4.2 Origem da cultura da magreza
A cultura da magreza, como fenômeno sociocultural, consolidou-se a partir do século XX, impulsionada pela ascensão da indústria da moda, da publicidade e do consumo (Bordo, 2003). Nesse contexto, o corpo magro passou a ser associado a atributos de disciplina, sucesso, juventude e elegância, especialmente no universo feminino. Campanhas publicitárias e editoriais de moda difundiram amplamente esse ideal, transformando a magreza em sinônimo de beleza e status social (Grabe; Ward; Hyde, 2008).
A partir dos anos 2000, com a popularização das redes sociais, esse ideal ganhou novas formas de disseminação e alcance. Leit (2014) destaca que a exposição contínua a imagens de corpos extremamente magros contribuiu para a naturalização desse padrão como norma estética e moral, principalmente entre adolescentes. Atualmente, estudos apontam que plataformas como TikTok e Instagram reproduzem essa lógica ao promover conteúdos baseados em algoritmos que priorizam imagens de corpos magros e tonificados, reforçando o padrão cultural da magreza (Blackburn; Hogg, 2024; Mushtaq et al., 2023).
É importante ressaltar que essa valorização da magreza não surgiu de forma espontânea, mas foi construída a partir de interesses econômicos e sociais. O corpo idealizado transformou-se em um produto, fomentando uma cultura de consumo voltada para cosméticos, dietas, roupas e procedimentos estéticos (Kilbourne, 1999; Chow et al., 2022). Assim, o corpo tornou-se um capital simbólico e mercadológico, cuja forma é moldada por padrões culturais e pelas estratégias de mercado que lucram com a insatisfação corporal.
2.4.3 Pressões estéticas sobre jovens mulheres
As pressões estéticas enfrentadas por jovens mulheres resultam da convergência entre normas culturais, representações midiáticas e dinâmicas sociais contemporâneas. A constante exposição a imagens editadas e idealizadas reforça padrões de beleza homogêneos, levando à crença de que a aparência física é determinante para o valor pessoal (Dohnt; Tiggemann, 2006; Perloff, 2014).
Pesquisas recentes demonstram que as redes sociais intensificam esse fenômeno por meio da comparação social e do engajamento digital. Ding et al. (2025) e Dopelt e Houminer-Klepar (2025) identificaram que o uso excessivo de plataformas como TikTok aumenta a vulnerabilidade emocional e a insatisfação corporal entre mulheres jovens, ampliando o risco para comportamentos alimentares desordenados. Além disso, a medicalização da estética — com o uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento e suplementos — reforça a ideia de que o corpo deve estar em constante transformação (Lee; Lee, 2021; Chow et al., 2022).
Essa pressão estética transcende o ambiente digital, manifestando-se também em espaços familiares, escolares e profissionais, nos quais o corpo feminino continua sendo objeto de avaliação e controle (Grabe; Ward; Hyde, 2008). Consequentemente, muitas jovens adotam dietas restritivas, procedimentos estéticos e práticas compensatórias em busca de um corpo idealizado, o que compromete a saúde física e emocional (Conti; Cordás, 2009; Souza; Almeida, 2021).
2.4.4 Movimentos sociais para a construção de uma autoimagem positiva
Em contraposição às pressões estéticas e à cultura da magreza, emergem movimentos sociais que buscam promover a aceitação corporal e a valorização da diversidade física. O movimento body positivity destaca-se por desafiar os padrões tradicionais de beleza e incentivar uma relação mais saudável com o corpo (Cwynar-Horta, 2016). Mais recentemente, o movimento body neutrality tem ganhado força ao propor uma abordagem menos centrada na aparência e mais voltada para a funcionalidade e bem-estar corporal (Hallward; Feng; Duncan, 2023).
Esses movimentos utilizam as redes sociais como espaços de resistência e conscientização, compartilhando conteúdos que celebram corpos diversos e desconstroem ideais normativos (Cohen et al., 2019). A exposição a mensagens positivas sobre o corpo está associada a maior satisfação com a aparência, redução da comparação social e fortalecimento da autoestima (Zięba; Jaskuła; Lachowicz-Wiśniewska, 2025).
Além disso, a disseminação desses discursos promove o desenvolvimento de senso crítico frente à mídia e incentiva práticas de autocuidado e respeito às diferenças. Assim, tais movimentos contribuem para a construção de uma autoimagem mais autêntica, saudável e livre das imposições da cultura da magreza, favorecendo uma visão mais inclusiva e realista do corpo humano.
2. METODOLOGIA
O presente trabalho trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada no período de fevereiro de 2025, nas bases de dados U.S. National Library of Medicine (PubMed) e ScienceDirect. O estudo contemplou artigos publicados nos últimos dez anos, sendo que todos os termos foram combinados de forma estratégica, aplicando-se filtros para limitar os resultados a este intervalo temporal. No entanto, artigos de grande relevância para o tema puderam ser incluídos, mesmo que publicados antes desse período. A busca foi realizada utilizando descritores MeSH (Medical Subject Headings) na base PubMed e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), abrangendo publicações nos idiomas inglês e português. As palavras-chave utilizadas na estratégia de busca foram, em inglês: “anorexia”, “bulimia”, “beauty standards”, “influence of social media”, “social networks”, “body image disorder”, “body image”, “eating disorders”, “social media body”, “cultural norms”, “social comparison” e “young women”; e, em português: “anorexia”, “bulimia”, “padrão de beleza”, “influência da rede social”, “mídias sociais”, “transtorno de imagem”, “imagem corporal”, “transtornos alimentares”, “corpo nas mídias sociais”, “comparação social”, “normas culturais” e “jovens mulheres”.
A seleção dos artigos seguiu critérios bem estabelecidos. Foram incluídos estudos originais dos tipos coorte, caso-controle e ensaio clínico que apresentassem associação entre o uso de mídias sociais e sua influência sobre transtornos alimentares em mulheres adolescentes e jovens adultas. Foram excluídos artigos sem dados originais, como revisões de literatura, relatos de caso, notas técnicas e editoriais. Também foram descartados estudos que tivessem como população-alvo crianças, idosos, gestantes ou homens adultos, assim como pesquisas relacionadas a comorbidades, como obesidade, ou a doenças específicas, como o câncer.
O processo de seleção dos artigos ocorreu em etapas. Inicialmente, realizou-se a leitura dos títulos para a triagem inicial, seguida pela análise do resumo, a fim de avaliar a relevância de cada estudo em relação ao objetivo proposto. Em seguida, os textos que atenderam aos critérios de inclusão foram selecionados para leitura na íntegra, enquanto os que não se enquadraram no delineamento da pesquisa foram excluídos. Durante a leitura completa, realizou-se uma análise qualitativa dos dados, permitindo a síntese e interpretação dos resultados. Além disso, durante essa etapa, foram incluídos alguns artigos adicionais considerados pertinentes, que emergiram no decorrer da revisão, por apresentarem relevância significativa para a discussão do tema.
As revistas científicas nas quais os artigos selecionados foram publicados também foram avaliadas quanto à classificação no sistema Qualis CAPES, na área de Nutrição, considerando o período entre 2017 e 2020. Foram priorizados os estudos publicados em periódicos classificados entre A1 e B2, de forma a assegurar a qualidade e confiabilidade das evidências incluídas na revisão.
A Tabela 1 apresenta a síntese da metodologia utilizada, contendo as etapas de busca, seleção e análise dos artigos. Esta revisão teve como objetivo reunir e analisar estudos que abordassem a relação entre a cultura da magreza, impulsionada pelas mídias sociais, e a adoção de práticas alimentares prejudiciais, possibilitando a compreensão de como tais fatores impactam mulheres adolescentes e jovens adultas.
Tabela 1. Síntese da metodologia utilizada na pesquisa bibliográfica


3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após o processo metodológico, foram selecionados nove estudos que atenderam aos critérios de inclusão definidos. Observou-se que 33,3% (n = 3) dos artigos foram publicados em 2025, 22,2% (n = 2) em 2024, 22,2% (n = 2) em 2023 e 22,2% (n = 2) em 2022, o que demonstra que a maioria das produções é recente, refletindo o crescente interesse científico pelo tema da influência das mídias sociais sobre a imagem corporal e os transtornos alimentares (Vallar, 2025)
Os estudos foram realizados em diferentes regiões do mundo, destacando o caráter global da problemática analisada. As pesquisas foram conduzidas em Israel (n = 1), China (n = 1), Austrália (n = 2), Canadá (n = 2), Estados Unidos (n = 1), Paquistão (n = 1) e Polônia (n = 1). Essa diversidade geográfica reforça que os efeitos da exposição às redes sociais na percepção corporal e no comportamento alimentar não se restringem a uma cultura específica, mas afetam jovens de diferentes contextos socioculturais (Dane; Bhatia, 2023)
Em relação às amostras, verificou-se que o número de participantes variou de 84 a 421 indivíduos, totalizando 1.967 participantes entre todos os estudos, com uma média aproximada de 218 indivíduos por pesquisa. A maioria das amostras foi composta por mulheres adolescentes e jovens adultas, grupo etário considerado mais vulnerável aos impactos das redes sociais na autoimagem e na adoção de comportamentos alimentares disfuncionais (Dane; Bhatia, 2023; Fardouly; Vartanian, 2015).
Quanto aos objetivos dos estudos, notou-se uma convergência temática: todos abordaram de forma direta ou indireta a influência das mídias sociais na imagem corporal e nos transtornos alimentares. Entre as variáveis analisadas, destacaram-se sintomas de transtornos alimentares, insatisfação corporal, uso excessivo de redes sociais, comparação social e internalização de padrões de beleza. Esses achados reforçam a correlação entre o tempo de exposição às mídias e o aumento dos comportamentos alimentares inadequados.
Em termos metodológicos, observou-se que a maioria dos estudos utilizou delineamentos transversais e aplicação de questionários on-line, voltados para a análise de correlações entre uso de mídias sociais e alterações na percepção corporal. Embora úteis para identificar associações, esses métodos limitam a inferência de causalidade, o que evidencia a necessidade de estudos longitudinais que aprofundem a compreensão dessas relações. Portanto, concluiu-se que a partir dos resultados desta revisão integrativa, que o conteúdo divulgado nas mídias sociais, especialmente no TikTok, exerce grande influência sobre a imagem corporal e o comportamento alimentar de mulheres adolescentes e jovens adultas. O estudo de Griffiths et al., (2024) demonstrou que os algoritmos da plataforma aumentam de forma automática a exposição de pessoas com sintomas de transtornos alimentares a vídeos sobre aparência física, dietas restritivas e conteúdos pró-anorexia, o que intensifica a insatisfação corporal e agrava os sintomas. De forma parecida, Blackburn; Hogg (2024) observaram que assistir a vídeos pró-anorexia reduziu a satisfação corporal e aumentou a internalização de padrões de beleza entre mulheres jovens, principalmente entre aquelas que passam mais tempo no aplicativo. Esses resultados mostram que os algoritmos e o tipo de conteúdo presente nas redes sociais acabam reforçando ideais corporais irreais, alimentando o ciclo entre comparação social, insatisfação com o corpo e comportamentos alimentares prejudiciais, fenômeno amplamente discutido pela literatura científica atual.
Tabela 2. Estudos selecionados sobre a cultura da magreza imposta pelas mídias sociais associada a comportamento alimentares de risco.






IMC: Índice de Massa Corporal; ↑: maior / mais; Pró-Ana: Pró anorexia; Pró-ED: pró-transtorno alimentar; Slim-thick: cintura fina e curvas acentuadas; Thin: corpo muito magro; Fit: corpo atlético e definido
De forma complementar, os estudos de Ding (2025),Mushtaq et al. (2023) e Dopelt; Houminer-Klepar (2025) reforçam o impacto direto do uso excessivo das mídias sociais na construção da autoimagem e no surgimento de comportamentos alimentares desordenados. No estudo de (Ding, 2025), a exposição prolongada a conteúdos de comparação corporal e cyberbullying esteve associada ao aumento de sintomas de transtornos alimentares, explicando 43,9% da variação no risco dessas condições. Os autores destacam que o TikTok, por meio de algoritmos personalizados, tende a direcionar usuários mais vulneráveis para conteúdos que reforçam a idealização da magreza e a autocrítica corporal. Da mesma forma, Mushtaq et al. (2023) identificaram alta prevalência de transtornos alimentares (42%) e dependência de mídias sociais (41,7%) entre jovens paquistaneses, com correlação positiva entre as duas variáveis. Esses resultados se aproximam das conclusões de Holland; Tiggemann (2016), que observaram que a exposição constante a imagens idealizadas aumenta significativamente a insatisfação corporal e a busca por ideais de beleza. Rodgers et al. (2020) também encontraram relação entre o tempo de uso das redes sociais, o envolvimento com influenciadores digitais e o risco de práticas alimentares restritivas ou compensatórias. Além disso,Dopelt; Houminer-Klepar (2025) verificaram que estudantes que seguiam perfis sobre dietas e estilo de vida apresentavam níveis mais altos de sintomas de transtornos alimentares, sendo a satisfação corporal um fator mediador importante. Em conjunto, esses resultados sugerem que, independentemente do país, o tipo de conteúdo consumido nas redes sociais aumenta a exposição a padrões corporais irreais e reforça a comparação e a insatisfação com o corpo, o que, segundo Fardouly; Willburger; Vartanian (2018); Hendrickse et al. (2017), pode servir como gatilho para atitudes alimentares disfuncionais.
Outro aspecto relevante que emerge do uso das mídias sociais é a normalização do uso de medicamentos para emagrecimento, como agonistas de GLP-1, sibutramina ou suplementos voltados à perda de peso. Estudos recentes mostram que a exposição a conteúdos que promovem produtos farmacológicos e dietéticos em redes sociais aumenta a pressão estética e reforça a ideia de que o corpo deve estar constantemente em transformação para atingir padrões de beleza ideais (Bloom et al., 2025; Hall et al., 2024; Ruši´c et al., 2025). Esse fenômeno contribui para a banalização do uso desses medicamentos, muitas vezes sem acompanhamento médico adequado, e está associado a maior insatisfação corporal, comportamentos alimentares restritivos e preocupação excessiva com o peso. Dessa forma, a medicalização da estética reforça padrões corporais irreais e eleva a vulnerabilidade de adolescentes e jovens adultas a práticas alimentares prejudiciais.
Os achados de Jackson et al. (2022) e McComb; Mills (2022) ampliam a compreensão sobre a internalização dos ideais de beleza e seu impacto no comportamento alimentar. A pesquisa de Jackson et al. (2022)identificou perfis distintos de percepção corporal, mostrando que indivíduos com maior apreciação do corpo apresentavam hábitos alimentares mais equilibrados, enquanto aqueles com maior insatisfação e internalização de padrões de magreza tinham maior propensão a comportamentos desordenados. McComb; Mills (2022)verificaram que a exposição a imagens associadas aos ideais “slim-thick” e “fit” gerou menor satisfação corporal e maior restrição alimentar, reforçando que mesmo novas tendências mantêm exigências corporais rigorosas. Esse processo é reforçado economicamente pela indústria da moda e cosmética, que lucra com a perpetuação de padrões estéticos inalcançáveis, criando ciclos de comparação social e insatisfação corporal.
Os estudos de Hallward; Feng; Duncan (2023) e Zięba; Jaskuła; Lachowicz-Wiśniewska, (2025) acrescentam perspectivas sobre formas de enfrentamento da insatisfação corporal. Enquanto o movimento body positivity busca ampliar a diversidade, parte do conteúdo ainda reforça padrões estéticos, enquanto o body neutrality promove aceitação funcional do corpo. Zięba; Jaskuła; Lachowicz-Wiśniewska, (2025) observaram que o comer emocional permanece comum entre adolescentes, sendo intensificado pelo consumo de conteúdos que exaltam corpos magros e estilos de vida “saudáveis”. Esses achados indicam que tanto a forma como o corpo é representado quanto a falta de educação emocional e nutricional contribuem para comportamentos alimentares desordenados, reforçando a necessidade de estratégias educativas integradas.
Apesar da ampla discussão nas redes sociais, percebe-se que a literatura científica sobre esses temas ainda é limitada, sobretudo no contexto nacional. Barreiras incluem o rápido dinamismo das plataformas digitais, o acesso restrito aos algoritmos, a escassez de estudos longitudinais e a predominância de pesquisas internacionais, o que dificulta a generalização dos resultados. De acordo com Rodgers et al. (2020), a maioria dos estudos sobre imagem corporal e uso de mídias sociais apresenta delineamentos transversais e amostras restritas, o que limita a compreensão das relações de causa e efeito entre exposição digital e comportamento alimentar. Além disso, conflitos de interesse envolvendo a indústria farmacêutica, de moda e cosmética podem restringir a divulgação de pesquisas críticas sobre os impactos dessas práticas na saúde mental e nutricional. Essas lacunas reforçam a necessidade de novas pesquisas brasileiras que considerem fatores culturais, socioeconômicos e educacionais.
Diante disso, torna-se evidente que a cultura da magreza e os padrões corporais promovidos pelas mídias sociais e pelas indústrias de moda, cosméticos e medicamentos contribuem significativamente para a formação de comportamentos alimentares prejudiciais, principalmente entre mulheres jovens. A exposição constante a conteúdos que exaltam corpos irreais, combinada com a banalização de medicamentos para emagrecimento, cria um ambiente propício para práticas restritivas, compulsivas e compensatórias. Profissionais de saúde, especialmente nutricionistas e psicólogos, devem considerar esses fatores ao planejar ações de prevenção, educação alimentar e promoção da saúde mental. Políticas públicas e programas educativos voltados para o uso consciente das redes, valorização da diversidade corporal e educação alimentar são fundamentais para reduzir a vulnerabilidade de adolescentes e jovens mulheres.
Por fim, é importante destacar que a maioria dos estudos revisados foi do tipo transversal, limitando a identificação de relações de causa e efeito entre uso das redes sociais e desenvolvimento de transtornos alimentares. Recomenda-se, portanto, que futuras pesquisas sejam longitudinais, realizadas em diferentes contextos culturais e regionais, e utilizem métodos mistos (quantitativos e qualitativos), a fim de compreender de forma mais abrangente os fatores que influenciam a relação entre imagem corporal, comportamento alimentar e mediação social e econômica.
CONCLUSÃO
A presente revisão integrativa permite concluir que a cultura da magreza, amplificada pelas mídias sociais, consolida-se como um fenômeno social que ultrapassa o campo da estética, refletindo questões mais amplas de identidade, pertencimento e controle social sobre o corpo feminino. A exposição recorrente a conteúdos digitais que exaltam ideais corporais restritivos, aliada à lógica algorítmica das plataformas, intensifica processos de comparação e autocrítica, conduzindo a um ciclo de insatisfação corporal e adoção de comportamentos alimentares disfuncionais.
Os resultados analisados apontam que o discurso contemporâneo de “corpo saudável” frequentemente mascara práticas de restrição e medicalização da alimentação, naturalizando o uso de substâncias e medicamentos com fins estéticos. Esse processo revela uma contradição: enquanto as redes sociais se apresentam como espaços de liberdade e expressão, funcionam também como dispositivos de vigilância simbólica, regulando o que é considerado aceitável ou desejável em termos de aparência.
Conclui-se, portanto, que os transtornos alimentares e a insatisfação corporal não devem ser interpretados apenas como distúrbios individuais, mas como respostas a uma estrutura social que legitima padrões corporais inatingíveis e transforma o corpo em mercadoria. Diante disso, a atuação do nutricionista precisa ir além do plano biológico, incorporando dimensões educativas, críticas e emocionais que promovam o autoconhecimento, a autonomia e o respeito à diversidade corporal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise crítica das evidências demonstra que o impacto das mídias sociais sobre a imagem corporal reflete um problema multifatorial que envolve saúde, cultura, economia e gênero. A medicalização da estética e o consumo de corpos idealizados são sustentados por um sistema que se beneficia da insegurança feminina, uma engrenagem que lucra com a insatisfação e reforça desigualdades simbólicas e emocionais.
Nesse contexto, torna-se imprescindível que a Nutrição atue como uma ciência social aplicada, rompendo com abordagens simplistas que associam o valor do corpo à sua forma. O profissional nutricionista deve assumir papel educativo e político, promovendo senso crítico e acolhimento diante das influências midiáticas que distorcem o significado do “cuidar de si”.
Além disso, o estudo aponta para a necessidade de políticas públicas e programas escolares que discutam a imagem corporal de forma integrada, envolvendo saúde mental, mídia e alimentação. Investir em educação midiática e emocional é essencial para mitigar os efeitos da cultura da magreza e construir uma nova narrativa: a de que saúde e beleza não são sinônimos, e que o corpo é, antes de tudo, expressão de diversidade e humanidade.
REFERÊNCIAS
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