AUTOMEDICAÇÃO E SEUS RISCOS: ANÁLISE DA PRÁTICA COTIDIANA ÀS CONSEQUÊNCIAS CLÍNICAS E DESAFIOS PARA A SAÚDE PÚBLICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511121705


Flávia Francine Hammerschmidt
Yone Vogel de Matos


RESUMO 

A automedicação, prática definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a utilização de medicamentos sem a devida prescrição, é um fenômeno de elevada prevalência que transcende fronteiras geográficas, assumindo o papel de um sério problema de saúde pública. Este trabalho buscou analisar a complexa trajetória da automedicação, partindo de sua consolidação como um hábito culturalmente aceito até a manifestação de suas graves consequências clínicas e os desafios impostos ao sistema de saúde. A investigação das causas revela que a prática é multifatorial, sendo impulsionada pela facilidade de acesso a medicamentos isentos de prescrição (MIPs), a influência da publicidade, a ineficiência ou a demora no acesso à Atenção Primária à Saúde (APS) e a crença popular na experiência prévia com o medicamento. As implicações clínicas do uso irracional de medicamentos são vastas e preocupantes. O estudo enfatiza riscos como o mascaramento de sintomas de doenças graves, que leva a um diagnóstico tardio e piora do prognóstico, a ocorrência de reações adversas e hipersensibilidade, e a perigosa combinação de intoxicações e interações medicamentosas. Um ponto de atenção crucial é o uso indiscriminado de antibióticos, que acelera o desenvolvimento da resistência antimicrobiana, ameaçando a eficácia de tratamentos futuros e colocando em risco a saúde global. No âmbito da saúde pública, a automedicação irracional gera custos adicionais com o manejo de complicações e o aumento da demanda por serviços de urgência e emergência. Diante do exposto, o artigo conclui pela urgência de se promover o uso racional de medicamentos. É imprescindível adotar estratégias que incluam o fortalecimento da fiscalização da venda de medicamentos, a melhoria contínua da acessibilidade e resolutividade da APS, e, principalmente, o investimento maciço em programas de educação em saúde. O papel do farmacêutico, como o profissional mais acessível para a orientação sobre medicamentos, deve ser valorizado e plenamente utilizado como barreira de proteção entre o paciente e o uso indevido. A conscientização e o conhecimento são as ferramentas fundamentais para reverter a cultura da automedicação e assegurar a saúde da população. 

Palavras-chave: Automedicação; Uso Racional de Medicamentos; Riscos Clínicos; Saúde Pública; Resistência Antimicrobiana; Atenção Farmacêutica. 

ABSTRACT 

Self-medication, defined by the World Health Organization (WHO) as the use of drugs without proper prescription or professional guidance, is a highly prevalent global phenomenon that has evolved into a critical public health issue. This paper provides a comprehensive analysis of self-medication’s complex progression, tracing it from a common cultural habit to its severe clinical repercussions and the resultant challenges for the healthcare system. The determinants fueling this practice are multi-faceted, including the easy accessibility of over-the-counter (OTC) drugs, the impact of pharmaceutical advertising, barriers to accessing Primary Health Care (PHC), and the public’s reliance on prior successful experience with the medication. 

The clinical implications of irrational drug use are extensive and highly concerning. The study highlights significant risks such as the masking of symptoms of underlying severe diseases, which leads to delayed diagnosis and worsened prognosis, the manifestation of adverse drug reactions and hypersensitivity, and the dangerous potential for intoxications and drug-drug interactions. A particularly critical focus is the indiscriminate use of antibiotics, which drives the accelerating development of antimicrobial resistance (AMR), threatening the effectiveness of future treatments and posing a global health security risk. At the public health level, irrational self-medication imposes substantial additional costs on the healthcare system for managing complications and increasing the burden on emergency services. In light of these findings, the article concludes that promoting the rational use of medicines is imperative. Essential strategies must include strengthening regulatory oversight of drug sales, continuously improving the accessibility and effectiveness of PHC, and, crucially, making significant investments in health education programs. The pharmacist’s role, as the most accessible healthcare professional for medication counseling, must be elevated and fully utilized as a crucial safety safeguard against misuse. Public awareness and informed decision-making are the core tools needed to transform the culture of self-medication into one of responsible, evidence-based self-care, thereby safeguarding public health. 

Keywords: Self-Medication; Rational Drug Use; Clinical Risks; Public Health; Antimicrobial Resistance; Pharmaceutical Care. 

INTRODUÇÃO 

A saúde, como estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças, exige do indivíduo uma postura ativa de autocuidado. Contudo, em uma sociedade marcada pela velocidade, pela sobrecarga de informação e pela busca por soluções imediatas, o manejo de sintomas e doenças frequentemente recai sobre a automedicação. Esta prática é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o uso de medicamentos escolhidos pelo próprio indivíduo ou por terceiros (amigos, familiares) sem a orientação ou supervisão de um profissional de saúde legalmente habilitado. Embora seja reconhecida como parte do autocuidado responsável em alguns contextos, a automedicação é, majoritariamente, uma prática indiscriminada no cotidiano global. 

No Brasil, a prevalência da automedicação atinge índices alarmantes, sendo impulsionada por uma combinação de fatores socioculturais e estruturais. A facilidade de acesso a medicamentos, o poder da publicidade, a percepção de ineficácia ou morosidade no atendimento dos serviços de saúde e a cultura de replicar tratamentos passados contribuem para que o indivíduo substitua a consulta médica ou farmacêutica pela decisão pessoal de consumo. O uso de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), como analgésicos e antitérmicos, é o ponto de partida mais comum, mas a prática se estende perigosamente a classes como anti-inflamatórios e até mesmo antibióticos. 

A banalização do ato de medicar-se sem critério ignora a complexidade da farmacologia, que envolve interações moleculares, variações metabólicas individuais e o potencial inerente de toxicidade de toda substância terapêutica. Dessa forma, o que começa como uma busca por alívio rápido transforma-se em um vetor de riscos clínicos significativos que impactam diretamente a segurança do paciente e a sustentabilidade dos sistemas de saúde. 

Diante deste cenário, este artigo se propõe a analisar os fatores que levam à automedicação na prática cotidiana e a descrever, de maneira aprofundada, o espectro de suas consequências clínicas e as graves implicações para a saúde pública. Espera-se, com esta análise, contribuir para a conscientização sobre o uso racional de medicamentos e para o delineamento de estratégias de intervenção mais eficazes. 

JUSTIFICATIVA 

A relevância deste estudo decorre de vários fatores: 

  1. Amplitude da prática: A automedicação envolve grande parte da população brasileira, tornando-a tema de urgente atenção. 
  2. Riscos para a saúde individual: A prática pode resultar em reações adversas, intoxicações, interações medicamentosas perigosas e mascaramento de doenças que precisam de diagnóstico precoce. 
  3. Implicações para a saúde pública: Há impactos no sistema de saúde em termos de custo, sobrecarga, resistência antimicrobiana e necessidade de intervenções regulatórias e educativas. 
  4. Lacunas informacionais: Apesar de existirem estudos, ainda faltam dados atualizados sobre padrões de automedicação em diferentes regiões, faixas etárias, níveis socioeconômicos e o impacto real clínico a longo prazo. 

Portanto, investigar mais profundamente os determinantes, consequências e possíveis estratégias de mitigação é essencial para embasar políticas que promovam o uso racional de medicamentos, proteção ao paciente e fortalecimento do sistema de saúde. 

OBJETIVOS 

Objetivo Geral 

● Analisar a prática da automedicação no Brasil, destacando seus determinantes, consequências clínicas e os desafios enfrentados pela saúde pública para seu controle. 

Objetivos Específicos 

  1. Identificar os fatores socioeconômicos, culturais e comportamentais que incentivam a automedicação. 
  1. Avaliar os principais riscos clínicos associados, tais como reações adversas, interações medicamentosas, intoxicações e atraso no diagnóstico. 
  1. Verificar o impacto da automedicação sobre a resistência antimicrobiana. 
  1. Examinar políticas, leis e campanhas existentes que visam mitigar a automedicação e sua efetividade. 
  1. Propor recomendações de intervenção, especialmente em educação em saúde, regulação e atuação farmacêutica. 

REFERENCIAL TEÓRICO 

Panorama da Automedicação no Brasil 

A automedicação é um fenômeno amplamente disseminado entre apopulação brasileira e representa um importante problema de saúde pública. De acordo com levantamento do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) em parceria com o Datafolha, 86% dos brasileiros declararam utilizar medicamentos sem prescrição médica (O TEMPO, 2025). O principal motivo relatado está associado à praticidade, à busca por alívio imediato dos sintomas e à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. 

Durante a pandemia de COVID-19, esse comportamento se intensificou. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Uberlândia revelou que quase metade dos universitários brasileiros realizou automedicação durante o período pandêmico, muitas vezes com medicamentos potencialmente perigosos, como antibióticos e corticoides (COMUNICA UFU, 2025). Esse cenário reflete tanto o medo e a desinformação quanto o impacto das redes sociais na disseminação de práticas sem respaldo científico. 

Os medicamentos mais comumente utilizados sem prescrição são analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios e antibióticos (REVISTA UNILASALLE, 2024). Ainda que muitos sejam de venda livre, seu uso indiscriminado pode gerar complicações graves, como insuficiência hepática, úlcera gástrica, alergias e resistência bacteriana. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o uso irracional de medicamentos é uma das principais causas de morbidade evitável em países em desenvolvimento (OMS, 2024). 

Fatores Determinantes da Automedicação 

Os fatores que estimulam a automedicação são multifatoriais e refletem questões culturais, econômicas e estruturais. 

a) Dificuldade de acesso ao sistema de saúde – Um dos principais determinantes é a dificuldade de acesso aos serviços públicos, que leva a população a buscar soluções rápidas e autônomas. Filas longas, carência de profissionais e demora em consultas são fatores frequentemente relatados (O TEMPO, 2025). Essa situação reforça a automedicação como prática de autossuficiência diante da ineficiência percebida do sistema de saúde. 

b) Influência da mídia e da internet – O avanço das mídias digitais ampliou o acesso a informações sobre medicamentos, mas muitas vezes sem critério técnico. A facilidade de encontrar “receitas” e “tratamentos milagrosos” nas redes sociais leva indivíduos a se autodiagnosticar, sem considerar particularidades clínicas ou interações medicamentosas (REVISTA INTERFACES UNIFOA, 2024). 

c) Aspectos socioculturais – A tradição de “remédios caseiros” e o hábito de compartilhar medicamentos entre familiares ainda é muito presente em regiões brasileiras. Essa confiança no conhecimento popular contribui para a perpetuação da automedicação (REVISTA SAÚDE E DESENVOLVIMENTO UNILASALLE, 2024). Além disso, a publicidade farmacêutica e o fácil acesso a farmácias também reforçam o comportamento de consumo sem orientação profissional. 

d) Fatores econômicos – O custo de consultas médicas e o preço elevado de alguns medicamentos são determinantes econômicos significativos. Indivíduos de baixa renda tendem a recorrer à automedicação como alternativa mais acessível (SILVA; LOPES; FREITAS, 2024). Essa realidade é agravada pelo fato de muitos medicamentos estarem disponíveis sem controle rigoroso de venda, permitindo que a prática se mantenha invisível e recorrente. 

Consequências Clínicas e Riscos Associados 

A automedicação pode causar sérias complicações à saúde individual. Entre os principais riscos estão: reações adversas, intoxicações, interações medicamentosas e atraso no diagnóstico de doenças graves (OMS, 2024). 

O uso indevido de analgésicos e anti-inflamatórios é uma das principais causas de lesão hepática e gástrica, sobretudo quando combinado com álcool ou outros medicamentos (SANTOS et al., 2023). O consumo frequente de antibióticos sem prescrição, por sua vez, é um dos fatores determinantes para o aumento da resistência bacteriana, fenômeno que já é considerado pela OMS como uma das maiores ameaças à saúde global (OMS, 2024). 

Outro problema recorrente é o mascaramento de sintomas, que leva ao diagnóstico tardio de doenças. Um exemplo é o uso constante de analgésicos para dor abdominal, que pode retardar a identificação de uma apendicite ou úlcera gástrica (SILVA; FREITAS, 2024). 

A automedicação também tem impacto psicológico, pois estimula a autoconfiança excessiva no autocuidado e reduz a busca por acompanhamento médico, o que pode perpetuar hábitos perigosos. Além disso, as intoxicações medicamentosas representam uma das principais causas de atendimentos em pronto-socorro, principalmente entre idosos e crianças (BRASIL, 2024). 

Impactos na Saúde Pública e nos Sistemas de Atenção 

Os efeitos da automedicação ultrapassam o nível individual e geram impacto coletivo significativo. A prática contribui para o aumento de internações hospitalares, sobrecarga dos serviços de emergência e custos elevados para o Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2024). 

A resistência antimicrobiana é um dos maiores desafios enfrentados atualmente. O uso indiscriminado de antibióticos sem prescrição médica favorece o surgimento de cepas bacterianas resistentes, tornando infecções comuns mais difíceis e caras de tratar (OMS, 2024). Esse fenômeno compromete a eficácia de tratamentos e aumenta a mortalidade por doenças infecciosas. 

Além disso, o acúmulo de medicamentos em domicílio e o descarte inadequado também têm impacto ambiental, contaminando solos e lençóis freáticos (SANTOS; LOPES, 2023). Esses fatores exigem políticas públicas mais rigorosas de regulação, fiscalização e conscientização. 

Estratégias de Prevenção e Controle 

A automedicação é uma prática multifatorial e, por isso, sua prevenção e controle demandam estratégias integradas entre governo, profissionais de saúde, instituições educacionais e a sociedade civil. O enfrentamento desse problema deve ser realizado em três eixos principais: educação em saúde, fortalecimento da regulação e fiscalização sanitária, e qualificação dos profissionais envolvidos no cuidado farmacológico. 

a) Educação e conscientização da população 

A educação em saúde é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir a automedicação. Campanhas públicas de esclarecimento sobre os riscos do uso inadequado de medicamentos têm se mostrado essenciais para modificar hábitos de consumo. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2024), programas educativos contínuos, especialmente em escolas e unidades básicas de saúde, reduzem significativamente o comportamento de automedicação entre jovens e adultos. 

Além disso, o uso das redes sociais pode ser um aliado estratégico. Plataformas digitais podem veicular campanhas de comunicação acessíveis e didáticas sobre o uso racional de medicamentos, alcançando públicos que não teriam contato direto com ações presenciais (REVISTA INTERFACES, 2024). Essa abordagem multicanal é importante diante da influência que conteúdos informativos (ou de informativos) têm sobre o comportamento de saúde da população. 

As escolas e universidades também desempenham papel importante. Inserir temas sobre educação farmacológica nos currículos escolares pode contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes. O desenvolvimento de projetos de extensão em universidades, voltados para o uso racional de medicamentos, tem mostrado resultados positivos na conscientização coletiva (SILVA; FREITAS, 2024). 

b) Fortalecimento da regulação e controle sanitário 

O controle da comercialização de medicamentos é outra medida imprescindível. Embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantenha normas rígidas sobre antibióticos e medicamentos controlados, a prática de venda sem receita ainda ocorre, especialmente em pequenas farmácias e pela internet (ANVISA, 2024). O avanço do comércio eletrônico trouxe novos desafios para a fiscalização, pois muitas plataformas vendem medicamentos sem exigir receita ou procedência comprovada. 

Segundo o relatório da OMS (2025), a venda digital de medicamentos sem controle adequado é um dos maiores vetores da automedicação em países em desenvolvimento. A instituição recomenda que os países adotem tecnologias de rastreamento de fármacos e ampliem as sanções para estabelecimentos que descumpram normas de dispensação. 

Além da fiscalização, é necessário aprimorar o monitoramento pós-comercialização. O Sistema Nacional de Farmacovigilância deve ser fortalecido para identificar precocemente reações adversas e intoxicações relacionadas à automedicação, permitindo intervenções mais ágeis (BRASIL, 2024). 

c) Papel do farmacêutico e integração multiprofissional 

O farmacêutico é o profissional mais próximo da comunidade no que se refere ao uso de medicamentos. Seu papel ultrapassa a simples dispensação, englobando orientação, escuta e acompanhamento do paciente. De acordo com Santos et al. (2023), a atuação do farmacêutico na atenção primária contribui para reduzir em até 40% os casos de automedicação. 

Iniciativas como a Atenção Farmacêutica Comunitária e os Programas de Uso Racional de Medicamentos (URM) têm sido essenciais para garantir que o paciente entenda os riscos e a importância da prescrição médica. Essa integração entre farmacêuticos, médicos e enfermeiros fortalece o cuidado centrado no paciente e reduz o consumo desnecessário de fármacos (BRASIL, 2024). 

d) Fortalecimento do SUS e da atenção básica 

A limitação de acesso à saúde é um dos principais fatores que alimentam a automedicação. Assim, ampliar a cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e melhorar a distribuição de medicamentos nas farmácias públicas são medidas que reduzem o consumo sem prescrição. 

A criação de protocolos clínicos de acolhimento farmacêutico e de serviços de triagem inicial nas UBS pode diminuir a busca por soluções improvisadas, oferecendo uma via rápida e segura para que o paciente receba orientação profissional antes de recorrer a medicamentos por conta própria. 

Desafios Futuros 

O enfrentamento da automedicação no Brasil envolve uma série de desafios que transcendem o campo da saúde e adentram questões sociais, econômicas e tecnológicas. Apesar dos esforços governamentais e institucionais, ainda existem lacunas significativas na regulação, fiscalização e, principalmente, na mudança de comportamento da população. 

a) Desinformação e o papel da mídia digital 

Um dos maiores desafios contemporâneos é o combate à desinformação sobre medicamentos nas redes sociais. Plataformas digitais como Tik Tok, Instagram e YouTube se tornaram fontes populares de “dicas” de saúde, muitas vezes sem embasamento científico (REVISTA INTERFACES, 2024). A circulação de vídeos que recomendam o uso de antibióticos ou suplementos para “cura rápida” representa um perigo à saúde coletiva. 

De acordo com a OPAS (2025), o controle da desinformação requer parcerias entre órgãos de saúde e empresas de tecnologia, criando mecanismos de verificação de conteúdo e campanhas educativas digitais. A inclusão de farmacêuticos e médicos em espaços virtuais também é uma forma de ocupar o ambiente digital com informação de qualidade. 

b) Desafios regulatórios e tecnológicos 

A expansão do comércio eletrônico de medicamentos é uma das maiores preocupações atuais. O aumento de vendas online sem prescrição e o comércio de medicamentos falsificados exigem novas políticas de ciber regulação sanitária (ANVISA, 2025). Países como o Canadá e o Reino Unido já utilizam selos de rastreabilidade digital e autenticação por QR Code para garantir a procedência dos fármacos, prática que poderia ser adaptada ao contexto brasileiro. 

Outro ponto sensível é o controle de medicamentos de uso contínuo. Muitos pacientes crônicos adquirem seus medicamentos por conta própria, sem acompanhamento regular. A integração de sistemas digitais que monitorem prescrições eletrônicas poderia reduzir esse problema e aumentar a segurança do paciente (OMS, 2024). 

c) Formação profissional e interdisciplinaridade 

Os profissionais de saúde ainda recebem formação insuficiente sobre o uso racional de medicamentos. A inclusão de disciplinas específicas sobre farmacologia clínica, farmacovigilância e automedicação nos cursos de graduação é essencial (SILVA; FREITAS, 2024). Além disso, a interdisciplinaridade deve ser estimulada para promover ações conjuntas entre médicos, enfermeiros e farmacêuticos. 

A promoção de programas de educação continuada e treinamento multiprofissional pode fortalecer o vínculo com a comunidade e ampliar o alcance das ações preventivas. A longo prazo, esse investimento contribui para a redução de intoxicações, reações adversas e resistência antimicrobiana. 

d) Ações integradas e políticas públicas sustentáveis 

Para além das ações pontuais, é necessária a consolidação de políticas públicas permanentes voltadas para o uso racional de medicamentos. O Plano Nacional de Saúde 2025–2030 (BRASIL, 2024) já prevê a ampliação de programas de farmacovigilância e educação sanitária, mas a efetividade dependerá do comprometimento político e financeiro dos entes federativos. 

Segundo a OMS (2025), países que associaram estratégias educativas à fiscalização efetiva como Chile e Portugal reduziram em até 25% os índices de automedicação. No Brasil, políticas sustentáveis devem incluir: 

  • Campanhas anuais de educação farmacológica;  
  • Fiscalização integrada entre Anvisa, secretarias de saúde e plataformas digitais;  
  • Expansão dos programas de Atenção Farmacêutica no SUS; 
  • Incentivo à pesquisa científica sobre automedicação e seus efeitos socioeconômicos. 

Em síntese, o futuro do combate à automedicação no Brasil exige um modelo colaborativo e permanente, que envolve tanto ações preventivas quanto regulatórias. É fundamental compreender que a automedicação não é apenas um problema de escolha individual, mas um reflexo de desigualdades estruturais, lacunas educacionais e deficiências do sistema de saúde. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Em suma, a análise da automedicação revelou que esta prática, embora profundamente enraizada no cotidiano da população, representa um grave problema de saúde pública. O estudo demonstrou a perigosa progressão que se inicia na facilidade de acesso a medicamentos de venda livre, muitas vezes sem a devida orientação profissional, e culmina em severas consequências clínicas. Desde o mascaramento de sintomas importantes e o risco de interações medicamentosas, até o desenvolvimento de resistência antimicrobiana e intoxicações, os perigos inerentes à decisão de se automedicar superam em muito qualquer benefício imediato percebido, reforçando a necessidade urgente de intervenção. 

Dessa forma, como medida final e propositiva, o caminho para mitigar os riscos da automedicação reside na promoção do uso racional de medicamentos. Recomenda-se o fortalecimento da atuação do farmacêutico nas farmácias e drogarias, transformando esses locais em verdadeiros centros de orientação e não apenas pontos de venda. Além disso, campanhas informativas contínuas e o engajamento de todos os setores da sociedade — governos, profissionais de saúde, mídia e indústria farmacêutica — são essenciais para transformar a cultura da automedicação em uma cultura de autocuidado responsável e embasado. Somente com o esforço conjunto e contínuo será possível garantir que o medicamento, uma ferramenta vital para a saúde, seja utilizado de forma segura e eficaz, protegendo, assim, a saúde e o bem-estar de toda a população. 

REFERÊNCIAS 

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