REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510081224
Levi César Teixeira Leal
Luis Gustavo dos Santos Pereira
Prof. Dr. Matheus Araújo Brito Santos Lopes
Prof. Dr. Eduardo Souza de Lobão Veras
Prof. Me. José Pereira de Melo Neto
Orientadora : Marta Rosado de Oliveira Campos
RESUMO
O uso crescente de implantes dentários nas últimas décadas representou um marco importante na reabilitação oral, porém trouxe consigo o aumento das complicações peri-implantares, em especial a peri-implantite. Trata-se de uma condição inflamatória multifatorial que compromete os tecidos moles e duros ao redor de implantes osseointegrados, podendo afetar a estabilidade do implante e o sucesso terapêutico a longo prazo. Nesse contexto, compreender as estratégias de tratamento mais eficazes tornou-se fundamental, tanto para o controle da infecção quanto para a preservação e regeneração dos tecidos peri-implantares.
O presente estudo teve como objetivo comparar a eficácia das terapias cirúrgicas e não cirúrgicas no manejo da peri-implantite, analisando seus efeitos clínicos e radiográficos em curto e longo prazo, bem como identificar fatores que influenciam a resposta ao tratamento. Para isso, foi realizada uma revisão de literatura abrangente, contemplando publicações entre 2020 e 2025, selecionadas em bases como PubMed, SciELO e BVS Saúde, com ênfase em ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e meta-análises de elevado rigor metodológico.
Os resultados demonstram que a terapia não cirúrgica, que inclui debridamento mecânico, descontaminação da superfície do implante, uso de antimicrobianos locais ou sistêmicos e terapias adjuvantes como laser e fotodinâmica, apresenta eficácia principalmente nos estágios iniciais e moderados, reduzindo inflamação, profundidade de sondagem e promovendo melhora clínica dos tecidos peri-implantares. Nos casos avançados, com perda óssea significativa, tais abordagens isoladas mostram-se limitadas, sendo recomendadas intervenções cirúrgicas ressectivas ou regenerativas, frequentemente associadas a biomateriais, ajustes protéticos e descontaminação da superfície, o que aumenta a previsibilidade clínica e a estabilidade em longo prazo.
Além disso, fatores individuais, como histórico de periodontite, tabagismo, controle de biofilme, condições sistêmicas, assim como as características do implante e do planejamento protético, influenciam diretamente o prognóstico. Protocolos de manutenção periódica, educação em higiene oral e acompanhamento clínico contínuo são imprescindíveis para prevenir recorrências e assegurar a longevidade dos implantes. A literatura evidencia que uma abordagem integrada, personalizada e sustentada por evidências científicas é a mais eficaz, promovendo maior previsibilidade e qualidade de vida aos pacientes.
Em síntese, a escolha terapêutica deve ser individualizada, levando em conta a gravidade da peri-implantite, o tipo de defeito ósseo e as condições sistêmicas do paciente. Tanto as intervenções não cirúrgicas quanto as cirúrgicas desempenham papel relevante, e a combinação de estratégias, aliada à educação do paciente e ao monitoramento contínuo, constitui a base para um manejo bem-sucedido da peri-implantite.
Palavras-chave: Peri-implantite; Implantes dentários; Terapia periodontal; Procedimentos cirúrgicos orais; Tratamento não cirúrgico; Saúde peri-implantar.
ABSTRACT
The increasing use of dental implants in recent decades has marked a significant advancement in oral rehabilitation, yet it has also led to a rise in peri-implant complications, particularly peri-implantitis. This multifactorial inflammatory condition affects the soft and hard tissues surrounding osseointegrated implants, potentially compromising implant stability and long-term therapeutic success. Understanding the most effective treatment strategies is therefore essential for both infection control and the preservation and regeneration of peri-implant tissues.
This study aimed to compare the efficacy of surgical and non-surgical therapies in managing peri-implantitis, analyzing their clinical and radiographic outcomes in the short and long term, as well as identifying factors influencing treatment response. A comprehensive literature review was conducted, covering publications from 2020 to 2025 from databases such as PubMed, SciELO, and BVS Saúde, with an emphasis on randomized clinical trials, systematic reviews, and meta-analyses of high methodological rigor.
Results indicate that non-surgical therapy—including mechanical debridement, implant surface decontamination, local or systemic antimicrobials, and adjunctive treatments such as laser therapy and photodynamic therapy—is effective mainly in early to moderate stages, reducing inflammation, probing depth, and improving clinical parameters of peri-implant tissues. In advanced cases with significant bone loss, these approaches alone are limited, making surgical interventions—either resective or regenerative—often necessary. These are frequently combined with biomaterials, prosthetic adjustments, and surface decontamination, enhancing clinical predictability and long-term stability.
Additionally, individual factors such as a history of periodontitis, smoking, biofilm control, systemic conditions, implant characteristics, and prosthetic planning significantly influence prognosis. Periodic maintenance protocols, oral hygiene education, and continuous clinical follow-up are essential to prevent recurrence and ensure implant longevity. Evidence highlights that an integrated, personalized, and evidence-based approach provides the greatest effectiveness, predictability, and patient quality of life.
In summary, therapeutic decisions should be individualized according to peri-implantitis severity, defect type, and patient systemic conditions. Both non-surgical and surgical interventions play important roles, and a combination of strategies, along with patient education and continuous monitoring, forms the cornerstone of successful peri-implantitis management.
Keywords: Peri-implantitis; Dental implants; Periodontal therapy; Oral surgical procedures; Non-surgical treatment; Peri-implant health.
INTRODUÇÃO
As doenças peri-implantares representam um dos principais desafios da odontologia contemporânea, especialmente diante da crescente utilização dos implantes dentários como recurso reabilitador de alta previsibilidade funcional e estética. Com o envelhecimento populacional, a busca por soluções duradouras e a evolução dos biomateriais, os implantes tornaram-se parte essencial da prática clínica, o que, consequentemente, levou ao aumento da incidência de complicações biológicas associadas. Entre essas complicações, destacam-se a mucosite peri-implantar e a peri-implantite. A primeira é caracterizada por inflamação reversível dos tecidos moles peri-implantares, enquanto a segunda se configura como uma condição inflamatória mais grave, que envolve perda óssea progressiva e pode comprometer a estabilidade e longevidade do implante.
O impacto clínico da peri-implantite vai além da perda de implantes, pois envolve custos adicionais de tratamento, maior morbidade e redução da qualidade de vida dos pacientes. A literatura recente aponta que a prevalência da mucosite pode atingir mais de 40% dos indivíduos reabilitados, enquanto a peri-implantite pode acometer entre 15% e 25% dos casos, com variações conforme o tempo de função, condições sistêmicas e hábitos de risco. Esses dados evidenciam a necessidade de ampliar o conhecimento sobre fatores etiológicos, métodos diagnósticos e opções terapêuticas eficazes.
A etiologia dessas doenças é multifatorial. O biofilme bacteriano desempenha papel central, sendo capaz de induzir respostas inflamatórias exacerbadas quando associado a fatores predisponentes locais e sistêmicos. Microrganismos anaeróbios gram-negativos, como Porphyromonas gingivalis, Prevotella intermedia e Aggregatibacter actinomycetemcomitans, são frequentemente isolados em sítios com peri-implantite, indicando semelhança com a microbiota da periodontite. Paralelamente, características anatômicas do implante — como rugosidade da superfície, tipo de conexão, presença de platform switching e posicionamento tridimensional no arco — influenciam tanto a retenção de biofilme quanto a distribuição de cargas mastigatórias, podendo contribuir para a progressão do processo inflamatório.
Os fatores relacionados ao paciente também desempenham papel determinante. Condições sistêmicas, como diabetes descompensada e uso de medicamentos imunossupressores, além de hábitos como tabagismo e higiene oral deficiente, estão fortemente associados ao aumento da suscetibilidade às doenças peri-implantares. O histórico prévio de periodontite é outro fator de risco importante, uma vez que pacientes com esse antecedente apresentam maior predisposição à perda de inserção peri-implantar. Nesse sentido, a avaliação individualizada de risco torna-se imprescindível para que o plano terapêutico seja adaptado às condições clínicas específicas de cada indivíduo, garantindo maior previsibilidade nos resultados.
O diagnóstico precoce é um dos pilares para o manejo clínico adequado. Sinais clínicos como sangramento à sondagem, presença de supuração, aumento da profundidade de sondagem e, em estágios mais avançados, mobilidade do implante, devem ser considerados em associação a exames radiográficos, capazes de detectar e monitorar a perda óssea marginal. A literatura recente reforça que a combinação entre avaliação clínica minuciosa e métodos radiográficos constitui a base para a identificação precoce da doença e sua correta diferenciação em relação a complicações protéticas ou biomecânicas.
No que diz respeito ao tratamento, as estratégias disponíveis abrangem desde abordagens não cirúrgicas até procedimentos cirúrgicos complexos. O tratamento não cirúrgico inclui debridamento mecânico, descontaminação da superfície do implante, uso de agentes antimicrobianos locais ou sistêmicos, laserterapia e fotobiomodulação, que podem ser eficazes em estágios iniciais da doença. Contudo, em casos de maior severidade, geralmente é necessária a intervenção cirúrgica, que pode envolver técnicas ressectivas para reduzir bolsas peri-implantares ou regenerativas, associadas ao uso de biomateriais e membranas, com o objetivo de restabelecer o suporte ósseo.
Apesar dos avanços, ainda não existe consenso definitivo sobre a superioridade de uma modalidade terapêutica em relação à outra. Estudos recentes destacam que a eficácia depende não apenas da técnica utilizada, mas também da morfologia do defeito ósseo, do tipo de implante, do desenho protético e das condições sistêmicas do paciente. Isso reforça a importância da personalização do tratamento e da adoção de protocolos que integrem diferentes abordagens.
Por fim, destaca-se que a prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz no controle das doenças peri-implantares. O sucesso da terapia está diretamente relacionado ao acompanhamento periódico, à manutenção rigorosa da higiene oral e à modificação de fatores de risco comportamentais e sistêmicos. A integração entre diferentes especialidades odontológicas, como periodontia, implantodontia e prótese dentária, favorece a tomada de decisão clínica baseada em evidências e aumenta a longevidade dos implantes, preservando a função mastigatória, a estética e a qualidade de vida dos pacientes.
Assim, considerando a alta prevalência, os impactos clínicos e a diversidade de abordagens disponíveis, torna-se fundamental analisar e comparar a eficácia dos tratamentos cirúrgicos e não cirúrgicos no manejo da peri-implantite, buscando compreender suas possibilidades de aplicação, limitações e resultados em diferentes estágios da doença. De forma específica, este estudo visa avaliar os resultados clínicos e radiográficos obtidos com as diferentes intervenções, observar de que forma as terapias contribuem para reduzir inflamação, controlar profundidade de sondagem e preservar ou recuperar o tecido ósseo peri-implantar, bem como identificar os principais fatores que influenciam o sucesso terapêutico, incluindo gravidade da lesão, características anatômicas, condições sistêmicas, hábitos de risco e adesão ao acompanhamento.
Além disso, pretende-se comparar os benefícios e limitações das abordagens cirúrgicas e não cirúrgicas, indicando em quais situações cada uma se mostra mais apropriada, e reforçar a importância da prevenção, da educação do paciente e da manutenção periódica como parte essencial para garantir a longevidade dos implantes dentários.
METODOLOGIA
A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed, SciELO e BVS Saúde, abrangendo artigos publicados entre 2020 e 2025. Esse intervalo temporal foi definido para garantir a inclusão de estudos atuais, refletindo práticas clínicas contemporâneas, avanços tecnológicos e protocolos de manejo utilizados na odontologia moderna. Foram priorizados artigos que abordassem especificamente a peri-implantite, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos clínicos controlados, revisões sistemáticas e meta-análises, por apresentarem maior rigor metodológico e fornecerem dados confiáveis sobre eficácia, prognóstico e aplicabilidade das técnicas.
A estratégia de busca combinou descritores controlados e não controlados, em português e inglês, utilizando operadores booleanos (AND, OR) para ampliar a abrangência e garantir relevância nos resultados. Entre os termos empregados estavam “peri-implantite” ou “peri-implantitis”, “implantes dentários” ou “dental implants”, “tratamento cirúrgico” ou “surgical treatment”, “tratamento não cirúrgico” ou “non-surgical treatment”, “terapia periodontal” ou “periodontal therapy”, além de palavras relacionadas a técnicas adjuvantes, como “laser” e “photodynamic therapy”. Essa estratégia possibilitou selecionar artigos diretamente relacionados aos temas centrais do estudo, reduzindo possíveis vieses e aumentando a confiabilidade das evidências.
Foram incluídos estudos publicados em português ou inglês, entre 2020 e 2025, que tratassem especificamente do manejo terapêutico da peri-implantite. Foram excluídos estudos experimentais in vitro ou em animais, relatos de caso isolados, séries de casos com baixo nível de evidência, artigos cujo texto completo não estava acessível e publicações que não abordassem diretamente a temática da peri-implantite.
O processo de seleção dos artigos ocorreu em duas etapas. Primeiro, realizou-se a triagem de títulos e resumos, eliminando trabalhos que claramente não atendiam aos critérios de inclusão. Em seguida, os textos considerados potencialmente relevantes foram lidos na íntegra, permitindo confirmar a adequação ao escopo do estudo e avaliar aspectos como desenho metodológico, tamanho da amostra, técnicas utilizadas e desfechos clínicos analisados.
Os artigos selecionados foram organizados de acordo com a modalidade terapêutica, dividindo-se entre tratamentos cirúrgicos e não cirúrgicos e, dentro de cada grupo, segundo as técnicas aplicadas, incluindo debridamento mecânico, uso de antimicrobianos locais ou sistêmicos, procedimentos ressectivos, regenerativos, emprego de biomateriais e terapias adjuvantes, como laserterapia e fotodinâmica.
A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva e comparativa, considerando desfechos clínicos relevantes, como sangramento à sondagem, profundidade de sondagem, nível ósseo marginal, mobilidade do implante e taxa de sucesso. Também foram avaliados fatores complementares, como tempo de acompanhamento, adesão do paciente aos protocolos de manutenção, efeitos adversos e limitações metodológicas, possibilitando uma visão abrangente das vantagens e desvantagens de cada abordagem.
Essa metodologia permitiu construir uma análise crítica, detalhada e confiável, integrando as evidências mais recentes sobre o manejo da peri-implantite e oferecendo suporte para decisões clínicas baseadas em dados científicos, promovendo maior segurança e previsibilidade nos tratamentos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A compreensão da peri-implantite exige uma análise que vá além da simples descrição de sinais clínicos, englobando a interação complexa entre fatores locais, sistêmicos e comportamentais. A literatura recente reforça que essa doença deve ser interpretada como um fenômeno dinâmico, no qual biofilme bacteriano, resposta imunológica, condições sistêmicas do paciente, desenho protético e qualidade do acompanhamento clínico se entrelaçam para definir não apenas a sua instalação, mas também a gravidade e a velocidade de progressão (AL-JABER et al., 2020; COSTA et al., 2020; ROMANDINI et al., 2025).
No aspecto microbiológico, os estudos continuam apontando o biofilme como principal fator etiológico, mas não se pode ignorar que a resposta do hospedeiro é determinante na evolução da doença. Embora microrganismos anaeróbios gram-negativos, como Porphyromonas gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans, sejam consistentemente identificados em sítios com peri-implantite, a literatura mostra que nem todos os pacientes colonizados por essas bactérias desenvolvem a doença de forma agressiva (COSTA et al., 2020). Isso demonstra que o fator infeccioso, por si só, não é suficiente para explicar a diversidade clínica observada. A presença de condições sistêmicas, como diabetes mellitus descompensado, e hábitos de risco, como o tabagismo, funcionam como elementos moduladores da resposta inflamatória, aumentando a vulnerabilidade à perda óssea (KUMAR et al., 2025; ALVES et al., 2022).
Essa interação entre microbiota e hospedeiro levanta a necessidade de repensar os protocolos terapêuticos. A literatura revisada destaca que tratamentos padronizados podem não ser igualmente eficazes para todos os pacientes. Por exemplo, intervenções não cirúrgicas apresentam bons resultados na redução da inflamação em fases iniciais da doença, mas em quadros mais avançados esses mesmos protocolos mostram-se insuficientes (ALVES et al., 2020; GOMES et al., 2021). Isso reforça a necessidade de individualização das condutas clínicas, valorizando a análise de risco e a personalização terapêutica.
No campo dos fatores protéticos, os achados também são consistentes em destacar o papel decisivo do planejamento reabilitador na prevenção e no manejo da peri-implantite. Implantes mal posicionados, próteses com excesso de cimento ou desenhos inadequados foram relacionados a maior acúmulo de biofilme e pior resposta clínica (FERNANDES et al., 2021; LIN et al., 2025; FERNANDES et al., 2025). Essa constatação ganha força quando comparada a estudos longitudinais que demonstraram que reabilitações cuidadosamente planejadas apresentam menores índices de complicações peri-implantares ao longo de cinco anos (FERNANDES et al., 2025; LIN et al., 2025). Dessa forma, fica evidente que não apenas o aspecto biológico deve ser considerado, mas também a integração biomecânica e protética, já que falhas nesse campo se refletem diretamente na suscetibilidade à doença.
Outro ponto recorrente na literatura é a influência dos fatores comportamentais, sobretudo o tabagismo. Pacientes fumantes não apenas apresentam maior risco de desenvolver peri-implantite, mas também respondem de forma menos previsível ao tratamento, tanto cirúrgico quanto não cirúrgico (AL-JABER et al., 2020; ROMANDINI et al., 2025). Isso amplia o debate para além da técnica odontológica, mostrando que a adesão do paciente às orientações de saúde é tão determinante quanto a escolha da intervenção clínica. Em outras palavras, por mais sofisticados que sejam os recursos disponíveis, eles perdem efetividade quando não há envolvimento do paciente na mudança de hábitos.
No que se refere às abordagens terapêuticas, a revisão da literatura reforça a coexistência de duas grandes linhas de tratamento: as não cirúrgicas e as cirúrgicas. Enquanto a primeira tem papel central nos estágios iniciais, oferecendo controle da inflamação e redução de profundidade de sondagem por meio de debridamento mecânico, antimicrobianos locais e terapias adjuvantes como laser e fotodinâmica (DIAS; SANTOS, 2021; SHARMA; SHARMA, 2022; DIAS; SANTOS, 2023), a segunda se mostra indispensável nos casos avançados, quando já há perda óssea significativa. As técnicas ressectivas e regenerativas foram amplamente avaliadas, mostrando resultados positivos, sobretudo quando associadas a biomateriais e protocolos de descontaminação da superfície do implante (MARTINS et al., 2021; MEHLBAUER et al., 2020; MARTINS et al., 2023; BOTROS et al., 2025). Contudo, ainda há grande heterogeneidade nos resultados, o que demonstra que a previsibilidade clínica depende de múltiplos fatores, incluindo a experiência do profissional e o perfil biológico do paciente.
As terapias adjuvantes representam um campo promissor, mas ainda em construção. Protocolos baseados em laser de alta intensidade e terapia fotodinâmica demonstraram potencial em reduzir a carga microbiana e melhorar os parâmetros clínicos, mas os resultados variam entre estudos, e a falta de padronização metodológica limita conclusões definitivas (VASCONCELOS et al., 2022; VASCONCELOS et al., 2023). Apesar disso, a tendência é que esses recursos ganhem cada vez mais espaço como coadjuvantes nos protocolos convencionais, especialmente em casos resistentes às abordagens tradicionais.
Outro aspecto que vem ganhando destaque é a aplicação de biomateriais inovadores e estratégias regenerativas mais avançadas, que buscam restabelecer o suporte ósseo e melhorar a longevidade dos implantes. Estudos recentes destacam o papel de enxertos autógenos, aloplásticos e alogênicos, associados a membranas de regeneração guiada, como alternativas eficazes para casos severos (MARTINS et al., 2023; BOTROS et al., 2025). Essas tecnologias ampliam o horizonte terapêutico, mas ainda esbarram em desafios como custo elevado e necessidade de maior comprovação científica em longo prazo.
Talvez o ponto mais consensual na literatura seja a relevância dos programas de manutenção periódica. Pacientes que participam de protocolos regulares de acompanhamento apresentam índices significativamente menores de recidiva, melhor estabilidade óssea e maior previsibilidade a longo prazo (SOUZA et al., 2021; ROMANDINI et al., 2024; OSSTEM IMPLANT COMMUNITY, 2025). Esse dado reforça que, mais do que reabilitar falhas, o foco deve ser a prevenção ativa, com protocolos personalizados que combinem educação, monitoramento clínico e reforço de hábitos de higiene.
De modo geral, a literatura revisada confirma que a peri-implantite é um desafio clínico que não pode ser reduzido a protocolos simplificados. Os resultados analisados mostram que o sucesso depende da integração entre diagnóstico precoce, personalização das intervenções, adequação protética, controle de fatores de risco e, sobretudo, adesão a programas de manutenção contínua. Ainda que avanços tecnológicos tragam novas perspectivas — como biomateriais inovadores e lasers de alta precisão —, permanece clara a necessidade de abordagem multidimensional, que considere o paciente em sua totalidade, unindo aspectos biológicos, técnicos e comportamentais.
Assim, o debate atual não deve se limitar à comparação entre técnicas cirúrgicas e não cirúrgicas, mas deve avançar para uma compreensão mais ampla, que integre prevenção, tratamento e manutenção em um continuum de cuidado. Esse entendimento não apenas melhora os resultados clínicos imediatos, mas também contribui para a longevidade dos implantes e para a qualidade de vida dos pacientes, estabelecendo um padrão de cuidado que alia ciência, prática clínica e corresponsabilidade do paciente.
CONCLUSÃO
Ao final deste estudo, percebe-se que a peri-implantite continua sendo um grande desafio clínico, que não pode ser resolvido apenas com a escolha de uma técnica específica. O manejo eficaz exige olhar amplo, que envolva tanto a parte clínica quanto os fatores individuais de cada paciente. A detecção precoce, o controle de riscos e a personalização do tratamento são pontos-chave para preservar os tecidos ao redor do implante e garantir sua longevidade.
Nos casos iniciais e moderados, os tratamentos não cirúrgicos se destacam pela capacidade de controlar a inflamação, reduzir o biofilme e estabilizar a profundidade de sondagem. Já nos estágios mais avançados, a cirurgia – seja ressectiva ou regenerativa – associada a protocolos de descontaminação e ajustes protéticos, mostra-se indispensável para recuperação óssea e manutenção funcional dos implantes.
Outro aspecto que merece destaque é a influência direta dos fatores do paciente. Histórico de periodontite, hábitos de higiene, tabagismo, controle sistêmico e adesão ao acompanhamento são determinantes para o sucesso a longo prazo. Nesse sentido, a educação do paciente e os protocolos de manutenção periódica assumem papel essencial na prevenção de recidivas e na estabilidade do tratamento.
Os avanços recentes em tecnologias e biomateriais também ampliam as possibilidades de intervenção, trazendo alternativas menos invasivas e com maior previsibilidade. Além disso, a integração entre diferentes áreas da odontologia, unida ao envolvimento do próprio paciente, fortalece a construção de resultados consistentes e duradouros.
Dessa forma, pode-se concluir que o manejo da peri-implantite deve ser visto como um processo contínuo e multidimensional. Mais do que tratar a doença, é preciso investir em prevenção, acompanhamento e escolhas individualizadas, assegurando não apenas a saúde peri-implantar, mas também a qualidade de vida e a satisfação do paciente.
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