MÉTODOS DE PREVENÇÃO DE LESÕES EM CORREDORES: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

INJURY PREVENTION METHODS IN RUNNERS: A SYSTEMATIC REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509251358


Débora Delorenci Bento¹
Fernanda Regina Pereira¹
Bruno Fernando de Souza Tavares²


RESUMO 

A corrida de longa distância é uma das atividades físicas mais populares, mas está associada a uma alta incidência de lesões musculoesqueléticas. A prevenção dessas lesões é um objetivo central para atletas, treinadores e profissionais de saúde. Esta revisão sistemática da literatura, conduzida sob as diretrizes PRISMA, teve como objetivo sintetizar e avaliar a eficácia das intervenções de prevenção de lesões em corredores adultos. A busca foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, Google Scholar e LILACS, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e revisões sistemáticas publicados entre janeiro de 2017 e setembro de 2025. A análise dos dados revelou que intervenções como o retreinamento da marcha (gait retraining), o fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé (foot core training) e programas de exercícios supervisionados demonstram eficácia significativa na redução do risco de lesões. Em contrapartida, programas de treinamento de força auto-dirigidos e não supervisionados não apresentaram benefícios claros. A supervisão profissional e a adesão ao protocolo de treinamento emergiram como fatores críticos para o sucesso das intervenções. Conclui-se que abordagens específicas e supervisionadas são mais promissoras para a prevenção de lesões em corredores, destacando a necessidade de mais pesquisas de alta qualidade para refinar os protocolos e ampliar a aplicabilidade clínica. 

Palavras-chave: Corrida, Prevenção de Lesões, Fisioterapia, Biomecânica. 

ABSTRACT  

Long-distance running is one of the most popular physical activities, yet it is associated with a high incidence of musculoskeletal injuries. Preventing these injuries is a central goal for athletes, coaches, and healthcare professionals. This systematic literature review, conducted in accordance with PRISMA guidelines, aimed to synthesize and evaluate the effectiveness of injury prevention interventions in adult runners. The search was performed across PubMed/MEDLINE, SciELO, Google Scholar, and LILACS databases, including randomized clinical trials, cohort studies, and systematic reviews published between January 2017 and September 2025. Data analysis revealed that interventions such as gait retraining, foot core strengthening, and supervised exercise programs significantly reduce injury risk. In contrast, self-directed and unsupervised strength training programs showed no clear benefits. Professional supervision and adherence to training protocols emerged as critical factors for intervention success. The findings suggest that specific and supervised approaches are more promising for injury prevention in runners, underscoring the need for further high-quality research to refine protocols and enhance clinical applicability.

Keywords: Running, Injury Prevention, Physical Therapy, Biomechanics.

1. INTRODUÇÃO 

A corrida é uma das modalidades esportivas mais praticadas mundialmente, com estimativas indicando mais de 42 milhões de praticantes regulares apenas nos Estados Unidos e cerca de 50 milhões da Europa (Kemler; Huisstede, 2021). Apesar dos benefícios cardiovasculares, metabólicos e psicológicos bem documentados, a prática da corrida está associada a uma alta incidência de lesões musculoesqueléticas, com taxas variando entre 19,4% e 79,3% ao ano, dependendo da população estudada e da definição de lesão utilizada (Hazzaa et al., 2023). 

Atualmente a corrida de rua encontra-se  entre  as  modalidades  esportivas  que  mais  crescem no Brasil, por ser uma forma de exercício simples,  acessível  e  de  baixo  custo,  tornando-se  um  fenômeno  social  contemporâneo (Passos et al., 2022). A atividade física vem aumentando sua relevância na área de saúde, justificada pelo grande número de evidências de que sua prática regular exerce efeitos benéficos sobre a pessoas, emergentes sobre os benefícios para a saúde musculoesquelética e os potenciais efeitos da promoção da saúde esquelética em toda a população corroboram a necessidade de uma recomendação de saúde pública que inclua exercícios de resistência, como fator de melhoria da saúde e maior qualidade de vida (Goyal; Rakhra, 2024). 

Todavia, a prática da atividade esportiva expõe o indivíduo a diversos tipos de  lesões físicas, por vezes podendo ser maiores do que as lesões em trabalhadores que exercem movimentos repetitivos, tendo como exemplo, jogadores de futebol, que deixam o atleta afastado por alguns dias (Romero-Morales et al., 2023). Diante disso, demonstraram que a fazer exercícios de maneira exaustiva, sem orientação ou de forma inadequada, pode contribuir para o aumento de lesões. A prática de corrida pode acarretar lesões principalmente em joelhos, tornozelos e pés em até 83% dos atletas amadores ou competitivos e prejudicar sua qualidade de vida, seja de forma temporária ou definitiva (Bonilla, 2022). 

As lesões esportivas representam praticamente a principal desvantagem da prática regular de atividades físicas e esportivas. Elas podem ser causadas por diversos fatores, como fraqueza muscular, tendínea ou ligamentar, técnicas de treino inadequadas, uso excessivo (overuse) e alterações estruturais que sobrecarregam determinadas regiões do corpo. As consequências dessas lesões variam desde dor e desconforto até a impossibilidade de treinar ou continuar praticando o esporte. As consequências podem variar de dor e desconforto até a incapacidade de treinar ou praticar o esporte (Rodrigues et al., 2023).  

As Lesões esportivas estão comumente presentes em todo tipo de esporte seja ele profissional de alto nível, amador ou até mesmo de atleta de final de semana, tendo a incidência das mesmas presentes, pouco ainda se houve sobre as prevenções delas, um ponto a ser tratado com ênfase e cuidado visando a aplicação e levando informação sobre a mesma fazendo valer a fisioterapia em conjunto com as equipes multiprofissionais (Prieto-González et al., 2021). 

As lesões relacionadas à corrida (LRC) representam um problema significativo de saúde pública, gerando custos substanciais aos sistemas de saúde e impactando negativamente a qualidade de vida dos praticantes (Visser et al., 2021). A etiologia das LRC é multifatorial, envolvendo a interação complexa entre fatores intrínsecos (biomecânica, força muscular, flexibilidade, histórico de lesões) e extrínsecos (volume e intensidade do treinamento, superfície de corrida, calçados) (Bertelsen et al., 2020).  

Diante da magnitude do problema, diversas estratégias preventivas têm sido propostas e investigadas, incluindo programas de fortalecimento muscular, modificações biomecânicas, intervenções educativas e alterações no treinamento (Alexander et al., 2022). No entanto, a eficácia dessas intervenções permanece controversa, com resultados inconsistentes entre os estudos (Napier; Willy, 2021). 

Este artigo apresenta uma revisão sistemática da literatura com o objetivo de avaliar a eficácia dos diferentes métodos de prevenção de lesões em corredores adultos. Utilizando a metodologia PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), busca-se responder à seguinte questão de pesquisa, estruturada pela estratégia PICO: Em corredores adultos (P), quais métodos de prevenção de lesões (I), quando comparados a um grupo controle ou outras intervenções (C), são mais eficazes para reduzir a incidência, prevalência ou risco de lesões (O)? 

2. METODOLOGIA 

Esta revisão de literatura foi conduzida seguindo as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (Page et al., 2020). O protocolo foi desenvolvido a priori, definindo critérios de elegibilidade, estratégia de busca e métodos de análise para garantir a transparência e o rigor metodológico do processo. 

A questão de pesquisa foi estruturada utilizando a estratégia PICO, conforme detalhado abaixo: População (P): Corredores adultos (≥18 anos), amadores ou profissionais, de ambos os sexos. Intervenção (I): Métodos de prevenção de lesões, incluindo, mas não se limitando a, programas de fortalecimento muscular, alterações na biomecânica da corrida (gait retraining), educação sobre treinamento e uso de equipamentos específicos. Comparação (C): Grupo controle (sem intervenção), cuidado usual ou outras intervenções de prevenção. Desfecho (O): Incidência, prevalência ou risco de lesões relacionadas à corrida. 

Os critérios de inclusão e exclusão foram definidos para selecionar os estudos mais relevantes e de maior qualidade metodológica. Critérios de Inclusão: Tipo de estudo: Ensaios clínicos randomizados (ECR), estudos de coorte prospectivos e revisões sistemáticas. Participantes: Corredores adultos (≥18 anos) de ambos os sexos. Intervenções: Focadas na prevenção primária de lesões relacionadas à corrida. Desfecho primário: Incidência ou risco de lesões relacionadas à corrida. Período de publicação: Janeiro de 2020 a setembro de 2025. Idiomas: Português, inglês ou espanhol. Acesso: Disponibilidade do texto completo. 

Critérios de Exclusão: Estudos focados exclusivamente no tratamento ou reabilitação de lesões existentes. Estudos com populações específicas (ex: crianças, atletas com deficiência). Estudos transversais, relatos de caso, editoriais e cartas ao editor. Duplicatas ou publicações com dados sobrepostos. 

A busca por artigos foi realizada em quatro bases de dados eletrônicas: PubMed/MEDLINE, SciELO (Scientific Electronic Library Online), Google Scholar e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). A estratégia de busca combinou termos MeSH (Medical Subject Headings) e palavras-chave relacionadas aos conceitos principais da questão de pesquisa. A seguinte string de busca foi adaptada para cada base de dados: (“running”[MeSH Terms] OR “running”[All Fields]) AND (“athletic injuries”[MeSH Terms] OR “sports injuries”[All Fields]) AND (“prevention”[MeSH Terms] OR “prevention”[All Fields]) AND (“physical therapy modalities”[MeSH Terms] OR “physiotherapy”[All Fields]). Foram aplicados filtros para limitar os resultados a estudos em humanos, com participantes adultos (≥18 anos) e publicados nos últimos 8 anos (janeiro de 2017 a setembro de 2025). 

A seleção dos estudos foi realizada em duas fases por dois revisores independentes (Revisor 1 e Revisor 2) para minimizar o viés de seleção. Na primeira fase, os títulos e resumos dos artigos identificados na busca foram avaliados quanto à sua elegibilidade inicial. Artigos que não atendiam claramente aos critérios de inclusão foram descartados. Na segunda fase, os textos completos dos estudos considerados potencialmente elegíveis foram obtidos e analisados em detalhe para a confirmação final da elegibilidade. Quaisquer discordâncias entre os revisores em qualquer uma das fases foram resolvidas por meio de discussão e consenso. Caso o consenso não fosse alcançado, um terceiro revisor seria consultado para tomar a decisão final. 

Os dados dos estudos incluídos foram extraídos de forma independente pelos dois revisores utilizando um formulário padronizado em planilha eletrônica. O formulário foi projetado para capturar as seguintes informações: Características do estudo: Autor, ano de publicação, país, desenho do estudo, duração do seguimento. Características dos participantes: Número total de participantes, idade média, sexo, nível de experiência (amador, profissional, novato). Detalhes da intervenção: Tipo de intervenção (fortalecimento, biomecânica, etc.), duração, frequência, intensidade, modo de entrega (supervisionado ou não). Desfechos: Definição de lesão utilizada, método de coleta de dados de lesão, período de seguimento. Resultados: Incidência de lesões, medidas de efeito (ex: Risk Ratio, Hazard Ratio) com seus respectivos intervalos de confiança (IC 95%) e valores de p. A qualidade metodológica e o risco de viés dos ensaios clínicos randomizados incluídos foram avaliados utilizando a escala PEDro (Physiotherapy Evidence Database). A escala PEDro consiste em 11 itens que avaliam a validade interna e a interpretabilidade do estudo. Cada item satisfeito (exceto o primeiro, que avalia a validade externa) contribui com um ponto para um escore total que varia de 0 a 10. Estudos com escore ≥ 7 foram considerados de alta qualidade, 4-6 de qualidade moderada e < 4 de baixa qualidade. A avaliação foi realizada pelos dois revisores de forma independente, e as discordâncias foram resolvidas por consenso. 

Os resultados foram sintetizados de forma narrativa e apresentados em tabelas para facilitar a comparação e a interpretação. As tabelas sumarizam as características dos estudos, os detalhes das intervenções, as definições de lesão, os principais resultados e a avaliação da qualidade. Devido à heterogeneidade clínica e metodológica entre os estudos (diferentes tipos de intervenção, populações e definições de desfecho), uma meta-análise quantitativa de todos os estudos não foi considerada apropriada. No entanto, os resultados de meta-análises existentes, quando disponíveis e pertinentes, foram incorporados na síntese. 

3. RESULTADOS 

A busca inicial nas quatro bases de dados resultou em 143 artigos. Após a remoção de 4 duplicatas, 139 artigos foram submetidos à triagem por título e resumo. Nesta fase, 87 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade, em seguida 52 artigos foram lidos na íntegra, dos quais 46 foram excluídos por não terem acesso ao texto completo, metodologia inadequada e dados insuficientes, totalizando seis estudos incluídos na síntese qualitativa final. O processo de seleção está detalhado no fluxograma PRISMA (Figura 1). 

Fluxograma PRISMA

Fonte: Elaborado pelos autores. 

Os seis estudos incluídos na revisão compreendem quatro ensaios clínicos randomizados (ECR) e duas revisões sistemáticas com meta-análise. As características detalhadas dos estudos estão apresentadas na Tabela 1. As populações variaram desde corredores novatos e recreacionais até maratonistas de primeira viagem e atletas de basquete, com o número de participantes nos 

ECRs variando de 40 a 720. As intervenções investigadas incluíram treinamento proprioceptivo, programas baseados em exercícios, gait retraining, foot core training e treinamento de força. A duração das intervenções e do seguimento também variou consideravelmente entre os estudos. 

Tabela 1 – Características dos Estudos Incluídos

Fonte: Elaborado pelos autores. Legenda: ECR = Ensaio Clínico Randomizado; NR = Não Reportado. 

A avaliação da qualidade dos ECRs pela escala PEDro (Tabela 2) revelou que dois estudos (Chan et al., 2018; Taddei et al., 2020) foram de alta qualidade (escore 8/10), um de qualidade moderada a alta (Francavilla et al., 2025; escore 7/10) e um de qualidade moderada (Toresdahl et al., 2019; escore 6/10). As principais limitações metodológicas identificadas foram a ausência de cegamento dos participantes e terapeutas, o que é frequentemente um desafio em estudos com intervenções de exercício. 

Tabela 2 – Avaliação da Qualidade dos Estudos (Escala PEDro)

Fonte: Elaborado pelos autores. Legenda: ✓ = Sim; ✗ = Não; ? = Não claro.

Os resultados sobre a eficácia das intervenções na prevenção de lesões foram variados e estão sintetizados na Tabela 3. Intervenções específicas e supervisionadas demonstraram resultados positivos e estatisticamente significativos. 

O estudo de Chan et al. (2018), um ECR de alta qualidade, demonstrou que um programa de gait retraining de apenas duas semanas, com feedback visual em tempo real, foi capaz de reduzir o risco de lesões em 62% em corredores novatos durante um seguimento de 12 meses (Hazard Ratio = 0.38; IC 95% 0.25-0.59). 

De forma semelhante, o ECR de Taddei et al. (2020) investigou o efeito do foot core training e encontrou que o grupo controle teve 2,42 vezes mais chances de sofrer uma lesão em 12 meses em comparação com o grupo de intervenção (Risk Ratio = 2.42; IC 95% 1.98-3.62), indicando um forte efeito protetor do fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé. 

As revisões sistemáticas corroboram a importância da especificidade e supervisão. A meta-análise de Wu et al. (2024), focada em corredores de endurance, não encontrou um efeito protetor geral dos programas de exercícios (p=0.110). No entanto, uma análise de subgrupo revelou que as intervenções supervisionadas levaram a uma redução significativa no risco de lesão (Log Risk Ratio = -0.77; p < 0.001). 

Em contraste, o ECR de Toresdahl et al. (2019), que avaliou um programa de treinamento de força auto-dirigido em maratonistas de primeira viagem, não encontrou diferença significativa na incidência de lesões por overuse entre o grupo de intervenção (7.1%) e o grupo controle (7.3%) (Risk Ratio = 0.97; p=0.90). Este resultado sugere que a falta de supervisão pode comprometer a eficácia de programas de fortalecimento. 

Tabela 3 – Resultados Principais – Efetividade das Intervenções

Fonte: Elaborado pelos autores. Resultado da análise de subgrupo para intervenções supervisionadas. 

4. DISCUSSÃO 

Esta revisão sistemática sintetizou a evidência recente sobre a eficácia de diferentes intervenções na prevenção de lesões em corredores adultos. Os achados indicam uma clara e crescente distinção na literatura entre a eficácia de intervenções específicas e supervisionadas em comparação com abordagens mais genéricas e não supervisionadas. A evidência mais robusta e clinicamente significativa, especialmente nos últimos sete anos, converge para programas que focam na modificação da biomecânica da corrida, no fortalecimento de grupos musculares específicos, como o core do pé, e, crucialmente, que são implementados com algum grau de supervisão e garantem alta adesão. 

O ECR de alta qualidade de Chan et al. (2018) forneceu uma forte evidência inicial para a eficácia do gait retraining. A impressionante redução de 62% no risco de lesões com uma intervenção de apenas duas semanas destacou o potencial de modificar padrões de movimento para mitigar cargas de impacto. A pesquisa mais recente valida e expande esses achados. Uma meta-análise de Shen et al. (2024) confirmou que intervenções com biofeedback em tempo real, particularmente o feedback visual, são eficazes na redução de variáveis de carga associadas a lesões, como a aceleração tibial de pico. Isso reforça que o uso de feedback para ajustar ativamente a técnica de corrida é um pilar da prevenção de lesões, alinhado com a crescente ênfase na biomecânica, que, segundo Moreira et al. (2024), é reconhecida tanto por corredores quanto por especialistas como um fator central no risco de lesões. 

Outra intervenção promissora que ganhou tração significativa é o foot core training, conforme demonstrado por Taddei et al. (2020). O fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé, muitas vezes negligenciado, confere um efeito protetor ao melhorar a capacidade do pé de absorver e dissipar as forças de reação do solo. Apoiando essa visão, uma revisão sistemática de Wei et al. (2022) concluiu que o treinamento dos músculos intrínsecos do pé melhora não apenas a função do pé, mas também o equilíbrio postural dinâmico, um componente vital para a estabilidade durante a corrida. O tempo necessário para observar o efeito (4 a 8 meses), como apontado por Taddei e seus colaboradores, sugere que as adaptações neuromusculares e estruturais de longo prazo são o que fundamenta esses benefícios preventivos. 

Talvez um dos achados mais consolidados na literatura recente seja o papel indispensável da supervisão e da adesão. A meta-análise de Wu et al. (2024), focada especificamente em corredores de resistência, é categórica: enquanto programas de exercícios em geral não mostraram um efeito preventivo claro, as intervenções supervisionadas reduziram significativamente o risco de lesões. Isso elucida diretamente por que estudos como o de Toresdahl et al. (2019), com programas de força auto-dirigidos, não encontraram benefícios.  

A supervisão garante a execução correta, a progressão de carga e, fundamentalmente, a adesão. A importância da adesão foi quantificada por Viiala et al. (2025), que demonstraram que a aderência a programas de prevenção baseados em exercícios é um fator crítico para a redução do risco de lesões. A evolução dessa abordagem já incorpora a tecnologia, como mostra o estudo de Naderi et al. (2025), que validou a eficácia de um programa online multicomponente, sugerindo que a supervisão remota pode ser uma ferramenta escalável e eficaz para garantir a adesão e o sucesso da prevenção. 

A aparente contradição de estudos como a revisão de Liddle et al. (2024), que encontrou apenas evidências sugestivas, pode ser explicada pela alta heterogeneidade das intervenções analisadas. Quando as intervenções são mais específicas e abrangentes, como o treinamento neuromuscular, os resultados são muito mais claros. Uma meta-análise recente de Li; Zhu (2025), por exemplo, encontrou que o treinamento neuromuscular reduziu o risco geral de lesões de membros inferiores em 27%. Esses programas, que integram exercícios de força, equilíbrio e propriocepção, abordam as deficiências de controle motor que frequentemente estão na raiz das lesões por sobrecarga. A revisão sistemática de Alexander et al. (2022) também apoia essa visão, concluindo que programas de exercícios multicomponentes estão entre as estratégias mais eficazes. 

Complementando essa perspectiva, Stergiou et al. (2025) demonstraram em uma meta-análise com mais de 10.000 atletas que programas de treinamento neuromuscular, especialmente o FIFA 11+, reduziram significativamente as taxas de lesão, com maior eficácia observada quando havia maior adesão e educação adequada dos treinadores. Embora este estudo tenha focado em jogadores de futebol, os princípios do treinamento neuromuscular são amplamente aplicáveis a corredores, especialmente considerando que ambas as modalidades envolvem movimentos complexos de membros inferiores e mudanças de direção. 

A evolução das estratégias de prevenção também tem incorporado abordagens inovadoras que vão além dos métodos tradicionais. Verhagen et al. (2025) propuseram um novo paradigma para prevenção de lesões no esporte, que resultou em 15% de redução nas lesões e diminuições substanciais em performances perdidas ao longo de quatro anos. Esta abordagem enfatiza a necessidade de soluções mais sofisticadas e personalizadas, em contraste com as estratégias “tamanho único” que têm se mostrado inadequadas. 

O papel específico do treinamento proprioceptivo também ganhou destaque na literatura recente. Francavilla et al. (2025) demonstraram que programas específicos de treinamento proprioceptivo melhoram o controle neuromuscular, a estabilidade articular e o equilíbrio dinâmico, sendo comprovadamente eficazes na redução do risco de lesões em vários esportes. Esta evidência reforça a importância de incluir componentes proprioceptivos em programas de prevenção para corredores, especialmente considerando que déficits proprioceptivos são frequentemente associados a lesões por sobrecarga. 

Finalmente, a evidência específica para lesões do joelho, uma das mais comuns em corredores, foi fortalecida por Zheng et al. (2025), cuja meta-análise mostrou que programas de intervenção de treinamento reduziram o risco de lesões do joelho em membros inferiores em 25%. Esta redução significativa destaca a importância de programas preventivos direcionados, especialmente para articulações de alta incidência de lesões. 

Em síntese, a discussão sobre a prevenção de lesões em corredores amadureceu consideravelmente nos últimos cinco anos, movendo-se de soluções isoladas para uma compreensão mais integrada e baseada em evidências robustas. A literatura recente solidifica a conclusão de que uma abordagem “tamanho único” é inadequada e potencialmente contraproducente. A prevenção eficaz reside na combinação sinérgica de intervenções ativas e baseadas em evidências, como o retreinamento da marcha com feedback em tempo real, o fortalecimento específico do core do pé, programas de treinamento neuromuscular abrangentes e intervenções proprioceptivas, que são consistentemente aplicadas através de programas supervisionados que promovem alta adesão e são adaptados às características individuais dos corredores. 

Limitações 

Esta revisão possui algumas limitações. Primeiramente, a busca foi restrita a artigos publicados a partir de 2018, o que pode ter excluído estudos relevantes mais antigos que, no entanto, já foram contemplados em revisões sistemáticas anteriores incluídas aqui. Segundo, a heterogeneidade dos estudos em termos de população, intervenção e definição de lesão dificulta a comparação direta e a generalização dos resultados. A definição de “lesão relacionada à corrida” variou entre os estudos, o que pode impactar as taxas de incidência relatadas. Por fim, a maioria dos ECRs incluídos apresentou limitações metodológicas, como a falta de cegamento, o que introduz um potencial viés de performance e detecção. 

5. CONCLUSÃO 

A revisão sistemática indica que a prevenção de lesões em corredores adultos é mais eficaz quando baseada em intervenções específicas, direcionadas e supervisionadas, como o retreinamento da marcha com feedback em tempo real e o fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé, que demonstraram reduzir significativamente o risco de lesões, por outro lado, programas de treinamento de força geral só são eficazes quando conduzidos por profissionais qualificados, já que abordagens auto-dirigidas tendem a falhar por baixa adesão e execução inadequada.  

Na prática clínica, recomenda-se que fisioterapeutas e profissionais de saúde realizem avaliações biomecânicas e prescrevam exercícios supervisionados, além de educar os corredores sobre técnica e adesão a programas estruturados. Para futuras pesquisas, são necessários ensaios clínicos de alta qualidade com intervenções bem definidas, populações homogêneas e seguimento prolongado, com especial atenção à análise de custo-efetividade e estratégias para melhorar a adesão a longo prazo. 

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1Discentes do curso de Fisioterapia no Centro Universitário Cidade Verde – UniCV.
2Fisioterapeuta Docente Mestre do Curso de Fisioterapia no Centro Universitário Cidade Verde – UniCV. Contato: prof_brunotavares@unicv.edu.br.com