MEDICAMENTOS NO TRATAMENTO DO TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA): EVOLUÇÃO DE PACIENTES DO SUS NA PERSPECTIVA DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS

MEDICATIONS IN THE TREATMENT OF AUTISM SPECTRUM DISORDER (ASD): EVOLUTION OF PATIENTS IN THE BRAZILIAN PUBLIC HEALTH SYSTEM (SUS) FROM THE PERSPECTIVE OF PARENTS OR CAREGIVERS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509151257


Daiane Aparecida Fávaro de Alquino1
Isabela Gonçalves Campos2
Larissa da Silva Vicini3
Joyce Mendes-Gomes4


Resumo

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição multifatorial e complexa do neurodesenvolvimento, caracterizada por prejuízos na comunicação e na socialização, bem como pela presença de comportamentos repetitivos, estereotipados e inflexíveis, além de um repertório restrito de interesses e atividades. Apesar dos avanços científicos, persistem desafios no diagnóstico e no tratamento, especialmente no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). Este estudo teve como objetivo avaliar a percepção de pais/responsáveis sobre a evolução clínica de crianças, adolescentes e adultos jovens (até 21 anos) diagnosticados com TEA e em tratamento farmacológico, cujos tratamentos ou atendimentos médicos fossem financiados pelo SUS. Trata-se de um estudo transversal, quantitativo, exploratório e descritivo. A coleta de dados ocorreu presencialmente, por meio de questionário impresso com questões acerca do perfil epidemiológico, clínico, diagnóstico e terapêutico, aplicado a 34 responsáveis por pacientes em acompanhamento neurológico, psicológico ou usuários da Farmácia Municipal de Dracena-SP. Os resultados indicaram predominância do sexo masculino (76%), com maior frequência na faixa etária de 6 a 10 anos (53%). Após a primeira busca por atendimento, 29% dos responsáveis aguardaram entre 1 e 2 anos até o diagnóstico, e 38% receberam diagnóstico apenas após os seis anos de idade. As comorbidades mais relatadas foram Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (44%), Transtorno Opositivo Desafiador (18%) e Transtorno Depressivo (15%). No TEA, a terapêutica medicamentosa visa principalmente ao manejo de sintomas secundários, como agressividade, irritabilidade, hiperatividade e distúrbios do sono. Assim, os fármacos mais utilizados foram a risperidona (50%) e o aripiprazol (26%), seguidos por sertralina (12%), canabidiol (12%), melatonina (12%) e metilfenidato (9%). Segundo os responsáveis, 56% dos pacientes utilizavam esses fármacos há mais de um ano, e relataram melhorias no sono (62%), calma (56%), comunicação (50%) e redução da agressividade (38%), embora dificuldades relacionadas à socialização e comportamentos repetitivos persistissem. Além disso, 65% mencionaram barreiras de acesso ao tratamento, principalmente falta de profissionais especializados (88%), limitações financeiras (62%) e dificuldade em obter diagnóstico (38%). Conclui-se que, embora a farmacoterapia tenha papel relevante no manejo do TEA, sua efetividade depende de uma abordagem integrada, que inclua intervenções psicossociais, apoio familiar e políticas públicas que assegurem diagnóstico precoce e acesso equitativo aos cuidados. O estudo contribui ao oferecer um panorama da realidade vivenciada por famílias no contexto do SUS, evidenciando avanços, mas também desafios que ainda precisam ser superados.

Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista (TEA); Comorbidades no Transtorno do Espectro Autista; Evolução Segundo a Opinião dos Responsáveis; Tratamento Medicamentoso no Sistema Único de Saúde (SUS); Eficácia do Tratamento Farmacológico.

Abstract

Autism Spectrum Disorder (ASD) is a multifactorial and complex neurodevelopmental condition, characterised by impairments in communication and socialisation, as well as by repetitive, stereotyped, and inflexible behaviours, in addition to a restricted range of interests and activities. Despite scientific advances, challenges in diagnosis and treatment remain, particularly within Brazil’s Unified Health System (SUS). This study aimed to assess the perceptions of parents/carers regarding the clinical progression of children, adolescents, and young adults (up to 21 years old) diagnosed with ASD and undergoing pharmacological treatment, provided that such treatment or medical care was funded by the SUS. This was a cross-sectional, quantitative, exploratory, and descriptive study. Data collection took place in person, through a printed questionnaire containing questions on the epidemiological, clinical, diagnostic, and therapeutic profile of individuals with ASD, completed by 34 carers of patients receiving neurological or psychological follow-up or using medication supplied by the Municipal Pharmacy of Dracena-SP. The results indicated a predominance of male patients (76%), with the highest frequency in the 6–10 year age group (53%). Following the first healthcare consultation, 29% of carers reported waiting between 1 and 2 years for diagnosis, while 38% received a diagnosis only after the age of six. The most commonly reported comorbidities were Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (44%), Oppositional Defiant Disorder (18%), and Depressive Disorder (15%). In ASD, pharmacological therapy is primarily aimed at managing secondary symptoms, such as aggression, irritability, hyperactivity, and sleep disturbances. Accordingly, risperidone (50%) and aripiprazole (26%) were the most frequently used drugs, followed by sertraline (12%), cannabidiol (12%), melatonin (12%), and methylphenidate (9%). According to carers, 56% of patients had been using these medications for over a year, and reported improvements in sleep (62%), calmness (56%), communication (50%), and reduced aggression (38%), although difficulties with socialisation and persistent repetitive behaviours remained. In addition, 65% reported barriers to accessing treatment, mainly the shortage of specialised professionals (88%), financial constraints (62%), and difficulties in obtaining a diagnosis (38%). In conclusion, although pharmacotherapy plays a relevant role in the management of ASD, its effectiveness depends on an integrated approach involving psychosocial interventions, family support, and public policies ensuring early diagnosis and equitable access to care. This study contributes by offering an overview of the reality experienced by families within the SUS context, highlighting advances as well as challenges that still need to be addressed.

Keywords: Autism Spectrum Disorder (ASD); Comorbidities in Autism Spectrum Disorder; Evolution According to the Opinion of Guardians; Drug Treatment in Brazil’s Unified Health System (SUS); Effectiveness of Pharmacological Treatment.

1. Introdução

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), por ser de origem multifatorial, é considerado uma condição complexa do neurodesenvolvimento. Caracteriza-se por alterações no processamento das informações encefálicas, que resultam em prejuízos na comunicação verbal e não verbal, déficits na socialização, comportamentos repetitivos, estereotipados e inflexíveis (Genovese; Butler, 2023), além de um repertório restrito de interesses e atividades (American Psychiatric Association, 2013).

A terminologia autismo surge por volta de 1911, em uma publicação no Tratado de Psiquiatria, escrito por Eugen Bleuler, com o intuito de substituir o designado Demência Precoce naqueles pacientes com deficiência intelectual associado ao isolamento social (Sunakozawa; Mathias; Vidotti, 2020). Atualmente, a nomenclatura usada é Transtorno do Espectro Autista, estando descrita no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5) e na 11ª Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11) (Duarte et al., 2023).

Com relação a epidemiologia, sabe-se que o TEA pode ocorrer em todos os grupos étnico-raciais, embora a raça branca tenha maior possibilidade de diagnóstico. Além disso, é mais comum em homens do que mulheres. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 1 a cada 160 crianças apresente esse transtorno (Babayeva et al., 2022). Sua identificação ocorre geralmente entre 1-3 anos de idade, sendo este 1° ano essencial para a neuroplasticidade cerebral e comunicação intersocial, exibindo a necessidade de intervenção o mais precoce possível (Monteiro et al., 2025; Nunes; Kessler, 2020).

Esse distúrbio por ser multifatorial, está presente em indivíduos geneticamente predispostos, associado a causas ambientais. Com relação ao primeiro, relata-se o envolvimento de mais de 800 genes com deleções ou duplicações cromossômicas (ex: 15q11.2, BP1-BP2), além de diversas síndromes genéticas, como as de Willians e Phelan-McDermid (Genovese; Butler, 2023). No que se refere a causas não genéticas, pode-se citar os acometimentos durante a gestação, como é o caso das infecções no período gestacional (ex: sífilis, toxoplasmose, caxumba, rubéola e varicela), deficiência de vitamina D materna, uso abusivo de drogas, alcoolismo (levando a síndrome alcoólica fetal), tabagismo, idade avançada e parto prematuro, além do uso de anticonvulsivantes e talidomida (Sunakozawa; Mathias; Vidotti, 2020).

Sua patogênese ainda não está totalmente elucidada, porém acredita-se que ocorra perturbação no sistema de neurotransmissores, principalmente no início do desenvolvimento do SNC, destacando-se o envolvimento da acetilcolina (ACh), serotonina (5-HT), dopamina (DA), sistema gabaérgico (GABA), glutamato (Glu) e histamina (His), provavelmente responsáveis pelos seguintes comportamentos no TEA: diminuição da concentração, diminuição da sociabilidade, inflexibilidade cognitiva, hábitos estereotipados, comportamento repetitivo e hiperatividade (Eissa et al., 2018).

O diagnóstico desse transtorno é clínico, de modo que os pacientes podem apresentar atraso de fala, repetição de sons, diminuição do contato visual, menor compreensão comunicativa, desejo em atividades solitárias, resistência a mudanças, necessidade de manter rotina, comportamentos repetitivos (ex: bater palmas), hipersensibilidade dos 5 sentidos e seletividade alimentar (Abreu; Passos, 2023; Monteiro et al., 2025). Nesse sentido, o TEA pode ser subdividido em 3 níveis, de acordo com o comportamento do paciente e grau de suporte necessário. Assim sendo, no nível 1 ou leve, o indivíduo é autônomo com certa independência, porém não possui um interesse social por um longo tempo. No nível 2 ou moderado, os indivíduos necessitam de mais auxílio para interagirem socialmente e melhorarem suas questões comportamentais, enquanto que no nível 3 ou severo, apresentam déficit crítico em todos âmbitos, além de escassa autonomia (Melo, 2022).

Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda o rastreio de TEA para toda criança entre 18-24 meses, a partir de um formulário com 23 perguntas e respostas “sim” ou “não”, respondido pelos pais, denominado M-CHAT. Cabe ressaltar, que é considerado um teste de triagem, não de diagnóstico. Entretanto, na suspeita de autismo é possível fazer o acompanhamento e o tratamento precoce a fim de obter melhora na qualidade de vida (Sunakozawa; Mathias; Vidotti, 2020).

É importante entendermos que o TEA, na maioria das vezes, vem associado a outros transtornos comportamentais e psiquiátricos, também conhecido como comorbidades do TEA, dentre os mais conhecidos pode-se citar: irritabilidade, comportamento autolesivo, transtornos de ansiedade, transtorno opositor desafiador (TOD), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtornos depressivos, transtorno bipolar, disforia de gênero, perturbação do sono, seletividade alimentar e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) (Genovese; Butler, 2023).

Por ser um distúrbio multifatorial, o tratamento do TEA ocorre em diversas formas, sendo necessário uma abordagem interdisciplinar o mais precocemente possível. Assim sendo, o tratamento não medicamentoso, como a psicoterapia comportamental, a terapia cognitivo comportamental (TCC), a análise aplicada do comportamento (ABA) e a terapia de integração social (TIS), auxiliam na melhora das habilidades corporais, comunicativas, de aprendizagem e de interação social (Heleno et al., 2020). Em relação ao medicamentoso, é importante compreender que não existem fármacos específicos para o autismo, sendo utilizado somente no intuito de tratar os sintomas e as comorbidades associadas. Os grupos mais utilizados são: anticonvulsivantes, antidepressivos, antipsicóticos, psicoestimulantes e hormônios (Eissa et al., 2018).

Entre os anticonvulsivantes empregados nesse contexto, destacam-se o ácido valpróico, a lamotrigina e o levetiracetam, associados ao manejo da instabilidade afetiva, irritabilidade e impulsividade (Barros Neto; Brunoni; Cysneiros, 2019). No que se refere aos antidepressivos, os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), como a sertralina e a fluoxetina, têm demonstrado eficácia na redução de comportamentos estereotipados, disruptivos, repetitivos e ritualísticos (Eissa et al., 2018).

Os antipsicóticos figuram entre os fármacos mais empregados no manejo do TEA, em virtude de sua eficácia na redução da hiperatividade e das estereotipias. Nesse contexto, são utilizados tanto os antipsicóticos típicos, como o haloperidol, quanto os atípicos, entre os quais se destacam risperidona, aripiprazol, quetiapina e ziprasidona (Barros Neto; Brunoni; Cysneiros, 2019).

O metilfenidato e a lisdexanfetamina, ambos psicoestimulantes, agem na redução da hiperatividade, impulsividade, déficit de atenção e da comunicação social e autorregulação (Eissa et al., 2018). Quanto às alterações do sono, o fármaco mais utilizado é a melatonina, um neuro-hormônio ritmicamente produzido pela glândula pineal durante a escuridão, com importante função na regulação do ciclo circadiano do Sistema Nervoso Central – SNC (Barros Neto; Brunoni; Cysneiros, 2019; Pfeffer et al., 2022).

Vale ressaltar que estudos mais recentes apontam a influência do sistema endocanabinóide em indivíduos com TEA. Apesar de ainda não possuir nenhuma comprovação científica, o uso da Cannabis Sativa e de seus derivados tem atuação na regulação dos neurotransmissores, tanto excitatórios, quanto inibitórios, recompondo a plasticidade sináptica, além de atuar na modulação dos comportamentos sociais, através dos hormônios ocitocina e vasopressina (Babayeva et al., 2022). Contudo, ainda são necessários estudos mais conclusivos sobre posologias, faixa etária indicada, efeitos adversos, segurança e tolerabilidade para o tratamento a longo prazo (Abreu; Passos, 2023).

2. Metodologia

Foi realizado um estudo transversal, de abordagem quantitativa, exploratória e descritiva. A coleta de dados ocorreu de forma presencial, por meio de um questionário impresso, de fácil compreensão, contendo questões abertas e fechadas acerca do perfil epidemiológico, clínico, diagnóstico e terapêutico de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O instrumento foi respondido manualmente, com caneta, pelos pais ou responsáveis legais de crianças, adolescentes e adultos jovens de até 21 anos, diagnosticados com TEA e em tratamento farmacológico relacionado ao transtorno no momento da participação, desde que esse tratamento, inclusive quando obtido mediante determinação judicial, ou o atendimento médico fosse financiado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A seleção dos participantes foi não probabilística, por conveniência, realizada pelas autoras do presente trabalho, durante a espera por atendimento no Centro de Atenção Psicossocial I (CAPS I) ou no momento da retirada de medicamentos na Farmácia Municipal de Dracena-SP, localizada no Centro de Saúde I – Dr. Takashi Enokibara. Participaram do estudo 34 pais ou responsáveis, todos com 18 anos ou mais. Não houve restrição quanto a sexo, identidade de gênero, orientação sexual, raça/cor (classificada segundo o IBGE), classe social ou escolaridade. 

O questionário foi elaborado em linguagem acessível e aplicado com auxílio das autoras do presente trabalho. Era composto por duas questões abertas e vinte e duas fechadas, algumas com espaço para informações adicionais. O tempo estimado para o preenchimento foi de, aproximadamente, 15 minutos.

Antes de iniciar o preenchimento, os participantes tiveram que ler e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), destinado a adultos capazes de fornecer consentimento formal. Este procedimento visa garantir o entendimento adequado sobre a pesquisa, a proteção dos direitos e o respeito à autonomia dos participantes. Todos os participantes foram esclarecidos e informados a respeito do anonimato e da possibilidade de interromper o processo quando desejassem, sem danos e prejuízos à pesquisa e a si próprio. Cabe ressaltar que o estudo foi aprovado, mediante o parecer nº 7.617.257, pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos – CEP FACERES, localizado em São José do Rio Preto – SP.

Os dados obtidos foram analisados estatisticamente e apresentados em gráficos ou tabelas. Todas as informações foram tratadas de forma agregada, sem identificação individual, assegurando o sigilo e a privacidade. Após a coleta, os questionários foram digitalizados e armazenados em arquivos do tipo Excel, sob a responsabilidade da pesquisadora responsável pelo estudo, por um período de cinco anos, sendo que serão apagados após esse prazo.

3. Resultados e Discussão

A Tabela 1 demonstra que, dentre os 34 formulários analisados, 76% foram respondidos por responsáveis de pacientes do sexo masculino. Essa predominância corrobora outros estudos (Salehi et al., 2025) e é consistente com os dados do Censo Demográfico 2022, disponibilizados pelo IBGE em 2025, que identificaram aproximadamente 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) no Brasil, dos quais cerca de 58% eram homens (IBGE, 2025a). Em paralelo, uma reportagem da Agência de Notícias do IBGE reforça esses números e destaca a importância do diagnóstico precoce e da atenção às diferenças de sexo (IBGE, 2025b). De forma complementar, o Manual de Orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2019) aponta para uma razão de aproximadamente quatro meninos diagnosticados para cada menina. Estudos adicionais corroboram essa discrepância, indicando que os meninos tendem a externalizar mais os comportamentos característicos do TEA, como hiperatividade, estereotipias motoras e agitação. Em contrapartida, ainda que o diagnóstico em meninas seja menos frequente, alguns autores descrevem maior gravidade nos comprometimentos sociocomunicativos e maior prevalência de déficits intelectuais, achados que também se alinham aos resultados observados no presente estudo (Freire; Cardoso, 2022).

Adicionalmente, 53% dos pacientes têm idade entre 6 e 10 anos (Tabela 1), o que é consistente com a análise do Censo Demográfico 2022, na qual a prevalência é maior entre indivíduos de 5 a 9 anos (IBGE, 2025a; 2025b). Quanto ao critério de cor/raça, os resultados obtidos indicam proporções equivalentes entre pessoas brancas (47%) e pretas ou pardas (50%). Em comparação, o Censo do IBGE aponta prevalência relativamente maior entre pessoas brancas (1,3%), seguidas por pretas ou pardas (1,1%) (IBGE, 2025a; 2025b). É importante destacar que no contexto brasileiro, o racismo estrutural e a desigualdade no acesso a serviços de saúde, especialmente em regiões periféricas, impactam diretamente a identificação e o diagnóstico do TEA, contribuindo para a subnotificação em determinadas populações, resultando em uma sub-representação nas estatísticas oficiais (IBGE, 2025b).

No que tange à condição socioeconômica, observou-se (Tabela 1) que aproximadamente 54% das famílias participantes possuem renda mensal entre 1 e 2 salários mínimos, e cerca de 56% não dispõem de moradia própria. Nesse contexto, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), previsto na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), configura-se como um importante suporte para essas famílias. Trata-se de um auxílio financeiro no valor de um salário mínimo mensal, destinado a pessoas com deficiência, incluindo aquelas com TEA, desde que atendam aos critérios legais, como a comprovação diagnóstica, a renda familiar per capita inferior a um quarto do salário mínimo vigente e a ausência de recebimento de outro benefício da seguridade social (Brasil, 2018).

Conforme demonstrado na Tabela 1, dos pacientes avaliados, 62% residem com pai e mãe, 35% apenas com a mãe e 3% correspondem a um único caso em que a criança vive com avós ou outros familiares. Quanto à composição fraterna, a maioria apresenta um (32%) ou dois irmãos (35%). Esses dados são relevantes, pois a literatura aponta que a estrutura familiar exerce influência significativa sobre o manejo clínico e psicossocial do TEA. O envolvimento parental ativo está associado à melhora no desempenho educacional, habilidades sociais e bem-estar emocional das crianças com TEA (Burrell; Borrego, 2012; Fernández Cerero; Montenegro Rueda; López Meneses, 2024). Nesse sentido, a presença de ambos os pais pode estar associada à maior disponibilidade de recursos emocionais e materiais, favorecendo o acompanhamento terapêutico. Por outro lado, famílias monoparentais, especialmente aquelas chefiadas por mulheres, geralmente enfrentam maiores desafios socioeconômicos e sobrecarga emocional e de cuidados, fatores que podem impactar a adesão a tratamentos e o bem-estar da criança. Além disso, a presença de irmãos pode desempenhar um papel ambivalente, funcionando tanto como fator de apoio social e de desenvolvimento de habilidades sociais, quanto como fonte de conflitos familiares em situações de sobrecarga (McHale; Updegraff; Feinberg, 2016).

Tabela 1 – Caracterização da amostra em estudo.

Sexo do(a) paciente com TEAN%
Feminino824
Masculino 2676
Faixa etária do(a) pacienteN%
1-5 anos39
6-10 anos1853
11-15 anos618
16 – 21 anos720
Cor/raça do(a) pacienteN%
Branca1647
Preta13
Parda1647
Amarela00
Indígena00
Preferiram não responder13
Renda mensal da famíliaN%
1 salário mínimo618
2 salários mínimos1236
3 salários mínimos26
4 ou mais salários mínimos720
Preferiram não responder720
A família possui casa própriaN%
Sim1441
Não1956
Preferiram não responder13
O(A) paciente reside atualmenteN%
Com pai e a mãe2162
Somente com a mãe1235
Somente com o pai00
Com avós ou outros familiares13
Outros00
O(A) paciente possui irmãosN%
11132
21235
3515
413
Não possui517

Fonte: Dados da pesquisa. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

O autismo é um transtorno do desenvolvimento neurológico associado a fatores genéticos e ambientais. A Tabela 2 indica uma prevalência familiar de 71% nos casos analisados, evidenciando um forte componente genético, com destaque para 32% de incidência entre primos e 18% entre irmãos. Embora grande parte da etiologia genética do autismo ainda seja desconhecida, estudos apontam que a herdabilidade pode ultrapassar 90%, reforçando a influência das características genéticas herdadas dos pais na manifestação do transtorno (Gupta; State, 2006).

O autismo não é causado por um único gene. Estima-se que o genoma humano contenha cerca de 30 mil genes distribuídos em aproximadamente 6 bilhões de pares de bases. Embora tradicionalmente se considere que cada gene possua duas cópias, uma de cada progenitor, evidências recentes apontam a presença de variações no número de cópias em regiões genômicas extensas. Essas variações podem incluir genes codificadores, que se apresentam duplicados, ausentes ou em múltiplas cópias, contribuindo para a diversidade genética herdada entre indivíduos (Zanolla et al., 2015). Um estudo realizado em países da Europa Ocidental evidenciou que o risco de Transtorno do Espectro Autista (TEA) é aproximadamente oito vezes maior entre irmãos de indivíduos diagnosticados e cerca de duas vezes maior entre outros familiares, em comparação à população geral. Os autores concluíram que irmãos biológicos compartilham, em média, 50% do material genético, enquanto meio-irmãos compartilham 25% e primos de primeiro grau cerca de 12,5% (Hansen et al., 2019). Esses achados corroboram parcialmente os resultados do presente estudo, uma vez que, embora também evidenciem a predominância da herdabilidade no TEA, em nossa amostra a incidência entre primos foi maior do que entre irmãos, indicando possíveis variações relacionadas ao contexto populacional analisado.

Tabela 2 – Correlação genética com a amostra.

Há outros casos de TEA na famíliaN%
Sim2471
Não720
Não souberam responder39
Relação de parentesco com o(a) pacienteN%
Pai13
Mãe39
Irmão ou irmã618
Avô ou avó00
Tio ou tia39
Primo ou prima1132
Não souberam responder1029
Outros:
Sobrinho13

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção quanto a relação de parentesco com o paciente. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

Os sinais e sintomas iniciais do TEA podem variar conforme a faixa etária, a gravidade do quadro clínico e a presença de comorbidades, manifestando-se de forma heterogênea entre os indivíduos (Abualait et al., 2024; American Psychiatric Association, 2013). Estudos longitudinais mostram que os sintomas podem diminuir ou aumentar entre os 3 e 6 anos de idade, com trajetórias individuais distintas (Waizbard-Bartov et al., 2021; Waizbard-Bartov et al., 2024). Além disso, revisões clínicas destacam que desde os primeiros sinais — como evitamento do olhar, falta de resposta ao nome ou ausência de brincadeira simbólica — até comportamentos mais complexos, o espectro inicial é amplamente variável (Okoye et al., 2023).  De acordo com os dados apresentados na Tabela 3, os responsáveis relataram que os comportamentos que motivaram a busca por atendimento profissional foram: irritabilidade/nervosismo (76%), ansiedade (74%), seletividade alimentar (74%), comportamentos repetitivos (65%), distúrbios do sono (62%), resistência a mudanças (59%) e sensibilidade a estímulos sonoros (53%). Ressalta-se que cada participante pôde assinalar mais de uma alternativa e que os percentuais foram calculados considerando o total da amostra (n = 34).

De acordo com o Manual de Orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2019) e estudos clínicos complementares, há marcos de alerta para o desenvolvimento infantil que variam conforme a faixa etária. Aos seis meses, observa-se a escassez de expressões faciais, ausência de sorriso social e reduzida interação sociocomunicativa. Aos nove meses, podem estar presentes atrasos no desenvolvimento da linguagem e limitação da capacidade de imitação. Aos doze meses, são frequentes sinais como atraso na fala, ausência de gestos comunicativos (por exemplo, acenar para se despedir) e dificuldades em compartilhar emoções, interesses ou afetos. Aos quinze meses, destaca-se o atraso de fala, sendo comum que a criança pronuncie apenas o nome de membros da família. Aos dezoito meses, pode-se notar a ausência de expressão de desejos, enquanto aos 24 meses é esperado que a criança já formule frases simples de duas palavras; a não ocorrência desse marco, especialmente quando restrita a ecolalias, constitui sinal de alerta (Faria; Borba, 2024).

No presente estudo (Tabela 3), verificou-se que, após a primeira busca por atendimento, 29% dos responsáveis aguardaram entre 1 e 2 anos até a obtenção do diagnóstico de TEA, enquanto 24% relataram um intervalo entre 1 e 6 meses e 20% informaram tempo superior a 4 anos. Adicionalmente, observou-se que os diagnósticos realizados tardiamente, especialmente após os seis anos de idade, corresponderam a aproximadamente 38% dos casos, seguidos por 24% diagnosticados entre 4 e 5 anos, 20% entre 2 e 3 anos e 9% entre 1 e 2 anos. A literatura corrobora essa discrepância temporal, evidenciando que, embora os sinais clínicos geralmente surjam entre os 6 e 18 meses, o diagnóstico costuma ocorrer, em média, apenas aos 4 anos ou mais (Tanner; Dounavi, 2020). Essa demora compromete o desenvolvimento, pois a intervenção precoce é fundamental durante o período de maior plasticidade neural, e seu atraso impacta significativamente tanto a criança quanto sua família (Homercher et al., 2020).

Tabela 3– Caracterização inicial do transtorno.

Comportamentos do(a) paciente que despertaram o desejo da família de procurar um profissional da saúdeN%
Agressão física contra colegas e adultos (p. ex. morder ou chutar)515
Ansiedade2574
Atraso da fala1338
Comportamentos repetitivos (ex: bater palmas)2265
Desempenho de atividades solitariamente1132
Diminuição do contato visual1338
Distúrbios do sono2162
Gritos1441
Irritabilidade/ nervosismo2676
Machucava-se ou batia com a cabeça em algum lugar1029
Menor compreensão comunicativa1338
Necessidade de manter a rotina1544
Repetição de sons1029
Resistência a mudanças2059
Seletividade alimentar2574
Sensibilidade ao barulho1853
Outros: 
Alterações do processamento sensorial13
Dificuldade de Socialização13
Déficit de Sucção13
Falta de sustentação cervical e de tronco13
Hiperfoco13
Medo13
Tempo decorrido para o diagnóstico após buscar o 1º atendimentoN%
1 mês – 6 meses824
6 – 12 meses618
1 ano – 2 anos1029
2 anos – 3 anos39
4 anos ou mais720
Idade em que recebeu o diagnósticoN%
1 ano – 2 anos39
2 anos – 3 anos824
4 anos – 5 anos1029
6 anos ou mais1338

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação aos comportamentos do(a) paciente que despertaram o desejo da família de procurar um profissional da saúde. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

O TEA é atualmente classificado em três níveis de suporte, conforme os critérios estabelecidos pelo DSM-5 (American Psychiatric Association, 2013): Nível 1 — requer suporte (comumente associado a quadros mais leves); Nível 2 — requer suporte substancial (associado a quadros moderados); e Nível 3 — requer suporte muito substancial (associado a quadros severos). Essa classificação permite diferenciar a intensidade das manifestações clínicas e o estágio de desenvolvimento, orientando as intervenções terapêuticas necessárias. Importa destacar que não se trata de uma medida de “gravidade”, mas sim do grau de apoio necessário para que o indivíduo desenvolva suas habilidades com maior independência. Ademais, o nível de suporte não é estático, podendo variar ao longo da vida da pessoa com TEA, conforme o desenvolvimento, as intervenções recebidas, o ambiente e outros fatores (Waizbard-Bartov; Miller, 2023; Waizbard-Bartov et al., 2023).

Na Tabela 4 observa-se que a maioria dos participantes foi classificada entre o nível 1 (leve) e o nível 2 (moderado) de suporte, sendo metade (50%) no nível 2 e 35% no nível 1. O nível 1, descrito no DSM-5 como “exigindo apoio”, corresponde a indivíduos geralmente autônomos, mas com dificuldades em iniciar interações sociais e marcada inflexibilidade comportamental. Já o nível 2, denominado “exigindo apoio substancial”, refere-se a casos moderados, caracterizados por déficits significativos na comunicação social — verbal e não verbal —, além de comportamentos restritivos, inflexíveis e repetitivos que comprometem a adaptação às rotinas (American Psychiatric Association, 2013). Achados semelhantes são relatados em estudos clínicos e epidemiológicos, que também descrevem predominância dos níveis 1 e 2 em diferentes populações avaliadas (Faria; Borba, 2024; Rocha et al., 2019).

Tabela 4 – Caracterização do transtorno atualmente.

Nível de SuporteN%
Nível 1 1235
Nível 21750
Nível 3412
Não souberam responder/Não foram informados pelo médico13
Sinais e sintomas/comportamentos associados ao autismo que o(a) paciente apresenta ultimamenteN%
Agressão física contra colegas e adultos (p. ex. morder ou chutar)721
Ansiedade2779
Atraso da fala1235
Comportamentos repetitivos (ex: bater palmas)2162
Desempenho de atividades solitariamente1132
Diminuição do contato visual1132
Distúrbios do sono1544
Gritos1029
Irritabilidade/ nervosismo2985
Machucava-se ou batia com a cabeça em algum lugar824
Menor compreensão comunicativa1441
Necessidade de manter a rotina1544
Repetição de sons1029
Resistência a mudanças1647
Seletividade alimentar2162
Sensibilidade ao barulho1853
Outros:
Alterações do processamento sensorial13
Dificuldade de aprendizagem 13
Dificuldade de socialização13
Elopement (comportamento de fuga ou afastamento repentino de um local seguro ou de um cuidador)13
Falta equilíbrio13
Hiperfoco 13
Resistência em aceitar negativas13
Sensibilidade olfativa 13
Superdotação13

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação aos sinais e sintomas/comportamentos associados ao autismo que o(a) paciente apresenta ultimamente. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

Na Tabela 5 são apresentados os dados sobre a correlação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros transtornos psiquiátricos frequentemente associados. Estudos científicos têm destacado a ocorrência de comorbidades como Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e Transtorno Depressivo. Essas condições exercem impacto clínico significativo, uma vez que seus sintomas frequentemente coexistem em indivíduos com TEA, podendo confundir ou se sobrepor às manifestações nucleares do transtorno. A probabilidade de ocorrência simultânea dessas condições é influenciada por fatores como idade, funcionamento intelectual, sexo biológico e predisposição genética (Genovese; Butler, 2023).

Em nossa amostra (Tabela 5), o transtorno comórbido mais prevalente foi o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), presente em 44% dos casos, seguido pelo Transtorno de Oposição Desafiante (TOD: 18%) e pelo Transtorno Depressivo (15%). Outros estudos apontam que a prevalência do TDAH em indivíduos com TEA pode variar amplamente, de 17% a 95%. O TDAH é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, impulsividade e hiperatividade. Embora distintos, tanto o TDAH quanto o TEA podem ser compreendidos a partir de déficits em funções executivas e compartilham aspectos comuns, como atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, dificuldades de linguagem e fatores hereditários. Essa sobreposição pode dificultar o processo diagnóstico e a distinção precisa entre os transtornos (Ronzani et al., 2021).

A associação de transtornos disruptivos, como o TOD, com o TEA também é descrita na literatura. O TOD caracteriza-se por comportamento negativista, desafiador e desobediente frente a figuras de autoridade (Corrêa et al., 2023). Indivíduos com esse transtorno tendem a apresentar um humor instável, marcado por irritabilidade e episódios de raiva, acompanhado de atitudes provocativas e desafiadoras. Essas manifestações geralmente incluem teimosia, resistência em cumprir regras e comportamentos de agressividade verbal (Gomez et al., 2015; Mars; Aggarwal; Marwaha, 2025). Quando presente em indivíduos com TEA, o TOD tende a potencializar as dificuldades de socialização e adaptação (Rocha et al., 2024), exigindo maior suporte familiar e escolar.

Considerando a prevalência do Transtorno Depressivo (15% dos casos em nossa amostra), é possível correlacionar que fatores como isolamento social e sentimentos de solidão configuram-se como riscos relevantes para o desenvolvimento de quadros depressivos e ideação suicida. A identificação precoce e o manejo dos sintomas depressivos em indivíduos com TEA são fundamentais, visto que tais comorbidades estão relacionadas a prejuízos significativos nas esferas social e educacional. Evidências sugerem que intervenções terapêuticas eficazes podem promover melhores desfechos clínicos a longo prazo (Ronzani et al., 2021).

O autismo é caracterizado por prejuízos nas habilidades de comunicação verbal e não verbal, déficits nas interações sociais e presença de comportamentos repetitivos, estereotipados e inflexíveis (Genovese; Butler, 2023). Diante da heterogeneidade clínica, o tratamento do TEA é individualizado e multimodal, envolvendo equipe multiprofissional. A terapêutica medicamentosa visa principalmente ao manejo de sintomas secundários, frequentemente associados a comorbidades psiquiátricas ou comportamentais, como agressividade, irritabilidade, hiperatividade e distúrbios do sono (Davico et al., 2023). Intervenções não farmacológicas, como estratégias psicossociais e educacionais, também desempenham papel essencial, sendo complementares ao uso de fármacos quando indicado (Nascimento; Silva; Guedes, 2021).

Tabela 5 – Associação do Transtorno do Espectro Autista (TEA) com outros transtornos psiquiátricos.

Comorbidades associadasN%
Epilepsia ou alguma outra doença que desencadeia convulsões26
Esquizofrenia13
Transtorno bipolar39
Transtorno de Ansiedade Generalizada412
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)1544
Transtorno  de Déficit de Atenção sem Hiperatividade (TDA)412
Transtorno Depressivo515
Transtorno do Pânico13
Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)26
Transtorno de Oposição Desafiante (TOD)618
Nenhum412
Não souberam responder26
Outros:
Transtorno do Desenvolvimento Intelectual (Deficiência intelectual)26

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação aos sinais e sintomas/comportamentos associados ao autismo que o(a) paciente apresenta ultimamente. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

Na presente amostra (Tabela 6), os medicamentos mais utilizados foram os antipsicóticos atípicos, em especial risperidona (50%) e aripiprazol (26%). Entre os antidepressivos, identificou-se o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como a sertralina (12%), e de inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), como a venlafaxina (9%). Outros fármacos relatados incluíram canabidiol (12%), melatonina (12%) e metilfenidato (9%). Ressalta-se que os responsáveis podiam assinalar mais de um medicamento e que 56% dos pacientes faziam uso contínuo das medicações há mais de um ano. Esses resultados refletem a diversidade de abordagens farmacológicas empregadas para o manejo dos sintomas associados ao TEA.

Os antipsicóticos atípicos representam a classe farmacológica mais utilizada no tratamento medicamentoso do TEA, com destaque para a risperidona e o aripiprazol. Ambos atuam predominantemente como antagonistas dos receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos. Essa classe diferencia-se dos antipsicóticos de primeira geração principalmente por apresentar menor risco de efeitos extrapiramidais (Nascimento; Silva; Guedes, 2021). A risperidona demonstrou eficácia na redução de sintomas como hiperatividade, irritabilidade e agressividade e, em menor grau, pode contribuir para a melhora de comportamentos repetitivos, interação social e comunicação verbal. Um outro estudo demonstrou que foi eficaz e bem tolerada no tratamento de birras, agressões ou automutilação em crianças com TEA (McCracken et al., 2002). Seu mecanismo de ação envolve principalmente o bloqueio dos receptores dopaminérgicos D2 e serotoninérgicos 5-HT2A. Contudo, seus principais possíveis efeitos adversos incluem sialorreia, fadiga, tremores, taquicardia, aumento do apetite e ganho ponderal (Cadide et al., 2024; Valentini et al., 2024).

O aripiprazol, classificado como antipsicótico de terceira geração, atua como agonista parcial dos receptores dopaminérgicos D2 e D3 e dos receptores serotoninérgicos 5-HT1A, além de antagonizar os receptores serotoninérgicos, como o 5-HT2A e 5-HT7. É indicado especialmente para o manejo de sintomas como irritabilidade, estereotipias e hiperatividade. Em comparação com outros antipsicóticos atípicos, apresenta menor risco de ganho de peso e de prolongamento do intervalo QTc, embora possa ocasionar movimentos anormais e elevação dos níveis de prolactina (Nikolov; Jonker; Scahill, 2006). Dentre seus possíveis efeitos colaterais, destacam-se náusea, vômito, constipação, cefaleia, vertigem, acatisia, ansiedade, insônia e inquietação (Valentini et al., 2024).

Entre os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), a sertralina é frequentemente citada, tendo sido utilizada por aproximadamente 12% da amostra deste estudo. Seu mecanismo de ação consiste na inibição do transportador pré-sináptico responsável pela recaptação da serotonina (5-HT), aumentando, assim, a disponibilidade deste neurotransmissor na fenda sináptica. No contexto do TEA, a sertralina tem sido utilizada no manejo de comportamentos repetitivos, agressividade e desregulação comportamental. Entretanto, seu uso pode estar associado a efeitos adversos como náuseas, cefaleia, insônia, xerostomia, agitação psicomotora, desinibição, aumento da atividade motora, hipomania e disfunção sexual (Nikolov; Jonker; Scahill, 2006).

No grupo dos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), destaca-se a venlafaxina, indicada em casos de distúrbios sociais, comunicativos, hiperatividade e interesses restritos. Seu mecanismo de ação envolve a inibição dos transportadores de serotonina e noradrenalina, o que aumenta a disponibilidade desses neurotransmissores na fenda sináptica e potencializa a ativação de receptores pós-sinápticos. Entre seus principais efeitos adversos estão anormalidades da função sexual, náuseas, boca seca, constipação, insônia, nervosismo e tremores (Barros Neto; Brunoni; Cysneiros, 2019).

O uso de compostos derivados da Cannabis sativa no manejo do TEA tem despertado crescente interesse da comunidade científica. Embora seus mecanismos de ação ainda não estejam totalmente elucidados, evidências preliminares sugerem que o canabidiol (CBD) pode promover melhora na comunicação e nas interações sociais, possivelmente por meio da modulação dos receptores canabinoides tipo 1 (CB1), envolvidos na regulação da neurotransmissão e da plasticidade sináptica. Formulações de óleo de Cannabis, geralmente com alta concentração de CBD e baixos níveis de tetraidrocanabinol (THC), têm sido associadas a efeito modulador da atividade cerebral vinculada ao comportamento social. Entre os efeitos adversos mais frequentemente relatados, sobretudo nas fases iniciais da administração, destacam-se sonolência, náuseas, vômitos, diarreia e alterações do apetite (Abreu; Passos, 2023).

A melatonina é um neuro-hormônio derivado da serotonina, produzido principalmente pela glândula pineal em resposta à ausência de luz. Sua secreção é regulada pelo núcleo supraquiasmático do hipotálamo, responsável pelo controle do ritmo circadiano. No sistema nervoso central, atua sobre os receptores MT1 e MT2, exercendo efeitos cronobiológicos, indutores do sono, antioxidantes e moduladores do humor. Em indivíduos com TEA, são comuns distúrbios do sono, frequentemente associados à baixa produção endógena de melatonina. Sua administração exógena tem se mostrado eficaz na regulação do ciclo sono-vigília, sendo amplamente utilizada no tratamento da insônia nessa população. Entre os efeitos colaterais mais relatados destacam-se sonolência excessiva, tontura e cefaleia (Barros Neto; Brunoni; Cysneiros, 2019).

O metilfenidato, amplamente conhecido por seu nome comercial Ritalina®, é um psicoestimulante com ação predominante sobre o sistema nervoso central. Embora tradicionalmente indicado para o tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), também tem sido empregado em casos selecionados de TEA, principalmente para o controle de sintomas como hiperatividade, impulsividade e dificuldades de atenção. Seu mecanismo de ação consiste na inibição da recaptação de dopamina e noradrenalina por meio do bloqueio dos transportadores DAT e NET, elevando a disponibilidade sináptica desses neurotransmissores. Também exerce leve ação sobre a recaptação de serotonina. Seus principais efeitos adversos incluem insônia, irritabilidade, perda de apetite e, em alguns casos, agressividade (Barros Neto; Brunoni; Cysneiros, 2019).

Tabela 6 – Medicamentos usados por pacientes com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras comorbidades,  assim como os principais efeitos colaterais relacionados ao tratamento farmacológico.

Medicamentos em uso atualmenteClasse farmacológicaN%
ácido valproico/ valproato anticonvulsivante tradicional26
aripiprazol antipsicótico de 3º geração926
atomoxetinainibidor da recaptação de noradrenalina13
canabidiolcanabinoide412
fluoxetinaantidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS)13
haloperidolantipsicótico de primeira geração00
lamotriginaanticonvulsivante de segunda geração00
lisdexanfetaminapsicoestimulante e derivado anfetamínico13
melatoninaregulador do ciclo circadiano412
metilfenidatopsicoestimulante e derivado não anfetamínico 39
quetiapinaantipsicótico de segunda geração13
risperidonaantipsicótico de segunda geração1750
sertralinaantidepressivo ISRS412
ziprasidonaantipsicótico de segunda geração00
Outros
clomipraminaantidepressivo tricíclico13
clonazepamansiolítico benzodiazepínico26
clorpromazinaantipsicótico de primeira geração13
levetiracetamanticonvulsivante de segunda geração13
lítio estabilizador do humor13
olanzapinaantipsicótico de segunda geração13
periciazinaantipsicótico de primeira geração13
trazodonaantidepressivo atípico13
venlafaxinaantidepressivo inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN)39
Tempo de uso do medicamentoN%
Menos de 1 mês26
De 2 a 6 meses412
De 7 meses a 1 ano823
Há mais de 1 ano1956
Não souberam responder13
Efeitos colaterais relacionados aos medicamentosN%
Agitação26
Apatia/Desânimo/Letargia926
Aumento do apetite1338
Constipação intestinal618
Diminuição do apetite26
Dor abdominal26
Ganho de peso824
Movimentos oculares involuntários13
Perda de peso13
Salivação26
Tremores412
Nenhum412
Não souberam responder13
Outros
Náusea13
Refluxo gastroesofágico13

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação aos medicamentos em uso atualmente e aos efeitos colaterais relacionados aos uso destes medicamentos. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

Dentre os efeitos colaterais decorrentes do uso dos medicamentos citados (Tabela 6), destacam-se o aumento do apetite (38%), apatia/desânimo/letargia (26%), ganho de peso (24%) e constipação intestinal (18%). Tais achados reforçam que, embora eficazes, os fármacos utilizados no manejo do TEA requerem monitoramento constante para prevenir ou minimizar efeitos indesejados. Além disso, estão em consonância com a literatura, que identifica os efeitos metabólicos (como ganho de peso e aumento do apetite) e comportamentais (como apatia e letargia) entre os mais prevalentes em pacientes em uso de antipsicóticos atípicos (De Hert et al., 2011; McCracken et al., 2002; Valentini et al., 2024). Ressalta-se que essas alterações não apenas comprometem a adesão terapêutica, mas também repercutem de forma significativa na qualidade de vida do paciente e de sua família. Nesse sentido, recomenda-se monitoramento clínico e laboratorial periódico (De Hert et al., 2011), bem como estratégias multiprofissionais de suporte — incluindo orientações nutricionais e incentivo à prática de atividade física — a fim de minimizar os impactos adversos do tratamento farmacológico.

No contexto do TEA, a farmacoterapia isolada mostra-se insuficiente, sendo necessária a associação com intervenções não medicamentosas, que incluem estratégias como psicoeducação, reestruturação cognitiva e regulação emocional. Tais abordagens são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades sociais e para a adaptação ao ambiente natural das crianças com TEA (Silva; Sousa; Macedo, 2024). Entre as intervenções relatadas na amostra (Tabela 7), a psicoterapia foi a mais frequentemente mencionada (68%), evidenciando o papel central do psicólogo. A atuação psicológica envolve avaliação diagnóstica, elaboração de intervenções clínicas individualizadas, apoio à família e promoção da inclusão. Entre os métodos mais utilizados, destaca-se a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), direcionada ao ensino de habilidades adaptativas e à modificação de comportamentos disfuncionais (Silva; Sousa; Macedo, 2024).

Em segundo lugar, observou-se (Tabela 7) a atuação do fonoaudiólogo em 47% dos casos, resultado esperado diante do elevado índice de crianças com atraso ou ausência de fala. A intervenção precoce em linguagem é essencial, uma vez que a comunicação verbal constitui um dos pilares da interação social. A terapia fonoaudiológica visa minimizar déficits comunicativos e favorecer a inclusão social por meio da ampliação das competências interativas (Silva; Sousa; Macedo, 2024).

A terapia ocupacional foi citada em 44% das respostas (Tabela 7), com ênfase no aprimoramento das habilidades motoras finas e grossas, além da autorregulação sensorial. Essa intervenção contribui para ganhos significativos na autonomia da criança, refletindo em maior independência funcional (Melo Oliveira et al., 2024).

Outras intervenções complementares também foram relatadas (Tabela 7). Entre elas, destaca-se a equoterapia, intervenção que favorece a interação social (Melo Oliveira et al., 2024). A musicoterapia, por sua vez, utiliza estímulos sonoros como meio de engajamento social e expressão emocional de maneira lúdica e acessível (Silva; Sousa; Macedo, 2024). Por fim, a atuação do nutricionista é relevante não apenas no manejo da seletividade alimentar, mas também no acompanhamento de dietas cetogênicas, em virtude de seu potencial efeito modulador sobre o metabolismo cerebral, podendo constituir estratégia adjuvante em determinados perfis clínicos de pacientes com TEA (Melo Oliveira et al., 2024).

Tabela 7 – Terapias não farmacológicas usadas para auxiliar no tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Outros métodos usados que auxiliam no tratamentoN%
Equoterapia (com cavalos)26
Fisioterapia412
Fonoaudiólogo 1647
Musicoterapia515
Nutricionista515
Psicoterapia2368
Terapia Ocupacional (TO)1544
Outros
Prática de esportes26
Psicopedagogo412

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação aos outros métodos usados que auxiliam no tratamento. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

A Tabela 8 evidencia a percepção dos responsáveis sobre a melhora dos pacientes relacionada ao tratamento farmacológico. Observa-se que 71% responderam “sim, ajudou muito”, o que sugere que a farmacoterapia exerce impacto positivo na redução de diversos comportamentos associados ao TEA, como ansiedade (53%); irritabilidade/nervosismo (32%); comportamentos repetitivos (29%); distúrbios do sono (26%); gritos (24%); e atraso na fala (24%). Além disso, os ganhos relatados com maior frequência reforçam essa percepção: melhora do sono (62%), maior calma (56%), melhora da comunicação (50%) e redução da agressividade (38%). Contudo, áreas como socialização, autoagressão e comportamentos repetitivos mais rígidos permanecem como desafios terapêuticos, exigindo intervenções específicas. Esses achados reforçam a importância de planos de tratamento individualizados e multidisciplinares, em consonância com a literatura que descreve tais domínios como de maior complexidade clínica.

Tabela 8 – Percepção dos responsáveis sobre a melhora relacionada ao tratamento farmacológico e áreas de impacto.

Percepção dos responsáveis sobre a melhora do quadro relacionada ao tratamento farmacológicoN%
Sim, ajudou muito2471
Ajudou um pouco720
Ainda não percebi melhora39
Piorou00
Não souberam responder00
Comportamentos que diminuíram ou cessaram devido ao tratamento farmacológicoN%
Agressão física contra colegas e adultos (p. ex. morder ou chutar)721
Ansiedade1853
Atraso da fala824
Comportamentos repetitivos (ex: bater palmas)1029
Desempenho de atividades solitariamente618
Diminuição do contato visual515
Distúrbios do sono926
Gritos824
Irritabilidade/ nervosismo1132
Machucava-se ou batia com a cabeça em algum lugar618
Menor compreensão comunicativa13
Necessidade de manter a rotina39
Repetição de sons39
Resistência a mudanças618
Seletividade alimentar618
Sensibilidade ao barulho515
Nenhum26
Não souberam responder00
Outros
Comportamento de oposição ou resistência13
Comportamentos positivos percebidos pelos responsáveisN%
Consegue brincar mais com outras crianças926
Dorme melhor2162
Está mais calmo(a)1956
Está menos agressivo(a)1338
Está se comunicando melhor1750
Obedece mais1029
Não perceberam mudanças00
Outros
Mais sociável13

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação aos comportamentos que diminuíram/ cessaram devido ao tratamento farmacológico e aos comportamentos positivos percebidos pelos responsáveis. Em todos os parâmetros analisados, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34).

Tabela 9 – Dificuldades enfrentadas para o tratamento/atendimento dos pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Enfrentaram dificuldade para a obtenção de tratamento/atendimentoN%
Sim2265
Não823
Um pouco412
Não souberam responder00
Principais dificuldades dos que responderam que sim ou um poucoN%
Falta de profissionais na cidade2388
Falta de dinheiro para transporte312
Falta de dinheiro para consultas/ terapias1662
Dificuldade para conseguir laudo ou diagnóstico1038
Falta de informação sobre onde buscar ajuda727
Outros14
Falta de trabalho em conjunto envolvendo saúde e educação14
Falta de tratamento eficaz (estimulação do paciente)14
Preconceito14
Rede de apoio e treinamento parental14

Fonte: Dados da pesquisa. Cada participante pôde selecionar mais de uma opção em relação às principais dificuldades enfrentadas para a obtenção de tratamento/atendimento dos pacientes TEA. Para a pergunta: “Enfrentaram dificuldade para a obtenção de tratamento/atendimento”, as porcentagens foram calculadas considerando o número total de participantes (n = 34). No entanto, para a pergunta: “Principais dificuldades dos que responderam que sim ou um pouco” as porcentagens foram calculadas considerando somente o número de participantes que responderam sim ou um pouco quando perguntados se enfrentaram dificuldade para a obtenção de tratamento/atendimento (n = 26).

De acordo com os dados apresentados na Tabela 9, 65% dos responsáveis relataram dificuldades para obter tratamento ou atendimento adequado para crianças, adolescentes e adultos jovens (até 21 anos) com TEA. Apenas 23% afirmaram não encontrar obstáculos, enquanto 12% indicaram enfrentar algumas dificuldades. Os principais fatores relatados foram: ausência de profissionais especializados na cidade (88%), limitações financeiras para custear consultas e terapias (62%), dificuldade em obter laudo ou diagnóstico adequado (38%) e falta de informações sobre onde buscar ajuda (27%), além de situações como preconceito, carência de rede de apoio e falhas na articulação intersetorial entre saúde e educação. Esses fatores não apenas comprometem a intervenção precoce, como também intensificam o estresse e reduzem a qualidade de vida dos cuidadores de pacientes com TEA (Gomes et al., 2025).

Diversos estudos indicam que, apesar dos esforços das famílias, a atenção às dificuldades financeiras enfrentadas por quem convive com o TEA ainda é insuficiente. O impacto econômico é notório, uma vez que os tratamentos, geralmente multidisciplinares e contínuos, apresentam custos elevados e muitas vezes recaem sobre os próprios responsáveis (Lavelle et al., 2014). A insuficiência de políticas públicas e de apoio governamental leva muitas famílias a recorrerem a serviços privados, gerando sobrecarga orçamentária e acentuando desigualdades no acesso. Essa realidade evidencia a necessidade de ações integradas, voltadas à conscientização social e à formulação de políticas que assegurem o acesso equitativo ao diagnóstico precoce e às intervenções necessárias (Silva; Sousa; Macedo, 2024).

4. Considerações Finais

O presente estudo enfrentou limitações relacionadas ao número de participantes, com a obtenção de apenas 34 formulários válidos, em decorrência do curto período de coleta e da ausência de alguns pacientes nas consultas com o neurologista ou psicóloga, bem como na retirada de medicamentos na Farmácia Municipal. Apesar desse cenário, os resultados obtidos permitiram traçar um panorama relevante sobre o uso de fármacos no tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sobre a evolução clínica percebida pelos responsáveis.

O TEA configura-se como uma condição complexa e multifatorial do neurodesenvolvimento, caracterizada por alterações significativas na comunicação, socialização e comportamento (Genovese; Butler, 2023). A análise da literatura demonstra que, embora o conhecimento acerca de sua etiologia e fisiopatologia tenha avançado, ainda existem lacunas que dificultam tanto o diagnóstico precoce quanto a elaboração de estratégias terapêuticas plenamente eficazes (Eissa et al., 2018; Nascimento; Silva; Guedes, 2021).

Observou-se predominância de diagnósticos em crianças e adolescentes do sexo masculino, bem como maior frequência na faixa etária de 6 a 10 anos, em consonância com os dados epidemiológicos nacionais. As comorbidades mais relatadas foram TDAH, TOD e transtorno depressivo, o que reforça a complexidade do manejo clínico. Em relação à farmacoterapia, risperidona e aripiprazol destacaram-se como os medicamentos mais utilizados, seguidos por sertralina, venlafaxina, canabidiol, melatonina e metilfenidato, evidenciando uma abordagem centrada no manejo de sintomas comportamentais e associados.

Os dados apontam que as terapias medicamentosas apresentam impacto positivo na evolução dos pacientes, com destaque para melhorias no sono; maior calma; melhora da comunicação; e redução da agressividade. No entanto, persistem desafios significativos, uma vez que áreas como socialização, autoagressão e comportamentos repetitivos mais rígidos ainda demandam intervenções terapêuticas específicas. Ademais, a dificuldade de acesso a profissionais especializados, as barreiras financeiras e a demora no diagnóstico configuram fatores que podem comprometer a efetividade do tratamento e o desenvolvimento global do paciente.

Assim, conclui-se que o cuidado ao indivíduo com TEA no âmbito do SUS exige uma abordagem multiprofissional contínua, com integração entre diferentes áreas de atuação, políticas públicas efetivas e estratégias que garantam acesso equitativo aos recursos terapêuticos. Este estudo contribui ao oferecer evidências originais sobre a percepção dos responsáveis quanto ao impacto da farmacoterapia, destacando avanços clínicos relevantes, mas também desafios estruturais ainda não superados. Investimentos em diagnóstico precoce, ampliação da rede de profissionais capacitados e apoio consistente às famílias são fundamentais não apenas para avanços clínicos, mas também para promover inclusão social e justiça em saúde. Futuras pesquisas, com amostras ampliadas e acompanhamento longitudinal, poderão aprofundar a compreensão da relação entre farmacoterapia, intervenções multiprofissionais e evolução clínica dos indivíduos com TEA.

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1Graduanda em Medicina – Instituição: Faculdades de Dracena-UNIFADRA-FUNDEC. Endereço: Rua Bahia, 322, Metrópole, Dracena – São Paulo, CEP: 17910-106. E-mail: daiane.alquino@unifadra.fundec.edu.br
2Graduanda em Medicina – Instituição: Faculdades de Dracena UNIFADRA-FUNDEC. Endereço: Rua Bahia, 322, Metrópole, Dracena – São Paulo, CEP: 17910-106. E-mail: isabela.campos@unifadra.fundec.edu.br
3Graduanda em Medicina da UNIFADRA-FUNDEC. Instituição: Faculdades de Dracena. Endereço: Rua Bahia, 322, Metrópole, Dracena – São Paulo, CEP: 17910-106. E-mail: larissa.vicini@unifadra.fundec.edu.br
4Docente do Curso de Medicina da UNIFADRA-FUNDEC. Instituição: Faculdades de Dracena. Endereço: Rua Bahia, 322, Metrópole, Dracena – São Paulo, CEP: 17910-106. E-mail: joyce.gomes@docente.fundec.edu.br

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