REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202503222140
Breno Vilela Mareco; Gabriela de Oliveira Borges; Hanna Lethicia Moura Machado; Marco Fabio Spinelli Filho; Beatriz Dias Uzueli; Beatriz Amaral Buqui; Giovana Finatto Do Nascimento; Laura Rubel Barzotto
RESUMO:
INTRODUÇÃO: O traumatismo ocular e as fraturas da órbita ocular são lesões frequentemente observadas em contextos de acidentes e traumas, impactando significativamente a saúde visual e a qualidade de vida. No Brasil, esses traumas estão associados a diversos fatores, como acidentes de trânsito, lesões domésticas e agressões. O estudo da distribuição desses casos e das variáveis envolvidas é essencial para a implementação de medidas preventivas eficazes e para o desenvolvimento de estratégias de atendimento de emergência. OBJETIVOS: O objetivo do presente trabalho foi realizar o levantamento dos casos e de características epidemiológicas acerca da morbidade dos casos de traumatismo ocular no Brasil, em um período de 20 anos. METODOLOGIA: O presente estudo trata-se de um estudo epidemiológico ecológico, descritivo, transversal e retrospectivo. Os dados foram coletados a respeito dos casos notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). A coleta dos dados foi realizada em março de 2025, sendo selecionados os dados relativos a traumatismo do olho e órbita ocular. Utilizaram-se as seguintes variáveis: número de casos por região, distribuição anual, raça, idade e caráter de internação (CID S05). RESULTADOS: Entre 2008 e 2024 houveram 38.930 casos de traumatismo de olho e órbita ocular. A distribuição desses casos por região foi: 1) Região Norte: 2.208 (5,6%), 2) Região Nordeste: 6.999 (18%), 3) Região Sudeste: 18.539 (47,6%), 4) Região Sul: 7.858 (20,2%) e 5) Região Centro-Oeste: 3.326 (8,6%). A distribuição anual dos casos se deu: 1) 2008: 155 (0,4%), 2) 2009: 1.787 (4,6%), 3) 2010: 1.946 (5%), 4) 2011: 1.996 (5,1%), 5) 2012: 1.987 (5,1%), 6) 2013: 2.037 (5,2%), 7) 2014: 2.290 (5,9%), 8) 2015: 2.657 (6,8%), 9) 2016: 2.739 (7%), 10) 2017: 2.764 (7,1%), 11) 2018: 2.683 (6,9%), 12) 2019: 2.588 (6,6%), 13) 2020: 2.494 (6,4%), 14) 2021: 2.879 (7,4%), 15) 2022: 2.841 (7,3%), 16) 2023: 2.723 (7%), 17) 2024: 2.364 (6,2%). Os atendimentos foram divididos nos seguintes tipos: 1) eletivo: 3.630 (9,3%), 2) urgência: 30.667 (78,7%), 3) acidente no local de trabalho ou à serviço da empresa: 5 (0,2%), 4) acidentes de trânsito: 521 (1,3%) e 5) lesões causadas por agentes químicos e/ou físicos 4.107 (10,5%). A distribuição dos acidentes por faixa etária se deu: 1) Menor de 1 ano: 109 (0,2%), 2) 1 a 9 anos: 4.694 (12%), 3) 10 a 19 anos: 4.453 (11,4%), 4) 20 a 29 anos: 6.901 (17,7%), 5) 30 a 39 anos: 6.658 (17,1%), 6) 40 a 49 anos: 6.113 (15,7%), 7) 50 a 59 anos: 4.724 (12,1%), 8) 60 a 69 anos: 2.942 (7,5%), 9) 70 a 79 anos: 1.508 (3,9%) e 10) 80 anos ou mais: 828 (2,1%). Os acidentes foram divididos nos sexos: 1) masculino: 31.894 (81,9%) e 2) feminino 7.036 (18,1%). A distribuição por raça se deu: 1) branca: 12.995 (33,4%), 2) preta: 1.604 (4,1%), 3) parda: 13.062 (33,5%), 4) amarela: 337 (0,9%), 5) indígena: 72 (0,1%) e 6) sem informação: 10.860 (28%). CONCLUSÃO: Os dados analisados revelam uma alta incidência de traumatismo ocular no Brasil, com predominância em homens jovens e na Região Sudeste. A distribuição das lesões por tipo de acidente e faixa etária destaca a necessidade de ações preventivas específicas, como campanhas educativas e melhorias nas condições de segurança. Além disso, a desigualdade regional e racial no acesso ao tratamento evidência a importância de políticas públicas que garantam cuidados adequados a toda a população.
PALAVRAS-CHAVE: “Doenças do cristalino”; “Cristalino” ; “Epidemiologia”.
INTRODUÇÃO:
O traumatismo ocular é uma das principais causas de cegueira e baixa acuidade visual no Brasil, com grande impacto na saúde pública. Evidências apontam que as lesões oculares ocorrem frequentemente em acidentes de trabalho, domésticos, esportivos, de trânsito e agressões. A faixa etária mais afetada é a de adultos jovens, especialmente homens, com destaque para as regiões Sudeste e Sul, que apresentam grandes centros urbanos com altas taxas de crescimento populacional, expressivos índices de desigualdades sociais e maior violência urbana. Vale destacar também os casos expressivos de traumatismo ocular entre crianças, são, normalmente, através de materiais infanto-escolares, galhos de árvores e pedaços de madeira. (ARAGAKI, 2003).
As fraturas da órbita ocular, muitas vezes associadas ao traumatismo ocular, ocorrem principalmente em acidentes de alta energia, como colisões de trânsito. Essas fraturas incluem lesões no assoalho da órbita, na parede lateral e medial e no arco zigomático. Tais lesões podem estar associadas a complicações graves, como hemorragias ou perfuração do globo ocular, exigindo intervenções cirúrgicas para reparo (Silva & Costa, 2018).
De acordo com a terminologia de trauma ocular de Birmingham (BETT), o trauma ocular pode ser classificado em lesão ocular aberta (ferida de espessura total da parede ocular, incluindo córnea e esclera), dentro desta categoria encontra-se a ruptura (causada por um objeto contundente) e a laceração (causada por um objeto pontiagudo), e lesão ocular fechada (sem ferida de espessura total da parede ocular), sendo esta, subdividida em contusão (causada por um objeto contundente) e laceração lamelar (ferida de espessura parcial da parede ocular). As lacerações podem ser subdivididas em lesão penetrante (somente ferida de entrada), lesão perfurante (feridas de entrada e saída) e lesão penetrante com objeto estranho retido (Saraiva, Fábio Petersen et al 2016).
O manejo do traumatismo ocular envolve cuidados emergenciais e, frequentemente, tratamento cirúrgico. Uma porcentagem considerável está associada a acidentes ocupacionais, os quais podem levar à perda parcial ou completa da capacidade de trabalhar, ou em alguns casos, à morte. Apesar de a grande maioria dos trabalhadores ter consciência da necessidade de utilizar equipamentos de proteção, e de estar ciente dos riscos, o uso desses equipamentos não é frequente. Muitos não são devidamente instruídos sobre seu uso correto, ou infelizmente, não possuem acesso a eles. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, a cada ano, 55 milhões de lesões oculares resultam na perda de pelo menos um dia de atividade laboral. (Saraiva, Fábio Petersen et al 2016). A prevenção de lesões, por meio do uso de equipamentos de proteção, é fundamental para reduzir a taxa de traumatismos. Estudos destacam a importância de campanhas educativas para aumentar a conscientização sobre a proteção ocular (Lima & Rodrigues, 2020). Portanto, informar a população, regulamentar a fabricação de brinquedos, exigir o uso de óculos de proteção, capacetes e cintos de segurança, além de adotar outras medidas protetivas, são estratégias importantes para reduzir a ocorrência desses traumas.(ROMÃO, 1997).
OBJETIVOS:
O objetivo do presente trabalho foi realizar o levantamento dos casos e das características epidemiológicas relativas à morbidade dos casos de traumatismo do olho e da órbita ocular no Brasil, em um período de 20 anos.
METODOLOGIA:
O presente estudo trata-se de um estudo epidemiológico ecológico, descritivo, transversal e retrospectivo. Os dados foram coletados a respeito dos casos novos notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), os quais encontram-se disponíveis no banco de dados online do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).
A coleta dos dados foi realizada em março de 2025, sendo selecionados os dados relativos a Traumatismo do olho e da órbita ocular. Utilizou-se as variáveis: número de casos por região, distribuição anual, raça, idade, caráter de internação (CID S05).
Em conformidade com a Resolução no 4661/2012, como o estudo trata-se de uma análise realizada por meio de banco de dados secundários de domínio público, o estudo não foi encaminhado para apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa.
RESULTADOS:
Entre 2008 e 2024 houveram 38.930 casos de traumatismo ocular.
A distribuição desses casos por região se deu: 1) Região Norte: 2.208 (5,6%), 2) Região Nordeste: 6.999 (18%), 3) Região Sudeste: 18.539 (47,6%), 4) Região Sul: 7.858 (20,2%) e 5) Região Centro-Oeste: 3.326 (8,6%) (Gráfico 1). Sendo a região Sudeste a com maior quantidade de casos.
Gráfico 1. Distribuição dos casos de traumatismo ocular.

Fonte: Datasus.
A distribuição anual dos casos se deu: 1) 2008: 155 (0,4%), 2) 2009: 1.787 (4,6%), 3) 2010: 1.946 (5%), 4) 2011: 1.996 (5,1%), 5) 2012: 1.987 (5,1%), 6) 2013: 2.037 (5,2%), 7) 2014: 2.290 (5,9%), 8) 2015: 2.657 (6,8%), 9) 2016: 2.739 (7%), 10) 2017: 2.764 (7,1%), 11) 2018: 2.683 (6,9%), 12) 2019: 2.588 (6,6%), 13) 2020: 2.494 (6,4%), 14) 2021: 2.879 (7,4%), 15) 2022: 2.841 (7,3%), 16) 2023: 2.723 (7%), 17) 2024: 2.364 (6,2%) (Gráfico 2). Sendo o ano de 2021 com o maior número de casos.
Gráfico 2. Distribuição anual dos casos de traumatismo ocular.

Fonte: Datasus.
Os atendimentos foram divididos nos seguintes caráter: 1) eletivo: 3.630 (9,3%), 2) urgência: 30.667 (78,7%), 3) acidente no local de trabalho ou à serviço da empresa: 5 (0,2%), 4) acidentes de trânsito: 521 (1,3%) e 5) lesões causados por agentes químicos e/ou físicos 4.107 (10,5%) (Tabela 1). Sendo os acidentes por caráter de urgência mais frequentes no período analisado.
Tabela 1. Distribuição dos casos de traumatismo ocular por caráter de atendimento.

Fonte: Datasus.
A distribuição dos acidentes por faixa etária se deu: 1) Menor de 1 ano: 109 (0,2%), 2) 1 a 9 anos: 4.694 (12%), 3) 10 a 19 anos: 4.453 (11,4%), 4) 20 a 29 anos: 6.901 (17,7%), 5) 30 a 39 anos: 6.658 (17,1%), 6) 40 a 49 anos: 6.113 (15,7%), 7) 50 a 59 anos: 4.724 (12,1%), 8) 60 a 69 anos: 2.942 (7,5%), 9) 70 a 79 anos: 1.508 (3,9%), 10) 80 anos e mais: 828 (2,1%) (Gráfico 3). Sendo a faixa etária de 30 a 39 anos com maior número de casos.
Gráfico 3. Distribuição por faixa etária dos casos de traumatismo ocular.

Fonte: Datasus.
Os acidentes foram divididos nos sexos: 1) masculino: 31.894 (81,9%) e 2) feminino 7.036 (18,1%). Sendo o sexo masculino com maior número de casos (Tabela 2).
Tabela 2. Distribuição dos casos de traumatismo ocular por caráter de atendimento.

Fonte: Datasus.
A distribuição por raça se deu: 1) branca: 12.995 (33,4%), 2) preta: 1.604 (4,1%), 3) parda: 13.062 (33,5%), 4) amarela: 337 (0,9%), 5) indígena: 72 (0,1%), 6) sem informação: 10.860 (28%) (Gráfico 4). Sendo a raça parda com maior número de casos.
Gráfico 4. Distribuição por raça dos casos de traumatismo ocular.

Fonte: Datasus.
DISCUSSÃO:
Os dados coletados do DATASUS indicam que, entre 2008 e 2024, houve um total de 38.930 casos de traumatismo ocular no Brasil. A distribuição geográfica desses casos mostra uma concentração significativa nas regiões mais populosas e urbanizadas, com destaque para a Região Sudeste (47,6%), seguida pelas regiões Sul (20,2%) e Nordeste (18%). A predominância de casos na Região Sudeste pode estar associada à maior densidade populacional e ao maior acesso a serviços de saúde especializados, já que áreas mais urbanizadas tendem a ter maior capacidade de notificação de acidentes (Monteiro & Souza, 2019). As regiões Norte e Centro-Oeste apresentam números menores, o que pode refletir tanto a menor densidade populacional quanto possíveis subnotificações, além de fatores socioeconômicos e limitações na infraestrutura de saúde (Lima & Rodrigues, 2020).
Ao analisar a distribuição temporal dos casos, observa-se um aumento gradual, seguido de uma diminuição nos números a partir de 2020, possivelmente devido aos impactos da pandemia de COVID-19, que reduziu significativamente o tráfego e as atividades externas, refletindo também nas estatísticas de traumatismos. A média anual de casos (aproximadamente 2.600) é consistente com o que é encontrado em estudos nacionais, como o de Silva e Costa (2018), que reportaram uma incidência de 2.800 casos anuais em hospitais de grande porte.
A distribuição por faixa etária revela que os adultos jovens são os mais afetados, com destaque para os grupos de 20 a 29 anos (6.901 casos) e 30 a 39 anos (6.658 casos). Esses dados são coerentes com outros estudos nacionais e internacionais que apontam uma maior vulnerabilidade ao traumatismo ocular entre homens adultos jovens, especialmente devido à maior exposição a atividades de risco, como esportes e acidentes de trânsito (Costa & Almeida, 2017). A prevalência em homens (81,9% dos casos) também segue essa tendência, corroborando com a literatura, que aponta o sexo masculino como o mais afetado por traumatismos oculares (Souza & Almeida, 2021).
Em relação à etiologia dos acidentes, a maioria dos casos (78,7%) foi classificado como de urgência, o que destaca a gravidade dos traumatismos e a necessidade de atendimento imediato. As lesões causadas por agentes químicos e físicos (10,5%) e acidentes de trânsito (1,3%) também representam um número significativo, o que sugere que campanhas de prevenção devem abordar tanto acidentes domésticos quanto acidentes no trânsito. A baixa incidência de acidentes no local de trabalho ou a serviço (0,2%) pode indicar a eficácia das medidas de segurança no ambiente de trabalho, mas também sugere que mais investimentos e regulamentações podem ser necessários, principalmente em áreas de risco, como a construção civil e indústrias (Lima & Rodrigues, 2020).
A distribuição racial mostra que a maioria dos casos ocorre entre as pessoas de raça branca (33,4%) e parda (33,5%), com subnotificação em 28% dos registros . Essa vulnerabilidade pode estar relacionada a fatores socioeconômicos e ao acesso desigual aos cuidados de saúde, que variam entre as regiões do país (Monteiro & Souza, 2019).
Esses dados reforçam a necessidade de estratégias preventivas focalizadas nas regiões com maior número de casos e nas faixas etárias mais vulneráveis. Além disso, é fundamental investir na educação para a prevenção de acidentes, no uso de equipamentos de proteção, especialmente em ambientes de risco, e em campanhas de conscientização, principalmente para a população jovem e masculina.
CONCLUSÃO:
Conclui-se que, entre 2008 e 2024, ocorreram 38.930 casos de traumatismo ocular e da órbita ocular no Brasil, com pico em 2021 e predominância de atendimentos de urgência (78,7%), afetando principalmente indivíduos de 30 a 39 anos, do sexo masculino (81,9%) e da raça parda (33,5%). A Região Sudeste registrou o maior número de casos (47,6%), seguida pelo Sul (20,2%) e Nordeste (18%), com um aumento progressivo até 2021 e leve declínio nos anos seguintes. Acidentes no ambiente de trabalho foram raros (0,2%), enquanto lesões causadas por agentes químicos e físicos representaram 10,5% dos casos. A alta incidência entre homens jovens indica maior exposição a fatores de risco, especialmente no trabalho e no trânsito, ressaltando a necessidade de medidas preventivas eficazes, como campanhas educativas e reforço da segurança. Além disso, a distribuição desigual por raça e região evidencia disparidades socioeconômicas no acesso à saúde, reforçando a importância de políticas públicas mais inclusivas para reduzir os impactos desses traumatismos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. ARAGAKI, G. N. et al. Estudo epidemiológico dos traumas oculares graves em um Hospital Universitário de São José do Rio Preto – SP. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, v. 66, p. 473–476, 1 ago. 2003.
2. Costa, T. S., & Almeida, M. A. (2017). Traumatismo ocular e órbita: diagnóstico e manejo. Revista de Medicina e Saúde Pública, 48(1), 60-67.
3. Lima, D. S., & Rodrigues, A. G. (2020). Trauma ocular e suas complicações: uma revisão crítica. Jornal Brasileiro de Oftalmologia, 79(6), 450-457.
4. ROMÃO, E. Traumatologia ocular. Medicina (Ribeirão Preto), v. 30, n. 1, p. 76–78, 30 mar. 1997.
5. Saraiva, Fábio Petersen et al (2016). Epidemiological and occupational profile of eye trauma at a referral center in Espírito Santo, Brazil. Revista Brasileira de Oftalmologia, 76 (1), 7-10
6. Silva, F. A., & Costa, R. M. (2018). Fraturas orbitárias em pacientes traumatizados: um estudo de 10 anos em um hospital universitário. Arquivos de Oftalmologia, 76(2), 105-112.
7. Souza, A. L., & Almeida, S. T. (2021). Perfil dos traumatismos oculares no Brasil: uma análise comparativa entre as regiões. Oftalmologia Brasileira, 88(3), 222-229.