REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511300145
Hygor Rodrigues Soares de Oliveira
Karine Ferreira Patrocinio
Millena Victoria Soares do Espírito Santo
Pamela Vitorya de Almeida
Joice de Freitas Fonseca
RESUMO
Objetivo: Sintetizar as principais tendências teóricas e empíricas relacionadas à emergência e reemergência de zoonoses, com ênfase nos determinantes ambientais, socioeconômicos e nas estratégias de vigilância sob a perspectiva da Saúde Única. Métodos: Revisão narrativa de natureza qualitativa realizada nas bases Scielo, PubMed e Google Acadêmico, contemplando publicações em português e inglês entre 2012 e 2025. Resultados: A análise conjunta de que 60-75% das doenças infecciosas emergentes são de origem zoonótica, causando aproximadamente 700.000 mortes anuais. Os principais determinantes incluem mudanças no uso da terra, comércio de animais silvestres, mudanças climáticas e falhas nos sistemas de vigilância. Eventos recentes como SARS-CoV-2, Ebola e gripe aviária demonstram a urgência de abordagens integradas. Conclusão: A prevenção de futuras pandemias requer uma agenda interdisciplinar que integre genômica, ecologia, epidemiologia e ciências sociais, fundamentada nos princípios da Saúde Única, com ênfase em vigilância preditiva, orientações ecológicas e políticas baseadas em evidências.
Palavras-chave: Zoonoses; Doenças Emergentes; Saúde Única; Repercussão; Vigilância Epidemiológica.
INTRODUÇÃO
A interação contínua e crescente entre seres humanos, animais e o meio ambiente levou ao aumento da incidência de surtos de doenças zoonóticas nas últimas décadas. As zoonoses são definidas como doenças ou infecções naturalmente transmitidas de um reservatório animal não humano para um ser humano, com possíveis desfechos que podem variar desde uma infecção sem transmissão subsequente até a transmissão sustentada de pessoa para pessoa (Morse et al., 2012). Estima-se que aproximadamente 60-75% das doenças infecciosas emergentes sejam de origem zoonótica, causando cerca de 700.000 mortes anualmente e impondo carga substancial global à saúde pública (Salkeld et al., 2023).
A dinâmica de contato resultante da globalização, das transformações antrópicas e das alterações ecológicas influencia a prevalência de patógenos e a diversidade genética, modificando o intervalo de tempo necessário para que ocorram mutações adaptativas em hospedeiros humanos (Nuismer et al., 2022). Neste cenário, as doenças infecciosas emergentes e reemergentes representam um desafio significativo para a saúde pública global. As doenças infecciosas emergentes referem-se a infecções que passam a ocorrer em novas populações hospedeiras, expandem sua distribuição geográfica ou apresentam aumento na incidência, gravidade ou capacidade de transmissão. Por sua vez, as doenças reemergentes correspondem a infecções previamente reconhecidas que retornam ou se intensificam em decorrência de falhas nas medidas de controle, alterações nos fatores ecológicos ou mudanças nos determinantes epidemiológicos. (Salkeld et al., 2023).
A transmissão zoonótica (spillover) é um processo ecológico e evolutivo de várias etapas, nenhum patógeno se move de reservatórios de animais para humanos, podendo causar surtos ou pandemias. Frameworks teóricos contemporâneos conceituam o spillover como uma sequência hierárquica de barreiras, exposição, infecção do hospedeiro humano e transmissão subsequente, que juntas determinam o potencial de emergência epidêmica (Pauciullo et al., 2024; Lo Iacono et al., 2016). Esse risco é moldado pela biologia do hospedeiro, pelas interfaces ecológicas, pelo uso da terra, pelas mudanças climáticas e pelo comportamento humano, podendo ser limitado por estratégias integradas de vigilância em Saúde Única (Escudero-Pérez et al., 2023).
Emergências recentes, como SARS, gripe aviária H5N1, Ebola e COVID-19, evidenciam a rapidez com que a disseminação de doenças pode gerar perturbações globais sérias na saúde, na sociedade e na economia (Saldaña et al., 2024; Ellwanger & Chies, 2022). Apesar dessa urgência, ainda persistem lacunas críticas de conhecimento sobre os determinantes mecanísticos da transmissão entre espécies, a dinâmica populacional dos reservatórios, o mapeamento de risco em escala fina e o desenvolvimento de sistemas de vigilância preditiva acionáveis (Johnson et al., 2015; Lee-Cruz et al., 2021).
Diante da complexidade e da ameaça representada pelas zoonoses emergentes, o alinhamento de esforços entre as áreas de medicina humana, medicina veterinária, agronomia, ecologia e ciências sociais torna-se fundamental. Torna-se necessária uma agenda de pesquisa interdisciplinar em Saúde Única (One Health), capaz de integrar genômica, ecologia, epidemiologia e ciências sociais para subsidiar estratégias robustas de prevenção, preparação e resposta a futuras ameaças infecciosas (Bhatia et al., 2024; Sokolow et al., 2019).
Diante desses aspectos, esta revisão narrativa busca sintetizar as principais tendências teóricas e empíricas relacionadas à emergência e reemergência de zoonoses, com ênfase nos determinantes ambientais, socioeconômicos e nas estratégias de vigilância sob a perspectiva da Saúde Única.
METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa de natureza qualitativa e descritiva, destinada à análise teórica sobre a emergência e reemergência das zoonoses sob a perspectiva da Saúde Única. O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases de dados ScieLo, PubMed e Google Acadêmico, contemplando artigos em português e inglês publicados entre 2012 e 2025.
Os termos de pesquisa utilizados incluíram: “doenças emergentes”, “spillover”, “transmissão zoonótica”, “One Health”, “doenças emergentes”, “zoonoses”, combinados com operadores booleanos (AND, OR). Foram selecionados artigos que abordavam aspectos biológicos, epidemiológicos, ecológicos, ambientais e sociais relacionados ao surgimento, ressurgimento e controle das zoonoses.
A escolha dos estudos leva em consideração os seguintes critérios: (1) relevância temática para os objetivos da revisão; (2) atualidade das publicações, priorizando estudos dos últimos 10 anos; (3) qualidade metodológica e rigor científico; (4) coerência com a abordagem One Health. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e narrativas, capítulos de livros e relatórios técnicos de organizações internacionais de saúde.
As informações coletadas foram examinadas por leitura crítica, interpretação contextual e análise comparativa, buscando identificar padrões, tendências, convergências e lacunas na interface entre saúde humana, animal e ambiental. A análise foi fundamentada nos princípios conceituais da abordagem Saúde Única, abrangendo uma compreensão ampla, integrada e interdisciplinar da dinâmica das doenças emergentes e reemergentes.
DESENVOLVIMENTO
Determinantes Ecológicos e Ambientais do Spillover Zoonótico
Uma análise comparativa da literatura revela um conjunto consistente de tendências relacionadas à emergência e reemergência de doenças infecciosas, com destaque para a influência de determinantes ambientais, socioeconômicos e ecológicos. Diversos estudos demonstram que as mudanças na paisagem, as interações entre as espécies em fronteiras ecológicas e a ecologia dos substratos são determinantes centrais do risco de transbordamento (Filion et al., 2024; Faust et al., 2018).
Modelos matemáticos e empíricos indicam que o maior risco de transbordamento geralmente ocorre em níveis intermediários de conversão de habitat nas paisagens observadas (Faust et al., 2018). Nos extremos, habitat completamente preservado ou totalmente convertido, o risco tende a ser menor, enquanto paisagens em transição com mosaicos heterogêneos apresentam probabilidade máxima de contato entre reservatórios silvestres e humanos. A sobreposição das áreas de distribuição de hospedeiros reservatórios e acidentais, bem como a heterogeneidade dos mosaicos de habitat, aumenta significativamente a probabilidade de transbordamento. Por exemplo, a modelagem de conjunto revelou que a sobreposição da distribuição de espécies e a diversidade de habitat aumenta o risco de surtos de ebolavírus na África Central e Ocidental (Lee-Cruz et al., 2021; Escudero-Pérez et al., 2023).
A dinâmica populacional e a história de vida dos reservatórios também influenciam o risco de emergência. Reservatórios com maior longevidade, estrutura demográfica complexa ou picos populacionais sazonais elevam a probabilidade de transbordamento e influenciam a diversidade genética viral, favorecendo mutações adaptativas que facilitam a transmissão humana (Nuismer et al., 2022). Estudos sobre morcegos, importantes reservatórios de vírus zoonóticos como Nipah, Hendra e coronavírus, demonstram que fatores ecológicos, incluindo comportamento de forrageamento, padrões de empoleiramento e dinâmica de infecção dentro de colônias, interagem com mudanças ambientais antrópicas para modular o risco de transbordamento (Hayman et al., 2013).
Impactos Antrópicos: Desmatamento, Urbanização e Comércio de Animais Silvestres
As transformações antrópicas constituem alguns dos principais motores contemporâneos da emergência de doenças zoonóticas. Processos como desmatamento, expansão urbana, intensificação agrícola e aceleração da circulação global promovem a criação de novas interfaces entre seres humanos, animais domésticos e fauna silvestre, ampliando significativamente as oportunidades de transmissão interespecífica (Bourquin, 2022; Glidden et al., 2021).
A intensificação da agricultura, especialmente em sistemas de produção que misturam múltiplas espécies animais (suínos, aves, animais silvestres), cria condições ideais para a amplificação viral e a emergência de patógenos com alta plasticidade de hospedeiro, característica associada ao maior potencial pandêmico (Johnson et al., 2015). O comércio de animais silvestres e práticas de caça para subsistência ou comércio (carne selvagem) representam vias diretas de exposição humana a patógenos zoonóticos, conforme documentado em surtos de Ebola, SARS e outros eventos de disseminação (Milbank & Vira, 2022).
Estudos recentes enfatizam que a perda de biodiversidade mediada por humanos altera a composição das comunidades de hospedeiros de formas que podem tanto diluir quanto amplificar o risco de transmissão, dependendo do contexto ecológico específico (Glidden et al., 2021). Espécies generalistas, muitas vezes mais tolerantes a perturbações antrópicas, podem atuar como amplificadores de patógenos em ambientes degradados, enquanto comunidades biodiversas intactas podem apresentar efeito de diluição.
Mudanças Climáticas e Expansão Geográfica de Vetores
As mudanças climáticas atuam como modulador central na ecologia das doenças infecciosas, favorecendo a expansão geográfica de vetores e reservatórios e criando novos cenários epidemiológicos (Keatts et al., 2021). Alterações em temperatura, variações e padrões sazonais modificam a distribuição, abundância e fenologia de artrópodes (mosquitos, carrapatos), hospedeiros vertebrados e patógenos, possibilitando a emergência de doenças em regiões anteriormente não endêmicas.
Estudos em biomas árticos e boreais, por exemplo, demonstram que o aquecimento rápido está alterando as relações hospedeiro-patógeno e aumentando o risco futuro de zoonoses em populações humanas que dependem da caça e uso de fauna silvestre (Keatts et al., 2021). A dinâmica sazonal dos reservatórios e a variabilidade climática influenciam a prevalência de infecção e, consequentemente, a probabilidade temporal de transbordamento, conforme documentado em mapeamentos de risco para Ebola e outras febres hemorrágicas virais (Lee-Cruz et al., 2021).
Vigilância Epidemiológica e Sistemas de Detecção Precoce
O papel estratégico da vigilância epidemiológica emerge como ponto convergente na literatura. A capacidade de detectar precocemente patógenos emergentes determina a efetividade das respostas em saúde pública e pode prevenir a amplificação de surtos localizados em pandemias globais (Wang et al., 2025; Bhatia et al., 2024). Sistemas de vigilância robustos, integrados e multissetoriais são essenciais para mitigar riscos sanitários, alinhando-se aos princípios da Saúde Única.
Os avanços recentes incluem o desenvolvimento de ferramentas de alerta precoce baseadas em modelagem preditiva, mapeamento de adequação em escala fina e integração de dados ecológicos, climáticos e epidemiológicos. Por exemplo, sistemas de monitoramento para influenza aviária H9N2 utilizam sinais de alerta precoce para avaliar o risco de transbordamento de múltiplos subtipos de vírus influenza, permitindo vigilância direcionada e intervenções preventivas (Wang et al., 2025).
Estruturas unificadas para quantificar a dinâmica de infecção em reservatórios, taxas de contato e probabilidade de transbordamento têm sido aplicadas a doenças como febre de Lassa, revelando lacunas críticas em dados temporais sobre abundância de hospedeiros e prevalência de infecção que limitam a abundância de modelos preditivos (Lo Iacono et al., 2016). A integração de vigilância em saúde humana, animal e ambiental, vigilância sindrômica, monitoramento de reservatórios, sequenciamento genômico em tempo real, representa a fronteira atual para detecção e resposta rápidas.
Estratégias de Prevenção e Intervenções Ecológicas sob a Perspectiva One Health
A literatura contemporânea enfatiza que intervenções ecológicas, que modificam o contexto ambiental e as interfaces de contato, podem complementar medidas biomédicas tradicionais (vacinação, tratamento) e ofertas de soluções escaláveis e confortáveis para reduzir o risco de transbordamento (Sokolow et al., 2019). Os exemplos incluem manejo de habitat para reduzir a sobreposição entre fauna silvestre e áreas humanas, regulamentação do comércio de animais silvestres, práticas agrícolas que minimizam o contato entre animais domésticos e silvestres, e restauração ecológica para fortalecer efeitos de diluição.
A abordagem One Health integra conhecimento e ação entre setores de saúde humana, veterinária, ambiental e social, monitorando que a saúde humana é inseparável da saúde animal e ambiental (Bhatia et al., 2024). Políticas baseadas em evidências que incorporam conhecimento local e indígena, mantêm práticas de alto risco (mercados de animais vivos de alta densidade e diversidade taxonômica) e promovem a coexistência sustentável entre humanos e fauna silvestre são componentes essenciais de estratégias de prevenção efetiva (Milbank & Vira, 2022).
Apesar dos avanços conceituais, persistem lacunas na implementação operacional dos sistemas One Health, incluindo barreiras institucionais, falta de financiamento sustentado, e desafios na integração de dados e compartilhamento de informações entre setores. A avaliação empírica de disciplinas ecológicas em escala e análises de custo-benefício permaneceram escassas, limitando a escalabilidade de medidas promissórias (Sokolow et al., 2019).
DISCUSSÃO
A síntese da literatura revela que a emergência e reemergência de zoonoses são específicas multifatoriais, determinadas pela interação complexa entre fatores ecológicos, ambientais, socioeconômicos e biológicos. A predominância de abordagens integrativas nos estudos recentes confirma o movimento da literatura rumo a modelos explicativos holísticos, alinhados ao arcabouço conceitual da Saúde Única, que compreende a saúde como características multidimensionais e interdependentes (Morse et al., 2012; Salkeld et al., 2023).
Os resultados reforçam que nenhuma disciplina isolada é capaz de explicar plenamente a emergência de novos patógenos, sustentando a necessidade de abordagens intersetoriais (Bhatia et al., 2024). A questão entre virologia, ecologia, epidemiologia, ciências sociais e políticas públicas é essencial para compreender e mitigar o risco de futuras pandemias. Esses resultados corroboram a suposição teórica de que o ambiente funciona como modulador central na emergência de doenças, conforme evidenciado pelos efeitos das mudanças climáticas e da pressão humana sobre os ecossistemas (Keatts et al., 2021; Faust et al., 2018).
A análise dos determinantes ecológicos demonstra que as paisagens em transição, com níveis intermediários de conversão de habitat, apresentam risco máximo de repercussão devido ao aumento de interfaces de contato entre reservatórios silvestres e humanos (Faust et al., 2018; Filion et al., 2024). Esta descoberta tem implicações práticas importantes para políticas de uso da terra e conservação, indicando que as estratégias de desenvolvimento devem considerar explicitamente os riscos epidemiológicos associados à fragmentação de habitat. A modelagem preditiva de áreas de alto risco, como demonstrada para o ebolavírus na África, oferece ferramentas concretas para direcionar vigilância e intervenções preventivas (Lee-Cruz et al., 2021).
Os impactos antrópicos, particularmente o comércio de animais silvestres e a intensificação agrícola, emergem como fatores críticos que podem ser modificados por políticas públicas (Milbank & Vira, 2022; Bourquin, 2022). A identificação de vírus com alta plasticidade de hospedeiros com maior potencial pandêmico fornece objetivos para priorização em sistemas de vigilância (Johnson et al., 2015). Estas descobertas sugerem que investimentos em regulamentação de mercados de animais vivos e em práticas agrícolas que reduzem a mistura de espécies podem ter retorno significativo em termos de prevenção de pandemias.
De modo complementar, a literatura demonstra que, além das causas ambientais e socioeconômicas, a estrutura dos sistemas de vigilância configura-se como eixo estratégico para mitigar riscos (Wang et al., 2025; Lo Iacono et al., 2016). A capacidade de detecção precoce, vigilância integrada entre setores e uso de ferramentas preditivas baseadas em modelagem e mapeamento geoespacial representam elementos críticos para prevenção de pandemias. O desenvolvimento de sistemas de alerta precoce para influenza aviária H9N2, por exemplo, demonstra uma técnica prevista de vigilância preditiva para patógenos de alto risco (Wang et al., 2025).
A compreensão mecânica de como a perda de biodiversidade afeta o risco de transbordamento permanece incompleta e dependente do contexto (Glidden et al., 2021). Enquanto alguns sistemas apresentam efeito de diluição (maior biodiversidade reduz risco), outros mostram amplificação (maior biodiversidade aumenta risco), e os determinantes dessa variabilidade requerem investigação adicional. Esta incerteza limita a capacidade de orientar políticas de conservação com co-benefícios claros para a saúde pública e representa uma lacuna crítica de conhecimento que exige estudos mecanísticos, contexto-específicos.
Apesar da robustez das revisões incluídas, observa-se escassez de estudos analíticos recentes que incorporam tecnologias emergentes de vigilância, como inteligência artificial, aprendizagem de máquina e sequenciamento metagenômico, ou que exploram cenários epidemiológicos pós-2024, configurando uma lacuna importante na literatura (Bhatia et al., 2024). Além disso, a avaliação empírica de intervenções ecológicas e a análise de custo-efetividade de diferentes estratégias de prevenção permanecem limitadas, restringindo a capacidade de orientar políticas baseadas em evidências (Sokolow et al., 2019).
A operacionalização de sistemas One Health em escala, traduzindo prioridades conceituais em vigilância sustentada, interoperável, com compartilhamento de dados em tempo real e engajamento local, permanece como barreira principal à implementação efetiva de estratégias de prevenção integradas (Morse et al., 2012; Bhatia et al., 2024). Barreiras institucionais, fragmentação setorial, e falta de financiamento sustentado limitam a capacidade de resposta coordenada necessária para enfrentar ameaças zoonóticas emergentes.
CONCLUSÕES
A prevenção integrada que combina manejo ecológico, vigilância direcionada por modelagem e mapeamento, e redução de comportamentos humanos de alto risco em interfaces críticas oferece a melhor perspectiva para reduzir a frequência de repercussões e o risco pandêmico. No entanto, realizar esse potencial requer investimento sustentado em ecologia de reservatórios, genômica de patógenos, e sistemas intersetoriais que operacionalizam a Saúde Única em escalas locais e globais. O fortalecimento de sistemas de vigilância integrados que conectam a saúde humana, animal e ambiental, com capacidade de detecção precoce e resposta rápida, constitui prioridade fundamental para a segurança sanitária global. Investimentos em pesquisa sobre dinâmica de reservatórios, incluindo dados temporais de abundância e prevalência de deficiência, são essenciais para calibrar modelos preditivos de repercussões e orientar a alocação de recursos para vigilância direcionada.
A implementação de disposições ecológicas baseadas em evidências, incluindo manejo de habitat, regulamentação rigorosa do comércio de animais silvestres, e práticas agrícolas que reduzem interfaces de risco, oferece oportunidades concretas para prevenção a montante de eventos de transbordamento. O desenvolvimento de políticas públicas intersetoriais que integram conservação ambiental, segurança alimentar, desenvolvimento econômico sustentável e saúde pública representa desafio complexo, mas necessário, para abordar as causas estruturais da emergência de doenças zoonóticas. A incorporação de tecnologias emergentes, como inteligência artificial para análise preditiva, sequenciamento genômico em tempo real para caracterização rápida de patógenos, e sensoriamento remoto para monitoramento de mudanças ambientais, pode transformar a capacidade de detecção precoce e resposta a ameaças emergentes.
O engajamento comunitário e a valorização de conhecimentos locais e indígenas em estratégias de prevenção e resposta são componentes essenciais para garantir aceitabilidade, sustentabilidade e efetividade de intervenções em contextos socioecológicos diversos. A emergência de doenças zoonóticas representa um dos maiores desafios para a saúde global no século XXI, exigindo transformação fundamental na forma como sociedades humanas interagem com animais e ecossistemas. Apenas de uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar, que reconheça a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental, e que mobilize a vontade política e os recursos financeiros, será através do possível antecipar, prevenir e responder efetivamente às ameaças infecciosas emergentes que surgiram nas próximas décadas.
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