TRATAMENTO DA DOR ORTOPÉDICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601091755


Gabriel Alves Barbosa Carvalho, Juliana Tavares Levandoski, Kayan Lucas Galdino, Andrey Marques Evangelista, Lucas Carneiro da Silva, Pedro Henrique Passos Mendonça, Anderson da Silva Santos, Camila Ayumi Cunita, Markus Emíliu Manfrim Scabin, Marcella Oliveira Freitas, Taynara Tavares dos Santos, Amanda Oliva Spaziani.


RESUMO 

A dor ortopédica constitui uma das principais causas de procura por atendimento médico, com impacto significativo na funcionalidade, qualidade de vida e produtividade dos indivíduos. Está associada a múltiplas condições, incluindo traumas agudos, doenças degenerativas, processos inflamatórios, alterações biomecânicas e dor pós-operatória, configurando um importante problema de saúde pública. Do ponto de vista fisiopatológico, pode ser classificada em dor nociceptiva, neuropática ou mista, sendo a correta identificação do mecanismo predominante essencial para a escolha terapêutica adequada. Este estudo teve como objetivo analisar estratégias contemporâneas para o tratamento da dor ortopédica, com base em evidências científicas atuais, abrangendo abordagens farmacológicas, não farmacológicas e intervencionistas. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, com busca em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo estudos clínicos, revisões sistemáticas, metanálises e diretrizes publicadas entre 2000 e 2024. Os resultados demonstram que o manejo da dor ortopédica deve ser individualizado e baseado em uma abordagem multimodal. Analgésicos simples e anti-inflamatórios não esteroidais permanecem como primeira linha no tratamento da dor inflamatória e musculoesquelética aguda, enquanto opioides devem ser restritos a situações específicas de dor intensa e por curto período. Em quadros de dor neuropática, fármacos neuromoduladores apresentam melhor eficácia. As intervenções não farmacológicas, especialmente a fisioterapia e o exercício terapêutico, destacam-se como pilares no manejo da dor crônica, com benefícios sustentados a longo prazo. Procedimentos intervencionistas, como infiltrações e radiofrequência, são eficazes em casos selecionados e refratários ao tratamento conservador. Conclui-se que a abordagem multidimensional, com foco funcional e reabilitador, é a estratégia mais eficaz para o tratamento da dor ortopédica, reduzindo a cronificação e promovendo melhores desfechos clínicos.

Palavras-chave: Dor musculoesquelética; Dor ortopédica; Manejo da dor; Fisioterapia; Reabilitação.

INTRODUÇÃO

A dor ortopédica constitui um dos motivos mais frequentes de procura por atendimento médico em serviços de atenção primária, unidades de urgência e consultórios especializados. Estima-se que as condições musculoesqueléticas representem cerca de 30% a 40% de todas as consultas médicas, impactando substancialmente a qualidade de vida, a capacidade funcional e a produtividade laboral. As causas são amplas e incluem traumas agudos, patologias degenerativas, doenças inflamatórias, distúrbios biomecânicos, síndromes dolorosas crônicas e dor pós-operatória. Devido à elevada prevalência, ao potencial incapacitante e aos custos globais associados, o tratamento da dor ortopédica é considerado um relevante problema de saúde pública (Qaseem et al., 2020; Katz, Arant & Loeser, 2021).

A dor ortopédica pode apresentar características nociceptivas, neuropáticas ou mistas, dependendo da natureza da lesão. Condições como osteoartrite, fraturas, lesões ligamentares e tendinopatias cursam predominantemente com dor nociceptiva, enquanto radiculopatias, compressões nervosas e síndromes de impacto neural associam-se a mecanismos neuropáticos. A correta identificação do tipo de dor é crucial, uma vez que cada mecanismo fisiopatológico demanda estratégias terapêuticas específicas (Cohen & Raja, 2007).

O manejo da dor ortopédica evoluiu significativamente nas últimas décadas. O conceito de multimodalidade analgésica consolidou-se como padrão ouro, envolvendo a combinação de abordagens farmacológicas, não farmacológicas e intervencionistas. Essa estratégia visa otimizar o alívio da dor, reduzir os efeitos adversos associados ao uso isolado de medicamentos e promover recuperação funcional precoce (Qaseem et al., 2020; Chou, 2017).

Entre as abordagens farmacológicas, analgésicos simples, anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), opioides, relaxantes musculares e fármacos adjuvantes neuromoduladores, como gabapentinoides e antidepressivos, desempenham papel fundamental no controle da dor. Evidências demonstram que os AINEs apresentam eficácia no manejo da dor musculoesquelética e da dor axial, embora seu uso deva considerar o perfil de risco individual do paciente (Machado et al., 2017). As terapias não farmacológicas incluem fisioterapia, terapia manual, acupuntura, órteses, educação do paciente e programas estruturados de exercícios terapêuticos, os quais apresentam benefício consistente especialmente em quadros de dor crônica (Geneen et al., 2017; Chou, 2017).

As intervenções invasivas abrangem infiltrações articulares, bloqueios anestésicos, técnicas de radiofrequência e terapias regenerativas, como o plasma rico em plaquetas (PRP), sendo indicadas em casos selecionados e refratários ao tratamento conservador. Em patologias degenerativas, como a osteoartrite de joelho e quadril, diretrizes internacionais recomendam abordagem escalonada e individualizada, priorizando estratégias não cirúrgicas sempre que possível (Bannuru et al., 2019; Katz, Arant & Loeser, 2021).

Além disso, avanços na ortopedia cirúrgica, como técnicas artroscópicas menos invasivas, implantes protéticos mais duráveis e protocolos de recuperação acelerada, contribuíram para a redução da dor pós-operatória e para a melhora dos desfechos funcionais em médio e longo prazo (Katz, Arant & Loeser, 2021).

Diante da complexidade desse cenário, compreender os fundamentos fisiopatológicos, as estratégias terapêuticas e as evidências científicas disponíveis para o tratamento da dor ortopédica é essencial para otimizar o cuidado clínico e promover melhores resultados funcionais e qualidade de vida a curto e longo prazo.

OBJETIVOS

Analisar estratégias contemporâneas para o tratamento da dor ortopédica, incluindo abordagens farmacológicas, não farmacológicas e intervencionistas, com base em evidências científicas atualizadas.

METODOLOGIA

Este trabalho foi desenvolvido como uma revisão narrativa, metodologia amplamente utilizada para a síntese de temas clínicos complexos. Embora não se trate de uma revisão sistemática, foram seguidos princípios de rigor metodológico. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Cochrane Library, SciELO, Embase, UpToDate e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), abrangendo o período de janeiro de 2000 a agosto de 2024.

Foram utilizados descritores em inglês e português, incluindo: orthopedic pain, musculoskeletal pain, pain management, NSAIDs, opioids, physical therapy, orthopedic surgery pain, neuropathic pain e interventional pain. Foram incluídos ensaios clínicos, revisões sistemáticas, metanálises e diretrizes das áreas de ortopedia, dor e medicina esportiva, bem como estudos relacionados à dor aguda, crônica e pós-operatória em população adulta.

Os artigos selecionados foram lidos na íntegra e categorizados por temática, abrangendo fisiopatologia, dor aguda traumática, dor crônica degenerativa, dor pós-cirúrgica, tratamento medicamentoso, fisioterapia e intervenções invasivas. As informações obtidas foram comparadas criticamente e, posteriormente, sintetizadas de forma descritiva.

RESULTADOS

Os resultados foram organizados conforme categorias centrais emergentes da literatura. De modo geral, os estudos descrevem três mecanismos principais de dor ortopédica: nociceptiva, neuropática e mista.

A dor nociceptiva predomina nas lesões agudas e degenerativas, decorrendo da ativação de nociceptores por estímulos inflamatórios, mecânicos ou químicos. Está associada a condições como entorses, fraturas, osteoartrite, lesões musculares e tendinites (Katz, Arant & Loeser, 2021; Bannuru et al., 2019).

A dor neuropática ocorre quando há dano direto ao sistema nervoso, como nas radiculopatias secundárias à hérnia de disco, compressões nervosas (por exemplo, síndrome do túnel do carpo) e neuropatias pós-cirúrgicas (Cohen & Raja, 2007).

Já a dor mista é mais frequente em doenças degenerativas avançadas e no pós-operatório tardio, combinando componentes nociceptivos e neuropáticos (Cohen & Raja, 2007).

No tratamento farmacológico, os analgésicos simples, como dipirona e paracetamol, são amplamente utilizados em quadros leves a moderados. Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) apresentam elevada eficácia na dor inflamatória, como entorses, artrite e dor pós-operatória inicial. Estudos demonstram redução significativa da dor em 48 a 72 horas, melhora funcional e eficácia comparável entre ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco (Machado et al., 2017; Qaseem et al., 2020).

Os opioides são indicados para dor intensa, pós-operatória aguda ou em traumas mais graves. Evidências da Cochrane Database indicam que apresentam eficácia moderada na dor musculoesquelética aguda, baixa eficácia na dor ortopédica crônica e elevado risco de dependência quando utilizados a longo prazo (Geneen et al., 2017; Qaseem et al., 2020). Relaxantes musculares, como ciclobenzaprina e tiocolchicosídeo, demonstram benefício modesto em espasmos musculares agudos. Os adjuvantes neuromoduladores, especialmente gabapentina e pregabalina, apresentam eficácia moderada a alta no tratamento da dor neuropática (Cohen & Raja, 2007).

Entre os tratamentos não farmacológicos, destacam-se a fisioterapia, cinesioterapia, terapia manual, fortalecimento muscular e programas de reabilitação específicos por patologia. O exercício terapêutico é apontado como a intervenção mais eficaz para a dor crônica ortopédica, conforme diretrizes da OARSI e do NICE, promovendo ganho de força, redução da inflamação e reequilíbrio biomecânico (Bannuru et al., 2019; Geneen et al., 2017). A educação do paciente contribui para a redução da catastrofização da dor e melhora da adesão terapêutica (Chou, 2017).

As infiltrações articulares são amplamente utilizadas em bursites, sinovites e osteoartrite. O uso de corticosteroides promove alívio rápido, geralmente entre uma e quatro semanas, enquanto o ácido hialurônico apresenta efeito mais tardio, porém mais duradouro, entre oito e doze semanas (Bannuru et al., 2019; Katz, Arant & Loeser, 2021). Bloqueios anestésicos são empregados principalmente em dor neuropática e radicular, enquanto a radiofrequência demonstra eficácia em lombalgia facetária, dor sacroilíaca e dor no joelho (Cohen & Raja, 2007). As terapias regenerativas, como plasma rico em plaquetas (PRP) e células mesenquimais, apresentam resultados promissores, embora ainda heterogêneos e com necessidade de maior padronização (Katz, Arant & Loeser, 2021).

DISCUSSÃO

A análise da literatura demonstra que a dor ortopédica deve ser compreendida como um fenômeno multifatorial. O manejo adequado exige individualização do tratamento, identificação do mecanismo predominante da dor e adoção de uma abordagem multimodal. O uso de escalas de dor, testes funcionais e exames complementares auxilia na escolha do tratamento mais adequado.

Muitos tratamentos falham não por ineficácia, mas pela seleção inadequada em relação ao mecanismo da dor. O modelo atual recomenda a integração de fármacos, reabilitação, intervenções invasivas quando necessárias e terapias complementares, estratégia que demonstrou reduzir o tempo de recuperação e o risco de cronificação.

Embora úteis no pós-operatório e em traumas graves, os opioides são ineficazes para a dor musculoesquelética crônica e apresentam risco aumentado de dependência. Há consenso de que o exercício terapêutico é o tratamento mais efetivo e seguro para a dor musculoesquelética crônica, superando o uso de fármacos a longo prazo, especialmente o treinamento de força.

A maioria das diretrizes recomenda intervenções invasivas após seis a doze semanas de tratamento conservador, em casos de falha da analgesia adequada ou impacto funcional significativo. A radiofrequência apresenta um dos melhores níveis de evidência. Como perspectivas futuras, destacam-se avanços em medicina regenerativa, terapias digitais, uso de inteligência artificial na reabilitação guiada e protocolos integrados multidisciplinares.

CONCLUSÕES

O tratamento da dor ortopédica avançou significativamente. As evidências demonstram que uma abordagem multidimensional, individualizada e progressiva oferece os melhores resultados. O foco do tratamento deve ser funcional, e não apenas analgésico.

Conclui-se que a dor ortopédica envolve mecanismos nociceptivos, neuropáticos e mistos. A abordagem multimodal apresenta maior eficácia quando comparada a tratamentos isolados. O exercício terapêutico e a fisioterapia são pilares essenciais no manejo da dor crônica. Os AINEs permanecem como primeira linha para dor inflamatória, embora seu uso exija cautela. Os opioides são indicados apenas para dor aguda e pós-operatória. Intervenções como radiofrequência e infiltrações configuram ferramentas eficazes em casos selecionados. A educação do paciente e a reabilitação ativa reduzem a cronificação e a incapacidade, enquanto novas terapias regenerativas apresentam perspectivas promissoras, ainda em investigação.

REFERÊNCIAS

KATZ, Jeffrey N.; ARANT, Kaetlyn R.; LOESER, Richard F. Diagnosis and treatment of hip and knee osteoarthritis: a review. Jama, v. 325, n. 6, p. 568-578, 2021.

MACHADO, Gustavo C. et al. Non-steroidal anti-inflammatory drugs for spinal pain: a systematic review and meta-analysis. Annals of the rheumatic diseases, v. 76, n. 7, p. 1269-1278, 2017.

CHOU, Roger. Nonpharmacologic therapies for low back pain. Annals of Internal Medicine, v. 167, n. 8, p. 606-607, 2017.

BANNURU, Raveendhara R. et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis and cartilage, v. 27, n. 11, p. 1578-1589, 2019.

QASEEM, Amir et al. Nonpharmacologic and pharmacologic management of acute pain from non–low back, musculoskeletal injuries in adults: a clinical guideline from the American College of Physicians and American Academy of Family Physicians. Annals of internal medicine, v. 173, n. 9, p. 739-748, 2020.

Geneen LJ, Moore RA, Clarke C, et al. Physical activity and exercise for chronic pain. Cochrane Database Syst Rev. 2017;4:CD010904.

COHEN, Steven P.; RAJA, Srinivasa N. Pathogenesis, diagnosis, and treatment of lumbar zygapophysial (facet) joint pain. Anesthesiology, v. 106, n. 3, p. 591-614, 2007.