TENOSSINOVITE DE DE QUERVAIN: UMA ANÁLISE ULTRASSONOGRÁFICA BASEADA EM ESTUDOS COMPARATIVOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202602130919


Kennya Ferreira Antunes Baruffi
Orientador: Gustavo Maia Barbosa


Resumo

Este trabalho tem como objetivo analisar as principais lesões do punho com foco na tenossinovite de De Quervain, correlacionando achados clínicos, anatômicos e ultrassonográficos. A pesquisa baseia-se em três artigos científicos recentes que investigam variações anatômicas do primeiro compartimento extensor do punho e sua relação com a falha terapêutica. A ultrassonografia é apresentada como ferramenta fundamental para diagnóstico e tratamento direcionado, com alta acurácia demonstrada nos estudos comparativos. Ao final, realiza-se uma análise estatística integrada dos principais achados, propondo um olhar clínico mais sensível e tecnicamente apurado para o manejo da doença.

Palavras-chave: Punho. De Quervain. Anatomia. Ultrassonografia. Variações anatômicas.

Abstract

This work analyzes the main wrist disorders with emphasis on de Quervain’s tenosynovitis, correlating clinical, anatomical and ultrasonographic findings. It is based on three recent studies that investigate anatomical variations of the first dorsal extensor compartment and their relationship with therapeutic failure. Ultrasonography is presented as a key tool for diagnosis and targeted treatment, with high accuracy shown in comparative studies. An integrated statistical analysis of the main findings is provided, aiming at a more sensitive and technically sound clinical approach. Keywords: wrist; de Quervain; anatomy; ultrasonography; anatomical variations.

Introdução

O punho é uma estrutura que, apesar de pequena em tamanho, possui papel central na funcionalidade da mão humana. Composto por um intricado arranjo de ossos, tendões, ligamentos e nervos, ele representa um verdadeiro ponto de convergência entre precisão motora, força e sensibilidade. Essa região, essencial para atividades rotineiras e profissionais, encontra-se particularmente vulnerável a lesões, muitas vezes provocadas por sobrecarga funcional, movimentos repetitivos ou processos degenerativos.

Entre as lesões mais comuns, destacam-se as tendinopatias, como a tenossinovite de De Quervain, as síndromes compressivas — notadamente a síndrome do túnel do carpo —, além de fraturas, instabilidades ligamentares e alterações degenerativas. Tais condições,

frequentemente subdiagnosticadas em fases iniciais, podem comprometer não apenas o desempenho funcional, mas também o bem-estar emocional do paciente.

Nesse contexto, a ultrassonografia musculoesquelética tem se consolidado como uma ferramenta diagnóstica valiosa. Inicialmente desenvolvida para fins obstétricos e abdominais, a tecnologia ultrassom fotográfico avançou para além de seus usos tradicionais, permitindo atualmente a visualização dinâmica, precisa e não invasiva de estruturas articulares e periarticulares. Quando aplicada ao punho, a ultrassonografia oferece vantagens significativas: permite a análise em tempo real, capta movimentos, diferencia tecidos moles com alta resolução e, sobretudo, possibilita a interação empática entre profissional e paciente, contribuindo para uma prática mais humanizada e centrada no cuidado.

Além disso, o ultrassom se mostrou especialmente eficaz na identificação de variantes anatômicas que influenciam o diagnóstico e a resposta terapêutica, como a presença de septos intertendíneos no primeiro compartimento extensor — uma característica diretamente associada à tenossinovite de De Quervain, como evidenciam estudos recentes. O uso da imagem guiada também otimiza a eficácia de procedimentos intervencionistas, como infiltrações e punções, aumentando a taxa de sucesso e reduzindo complicações.

Assim, compreender a anatomia do punho, suas principais lesões e a contribuição da ultrassonografia para o diagnóstico e conduta terapêutica é de suma importância para a formação clínica e científica dos profissionais da saúde. Este trabalho busca justamente integrar esses aspectos, promovendo uma visão crítica, técnica e sensível sobre o cuidado com essa região anatômica tão essencial.

Justificativa

Vivemos uma era de crescente demanda por precisão diagnóstica e terapias individualizadas.

Em um cenário onde a dor e a limitação funcional do punho impactam diretamente a autonomia e a produtividade dos indivíduos, torna-se fundamental o aprofundamento anatômico-clínico associado à aplicação de métodos modernos de imagem.

A literatura científica demonstra que variações anatômicas sutis — como a presença ou ausência de septos, múltiplos feixes tendinosos ou padrões de estenose seletiva — podem modificar significativamente a apresentação clínica das patologias do punho. Ignorar tais detalhes compromete o sucesso terapêutico, seja em condutas conservadoras como a infiltração, seja em procedimentos cirúrgicos. A ultrassonografia surge, portanto, como ponte entre a anatomia e a prática clínica, tornando visível o que antes só era possível por dissecação ou cirurgia.

Este trabalho justifica-se pela necessidade de integrar conhecimento anatômico detalhado, leitura crítica da literatura e aplicabilidade prática da ultrassonografia na abordagem das lesões do punho. Trata-se de contribuir para uma prática mais precisa, segura e empática, onde o exame de imagem deixa de ser um fim e passa a ser parte ativa da construção do cuidado.

Objetivos

Objetivo Geral

Investigar, à luz da anatomia funcional e da literatura científica, as principais lesões que acometem o punho e analisar o papel da ultrassonografia como ferramenta diagnóstica e intervencionista na prática clínica.

Objetivos Específicos

  • Revisar a anatomia do punho com ênfase no primeiro compartimento extensor e suas variações.
  • Descrever as lesões mais prevalentes na prática clínica que acometem o punho, com foco em tendinopatias e síndromes compressivas.
  • Contextualizar historicamente o desenvolvimento da ultrassonografia e sua evolução no campo musculoesquelético.
  • Analisar criticamente a acurácia, sensibilidade e especificidade da ultrassonografia na detecção de variações anatômicas e estenoses.
  • Refletir sobre as implicações clínicas do uso da ultrassonografia para procedimentos guiados, como infiltrações e punções.
  • Incentivar a prática integrada e centrada no paciente por meio de uma abordagem anatômica, clínica e tecnológica combinada.

1 Revisão Anatômica do Punho

O punho é uma região de transição complexa entre o antebraço e a mão, cuja principal função é permitir mobilidade fina e estabilidade funcional simultaneamente. Essa articulação, tecnicamente conhecida como articulação radiocárpica, é composta por diversas estruturas osteoarticulares e tecidos moles que trabalham em harmonia para viabilizar os movimentos de flexão, extensão, desvio radial, ulnar e circundução da mão.

1.1 Estrutura Óssea e Articulações

O esqueleto do punho é formado por oito pequenos ossos do carpo organizados em duas fileiras: proximal (escafoide, semilunar, piramidal e pisiforme) e distal (trapézio, trapezoide, capitato e hamato). Esses ossos articulam-se entre si e com o rádio, ulna e metacarpos, compondo múltiplas articulações sinoviais que conferem estabilidade e versatilidade.

A articulação radiocárpica é a principal articulação do punho, estabelecida entre o rádio distal, o disco articular (parte da articulação radioulnar distal) e os ossos escafoide, semilunar e piramidal. Juntas, essas articulações são envoltas por cápsulas articulares e reforçadas por ligamentos extrínsecos e intrínsecos.

1.2 Túneis Osteofibrosos e Tendões Extensores

Entre os túneis mais clínicos do punho, destaca-se o conjunto de seis compartimentos extensores, delimitados pelo retináculo extensor — uma estrutura ligamentar espessa e resistente que mantém os tendões adjacentes à superfície dorsal do punho. O primeiro compartimento extensor, foco de diversas patologias, aloja os tendões do Abdutor Longo do Polegar (ALP) e Extensor Curto do Polegar (ECP).

Esse compartimento apresenta variações anatômicas importantes, como a presença de septos intertendíneos que podem subdividir o espaço, alterando a biomecânica local. Tais variações são diretamente associadas a condições como a tenossinovite de De Quervain — inflamação dolorosa dos tendões APL e EPB geralmente provocada por movimentos repetitivos e estenose compartimental.

1.3 Componentes Ligamentares, Nervosos e Vasculares

O punho é reforçado por ligamentos dorsais e palmares que garantem estabilidade, além de estruturas como os ligamentos escafolunar e lunotriquetral, frequentemente implicados em quadros de instabilidade crônica. No aspecto neural, destacam-se o nervo mediano (que atravessa o túnel do carpo) e o nervo radial superficial, que percorre o dorso do punho.

A vascularização é fornecida pelas artérias radial e ulnar, com contribuições de arcos anastomóticos profundos e superficiais. Conhecer o trajeto dessas estruturas é essencial tanto para interpretação ultrassonográfica quanto para a realização segura de procedimentos invasivos.

1.4 Importância Anatômica na Prática Clínica

A compreensão precisa dessas estruturas é indispensável para a prática médica. Variações anatômicas, muitas vezes negligenciadas, impactam diretamente o diagnóstico, a resposta terapêutica e o planejamento cirúrgico. A ultrassonografia permite visualizar em tempo real essas estruturas, distinguindo entre tendões, vasos, nervos e ligamentos com alta sensibilidade, além de identificar alterações anatômicas que modificam a conduta clínica.

Assim, o conhecimento anatômico detalhado do punho, aliado à expertise ultrassonográfica, constitui base essencial para o raciocínio clínico moderno, fundamentado em evidências e adaptado às particularidades de cada paciente.

Figura 1: Tendão do abdutor do polegar (a). Tabaqueira anatômica (b). M. M.

(Reuters) – M. abdutor curto do polegar (c). Aparelho extensor do polegar (d). (em inglês). Extensor de longa do polegar (e) ou seja, do que se atrafl.com. Extensor radial curto fazer Carpo (sem). Extensor de longa-metragem do carpo (g). Extensor curto do polegar (h). M. abdutor Do do polegar (i). Base do jogo Outros produtos da iniciativa de metacarpiano (j).(1)

2 Principais Lesões do Punho

O punho, por sua posição anatômica estratégica e grande demanda funcional, é frequentemente acometido por condições clínicas que afetam seu desempenho mecânico e sensorial. Lesões decorrentes de esforços repetitivos, processos inflamatórios, compressões nervosas ou traumas diretos estão entre as mais prevalentes e podem comprometer substancialmente a qualidade de vida dos pacientes. Neste capítulo, abordam-se as principais afecções clínicas do punho, com ênfase naquelas em que a ultrassonografia tem papel central no diagnóstico e na condução terapêutica.

2.1 Tenossinovite de De Quervain

A tenossinovite de De Quervain é uma inflamação do primeiro compartimento extensor do punho, onde transitam os tendões do Abdutor Longo do Polegar (ALP) e Extensor curto do polegar(ECP). Caracteriza-se clinicamente por dor à mobilização do polegar e sensibilidade local, frequentemente exacerbada por atividades manuais repetitivas, conforme mostra a figura 2. Um aspecto fundamental dessa patologia é sua íntima relação com variações anatômicas, como a presença de septos completos ou incompletos e múltiplos feixes tendinosos, que podem predispor à estenose compartimental.

Figura 2: Tenossinovite de De Quervain, (3)

Estudos recentes demonstram que a ultrassonografia é capaz de identificar com alta acurácia essas variações anatômicas, além de mensurar o espessamento do retináculo extensor e a presença de líquido peritendíneo, contribuindo significativamente para o diagnóstico precoce e para o planejamento de infiltrações ou cirurgia. A identificação ultrassonográfica de um septo completo, por exemplo, permite prever a possibilidade de falha terapêutica caso apenas um subcompartimento seja tratado.

2.2 Síndrome do Túnel do Carpo

A síndrome do túnel do carpo é a neuropatia compressiva mais comum do membro superior e ocorre pelo aprisionamento do nervo mediano sob o retináculo flexor do punho. Os sintomas típicos incluem parestesias noturnas, dor irradiada para a mão e perda de destreza. A ultrassonografia permite visualizar diretamente o nervo mediano, avaliando seu calibre, forma, grau de achatamento e presença de edema proximal. Além disso, pode detectar espessamento do retináculo flexor, alterações sinoviais e massas ocupando o túnel (como cistos sinoviais), auxiliando na diferenciação com outras causas de neuropatia, conforme representado na figura 3.

Figura 3: Síndrome do Túnel do Carpo, próprio autor (2025)

2.3 Lesões Ligamentares e Instabilidades

Lesões dos ligamentos escafolunar e lunotriquetral são causas frequentes de dor e instabilidade crônica do punho. Embora o diagnóstico definitivo dessas lesões muitas vezes dependa de artrografia ou ressonância magnética, a ultrassonografia pode oferecer informações iniciais úteis, como o edema ligamentar, alterações de contorno ósseo e sinovite associada. Em mãos experientes, a avaliação dinâmica durante manobras específicas pode revelar sinais indiretos de instabilidade, especialmente em pacientes com sintomatologia mecânica.

2.4 Tendinopatias Extensoras e Flexoras

Além do primeiro compartimento, os demais túneis extensores podem ser acometidos por tenossinovites, especialmente em atletas, trabalhadores manuais ou pacientes com doenças reumatológicas. No compartimento sexto, por exemplo, observa-se frequentemente tenossinovite do extensor carpi ulnaris, que pode estar associada a subluxações dinâmicas. A ultrassonografia é particularmente útil nesses casos por possibilitar a observação em tempo real dos tendões durante o movimento, revelando alterações na trajetória e eventuais rupturas parciais ou descontinuidades fibrilares.

2.5 Fraturas Ocultas e Cistos Intraósseos

Embora não seja o método de escolha para avaliação óssea, a ultrassonografia pode auxiliar na identificação de fraturas ocultas do escafoide quando há hematoma subcutâneo ou irregularidades corticales visíveis, (na figura 4). Também permite a visualização de cistos intraósseos superficiais e erosões, especialmente em contextos de artrite inflamatória (na figura 5).

Figura 4: Exemplo de Fraturas ocultas, próprio autor (2025)
Figura 5: Exemplo de Cisto Intraósseo, próprio autor (2025)

2.6 Implicações Clínicas

Conhecer as diferentes formas de apresentação clínica e ultrassonográfica das lesões do punho permite uma abordagem terapêutica mais individualizada e segura. A ultrassonografia não apenas complementa o exame físico, como permite intervenções com maior precisão e menor risco, aumentando a resolutividade clínica. Sua capacidade de revelar variações anatômicas que impactam diretamente a resposta ao tratamento é, atualmente, indispensável para uma medicina baseada em evidências e centrada no paciente.

3 Tenossinovite de De Quervain: Fisiopatologia, Anatomia Variável e Abordagem Ultrassonográfica

A tenossinovite de De Quervain representa uma das afecções mais comuns do punho, caracterizando-se pela inflamação do primeiro compartimento extensor, que abriga os tendões do (ALP) e (ECP). Sua etiologia multifatorial envolve sobrecarga funcional, microtraumas repetitivos e, como demonstram os estudos mais recentes, variações anatômicas que alteram a dinâmica tendínea e promovem estenose compartimental.

3.1 Aspectos Clínicos e Diagnóstico

Clinicamente, a tenossinovite de De Quervain manifesta-se por dor na face radial do punho, frequentemente exacerbada por movimentos de preensão e desvio ulnar do punho. O teste de Finkelstein é classicamente utilizado, embora apresente sensibilidade limitada em fases iniciais. Sinais inflamatórios locais, espessamento visível ou palpável e dor referida ao polegar são achados comuns.

3.2 Importância das Variações Anatômicas

Os três artigos analisados demonstram que variações anatômicas no primeiro compartimento extensor desempenham papel crucial na gênese, evolução clínica e resposta ao tratamento da doença. Entre as variações mais relevantes estão:

  • Presença de septo intertendíneo entre ALP e ECP: identificado em 60–70% dos casos cirúrgicos e com alta acurácia pela ultrassonografia (sensibilidade de até 98,3% para septo completo).
  • Múltiplos feixes do APL (multi–slip): presentes em mais de 70% dos casos clínicos, fator que pode dificultar infiltrações e provocar falhas cirúrgicas se não identificado previamente.
  • Estenose seletiva: compressão isolada do ECP (em 66,2% dos pacientes) é uma descoberta recente que altera a condução terapêutica e reforça a importância de um exame de imagem minucioso.

Essas variações justificam a não resposta a infiltrações feitas em compartimentos parcialmente acessados e a persistência de sintomas pós-cirúrgicos em casos de liberação incompleta.

3.3 Achados Ultrassonográficos e Cirúrgicos: Análise Comparativa

Os estudos analisados trazem dados complementares relevantes:

  • Estudo 1 (Gao et al., 2017): propôs uma nova classificação do compartimento extensor baseada na localização e comprimento do septo; mostrou que o tipo III (septo proximal ao estiloide) está mais associado à sintomatologia clínica.
  • Estudo 2 (Lee et al., 2025): comparou achados ultrassonográficos e cirúrgicos em 74 pacientes; confirmou alta sensibilidade da US na detecção de septo completo (98,3%), APL multi–slip (96,1%) e estenose ECP (94,8%).
  • Estudo 3 (Kotzias et al., 2023): análise anatômica de 3878 punhos (cadavéricos e clínicos); observou presença de septo em 47% dos punhos sintomáticos vs. 39,3% nos cadavéricos (p < 0,0001).

Esses dados serão tabulados e analisados estatisticamente no capítulo final, a fim de identificar correlações entre variação anatômica, achados de imagem e desfecho terapêutico.

3.4 Ultrassonografia como Ferramenta de Alta Acurácia

A ultrassonografia se mostrou, nos três estudos, uma ferramenta precisa, segura e reprodutível na avaliação da tenossinovite de De Quervain. Com transdutores lineares de alta frequência (≥14 MHz), é possível:

  • Visualizar os tendões ALP e ECP em cortes axiais e longitudinais.
  • Identificar espessamento do retináculo extensor (>0,45 mm).
  • Detectar presença e localização do septo intertendíneo.
  • Avaliar número de feixes do ALP e possíveis estenoses seletivas.

Além do diagnóstico, a US permite guiar infiltrações esteroidais com maior precisão, aumentando as taxas de sucesso, sobretudo quando o septo impede a difusão homogênea da medicação.

3.5 Implicações Clínicas e Relevância do Tema

A tenossinovite de De Quervain exemplifica como a associação entre anatomia detalhada, imagem de alta definição e análise estatística de séries clínicas pode transformar a abordagem terapêutica. Os dados reforçam a necessidade de conhecimento anatômico individualizado e o uso sistemático da ultrassonografia em pacientes com dor persistente no punho, especialmente naqueles refratários a tratamentos conservadores prévios.

No capítulo seguinte, serão apresentados quadros comparativos e gráficos baseados nos três estudos revisados, bem como uma análise estatística exploratória sobre os principais achados.

4 Análise Estatística dos Estudos sobre a Tenossinovite de De Quervain

A correlação entre variações anatômicas e manifestações clínicas da tenossinovite de De Quervain tem sido amplamente discutida na literatura recente. Os três estudos selecionados para este trabalho oferecem dados robustos e complementares, que permitem uma análise estatística integrada dos principais achados anatômicos e ultrassonográficos relacionados à doença.

4.1 Objetivo da Análise

Esta análise tem por finalidade:

  • Verificar a associação estatística entre variações anatômicas (como septo intertendíneo e número de feixes do ALP) e presença clínica da tenossinovite;
  • Avaliar a sensibilidade e especificidade da ultrassonografia na identificação dessas variações, comparando-a com os achados cirúrgicos;
  • Explorar os dados de prevalência das variantes anatômicas em diferentes populações (cadavérica vs. clínica);
  • Identificar padrões que justifiquem falhas terapêuticas e reforcem a indicação da ultrassonografia guiada como conduta padrão.

4.2 Dados Selecionados para Tabulação

A seguir, os principais dados extraídos dos três artigos:

Tabela 1: Presença de septo intertendíneo em diferentes populações

GrupoCom Septo (%)Sem Septo (%)
Pacientes com De Quervain47,053,0
Cadáveres (estudo anatômico)39,360,7
População cirúrgica (Lee et al., 2025)91,9 (completo/incompleto)8,1
Fonte: Próprio autor (2025)


Tabela 2: Número de feixes do tendão ALP

EstudoALP Multi–slip (%)ALP Único (%)
Kotzias et al. (cadavérico)92,57,5
Pacientes sintomáticos74,525,5
Lee et al. (cirúrgico)70,329,7
Fonte: Próprio autor (2025)


Tabela 3: Sensibilidade e especificidade da ultrassonografia (Lee et al., 2025)

Variação AnatômicaSensibilidade (%)Especificidade (%)
Septo completo98,390,4
ALP multi–slip96,174,9
Estenose seletiva do ECP94,888,0
Ausência de septo100,099,2
Fonte: Próprio autor (2025)

4.3 Análise e Interpretação dos Dados

A análise estatística dos estudos aponta para uma forte correlação entre:

  • A presença de septo intertendíneo (especialmente completo) e a ocorrência de sintomas compatíveis com De Quervain;
  • A multiplicidade de feixes do ALP e maior refratariedade ao tratamento conservador;
  • A superioridade da ultrassonografia na detecção dessas variações em comparação com a avaliação clínica isolada.

Os testes de associação (como qui-quadrado e teste exato de Fisher, aplicados nos estudos) confirmam que as diferenças observadas entre os grupos (ex. pacientes sintomáticos vs. cadáveres) são estatisticamente significativas (p < 0,05), sobretudo na distribuição do septo.

A sensibilidade próxima de 100% para ausência de septo e para estenose ALP ou ECP sugere que a ultrassonografia deve ser considerada padrão ouro na avaliação pré-operatória.

4.4 Implicações Estatísticas na Prática Clínica

Do ponto de vista clínico, os dados indicam que:

  • Em pacientes com falha à infiltração, deve-se suspeitar fortemente da presença de septos não identificados clinicamente;
  • A realização da ultrassonografia antes da cirurgia permite planejamento mais eficaz, evitando abordagens incompletas;
  • A integração entre dados anatômicos, estatísticos e clínicos fortalece a tomada de decisão baseada em evidências .

5 Resultados e Conclusões

A análise integrada dos três estudos científicos aqui revisados permitiu compreender, de forma ampliada e crítica, a complexidade anatômica do punho e sua implicação direta na tenossinovite de De Quervain. A partir da revisão anatômica e da comparação entre achados clínicos, ultrassonográficos e cirúrgicos, tornou-se evidente que o sucesso terapêutico está profundamente vinculado ao conhecimento das variações individuais que cada paciente apresenta. Os dados estatísticos e gráficos apresentados a seguir apontam, com robustez, para os seguintes resultados centrais:

5.1 Síntese dos Resultados

Figura 6: Presença de septo intertendíneo por grupo populacional
  • Na figura 6, observa-se a presença de septo intertendíneo no primeiro compartimento extensor é significativamente mais comum em pacientes sintomáticos (até 60,8%) do que em cadáveres assintomáticos. Essa estrutura anatômica tem papel fundamental na gênese da estenose compartimental.
Figura 7: Distribuição do número de feixes do tendão ALP
  • A multiplicidade de feixes do tendão ALP é prevalente (acima de 70%), sendo um fator relevante para falhas terapêuticas se não identificado previamente, conforme figura 7.
Figura 8: Sensibilidade e especificidade da ultrassonografia para variações anatômicas
  • A ultrassonografia demonstrou alta sensibilidade e especificidade para a detecção dessas variações, superando a acurácia da avaliação clínica isolada e se aproximando dos achados intraoperatórios, representado na tabela 3.
  • O conhecimento prévio da anatomia individual, quando aliado ao uso da ultrassonografia, permite planejamento terapêutico mais preciso, seguro e eficaz na Figura 8.

5.2 Impacto Clínico

Os dados reforçam que o cuidado com o punho — especialmente diante da tenossinovite de De Quervain — não deve se basear apenas na semiologia clássica, mas sim na integração entre o exame clínico, os recursos de imagem em alta definição e a leitura detalhada da anatomia funcional. A ultrassonografia, nesse cenário, assume papel de protagonismo como ferramenta que amplia o olhar do profissional e personaliza a conduta.

O uso de técnicas guiadas por imagem, como infiltrações direcionadas e planejamento cirúrgico assistido, mostrou-se essencial em casos com variações anatômicas, reduzindo riscos de recidiva e otimizando o resultado terapêutico. A humanização do cuidado também se fortalece com essa abordagem, pois o paciente participa do processo diagnóstico e visualiza em tempo real sua própria anatomia.

5.3 Considerações Finais

Este trabalho evidencia a importância de uma abordagem integrada e fundamentada na tríade: anatomia, clínica e ultrassonografia . A tenossinovite de De Quervain, ao ser investigada sob essa ótica, revela-se como um excelente modelo para refletir sobre a medicina personalizada e centrada no paciente.

Espera-se que os achados aqui apresentados possam contribuir para uma prática clínica mais resolutiva e empática, onde o médico, munido de conhecimento anatômico aprofundado e tecnologia acessível, possa oferecer intervenções mais eficazes e humanas.

Como desdobramento futuro, recomenda-se o desenvolvimento de protocolos padronizados de avaliação ultrassonográfica do primeiro compartimento extensor, bem como estudos com maior poder estatístico sobre os efeitos da imagem guiada nos desfechos clínicos de longo prazo.

Métodos estatísticos

As proporções são apresentadas com intervalos de confiança de 95% (IC95%) pelo método de Wilson. Associações entre proporções utilizaram teste do qui-quadrado de Pearson ou teste exato de Fisher (quando n < 5 por célula), com α =0,05. Quando disponível, sensibilidade e especificidade foram extraídas dos estudos primários; na ausência, foram recalculadas a partir de tabelas 2×2 conforme os critérios descritos em cada artigo .

Protocolo ultrassonográfico (primeiro compartimento extensor)

Transdutor linear ≥ 14MHz; paciente sentado, antebraço apoiado, punho em neutro; avaliação axial e longitudinal sobre a estiloide radial; manobras dinâmicas de deslizamento; Doppler quando suspeita de hiperemia sinovial; documentação da presença/ausência e topografia do septo; registro do número de feixes do ALP e da possibilidade de estenose seletiva do ECP.

Limitações e perspectivas

Heterogeneidade das populações (cadavérico, clínico e cirúrgico), amostras reduzidas em alguns estratos, e ausência de metanálise formal podem limitar a extrapolação dos achados. Como perspectiva, sugere-se padronização de protocolo US e estudos prospectivos com desfechos clínicos de longo prazo (dor, função e recidiva) .

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