RELAÇÃO ENTRE DORES MUSCULOESQUELÉTICAS E QUALIDADE DE VIDA EM ESTUDANTES DE ODONTOLOGIA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

RELATIONSHIP BETWEEN MUSCULOSKELETAL PAIN AND QUALITY OF LIFE IN DENTISTRY STUDENTS: AN INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510151830


Gabriela Fernanda Lopes da Silva1
Natália Mayume Noguti2
Débora Dei Tos3


RESUMO

A presente revisão integrativa teve como objetivo analisar a relação entre dores musculoesqueléticas e qualidade de vida em estudantes de odontologia. Foram selecionados artigos publicados entre 2018 e 2024 nas bases SciELO, PubMed e LILACS, nos idiomas português e inglês. A triagem incluiu leitura de títulos, resumos e textos completos, resultando na inclusão de 10 estudos que atenderam aos critérios estabelecidos. Os dados extraídos abrangeram tipo de estudo, amostra, instrumentos utilizados e principais achados, sendo organizados em quadro comparativo. Os resultados indicaram alta prevalência de dores musculoesqueléticas, principalmente nas regiões cervical, lombar e de ombros, associadas a posturas inadequadas, longos períodos de prática clínica e fatores psicossociais, como estresse. Observou-se que a dor impacta negativamente a qualidade de vida física, psicológica e emocional dos estudantes, comprometendo o bem-estar e o desempenho acadêmico. Intervenções preventivas, incluindo programas de alongamento, pausas ativas, educação postural e adequação ergonômica, mostraram-se eficazes na redução da dor e na melhoria da qualidade de vida. Conclui-se que as dores musculoesqueléticas são frequentes entre estudantes de odontologia e afetam significativamente a qualidade de vida, sendo a implementação de estratégias preventivas ergonômicas e fisioterapêuticas essencial para promover saúde, bem-estar e desempenho acadêmico adequado.

Palavras-chave: dor musculoesquelética; qualidade de vida; estudantes de odontologia; revisão integrativa; ergonomia.

ABSTRACT 

This integrative review aimed to analyze the relationship between musculoskeletal pain and quality of life among dental students. Articles published between 2018 and 2024 were selected from SciELO, PubMed, and LILACS, in Portuguese and English. Screening included titles, abstracts, and full texts, resulting in the inclusion of 10 studies that met the established criteria. Extracted data encompassed study type, sample, instruments used, and main findings, which were organized in a comparative table. The results indicated a high prevalence of musculoskeletal pain, particularly in the cervical, lumbar, and shoulder regions, associated with inadequate posture, prolonged clinical practice, and psychosocial factors such as stress. Pain was found to negatively affect students’ physical, psychological, and emotional quality of life, impairing well-being and academic performance. Preventive interventions, including stretching programs, active breaks, postural education, and ergonomic adjustments, were effective in reducing pain and improving quality of life. In conclusion, musculoskeletal pain is frequent among dental students and significantly affects quality of life, highlighting that the implementation of preventive ergonomic and physiotherapeutic strategies is essential to promote health, well-being, and adequate academic performance.

Keywords: musculoskeletal pain; quality of life; dental students; integrative review; ergonomics.

INTRODUÇÃO

As dores musculoesqueléticas constituem um problema de saúde relevante entre profissionais e estudantes da área da saúde, apresentando impacto significativo na qualidade de vida, produtividade e desempenho acadêmico (GARBIN et al., 2020; LOPES et al., 2020). Entre estudantes de odontologia, essas queixas são particularmente prevalentes devido às exigências físicas da prática clínica, que incluem posições estáticas prolongadas, movimentos repetitivos das mãos e sobrecarga cervical e lombar. Estudos demonstram que a combinação de longos períodos de atendimento clínico, mobiliário inadequado e técnicas manuais intensivas contribui para o desenvolvimento de sintomas musculoesqueléticos desde os primeiros anos da graduação (SILVA et al., 2021; MARTINS et al., 2022).

Além do impacto físico, as dores musculoesqueléticas podem afetar negativamente aspectos psicológicos e emocionais, gerando estresse, fadiga, irritabilidade e queda no desempenho acadêmico (CHOWANADISAI et al., 2021; TEIXEIRA et al., 2022). Tais condições evidenciam a necessidade de atenção às dimensões biopsicossociais da dor, considerando que fatores emocionais e comportamentais podem amplificar a percepção da dor e comprometer a capacidade funcional dos estudantes (DANTAS et al., 2019).

A literatura também aponta que a dor musculoesquelética em estudantes de odontologia é influenciada por características individuais e demográficas, como sexo, idade, tempo de exposição clínica e nível de experiência acadêmica. Naidoo, Reddy e Gounden (2021) observaram maior prevalência de dor em estudantes do sexo feminino, possivelmente relacionada a diferenças biomecânicas, hormonais e à maior percepção de desconforto. Além disso, alunos do último ano, submetidos a maior carga horária de atividades clínicas, apresentam índices mais elevados de sintomas musculoesqueléticos (SILVA et al., 2021; MARTINS et al., 2022).

Diversas estratégias têm sido sugeridas para prevenção e manejo da dor, destacando-se programas de alongamento, educação postural, pausas ativas e intervenção ergonômica no ambiente clínico, que demonstraram reduzir a intensidade da dor e melhorar a qualidade de vida (GOMES et al., 2020; RODRIGUES et al., 2023). Nesse sentido, a integração de ações educativas e fisioterapêuticas no currículo acadêmico surge como medida preventiva essencial, promovendo saúde, bem-estar e maior desempenho acadêmico.

Diante desse contexto, torna-se evidente a necessidade de consolidar e analisar sistematicamente as evidências disponíveis sobre a relação entre dores musculoesqueléticas e qualidade de vida em estudantes de odontologia. Assim, esta revisão integrativa objetiva sintetizar os achados da literatura recente, identificando padrões de prevalência, fatores de risco, impactos na qualidade de vida e estratégias preventivas, contribuindo para o planejamento de intervenções eficazes no ambiente acadêmico.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, cujo objetivo foi analisar a relação entre dores musculoesqueléticas e qualidade de vida em estudantes de odontologia. Este tipo de estudo permite sintetizar e sistematizar evidências científicas, fornecendo subsídios para a prática profissional e identificação de lacunas no conhecimento (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010; BARDIN, 2016).

A busca de artigos foi realizada nas bases de dados SciELO, PubMed e LILACS, abrangendo publicações entre 2018 e 2024, nos idiomas português e inglês. Foram utilizados descritores combinados com operadores booleanos, como: “musculoskeletal pain”, “quality of life”, “dental students”, “odontology”, “student health” e seus equivalentes em português (“dor musculoesquelética”, “qualidade de vida”, “estudantes de odontologia”).

A seleção dos estudos ocorreu em três etapas: leitura de títulos, resumos e, posteriormente, textos completos. Os critérios de inclusão foram: estudos originais ou revisões integrativas publicados no período determinado, que abordassem a relação entre dores musculoesqueléticas e qualidade de vida em estudantes de odontologia. Foram excluídos artigos que não estavam disponíveis na íntegra, que abordavam outras populações ou que não investigavam o tema central desta revisão.

A busca nas bases de dados SciELO, PubMed e LILACS resultou inicialmente em 256 artigos. Após a leitura dos títulos e resumos, 198 foram excluídos por não abordarem diretamente a relação entre dores musculoesqueléticas e qualidade de vida em estudantes de odontologia. Restaram 58 artigos para leitura na íntegra, dos quais 10 atenderam plenamente aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final desta revisão integrativa. As principais características e achados desses estudos estão sintetizados no Quadro 1, permitindo análise comparativa dos dados.

A extração das informações seguiu um protocolo padronizado, contemplando: autor/ano, tipo de estudo, amostra, instrumentos utilizados e principais resultados. Esse procedimento garantiu rigor metodológico e confiabilidade na síntese dos achados, em conformidade com as diretrizes de revisões integrativas e recomendações do PRISMA (PETERS et al., 2015).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos 10 estudos incluídos na revisão integrativa evidenciou que as dores musculoesqueléticas são altamente prevalentes entre estudantes de odontologia, acometendo principalmente as regiões cervical, lombar e de ombros. Os dados sintetizados no Quadro 1 permitem observar padrões consistentes entre os estudos, como a associação entre dor e fatores relacionados à postura durante a prática clínica, longos períodos de trabalho em posição estática e carga horária elevada (Garbin et al., 2020; Silva et al., 2021; Martins et al., 2022). Além disso, os achados indicam que a dor musculoesquelética impacta de forma significativa a qualidade de vida física, psicológica e emocional dos estudantes, corroborando resultados anteriores sobre os efeitos multifatoriais da dor na saúde e bem-estar dos acadêmicos (Chowanadisai et al., 2021; Dantas et al., 2019).

Quadro 1 – Principais características e achados dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre dores musculoesqueléticas e qualidade de vida em estudantes de odontologia (2018–2024)

Autor/AnoTipo de estudoAmostraInstrumentos utilizadosPrincipais achados
Garbin et al. (2020)Transversal120 estudantesQuestionário Nórdico / WHOQOL-BREFAlta prevalência de dor cervical e lombar; associação significativa entre dor e menor qualidade de vida física e psicológica.
Chowanadisai et al. (2021)Transversal250 estudantesNordic Questionnaire / SF-3678% relataram dor musculoesquelética, principalmente em pescoço e ombros; impacto negativo nos domínios físico e vitalidade.
Silva et al. (2021)Transversal102 estudantesQuestionário Nórdico / WHOQOL-BREFDores mais frequentes em coluna lombar e pescoço; maior prevalência em alunos do último ano; fadiga e queda de desempenho acadêmico.
Naidoo, Reddy e Gounden (2021)Transversal180 estudantesSF-36 / Questionário próprioDor musculoesquelética impactou qualidade de vida e produtividade; estudantes do sexo feminino apresentaram maiores índices de dor.
Martins et al. (2022)Transversal150 estudantesQuestionário Nórdico / WHOQOL-BREF82% relataram dor musculoesquelética; maior frequência entre alunos com mais horas de prática clínica; influência significativa na saúde mental.
Lopes et al. (2020)Descritivo90 estudantesFicha ergonômica / Nordic QuestionnairePosturas inadequadas e mobiliário impróprio foram os principais fatores de risco; necessidade de intervenção ergonômica precoce.
Dantas et al. (2019)Transversal140 estudantesWHOQOL-BREF / Questionário sociodemográficoDores recorrentes associadas a estresse e sono inadequado; correlação direta com pior percepção de qualidade de vida.
Gomes et al. (2020)Intervenção60 estudantesQuestionário Nórdico / WHOQOL-BREFPrograma de alongamento e ergonomia reduziu intensidade da dor e melhorou qualidade de vida após 8 semanas.
Teixeira et al. (2022)Transversal110 estudantesEscala de Estresse / Questionário NórdicoAssociação entre estresse e dor musculoesquelética; sintomas emocionais agravam a percepção dolorosa.
Rodrigues et al. (2023)Revisão integrativa22 estudosEstratégias fisioterapêuticas e ergonômicas eficazes na redução da dor e na promoção da qualidade de vida em estudantes da saúde.

Fonte: elaboração própria (2025).

Os estudos indicam que a dor musculoesquelética está fortemente associada a fatores ergonômicos e psicossociais. Lopes et al. (2020) destacaram que posturas inadequadas e mobiliário impróprio são fatores de risco importantes, enquanto Teixeira et al. (2022) evidenciaram que altos níveis de estresse podem intensificar a percepção dolorosa, reforçando a natureza multifatorial das queixas. Ainda, Naidoo, Reddy e Gounden (2021) identificaram maior prevalência de dor em estudantes do sexo feminino, possivelmente devido a características biomecânicas e maior percepção de desconforto.

Outro ponto relevante diz respeito à relação entre dor e qualidade de vida. Estudos como Garbin et al. (2020) e Dantas et al. (2019) demonstraram que a presença de dor está associada à redução nos escores de qualidade de vida, especialmente nos domínios físico, psicológico e de vitalidade, e pode afetar o desempenho acadêmico e o bem-estar geral dos estudantes. Chowanadisai et al. (2021) reforçam que a dor persistente tem impacto emocional significativo, podendo levar a fadiga, irritabilidade e queda na produtividade.

Os estudos de intervenção também evidenciam o papel da fisioterapia preventiva e ergonômica. Gomes et al. (2020) demonstraram que programas de alongamento, pausas ativas e treinamento postural resultaram em redução da intensidade da dor e melhora na qualidade de vida após oito semanas. Revisões como a de Rodrigues et al. (2023) reforçam que tais estratégias são eficazes na prevenção e manejo das dores musculoesqueléticas, evidenciando a importância de ações educativas e preventivas no ambiente acadêmico.

De forma geral, a análise dos estudos evidencia que a relação entre dor musculoesquelética e qualidade de vida é bidirecional: a dor compromete a qualidade de vida, enquanto condições de estresse, fadiga e práticas clínicas inadequadas intensificam a percepção dolorosa (Martins et al., 2022; Silva et al., 2021). Assim, ações de educação postural, ergonomia e fisioterapia preventiva são essenciais para reduzir a prevalência de dor e promover a saúde física e emocional dos estudantes de odontologia.

CONCLUSÃO

Os achados desta revisão integrativa demonstram que as dores musculoesqueléticas apresentam alta prevalência entre estudantes de odontologia, sendo mais frequentes nas regiões cervical, lombar e de ombros, e associadas principalmente a fatores ergonômicos e psicossociais. A análise dos estudos revelou que a manutenção de posturas inadequadas durante as atividades clínicas, aliada ao estresse e à sobrecarga acadêmica, exerce influência direta sobre a qualidade de vida desses estudantes, comprometendo aspectos físicos, emocionais e funcionais. Tais resultados evidenciam a importância de reconhecer precocemente os fatores de risco e de promover estratégias educativas voltadas à ergonomia e à saúde ocupacional no contexto universitário.

Nesse sentido, destaca-se o papel fundamental da fisioterapia preventiva e ergonômica, tanto na orientação postural quanto na implementação de programas de alongamento, exercícios compensatórios e adequação do mobiliário. Intervenções dessa natureza demonstraram eficácia na redução da dor e na melhoria da qualidade de vida, conforme apontado pelos estudos analisados. Assim, reforça-se a necessidade de políticas institucionais que integrem ações fisioterapêuticas e de promoção da saúde no ambiente acadêmico, contribuindo para a formação de profissionais mais saudáveis, produtivos e conscientes de sua própria biomecânica.

REFERÊNCIAS

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016.

CHOWANADISAI, S. et al. Musculoskeletal pain and quality of life among dental students: a cross-sectional study. Journal of Back and Musculoskeletal Rehabilitation, v. 34, n. 2, p. 263–270, 2021.

DANTAS, F. S. et al. Dor musculoesquelética e qualidade de vida em estudantes universitários da área da saúde. Revista Brasileira de Promoção da Saúde, v. 32, n. 3, p. 1–9, 2019.

GARBIN, C. A. S. et al. Dor musculoesquelética e sua relação com a qualidade de vida de acadêmicos de odontologia. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 9, p. 3739–3748, 2020.

GOMES, A. P. et al. Efeitos de um programa de alongamento e ergonomia sobre sintomas musculoesqueléticos em estudantes de odontologia. Fisioterapia em Movimento, v. 33, p. e003329, 2020.

LOPES, A. P. et al. Postura, dor musculoesquelética e fatores ergonômicos em estudantes de odontologia. Revista de Pesquisa em Fisioterapia, v. 10, n. 1, p. 1–9, 2020.

MARTINS, L. R. et al. Prevalência e fatores associados à dor musculoesquelética em estudantes de odontologia. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 46, n. 4, p. e156, 2022.

MELO, M. A. et al. Atuação fisioterapêutica preventiva na saúde musculoesquelética de acadêmicos de odontologia. Revista Fisioterapia em Ação, v. 10, n. 2, p. 45–52, 2021.

NAIDOO, S.; REDDY, P.; GOUNDEN, Y. The impact of musculoskeletal pain on quality of life among dental students. Journal of Dental Education, v. 85, n. 7, p. 1052–1060, 2021.

PETERS, M. D. J. et al. Guidance for conducting systematic scoping reviews. International Journal of Evidence-Based Healthcare, v. 13, n. 3, p. 141–146, 2015.

RODRIGUES, M. T. et al. Estratégias fisioterapêuticas e ergonômicas na prevenção de distúrbios osteomusculares em acadêmicos da área da saúde. Revista Brasileira de Fisioterapia Aplicada, v. 27, n. 1, p. 15–23, 2023.

SILVA, E. P. et al. Fatores associados à dor musculoesquelética em estudantes de odontologia. Revista de Saúde Coletiva da UEFS, v. 31, p. 1–10, 2021.

SOUZA, M. T.; SILVA, M. D.; CARVALHO, R. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein, v. 8, n. 1, p. 102–106, 2010.

TEIXEIRA, C. R. et al. Estresse, dor musculoesquelética e desempenho acadêmico em estudantes da área da saúde. Revista Brasileira de Ciências da Saúde, v. 26, n. 2, p. 95–104, 2022.


1Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ingá. E-mail: gabrielafernanda201802@gmail.com
2Discente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ingá. E-mail: nataliamayumenoguti@gmail.com
3Docente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Ingá. E-mail: prof.deboradeitos@uninga.edu.br