PHYSICIAN-MODIFIED ENDOGRAFTS (PMEG) NO TRATAMENTO ENDOVASCULAR DE ANEURISMAS DA AORTA: REVISÃO INTEGRATIVA

PHYSICIAN-MODIFIED ENDOGRAFTS (PMEG) IN THE ENDOVASCULAR TREATMENT OF AORTIC ANEURYSMS: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601301657


Rafaela Torres Portugal Leite de Freitas1
Rodrigo Machado Landim2
 Juliana Campos da Silva3


RESUMO 

Objetivo: Analisar e sintetizar as evidências científicas disponíveis sobre a utilização da técnica de physician-modified endograft (PMEG) no tratamento endovascular dos aneurismas da aorta, considerando resultados clínicos, limitações e desfechos a curto prazo. 

Método: Revisão integrativa da literatura realizada nas bases SciELO, PubMed, BVS/LILACS e Cochrane Library, incluindo estudos publicados entre 2021 e 2025. 

Resultados: Oito estudos compuseram a amostra final, contemplando diferentes delineamentos metodológicos. As PMEGs foram aplicadas no tratamento de aneurismas aórticos complexos, com taxas de sucesso técnico variando entre 89% e 100%. A mortalidade em 30 dias foi baixa em cenários eletivos e mais elevada em contextos emergenciais. A incidência de endoleaks tipo I e III foi reduzida no pós-operatório imediato, embora tenham sido relatadas reintervenções e complicações renais, neurológicas e respiratórias. 

Conclusão: As PMEGs configuram uma alternativa endovascular factível e segura no curto prazo para o tratamento de aneurismas aórticos complexos, especialmente em pacientes de alto risco cirúrgico. Entretanto, as limitações metodológicas dos estudos disponíveis evidenciam a necessidade de pesquisas prospectivas, comparativas e com seguimento prolongado. 

Palavras-chave: Aneurisma da Aorta; Procedimentos Endovasculares; Endopróteses; Physician-Modified Endograft

ABSTRACT 

Objective: To analyze and synthesize the available scientific evidence on the use of the physician-modified endograft (PMEG) technique in the endovascular treatment of aortic aneurysms, considering clinical results, limitations, and short-term outcomes. 

Method: Integrative literature review conducted in the SciELO, PubMed, BVS/LILACS, and Cochrane Library databases, including studies published between 2021 and 2025. 

Results: Eight studies comprised the final sample, encompassing different methodological designs. PMEGs were applied in the treatment of complex aortic aneurysms, with technical success rates ranging from 89% to 100%. 30-day mortality was low in elective settings and higher in emergency contexts. The incidence of type I and III endoleaks was reduced in the immediate postoperative period, although reinterventions and renal, neurological, and respiratory complications were reported. 

Conclusion: Physician-Modified Endografts (PMEGs) represent a feasible and safe endovascular alternative in the short term for the treatment of complex aortic aneurysms, especially in patients at high surgical risk. However, the methodological limitations of the available studies highlight the need for prospective, comparative research with long-term follow-up. 

Descriptors: Aortic Aneurysm; Endovascular Procedures; Endoprostheses; Physician-Modified Endograft. 

INTRODUÇÃO 

Os aneurismas da aorta constituem uma condição vascular potencialmente fatal e representam um desafio terapêutico relevante em virtude de sua complexidade anatômica e do elevado risco de morbimortalidade associado. Caracterizam-se pela dilatação progressiva da parede aórtica, podendo evoluir para ruptura e morte súbita quando não tratados adequadamente. O manejo desses aneurismas tem evoluído ao longo das últimas décadas, acompanhando os avanços da cirurgia vascular e, mais recentemente, das técnicas endovasculares minimamente invasivas (Dente et al., 2023). 

Historicamente, a cirurgia aberta foi considerada o tratamento padrão para aneurismas aórticos complexos. Contudo, apesar de sua eficácia anatômica, esse método está associado a taxas elevadas de morbidade e mortalidade perioperatória, especialmente em pacientes idosos e com múltiplas comorbidades, como doença cardiovascular, insuficiência renal e comprometimento pulmonar. Estudos contemporâneos demonstram que, mesmo em centros de excelência, a mortalidade em 30 dias após o reparo aberto de aneurismas toracoabdominais permanece significativa, variando entre 5% e 10%, além de maior incidência de complicações respiratórias, sangramento e tempo prolongado de internação (Verzini et al., 2021). 

Nesse contexto, o advento das técnicas endovasculares representou um avanço substancial no tratamento dos aneurismas aórticos complexos. O desenvolvimento das endopróteses fenestradas e ramificadas (fenestrated/branched endovascular aneurysm repair – F/BEVAR) possibilitou a exclusão do aneurisma com preservação do fluxo para ramos viscerais e renais, reduzindo a agressividade cirúrgica e a mortalidade precoce quando comparadas à cirurgia aberta. Entretanto, a ampla utilização dessas endopróteses industriais customizadas é limitada pelo alto custo, pela necessidade de planejamento detalhado e, sobretudo, pelo tempo prolongado de fabricação, o que restringe sua aplicação em cenários urgentes ou emergenciais (Verzini et al., 2021; Duncan et al., 2021). 

Diante dessas limitações, emergiu a técnica de Physician-Modified Endograft (PMEG), que consiste na modificação manual de uma endoprótese endovascular padrão, com a confecção de fenestrações ou ramos personalizados para acomodação dos vasos-alvo, de acordo com a anatomia específica do paciente. Essa abordagem tem sido empregada como alternativa viável no tratamento endovascular de aneurismas aórticos complexos, particularmente em aneurismas justarrenais, pararrenais e toracoabdominais, bem como em situações de urgência e emergência, nas quais a customização industrial não está disponível em tempo hábil (Starnes et al., 2024; Wen et al., 2024; Melo et al., 2024). 

Estudos recentes indicam que as PMEGs apresentam elevadas taxas de sucesso técnico e resultados clínicos precoces satisfatórios, com mortalidade em 30 dias comparável à das endopróteses industriais e inferior àquela historicamente observada com a cirurgia aberta em populações de alto risco. No entanto, permanecem desafios relacionados à durabilidade, à ocorrência de endoleaks, à necessidade de reintervenções e à padronização da técnica, especialmente diante da heterogeneidade dos estudos disponíveis (Melo et al., 2024; Piazza et al., 2025). 

Diante desse cenário, objetivou-se analisar e sintetizar as evidências disponíveis na literatura científica acerca da utilização da técnica de Physician-Modified Endograft (PMEG) no tratamento endovascular dos aneurismas da aorta, considerando seus resultados clínicos, limitações e desfechos a curto prazo. 

MÉTODO 

TIPO DE ESTUDO 

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura (RIL), conduzida com a finalidade de compilar informações e sintetizar evidências provenientes de estudos com diferentes perspectivas e distintos delineamentos metodológicos. A revisão foi desenvolvida em cinco etapas, conforme o referencial metodológico proposto por Whittemore e Knafl (2005): (1) identificação do problema e elaboração da questão de pesquisa; (2) busca ou amostragem na literatura; (3) avaliação dos dados; (4) análise crítica dos estudos incluídos; e (5) apresentação da revisão. 

ESTRATEGIA DE BUSCA 

A questão norteadora da revisão foi: Quais evidências científicas estão disponíveis na literatura sobre a utilização da técnica de Physician-Modified Endograft (PMEG) no tratamento endovascular dos aneurismas da aorta? Para sua formulação, empregou-se a estratégia PICO, sendo P (população/problema) pacientes com aneurismas da aorta; I (intervenção) utilização da técnica de PMEG; C (comparação) não aplicável ao contexto da pesquisa; e O (desfechos) evidências científicas relacionadas aos resultados clínicos, limitações e desfechos a curto prazo. 

Os descritores controlados foram selecionados a partir do Banco de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH): Aneurisma Aórtico, Aneurisma da Aorta Abdominal, Aneurisma da Aorta Toracoabdominal, Procedimentos Endovasculares, Correção Endovascular de Aneurisma, Aortic Aneurysm, Abdominal Aortic Aneurysm, Thoracoabdominal Aortic Aneurysm, Endovascular Procedures e Endovascular Aneurysm Repair. Adicionalmente, utilizaram-se termos não controlados, em português e inglês, incluindo: Physician Modified Endograft, PMEG, Fenestrated Endograft, Branched Endograft, Endoprótese modificada pelo médico, Endovascular Treatment e Endograft

COLETA DE DADOS 

A busca na literatura foi realizada no período de junho de 2025 a janeiro de 2026, utilizando como fontes de informação a Scientific Electronic Library Online (SciELO), a National Library of Medicine (PubMed), as bases de dados do Portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) — com destaque para a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) — e a Cochrane Library. 

Para a operacionalização da pesquisa e ampliação da abrangência dos resultados, foram empregados os operadores booleanos “AND” e “OR” na combinação entre descritores e palavras-chave, possibilitando a elaboração de diferentes estratégias de busca, de acordo com as especificidades de cada base de dados consultada (Pereira; Galvão, 2014). 

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO 

Os critérios de inclusão compreenderam estudos publicados sem restrição de idioma, disponíveis em bases de dados nacionais e internacionais, que abordassem a temática Physician-Modified Endograft (PMEG), com texto completo e acesso gratuito. O recorte temporal adotado foi de 2021 a 2025, justificado pelos avanços recentes na área da saúde, os quais apresentam maior aplicabilidade à prática clínica e refletem atualizações nos protocolos assistenciais. 

Foram excluídos estudos com animais, resumos, teses, dissertações, artigos de opinião, comentários, relatos de experiência, anais de congressos, artigos duplicados, bem como aqueles que não apresentavam relação com a temática proposta. 

ANÁLISE E TRATAMENTO DOS DADOS 

Inicialmente, os estudos identificados foram organizados no software EndNote (versão X7), para exclusão de duplicatas e triagem por leitura de títulos e resumos. Os artigos elegíveis foram organizados em banco de dados no Microsoft Office 2010. A leitura na íntegra foi realizada por dois revisores de forma independente, garantindo rigor metodológico. Divergências foram resolvidas por consenso. 

Os estudos incluídos na revisão foram classificados segundo o nível de evidência científica, da seguinte forma: nível 1 – evidências provenientes de revisões sistemáticas ou metanálises de ensaios clínicos randomizados e controlados; nível 2 –  evidências oriundas de pelo menos um ensaio clínico randomizado e controlado, adequadamente delineado; nível 3 – evidências obtidas a partir de ensaios clínicos bem estruturados, porém sem randomização; nível 4 – evidências derivadas de estudos de coorte e de caso-controle bem delineados; nível 5 – evidências provenientes de revisões sistemáticas de estudos descritivos e qualitativos; nível 6 – evidências advindas de um único estudo descritivo ou qualitativo; e nível 7 – evidências baseadas na opinião de especialistas e/ou em relatórios de comitês de especialistas (Melnyk BM; Fineout-Overholt, 2011). 

RESULTADO 

A busca nas bases de dados resultou na identificação inicial de 435 estudos. Após a remoção de duplicatas (n = 4) e exclusão de artigos que não atenderam aos critérios de elegibilidade com base na leitura de títulos e resumos (n = 417), 14 estudos foram selecionados para leitura na íntegra. Destes, seis foram excluídos por não abordarem especificamente a técnica de Physician-Modified Endograft (PMEG), resultando em oito estudos incluídos na amostra final da revisão (Figura 1). 

Figura 1 – Fluxo descritivo das diferentes fases da RIL sobre técnica PMEG

Fonte: Adaptado da recomendação PRISMA (Moher, 2009). 

Quanto ao delineamento dos estudos, os Quadros 2 e 3 apresentam o panorama geral das publicações incluídas, contemplando a caracterização quanto aos autores, ano de publicação, tamanho da amostra, tipo de aneurisma, contexto clínico, nível de evidência, taxas de sucesso técnico, mortalidade em 30 dias, ocorrência de endoleaks e necessidade de reintervenções. 

QUADRO 2 – Características gerais dos estudos incluídos segundo autor, país, amostra, tipo de aneurisma, contexto clínico e nível de evidência. 

Fonte: Dados da pesquisa, 2026 

Quadro 3 – Evidências clínicas e desfechos dos estudos sobre Physician-Modified Endografts (PMEG)

Fonte: Dados da pesquisa, 2026

De acordo com o país de origem dos estudos incluídos, observou-se que 50% (n = 4) correspondem a publicações multicêntricas, com predominância de centros europeus. As demais publicações foram conduzidas em países específicos, sendo Portugal, Austrália, China e Estados Unidos responsáveis, cada um, por 12,5% (n = 1) dos estudos. Em relação ao ano de publicação, verificou-se maior concentração de estudos nos anos de 2024 e 2025, ambos representando 37,5% (n = 3) das publicações incluídas na amostra (Quadro 2). 

 Os estudos selecionados foram publicados entre 2021 e 2025 e apresentaram delineamentos heterogêneos, incluindo séries de casos, estudos observacionais retrospectivos e prospectivos multicêntricos, ensaio clínico não randomizado e revisões sistemáticas com e sem meta-análise. Quanto ao nível de evidência, predominou o nível IV (62,5%), com uma revisão sistemática com meta-análise classificada como nível I. 

As amostras dos estudos primários variaram de 3 a 1.220 pacientes, enquanto a meta-análise agregou dados de 909 procedimentos com PMEG. Os aneurismas tratados incluíram aneurismas justarrenais, pararrenais, toracoabdominais, do arco aórtico e aneurismas rotos. A população estudada foi, predominantemente, idosa e com elevada prevalência de comorbidades cardiovasculares, caracterizando pacientes de alto risco para cirurgia aberta. 

As taxas de sucesso técnico variaram entre 89% e 100%, com melhores resultados observados nos estudos que referiram procedimentos eletivos. A mortalidade em 30 dias apresentou ampla variação conforme o contexto clínico, oscilando entre 0% e 2,9% em cenários eletivos e alcançando até 24% em contextos emergenciais, particularmente em aneurismas toracoabdominais rotos (Quadro 3). 

A incidência de endoleaks tipo I e III foi baixa no pós-operatório imediato, especialmente em estudos eletivos, embora eventos tardios tenham sido descritos em séries com seguimento prolongado. As taxas de reintervenção variaram entre 10% e 30%, sendo mais elevadas em reparos urgentes e emergenciais. 

As principais complicações relatadas incluíram lesão renal aguda, eventos neurológicos (acidente vascular cerebral e lesão medular), complicações respiratórias, complicações hemorrágicas e isquemia intestinal. 

Em relação às evidências científicas sintetizadas (Figura 2), a análise crítica dos estudos incluídos permitiu a organização dos achados em quatro categorias temáticas: (1) amostra e heterogeneidade dos estudos; (2) sucesso técnico e desfechos precoces; (3) complicações e necessidade de reintervenção; e (4) inovações tecnológicas e perspectivas futuras. 

Figura 2 – Categorias temáticas emergentes dos estudos sobre Physician-Modified Endografts (PMEG).

 Fonte: Dados da pesquisa e autores, 2026 

Discussão 

Esta revisão integrativa da literatura sintetizou evidências provenientes de oito estudos que avaliaram a utilização de endopróteses modificadas pelo médico (physicianmodified endografts – PMEG) no tratamento de aneurismas aórticos complexos, incluindo aneurismas justarrenais, pararrenais, toracoabdominais, do arco aórtico e aneurismas pós-dissecção. Os estudos incluíram cenários eletivos, urgentes e emergenciais e apresentaram delineamentos heterogêneos, abrangendo coortes observacionais prospectivas e retrospectivas, registros multicêntricos e revisões sistemáticas com e sem meta-análise (Coles-Black et al., 2020; Starnes et al., 2024; Wen et al., 2024; Melo et al., 2024; Piazza et al., 2025; Spath et al., 2025). 

De forma complementar, foram incorporadas meta-análises contemporâneas que compararam o reparo endovascular complexo — incluindo F/BEVAR e PMEG — com a cirurgia aberta, permitindo contextualizar os achados e posicionar criticamente as PMEGs frente às alternativas terapêuticas disponíveis (Verzini et al., 2021; Duncan et al., 2021). 

Amostra e heterogeneidade dos estudos 

As amostras dos estudos primários variaram entre aproximadamente 50 e 228 pacientes, enquanto as revisões sistemáticas e meta-análises agregaram mais de 900 procedimentos endovasculares complexos. Predominou uma população idosa, majoritariamente masculina, com elevada carga de comorbidades cardiovasculares e histórico frequente de intervenções aórticas prévias, perfil característico de pacientes considerados de alto risco para cirurgia aberta (Melo et al., 2024; Verzini et al., 2021). 

A heterogeneidade metodológica observada — relacionada ao território aórtico tratado, ao contexto clínico e ao tempo de seguimento — limita comparações diretas entre os estudos. Contudo, essa diversidade amplia a compreensão da aplicabilidade das PMEGs em diferentes cenários clínicos, particularmente quando endopróteses industriais customizadas não estão disponíveis em tempo oportuno. 

Sucesso técnico e desfechos precoces 

As taxas de sucesso técnico foram consistentemente elevadas, especialmente em procedimentos eletivos. Wen et al. (2024) relataram sucesso técnico de 98% em PMEGs para o arco aórtico, enquanto o registro multicêntrico S.PH.E.RE. demonstrou taxa de 96%, com falhas predominantemente relacionadas à canulação de vasos-alvo (Piazza et al., 2025). Esses achados foram corroborados pela meta-análise proporcional de Melo et al. (2024), que evidenciou taxa global de sucesso técnico superior a 97%. 

A mortalidade em 30 dias mostrou-se fortemente dependente do contexto clínico. Em cenários eletivos, as taxas variaram entre 0% e 2,9%, resultados comparáveis aos observados em séries contemporâneas de F/BEVAR industriais e inferiores aos valores historicamente descritos para a cirurgia aberta em aneurismas toracoabdominais (Starnes et al., 2024; Piazza et al., 2025; Verzini et al., 2021). Em contrapartida, em contextos emergenciais, como nos aneurismas toracoabdominais rotos analisados por Spath et al. (2025), a mortalidade precoce atingiu 24%, refletindo a gravidade clínica desses pacientes, embora permaneça alinhada às taxas descritas para a cirurgia aberta em situações semelhantes. 

Complicações e necessidade de reintervenção 

A incidência de endoleaks tipo I e III foi relativamente baixa no pós-operatório imediato dos procedimentos eletivos. No registro S.PH.E.RE., não foram observados endoleaks tipo I ou III em 30 dias, enquanto Wen et al. (2024) relataram ocorrência limitada desses eventos, tratados com sucesso por reintervenções endovasculares. Entretanto, estudos com seguimento prolongado demonstraram que endoleaks tipo III podem ocorrer de forma tardia, especialmente em reparos endovasculares complexos, reforçando a necessidade de vigilância contínua independentemente do tipo de endoprótese utilizada (Duncan et al., 2021). 

As taxas de reintervenção variaram entre 10% e 24%, dependendo da complexidade anatômica e do contexto clínico (Wen et al., 2024; Spath et al., 2025). Esse padrão é consistente com achados de meta-análises que demonstram menor mortalidade precoce do reparo endovascular em relação à cirurgia aberta, à custa de maior necessidade de reintervenções tardias (Verzini et al., 2021). 

Entre as principais complicações relatadas destacaram-se lesão renal aguda, eventos neurológicos — incluindo acidente vascular cerebral e isquemia medular —, complicações respiratórias e isquemia intestinal. Procedimentos envolvendo o arco aórtico estiveram associados a maior risco neurológico, enquanto aneurismas toracoabdominais extensos, especialmente em contexto de ruptura, apresentaram maior incidência de isquemia medular (Wen et al., 2024; Spath et al., 2025). Comparativamente, a cirurgia aberta demonstrou maior associação com complicações respiratórias precoces, enquanto a incidência de isquemia medular permanente mostrou-se semelhante entre as técnicas, sugerindo relação mais estreita com a extensão da doença aórtica do que com a abordagem empregada (Verzini et al., 2021). 

Inovações tecnológicas e perspectivas futuras 

Do ponto de vista tecnológico, a impressão tridimensional aplicada ao planejamento e à confecção de PMEGs foi apontada como ferramenta promissora para aprimorar a precisão técnica e o alinhamento das fenestrações. No entanto, a evidência clínica atual ainda é insuficiente para demonstrar impacto direto dessas tecnologias na redução de mortalidade ou de complicações maiores (Coles-Black et al., 2020). 

Conclusão 

A evidência disponível indica que as endopróteses modificadas pelo médico (PMEG) constituem uma estratégia endovascular factível e segura no curto prazo para o tratamento de aneurismas aórticos complexos, especialmente em pacientes de alto risco cirúrgico e em situações nas quais a customização industrial não está disponível em tempo hábil. Os resultados clínicos sustentam seu uso como alternativa válida dentro do espectro do reparo endovascular complexo, com desempenho comparável ao das endopróteses fenestradas e ramificadas industriais e vantagens potenciais em relação à cirurgia aberta em populações selecionadas. 

Entretanto, a necessidade de seguimento rigoroso e a ocorrência de reintervenções reforçam que o reparo endovascular complexo deve ser compreendido como uma estratégia dinâmica de manejo da doença aórtica. O avanço de tecnologias de apoio ao planejamento, como a impressão tridimensional aplicada às PMEGs, representa um campo promissor, embora ainda careça de validação clínica robusta. A predominância de estudos observacionais e a heterogeneidade metodológica das evidências disponíveis reforçam a necessidade de investigações prospectivas, comparativas e com seguimento de longo prazo, capazes de avaliar a durabilidade, a segurança e o impacto clínico das PMEGs. Esses estudos serão fundamentais para consolidar definitivamente o papel dessa técnica — inclusive quando associada a tecnologias de planejamento avançado, como a impressão tridimensional — no algoritmo terapêutico dos aneurismas aórticos complexos. 

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1Médica pela Universidade de Fortaleza. Residência em Cirurgia Básica pelo Instituto Dr. José Frota. Concluinte da Residência em Cirurgia Vascular pelo Hospital Geral de Fortaleza.
2Médico pela Universidade Federal do Ceará. Cirurgião Geral pela Universidade Estadual de Campinas. Residência em Cirurgia Vascular pela Universidade Estadual de Campinas. Residência em Cirurgia Endovascular pela Universidade Estadual de Campinas.
3Mestre em Gestão em Saúde pela Universidade Estadual do Ceará.