REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510071151
Laura Marisnaide Fiuza Leal1
Alessandra de Almeida Bilhalva2
Tamires Stifft Radtke3
Ângela Roberta Alves Lima4
RESUMO
O envelhecimento populacional é um desafio crescente que exige novas estratégias de cuidado, especialmente para idosos que apresentam maior vulnerabilidade. Nesse cenário as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) são espaços fundamentais para o acolhimento e atenção à saúde dessa população.
Em Pelotas/RS, a Secretaria de Saúde implantou um serviço de telemonitoramento para acompanhar a saúde dos residentes dessas instituições, com foco em doenças crônicas, risco de quedas, nutrição, vacinação e lesões de pele, e tendo como objetivo melhorar a qualidade do cuidado prestado.
O estudo, de abordagem quantitativa, analisou dados de 289 idosos atendidos entre outubro de 2024 e junho de 2025. A média de idade foi de 79,5 anos, sendo 67% mulheres. Hipertensão foi a comorbidade mais prevalente (56,4%), seguida de Alzheimer (19,72%) e diabetes (17,65%). A maioria apresentava sinais de fragilidade, como risco de quedas (54,67%) e uso de fraldas (58,48%).
A taxa de institucionalização em Pelotas (1,75%) é três vezes superior à média nacional (0,5%), o que reflete mudanças sociais, como o envelhecimento da população e a diminuição da disponibilidade familiar para o cuidado.
Embora nem todas as ILPIs tenham aderido ao projeto, os resultados indicam que o serviço de telemonitoramento demonstrou-se eficaz na identificação precoce de problemas de saúde e na promoção de um cuidado mais humanizado e integrado.
Palavras-chave: idoso; ILPI; telemonitoramento.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é um fenômeno global que exige da sociedade e do poder público a criação de estratégias para garantir qualidade de vida e cuidado adequado aos idosos (GUIMARÃES DE FIGUEIREDO, 2022). Nesse cenário, as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) desempenham um papel fundamental, oferecendo moradia, assistência e suporte a pessoas com 60 anos ou mais que, por diferentes motivos, não podem ou não desejam permanecer em seus lares.
As ILPIs, anteriormente conhecidas como asilos, passaram por significativas transformações, buscando promover um ambiente digno, acolhedor e que respeite os direitos e a autonomia dos seus residentes (TAVARES, P.N., 2018). O funcionamento dessas instituições envolve desafios complexos relacionados à infraestrutura, qualificação de profissionais, financiamento e, sobretudo, à garantia do bem-estar físico, emocional e social dos idosos.
Reconhecendo essa necessidade, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), por meio da Resolução RDC Nº 502/2021, estabeleceu diretrizes para o funcionamento das ILPIs. A norma exige, por exemplo, a elaboração bienal de um Plano de Atenção Integral à Saúde dos residentes, uma estratégia crucial para qualificar o cuidado e aproximar essa população dos serviços de saúde.
Considerando a vulnerabilidade dos idosos que residem em ILPIs, decorrentes da idade avançada, de comorbidades, do compartilhamento de ambientes coletivos, da dependência para a realização de atividades diárias, e da prevalência de práticas de asilamento da população idosa mais empobrecida em detrimento de outras medidas protetivas que garantam condições dignas de reprodução social geracional (GAMA, MATHIS, 2023), a Secretaria de Saúde de Pelotas implementou uma proposta de atenção à saúde dessa população. Por meio de telemonitoramento, o projeto avalia e acompanha as condições de saúde de usuários nessas instituições, com foco em doenças crônicas (como Diabetes e Hipertensão), risco de quedas, situação vacinal, lesões de pele e orientação nutricional.
Essa iniciativa representa uma estratégia moderna e eficaz para superar as barreiras de cuidado e assegurar a atenção contínua a um grupo populacional que historicamente enfrenta fragilidades no acesso à saúde. Esse artigo tem por objetivo descrever o perfil desses usuários institucionalizados a partir de avaliação do serviço de telemonitoramento.
METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como um relato descritivo, com abordagem predominantemente quantitativa, que visa conhecer o perfil sociodemográfico e de saúde dos idosos residentes em ILPIs no município de Pelotas/RS.
O estudo foi realizado a partir de dados secundários oriundos do banco de dados do telemonitoramento médico e de enfermagem, implementado pela Secretaria de Saúde de Pelotas/RS junto às ILPIs do município. Os dados se referem ao período compreendido entre outubro de 2024 à 16 de junho de 2025.
Os dados foram coletados a partir dos registros do programa de telemonitoramento, que utiliza planilha do Excel padronizada e o Prontuário Eletrônico do Cidadão no E-SUS para registro das informações. As variáveis analisadas incluem: idade, sexo, doenças crônicas (Diabetes Mellitus, Hipertensão Arterial Sistêmica), risco de quedas, situação vacinal, lesões de pele, uso de fraldas e necessidade de orientação nutricional.
Para a descrição do perfil, os dados foram submetidos à análise descritiva. Variáveis categóricas, como sexo e presença de comorbidades, foram analisadas por meio de frequências absolutas (n) e relativas (%). A idade dos participantes foi descrita utilizando média e desvio padrão.
Por se tratar de um estudo com dados secundários, que não envolvem a interação direta com os participantes, o projeto foi dispensado da aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. No entanto, foram garantidos o anonimato e a confidencialidade das informações de todos os idosos envolvidos.
RESULTADOS
A população idosa de Pelotas, conforme o Censo 2022, é de 67.480 pessoas, representando 20,71% do total de habitantes do município. Destes, cerca de 1.179 (1,75%) são institucionalizados, segundo dados da Vigilância Sanitária.
O telemonitoramento foi oferecido às 66 ILPIs do município, 33 foram as que participaram da apresentação do projeto, o que corresponde a 50% do total de instituições. Dessas, nove (13,63%) não manifestaram interesse em participar. Até a data de análise dos dados o atendimento havia sido efetivado em 15 instituições (22,72%) com todos os residentes, e em duas (3,03%) com parte dos residentes. Ao final, 289 idosos compõem essa amostra, representando 24,51% do total de institucionalizados no município. É importante registrar que alguns residentes não puderam ser monitorados por motivos como óbito (n=4), mudança de município (n=1) ou internação (n=2). Além disso, cinco idosos se recusaram a participar da consulta online.
O perfil demográfico dos idosos atendidos revelou uma média de idade de 79,5 anos. A maioria dos participantes era do sexo feminino (67%). Embora a amostra fosse composta predominantemente por idosos, cinco indivíduos com menos de 60 anos, com idade mínima de 29 anos, foram incluídos por estarem institucionalizados devido à necessidade de cuidados de longa duração ou demanda judicial.
A análise das condições de saúde demonstrou que metade dos participantes (54,67%) apresentavam risco de queda. Outros indicadores de dependência e fragilidade incluíram o uso de fraldas (58,48%), a condição de acamado (23,57%), e a presença de sequelas de AVC (14,15%). Também foram identificadas lesões de pele (n=14) e amputação de membros (n=2).
No que se refere às comorbidades, a hipertensão arterial sistêmica foi a condição crônica mais prevalente, afetando 56,40% dos idosos. Em seguida, destacam-se o diagnóstico de diabetes mellitus (17,65%) e de Doença de Alzheimer (19,72%). Outras condições crônicas relevantes incluíram outros tipos de demência (10,04%), depressão (11,76%), insuficiência cardíaca (9,68%) e Doença de Parkinson (5,19%).
DISCUSSÃO DOS DADOS
Os dados que revelam o percentual 1,75% de idoso vivendo em ILPIs em Pelotas, corresponde a 3 vezes mais do que o índice estimado pelo IBGE de 2022, de 0,5% da população com mais de 60 anos no país (32,1 milhões) vivendo em instituições. Esse percentual pode indicar vários fatores, como a disponibilidade e acesso a ILPIs, a prevalência de doenças ou condições que levam idosos a necessitar de cuidados de longa duração em instituições, ou até mesmo questões sociais e culturais relacionadas ao cuidado de idosos na região. A composição das famílias, a redução do número de gerações vivendo no domicílio e a terceirização do cuidado também podem justificar o aumento da demanda por institucionalização. Antigamente, as mulheres exerciam o papel de cuidadoras, permanecendo em casa para realizar o cuidado de familiares de maior idade. Atualmente, as mulheres cada vez mais desempenham outras funções e empregos, não possuindo disponibilidade para o cuidado dos idosos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2015).
A prevalência do sexo feminino congruente com outros estudos (TESSMANN, et al 2024), explica-se pela maior taxa de mortalidade do sexo masculino, ocasionando um número maior de indivíduos desse sexo na terceira idade (CONFORTIN et al.,2020). A expectativa de vida para mulheres é de 79,7 anos, enquanto para homens é de 73,1 anos (IBGE). A maior expectativa de vida propicia o desenvolvimento de comorbidades e dependência de cuidados em fim de vida, corroborando com a maior taxa de institucionalização do sexo feminino (GUIMARÃES e ANDRADE, 2020)
O cenário da longevidade encontrado no estudo indica que a maioria dos idosos institucionalizados, podem ser considerados idosos mais longevos ou na quarta idade, pois possuem mais de 79,5 anos, encaminhando-se para o período de final de vida. Sabe-se que o envelhecimento ocorre em diferentes dimensões, concomitantes ou não: biológica, social, psicológica, econômica, jurídica, política, etc. O envelhecer depende de muitos fatores ocorridos nas fases anteriores da vida, das experiências vividas na família, na escola ou em outras instituições (ONU), e avaliar as condições individuais de cada cidadão em processo de envelhecimento é importante.
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) possuem origem não infecciosa e podem causar, principalmente no idoso, incapacidades funcionais, perda da qualidade de vida e mortalidade prematura. São representadas por um conjunto de enfermidades de causas múltiplas e vários fatores de risco (FIGUEIREDO, CECCON E FIGUEIREDO, 2021; MALTA et al., 2020). Neste estudo identificou-se uma prevalência de hipertensão de 56,48%, acima do encontrado em estudos de perfil de idosos em ILPIs, (TESMANM e ARRUDA et al., 2025), que associada a prevalência de outras DCNTs como 17,65% de diabetes mellitus; e 19,72% de Alzheimer, faz com que se tenha um número expressivo de institucionalizados com utilização de vários fármacos concomitantemente, gerando uma demanda de cuidado e atenção integral, que exige da instituição equipe qualificada e atenção aos protocolos de segurança do pacientes na administração de medicação.
A identificação da prevalência de DCNT como hipertensão, diabetes mellitus, insuficiência cardíaca, Alzheimer e outras demências, depressão, Parkinson, alerta para um perfil de idosos que residem em ILPI com diferentes condições crônicas que exigem conhecer suas particularidades e realizar acompanhamento contínuo e oferta de equipe multiprofissional no cuidado.
Outro ponto sensível identificado foi a fragilidade encontradas: Risco de quedas, uso de fraldas, acamados, dependência funcional. Estudo do Canadá, com abordagem holística de fragilidade de idosos, apontou nove domínios(1) cognição, (2) estado geral de saúde, (3) independência funcional, (4) suporte social, (5) uso de medicamentos, (6) nutrição, (7) humor, (8) continência e (9) desempenho funcional (Fried et al, 2001). Se utilizarmos esses pontos para avaliarmos os idosos acompanhados neste estudo, constata-se que quase a totalidade são considerados frágeis.
A fragilidade aumenta significativamente o risco de desfechos clínicos adversos, como hospitalizações, quedas e a necessidade de maiores cuidados. Nesse cenário, o telemonitoramento tem sido uma ferramenta essencial. Visto que permite identificar precocemente os sinais de fragilidade e promover intervenções rápidas e direcionadas. Essa abordagem proativa é fundamental para mitigar o risco de complicações e promover a saúde e a autonomia dos idosos residentes nas ILPIs.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O serviço de telemonitoramento implantado nas ILPIs de Pelotas, demonstrou ser uma estratégia relevante e necessária diante do crescente envelhecimento populacional e da vulnerabilidade dos idosos institucionalizados. Com o acompanhamento remoto e sistematizado, foi possível identificar as condições clínicas prevalentes, HAS, DM, agravos relacionados à mobilidade, nutrição e risco de quedas, contribuindo para o aumento do cuidado e da prevenção dessas complicações.
Mesmo com os desafios encontrados, como a recusa de algumas instituições em participar do serviço e a necessidade de organização de prontuários, os resultados iniciais indicam um impacto positivo na qualificação do cuidado prestado, juntamente com os profissionais de saúde, gestores e instituições é possível ver que o modelo integrado é mais eficiente e humanizado na prestação de serviço aos idosos.
Destaca-se a importância das capacitações realizadas com os cuidadores, promovendo a valorização da prática do cuidado e adoção de práticas baseada em evidências. Assim, o telemonitoramento nas ILPIs não apenas promove uma vigilância clínica contínua, mas também fortalece a rede de atenção à saúde, contribuindo para a efetivação do cuidado integral e multidimensional aos idosos institucionalizados, além da criação de vínculo entre as instituições que prestam esse cuidado e os serviços que o município oferta.
REFERÊNCIAS
CONFORTIN, S. C. et al. Risk factors associated with mortality in young and long-lived older adults in Florianópolis, SC, Brazil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 25, n. 6, p. 2031–2040, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/zDzyQjM6WdJ7K8fP5jH8TqM/. Acesso em: 10 abr. 2025.
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1laura.fiuza@hotmail.com / Nutricionista na Secretaria Municipal de Saúde – Pelotas/RS, especialista em saúde da família e políticas públicas, mestranda em saúde da família (PROFSAÚDE/UFPEL).
2Médica na Secretaria Municipal de Saúde – Pelotas/RS, especialista em saúde de família.
3tamiresradtke@gmail.com / Enfermeira na secretaria Municipal de Saúde de Pelotas/RS. Especialista em Urgência e Emergência/ Saúde Coletiva.
4Enfermeira na Secretaria Municipal de Saúde de Pelotas/RS
Especialista em saúde da família. Doutora em Ciências sociais
