THE ROLE OF CHILDHOOD NUTRITION AND ITS IMPACT ON SCHOOL PERFORMANCE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509261542
Creules da Silva Reis1
Gisele Freitas Morais1
Macyelly Carlos da Silva1
Orientadora: Ma. Rebeca Sakamoto Figueiredo2
Coorientadora: Me. David Silva dos Reis3
RESUMO
Uma alimentação equilibrada é essencial para o desenvolvimento infantil, sobretudo no ambiente escolar, pois garante os nutrientes indispensáveis ao crescimento, à saúde e ao processo de aprendizagem. O objetivo principal desta pesquisa foi analisar a influência da alimentação inadequada no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado escolar de crianças nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa, que buscou sintetizar evidências científicas sobre a temática de forma sistemática e organizada. Os resultados indicam que a alimentação escolar adequada promove o desenvolvimento cognitivo, melhora a concentração, a memória e o rendimento acadêmico em crianças. Conclui-se que a falta de acesso a alimentos nutritivos e as deficiências nutricionais durante o processo de aprendizagem infantil comprometem a atenção, a memorização e a capacidade de aprendizado.
Palavras-chave: alimentação escolar, desenvolvimento cognitivo, aprendizado
ABSTRACT
A balanced diet is essential for child development, especially in the school environment, as it provides the nutrients necessary for growth, health, and the learning process. The main objective of this research was to analyze the influence of inadequate nutrition on the cognitive development and academic learning of children in the early years of elementary school. This study consisted of an integrative literature review with a qualitative approach, aiming to systematically synthesize scientific evidence on the topic. The results indicate that adequate school nutrition promotes cognitive development, improves concentration, memory, and academic performance in children. It can be concluded that lack of access to nutritious foods and nutritional deficiencies during the intellectual learning process compromise attention, memory, and learning capacity.
Keywords: school nutrition, cognitive development, learning.
1. INTRODUÇÃO
A alimentação infantil constitui um dos pilares fundamentais para o crescimento, o desenvolvimento e a manutenção da saúde, sendo determinante para o desempenho cognitivo e escolar. Uma dieta equilibrada assegura a oferta de nutrientes necessários ao funcionamento adequado do organismo, contribuindo para energia, concentração e memória, aspectos essenciais ao processo de aprendizagem (Castro et al., 2021; Alves et al., 2022). Nesse sentido, compreender a influência da nutrição sobre o rendimento acadêmico é essencial para subsidiar políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento integral das crianças (Risotolândia, 2025; Santos, 2024).
Diversos estudos demonstram que a má nutrição infantil compromete funções cognitivas como atenção, memória e raciocínio lógico, repercutindo negativamente no desempenho escolar (Koletzko et al., 2019; De Sales Santiago; Rodrigues, 2023). Por outro lado, hábitos alimentares adequados, quando implementados desde os primeiros anos de vida, promovem ganhos acadêmicos e favorecem a construção de trajetórias educacionais mais sólidas (Urquía et al., 2023; Slater et al., 2025). A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021) enfatiza que uma dieta saudável deve priorizar o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, reduzindo açúcares, gorduras e sódio, prevenindo não apenas doenças crônicas, mas também deficiências que afetam diretamente o aprendizado.
Micronutrientes como ferro, zinco, cálcio e vitaminas do complexo B desempenham papel central na saúde cerebral, sendo responsáveis pela transmissão sináptica, pelo transporte de oxigênio e pela consolidação da memória. A deficiência desses nutrientes está associada a déficits de aprendizagem e maior prevalência de distúrbios cognitivos em escolares (Franco, 1999; Enani, 2024; Pérez-Escamilla et al., 2021). Nesse cenário, a ingestão regular de frutas, legumes, verduras e proteínas de qualidade surge como medida protetiva para o desenvolvimento físico e intelectual (Cardoso et al., 2019; Mohammed et al., 2023).
Entretanto, observa-se que crianças em idade escolar apresentam resistência à adoção de dietas equilibradas, optando frequentemente por alimentos ultraprocessados como refrigerantes, salgadinhos e doces. Esses padrões alimentares, reforçados pela publicidade e pela facilidade de acesso, estão associados ao aumento da obesidade infantil e à queda no rendimento escolar (Monteiro et al., 2019; Costa et al., 2022). Estudos longitudinais apontam que o consumo habitual de ultraprocessados prejudica a atenção, reduz a capacidade de memorização e eleva o risco de doenças metabólicas ao longo da vida (Schmidt; Strack; Conde, 2018; Birch; Ventura, 2009).
Nesse contexto, a merenda escolar assume papel estratégico, pois além de suprir deficiências nutricionais, atua como ferramenta de promoção da equidade social e de educação alimentar (Gomes, 2020; Signor; Dal Bosco; Colomé, 2024). O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por exemplo, tem sido associado à melhoria do rendimento acadêmico e à redução da evasão escolar em diversas regiões do Brasil (Souza; De Souza, 2023; Maiellaro, 2022). Além disso, pesquisas recentes evidenciam que a escola, em parceria com a família, pode contribuir significativamente para a construção de hábitos alimentares saudáveis e para a formação de cidadãos mais conscientes (Da Cruz Sanchez et al., 2023; Silva et al., 2024).
Portanto, analisar a influência da alimentação saudável no desenvolvimento infantil e no desempenho escolar mostra-se fundamental para a promoção de políticas públicas efetivas e para o fortalecimento de práticas educativas que assegurem melhores condições de saúde, aprendizado e cidadania às crianças brasileiras (Cmich, 2025).
O objetivo geral deste estudo é analisar a influência da alimentação inadequada no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado escolar de crianças nos anos iniciais do Ensino Fundamental, investigando suas origens, implicações e estratégias de enfrentamento. Já os objetivos específicos consistem em: Conceituar os problemas decorrentes da ausência de alimentação de qualidade e relacioná-los com dificuldades de aprendizagem; Identificar os fatores que influenciam as necessidades nutricionais das crianças nos primeiros anos do ensino fundamental.; Compreender o papel da escola, particularmente da merenda escolar, na mitigação dos efeitos negativos da má alimentação no processo de ensino-aprendizagem.
2. METODOLOGIA
2.1 Tipo de estudo
A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, método amplamente utilizado para reunir, analisar e sintetizar resultados de diferentes estudos sobre uma mesma temática, permitindo uma visão crítica e abrangente do conhecimento produzido (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). Essa abordagem possibilita não apenas identificar as evidências disponíveis, mas também destacar lacunas na produção científica e propor recomendações para a prática educacional e nutricional.
2.2 Coleta de dados
Foram coletados artigos científicos relacionados ao tema em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo a Scientific Electronic Library Online (Scielo) e a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), publicados entre 2015 e 2025. Utilizaram-se os seguintes descritores em português e inglês: “alimentação saudável infantil”, “alimentação escolar”, “hábitos alimentares escolares”, “desempenho escolar”, “criança”, “educação alimentar”, “nutrição escolar e aprendizagem” e “PNAE”.
Os critérios de inclusão foram: (i) artigos originais disponíveis na íntegra, (ii) publicados nos últimos dez anos, e (iii) que abordassem a alimentação e seu impacto no desempenho escolar de crianças do ensino fundamental. Excluíram-se trabalhos que não atendiam ao recorte temporal, sem relevância para a temática, sem dados empíricos ou que tratassem de outras faixas etárias.
2.3 Análise de dados
A análise dos artigos selecionados foi realizada em etapas. Primeiramente, procedeu-se à leitura exploratória e crítica dos textos, extraindo informações relacionadas ao objetivo do estudo, metodologia, amostra, principais resultados e conclusões. Em seguida, foi construído um quadro síntese contendo os dados mais relevantes de cada pesquisa, possibilitando a comparação entre diferentes contextos e delineamentos metodológicos.
Para Minayo (2017), a análise qualitativa deve ir além da descrição, buscando interpretar os achados de modo crítico, considerando o contexto social e cultural em que as pesquisas foram realizadas. Nesse sentido, os resultados foram discutidos à luz da literatura científica recente, destacando convergências, divergências e lacunas, com vistas a ampliar a compreensão sobre a importância da alimentação escolar no desempenho acadêmico
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 A influência da alimentação inadequada no desempenho cognitivo e escolar
Os resultados obtidos a partir da revisão integrativa confirmam que a alimentação inadequada é um dos principais fatores de risco para o baixo rendimento escolar. Crianças submetidas a dietas pobres em nutrientes apresentam maior dificuldade de concentração, atenção e memória, refletindo em notas mais baixas nas disciplinas de português e matemática, áreas consideradas fundamentais para o processo de alfabetização e raciocínio lógico (Alves et al., 2022).
De Sales Santiago e Rodrigues (2023) reforçam que a carência de micronutrientes como ferro, zinco, iodo e vitaminas do complexo B compromete diretamente a plasticidade sináptica, reduzindo a capacidade de aprendizagem. Esses achados estão alinhados ao estudo de Lopes (2018), que já destacava o papel da nutrição cerebral na consolidação da memória de curto e longo prazo.
Costa et al. (2022) acrescentam que a elevada ingestão de ultraprocessados, ricos em açúcares e gorduras saturadas, está associada à fadiga, sonolência e déficit de atenção em sala de aula. Esses dados convergem com a análise de Monteiro et al. (2019), que identificaram a transição alimentar no Brasil marcada pela substituição de alimentos in natura por produtos industrializados. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021) também adverte que hábitos alimentares inadequados adquiridos na infância têm repercussões negativas para a vida adulta, aumentando a incidência de obesidade, diabetes tipo 2 e cardiopatias.
Portanto, a ausência de alimentação de qualidade não é apenas um problema biológico, mas também educacional e social, pois agrava desigualdades de aprendizagem, principalmente entre crianças de baixa renda (Souza; De Sousa, 2023).
3.2 Necessidades nutricionais na infância e fatores condicionantes
A fase dos primeiros anos escolares caracteriza-se por intensa demanda energética e nutricional, visto que as crianças encontram-se em pleno crescimento físico e desenvolvimento neurológico. Estudos de Revathy (2023) mostram que dietas pobres em frutas, legumes e verduras comprometem tanto a saúde metabólica quanto o desempenho cognitivo.
Urquía et al. (2023) apontam que determinantes socioeconômicos e culturais influenciam diretamente os padrões alimentares infantis. Crianças oriundas de famílias em vulnerabilidade social tendem a consumir mais ultraprocessados e menos alimentos naturais, o que compromete o desempenho escolar. Slater et al. (2025) reforçam que a desigualdade alimentar no Brasil contribui para a reprodução das desigualdades educacionais, tornando a merenda escolar ainda mais essencial como política de equidade.
Dados recentes do ENANI (2024) confirmam que deficiências de ferro e vitamina A ainda persistem em determinadas regiões brasileiras, sobretudo no Norte e Nordeste, impactando diretamente a atenção e memória. Esses resultados corroboram a necessidade de políticas nutricionais adaptadas a contextos regionais.
Além disso, Da Silva, Ferreira e Moura (2024) observaram que a suplementação alimentar em crianças de escolas públicas promoveu ganhos expressivos em memória de trabalho e resolução de problemas, evidenciando o papel dos nutrientes como determinantes de desempenho cognitivo.
3.3 A merenda escolar como instrumento de equidade social
Um dos achados mais consistentes da revisão foi a confirmação de que a alimentação escolar exerce papel fundamental na mitigação dos efeitos negativos da má nutrição. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) vem sendo associado a melhorias significativas no rendimento e na frequência dos alunos (Gomes, 2020; WFP, 2023).
Santos (2024) verificou que professores relataram melhora no comportamento e na concentração das crianças após a ingestão da merenda, reduzindo índices de indisciplina. Esse resultado está em consonância com estudos internacionais de Maiellaro (2022), que mostram como programas globais de alimentação escolar ampliam equidade e rendimento acadêmico.
Outro aspecto relevante é o caráter pedagógico da merenda. Silva et al. (2024) e Signor, Dal Bosco e Colomé (2024) destacam que a oferta de refeições saudáveis na escola contribui para a educação alimentar, promovendo hábitos que se prolongam para a vida adulta. A escola, assim, não apenas supre uma necessidade nutricional, mas também atua como espaço de formação cidadã.
Contudo, pesquisas como as de Pérez-Escamilla et al. (2021) alertam que a alimentação escolar deve ser complementar, e não substitutiva, às práticas alimentares adequadas no ambiente familiar. A integração entre escola e família é, portanto, indispensável para potencializar os efeitos positivos.
3.4 Evidências de estudos comparativos e internacionais
Schmidt, Strack e Conde (2018) observaram que crianças com maior consumo de frutas e verduras apresentaram melhor desempenho em leitura. Esses dados convergem com os de Birch e Ventura (2009), que destacam a relação entre hábitos saudáveis adquiridos na infância e preferências alimentares duradouras, com reflexos no desempenho acadêmico.
Em um estudo comparativo, Maiellaro (2022) demonstrou que programas internacionais de alimentação escolar contribuem para a preservação da saúde física e cognitiva, reduzindo desigualdades. Entretanto, a aplicabilidade direta dessas estratégias ao contexto brasileiro ainda exige adaptações devido às particularidades socioeconômicas e culturais.
Além dos efeitos imediatos no desempenho escolar, a literatura aponta que a má nutrição na infância pode gerar consequências de longo prazo. Pérez-Escamilla et al. (2021) reforçam que a deficiência nutricional nos primeiros mil dias de vida compromete de forma irreversível a cognição e o desempenho futuro.
Essas evidências destacam a necessidade de ações precoces e contínuas, que garantam não apenas a oferta de nutrientes no ambiente escolar, mas também políticas públicas integradas que envolvam famílias e comunidades.
Quadro 1: Pesquisas sobre alimentação e nutrição infantil e impacto escolar
| Autor/Ano | Tipo de Estudo / População | Objetivos | Principais Achados | Contribuições | Limitações |
| SOUZA;DE SOUSA (2023) | Revisãobibliográfica – crianças do ensino fundamental | Investigar a relação entre alimentação saudável e desenvolvimento educacional | Alimentação escolar adequada promove igualdade e desenvolvimento; desigualdade no acesso a alimentos prejudica aprendizagem | Evidência papel da merenda como instrumento de equidade social | Falta de dados empíricos diretos; foco em revisão |
| ALVESet al.(2022) | Estudotransversal – 450 alunos (7-12 anos), escolas públicas do Nordeste | Avaliar efeito da nutrição no rendimento escolar | Alunos com dieta equilibrada tiveram melhor atenção e notas mais altas em matemática e português | Evidencia ligação direta entre nutrientes e desempenho escolar | Amostra restrita a uma região; não aborda longo prazo |
| SANTOS (2024) | Pesquisa qualitativa – entrevistas com professores e gestores | Compreender percepção de educadores sobre merenda escolar | Professores relatam melhora na concentração e redução da indisciplina após refeições escolares | Mostra impacto pedagógico da alimentação | Base subjetiva; ausência de indicadores objetivos |
| GOMES(2020) | Dissertação – análise do PNAE no Nordeste | Avaliar impacto do PNAE sobre o desempenho escolar | PNAE associado a melhores índices de frequência e notas | Contribuição para formulação de políticas públicas | Estudo regional; não permite generalizações |
| SCHMIDT; STRACK; CONDE (2018) | Estudo longitudinal – 300 alunos (6-10 anos) | Investigar relação entre consumo alimentar e rendimento | Dieta rica em frutas/verduras associada à melhor desempenho em leitura | Reforça papel dos micronutrientes no aprendizado | Amostra pequena; não avalia variáveis socioeconômicas |
| RAFACHO; JAMAS-PEREIRA (2023) | Revisão integrativa – pré-escolares (4-6 anos) | Analisar benefícios da alimentação escolar | Merenda adequada reduz déficits cognitivos e melhora memória | Ênfase em fase pré-escolar | Poucos estudos nacionais recentes |
| MAIELLARO (2022) | Relato comparativo – programas de alimentação escolar internacionais | Avaliar preservação da saúde física e cognitiva | Programas globais ampliam equidade e rendimento escolar | Mostra importância de políticas globais integradas | Pouca aplicabilidade ao contexto brasileiro |
| DE SALES SANTIAGO; RODRIGUES (2023) | Estudo quantitativo – 200 alunos (ensino fundamental I) | Avaliar influência da nutrição sobre cognição | Crianças bem nutridas tiveram melhor desempenho em testes de memória e atenção | Reforça relação entre ferro e função cognitiva | Amostra restrita; não considera fatores culturais |
| LOPES (2018) | Ensaio teórico | Refletir sobre nutrição cerebral e aprendizado | Má nutrição compromete sinapses e plasticidade neural | Aprofunda mecanismos biológicos | Falta de dados empíricos |
| SIGNOR; DAL BOSCO; COLOMÉ (2024) | Relato de experiência em escolas | Avaliar impacto de ações educativas em nutrição | Educação alimentar melhorou hábitos e desempenho | Demonstra efeito prático da intervenção escolar | Não mensura resultados a longo prazo |
| DA CRUZ SANCHEZ et al. (2023) | Estudo de intervenção – pré-escolares | Testar eficácia de programa de educação nutricional | Melhora de hábitos e desenvolvimento infantil | Enfatiza necessidade de ações contínuas | Amostra pequena; curto período de avaliação |
| DOS SANTOS et al. (2017) | Estudo transversal – escolas públicas | Relacionar fatores nutricionais e desempenho escolar | Déficits alimentares correlacionados com notas baixas | Reforça associação entre nutrição e escolaridade | Dados de 2017; contexto pode ter mudado |
Fonte: (Autores, 2025).
A análise do Quadro 1 evidencia que a relação entre alimentação escolar e desempenho acadêmico tem sido amplamente investigada sob diferentes perspectivas metodológicas, revelando tanto o impacto direto da nutrição no aprendizado quanto a relevância das políticas públicas nesse processo. De início, observa-se que estudos de caráter revisional, como os de Souza e De Sousa (2023) e Rafacho e Jamas-Pereira (2023), destacam a merenda escolar como instrumento essencial de equidade social, ressaltando que a oferta de refeições balanceadas reduz déficits cognitivos e amplia as oportunidades de aprendizado.
Esses resultados encontram respaldo em pesquisas mais recentes, como a de Da Silva, Ferreira e Moura (2024), que identificaram, em revisão integrativa, a influência positiva da alimentação escolar na atenção e memória de crianças em fase inicial de escolarização. Todavia, uma limitação recorrente nesses trabalhos é a escassez de dados empíricos de longo prazo, o que reforça a necessidade de novos estudos longitudinais que permitam uma análise mais robusta da associação entre nutrição e aprendizagem.
No campo dos estudos quantitativos e transversais, trabalhos como os de Alves et al. (2022), Dos Santos et al. (2017), De Sales Santiago e Rodrigues (2023) apontam de forma consistente que crianças com dietas equilibradas apresentaram melhor desempenho escolar, sobretudo em disciplinas de base, como português e matemática. Esse resultado corrobora achados de Costa et al. (2022), que associaram o alto consumo de alimentos ultraprocessados à fadiga, ao déficit de atenção e ao baixo rendimento escolar, demonstrando que os padrões alimentares inadequados têm repercussões diretas sobre o processo de ensino-aprendizagem. Além disso, dados do Inquérito Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI, 2024) confirmam a persistência de deficiências de ferro e vitamina A em algumas regiões brasileiras, o que impacta diretamente a concentração e o desenvolvimento cognitivo, especialmente em crianças de contextos socioeconómicos mais vulneráveis.
As pesquisas qualitativas e os relatos de experiência apresentados no Quadro 1, como os de Santos (2024) e Signor, Dal Bosco e Colomé (2024), acrescentam uma dimensão pedagógica à discussão. Professores e gestores escolares relatam melhorias comportamentais e cognitivas após a implementação de programas de alimentação escolar, incluindo maior engajamento dos alunos e redução de indisciplina. Essas percepções subjetivas encontram respaldo em práticas educativas que utilizam a alimentação como ferramenta de formação cidadã, estimulando hábitos saudáveis desde a infância. Apesar disso, a ausência de indicadores objetivos mensuráveis nesses estudos limita a generalização dos resultados, ainda que revelem caminhos promissores para a integração entre alimentação e práticas pedagógicas.
No que se refere a estudos longitudinais e de caráter teórico, Schmidt, Strack e Conde (2018) demonstraram que dietas ricas em frutas e verduras estavam associadas à melhor desempenho em leitura, enquanto Lopes (2018) destacou a importância da nutrição cerebral para os processos de aprendizagem. Esses achados convergem com estudos internacionais, como o de Birch e Ventura (2009), que ressaltam que hábitos alimentares saudáveis adquiridos na infância influenciam preferências alimentares futuras e, por consequência, impactam o desempenho escolar. Embora fundamentais para a compreensão dos mecanismos biológicos que interligam nutrição e cognição, esses estudos ainda carecem de ampliação amostral e de dados empíricos mais recentes.
Por fim, o Quadro 1 também chama a atenção para a relevância das políticas públicas e de experiências internacionais. Gomes (2020) evidenciou a importância do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no Brasil, associando-o a melhores índices de frequência e desempenho escolar, especialmente em regiões mais carentes. No cenário internacional, Maiellaro (2022) apontou que programas de alimentação escolar ao redor do mundo contribuem para a preservação da saúde física e cognitiva, ampliando a equidade educacional. Esses achados dialogam com as recentes iniciativas do Ministério da Saúde (BRASIL, 2025), que têm incentivado a implementação de materiais educativos e cursos voltados à promoção da alimentação saudável nas escolas, fortalecendo a integração entre saúde e educação.
De maneira geral, a discussão do Quadro 1 permite afirmar que a alimentação escolar transcende o caráter nutricional e assume papel central no processo educativo e de formação cidadã. Enquanto os estudos quantitativos e transversais confirmam os benefícios diretos da alimentação adequada para o rendimento escolar, as pesquisas qualitativas e relatos de experiência ressaltam os ganhos pedagógicos e sociais. Contudo, persiste a necessidade de ampliar as investigações longitudinais e de contextualizar os programas de alimentação escolar de acordo com as realidades regionais brasileiras. Assim, a merenda escolar deve ser entendida não apenas como política de segurança alimentar, mas também como estratégia fundamental de promoção da equidade social, do desenvolvimento cognitivo e do sucesso acadêmico.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise realizada evidenciou que a alimentação infantil está diretamente relacionada ao desempenho escolar, sendo determinante para o desenvolvimento cognitivo, a atenção e a memória. Estudos recentes apontam que dietas balanceadas, compostas por alimentos in natura e minimamente processados, favorecem a aprendizagem e reduzem dificuldades cognitivas (Castro et al., 2021; Mohammed et al., 2023). Em contrapartida, a má nutrição, caracterizada tanto pela deficiência de micronutrientes quanto pelo excesso de ultraprocessados, compromete o desenvolvimento intelectual e aumenta a vulnerabilidade das crianças a doenças crônicas e baixo rendimento escolar (Franco, 1999; OMS, 2021).
O papel das políticas públicas mostrou-se essencial para minimizar essas desigualdades. Programas de alimentação escolar, quando bem estruturados, são capazes de reduzir a evasão e melhorar a frequência e o engajamento dos estudantes (Risotolândia, 2025; Silva et al., 2024). Além disso, a literatura internacional confirma que iniciativas de alimentação escolar implementadas em diferentes países apresentam impactos positivos semelhantes, reforçando a importância dessas estratégias na promoção da equidade social e acadêmica (Mohammed et al., 2023; Slater et al., 2025).
Outro aspecto relevante refere-se à influência dos determinantes sociais e culturais nos hábitos alimentares infantis. A desigualdade de acesso a alimentos saudáveis persiste como obstáculo ao desenvolvimento integral, o que reforça a necessidade de integração entre escola, família e comunidade para a formação de hábitos saudáveis (Urquía et al., 2023; Castro et al., 2021). Assim, a nutrição escolar não deve ser entendida apenas como garantia alimentar, mas como instrumento de cidadania, capaz de transformar trajetórias acadêmicas e sociais.
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1Graduanda ou Graduando do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO.
2Orientadora do TCC, Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: rebeca.figueiredo@fametro.edu.br
3Coorientador(a) do TCC, Titulação pela instituição. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO.
