MAPEAMENTO DAS AÇÕES DE FONOAUDIOLOGIA PRESCRITAS PARA INTRODUÇÃO DE VIA ORAL NO PÓS OPERATÓRIO CARDÍACO IMEDIATO

MAPPING OF SPEECH THERAPY INTERVENTIONS PRESCRIBED FOR THE INTRODUCTION OF ORAL FEEDING IN THE IMMEDIATE POSTOPERATIVE PERIOD AFTER CARDIAC SURGERY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511302107


Tayná Moscoso de Sousa1
Maria Vitória de Paula Pimentel2
Elder Nayan de Jesus Torres3
Rosa de Fátima Marques Gonçalves4


Resumo

As doenças cardiovasculares representam a principal causa de internações e mortalidade no Brasil, afetam especialmente populações vulneráveis e elevam a complexidade do cuidado no período pós-operatório cardíaco. Nesse contexto, a disfagia surge como complicação frequente após procedimentos invasivos com potencial de prolongamento de internação e aumento de agravos, tornando essencial a atuação do fonoaudiólogo na avaliação e reabilitação destes pacientes junto a equipe multiprofissional. Assim, o presente estudo tem como objetivo verificar a efetividade do protocolo institucionalizado quanto ao tempo para introdução de via oral, bem como verificar a eficácia da padronização das ações para a introdução de via oral dos pacientes. Trata-se de uma pesquisa de campo documental, prospectiva, transversal, quantitativa e descritiva, realizada na Unidade Coronariana do Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, com análise de 50 prontuários de pacientes submetidos à cirurgia cardíaca entre setembro e outubro de 2025, os dados foram organizados em planilhas e submetidos à análise estatística descritiva, incluindo o Teste Exato de Fisher. O protocolo para EOT precoce demonstrou efetividade, com 98% dos pacientes extubados em menos de 24 horas atingindo a meta de EOT em até 6 horas. A via oral foi liberada em 98% dos casos, majoritariamente em consistência semilíquida. As avaliações diretas mais precoces favoreceram a introdução alimentar segura. Assim, o protocolo institucional se mostrou eficaz na reintrodução alimentar, garantindo segurança e maior probabilidade de liberação de VO precoce. A padronização das condutas e a atuação do fonoaudiólogo e da equipe multiprofissional agregam para a evolução clínica dos pacientes.

Palavras-chave: Cirurgia cardiovascular. Reabilitação cardíaca. Fonoaudiologia. Disfagia.

Abstract

Cardiovascular diseases represent the leading cause of hospitalizations and mortality in Brazil, particularly affecting vulnerable populations and increasing the complexity of care during the postoperative cardiac period. In this context, dysphagia emerges as a frequent complication after invasive procedures, with the potential to prolong hospitalization and increase adverse outcomes, making the role of the speech-language pathologist essential in evaluating and rehabilitating these patients alongside a multiprofessional team. Thus, the present study aims to verify the effectiveness of the institutionalized protocol regarding the timing of oral intake initiation, as well as to assess the efficacy of standardized actions for the introduction of oral feeding in patients. This is a prospective, cross-sectional, quantitative, descriptive, documentary field study conducted in the Coronary Unit of the Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, analyzing 50 medical records of patients who underwent cardiac surgery between September and October 2025. The data were organized into spreadsheets and submitted to descriptive statistical analysis, including Fisher’s Exact Test. The early extubation protocol demonstrated effectiveness, with 98% of patients extubated in less than 24 hours achieving the extubation goal within 6 hours. Oral intake was initiated in 98% of cases, mostly in a semi-liquid consistency. Earlier direct evaluations favored safe feeding introduction. Thus, the institutional protocol proved effective in reintroducing oral feeding, ensuring safety and a higher likelihood of early oral intake. The standardization of procedures and the work of the speech-language pathologist and the multiprofessional team contribute to the clinical progression of patients.

Keywords: Cardiovascular surgery. Cardiac rehabilitation. Speech therapy. Dysphagia.

1 INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCV) representam cerca de 68% das internações hospitalares no Brasil no período de 2018-2021 (Oliveira et al., 2024). Elas comprometem o coração e o sistema circulatório, afetando a qualidade de vida e podendo ser prevenidas pela adoção de hábitos saudáveis e monitoramento em saúde, seus fatores de risco envolvem genética e hábitos de vida, como etilismo, obesidade, hipertensão e alcoolismo (Maceno & Garcia, 2022).

No Brasil, ocupam o primeiro lugar das causas de morte, sendo a doença arterial coronariana a principal etiologia. O envelhecimento populacional e a desigualdade entre as regiões do país contribuem para as altas taxas de mortalidade em locais como as regiões Norte e Nordeste, especialmente entre a população mais vulnerável, que possui pouco acesso à saúde (Oliveira et al., 2022).

A Disfagia pode ser observada no período pós operatório cardíaco e prolongar o período de internação do paciente (Souza et al., 2022) e consiste em uma alteração na deglutição de etiologia multifatorial, que de modo frequente está a associada a procedimentos de Intubação Orotraqueal (IOT), Traqueostomia (TQT), Ventilação Mecânica (VM) (SBFa, 2022).

O fonoaudiólogo participa da equipe multiprofissional no pré e pós operatório cardíaco, atuando na avaliação e reabilitação da deglutição conforme a presença de critérios clínicos (SBFa, 2022).  É essencial a adoção de protocolos e critérios concisos para a atuação deste profissional (Côrte, Vicente & Friche, 2019) contribuindo para uma melhor avaliação, orientação quanto a alimentação do paciente e a prevenção da instalação de quadros de desnutrição, pneumonia de aspiração, desidratação, entre outros (Lisanti et al., 2016 apud Fernandes, 2019).

Figueredo (2019) discorre sobre a necessidade de se ter embasamentos de dados quantitativos para a prática clínica, para que se possa ter uma visão geral das características das necessidades daquela comunidade e das patologias abordadas em atendimento.  Sendo assim, vê-se a importância da realização de um estudo que demonstre, por dados quantitativos, os critérios das condutas fonoaudiológicas a serem seguidas no âmbito hospitalar.

É notória a escassez de estudos na literatura que abordem as condutas fonoaudiológicas e seus processos para a evolução do paciente de pós operatório cardíaco. Portanto, pesquisar sobre essa temática é fundamental para a construção do conhecimento académico e a padronização de condutas e implantação de protocolos para nortear os profissionais. Assim, o presente estudo tem como objetivo verificar a efetividade do protocolo institucionalizado quanto ao tempo para introdução de via oral, bem como verificar a eficácia da padronização das ações para a introdução de via oral dos pacientes.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Unidade de Terapia Intensiva

As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) são locais destinados ao serviço de cuidados especializados para pacientes graves, em estado crítico, de alto risco clínico ou cirúrgico que necessitam de acompanhamento e vigilância contínua a ser realizada por equipe multidisciplinar (Brasil, 2023). Nesta equipe formada por profissionais de diversas especialidades, o direcionamento do cuidado e o estabelecimento de metas pelo médico, em conjunto com o monitoramento contínuo realizado pela equipe de enfermagem e a mobilização precoce, além da preservação das funções muscular e respiratória promovidas pelos fisioterapeutas, são fundamentais para viabilizar a intervenção fonoaudiológica, (Chagas et al., 2024).

A Unidade de Terapia Intensiva Coronariana (UTIC) representa uma unidade de terapia intensiva especializada em cardiologia, sendo o ambiente em que o paciente é admitido em um momento transacional, particularmente no pós-operatório, após ser submetido a procedimentos complexos (Silva, 2023). Considerando a necessidade de atendimento especializado, a integração e colaboração de diversos profissionais na equipe responsável pelos cuidados possibilita uma avaliação completa por meio de uma visão holística do paciente (Backes et al., 2012).

2.2. Atuação Fonoaudiológica no Pós Cirúrgico

O fonoaudiólogo hospitalar tem papel fundamental dentro da equipe multiprofissional, especialmente na reabilitação da deglutição, da comunicação e das funções cognitivas. Durante a avaliação, o profissional observa desde aspectos cognitivos e condições orais até o funcionamento do sistema estomatognático, analisando mobilidade, tonicidade e sensibilidade orofacial. Também verifica a voz, a eficiência da tosse e a deglutição em diferentes consistências alimentares, para definir a forma mais segura de alimentação do paciente (Laís et al., 2021).

A atuação desse profissional ocorre geralmente à beira do leito e de forma integrada à equipe de saúde, o atendimento tem início assim que o paciente apresenta estabilidade clínica e liberação médica, podendo ocorrer tanto no pré quanto no pós-procedimentos cirúrgicos. Essa intervenção precoce contribui para prevenir complicações, reduzir sequelas e favorecer um melhor prognóstico funcional (Leite et al., 2003).

No pós-operatório de cirurgias cardíacas, a atuação fonoaudiológica se torna ainda mais relevante, Almeida et al. (2015) destaca que esses pacientes apresentam maior risco de desenvolver disfagia, e Werle, Steidl & Mancopes (2016) apontam que a alta incidência do distúrbio está relacionada a procedimentos invasivos, como a circulação extracorpórea (CEC), a intubação orotraqueal (IOT) e a ecocardiografia transesofágica (ETE).

2.3. Intubação Orotraqueal

Quaresma (2020) conceitua o procedimento de intubação orotraqueal (IOT) e a ventilação mecânica (VM) como essenciais nos casos de insuficiência respiratória aguda ou crônica agudizada. A IOT é considerada um procedimento rápido e de fácil execução, sendo um dos mais comuns em situações de urgência e no período pós-operatório (Assunção et al., 2023).

A IOT, contudo, pode acarretar diversos problemas, como prejuízos nas funções orais, alterações nas estruturas laríngeas com possíveis lesões na mucosa, que resultam em mudanças vocais e, dependendo de sua gravidade, em alterações ventilatórias e sistêmicas. Também, podem ocorrer modificações posturais dos órgãos fonoarticulatórios e diminuição do tônus muscular (Oliveira et al., 2023).

Diante disso, após a extubação orotraqueal (EOT), são relatados inúmeros casos de disfagia, especialmente quando há intubação prolongada — definida como aquela que se estende por mais de 48 horas. Estudos indicam uma prevalência de disfagia pós-extubação orotraqueal entre 44% e 87% (Medeiros, 2012).

2.4. Disfagia

A disfagia é um sintoma resultante de alterações no funcionamento e na coordenação dos sistemas e estruturas responsáveis pela deglutição, manifestando-se como dificuldade em transportar o alimento da cavidade oral ao estômago (Jotz et al., 2016). Segundo Brodsky et al. (2011 apud Lais et al., 2021), a deglutição ocorre em cinco fases: antecipatória (percepção e desejo pelo alimento), preparatória oral (preparo do bolo alimentar), oral ou de transporte (envio do bolo à faringe), faríngea (passagem do bolo ao esôfago) e esofágica (condução até o estômago).

Marchesan (1999) destaca que a deglutição segura, com transporte do alimento da cavidade oral ao estômago sem penetração nas vias aéreas, depende de uma coordenação precisa entre as fases oral e faríngea. A avaliação e a intervenção fonoaudiológica são essenciais para identificar a disfagia, segundo Escoura (1998), essa avaliação define a conduta terapêutica adequada, considerando aspectos anatômicos, estruturais, vocais e a ausculta cervical, além da análise funcional com alimento em consistência segura, observando a captação, manipulação, ejeção alimentar e possíveis sinais de penetração ou aspiração laríngea.

2.5. Reintrodução da Alimentação por Via Oral

Dock-Nascimento et al. (2022) destaca que a nutrição do paciente deve priorizar a via oral (VO), pois, além de garantir melhor aporte nutricional, contribui para a qualidade de vida. A dieta hospitalar oral modificada deve ser planejada de forma individualizada, especialmente no cuidado de pacientes críticos. A impossibilidade de ingestão oral deve ser considerada apenas após avaliação das condições anatômicas e funcionais de deglutição, de modo a definir a via de nutrição mais adequada (Nogueira et al., 2013).

Embora existam divergências quanto à nomenclatura das consistências alimentares, a classificação mais aceita é a de Penman & Thomson (1998 apud Amaral et al., 2015), sendo: (1) liquidificada ou purê fino – consistência pastosa fluida, sem forma ao servir; (2) purê grosso – pastosa, porém com forma; (3) picado fino – macia, com pequenos pedaços; e (4) normal modificada – mais sólida e com texturas variadas.

Na prática clínica, a dieta liquidificada é a mais utilizada por sua boa aceitação e facilidade de deglutição, exigindo menor controle oral. Contudo, quanto mais líquida a consistência, maior o risco de broncoaspiração, sendo necessária restrição conforme a gravidade do paciente (Andrade & Martins, 2023). Quando a via oral se torna inviável, recomenda-se a Terapia Nutricional Enteral (TNE) caso o paciente não atinja 60% das necessidades diárias por via oral. Persistindo o déficit por mais de cinco a sete dias, indica-se a Terapia Nutricional Parenteral (TNP), especialmente em casos críticos que demandam início da TNE entre 24 e 48 horas (BRASPEN, 2021).

3 METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de campo documental, prospectiva e transversal, de abordagem quantitativa e natureza descritiva, realizada com indivíduos cardiopatas em tratamento na Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV), no município de Belém do Pará, entre setembro e outubro de 2025. A referida instituição conta com o apoio do fonoaudiólogo na avaliação do paciente em pós operatório cardíaco para a introdução de uma via oral de alimentação segura e, para tal, possui protocolo institucionalizado para tempo de avaliação pós extubação.

A pesquisa foi conduzida na Unidade Coronariana (UCA), setor que recebe pacientes no pós-cirúrgico imediato. O número amostral foi definido com base na média de atendimentos mensais da unidade, estimada em 16 pacientes elegíveis por mês, e calculado segundo parâmetros de populações finitas, resultando em um mínimo de 30 prontuários para validade estatística.

O número amostral foi definido com base na média mensal de pacientes em atendimentos fonoaudiológicos na unidade abrangendo apenas os turnos em que há atuação fixa do fonoaudiólogo, e calculado segundo parâmetros de populações finitas, resultando em um mínimo de 30 prontuários, contudo, optou-se por incluir todos os 50 prontuários disponíveis, visando aumentar a precisão das estimativas.

A população do estudo foi composta por prontuários de pacientes adultos e idosos, de ambos os gêneros, com idades entre 18 e 80 anos, que passaram por avaliação fonoaudiológica após cirurgia cardíaca. Foram incluídos prontuários de indivíduos submetidos a cirurgias cardíacas abertas com intubação orotraqueal (IOT) em sistema fechado e circulação extracorpórea (CEC) superior a uma hora. Foram excluídos os casos que não atenderam a esses critérios, ou que não possuíam registros fonoaudiológicos completos.

O processo de trabalho fonoaudiológico na UCA segue protocolo institucionalizado, voltado à introdução segura da via oral (VO) após a cirurgia. Após a admissão, o paciente é avaliado por equipe multiprofissional e tem como meta a extubação em até seis horas. Após esse procedimento, o fonoaudiólogo realiza a avaliação indireta da deglutição, observando aspectos anatômicos, estruturais, funcionais e vocais.

Em seguida, no prazo máximo de seis horas, é realizada a avaliação clínica funcional da deglutição, com aplicação da Functional Oral Intake Scale (FOIS), a fim de definir a consistência alimentar segura e a possibilidade de liberação da via oral. Quando o paciente apresenta condições favoráveis, a alimentação oral é liberada e acompanhada para progressão de consistência até a alta da unidade, com o apoio da equipe de nutrição.

Caso haja contraindicação inicial, o profissional realiza intervenção terapêutica para reabilitação da deglutição e repete a avaliação em até 12 horas. Persistindo o risco de broncoaspiração, a Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional (EMTN) é acionada para discutir a possibilidade da via alternativa de alimentação. Todo o processo é registrado em prontuário eletrônico (sistema MV), planilhas de passagem de plantão e relatórios institucionais no Google Drive, assegurando a continuidade do cuidado e a rastreabilidade dos dados.

A coleta de dados foi realizada mediante autorização da instituição e assinatura do Termo de Compromisso de Utilização de Dados (TCUD), garantindo confidencialidade e anonimato dos dados pacientes. Foram analisados exclusivamente dados secundários, sem contato direto com pacientes. As informações foram obtidas a partir de prontuários eletrônicos, planilhas e indicadores institucionais, com base em instrumento estruturado (Apêndice A), composto por perguntas fechadas.

Após a coleta, os dados foram organizados e tabulados no software Microsoft Excel, sendo submetidos à análise estatística descritiva, aplicou-se o Teste Exato de Fisher, utilizando o software Jamovi (v2.6.44), a fim de verificar possíveis associações entre as variáveis analisadas, foram elaborados gráficos e tabelas para melhor visualização dos resultados.

O estudo foi conduzido em conformidade com as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamentam pesquisas envolvendo seres humanos e dados sensíveis. O projeto foi devidamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, sob o parecer nº 7.834.139, e a coleta foi iniciada somente após a autorização formal.

Os resultados compreendem a identificação de como o protocolo institucional vigente contribui para o estabelecimento da via oral segura em pacientes no pós-operatório cardíaco imediato, além de subsidiar práticas assistenciais baseadas em evidências e o aprimoramento das condutas fonoaudiológicas em ambiente hospitalar. Espera-se, ainda, que o estudo amplie a produção científica na área da Fonoaudiologia hospitalar e fortaleça a integração interdisciplinar na reabilitação de pacientes cardiopatas.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A amostra do estudo foi composta por prontuários de 50 pacientes em pós-operatório imediato de cirurgia cardíaca internados na UTI coronariana. O perfil demográfico de gênero e idade são apresentados nos gráficos 1 e 2. O Gráfico 1 demonstra a distribuição dos participantes segundo o gênero, evidenciando uma maior parcela da amostra composta pelo gênero masculino (n= 40), em relação ao feminino (10 indivíduos). Quanto à distribuição por faixa etária em relação ao gênero, como apresentado no Gráfico 2, verificou-se maior concentração de pacientes com idades entre 60 e 69 anos, seguido pelas faixas de 50 a 59 anos e 70 a 80 anos para ambos os gêneros em comparação às demais idades.

Esses achados refletem uma predominância masculina (80%) dentre os pacientes avaliados em detrimento ao gênero feminino (20%), em consonância com literaturas sobre doenças cardiovasculares. Estudos indicam uma maior vulnerabilidade de homens, sobretudo na vida adulta e meia idade, a ocorrência de doenças cardiovasculares em relação às mulheres, contudo, com o avançar da idade, indivíduos do gênero feminino tendem a apresentar taxas similares quanto a ocorrência destas doenças (Oliveira et al., 2022).

Gráfico 1 – Distribuição segundo o gênero

Fonte: Dados da pesquisa

Gráfico 2 – Distribuição por faixa etária

Fonte: Dados da pesquisa

Para análise estatística de variáveis quantitativas nominais, testes de associação são mais apropriados. Contudo, considerando a baixa frequência observada em diversas categorias e consequentemente frequências esperadas inferiores a 5 na tabela de contingência, realizou-se o Teste de Exato de Fisher, a fim de garantir a adequada construção de tabelas de contingência e cálculo das frequências esperadas. Para aumentar o poder estatístico das análises, as variáveis que apresentavam inúmeras categorias com baixa frequência foram agrupadas.

Assim, os dados de consistências e idade foram reorganizados para a construção das tabelas, sendo agrupados da seguinte forma: nas consistências, “líquidos” passou a abranger líquidos claros e líquidos; “semilíquidos” passou a incluir semilíquido desmame e padrão; “pastosa” contemplou pastosa desmame e padrão, e “branda” manteve-se como categoria única, contudo, não foi observada ocorrência da consistência líquida de forma isolada, por isso não está apresentada nas tabelas. Já os dados referentes à idade foram dicotomizados em menores e maiores de 60 anos, de modo a aumentar as contagens por célula da tabela de contingência e permitir testes mais estáveis. Não foram consideradas as variáveis relacionadas à falha de início da via oral (via após reavaliação e consistência após reavaliação) por apresentarem informação de somente 4 pacientes.

Considerando 12 variáveis categóricas, seriam possíveis 66 comparações par a par, sendo assim, optou-se por calcular somente associações de pares clinicamente relevantes como a relação entre o tempo de IOT e as metas (EOT e VO), tempo de avaliação direta e os desfechos (consistências e metas), além das covariáveis demográficas (gênero e idade) e os desfechos a fim de verificar os objetivos da pesquisa, conforme verifica-se nas tabelas que se seguem.

Tabela 1 – Tempo de IOT e meta de EOT

Fonte: Dados da pesquisa

Foi verificado uma associação estatisticamente significativa (p= 0,020) entre o tempo de intubação orotraqueal (IOT) e o alcance da meta de extubação orotraqueal (EOT) em até 6h, como demonstrado na Tabela 1. Observou-se que 49 (98%) dos pacientes que permaneceram intubados por menos de 24 horas atingiram a meta de EOT, enquanto apenas 1 paciente (2%) não atingiu este marco, tendo este ficado intubado por um período superior a 24h.

Tal achado alinha-se às literaturas de Medeiros (2012) e Oliveira et al. (2023), que apontam o período de intubação prolongados como um fator que influencia o risco de complicações respiratórias e disfagia no pós-extubação, além de demonstrar que o protocolo utilizado possui efetividade para garantir extubação precoce, importante para a reintrodução da via oral durante o trabalho do fonoaudiólogo.

Tabela 2 – Tempo de IOT e meta de introdução de via oral

Fonte: Dados da pesquisa

Como demonstrado na Tabela 2, não foi observada uma associação estatisticamente significativa entre o tempo de IOT e o cumprimento da meta de introdução da via oral de alimentação (VO) em até 6h após a extubação (p= 1,000) neste estudo. Na amostra coletada, mesmo entre os pacientes que passaram por intubação por um período menor que 24 horas, 6 apresentaram atraso na liberação da via oral.

Ainda assim, a maior parcela dos indivíduos com período de IOT inferior a 24 horas (43 pacientes, 87,7%) conseguiu iniciar a via oral conforme o protocolo, demonstrando que apesar do procedimento de intubação ser um fator de risco para disfagia, como apontam Werle, Steidl & Mancopes (2016), ele não foi um determinante único para o início da alimentação na amostra coletada, a estabilidade clínica, os aspectos cognitivos e funcionamento de estruturas, bem como  ausência de profissional de fonoaudiologia no período noturno podem exercer influência nesta meta.

Tabela 3 – Tempo de IOT e necessidade de reavaliação após 6h de dieta zero e IOT

Fonte: Dados da pesquisa

Não foi conferida uma associação entre o tempo de intubação e a necessidade de reavaliação após 6h de dieta zero e IOT (p= 1,000), como demonstrado na Tabela 3. Na amostra coletada, apenas 4 pacientes (8%) necessitaram passar por uma nova avaliação neste quesito, todos pertencentes ou grupo com IOT menor que 24 horas, observando-se assim que esta necessidade não possuiu relação com o tempo da intubação a qual a pessoa foi submetida, mas sim relacionada aos aspectos clínicos. Como exposto por Souza et al. (2022), fatores como alterações de consciência, cansaço respiratório, efeitos medicamentosos e a instabilidade hemodinâmica são discutidos na literatura como determinantes para o estabelecimento de uma deglutição segura.

Tabela 4 – Tempo de IOT e via após avaliação direta

Fonte: Dados da pesquisa

Tabela 5 – Tempo de IOT e consistência após avaliação direta

Fonte: Dados da pesquisa

Ao se associar o tempo de IOT com a via adotada após a avaliação (Tabela 4) e a consistência alimentar liberada (Tabela 5), não se verificou significância estatística (p= 1,000 e p= 0,061, respectivamente). Contudo, 49 pacientes tiveram a via oral liberada, independente do tempo de IOT a qual foram submetidos, de modo que o protocolo institucionalizando conseguiu manter segurança na liberação da alimentação oral para pacientes que haviam critérios clínicos para tal, dado que reforça, também, o que apresenta Chagas et al. (2024), quanto a importância da atuação da equipe multiprofissional para a viabilidade do trabalho fonoaudiológico.

Além disso, 94% da população de estudo (46 pacientes) iniciou a via oral na consistência semilíquida, consistência esta considerada a mais segura, em consonância com o estudo de Penman & Thompson (1998 apud Amaral et al., 2015), que discorrem sobre a atuação do profissional de fonoaudiologia na orientação de pacientes com dificuldade de deglutição quanto a ingestão de alimentos em consistências mais seguras conforme o quadro clínico, observando, também, que na aplicação do protocolo institucionalizado foram respeitados critérios clínicos que não unicamente o tempo de intubação, proporcionando uma conduta individualizada.

Tabela 6 – Tempo para avaliação direta e via após avaliação direta

Fonte: Dados da pesquisa

Como demonstrado na Tabela 6, não foi verificada uma associação estatisticamente significativa (p= 0,260) entre o tempo para realização da avaliação direta e a via alimentar prescrita após avaliação, ainda assim, observa-se que a maior parcela da amostra (49 pacientes, 98%) teve liberação da via oral de modo imediato, independente do tempo para avaliação, sem necessidade de ficar um período mais prolongado em dieta zero após a intervenção cirúrgica.

Observa-se, também, que mesmo o atraso na avaliação após a extubação, como na ocorrência da avaliação após 6 horas (8 pacientes) não houve comprometimento da reintrodução da via oral de alimentação, dado este que sugere que essa liberação esteve mais relacionada a fatores como estado clínico do paciente, estado de alerta e funcionalidade de estruturas necessárias para o estabelecimento de uma via alimentar mais fisiológica e que atenda as necessidades nutricionais dos pacientes, como sugere Lais et al. (2021).

É importante salientar que o fato de 17 pacientes terem evoluído para a via oral de alimentação sem a avaliação inicial do fonoaudiólogo está relacionado a ausência do profissional durante o turno da noite, porém sugere que o protocolo institucional é seguro e robusto para a orientação da adoção de condutas mesmo na falta deste profissional, unido ao trabalho de uma equipe multiprofissional alinhada.

A aplicação do teste demonstra que não houve uma associação significativa entre o tempo para avaliação direta e a necessidade de reavaliação após 6 horas de dieta zero e IOT (p= 0,776), como se observa na tabela abaixo (Tabela 7). Apenas 8% (4 pacientes) precisaram passar por este momento, sendo estes pacientes pertencentes a diferentes grupos de tempo para avaliação, reforçando o achado de que, neste estudo e para este universo amostral, esta necessidade não esteve vinculada ao tempo decorrido até a avaliação direta, assim como ao tempo de IOT, e sim a variáveis clínicas.

Tabela 7 – Tempo para avaliação direta e necessidade de reavaliação após 6h de dieta zero e IOT

Fonte: Dados da pesquisa

Para o tempo de avaliação direta relacionado ao cumprimento da meta de introdução de via oral (Tabela 8), foi verificada significância estatística (p= 0,004). Dentre os pacientes da amostra, 100% dos avaliados de forma imediata, 87% dos avaliados em até 6 horas, 40% dos avaliados após as 6 horas e 88% atingiram esta meta, de modo que o protocolo utilizado demonstrou-se eficaz ao contribuir para uma avaliação a vista da introdução alimentar por via oral precoce e segura, com nutrição adequada e que contribui para a melhora da qualidade de vida, como apontado por Dock-Nascimento et al. (2022), além da redução do tempo de dieta zero para estes indivíduos.

Tabela 8 – Tempo para avaliação e meta de introdução de via oral

Fonte: Dados da pesquisa

Para a associação entre as variáveis de tempo para avaliação direta e desfecho de alta – última consistência prescrita até a alta do paciente da Unidade Coronariana, como se observa abaixo (Tabela 9), não foi possível identificar uma relação estatisticamente significante (p= 0,277), indicando que o tempo para avaliação fonoaudiológica não foi determinante na consistência final prescrita para esta população. Apesar disto, observa-se um impacto clínico importante no desfecho da via oral no momento da alta:  houve prevalência de pacientes com prescrição para uma dieta branda (56%, 28 pacientes), descrita como dieta normal por Penman & Thomson (1998 apud Amaral et al., 2015), parcela esta constituída em sua maioria por indivíduos do grupo de avaliação imediata.

Tabela 9 – Tempo para avaliação direta e desfecho de alta

Fonte: Dados da pesquisa

Dentre a parcela de pacientes a receberem  alta com dietas mais modificadas (44 %, 22 pacientes), sendo 28% em dieta pastosa e 16% em dieta semilíquida, tais desfechos estiveram relacionados a fatores como a predileção alimentar por alimentos mais facilitados, a recusa em testar uma avaliação com consistência mais sólida devido a medos relacionados ao pós cirúrgico, ou a instabilidade clínica, não havendo uma relação com o tempo para avaliação, de modo que foi prescrita a consistência mais adequada para cada caso, em acordo ao preconizado por Escoura (1998) quanto a adoção de condutas após a avaliação.

Tabela 10 – Avaliação indireta imediata e meta de introdução de via oral

Fonte: Dados pesquisa

Ao associar a avaliação indireta e a meta de introdução de via oral- presente na Tabela 10 – é possível observar que dos 22 pacientes que receberam avaliação indireta imediata, 90,9% atingiram a meta de introdução da via oral; entre os 28 que não receberam essa avaliação, 85,7% atingiram a meta de introdução de via oral. Porém, mesmo o resultado não demonstrando significância (p= 0, 683), a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (2022) pontua que a avaliação indireta do sistema sensório-motor oral é importante, pois possibilita identificar alterações nas funções e mecanismos da deglutição, contribuindo para um diagnóstico de disfagia mais assertivo.

Tabela 11 – Falha de início de via oral e consistência após avaliação

Fonte: Dados da pesquisa

Na Tabela 11, observou-se que 98% dos pacientes iniciaram a via oral sem falha; o único paciente em dieta zero não foi incluído na análise, pois não se relacionava à variável “consistência após a avaliação”, de modo que o total desta tabela é igual a 49 e não 50. Todas as consistências prescritas foram consideradas seguras, com predomínio da semilíquida, reconhecida como a opção mais adequada no pós-operatório cardíaco. Embora o teste estatístico não tenha indicado associação significativa entre tipo de consistência e falha (p= 1,000), os dados mostram que nenhuma consistência esteve relacionada à ocorrência de falhas na introdução da via oral.

Silva & Batista (2025) discorrem em sua pesquisa que a reintrodução da VO em pacientes que têm menos alterações funcionais antes da cirurgia e que passaram por procedimentos com menores impactos durante e após o ato cirúrgico tendem a ter melhores resultados, demonstrando assim a importância do bom funcionamento entre a equipe multiprofissional e da utilização de protocolos eficazes para a evolução dos pacientes.

Tabela 12 – Gênero e meta de extubação orotraqueal

Fonte: Dados da pesquisa

É possível observar na Tabela 12 que os pacientes do gênero masculino e feminino, atingiram de modo semelhante a meta de extubação orotraqueal dentro do prazo. Não havendo respostas significativas (p= 1,00) para representar grandes diferenças vantajosas de desempenho entre os grupos relacionados ao tempo de EOT, inferindo-se, também que não houve variabilidade suficiente para comparar estatisticamente estes grupos de modo mais aprofundado.

Na pesquisa de Da Silva (2020), evidência- se através de dados que o gênero pode estar relacionado a fatores como o sucesso da EOT, em que o gênero feminino demonstrou predominância na taxa de falha de EOT, sendo significativamente maior que os homens (21,5% para 10%; com p = 0,019)

Tabela 13 – Gênero e consistência de alta da UCA

Fonte: Dados da pesquisa

A análise sobre a relação entre gênero masculino e feminino com diferentes consistências no momento de alta da unidade (Tabela 13) não apresentou resultado significativo estatisticamente (p= 0,893), sendo possível observar que a evolução de consistências até a alta foi semelhante, sendo proporcional e equivalente dentro de cada grupo, devido a maior parcela da amostra pertencer ao grupo masculino.

Assim, o resultado demonstra que a evolução da consistência alimentar depende da fisiologia da deglutição do paciente, e não de características biológicas como gênero. Tendo isso, Zica & Gonçalves (2025) discorrem em sua análise que é na variabilidade da anatomofisiologia do ser humano que se explica a relação entre as alterações ou não na sua funcionalidade da deglutição.

Tabela 14 – Gênero e falha de início de via oral

Fonte: Dados da pesquisa

Ao relacionar o gênero com a falha de início de via oral (Tabela 14), é possível verificar que apenas 1 paciente do gênero feminino (2%) dos grupos analisados apresentou esta falha, demonstrando 98% de eficácia de início de VO, mesmo que destes 2% está presente no grupo feminino, o resultado obtém mínima diferença entre os grupos e mostra respostas não significativas (p= 0, 200).

Tabela 15 – Idade e consistência de alta da UCA

Fonte: Dados da pesquisa

Ao relacionar as idades com a consistência de alta da UCA (Tabela 15) foi possível observar que, proporcionalmente, no grupo de <60 anos houve maior número de pacientes com consistência branda, e no grupo >60 anos se teve maior parcela com a consistência pastosa. Apesar do resultado apresentado não ter mostrado relação significativa (p= 0,254), a idade exerceu influência no padrão de consistência de alta. Capelari  (2019) discorre em seu estudo sobre o processo de envelhecimento natural do corpo humano, causando perda da força muscular, controle motor-oral, e o acometimento pela presbifagia.

É importante considerar e ressaltar que houveram casos dentro do grupo de <60 anos que a liberação de consistência de alta não está associada à ausência de uma deglutição funcional ou a riscos de broncoaspiração- embora, mesmo pela predileção a consistência alimentar só é liberada caso seja segura para o paciente-, mas sim ao conforto e predileção do paciente, sendo relacionado a questões de ausência de prótese dentária ou a má adaptação da mesma, e/ou pela própria preferência de consistência alimentar.

Tabela 16 – Idade e meta de extubação orotraqueal

Fonte: Dados da pesquisa

Ambos os grupos etários atingiram a meta de extubação com alta frequência, com apenas 1 caso (2%) que não atingiu a meta de EOT, com o resultado sem significância (p= 0, 400), demonstrando não haver relação entre idade e capacidade de atingir a meta de EOT. Apesar do resultado não ter demonstrado significância Fonseca, Alvarenga & Santos (2024) indica que um dos principais riscos para a falha na EOT é a idade avançada

É importante destacar a limitação estatística do presente estudo, em que parte dos resultados pode ter sido influenciada pelo baixo número de registros por categoria em diversas variáveis. Por exemplo, na variável “Meta de EOT”, 98% dos pacientes atingiram a meta, reduzindo drasticamente a variabilidade necessária para detectar associações. Essa baixa variabilidade torna estatisticamente improvável detectar associações, mesmo que elas existam clinicamente. Sugere-se, portanto, que uma avaliação estatística mais robusta do protocolo exigiria um tamanho amostral consideravelmente maior, que foi inviável no presente estudo, no qual a amostra foi limitada a 50 registros, devido ao tempo disponível para coleta após aprovação do comitê de ética e à disponibilidade restrita de prontuários durante o período de coleta.

Tabela 17 – Gênero e falha de início de via oral

Fonte: Dados da pesquisa

Ao associar o gênero com a falha de início de VO (Tabela 17), observa-se que 1 caso do grupo feminino (2%) está presente na população de >60 anos, podendo apresentar associação de que há maior risco de idosos adquirirem disfagia, porém há um número reduzido de variáveis, tendo o resultado não demonstrado significância (p= 1,000). Assim, ao combinar as tabelas 14 e 17, que associam a idade e gênero com a falha de início de VO, demonstra-se que esta falha foi um evento raro, que se concentrou em apenas um paciente idoso do gênero feminino. Todavia, por se tratar de apenas 2% da amostra, não se verifica qualquer influência real de idade ou gênero sobre o desfecho.

Apesar do resultado presente na tabela 17 não ser significativo, Ferreira (2022) cita sobre o maior risco de idosos adquirirem disfagia, o pondo como “afetando 1 a cada 17 pessoas, com mais de 60 anos, com 300.000 a 600.000 casos novos diagnosticados a cada ano”.

Tabela 18 – via após avaliação direta e consistência após avaliação

Fonte: Dados da pesquisa

A Tabela 18 demonstra que 98% – sendo 1 caso excluído (2%) por ser dieta zero e não ser incluído nas variáveis consistências – pacientes foram liberados para via oral após a avaliação direta, evidenciando a eficácia do protocolo aplicado na UCA. A maioria recebeu consistência semilíquida, padrão já identificado em outras tabelas do estudo. O teste estatístico não mostrou associação entre a via de liberação e a consistência prescrita (p = 1,000), demonstrando que a escolha da consistência depende da funcionalidade da deglutição e da possibilidade de broncoaspiração ou penetração laringotraqueal observada individualmente. Esses achados reforçam a importância da avaliação clínica fonoaudiológica e da padronização institucional no processo de reintrodução da VO, garantindo segurança e efetividade na reabilitação, como sugere o Conselho Federal de Fonoaudiologia (2023).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo com as limitações do tamanho amostral, a pesquisa demonstra que o protocolo institucionalizado utilizado na UCA contribui para a liberação da vida oral de alimentação precoce e segura no pós-operatório imediato de cirurgias cardíacas. Além disso, as ações fonoaudiológicas padronizadas demonstraram-se eficazes, contribuindo para a adoção de condutas favoráveis no cumprimento de metas e à definição da consistência alimentar, contribuindo para a segurança e evolução clínica do paciente.

Deste modo, o protocolo apresenta-se como uma ferramenta adequada no apoio à adoção de condutas clínicas, na organização do fluxo assistencial e a qualificação do atendimento fonoaudiológico alinhado com a equipe multidisciplinar, contribuindo para a melhora da assistência e reforçando a importância de protocolos estruturados em unidades avançadas de cuidados. Por fim, recomenda-se a realização de estudos com ampliação da amostra para maior número de variáveis, permitindo, assim, um maior poder inferencial e aprofundamento da compreensão dos efeitos observados, visto que parte dos resultados pode ter sido influenciada pelo baixo número de registro de diversas categorias, que pode ter causado limitação do estudo.

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1Discente do Curso de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará, Campus II/CCBS. e-mail: taynamoscoso15@gmail.com

2Discente do Curso de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará, Campus II/CCBS. e-mail: vitdepaulaf@gmail.com

3Fonoaudiólogo da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, Especialista em Fonoaudiologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. e-mail: elder.torres@outlook.com

4Docente do Curso de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará, Doutora em Ciências da Saúde (FMABC). e-mail: rosa.dfm.goncalves@uepa.br