IMPACTO DA RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM SAÚDE DA FAMÍLIA NO SERVIÇO DE PSICOLOGIA EM UM MUNICÍPIO NO INTERIOR DA REGIÃO AMAZÔNICA

IMPACT OF MULTI-PROFESSIONAL FAMILY HEALTH RESIDENCY ON PSYCHOLOGY SERVICES IN A MUNICIPALITY IN THE INTERIOR OF THE AMAZON REGION

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601311755


Fernando Henrique Silva Andrade1
Nínive Colonese Michelis2
Analine Ferreira do Amaral3


RESUMO: O presente artigo analisa os impactos da implantação de um Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família no município de Espigão D’Oeste (RO). O objetivo é avaliar a ampliação do acesso aos serviços de psicologia entre 2023 e 2025, integrando dados locais a uma revisão de literatura sobre a eficácia desse modelo de formação. A metodologia consiste em uma revisão bibliográfica associada a um estudo documental e comparativo de dados quantitativos municipais. Os resultados demonstram um crescimento de 170% no número de atendimentos psicológicos após a implantação do programa, evidenciando a consolidação das ações de saúde mental no território e a superação de barreiras históricas de acesso na Amazônia Legal. 

Palavras-Chave: Saúde Mental; Psicologia; Residência Multiprofissional; Atenção Primária; SUS; Amazônia Legal. 

ABSTRACT This article analyzes the impacts of implementing a Multiprofessional Residency Program in Family Health in the municipality of Espigão D’Oeste (RO). The objective is to evaluate the expansion of access to psychology services between 2023 and 2025, integrating local data with a literature review on the effectiveness of this training model. The methodology consists of a bibliographic review associated with a documentary and comparative study of municipal quantitative data. The results demonstrate a 170% growth in the number of psychological consultations after the implementation of the program, highlighting the consolidation of mental health actions in the territory and the overcoming of historical access barriers in the Legal Amazon.

Keywords: Mental Health; Psychology; Nonmedical Internship; Primary Health Care; Unified Health System; Legal Amazon.

INTRODUÇÃO

Espigão D’Oeste, localizado em Rondônia, integra a Região Amazônica Legal e possui uma população de aproximadamente 29.414 habitantes, segundo o Censo Demográfico do IBGE realizado em 2022. 

Historicamente, o cenário da saúde mental no município enfrentava severas limitações: até 2024, havia apenas uma psicóloga atuando na rede pública, lotada exclusivamente no CAPS (Atenção Especializada). Essa configuração centralizava toda a demanda, deixando a Atenção Primária desassistida de profissionais da psicologia em suas equipes de Estratégia de Saúde da Família. 

A realidade foi alterada em 2024 com o início do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, que inseriu novos psicólogos na rede municipal (dois no primeiro ano e mais dois no ano seguinte). 

Este estudo busca avaliar como essa estratégia de formação-serviço impactou a oferta de cuidados psicológicos em uma região de difícil fixação de profissionais. Além disso, o presente estudo avalia o impacto da residência multiprofissional sobre a ampliação dos atendimentos psicológicos contribuindo para o debate sobre a efetividade dessa estratégia de capacitação dos profissionais no interior da Amazônia Legal, bem como servir de base para o delineamento de políticas públicas em saúde. 

METODOLOGIA

Este estudo adota uma abordagem de revisão de literatura integrada a uma análise documental e comparativa de base quantitativa. A revisão bibliográfica fundamentou-se em periódicos científicos que discutem a psicologia na Atenção Primária e o papel das residências no fortalecimento do SUS. Paralelamente, foram analisados os registros oficiais de atendimentos psicológicos realizados em Espigão D’Oeste entre janeiro de 2023 e setembro de 2025. Os dados foram organizados para comparar o período anterior e posterior à implantação do programa, considerando variáveis como gênero e evolução mensal. 

REVISÃO DE LITERATURA

A residência multiprofissional constitui-se como uma estratégia fundamental para a reorientação do modelo de atenção à saúde. Segundo Silva et al. (2017), a inserção da psicologia na residência em Saúde da Família permite que o profissional atue não apenas no atendimento clínico individual, mas como um agente de mudança nas práticas de saúde, utilizando ferramentas como o acionamento do apoio matricial para a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS), envolvimento na criação  de grupos focados na criação de vínculos e superação de vulnerabilidades, participar de visitas domiciliares, entre outros (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2019). 

O modelo de treinamento em serviço é essencial para a formação de profissionais com visão crítica e territorializada. Passos, Oliveira e Silva (2020) ressaltam que as residências multiprofissionais promovem a autonomia do sujeito e a resolutividade das equipes, uma vez que o residente é estimulado a compreender as determinações sociais da saúde e a intervir de forma interdisciplinar. 

No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), o fazer da psicologia distancia-se do modelo clínico tradicional centrado no consultório para adotar uma postura de intervenção territorial e psicossocial. O psicólogo inserido nas equipes de Saúde da Família atua na fronteira entre a clínica individual e as ações coletivas, utilizando suas ferramentas para compreender o sofrimento psíquico inserido no contexto de vulnerabilidade social. Essa atuação exige a desconstrução de práticas patologizantes, priorizando a promoção de saúde e a prevenção de agravos por meio de grupos terapêuticos, visitas domiciliares e projetos terapêuticos singulares (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2019). 

Assim, a psicologia na APS não se limita a diagnosticar transtornos, mas busca fortalecer os laços comunitários e a autonomia dos sujeitos, garantindo que o cuidado em saúde mental seja transversal a todas as ações da unidade básica. Em regiões periféricas e de difícil acesso, como a Amazônia Legal, a residência assume um papel político e estratégico. Conforme aponta Ferreira e Gontijo (2021), essa modalidade formativa é um dispositivo eficaz para o fortalecimento da Atenção Primária, pois facilita a fixação de profissionais qualificados em áreas onde a escassez de especialistas é crônica. 

A presença do residente qualifica o serviço e garante a continuidade do cuidado psicológico, transformando a unidade de saúde em um espaço de aprendizagem constante e cuidado integral. A literatura científica e as diretrizes profissionais apontam que a residência multiprofissional é um instrumento robusto para o fortalecimento da Atenção Primária, pois qualifica o cuidado por meio da integração de diferentes saberes. Nesse contexto, a inserção da psicologia permite a superação do modelo ambulatorial tradicional, uma vez que a atuação deve estar pautada na “compreensão das subjetividades de acordo com o contexto em que os sujeitos estão inseridos, considerando as determinações sociais, políticas, econômicas e culturais” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2019, p. 28). 

Estudos sobre a formação para o SUS destacam que o treinamento em serviço favorece a autonomia do sujeito e a resolutividade das equipes. Em contextos amazônicos, as residências assumem um papel estratégico adicional: funcionam como um mecanismo de fixação de profissionais qualificados em áreas remotas, combatendo a rotatividade e garantindo a continuidade da assistência em saúde mental para populações historicamente marginalizadas. Conforme salientam Ferreira e Gontijo (2021), a residência atua como um dispositivo de fixação e qualificação profissional, pois ao integrar o ensino à realidade local, reduz a precarização dos vínculos e fortalece o compromisso ético-político dos profissionais com o território.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos dados revela uma transformação quantitativa e qualitativa no serviço. No ano de 2023, com o modelo centralizado, o município registrou 1.065 atendimentos. Em 2024, primeiro ano da residência, o volume saltou para 2.473 e, em 2025, atingiu a marca parcial de 2.880 atendimentos apenas até setembro. Este crescimento de 170% confirma que a inserção dos residentes permitiu absorver uma demanda reprimida significativa. 

No que tange ao perfil dos usuários, há uma acentuada disparidade de gênero: o público feminino foi responsável por cerca de 83% a 84% dos atendimentos em todo o período analisado. Esse fenômeno reflete questões sociais e culturais onde mulheres buscam mais ativamente o suporte profissional, enquanto o público masculino apresenta maior resistência ao cuidado em saúde mental. De acordo com Gomes (2020), essa barreira masculina está frequentemente associada aos modelos de masculinidade hegemônica, que associam o autocuidado à vulnerabilidade, afastando o homem das práticas preventivas na Atenção Primária. Assim, a maior procura feminina reitera a necessidade de estratégias de busca ativa e sensibilização específicas para o público masculino, visando romper com o estigma da fragilidade no cuidado psicológico (SILVA et al., 2022).

A discussão dos dados, à luz do perfil epidemiológico nacional, indica que a expansão do serviço em Espigão D’Oeste é uma resposta direta à alta prevalência de transtornos ansiosos e depressivos no pós-pandemia, reforçando a importância do psicólogo na porta de entrada do sistema.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A implantação do Programa de Residência Multiprofissional em Espigão D’Oeste resultou em uma expansão sem precedentes da atenção psicológica no município. O aumento expressivo no número de acessos demonstra que a população carecia desses serviços e que a estratégia de formação em serviço é eficaz para superar a escassez de profissionais na região da Amazônia Legal. 

Os achados reforçam o papel das residências como política estruturante do SUS, promovendo equidade territorial e garantindo que o direito ao cuidado em saúde mental alcance as regiões do interior do país de forma qualificada e contínua. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Saúde Mental. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/. Acesso em: 15 dez. 2026.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Atenção Básica à Saúde. 2. ed. Brasília, DF: CFP, 2019. 110 p. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacoes/referencias-tecnicas/. Acesso em: 15 dez. 2026.

FERREIRA, A. R.; GONTIJO, L. M. A residência multiprofissional como dispositivo de fortalecimento da atenção primária. Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 31, n. 2, p. 112-129, 2021. Disponível em: https://revistas.uneb.br/saudecoletiva/article/view/13163/9403. Acesso em: 15 dez. 2026

FUNDAÇÃO IBGE. Censo Demográfico 2022: População residente por sexo, idade e raça – Espigão D’Oeste (RO). Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ro/espigao-do-oeste/panorama. Acesso em: 15 dez. 2026.

GOMES, R. Saúde do homem em debate. 2. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2020. 164 p. (Coleção Temas em Saúde). Disponível em: https://portal.fiocruz.br/livro/saude-do-homem-em-debate-2a-edicao. Acesso em: 20 dez. 2026.

PASSOS, P. M.; OLIVEIRA, W. L.; SILVA, R. S. Residência multiprofissional e formação para o Sistema Único de Saúde (SUS): promoção e autonomia do sujeito. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, Belo Horizonte, v. 23, n. 2, p. 106-125, jul./dez. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.57167/Rev-SBPH.23.110. Acesso em: 15 dez. 2026

SILVA, J. M. et al. Prevalência de transtornos de ansiedade e depressão no Brasil pós-pandemia: análise epidemiológica. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 25, n. 4, e220017, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-549720220017. Acesso em: 16 dez. 2026.

SILVA, P. H. M. et al. Residência multiprofissional em saúde da família: a psicologia na atenção primária à saúde. Pretextos – Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 86-103, jul./dez. 2017. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/pretextos/article/view/15249/11730. Acesso em: 16 dez. 2026.

SOUZA, L. A. S. et al. Formação em Psicologia para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Cadernos de Saúde Pública, v. 11, n. 3, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.18310/2446-4813.2025v11n3.4528. Acesso em: 15 dez. 2026.


1Residência Multiprofissional em Saúde da Família – Residente
Espigão D’Oeste – Rondônia
http://lattes.cnpq.br/8235013197383726
2Residência Multiprofissional em Saúde da Família – Residente
Espigão D’Oeste – Rondônia
3Residência Multiprofissional em Saúde da Família – Tutora
Espigão D’Oeste – Rondônia
http://lattes.cnpq.br/6572056194645217