HEALTH EDUCATION IN RURAL AREAS: AN ANALYSIS OF SCIENTIFIC PUBLICATIONS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601300730
Ana Victória Frazão Corrêa Arrais1
Nicolas Isaí de Castro Silva2
Nágila de Azevedo Marques3
Layanne Cavalcante Moura4
RESUMO
Introdução: A educação em saúde em áreas rurais constitui estratégia fundamental para a redução de desigualdades e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Contudo, limitações estruturais, territoriais e tecnológicas ainda comprometem a efetividade dessas ações. Objetivo: Analisar a produção científica recente sobre educação em saúde em áreas rurais por meio de uma revisão integrativa da literatura. Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa, de natureza qualitativa, descritiva e analítica, realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram incluídos artigos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem ações, estratégias ou práticas de educação em saúde em contextos rurais. A busca ocorreu em janeiro de 2026. Após aplicação dos critérios de elegibilidade e processo de triagem, nove estudos compuseram a amostra final. Os dados foram analisados por meio de análise temática. Resultados: Os estudos evidenciaram diversidade de estratégias educativas, com predominância de ações presenciais comunitárias, capacitação de profissionais da Atenção Primária e uso incipiente de tecnologias digitais. A literacia em saúde e a literacia digital emergiram como elementos centrais para o engajamento das populações rurais. Entre os principais desafios identificados destacam-se limitações de infraestrutura, escassez de recursos humanos, dificuldades de acesso geográfico e fragilidades na capacitação profissional. Conclusão: A educação em saúde em áreas rurais apresenta potencial relevante para a promoção da equidade em saúde, especialmente quando fundamentada em metodologias participativas, territorializadas e culturalmente sensíveis. Entretanto, persistem lacunas metodológicas e estruturais que indicam a necessidade de políticas públicas integradas, investimentos em inclusão digital e fortalecimento da formação profissional, bem como de estudos avaliativos mais robustos.
Palavras-chave: Educação em saúde; Área rural; Atenção Primária à Saúde; Promoção da saúde; Equidade em saúde.
ABSTRACT
Introduction: Health education in rural areas is a key strategy for reducing health inequalities and strengthening Primary Health Care. However, structural, territorial, and technological barriers still limit the effectiveness of these actions. Objective: To analyze recent scientific production on health education in rural areas through an integrative literature review. Methods: This qualitative, descriptive, and analytical integrative review was conducted using the Virtual Health Library (VHL). Articles published between 2020 and 2025, available in full text, in Portuguese, English, or Spanish, and addressing health education actions or strategies in rural contexts were included. The search was carried out in January 2026. After eligibility criteria and screening procedures, nine studies were included in the final sample. Data were analyzed using thematic analysis. Results: The studies revealed a diversity of educational strategies, with a predominance of community-based face-to-face actions, training of Primary Health Care professionals, and limited use of digital technologies. Health literacy and digital literacy emerged as central elements for rural population engagement. Major challenges included infrastructure limitations, shortage of human resources, geographic access barriers, and insufficient professional training. Conclusion: Health education in rural areas has significant potential to promote health equity, particularly when based on participatory, territorially grounded, and culturally sensitive approaches. Nevertheless, persistent methodological and structural gaps highlight the need for integrated public policies, investments in digital inclusion, professional training, and more robust evaluative studies.
Keywords: Health education; Rural areas; Primary Health Care; Health promotion; Health equity.
1. INTRODUÇÃO
A educação em saúde constitui um dos pilares fundamentais para a promoção do bem estar individual e coletivo, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais e barreiras estruturais de acesso aos serviços de saúde. Em áreas rurais, essas limitações tendem a se intensificar em razão da dispersão geográfica das populações, da fragilidade da infraestrutura sanitária, da escassez de recursos humanos qualificados e das vulnerabilidades socioeconômicas historicamente associadas a esses territórios (Garnelo; Souza; Rocha, 2023; Monteiro et al., 2022).
Nesse contexto, a educação em saúde em áreas rurais tem sido reconhecida como estratégia central para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS), a promoção de práticas de autocuidado e a ampliação da participação comunitária nos processos de cuidado. Estudos recentes apontam que ações educativas contextualizadas e culturalmente sensíveis contribuem para a redução de iniquidades em saúde, especialmente quando articuladas às políticas públicas e às redes locais de atenção (Pappen et al., 2025; Sreeram; Nair; Rahman, 2024).
Entretanto, a literatura contemporânea evidencia lacunas significativas no que se refere à articulação entre alfabetização em saúde, competências de literacia digital e comportamentos relacionados ao cuidado em populações rurais. Essas fragilidades comprometem a efetividade das intervenções educativas e limitam a incorporação qualificada de tecnologias em saúde nesses territórios, particularmente em cenários marcados por baixa escolaridade, restrições de conectividade e insuficiência de investimentos estruturais (Li; Shao; Gao, 2025; Silva; Moura, 2021).
Adicionalmente, a efetividade das ações de promoção da saúde em contextos rurais depende de uma articulação intersetorial robusta, envolvendo setores como educação, assistência social, agricultura e saneamento básico. Organismos internacionais, como a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), têm ressaltado que intervenções integradas e territorializadas ampliam o impacto das políticas públicas e fortalecem a capacidade de resposta das comunidades frente às vulnerabilidades sociais e sanitárias (OPAS, 2021; Fausto et al., 2024).
Nos últimos anos, observa-se um crescimento da produção científica nacional e internacional voltada à educação em saúde em áreas rurais, abrangendo desde estudos empíricos sobre intervenções educativas até revisões que discutem o papel da APS, das tecnologias digitais e da participação comunitária. Contudo, essa produção apresenta-se de forma dispersa, com abordagens metodológicas heterogêneas e resultados fragmentados, o que dificulta a consolidação de um panorama crítico e sistematizado do conhecimento disponível (Omura et al., 2024; Jesus; Lima; Carvalho, 2024).
Diante desse cenário, torna-se relevante a realização de uma revisão integrativa da literatura, por se tratar de um método capaz de sintetizar estudos com diferentes delineamentos, permitindo uma análise abrangente e crítica da produção científica sobre educação em saúde em áreas rurais. Esse tipo de revisão possibilita identificar avanços conceituais, estratégias predominantes, desafios recorrentes e lacunas do conhecimento, contribuindo para o aprimoramento das práticas profissionais e para a formulação de políticas públicas mais equitativas e contextualizadas.
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura científica disponível na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) sobre educação em saúde em áreas rurais, buscando identificar os principais avanços, desafios e estratégias adotadas nas publicações dos últimos anos. A justificativa deste trabalho
fundamenta-se na necessidade de compreender como a produção científica tem abordado essa temática, considerando sua relevância para a qualificação das práticas em saúde, o fortalecimento da APS e a promoção da equidade em saúde, especialmente em territórios historicamente vulnerabilizados.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, do tipo revisão integrativa da literatura, com abordagem descritiva e analítica, desenvolvido a partir da análise da produção científica acerca da educação em saúde em áreas rurais. A revisão integrativa foi escolhida por permitir a síntese ampla e sistemática de estudos com diferentes delineamentos metodológicos, possibilitando a compreensão aprofundada do estado do conhecimento, bem como a identificação de lacunas, tendências e contribuições para a prática e para as políticas públicas em saúde.
A revisão foi conduzida na BVS, por se tratar de uma base que integra relevantes fontes de informação em saúde, como LILACS e MEDLINE, com ampla representatividade de publicações nacionais e internacionais, especialmente no campo da saúde coletiva e da APS, com destaque para o contexto latino-americano. A estratégia de busca foi realizada no mês de janeiro de 2026, utilizando descritores controlados do Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e seus correspondentes em língua inglesa, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Os descritores utilizados foram: educação em saúde, área rural, população rural, promoção da saúde e atenção primária à saúde, bem como suas variações em inglês (health education, rural areas, rural population, health promotion e primary health care).
Foram adotados como critérios de inclusão: artigos científicos publicados no período de 2020 a 2025; estudos disponíveis na íntegra; publicações nos idiomas português, inglês ou espanhol; e pesquisas que abordassem, de forma direta ou indireta, ações, estratégias, políticas ou práticas de educação em saúde desenvolvidas em contextos rurais. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, resumos de eventos, dissertações, teses e estudos que não apresentassem relação direta com o tema proposto.
A busca inicial resultou na identificação de 1.469 publicações. Após a aplicação dos filtros referentes ao período de publicação, idioma, tipo de documento e disponibilidade de texto completo, 208 estudos permaneceram elegíveis para a etapa de triagem.
O processo de seleção dos estudos seguiu etapas sistemáticas e sequenciais, conforme recomendado para revisões integrativas, compreendendo: (1) leitura dos títulos; (2) leitura dos resumos; e (3) leitura integral dos artigos potencialmente relevantes. Na etapa de leitura dos títulos, incluindo a remoção de duplicatas, 149 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Em seguida, procedeu-se à leitura dos resumos, fase em que 103 artigos foram excluídos por não apresentarem aderência temática ao objeto da revisão. Dessa forma, 46 estudos foram selecionados para leitura na íntegra.
Após a análise completa dos textos, 37 artigos foram excluídos por não abordarem diretamente a temática da educação em saúde em áreas rurais ou por não atenderem aos critérios previamente estabelecidos. Ao final do processo de triagem, 9 estudos compuseram a amostra final desta revisão integrativa.
Os estudos incluídos foram submetidos à leitura analítica e interpretativa, com extração sistemática das seguintes informações: ano de publicação, país de origem, objetivos do estudo, delineamento metodológico, estratégias educativas adotadas, desafios identificados e principais contribuições para a prática profissional e para a formulação de políticas públicas em saúde.
A análise dos dados foi realizada por meio da análise temática, permitindo a organização dos achados em categorias analíticas, com vistas à identificação de padrões, convergências, divergências e lacunas na produção científica sobre educação em saúde em áreas rurais. Essa abordagem possibilitou a construção de uma síntese crítica e interpretativa dos resultados, contribuindo para uma compreensão aprofundada dos avanços e desafios contemporâneos relacionados à temática investigada.
3. RESULTADOS
A presente revisão integrativa identificou nove estudos publicados entre 2020 e 2025 que abordam a educação em saúde em áreas rurais, revelando diversidade de contextos geográficos, populações-alvo e estratégias metodológicas (Quadro 01). Observou-se predominância de pesquisas desenvolvidas em países de renda média e baixa, especialmente em territórios rurais da América Latina, África e Ásia, refletindo a centralidade desses cenários nos debates contemporâneos sobre desigualdades em saúde.
Do ponto de vista metodológico, prevaleceram estudos qualitativos e de caráter descritivo, com menor frequência de investigações avaliativas ou longitudinais, o que reforça a adequação da revisão integrativa para captar a complexidade, a contextualização e a diversidade das práticas de educação em saúde em áreas rurais (Quadro 02). Essa característica evidencia
uma produção científica ainda concentrada na compreensão contextual e exploratória das práticas educativas, com limitações quanto à mensuração de impacto em médio e longo prazo.
Quadro 01 – Caracterização dos estudos selecionados sobre educação em saúde em áreas rurais nos período de 2020 a 2025 na Biblioteca Virtual de Saúde. Teresina, Piauí, 2025.

A análise temática permitiu agrupar os achados em quatro eixos principais: (1) estratégias educativas adotadas em contextos rurais; (2) incorporação de tecnologias digitais e literacia em saúde; (3) desafios estruturais e organizacionais das ações educativas; e (4) contribuições das práticas de educação em saúde para a promoção da equidade.
Quadro 02 – Descrição dos objetivos dos estudos selecionados na revisão integrativa sobre educação em saúde em áreas rurais dos estudos selecionados sobre educação em saúde em áreas rurais nos período de 2020 a 2025 na Biblioteca Virtual de Saúde. Teresina, Piauí, 2025.


As estratégias educativas identificadas incluíram ações presenciais mediadas por equipes da APS, atividades comunitárias participativas, capacitação de agentes comunitários e, de forma crescente, o uso de tecnologias digitais, como aplicativos móveis, tele orientação e mídias comunitárias. Destacou-se que intervenções fundamentadas em metodologias dialógicas, territorializadas e culturalmente sensíveis apresentaram maior potencial de engajamento e sustentabilidade.
Entretanto, os estudos também evidenciaram desafios recorrentes, como escassez de recursos humanos e materiais, limitações de infraestrutura física e digital, dificuldades de acesso geográfico e fragilidades relacionadas à alfabetização em saúde e à literacia digital das populações rurais.
Esses achados evidenciam que, embora haja diversificação das estratégias de educação em saúde em áreas rurais, sua efetividade permanece condicionada a fatores estruturais, tecnológicos e socioculturais, os quais são discutidos à luz da literatura científica recente.
4. DISCUSSÃO
Os estudos empíricos realizados em contextos rurais brasileiros reforçam a centralidade da educação em saúde como estratégia de aproximação entre serviços e comunidades. Silva et al. (2023), ao analisarem ações educativas voltadas a populações rurais expostas ao uso abusivo de álcool e outras drogas, evidenciam que abordagens dialógicas e territorializadas favorecem o fortalecimento do vínculo com a APS, ampliando a adesão às práticas de cuidado. De modo complementar, Miranda et al. (2020) demonstram que ações educativas direcionadas a homens trabalhadores rurais contribuem para maior reconhecimento das necessidades de saúde desse grupo, embora persistam barreiras socioculturais relacionadas a construções de masculinidade que limitam o engajamento contínuo.
No âmbito da saúde da mulher em áreas rurais, o estudo de Carvalho et al. (2023) evidencia que a educação em saúde desempenhou papel relevante durante a pandemia de COVID-19 ao mediar o acesso à informação e a continuidade do cuidado entre trabalhadoras rurais. Entretanto, os autores destacam fragilidades estruturais e comunicacionais que comprometeram a efetividade das ações educativas, achado que converge com os resultados desta revisão ao evidenciar que contextos de crise tendem a aprofundar desigualdades preexistentes nos territórios rurais.
Entre adolescentes e jovens, os estudos de Webb et al. (2023) e Hearn et al. (2023) apontam que a educação em saúde, quando articulada a redes comunitárias e educacionais, apresenta potencial significativo para o enfrentamento de vulnerabilidades sociais. Webb et al. destacam a importância do apoio comunitário e das ações educativas no cuidado à saúde mental de adolescentes grávidas em vilas rurais de Uganda, enquanto Hearn et al. (2023), ao avaliarem o programa ACHIEVE em áreas rurais dos Estados Unidos, demonstram avanços na literacia em saúde e no protagonismo juvenil. Apesar das diferenças contextuais, ambos os estudos convergem ao indicar que a educação em saúde extrapola a transmissão de informações, configurando-se como prática social e relacional.
A escola rural também emerge como espaço estratégico para a promoção da saúde nos estudos de Guzmán-Barragán et al. (2020) e Makhado e Makhado (2025). O primeiro evidencia que a implementação da Estratégia Escola Saudável em contextos rurais colombianos favorece a articulação intersetorial entre saúde e educação, enquanto o segundo demonstra que ações educativas sobre epilepsia em escolas rurais sul-africanas contribuem para a redução do estigma e a melhoria das relações sociais entre estudantes. Esses achados reforçam o potencial da escola como território privilegiado para práticas educativas contínuas e culturalmente sensíveis.
Os estudos de Campos et al. (2025) e Andrade et al. (2025) ampliam a compreensão da educação em saúde ao articulá-la com processos de desenvolvimento local e formação profissional. Campos et al. (2025) demonstram que ações de educação nutricional em comunidade rural angolana favoreceram mudanças em práticas alimentares e fortaleceram a organização comunitária, evidenciando impactos que extrapolam o âmbito individual. Já Andrade et al. (2025) ressaltam que experiências formativas em áreas rurais contribuem para ampliar a percepção crítica de estudantes da área da saúde sobre o papel da APS e da educação em saúde na redução de desigualdades territoriais.
Em conjunto, os nove estudos incluídos nesta revisão integrativa evidenciam que a efetividade das ações de educação em saúde em áreas rurais está diretamente relacionada à capacidade de adaptação às especificidades socioculturais e territoriais, à valorização dos saberes locais e à articulação entre diferentes atores e setores. Ao mesmo tempo, revelam limitações metodológicas recorrentes, como a predominância de estudos qualitativos e descritivos, limitação inerente ao delineamento dos estudos primários incluídos, o que reforça a necessidade de investigações avaliativas mais robustas que permitam mensurar o impacto das intervenções educativas ao longo do tempo.
Os resultados desta revisão integrativa indicam que a educação em saúde em áreas rurais constitui um campo em expansão na produção científica recente, ainda que marcado por desafios estruturais que limitam o alcance e a efetividade das práticas educativas. A literatura contemporânea corrobora esses achados ao destacar que abordagens pedagógicas participativas, contextualizadas e sensíveis às especificidades territoriais são fundamentais para o fortalecimento de capacidades locais e para a promoção da equidade em saúde (Ji; Dong e Pan, 2024).
Nesse sentido, o estudo de Ji, Dong e Pan (2024) evidenciou associação positiva entre níveis mais elevados de literacia digital e maior participação em comportamentos de saúde mediados por tecnologias entre residentes de áreas rurais. Tal achado dialoga diretamente com os resultados desta revisão, que identificaram a literacia digital como elemento mediador central para a utilização efetiva de tecnologias em saúde e para a mitigação das barreiras geográficas características desses territórios.
De forma convergente, Li, Shao e Gao (2025), ao analisarem idosos residentes em áreas rurais da China, demonstraram que a alfabetização digital influencia positivamente comportamentos relacionados à saúde, como maior engajamento em atividades físicas e busca ativa por informações em saúde. Esses resultados reforçam a necessidade de incorporar componentes estruturados de literacia digital nos programas de educação em saúde rural, lacuna ainda presente em parte significativa das iniciativas analisadas nesta revisão.
Por outro lado, estudos recentes também apontam limitações relevantes no acesso e uso de tecnologias digitais em contextos rurais. Woods et al. (2024) destacam barreiras significativas na formação de profissionais de saúde rurais para o uso de tecnologias digitais, incluindo insuficiente capacitação técnica e ausência de avaliações sistemáticas das intervenções educativas digitais. Esses achados corroboram os resultados desta revisão, que evidenciaram limitações de infraestrutura e qualificação profissional como entraves recorrentes à implementação e sustentabilidade das ações educativas em saúde rural.
A persistência da divisão digital em comunidades rurais e regionais também é amplamente documentada na literatura recente. Jongebloed et al. (2024) identificaram baixos níveis de literacia digital e reduzido engajamento com tecnologias de saúde em populações rurais, reforçando a necessidade de abordagens educacionais que considerem a inclusão digital como componente estruturante das estratégias de educação em saúde.
No que se refere às modalidades educativas, estudos internacionais indicam que, em contextos com infraestrutura digital limitada, abordagens presenciais e comunitárias permanecem como estratégias preferenciais e mais efetivas. Pesquisa realizada por Reyes et al. (2024), nas Filipinas, demonstrou que adultos residentes em áreas rurais tendem a valorizar ações educativas presenciais e centradas na comunidade, sobretudo quando plataformas digitais não são culturalmente adaptadas ou acessíveis de forma equitativa.
Apesar dos avanços teóricos e metodológicos observados, ainda persistem lacunas empíricas que dificultam a consolidação de modelos educativos universalizáveis para áreas rurais. A heterogeneidade dos contextos rurais, as desigualdades socioeconômicas e as limitações de infraestrutura exigem abordagens diversificadas, escaláveis e sensíveis às realidades locais para que a educação em saúde contribua efetivamente para a promoção da equidade e a melhoria dos indicadores de saúde (Nasir et al., 2024).
5. CONCLUSÃO
A presente revisão integrativa permitiu sintetizar e analisar criticamente a produção científica recente sobre educação em saúde em áreas rurais, evidenciando avanços, desafios persistentes e lacunas relevantes no conhecimento disponível. A análise integrativa dos nove estudos incluídos possibilitou identificar padrões recorrentes, convergências temáticas e fragilidades metodológicas na literatura, especialmente no que se refere à escassez de pesquisas avaliativas e à limitada mensuração de impacto das intervenções educativas.
Os achados indicam que ações de educação em saúde em áreas rurais apresentam maior potencial de efetividade quando fundamentadas em metodologias participativas, territorializadas e culturalmente sensíveis, bem como quando articuladas a estratégias intersetoriais e ao fortalecimento da APS. A literacia em saúde e a inclusão digital emergem como componentes centrais para ampliar o alcance das ações educativas, desde que acompanhadas de investimentos estruturais e capacitação profissional.
Do ponto de vista metodológico, a utilização da revisão integrativa mostrou-se adequada para a compreensão de um fenômeno complexo e multifacetado, permitindo articular evidências provenientes de diferentes delineamentos e contextos. Contudo, os resultados apontam para a necessidade de fortalecimento da produção científica por meio de estudos mais robustos, capazes de avaliar a efetividade das estratégias educativas em médio e longo prazo.
Por fim, esta revisão integrativa contribui para o campo da saúde coletiva ao oferecer subsídios teóricos e empíricos para a formulação de políticas públicas, a qualificação das práticas profissionais e o fortalecimento de estratégias de educação em saúde voltadas à promoção da equidade em territórios rurais historicamente vulnerabilizados.
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1Aluna Bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC) e Graduanda de Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: victoria.arrais21@gmail.com.
2Aluno Bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC) e Graduando de Enfermagem do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: nicolasisai225@gmail.com
3Terapeuta Ocupacional pela Faculdade Santa Teresinha – CEST, especialista em Saúde Mental e Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Maranhão; Especialista em Educação na Saúde para Preceptores no SUS pelo Hospital Sírio- Libanês e Especialista em Intervenção ABA para autismo e Deficiência Intelectual.
4Docente Bolsista do Bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC), Médica de Medicina de Família e Comunidade, Mestre em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Docente dos Cursos de Bacharelado em Enfermagem, Farmácia, Biomedicina e Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: layannecavalcante@hotmail.com
