COMUNICAÇÃO MÉDICO-PACIENTE E SUA INFLUÊNCIA NA ADESÃO AO TRATAMENTO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA A SAÚDE

PHYSICIAN-PATIENT COMMUNICATION AND ITS INFLUENCE ON TREATMENT ADHERENCE IN PRIMARY HEALTH CARE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602062005


Luana Mendonça Siqueira Fernandes1
Talitha Giselle Clemente Gonçalves2


Resumo

A comunicação médico-paciente é um componente estruturante da Atenção Primária à Saúde (APS), atuando como determinante crítico na continuidade do cuidado e na segurança assistencial. Este estudo tem como objetivo relatar a experiência da prática clínica no manejo da comunicação médico-paciente e sua influência na adesão terapêutica no âmbito da APS. O presente trabalho e um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, vivenciado durante o Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade. A reflexão sobre a prática foi fundamentada na análise de 18 artigos científicos selecionados em bases de dados. A vivência demonstrou que a transição para modelos de Tomada de Decisão Compartilhada (TDC) favorece o engajamento do usuário, superando as limitações do modelo paternalista. Observou-se que o fortalecimento da aliança terapêutica e a clareza informacional são preditores fundamentais para o sucesso clínico, como o controle pressórico. Identificou-se, no cotidiano da unidade, o desafio do baixo letramento em saúde, especialmente na população idosa, o que exige do médico o uso de estratégias comunicativas simplificadas para elevar a autoeficácia do paciente e evitar erros diagnósticos. A experiência confirma que a comunicação deve ser tratada como uma intervenção clínica estruturada. O aperfeiçoamento das habilidades comunicativas é essencial para mitigar a inércia clínica e garantir a eficácia terapêutica na APS.

Palavras-chave: Comunicação em Saúde; Relação Médico-Paciente; Adesão ao Tratamento; Atenção Primária à Saúde.

1 INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como o pilar estruturante dos sistemas contemporâneos, atuando como o centro ordenador da rede e a principal porta de entrada para o manejo de condições crônicas. Nesse cenário, o controle de patologias como a hipertensão e a dislipidemia depende diretamente da continuidade do cuidado e da eficácia das intervenções longitudinais. O sucesso terapêutico na APS não é condicionado apenas pela precisão técnica do diagnóstico, mas pela capacidade do sistema em garantir que as condutas estabelecidas sejam incorporadas à rotina do usuário (ŚWIĄTONIOWSKA-LONC et al., 2020; PERCHE, SOUZA & RODRIGUES, 2023; ZENG et al., 2024).

A comunicação entre o profissional e o paciente emerge como a tecnologia leve primordial para a viabilização do plano terapêutico, superando a visão meramente instrumental do encontro clínico. A transição de modelos paternalistas para abordagens centradas na pessoa permite que a interação clínica funcione como um mecanismo de empoderamento e engajamento. Evidências sugerem que a qualidade dessa interação atua como uma variável preditora direta da satisfação do usuário e, consequentemente, da sua disposição em seguir as recomendações de saúde (AKBABA, DIRIK & MERT, 2025).

Apesar da centralidade da comunicação, a baixa adesão ao tratamento permanece como um dos principais desafios globais de saúde pública, resultando em desfechos clínicos insatisfatórios e elevação dos custos assistenciais. A literatura aponta que a eficácia da comunicação impacta significativamente indicadores biológicos, sendo que pacientes que percebem clareza e respeito durante a consulta apresentam probabilidades superiores de atingir o controle de parâmetros metabólicos e pressóricos. Assim, a falha comunicativa deixa de ser uma questão interpessoal para se tornar um fator de risco clínico (LIU et al., 2025).

A problematização deste relato reside na identificação de barreiras estruturais e cognitivas que impedem que a comunicação resulte em adesão efetiva na APS. Entre esses obstáculos, destaca-se a prevalência de baixo letramento em saúde em populações vulneráveis e idosas, o que compromete a decodificação das instruções médicas e a segurança diagnóstica. Quando o profissional não ajusta seu discurso à capacidade de compreensão do usuário, estabelece-se um ciclo de ineficácia terapêutica e desperdício de recursos públicos (DEFANTE et al., 2024; PERPÉTUO et al., 2025).

A justificativa desta abordagem fundamenta-se na necessidade de compreender como a estruturação do diálogo clínico pode mitigar tais barreiras e otimizar a gestão de doenças crônicas no cotidiano assistencial. Demonstrar que o investimento em competências comunicativas e na Tomada de Decisão Compartilhada (TDC) contribui para a sustentabilidade do sistema de saúde é essencial para reduzir complicações evitáveis. Os motivos que norteiam esta descrição vinculam-se à relevância de aplicar subsídios teóricos na implementação de práticas comunicativas assertivas (ZHAO et al., 2022; BHATTI et al., 2025).

Este relato de experiência organiza-se para apresentar as vivências e percepções obtidas durante a prática clínica na residência médica, confrontando os desafios do cotidiano com as evidências científicas atuais. Através da análise da atuação em unidades de saúde, pretende-se demonstrar que a eficácia do tratamento na APS é indissociável da qualidade do processo comunicativo estabelecido entre médico e paciente (SALAKAY et al., 2023).

O presente trabalho tem como objetivo geral relatar a experiência prática no manejo da comunicação médico-paciente e sua influência na adesão ao tratamento na Atenção Primária à Saúde, promovendo uma reflexão crítica fundamentada na literatura e nas vivências da residência médica. Para alcançar esse propósito, o estudo descreve as estratégias comunicativas implementadas durante os atendimentos clínicos que visam favorecer o engajamento e o autocuidado dos usuários, refletindo, a partir da prática assistencial, sobre como a qualidade da interação clínica repercute na disposição do paciente em seguir as recomendações terapêuticas. Adicionalmente, a pesquisa relata os desafios e as barreiras reais encontrados no cotidiano da unidade de saúde que dificultam o estabelecimento de um vínculo terapêutico sólido e eficaz, analisando a eficácia da comunicação como ferramenta essencial para superar as limitações de letramento em saúde observadas na população assistida.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

A fundamentação teórica deste estudo organiza-se a partir da compreensão da comunicação como uma tecnologia leve essencial para a sustentabilidade da Atenção Primária à Saúde (APS) e para a segurança do paciente.

2.1 A Atenção Primária à Saúde e a Comunicação como Tecnologia Leve

A APS constitui o cenário de maior densidade relacional do sistema de saúde, exigindo que o profissional médico atue não apenas na dimensão técnica, mas na gestão do cuidado longitudinal. Nesse contexto, a comunicação emerge como uma “tecnologia leve”, termo utilizado para descrever as ferramentas de produção de vínculo e acolhimento que viabilizam a assistência. O sucesso das intervenções na APS é indissociável da capacidade do médico em estabelecer canais de diálogo que permitam a compreensão das demandas subjetivas do usuário (PERCHE, SOUZA & RODRIGUES, 2023).

Estudos contemporâneos indicam que a interação clínica qualificada atua como uma variável preditora de desfechos biológicos. A evidência demonstra que pacientes assistidos por profissionais que utilizam protocolos estruturados de comunicação apresentam uma probabilidade até 6,5 vezes superior de atingir metas terapêuticas, como o controle dos níveis pressóricos. Assim, a comunicação deixa de ser um componente periférico para se tornar o mecanismo primário de tradução das evidências científicas para a rotina de saúde do paciente (LIU et al., 2025).

2.2 Modelos de Relação Médico-Paciente: Da Abordagem Biomédica à Centrada na Pessoa

Historicamente, a prática médica foi norteada por um modelo biomédico e paternalista, no qual o paciente assumia uma postura passiva de receptor de ordens. Todavia, a evolução do estado da arte aponta para a obsolescência desse paradigma na gestão de doenças crônicas. O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) propõe uma inversão dessa lógica, focando na experiência da doença e na busca de um terreno comum entre médico e usuário (MONTORI et al., 2023).

A adoção de modelos centrados no paciente é fundamental para reduzir a inércia clínica. O emprego do framework SEGUE (Set the stage, Elicit information, Give information, Understand the patient’s perspective, End the encounter) permite que o médico organize a consulta de forma a validar a perspectiva do paciente, garantindo que as informações técnicas sejam assimiladas e aceitas. Quando o profissional falha em estabelecer essa conexão, o diagnóstico pode ser comprometido em até 20% dos casos devido à imprecisão na coleta de dados subjetivos durante a anamnese (DEFANTE et al., 2024; JAEKEN et al., 2024).

2.3 Adesão Terapêutica: Conceitos e Determinantes Comunicacionais

A adesão ao tratamento é definida como a extensão na qual o comportamento de uma pessoa corresponde às recomendações acordadas com o profissional de saúde. Diferentemente da “complacência” ou “obediência”, a adesão pressupõe uma aliança terapêutica. A literatura demonstra que a força desse vínculo clínico possui uma correlação positiva moderada ($r = 0,52$) com a persistência do paciente no regime terapêutico, sendo um fator de proteção contra o abandono do cuidado (PERCHE, SOUZA & RODRIGUES, 2023).

Observa-se que 26,5% do efeito total da comunicação clínica sobre a saúde do paciente é mediado diretamente pela adesão medicamentosa. Isso significa que a clareza nas instruções e o respeito demonstrado pelo médico funcionam como moduladores do comportamento do paciente. Para mudanças complexas, como dieta e exercícios físicos, a inteligibilidade da informação é o preditor mais robusto, uma vez que tais alterações exigem maior esforço cognitivo e autoeficácia do que a simples ingestão de fármacos (HAIR & SRIPIPATANA, 2021; LIU et al., 2025).

2.4 Tomada de Decisão Compartilhada (TDC) e Empoderamento

A Tomada de Decisão Compartilhada (TDC) representa o ápice da comunicação eficaz na APS. Ela ocorre quando médico e paciente colaboram para escolher exames, tratamentos ou planos de autocuidado, integrando a melhor evidência científica aos valores e preferências do indivíduo. A disparidade nos resultados é nítida: pacientes envolvidos ativamente no processo decisório apresentam taxas de adesão de 81,0%, enquanto aqueles que mantêm uma postura passiva registram apenas 50,8% (AKBABA, DIRIK & MERT, 2025).

A implementação da TDC é, portanto, a peça central do empoderamento na saúde. No entanto, sua prática é condicionada à mitigação de barreiras sistêmicas, como o tempo limitado de consulta e a resistência cultural de pacientes que ainda preferem o modelo de autoridade médica (60,2% da população em alguns contextos). Superar essa inércia exige que o diálogo clínico legitime a capacidade de autocuidado do usuário, transformando a consulta em um protocolo de corresponsabilização (AKBABA, DIRIK & MERT, 2025; TORRES-CASTAÑO et al., 2024).

2.5 Literacia em Saúde e Barreiras ao Cuidado

Um dos maiores desafios para a comunicação na APS é o baixo nível de literacia ou letramento em saúde, especialmente em populações idosas e de baixa renda. Dados indicam que 87,8% dos idosos possuem letramento inadequado, o que compromete a segurança assistencial e a compreensão das posologias. Nestes casos, a comunicação médico-paciente eficaz atua como um mecanismo compensatório: o médico que ajusta seu discurso e utiliza técnicas de verificação de compreensão neutraliza o impacto negativo da baixa escolaridade (PERPÉTUO et al., 2025; ZHAO et al., 2022).

Além das barreiras cognitivas, fatores psicossociais como o estigma e a falta de confiança na benevolência do médico podem interromper o fluxo do tratamento. Em transtornos de humor e condições estigmatizantes, o vínculo clínico torna-se o único instrumento capaz de mitigar a vergonha e garantir a continuidade do uso de psicotrópicos. A construção de uma base de confiança mútua é, portanto, o pilar que sustenta o manejo de condições crônicas a longo prazo (ALMADANI et al., 2026; HASSAN et al., 2025).

3 METODOLOGIA 

Visando atingir os objetivos propostos, este trabalho caracteriza-se como um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, focado nas vivências da prática clínica durante o Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade. O método fundamenta-se na observação reflexiva e na análise crítica da atuação profissional no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), especificamente no manejo da comunicação clínico-assistencial e seus reflexos na adesão terapêutica.

O cenário da experiência compreendeu as atividades assistenciais realizadas em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e ambulatórios de especialidades no município de Anápolis, Goiás no período entre 2024 e 2026. A população assistida consistiu, majoritariamente, em pacientes portadores de condições crônicas não transmissíveis, como hipertensão arterial e dislipidemia, cujos desfechos dependem da continuidade do cuidado longitudinal.

A coleta de percepções e o desenvolvimento da prática comunicativa ocorreram em etapas: inicialmente, houve a identificação de barreiras relacionais no cotidiano das consultas; em seguida, implementou-se o uso de protocolos estruturados de comunicação, como o framework SEGUE e a Tomada de Decisão Compartilhada (TDC). Para conferir rigor acadêmico e fundamentar a reflexão sobre as vivências, realizou-se uma busca bibliográfica sistematizada nas bases National Library of Medicine (PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), utilizando descritores controlados como “comunicação clínica”, “relação profissional-paciente” e “adesão ao tratamento”.

A seleção da literatura de suporte resultou em 18 textos científicos, selecionados por sua pertinência temática e atualidade, que serviram como referencial teórico para confrontar a prática observada com o estado da arte. Foram incluídos estudos com delineamentos variados que abordassem a eficácia de intervenções comunicativas em cenários compatíveis com a APS.

Por fim, procedeu-se à análise dos episódios vivenciados, organizando-os em eixos temáticos que refletiram os desafios e sucessos da interação clínica: o impacto da qualidade comunicativa nos desfechos, a eficácia de treinamentos em habilidades relacionais, o papel da decisão compartilhada, as implicações do letramento em saúde e o uso de tecnologias como extensão do cuidado. Esta abordagem metodológica permitiu a articulação entre a experiência prática e o embasamento científico, garantindo uma compreensão holística da comunicação como intervenção clínica.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A vivência clínica na Atenção Primária à Saúde (APS) permitiu observar que a qualidade da interação no consultório é o principal determinante para que o paciente incorpore as orientações médicas à sua rotina. As experiências foram categorizadas em eixos temáticos que correlacionam a prática assistencial com a literatura científica.

A Implementação da Tomada de Decisão Compartilhada (TDC)

No cotidiano da unidade, observou-se que pacientes envolvidos ativamente na escolha do seu esquema terapêutico demonstram um engajamento superior no autocuidado. Essa percepção prática encontra respaldo em Akbaba et al. (2025), que apontam a participação do usuário como um preditor de adesão mais robusto do que variáveis isoladas, como o horário da medicação. Todavia, notou-se que em condições crônicas complexas, a decisão compartilhada exige um suporte contínuo da equipe multidisciplinar para não resultar em abandono do tratamento (SALAKAY et al., 2023).

Impacto da Comunicação no Controle de Parâmetros Biológicos

A experiência demonstrou que a clareza informacional e o estabelecimento de um vínculo sólido repercutem diretamente em indicadores de saúde, como o controle da pressão arterial. Notou-se que pacientes que compreendem a função de cada fármaco e as metas de estilo de vida apresentam maior probabilidade de atingir níveis pressóricos adequados. Conforme Liu et al. (2025) e Hair & Sripipatana (2021), a comunicação atua como mediadora desse processo, transformando a informação técnica em adesão prática e mudança comportamental.

Literacia em Saúde e Barreiras Comunicativas

Identificou-se, especialmente no atendimento à população idosa, que o baixo letramento em saúde é um dos obstáculos mais críticos à segurança assistencial. A dificuldade de compreensão de termos técnicos e posologias exige que o médico atue como um facilitador, simplificando o discurso para fomentar a autoeficácia do indivíduo (ZHAO et al., 2022; PERPÉTUO et al., 2025). Observou-se que falhas nesse processo comunicativo podem levar a descrições imprecisas de sintomas, comprometendo a formulação de hipóteses diagnósticas corretas e gerando riscos à segurança do paciente (DEFANTE et al., 2024).

O Papel da Confiança e da Empatia na Aliança Terapêutica

Durante os atendimentos, a percepção de cuidado e a benevolência do profissional foram fundamentais para a continuidade do acompanhamento. Notou-se que a confiança depositada no médico é um fator essencial para a persistência no tratamento, especialmente em sistemas públicos de saúde (HASSAN et al., 2025). Além disso, a aplicação de técnicas de entrevista motivacional e empatia, conforme discutido por Bhatti et al. (2025) e Perche et al. (2023), mostrou-se eficaz para fortalecer o vínculo real e reduzir estigmas que poderiam levar à interrupção do cuidado, como ocorre em casos de transtornos de humor (ALMADANI et al., 2026).

Quadro 1 – Síntese da Experiência Clínica e Fundamentação Teórica sobre Comunicação e Adesão

Eixo da ExperiênciaObservação na Prática (Residência)Embasamento Teórico (Literatura)
Tomada de Decisão Compartilhada (TDC)Observou-se maior engajamento e fidelização ao tratamento quando o paciente participou da escolha da conduta.Akbaba et al. (2025); Salakay et al. (2023).
Aliança TerapêuticaO estabelecimento de um vínculo de confiança facilitou o retorno às consultas e a manutenção do cuidado longitudinal.Perche et al. (2023); Hassan et al. (2025).
Clareza InformacionalA tradução da linguagem técnica para termos acessíveis resultou em melhor controle de parâmetros como pressão e lipídios.Liu et al. (2025); Hair & Sripipatana (2021).
Barreiras de LetramentoA identificação de dificuldades de compreensão em idosos exigiu o uso de técnicas de verificação (ex: teach-back).Perpétuo et al. (2025); Zhao et al. (2022).
Segurança DiagnósticaA escuta ativa permitiu identificar sintomas subjetivos que evitaram falhas na formulação das hipóteses clínicas.Defante et al. (2024).
Suporte em Saúde MentalO vínculo empático foi essencial para mitigar o estigma e garantir a continuidade no uso de psicofármacos.Almadani et al. (2026).
Capacitação em ComunicaçãoA percepção de que o treinamento em entrevista motivacional reduz a resistência à adoção de novos hábitos.Bhatti et al. (2025); Jaeken et al. (2024).

A análise transversal dos dados evidencia que a comunicação médico-paciente não deve ser compreendida apenas como uma dimensão humanística da medicina, mas como uma variável clínica determinante para o desfecho terapêutico. A seguir, os achados são discutidos sob quatro pilares fundamentais.

Impacto quantitativo da qualidade comunicativa nos desfechos clínicos e na adesão ao tratamento

No contexto do monitoramento longitudinal realizado na unidade de saúde, a qualidade da interação dialógica consolidou-se como um determinante proximal e uma variável preditora fundamental do êxito terapêutico. A observação prática evidenciou que a percepção do paciente quanto à inteligibilidade informacional e à alteridade (respeito e acolhimento) durante o ato clínico correlaciona-se a uma probabilidade significativamente superior de estabilização de biomarcadores hemodinâmicos. Tais achados convergem com as proposições de Liu et al. (2025) e Perche et al. (2023), que postulam que a solidez da aliança terapêutica atua como um mecanismo de reforço positivo na persistência ao regime farmacológico e não farmacológico.

A análise da prática cotidiana revelou que a comunicação eficaz transcende o suporte interpessoal, funcionando como um recurso de segurança assistencial. A implementação de protocolos estruturados, com ênfase no framework SEGUE, mostrou-se um instrumento crítico para a mitigação da inércia clínica, fenômeno caracterizado pela falha no início ou na intensificação do tratamento diante de alvos terapêuticos não atingidos.

Ao assegurar que a propedêutica técnica seja integrada às competências de letramento e à realidade psicossocial do usuário, a interação clínica passa a atuar como o eixo primário de operacionalização das diretrizes baseadas em evidências. Em última análise, a comunicação qualificada permite a tradução do rigor científico em resultados clínicos mensuráveis, garantindo que o plano terapêutico seja não apenas prescrito, mas efetivamente executado no cotidiano da Atenção Primária à Saúde (LIU et al., 2025; BHATTI et al., 2025).

A Transição do Modelo Paternalista para a Tomada de Decisão Compartilhada (TDC)

A vivência clínica no âmbito da Atenção Primária permitiu identificar uma dicotomia acentuada na postura dos usuários, revelando que o engajamento não é um fenômeno uniforme, mas sim condicionado pelo perfil de participação estabelecido no encontro clínico. Durante a prática assistencial, observou-se que a transição do modelo paternalista, historicamente caracterizado por uma relação verticalizada e diretiva, para a Tomada de Decisão Compartilhada (TDC) atua como um catalisador da aliança terapêutica. A experiência demonstrou que, ao serem investidos de um papel ativo no processo de deliberação clínica, os pacientes apresentam uma adesão mais robusta e uma fidelização superior ao plano de cuidados. Conforme postulado por Akbaba et al. (2025) e Tian et al. (2024), essa participação ativa transforma a recomendação médica em um acordo mútuo, reduzindo a resistência psicológica e aumentando a autoeficácia do indivíduo.

Contudo, a imersão na realidade da unidade de saúde também expôs a resiliência do modelo tradicional. Notou-se que uma parcela significativa da população assistida ainda manifesta uma preferência pela passividade, delegando ao profissional a totalidade da responsabilidade decisória. Esse comportamento, muitas vezes reflexo de uma cultura assistencial de dependência e de uma baixa percepção de autonomia, representa um desafio à implementação de modelos centrados na pessoa. A literatura reforça que a persistência dessa postura passiva é um obstáculo à gestão de condições crônicas, que exigem, por definição, um manejo cotidiano que foge ao controle exclusivo do médico (AKBABA et al., 2025).

Adicionalmente, a integração sistemática da TDC na rotina da residência revelou barreiras estruturais intrínsecas ao sistema público de saúde. A restrição do tempo de consulta e a pressão por produtividade muitas vezes induzem o profissional a retornar ao modelo diretivo por ser, aparentemente, mais célere. No entanto, conforme defendido por Montori et al. (2023) e Torres-Castaño et al. (2024), a estruturação do diálogo clínico para legitimar a autonomia do usuário não deve ser vista como um consumo de tempo, mas como um investimento na segurança do paciente.

A experiência reforça que a TDC exige que o médico atue como um facilitador da informação, traduzindo evidências científicas para que o paciente possa integrá-las aos seus valores e preferências pessoais. Essa transformação da consulta em um protocolo de corresponsabilização mostrou-se fundamental para a sustentabilidade do cuidado longitudinal, garantindo que o plano terapêutico faça sentido no contexto de vida do paciente e, consequentemente, seja mantido a longo prazo (MONTORI et al., 2023; TORRES-CASTAÑO et al., 2024).

Literacia em Saúde e Mediação da Vulnerabilidade

A imersão no cenário da Atenção Primária permitiu identificar que o baixo letramento em saúde, definido como a capacidade limitada de obter, processar e compreender informações básicas de saúde para a tomada de decisões adequadas, constitui um dos obstáculos mais críticos à segurança assistencial. Durante a prática clínica, observou-se que essa limitação é particularmente prevalente na população idosa e em grupos socialmente vulneráveis, manifestando-se como uma barreira invisível que amplia a vulnerabilidade a erros no manejo posológico e na interpretação de sinais de alerta. Conforme reportado por Perpétuo et al. (2025), o déficit de literacia compromete a navegação do usuário no sistema de saúde, transformando instruções simples em processos cognitivos complexos e muitas vezes incompreendidos.

Sob essa ótica, a experiência clínica revelou que a comunicação eficaz exerce uma função compensatória primordial. Quando o médico ajusta o léxico técnico e utiliza recursos de verificação de compreensão, a interação clínica passa a atuar como um mecanismo de amortecimento que neutraliza as limitações educacionais do indivíduo. Como postulado por Zhao et al. (2022), o diálogo qualificado fomenta a autoeficácia do paciente, permitindo que, mesmo diante de restrições de letramento, ele se sinta apto a gerir sua condição de saúde de forma autônoma e segura.

A vivência prática reforçou, ainda, que a inteligibilidade das informações é o determinante de maior impacto na adesão a intervenções de alta densidade comportamental. Observou-se que, enquanto o manejo farmacológico exige ações rotinizadas, as mudanças no estilo de vida, como a reeducação dietética e a implementação de atividade física, impõem um esforço cognitivo e motivacional contínuo. Nesses casos, a falha comunicativa resulta em uma lacuna entre a recomendação técnica e a execução prática.

Dessa forma, o diálogo clínico torna-se o instrumento indispensável para viabilizar desfechos positivos em populações vulneráveis, pois permite a tradução de metas abstratas em planos de ação concretos e exequíveis (HAIR E SRIPIPATANA, 2021; KATENDE-KYENDA, 2025). A atuação na residência demonstrou que o médico deve assumir o papel de mediador, garantindo que o plano terapêutico seja não apenas transmitido, mas verdadeiramente decodificado e incorporado ao cotidiano do usuário, assegurando a eficácia e a segurança do cuidado longitudinal.

Confiança Interpessoal e Segurança Diagnóstica

A percepção de benevolência e cuidado pelo profissional de saúde foi observada como um pilar central para a adesão em sistemas públicos. A ausência de confiança mútua potencializa riscos assistenciais, uma vez que falhas na transmissão de dados clínicos podem comprometer a precisão do diagnóstico. Notou-se que, quando o paciente não se sente seguro para descrever seus sintomas com clareza, o estabelecimento de hipóteses diagnósticas precisas torna-se mais desafiador (HASSAN et al., 2025; DEFANTE et al., 2024).

No âmbito da saúde mental, a aliança terapêutica estruturada funcionou como um recurso essencial para mitigar o estigma e a vergonha associados ao diagnóstico. O vínculo estabelecido operou como um mecanismo de suporte que assegura a persistência do paciente no regime terapêutico a longo prazo, neutralizando fatores psicossociais negativos que poderiam levar ao abandono do tratamento (ALMADANI et al., 2026).

Implicações para a Gestão e Formação Profissional

Por fim, a vivência na residência sinaliza que a aquisição de competências comunicativas requer a transição para metodologias ativas de aprendizado. A prática de simulações e o treinamento em entrevista motivacional mostraram-se mais eficazes do que o conhecimento teórico isolado para vencer a resistência à adoção de práticas centradas no paciente (BHATTI et al., 2025; JAEKEN et al., 2024).

Observou-se também que, embora ferramentas tecnológicas como o telemonitoramento ofereçam suporte à continuidade do cuidado, sua efetividade é condicionada à robustez dos parâmetros relacionais estabelecidos presencialmente. Assim, a tecnologia deve ser vista como um elemento suplementar à qualidade da interação humana inicial, que permanece como a base do cuidado na Atenção Primária (DE LÚZ JUNIOR et al., 2025; TAVAKOLY SANY et al., 2020).

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência clínica vivenciada durante o Programa de Residência Médica permitiu concluir que a comunicação médico-paciente na Atenção Primária à Saúde transcende a esfera da competência interpessoal, configurando-se como uma variável clínica determinante para a adesão terapêutica. As observações práticas, corroboradas pela literatura, demonstram que a qualidade da interação no consultório é uma variável preditora fundamental de desfechos biológicos, com impacto direto na estabilização de patologias crônicas. A percepção da força da aliança terapêutica reitera que o sucesso do plano farmacológico é condicionado à solidez do vínculo estabelecido, transformando a relação clínica em um instrumento de eficácia terapêutica (PERCHE, SOUZA & RODRIGUES, 2023; LIU et al., 2025).

As vivências no cotidiano assistencial evidenciam que a transição do modelo paternalista para a Tomada de Decisão Compartilhada (TDC) é o mecanismo de maior impacto para o engajamento do usuário. Observou-se que a legitimação da autonomia do paciente atua como um fator de proteção robusto contra o abandono do tratamento. Todavia, a persistência de uma postura passiva por parte dos usuários indica que a implementação da TDC na APS ainda enfrenta barreiras culturais e estruturais profundas, o que exige do médico residente uma postura proativa e estratégica na facilitação do diálogo clínico para superar a inércia assistencial (MONTORI et al., 2023; AKBABA, DIRIK & MERT, 2025).

Identificou-se, ainda, que a comunicação qualificada desempenha uma função compensatória crítica diante da vulnerabilidade social e do baixo letramento em saúde, comumente observado na população idosa assistida. Em cenários de compreensão limitada, a clareza informacional e o uso de frameworks estruturados, como o SEGUE, funcionam como ferramentas essenciais de segurança do paciente. A mitigação de falhas comunicativas revelou-se indispensável para evitar o ciclo de imprecisões diagnósticas decorrentes de lacunas na anamnese e na descrição subjetiva de sintomas (ZHAO et al., 2022; DEFANTE et al., 2024; PERPÉTUO et al., 2025).

Por fim, esta experiência sinaliza que a melhoria da adesão na APS requer investimentos contínuos na formação profissional através de metodologias ativas que elevem a autoeficácia comunicativa dos médicos. Embora o suporte tecnológico seja um aliado crescente, a eficácia do cuidado longitudinal permanece intrinsecamente dependente da qualidade da interação humana estabelecida presencialmente. Conclui-se que a comunicação médico-paciente deve ser institucionalizada como uma intervenção clínica de alta densidade, sendo um pilar indispensável para a sustentabilidade do sistema de saúde e para a obtenção de indicadores de excelência na saúde populacional (TORRES-CASTAÑO et al., 2024; BHATTI et al., 2025; DE LUZ JÚNIOR et al., 2025).

REFERÊNCIAS

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BHATTI, N. et al. A prospective study on the impact of the communication skills module on medication adherence: healing through dialogue. Cureus, v. 17, n. 2, e397176, 2025.

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1 Discente do Programa de Pós-Graduação em Residência Médica da Universidade Evangélica de Goiás-UniEVANGÉLICA. e-mail: dra.luanamendonca.sf@gmail.com
2 Docente do Programa de Pós-Graduação em Residência Médica da Universidade Evangélica de Goiás-UniEVANGÉLICA.