CISTOTOMIA EM PACIENTE CANINO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511302157


Henrico Ferreira Ferrari Filho1; Roberto Filho Bessa Dias2; Julia Marcela Vasconcelos de Moraes Vilela3; Eloisa Schroeder Medina4; Mariana Paz Rodrigues Dias5; Diego Silva Lima6; Tales Dias do Prado7


RESUMO

A urolitíase é uma enfermidade frequente em cães, especialmente quando associada à formação de cálculos de estruvita e oxalato de cálcio. Alterações do pH urinário, tempo de permanência da urina na bexiga, fatores raciais, dieta e ingestão hídrica influenciam o desenvolvimento da doença. A cistotomia constitui a principal intervenção cirúrgica para a remoção de cálculos, sobretudo quando não há possibilidade de dissolução dietética, quando ocorrem obstruções ou quando o manejo clínico não apresenta resposta satisfatória. O diagnóstico inclui avaliação clínica detalhada, urinálise, urocultura e métodos de imagem como radiografia e ultrassonografia. Após a confirmação do quadro, o planejamento pré-operatório deve priorizar estabilização hemodinâmica, correção de distúrbios metabólicos e escolha anestésica adequada. O tratamento cirúrgico envolve a retirada completa dos urólitos, irrigação vesical e escolha criteriosa do material de sutura, visando reduzir recidivas. O pós-operatório inclui analgesia, controle de infecções e monitorização periódica, fundamentais para um prognóstico favorável. O relato de caso demonstra a aplicação prática desses princípios, com evolução satisfatória após cistotomia, controle clínico e ajustes dietéticos.

Palavras chave: Cães; Cálculos urinários; Cistotomia; Urolitíase; Urologia veterinária.

ABSTRACT

Urolithiasis is a common condition in dogs, particularly involving struvite and calcium oxalate stones. Urinary pH alterations, urine retention time in the bladder, breed predisposition, diet and water intake contribute to crystal formation. Cystotomy is the main surgical procedure indicated when dietary dissolution is not feasible, in cases of urinary obstruction or when clinical management is ineffective. Diagnosis requires clinical evaluation, urinalysis, urine culture and imaging techniques such as radiography and ultrasonography. Once urolithiasis is confirmed, preoperative planning must prioritize hemodynamic stabilization, correction of metabolic disturbances and careful anesthetic selection. Surgical treatment involves complete removal of uroliths, bladder irrigation and appropriate suture material to minimize recurrence. Postoperative management includes analgesia, infection control and periodic monitoring, which are essential for a favorable prognosis. The case report illustrates the successful application of these principles, showing satisfactory recovery after cystotomy, clinical monitoring and dietary adjustments.

KEYWORDS: Cystotomy; Dogs; Urinary stones; Urolithiasis; Veterinary urology.

REVISÃO LITERÁRIA 

A bexiga é um dos principais locais para formação de cálculos renais em cães, tendo com maior frequência a composição de estruvita e oxalato de cálcio (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). As alterações do pH urinário junto do tempo de permanência da urina na bexiga são os fatores que contribuem para a formação dos cristais (NELSON e COUTO, 2015). Fatores como: raça, dieta e ingestão hídrica demarcam a predisposição à urolitíase (TAKAHIRA, 2017). A presença de cálculos vesicais está entre os principais fatores de cirurgia em animais de pequeno porte (FOSSUM, 2018).

Contexto clínico e indicações 

A cistotomia é o processo cirúrgico recomendado quando os cálculos não podem se dissolver através de dietas ou quando se encontram em grandes quantidades (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). Nos casos de obstrução urinaria ou quando tem uma composição mineral a qual é incerta, a intervenção cirúrgica é recomendada (OLIVEIRA, 2013). A presença de dor intensa ou falha no manejo clínico pode ser um motivo para antecipação da cirurgia (FOSSUM, 2018). Infecções urinarias com grande recorrência associadas a cálculos são outro fator determinante para a escolha da intervenção cirúrgica (TAKAHIRA, 2017)

Planejamento pré-operatório 

A avaliação clínica deve conter: uma boa anamnese associada ao exame físico, urinalise e urocultura obtida por cistocentese (CARVALHO, 2014). Exames de radiografia simples, contraste duplo e ultrassonografia permitem visualizar e avaliar número e localidade dos cálculos (OLIVEIRA, 2013). Em casos em que ocorra obstrução, deve-se estabilizar o paciente para que seja realizado o procedimento cirúrgico (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). Animais que apresentam azotemia devem passar por uma correção prévia para reduzir riscos anestésicos (FOSSUM, 2018).

Sinais Clínicos 

A urolitáse em cães se manifesta de formas variadas, contudo os sinais clínicos incluem: disúria, estranguria e tenesmo vesical, caracterizados pela micção dolorosa, prolongada e com esforço, muito dos casos sem que ocorra liberação da urina ou libere uma quantia mínima acompanhada da dor evidente. Além destes sinais, à observação de hematúria, frequentemente relatada pelos tutores, podendo ser discreta ou intensa variando de acordo com o grau de inflamação e lesão da mucosa vesical. A polaquiúria é outro achado comum, no qual o animal elimina pequenas quantias de urina diversas vezes ao dia, confundindo-se por vez com poliúria, exigindo anamnese detalhada para diferenciação (CARVALHO, 2014). 

Em casos graves, pode-se visualizar a ocorrência de anúria total, sinalizando obstrução completa da uretra ou colo vesical. Nessas situações tem risco iminente de ruptura da bexiga, configurando uma emergência clínica (NELSON e COUTO, 2015). Outros sinais inespecíficos, como: dor abdominal, letargia e anorexia, podem acompanhar o caso principalmente, quando a obstrução evolui para retenção urinaria e azotemia (FOSSUM, 2018). 

Casos clínicos relatados em rotina apontam que cães com urolitéase podem apresentar-se assintomáticos, especialmente, quando os cálculos são pequenos e não obstrutivos, tendo o diagnóstico sido feito incidentalmente com utilização de exames de imagem (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). Também é importante destacar que doenças concomitantes, como infecções urinarias bacterianas, podem intensificar os sinais clínicos, levando a hematúria mais evidente, dor abdominal elevada e ao espessamento da parede vesical (TAKAHIRA, 2017)  

Diagnóstico 

O diagnóstico da urolitíase em cães requer a associação de exames clínicos, laboratoriais e de imagem. A urinálise constitui uma ferramenta importante, permitindo identificar alterações como: hematúria, leucocitúria, bacteriúria e presença de células descamativas. Entretanto, a detecção de cristais não é necessariamente indicativa da presença de cálculos vesicais, uma vez que estes podem estar ausentes ou não corresponder ao tipo real de urólito (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015).

A realização da urinálise é recomendada mesmo em casos de obstrução já confirmada, com o objetivo de identificar fatores predisponentes ou doenças associadas (CARVALHO, 2014). Os exames de imagem desempenham papel fundamental nesse contexto. Radiografias simples permitem a visualização de cálculos radiopacos, como os de oxalato de cálcio, estruvita e sílica. Por outro lado, cálculos de urato, cistina e xantina, por serem radiolucentes, exigem métodos complementares, como a urocistografia retrógrada, com duplo contraste ou a ultrassonografia (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015).

Na ultrassonografia, os cálculos são identificados como estruturas hiperecogênicas, com sombra acústica posterior, sendo este é um método sensível, inclusive para urólitos de pequenas dimensões (CARVALHO, 2014). A palpação da bexiga e da uretra também pode auxiliar no diagnóstico, revelando espessamento da parede ou resistência durante a cateterização. Em alguns casos, é descrita a sensação de “raspar em areia”, associada à presença de cálculos uretrais (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015).

Exames complementares, como a urocultura, fornecem subsídios para o direcionamento do tratamento antimicrobiano em situações de infecção associada (CARVALHO, 2014). Em casos de obstrução, a avaliação hematológica e bioquímica pode evidenciar azotemia ou alterações eletrolíticas secundárias (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). Segundo FOSSUM (2018) e NELSON e COUTO (2015), nenhum exame isolado deve ser utilizado como ferramenta diagnóstica definitiva, sendo indispensável a integração entre: dados clínicos, laboratoriais e de imagem, para a confirmação do diagnóstico.

Tipos de cálculos 

Segundo FOSSUM (2018), os cálculos urinários em cães apresentam diferentes composições minerais, sendo os mais comuns: os de estruvita, geralmente associados a infecções bacterianas do trato urinário, e os de oxalato de cálcio, que não podem ser dissolvidos por meio de terapias dietéticas. Com menor frequência, são relatados urólitos de urato, cistina e outros menos comuns.

De acordo com NELSON e COUTO (2015), a estruvita é a forma mais diagnosticada em cadelas, devido à maior incidência de infecções urinárias bacterianas ascendentes. Já os urólitos de oxalato de cálcio ocorrem com maior frequência em machos de meia-idade a idosos e apresentam elevada taxa de recidiva. Os urólitos de urato estão associados a distúrbios no metabolismo da purina.

Segundo TAKAHIRA (2017), além da estruvita e do oxalato de cálcio, existem outras formas de cálculos, como: fosfato de cálcio, silicato e cistina, menos frequentes por estarem relacionados a predisposições raciais específicas. Tipos mais raros, como os de fosfato de cálcio, são descritos em cães com hipercalcemia ou hiperparatireoidismo (primário ou secundário), sendo comumente radiopacos e associados a distúrbios endócrinos (NELSON e COUTO, 2015).

Conforme TAKAHIRA (2017), os cálculos de xantina são radiolucentes e de difícil controle, podendo ocorrer por herança genética ou como consequência do uso inadequado de alopurinol, especialmente quando não acompanhado de dietas pobres em purinas.

De acordo com PATRÍCIO (2021), os urólitos de oxalato de cálcio apresentam grande importância clínica, por não responderem à dissolução medicamentosa ou dietética, exigindo, na maioria dos casos, intervenção cirúrgica, como a cistotomia.

Tratamento cirúrgico 

A dissolução dietética é indicada em casos de cálculos de estruvita, principalmente quando associados a infecções urinárias. As dietas acidificantes reduzem o pH urinário, promovendo a dissolução progressiva dos urólitos (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). Durante esse processo, é indispensável o acompanhamento clínico frequente do paciente, devido ao risco de obstrução uretral, especialmente em machos, quando os cálculos diminuem de tamanho e migram para a uretra (NELSON e COUTO, 2015).

A associação de antibióticos guiados por urocultura é obrigatória nos casos de cálculos de estruvita, uma vez que sua formação está diretamente relacionada a infecções bacterianas. Para outros tipos de cálculos, o uso de antibióticos não é obrigatório, mas pode ser indicado conforme a avaliação clínica (TAKAHIRA, 2017).

Nos casos de cálculos de oxalato de cálcio, não existem protocolos dietéticos eficazes para dissolução, pois esses urólitos são insolúveis, sendo a remoção cirúrgica a única alternativa terapêutica (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015). A cistotomia ventral é a técnica cirúrgica mais utilizada, por proporcionar amplo acesso à luz vesical e facilitar a retirada completa dos urólitos. A incisão ventral é preferencial, pois reduz o risco de lesões às estruturas dorsais (OLIVEIRA, 2013).

Após a remoção, recomenda-se irrigar abundantemente a bexiga com solução estéril aquecida, com o propósito de eliminar fragmentos residuais que possam predispor à recidiva. O fechamento da bexiga deve ser realizado em dois planos: o primeiro em padrão simples contínuo e o segundo em padrão invaginante, utilizando preferencialmente fios absorvíveis monofilamentares (FOSSUM, 2018).

Além da cistotomia, em alguns casos, técnicas minimamente invasivas, como a urohidropropulsão retrógrada, litotripsia intracorpórea e cistoscopia, são aplicadas em centros cirúrgicos especializados. Essas alternativas são indicadas para cálculos de pequeno diâmetro (menores que 7 mm) e localizados na uretra proximal (CRIVELLENTI e CRIVELLENTI, 2015).

Independentemente do método adotado, a prevenção de recidivas deve ser priorizada. A ingestão hídrica deve ser estimulada e dietas específicas devem ser instituídas de acordo com o tipo de cálculo removido (NELSON e COUTO, 2015).

A monitorização periódica, por meio de urinálise e exames de imagem, é essencial para a detecção precoce de recidivas, considerando que muitos cães podem desenvolver novos cálculos meses ou anos após o tratamento inicial (TAKAHIRA, 2017).

Cistotomia

De acordo com FOSSUM (2018), a cistotomia é o procedimento mais utilizado para a remoção de cálculos vesicais, por proporcionar acesso direto à bexiga e permitir a retirada completa dos urólitos.

NELSON e COUTO (2015), indicam que os cuidados do pré-operatório, em cães submetidos a cistotomia são fundamentais para redução de: riscos anestésicos, complicações cirúrgicas e recidivas. Afirmam que a preparação adequada inclui uma avaliação clínica completa, exames laboratoriais e estabilização hemodinâmica do paciente.

Nos relatos clínicos descritos por SANTOS (2022), a estabilização prévia do paciente foi fator decisivo para o sucesso da cirurgia, garantido uma remoção da obstrução de forma segura. A urinálise e urocultura são realizadas de forma prévia para identificação de infecções bacterianas que podem estar associadas a formação dos cálculos e orientar na escolha de um antibiótico profilático. Além disso, o planejamento anestésico deve considerar a escolha de fármacos que minimizem a depressão cardiovascular e renal, especialmente em pacientes com comprometimentos pré-existentes (TAKAHIRA, 2017).

Conforme FOSSUM (2018), a cistotomia deve ser realizada por meio de uma incisão ventral na bexiga, permitindo melhor acesso ao órgão e reduzindo o risco de lesões em estruturas adjacentes. Recomenda-se que a bexiga seja exteriorizada e protegida com compressas estéreis umedecidas, além da aplicação de suturas de arrimo no ápice vesical para facilitar sua manipulação. A incisão deve ser longitudinal, em uma região relativamente avascular, e a remoção dos cálculos deve ser seguida de irrigação abundante da bexiga. O fechamento deve ser realizado em dois planos, utilizando sutura simples contínua, seguida de padrão invaginante, preferencialmente com fios absorvíveis monofilamentares. Em outro relato clínico, OLIVEIRA (2013) descreve a infusão de solução estéril na bexiga antes do fechamento como método de verificação da vedação da sutura, a fim de prevenir extravasamentos.

De acordo com OLIVEIRA (2013), a manipulação da bexiga deve ser realizada com cuidado, utilizando suturas de arrimo no ápice vesical para facilitar a exposição do órgão. A incisão vesical deve respeitar áreas avasculares, sendo longitudinal e ventral. Após a retirada dos cálculos, recomenda-se irrigação com solução de Ringer morna, associada à inspeção visual e palpação da mucosa vesical.

TAKAHIRA (2017) acrescentam que, após a remoção dos cálculos, o material deve ser enviado para análise laboratorial quantitativa, sendo a irrigação abundante indispensável para eliminar fragmentos microscópicos. Os autores ainda reforçam que a cistorrafia em dois planos reduz significativamente o risco de extravasamento, devendo sempre ser testada antes do término do procedimento.

OLIVEIRA (2013), também ressalta que a técnica cirúrgica deve priorizar a proteção da bexiga e a redução de traumas iatrogênicos, destacando o uso de compressas estéreis para evitar ressecamento e da cateterização uretral normógrada, que garante a desobstrução completa da uretra. A escolha adequada do material de sutura é fundamental, uma vez que urólitos podem se formar aderidos a fios não absorvíveis, como o polipropileno, utilizados em cirurgias anteriores, favorecendo a recidiva (PATRÍCIO, 2021).

No relato clínico descrito por PATRÍCIO (2021), observou-se que, o uso de fio não absorvível em cistotomia resultou na formação de urólitos aderidos à sutura, evidenciando a importância da seleção adequada do material cirúrgico.

NELSON e COUTO (2015) ressaltam que, embora a cistotomia seja uma técnica amplamente utilizada e consolidada, ainda podem ocorrer complicações pós-operatórias, como: recidivas por fragmentos residuais, formação de cálculos em torno de fios cirúrgicos e deiscência de sutura. A adoção de materiais adequados, a lavagem rigorosa da bexiga e a execução meticulosa das suturas são medidas indispensáveis para minimizar esses riscos (TAKAHIRA, 2017).

Pós-operatório 

De acordo com TAKAHIRA (2017), os cuidados pós-operatórios têm de ser direcionados para uma recuperação imediata quanto para a prevenção de recidivas. Recomenda-se a introdução prévia de dietas específicas para dissolução ou manutenção, incentivando o consumo de água e o controle de infecções urinarias. Deve-se acompanhar com: análises de urinálises seriadas, radiografias ou ultrassonografias periódicas.

OLIVEIRA et al. (2022), destaca o acompanhamento pós-operatório imediato com exames de imagem para confirmar a ausência de fragmentos residuais, diminuindo a chance de recidivas precoces.

Por fim, CRIVELLENTI e CRIVELLENTI (2015), ressaltam que o acompanhamento do pós-operatório deve incluir: analgesia, antibioticoterapia quando necessária e reavaliações periódicas. Ressaltando que recidivas é um dos grandes desafios no tratamento de urolitíase, os quais exigem acompanhamento contínuo.

Prognóstico  

OYAFUSO (2008), analisou 151 urólitos de cães e documentou recidivas, mostrando que o comportamento de retorno é influenciado pelo tipo de mineral e o manejo pós-operatório. OLIVEIRA et al. (2022), destacou que, o monitoramento pós-operatório imediato associado com exames de imagem permitiu confirmar ausência de fragmentos residuais, contribuindo a um prognóstico favorável. 

PEREIRA (2025), relatou uma taxa de 48-57% de recidiva em casos de cálculos de oxalato de cálcio em um período de até três anos após a retirada, mostrando que mesmo sendo uma cirurgia efetiva, o prognóstico a longo prazo é ligado a uma manutenção contínua. 

PASSOS et al. (2024) e SANTOS (2025), documentam em trabalhos que a associação entre cistotomia adequada, acompanhada por imagem, controle de infecções urinarias e dieta calculolitica permite restabelecer um prognóstico favorável.

RELATO DE CASO 

Uma cadela, sem raça definida, cinco anos de idade e pesando 8,3 kg, deu entrada no serviço de atendimento no dia 16 de agosto de 2025. A tutora relatou que o animal apresentava urina escurecida com presença de sangue (Figura 1). Referiu também apatia, apesar da ingestão habitual de alimentos e água, além de dificuldade para urinar.

Durante a anamnese, não se observaram alterações nos parâmetros clínicos avaliados. A paciente apresentava temperatura corporal de 38°C, tempo de preenchimento capilar dentro da normalidade, frequência cardíaca de 130 batimentos por minuto e frequência respiratória de 26 movimentos por minuto.

FIGURA 1 – Coloração da urina da paciente canina.

A paciente foi submetida ao exame ultrassonográfico de abdômen total. Observou-se vesícula urinária com repleção líquida adequada e formato habitual. A parede vesical encontrava-se difusamente espessada, com ecogenicidade mista, medindo 0,67 cm de espessura, e apresentava margens internas regulares. O lúmen continha material anecoico, no qual se identificaram formações calculosas depositadas, caracterizadas por intensa sombra acústica posterior, medindo 2,67 cm (Figura 2).

FIGURA 2 – Ultrassonografia da vesícula urinaria com formações calculosas depositadas formadoras de sombra acústica.

O rim esquerdo apresentava formato normal, topografia habitual e dimensões simétricas, medindo 4,61 cm de comprimento em plano dorsal. A arquitetura renal mostrava-se preservada, com adequada relação córtico-medular. Observou-se córtex com ecotextura e ecogenicidade aumentadas, sem evidências ultrassonográficas de hidronefrose ou de formações calculosas.

Procedeu-se à coleta de material para exames hematológicos e bioquímicos. A análise hematológica demonstrou série vermelha com contagem dentro da normalidade, porém com presença de hemácias microcíticas hipocrômicas, policromasia e anisocitose. Os exames bioquímicos revelaram valores dentro dos padrões fisiológicos para alanina aminotransferase (ALT/TGP), aspartato aminotransferase (AST/TGO), ureia e creatinina, não sendo identificadas alterações significativas.

Com base nos achados ultrassonográficos, laboratoriais e na avaliação clínica, estabeleceu-se o diagnóstico de cálculo vesical. Diante desse quadro, indicou-se a intervenção cirúrgica, com o agendamento da cistotomia para o dia 18 de agosto de 2025.

O tratamento definido consistiu na realização de ovariohisterectomia seguida de cistotomia, visando à remoção do cálculo, desobstrução do trato urinário e alívio da dor, com consequente melhora do conforto e da qualidade de vida da paciente.

Para a execução do procedimento, adotou-se protocolo anestésico composto por medicação pré-anestésica administrada por via intramuscular, utilizando metadona (0,3 mg/kg) associada à acepromazina (0,02 mg/kg). A indução anestésica ocorreu por via intravenosa com cetamina (1 mg/kg) e propofol (4 mg/kg). Após obtenção de plano anestésico adequado, realizou-se a intubação orotraqueal com sonda nº 5,5, mantendo-se a anestesia por meio de isofluorano inalatório durante todo o ato operatório.

O procedimento cirúrgico iniciou com tricotomia ampla e antissepsia da região operatória. Em seguida, realizou-se incisão cutânea, seguida pela divulsão do tecido subcutâneo e abertura da cavidade abdominal. Após inspeção sistemática do abdômen, expuseram-se o útero e os ovários. Com a adequada visualização dos pedículos ovarianos, aplicou-se ligadura no pedículo, seguida de pinçamento proximal e colocação de segunda ligadura, realizando-se a secção entre os nós. O mesmo procedimento foi executado no ovário contralateral. Posteriormente, procedeu-se ao seguimento dos cornos uterinos até o corpo uterino, onde se aplicou pinça hemostática, realizou-se ligadura transfixante associada à circunferencial e, por fim, a secção entre as ligaduras cranial e distal.

Após a realização da ovariohisterectomia, procedeu-se à cistotomia. Inicialmente, expôs-se a bexiga e aplicou-se uma sutura de arrimo com fio absorvível em cada extremidade do local destinado à incisão (Figura 3). A incisão vesical foi executada entre os pontos de ancoragem, permitindo acesso direto à cavidade urinária.

Com a abertura da bexiga, realizou-se a mobilização e a remoção do cálculo (Figura 4), seguida da lavagem abundante da bexiga com solução estéril, a fim de eliminar possíveis fragmentos residuais. Após a extração do cálculo, procedeu-se ao tamponamento com compressa estéril e, posteriormente, à cistorrafia por meio de sutura em padrão Cushing sobreposto (Cushing sobre Cushing). Finalizada essa etapa, realizou-se a omentalização com fio poliglecaprone 3-0, com o objetivo de reduzir o risco de aderências vesicais a estruturas adjacentes.

O fechamento das camadas abdominais ocorreu de forma sequencial. A musculatura foi suturada com fio absorvível 2-0, adotando padrão festonado e acrescida de dois pontos de reparo como medida adicional de segurança. A sutura intradérmica foi realizada com fio poliglecaprone 3-0, visando à redução do espaço morto (Figura 14). Por fim, a pele foi fechada em padrão Wolf, utilizando fio nylon 3-0 (Figura 15). O cálculo removido foi higienizado e encaminhado para análise laboratorial.

FIGURA 3 – Exposição da bexiga e posicionamento do ponto de ancoragem.
FIGURA 4 – Cálculo retirado medindo 2,67cm.

Após o procedimento cirúrgico, a paciente recebeu terapia medicamentosa composta por ceftriaxona (50 mg/kg), dipirona (25 mg/kg), meloxicam 0,2% (0,1 mg/kg) e tramadol (5 mg/kg). Observou-se recuperação adequada, com evolução progressiva ao longo do período pós-operatório. O prognóstico foi considerado favorável, com expectativa de melhora significativa na qualidade de vida.

A análise do cálculo urinário, realizada em 19 de agosto de 2025, por meio de método colorimétrico e físico-químico, revelou composição formada por carbonato de cálcio, oxalato de cálcio, fosfato de amônio magnesiano e fosfato de cálcio.

A alta médica foi concedida em 19 de agosto de 2025, acompanhada de prescrição medicamentosa para administração oral domiciliar. O protocolo terapêutico incluiu: amoxicilina tri-hidratada associada ao clavulanato de potássio (300 mg/kg) a cada 12 horas durante 10 dias; meloxicam (0,5 mg/kg) por 5 dias; dipirona (25 mg/kg), nove gotas a cada 8 horas por 5 dias; e extrato de arando associado a betaglucanas, um comprimido ao dia por 30 dias.

Adicionalmente, recomendou-se o uso tópico de rifamicina SV sódica, aplicada com uma borrifada a cada 12 horas sobre a ferida cirúrgica, além da manutenção de roupa cirúrgica até o momento da retirada dos pontos. Orientou-se a limpeza da ferida com gaze estéril e solução fisiológica a cada 12 horas, bem como a oferta de dieta com maior teor hídrico, disponibilidade contínua de água fresca e utilização de ração específica para pacientes com afecções urinárias. Indicou-se, ainda, monitoração periódica por meio de urinálise, com avaliação de densidade urinária, pH e pesquisa de cristais.

Considerou-se prognóstico favorável para cálculo único removido cirurgicamente por cistotomia, desde que associado ao aumento da ingestão hídrica, à adoção de dieta específica e ao acompanhamento clínico constante.

Em 29 de agosto de 2025, a paciente retornou para retirada dos pontos, apresentando evolução clínica satisfatória, com cicatrização adequada e completa recuperação dos tecidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

As condutas diagnósticas e terapêuticas empregadas neste caso evidenciaram a importância da abordagem integrada para o manejo de pacientes com doença do trato urinário inferior, especialmente na presença de cálculo vesical de grandes dimensões. A combinação de avaliação clínica completa, exames laboratoriais e ultrassonográficos permitiu a definição precisa do diagnóstico e a indicação cirúrgica adequada. A realização de ovariohisterectomia associada à cistotomia mostrou-se eficaz na remoção do cálculo e na resolução do quadro obstrutivo, favorecendo a recuperação da paciente. O acompanhamento pós-operatório, aliado ao uso de dieta específica, estratégias para aumento da ingestão hídrica e monitoramento regular por urinálise, reforçou a relevância das medidas preventivas no controle da urolitíase. A evolução clínica favorável e a restauração da qualidade de vida após a intervenção confirmam a efetividade do protocolo adotado e destacam a necessidade de vigilância contínua para minimizar recidivas e promover o bem-estar do animal.

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1Acadêmico de medicina veterinária UniRV – autor principal
2Acadêmico de medicina veterinária UniRV
3Acadêmica de medicina veterinária UniRV
4Acadêmica de medicina veterinária UniRV
5Profa. Dr. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV – Médico Veterinário
6Médico Veterinário
7Prof. Dr. Titular da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV – Orientador