REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602051355
Vinicius Mota dos Santos1
Antônio Henrique Braitt2
RESUMO
Tendo em vista que as células-tronco tem despertado interesse em diversas áreas no meio científico devido à sua alta capacidade de diferenciação, é importante levar em consideração a aplicabilidade na odontologia, um estudo mais profundo das células tronco retiradas da polpa dental assevera novas descobertas no meio acadêmico em benefício da sociedade, visto que, com o aprimoramento do dado estudo novas propostas de tratamento poderão ser disponibilizadas, por esse motivo, pesquisa-se sobre células-tronco na odontologia e a efetividade do uso de células-tronco da polpa dental de dentes permanentes, a fim de Identificar a eficácia das células-tronco retiradas da polpa dental, na diferenciação e regeneração de tecidos do órgão dental. Para tanto, é necessário compreender o potencial de diferenciação das células-tronco, conhecer a capacidade da polpa dentária em produzir outros tecidos, e demostrar a importância da bioengenharia na odontologia para o tratamento de lesões entre outras aplicações. Realiza-se, então, uma pesquisa de revisão bibliográfica sistemática, com abordagem qualitativa, sendo utilizadas as seguintes bases de dados como instrumento de coleta: Pubmed, Lilacs e Scielo, Europe pmc. Critérios de inclusão para esta pesquisa serão: publicações dos últimos vinte anos, no idioma português, inglês e espanhol, caracterizadas como: estudos de casos, estudos de campo; contudo livros dos últimos cinco anos serão utilizados também. Como critério de inclusão serão adicionados aqueles que tratarem sobre a efetividade do uso de células tronco na odontologia. Diante disso, verifica-se que as células-tronco são capazes de diferenciar-se em vários tipos de tecido, e as retiradas da polpa dental tem alto grau regenerativo e proliferativo quando manipuladas em ambiente previamente preparado, e há diversas alternativas de tratamento que o aprimoramento das técnicas na produção de dentina, esmalte e polpa trará a partir das células-tronco da polpa dental, o que impõe a constatação de que as células-tronco retiradas da polpa dental tem capacidade de diferenciação e regeneração tecidual quando preparadas com a matriz e os fatores de crescimento fundamentais.
Palavras-chave: Célula-tronco; Bioengenharia; Odontologia; Regeneração; Tecidual.
ABSTRACT
Given that stem cells have aroused interest in several areas in the scientific environment due to their high capacity for differentiation, it is important to take into account the applicability in dentistry, a deeper study of stem cells taken from the dental pulp asserts new discoveries in the academic environment for the benefit of society, since, with the improvement of the given study, new treatment proposals may be made available, for this reason, research on stem cells in dentistry: effectiveness of the use of stem cells of the dental pulp of permanent teeth, in order to identify the efficacy of stem cells taken from the dental pulp, in the differentiation and regeneration of tissues of the dental organ. Therefore, it is necessary to understand the potential for differentiation of stem cells, to know the capacity of the dental pulp to produce other tissues, and to show the importance of bioengineering in dentistry for the treatment of lesions among other applications. A systematic literature review research is carried out, with a qualitative approach, using the following databases as a collection instrument: Pubmed, Lilacs and Scielo, Europe pmc. Inclusion criteria for this research will be: publications from the last twenty years, in the Portuguese language, English and Spanish, characterized as: case studies, field studies; however, books from the last five years will be used as well. As inclusion criteria, those who deal with the effectiveness of the use of stem cells in dentistry will be added. Therefore, it is verified that stem cells are able to differentiate into various types of tissue, and dental pulp removals have a high regenerative and proliferative degree when manipulated in a previously prepared environment, and there are several treatment alternatives that improve techniques in the production of dentin, enamel and pulp will bring, from the stem cells of the dental pulp, which imposes the finding that stem cells removed from the dental pulp have capacity for tissue differentiation and regeneration when prepared with the matrix and fundamental growth factors
Keywords: Célula-tronco; Bioengenharia; Odontologia; Regeneração; Tecidual.
INTRODUÇÃO
As células tronco são conhecidas pelo seu alto potencial de diferenciação em outros tipos de tecidos. Os estudos sobre este tipo de célula se intensificaram quando em 1998 biólogos da universidade Wisconsin nos Estados Unidos, em laboratório, conseguiram desenvolver a primeira amostra de células-tronco extraídas de um embrião humano. Desde então houveram pesquisas em diversas áreas envolvendo este tipo de célula, inclusive na odontologia, visto que na polpa dental é possível ser encontrado células tronco multipotentes, com alto potencial proliferativo.
Julgou-se pertinente perguntar se as células-tronco retiradas da polpa dental têm eficácia na regeneração tecidual. Sendo assim, o objetivo geral da seguinte pesquisa é identificar a eficácia de células-tronco retiradas da polpa dental de dentes permanentes, na diferenciação e regeneração de tecidos do órgão dental.
Para tanto, houve a necessidade de delinear os seguintes objetivos específicos: Compreender o potencial de diferenciação das células-tronco; conhecer a capacidade da polpa dentária na produção de outros tecidos; demostrar a importância da bioengenharia na odontologia para o tratamento de lesões entre outras aplicações.
Parte-se da hipótese que, com o aprimoramento do estudo do uso das células tronco retiradas da polpa dental novas propostas de tratamento poderão ser disponibilizadas para a população, visando trazer de volta funcionalidade e estética ao paciente, trazendo novas perspectivas e resolutividade em doenças, anomalias dentarias e gengivais, bem como nova formação de dentina e esmalte.
Este trabalho trata de uma revisão bibliográfica sistemática, com abordagem qualitativa. Serão utilizadas nesse trabalho as seguintes bases de dados como instrumento de coleta: Pubmed, Lilacs, Scielo, Europe pmc.
Nas bases de dados eleitas serão utilizadas as seguintes palavras chave: “CÉLULA”, “POLPA”, “DENTE”, “TRONCO”, “BIOENGENHARIA”. Critérios de inclusão para esta pesquisa serão: publicações dos últimos vinte anos, no idioma português, inglês e espanhol, caracterizadas como: estudos de casos, estudos de campo; contudo livros dos últimos cinco anos serão utilizados também. Como critério de inclusão serão adicionados aqueles que tratarem sobre a efetividade do uso de células-tronco na odontologia.
CÉLULAS-TRONCO
Para compreensão do potencial de auto renovação e diferenciação de uma célula-tronco, antes, é preciso saber do que se trata uma célula-tronco, como se origina e onde se encontram no corpo humano.
Desde o ano de 1998 as células-tronco tem sido estudadas e tem despertado o interesse no meio cientifico, um dos percussores de dados estudos foi o biólogo James Thomson, que define as células-tronco como células indiferenciadas capaz de se diferenciar em outros tipos de célula, exemplo, células musculares, neurônios e todos os outros 220 tipos de células existentes no corpo humano. Além da capacidade de auto renovação dando origem a outras células tronco (PIVETTA, 2005).
O zigoto é a célula primária ou percussora, originada logo no processo de fertilização do espermatozoide com o ovulo, sendo a célula progenitora que dará origem a todos os tipos de célula do corpo humano, o zigoto começará o processo de divisão por mitose para posterior atividade de diferenciação (ZATZ, 2004).
CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS E ADULTAS
Weissman (2000) classifica as células-tronco em dois grupos: embrionárias e adultas. Sendo as embrionárias originalizadas da seguinte forma: O zigoto, célula progenitora começa a multiplicar-se, formando um conjunto de células idênticas. Esse agrupamento de células em formato ovoide é conhecido como blastocisto.
As células externas do blastocisto são os trofoblastos que darão origem a placenta, e as células internas são os embrioblastos que darão origem ao embrião.
Estes embrioblastos são as células-tronco embrionárias, tendo a capacidade de se diferenciar em qualquer tipagem celular. Posteriormente irão se especificar tornandose as células-tronco adultas ou somáticas (GRINFELD et al., 2004).
As células-tronco adultas são encontradas em diversas partes do corpo humano, como na pele, medula óssea, tecido adiposo, e inclusive na polpa dental. Esse grupo celular é responsável principalmente pela manutenção e reparação tecidual, e continua com alto potencial proliferativo. Mas em relação a diferenciação é mais limitada, ou seja, uma célula hematopoiética não tem como se diferenciar em um neurônio (WAGERS; WEISSMAN. 2004).
Em contrapartida, Gargett et al. (2004) alega que tem observado em estudos o potencial das células-tronco adultas em adquirir características de outras células em nichos onde foram inseridas.
CLASSIFICAÇÃO EM TOTIPOTENTES; PLURIPOTENTES E MULTIPOTENTES
Vats A. et al. (2002) classifica as células-tronco em relação ao seu potencial de diferenciação, dividindo-as em totipotentes, pluripotentes e multipotentes. O grupo celular classificado como totipotentes, são as células que tem a capacidade de dar origem a todo segmento de desenvolvimento do organismo, o zigoto é uma célula totipotente, que perde suas propriedades de totipotência quando começa a fase de blastocisto, a partir desse ponto as células começam a se diferenciar dependendo do local onde estão localizadas (NERI, 2004).
As células-tronco embrionárias são pluripotentes, tendo a capacidade de se especificar e originar qualquer tipagem celular derivadas dos três folhetos embrionários: ectoderma, mesoderma e endoderma (WEISSMAN, 2000).
O ectoderma dará origens ao sistema nervoso, epitélios de revestimento nasal, bucal, anal, epiderme. O Mesoderma: derme, células musculares, esqueléticas, sistema circulatório, excretor e reprodutor. E o Endoderma: fígado, pâncreas, sistema respiratório, revestimento do trato digestivo (AMORIN et al., 2012).
Neri (2004) relata que as células multipotentes, são definidas como células de manutenção tecidual, o corpo humano está a todo instante repondo algumas células, parte desse processo se dar na medula óssea por exemplo. São limitadas em relação a diferenciação, mas estão em pleno rigor no processo de proliferação e reparo.
Karaöz et al. (2010) afirma que as células-tronco encontradas na polpa dental são multipotentes e muito simples de serem coletadas e propagadas.
CÉLULAS-TRONCO NA ODONTOLOGIA
Gronthos et al. (2000) afirma que além da polpa dental é possível encontrar células trono no ligamento periodontal e na papila dental, esses primeiros achados foram feitos em 2000, e desde então estudos tem sido desenvolvido na intenção de conhecer o potencial das células-tronco para uso na odontologia.
Nakao et al. (2007) no ano de 2007 extraíram e trataram germes dentários com tecidos conjuntivos e epiteliais de um rato. Os pesquisadores inseriram esse material em um alvéolo pós extração no mesmo animal, com isso, foi possível evidenciar odontoblastos, ameloblastos, dentina, esmalte, polpa, vasos sanguíneos, osso alveolar e ligamentos periodontais.
Mesmo com tantos estudos, nenhum órgão dental humano completo foi desenvolvido por meio das células-tronco retiradas da polpa dental. Mas apesar das limitações, academias dos Estados Unidos reconhecem os avanços dos estudos sobre células-tronco retiradas da polpa dental, e tem incentivado dentistas brasileiros sobre a importância de estocarem dentes inclusos e terceiros molares para avanço de tais estudos, respeitando sempre os princípios legais nacionais (MACHADO; GARRIDO, 2014).
Zhang et al. (2005) complementa que a regeneração de um órgão dental completo não é simples. Para tal feito, além das células-tronco outros dois fatores são extremamente importantes, sendo um deles uma matriz extracelular biocompatível que forneça um bom transporte de nutrientes, oxigênio e resíduos metabólicos. O outro, são fatores de crescimento, proteínas secretadas de forma extracelular que contribuem para o desenvolvimento da forma.
Uma das proteínas que estão inclusas nos fatores de crescimento, são as proteínas morfogenéticas ósseas, muito eficientes na produção de dentina terciária (NAKASHIMA; REDDI, 2013).
Em um estudo experimental realizado em 2000, foram isoladas células-tronco da polpa dental de um terceiro molar humano no meio de cultura composto por Lascorbato-2-fosfato, glicorticóide e fosfato inorgânico. Como resultado, as células conseguiram fazer um deposito de cálcicos no ambiente preparado. Essas células-tronco foram transplantadas em ratos e após alguns dias apresentaram-se em uma estrutura muito parecida com o complexo dentina-polpa (GRONTHOS et al., 2000). As células-tronco da polpa dental podem ser facilmente acessadas e não estão presentes em um órgão vital, esse fato tem facilitado os estudos. O desenvolvimento de um órgão dental inteiro é mais complexo e ainda está um pouco distante, porém muitas áreas na odontologia seriam beneficiadas com os achados atuais, como a periodontia, dentística e endodontia (SOARES et al., 2007).
A seguir, aborda-se no próximo capitulo as estruturas do complexo dentina polpa e esmalte dentário, sobre o processo natural das células-tronco presentes na popa dental bem como no processo de manuseio in vitro.
COMPLEXO DENTINA-POLPA E AS CÉLULAS-TRONCO DA POLPA DENTAL
Assim como foi de extrema importância no capítulo anterior compreender o de que se trata uma célula-tronco para conhecer o seu potencial de diferenciação, é também importante conhecer algumas estruturas dentais para entender como as células-tronco se relacionam com tais estruturas, seja de forma natural ou in vitro. Três camadas do dente humano serão especialmente destacadas ao decorrer desse capitulo, por juntas contribuir para o perfeito funcionamento do órgão dental. Com diferentes funções e características, são essas estruturas o esmalte, dentina e polpa (NANCI, 2013).
O esmalte dental é a estrutura mais mineralizada do corpo humano e envolve toda coroa do dente. Composto por 97% de matéria inorgânica que carrega hidroxiapatita, carbonato, sódio, magnésio, cloreto, potássio e flúor, 2% de água e 1% de matéria orgânica que são proteínas, alguns poucos carboidratos e lipídios. Os ameloblastos são as células responsáveis pela formação do esmalte por meio do complexo processo deTomes (ZALZAL; SMITH; NANCI, 2004).
Katchburian e Arana (2012) relata que a camada subjacente ao esmalte, a dentina, é uma estrutura mais resiliente e evita que o esmalte por ser mais friável frature durante os movimentos mecânicos. A dentina é um tecido mineralizado e avascular composto por 70% de minerais (Hidroxiapatita) ,18% de matéria orgânica em forma de colágeno tipo I, III e V, e 12% de água. As células responsáveis pela síntese de matriz da dentina são os odontoblastos. Os odontoblastos dispõem de seus prolongamentos dentro dos túbulos dentinários fazendo uma comunicação importante entre a dentina e polpa.
Há três classificações para a dentina, dentina primaria, secundária, terciaria reacional e reparativa. A dentina primaria é depositada durante a formação dental até o completo fechamento do ápice, em contrapartida a secundária é depositada de forma gradativa ao decorrer da vida, a dentina terciária é acionada frente a algum estimulo externo, exemplo a cárie dental. É interessante destacar que quando um estimulo externo é muito danoso os odontoblastos morrem e novos são produzidos para secretar um novo tipo de dentina, esse fenômeno ocorre por conta das células indiferenciadas presentes na polpa dental (NANCI, 2013).
A polpa dental diferente do esmalte e da dentina é um tecido conjuntivo frouxo e vascularizado. É um conjunto de odontoblastos e terminações de pequenos calibres das artérias alveolares superior e inferior, com inervação proveniente das divisões maxilar e mandibular do nervo trigêmeo (KATCHBURIAN; ARANA, 2012).
Tziafas e Kodonas (2010) completa que os odontoblastos presentes na polpa estão em intima relação com a dentina devido os seus prolongamentos, esses prolongamentos ocupam lugar dentro dos túbulos dentinários, fazendo com que essas duas estruturas tenham trocas importantes, como o estimulo dos receptores de sensibilidade da polpa por conta do movimento de fluídos presentes nos túbulos da dentina.
Na região central da polpa (subjacente aos odontoblastos) é possível encontrar a zona rica em células, onde se concentra o corpo celular, e a zona pobre em célula, onde estão os prolongamentos celulares, as células-tronco mesenquimais estão localizadas na zona rica em células, e representam menos de 1% das células presentes na polpa dental (SLOAN; WADDINGTON, 2009).
Segundo Kayola e Castanho (2007) ainda assim as células-tronco isoladas da polpa dental tem potencial proliferativo e de diferenciar-se em várias tipagens celular como odontoblastos, fibroblastos, condrócitos, células endoteliais, osteoblastos, células neuronais, miócitos, adipócitos, e até mesmo células-tronco pluripotentes por indução.
O MANEJO DAS CÉLULAS-TRONCO IN VITRO
O manejo de células in vitro é o processo de cultivar células fora do seu lugar de origem em um ambiente previamente preparado, em condições selecionadas, assépticas e com um meio nutritivo variante. O termo in vitro vem do latim e significa em vidro (ALVES; GUIMARÃES, 2010).
É necessário reproduzir in vitro o nicho onde a célula estava inserida anteriormente, esse ambiente previamente preparado permite que as células-tronco permaneçam em plena atividade metabólica. A reprodução deve ser bastante fiel para que ocorra o sucesso na diferenciação e auto renovação da célula-tronco (WALKER; PATEL; STAPPENBECK, 2009).
Para que seja garantido um bom resultado no manuseio in vitro das células tronco retiradas da polpa dental, faz-se necessário que tenha no meio de cultivo uma matriz e alguns fatores de crescimento, esses requisitos contribuem para que haja semelhança entre o ambiente natural das células-tronco da polpa dental e o ambiente preparado, visto que, as células fora do seu nicho são extremamente limitadas (SOARES et al., 2007).
A matriz é o arcabouço, ela permitirá que ocorra os transmites de resíduos metabólicos, nutrientes e oxigênio, é extremamente importante que a matriz seja bio compatível, e pode ser composta por material natural assim como sintético. Ácido poliglicólico e ácido poli co-glicolídeo copolímero é uma matriz que tem sido utilizada para formação de tecido dental, ela funciona ativando morfogenes das células-tronco que por sua vez começam a ser substituídas por tecido de uma forma gradativa (IOHARA et al., 2004).
De acordo com Nakashima e Akamine (2005) os fatores de crescimento são proteínas que administram a morfogênese dentaria e toda sua interação e trocas dinâmicas. São elas: proteínas morfogenéticas ósseas, responsáveis por reparos pulpar, desenvolvimento dentário e diferenciação dos ameloblastos e odontoblastos; fatores de crescimento para fibroblastos que estão ativos no início da formação dental até a última cúspide; proteínas Hedgehog, ativas no início do desenvolvimento do germe dentário; proteínas wingless e int-related, importantes no posicionamento dos componentes dentais, e por último, os fatores de necrose tumoral, fundamentais na formação das cúspides dos molares.
Utilizando esse protocolo, células tronco retiradas da polpa dental foram cultivadas in vitro e após alguns dias foi possível observar tecido conjuntivo semelhante a polpa e tecido mineralizado semelhante a dentina (DUAILIBI et al., 2004).
No que se diz respeito ao desenvolvimento de um órgão dental completo, outra problemática além da formação seria a inserção do dente no sistema estomatognático, visto que é necessário que seja garantindo pleno funcionamento e harmonia com o sistema (OHAZAMA et al., 2004).
No próximo capitulo será abordado a importância da bioengenharia para odontologia, destacando os benefícios do uso das células-tronco retiradas da polpa dental de dentes permanentes, bem como os limites e soluções éticas que o uso desse tipo de célula carrega.
BIOENGENHARIA NA ODONTOLOGIA E LIMITES ÉTICOS
O investimento da odontologia em técnicas inovadoras assevera novas descobertas e abrange as formas de tratamentos existentes. Atualmente o mercado odontológico oferece uma grande variação de produtos que garantem qualidade, comodidade e segurança nos tratamentos, exemplo os materiais restauradores, porém nada supera os tecidos naturais do órgão dental, por este motivo se faz importante o interesse nas células-tronco (ZHANG; YELICK, 2010).
Caplan et al. (2005) alega que o uso das células-tronco na endodontia utilizando-se da regeneração pulpar também seria de bom proveito. Visto que, mesmo com materiais que garantem sucesso no tratamento endodôntico, o dente sem a vitalidade pulpar continua friável sendo mais vulnerável a fraturas.
Lovelace et al. (2011) mostra que é possível utilizar células-tronco da polpa dental, na revitalização de dentes com necrose pulpar que ainda não atingiram o total fechamento do ápice radicular. Esse procedimento clinico aconteceu após consentimento, e alguns cuidados prévios com irrigações e prescrição medicamentosa. Logo então, foi provocado um sangramento no canal radicular por meio de uma sobre instrumentação de 3 a 5 mm com uma lima, para formação de um coágulo que serviu como matriz, os fatores de crescimento foram liberados pelas plaquetas e dentina, e as células-tronco foram inseridas no canal radicular. Esses achados serviram como uma resposta regenerativa das células-tronco. Em 2003, células-tronco da polpa dental, fosfato de cálcio e hidroxiapatita foram colocadas no dorso de um camundongo, após 16 semanas, além das células tronco da polpa produzir um tecido parecido com o complexo dentina-polpa estimularam as células do hospedeiro a participarem do processo produtivo (BATOULI et al., 2003).
Em 2006, Huang, Shagramanova e Chan (2006) datou resultados importantes com um estudo da polpa dental de terceiros molares humanos. As polpas dentais foram extraídas e preparadas em fragmentos de 2 x 2 1mm, e discos de dentina com aproximadamente 1mm foram coletados do mesmo dente em que as polpas foram extraídas, as células da polpa foram colocadas em contato com os discos de dentina que haviam sido previamente preparados. Como resultado, houve pouca proliferação celular, mas após 16 dias foi possível observar que algumas células obtiveram prolongamentos citoplasmáticos infiltrando-se nos túbulos dentinários.
A investida da odontologia na bioengenharia com a utilização das células-tronco retiradas da polpa dental, possibilita diversas formas de terapia para tecidos como o esmalte, dentina, polpa, ligamento periodontal, que sofreram injurias. Levando em consideração o fato de que regeneração ou substituição tecidual com compostos do próprio organismo seriam mais estáveis, por esse motivo faz-se necessário o continuo estudo dessa área na odontologia (CASAGRANDE; LAUXEN; FERNANDES, 2009).
Para (Leal, 2007) embora a bioengenharia não tenha ainda conseguido formar in vitro um órgão dental completo, progressos têm sido conquistados pelos contínuos estudos, todos os avanços estão sendo gradativos, à medida que novas descobertas aparecem, novas possibilidades também surgem, angariando novas portas para odontologia. Mesmo com alguns limites os pesquisadores se mostram esperançosos com a promessa dos achados atuais.
ESCLARECENDO OS LIMITES ÉTICOS
As células-tronco são de fato um achado da ciência com grandes propostas terapêuticas, porém, algumas questões éticas estão sendo postas desde o início de sua descoberta. A extração das células tronco acontece na fase de blastocisto, e a utilização dessas células faz com que haja a morte do embrião utilizado. Com isso, conflitos éticos sobre a utilização das células-tronco embrionárias foram levantados, alguns grupos defendem a utilização para fins terapêuticos, e outros repudiam tal pratica (TAKEUCHI; TANNURI, 2006).
Gallian (2005) defende que a vida humana é concebida desde o momento da fecundação, por esse motivo, alega que a utilização das células-tronco embrionárias ofende o direito à vida, mesmo que tal proposta seja para fins terapêuticos, visto que o mesmo direito deve ser respeitado desde o momento da concepção do embrião.
Por outro lado, há quem defenda a utilização desse tipo de célula, alegando que células-tronco in vitro são aglomerados de células e não vida humana em pleno funcionamento. Defendem também que o avanço nos estudos assevera contribuir para salvar vidas já concebidas, dissertando sobre a liberdade da ciência para promover qualidade de vida (MITALIPOVA et al., 2003).
Devido a polêmica dessa temática, diversos países elaboraram leis para estabelecer regras sobre a utilização das células-tronco embrionárias. No Brasil existe a lei federal 11.105, de 24 de março de 2005, declarando que a utilização de embriões para fins terapêuticos ou de pesquisa, acontecerá mediante a autorização dos genitores. Os embriões que poderão ser utilizados são os remanescentes de fertilizações in vitro, mantido congelados por mais de três anos, e embriões considerados inviáveis com alterações genéticas ou morfológicas que possam comprometer o perfeito desenvolvimento embrionário (BRASIL, 2005).
Dado o exposto, é importante esclarecer que as células-tronco da polpa dental são mesenquimais e não embrionárias, logo todos os conflitos éticos são descartados a respeito da sua utilização na odontologia, ao contrário, dispõe dessa nova fonte de células-tronco uma alternativa diante de tantos dilemas éticos (BYDLOWSKI et al., 2009).
Sobre o acesso legal das células-tronco da polpa dental, no Brasil, existem os Bancos de Dentes Humanos que são responsáveis por coletar e preservar dentes doados, e os Bio-bancos também responsáveis pela manipulação de tecidos orgânicos. Os Bancos de Dentes Humanos não têm fins lucrativos, e são vinculados a instituições de ensino, com o propósito de fornecer os dentes para fins de práticas odontológicas e pesquisas. Por se tratar de um órgão, a doação deve ser consentida e documentada em escrito declarando a doação para desígnio de pesquisa ou outros (NASSIF et al., 2003).
O conselho federal de odontologia declara como infração ética algumas atitudes, dentre elas a comercialização de dentes humanos, a falta de esclarecimento sobre possíveis riscos e procedimentos, e o uso do nome de outro profissional na retirada de tecidos ou dentes no Banco de Dente Humanos ou Bio-bancos (CONSELHO FEDERAL DE ODONTOLOGIA, 2012).
As regras impostas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, resolução no 33/2006, também devem ser respeitas pelo Banco de Dentes Humanos e Bio-bancos, desde o recebimento, distribuição, manuseio, transporte e registro (BRASIL, 2011).
Para Machado e Garrido (2014) a carência na organização dos Bancos de Dentes Humanos e dos Bio-bancos é um impasse para que haja maior efetividade no uso de células-tronco da polpa dental. Aliada a falta de informação sobre o tema, no Brasil não existe uma padronização no recebimento, armazenamento e distribuição dos dentes nas instituições responsáveis. No entanto, é de extrema importância a conscientização sobre o impacto que o avanço dos estudos das células-tronco da polpa dental trará para odontologia. Com os achados atuais, continuação dos estudos e organização, a bioengenharia avançará nos próximos anos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No início deste trabalho de pesquisa, constatou-se que havia grande interesse cientifico nas células-tronco. Na área odontológica destacou-se as células-tronco da polpa dental devido as promessas em novas perspectivas de tratamento, por isso, jugou-se necessário o estudo da aplicabilidade das células-tronco na odontologia, e a efetividade das células-tronco retiradas da polpa dental de dentes permanentes.
Diante disso a pesquisa teve como objetivo geral, identificar a eficácia de células tronco retiradas da polpa dental, na diferenciação e regeneração de tecidos do órgão dental. Constatou-se que o objetivo geral foi atendido porque foi possível demostrar que as células-tronco retiradas da polpa dental tem alto grau regenerativo e proliferativo quando manipuladas em ambiente previamente preparado.
Foi necessário traçar três objetivos específicos, sendo o primeiro, compreender o potencial de diferenciação de células-tronco, atendido por conta dos resultados que comprovam a capacidade das células-tronco em diferenciar-se em vários tipos de tecido. O segundo objetivo especifico utilizado foi conhecer a capacidade da polpa dentária na produção de outros tecidos, constatou-se que há importantes trocas entre a dentina e a polpa dental, e que a produção de dentina terciaria está ligada a células tronco indiferenciadas. Por último, essa pesquisa quis demostrar a importância da bioengenharia na odontologia para o tratamento de lesões entre outras aplicações, objetivo atendido devido as diversas alternativas de tratamento que o aprimoramento das técnicas na produção de dentina, esmalte e polpa trará a partir das células-tronco da polpa dental.
Durante o decorrer da pesquisa verificou-se que, com o aprimoramento dos estudos das células-tronco retiradas da polpa dental, novas propostas de tratamento serão oferecidas, visto que, as células-tronco retiradas da polpa dental têm eficácia na regeneração tecidual, pois, estudos mostram evidencias positivas desse tipo de célula em diferenciação e regeneração tecidual quando preparadas com a matriz e os fatores de crescimento fundamentais.
Foram utilizadas nesse trabalho, livros, artigos, estudo de casos, dos últimos vinte anos, no idioma português, inglês e espanhol, utilizando as bases de dados como instrumento de coleta: Pubmed, Lilacs e Scielo, Europe pmc. Com critério de inclusão aqueles que trataram sobre a efetividade do uso de células-tronco na odontologia.
Diante da metodologia aplicada, percebe-se que há escassez em novos estudos sobre o tema proposto, devido a comodidade dos tratamentos já existentes na odontologia. A falta de organização e padronização dos Bio-bancos e Bancos de Dentes Humanos, bem como a falta de informação sobre essa nova proposta também têm dificultado o avanço dos estudos.
Diante o exposto, faz-se necessário que haja mais informações sobre as novas propostas que a bioengenharia traz para odontologia, sendo de extrema importância o avanço da ciência em novos estudos com as células-tronco da polpa dental, bem como uma melhor organização em todo o processo que acontece nos Bancos de dentes Humanos e Bio-bancos.
REFERÊNCIAS
ALVES, Emanuele; GUIMARÃES, Ana. Emanuele. In: CONCEITOS e métodos para a formação de Profissionais em laboratórios de saúde. [S. l.]: IOC, 2010. v. 2, cap. Cultivo celular, p. 210-252.
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BRASIL. Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005. Estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados. Brasília, 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11105.htm. Acesso em: 13 maio 2020.
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1Cirurgião Dentista Especialista em Endodontia;
2Especialista e Mestre em Endodontia. Coordenador do Curso de especialização em Endodontia do Instituto Excellence (Ilhéus). Professor de Endodontia Clínica do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI). Email: antoniohenriquebraitt@gmail.com
