REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601282150
Izabelly Monteiro de Oliveira; Laryssa Jardim da Silva Medeiros; Fernanda Cristina Concas; Jorge Philip Garcia de Menezes; Júlia dos Santos Jasmim; Karine de Souza Teixeira; Natália Lôres Lopes; Gabrielle Costa
Resumo
O prolongamento da vida dos gatos, decorrente dos avanços na medicina veterinária tem levado ao aumento na ocorrência de distúrbios musculoesqueléticos, como a osteoartrite (OA). Também com o envelhecimento dos animais e o aumento de sua longevidade, as chances de desenvolvimento dessa doença aumentam. Este estudo visa avaliar a prevalência da OA em gatos atendidos na clínica escola da Universidade Iguaçu, com o objetivo de contribuir para a promoção da qualidade de vida dos pacientes diagnosticados e para a identificação precoce de gatos em risco de desenvolver a doença. A osteoartrite é caracterizada pela degeneração das articulações sinoviais, é frequentemente associada à idade e ao sexo, apresentando uma prevalência que varia de 16,5% a 91%, conforme a literatura. Os sinais clínicos mais comuns observados em felinos incluem dor, rigidez, diminuição da amplitude de movimento e alterações comportamentais, como a dificuldade para saltar. Os objetivos específicos do estudo incluem descrever a casuística de pacientes diagnosticados através de exame físico e anamnese, identificar a idade, escorie corporal e o sexo mais prevalente, analisar doenças associadas, investigar condições ambientais e alimentares e documentar as manifestações clínicas observadas. Os resultados esperados poderão oferecer subsídios para a compreensão da prevalência da osteoartrite, contribuindo assim para a melhoria das práticas clínicas na medicina veterinária.
Palavras-chave: Degenerativo; articulação; gatos; manejo; diagnostico
Abstract
The extended lifespan of cats, resulting from advances in veterinary medicine, has led to an increase in the occurrence of musculoskeletal disorders such as osteoarthritis (OA). Furthermore, as animals age and live longer, the chances of developing this disease increase. This study aims to evaluate the prevalence of OA in cats treated at the Iguaçu University teaching clinic, with the goal of contributing to the improvement of the quality of life of diagnosed patients and the early identification of cats at risk of developing the disease. Osteoarthritis is characterized by the degeneration of synovial joints, often associated with age and sex, with a prevalence ranging from 16.5% to 91%, according to the literature. The most common clinical signs observed in felines include pain, narrowing, decreased range of motion, and behavioral changes, such as difficulty jumping. The specific objectives of the study include describing the case series of patients identified through physical examination and medical history, identifying the most prevalent age, body condition score, and sex, analyzing related diseases, investigating environmental and dietary conditions, and documenting the observed clinical manifestations. The expected results may provide insights into the prevalence of osteoarthritis, thus contributing to improving clinical practices in veterinary medicine.
Keywords: Degenerative; joint; cats; management; diagnosis
Introdução
A osteoartrite (OA) é uma condição frequentemente observada em felinos, caracterizada por alterações articulares degenerativas progressivas (Klinck et al., 2018).

Sendo os gatos um dos principais animais que visitam hospitais veterinários e assim aumentando seu tempo de vida, devido ao desenvolvimento da medicina veterinária. A partir desse contexto, com distúrbios musculoesqueléticos, como osteoartrite (OA), estão aumentando sendo relatado que 91 de 100 gatos selecionados aleatoriamente com idades entre 6 meses e 20 anos, tinham pelo menos uma articulação apendicular com OA diagnosticada através de radiografia (Yamazaki et al., 2020). Sendo definida como a doença articular degenerativa mais comum e uma das principais causas de dor e incapacidade (Chen, 2017).
A osteoartrite se refere ao processo degenerativo, progressiva e crônico que afeta as articulações sinoviais (Maniaki, 2021). E é caracterizada pela inflamação e pela degradação da cartilagem (Seo et al., 2024). Fatores, como a idade e o peso de um animal, também desempenham papéis no desenvolvimento da doença. A OA se desenvolve em qualquer idade, sua maior prevalência em animais mais velhos indica que é uma doença associada ao envelhecimento, muitas vezes, como resultado do desgaste e impacto de longo prazo nas articulações (Johnson, 2020).
Embora existam poucos estudos específicos sobre gatos, pesquisas já feitas mostram que entre 16,5% e 91% dos felinos avaliados por radiografia apresentaram alterações compatíveis com a OA, mesmo não demonstrando sinais claros. (Kerwin, 2010). Ainda que frequentemente subdiagnosticada, devido à natureza discreta dos indicadores clínicos (Maniaki et al., 2021), Além de causar dor e diminuição da mobilidade, a OA também pode levar a sinais comportamentais, como agressividade, alteração nas interações sociais e perda do vínculo humano-animal. (Deabold et al.,2023). Do mesmo modo, os sinais clínicos incluem evidências de dor, sensibilidade, diminuição da amplitude de movimento, inchaço, rigidez, atrofia muscular, crepitação e derrame (Johnson et al., 2020).
Nas articulações apendiculares, a OA foi mais detectada no quadril, seguidas pelas articulações do cotovelo, joelho, carpo, tarso e ombro, enquanto nas axiais, a OA foi mais detectada na região torácica com uma prevalência real de 20%. O que indica que a OA felina é provavelmente muito maior do que 25,6%, especialmente a partir do início da vida adulta do animal (Holguin et al., 2025). Já o diagnóstico é baseado no histórico médico do animal, na avaliação do veterinário por meio do exame físico e ortopédico. Em felinos, sinais como espessamento articular, derrame sinovial, amplitude de movimento reduzida e crepitação são menos observados do que em cães (Bennett et al., 2012). Também pode-se observar em avaliações post-mortem que sugerem o diagnóstico estimado de 2,5% dos felinos avaliados(Holguin et al., 2025).
Objetivo
O objetivo deste estudo é documentar e avaliar felinos suspeitos de osteoartrite atendidos na Clínica Escola da Universidade Iguaçu, fornecendo informações sobre a prevalência da doença em diferentes idades, sexos, pesos, padrões alimentares, condições ambientais, comportamentos e comorbidades. Além disso, busca-se descrever a casuística dos pacientes, identificar grupos de maior ocorrência, investigar doenças associadas e caracterizar as manifestações clínicas, de modo a contribuir para a compreensão da osteoartrite felina e para a promoção da qualidade de vida desses animais. Além da importância da observação, uma vez que mudanças sutis no comportamento, na mobilidade ou nos hábitos de locomoção podem ser os primeiros sinais da doença, facilitando o diagnóstico precoce e permitindo intervenções.
Justificativa
A osteoartrite (OA) felina, também chamada de doença articular degenerativa, é considerada uma das principais causas de dor crônica em gatos, com grande impacto na qualidade de vida desses animais (Maniaki et al., 2021). Apesar de sua alta prevalência, é uma condição ainda subdiagnosticada na rotina clínica, especialmente devido à dificuldade de interpretação dos sinais clínicos e comportamentais apresentados pelos felinos, que costumam ser sutis e mascarados.
Estudos demonstram que a OA está presente em até 72% dos felinos com pelo menos uma articulação apendicular acometida (Slingerland et al., 2011), afetando frequentemente articulações de forma bilateral (Stadig et al., 2023). Ainda assim, o diagnóstico permanece desafiador, em especial pela complexidade do exame ortopédico em felinos, que muitas vezes não colaboram com o manuseio clínico. O diagnóstico definitivo baseia-se na combinação entre a anamnese detalhada fornecida pelo tutor, o histórico clínico do paciente e achados do exame físico, ortopédico e radiográfico
Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a OA em gatos, promovendo maior conscientização entre tutores e profissionais da medicina veterinária sobre os sinais compatíveis com a doença, como alterações na mobilidade, comportamento, locomoção e interação social. Além disso, é essencial compreender a importância do diagnóstico precoce, pois, embora a OA seja uma condição irreversível, um tratamento bem conduzido pode reduzir significativamente os efeitos da dor, preservar a função articular e melhorar o bem- estar geral do animal (Lefort-Holguin et al., 2025).
Resultados
Foram avaliados 25 felinos com idade igual ou superior a cinco anos, sem restrição quanto a idades, sexos, pesos, padrões alimentares, condições ambientais, comportamentos ou comorbidades, atendidos na Clínica Escola Veterinária da Universidade Iguaçu (UNIG). Destes, 56% dos animais apresentaram sinais clínicos compatíveis com OA, sendo a maioria composta por indivíduos idosos, obesos ou com alguma comorbidade secundária, como FIV (Vírus da Imunodeficiência Felina), FeLV (Vírus da Leucemia Felina), DRC (Doença Renal Crônica), DII (Doença Inflamatória Intestinal) ou alergia alimentar. Em 4% dos casos, o diagnóstico de osteoartrite foi confirmado por meio de radiografia, e o animal passou a receber tratamento com Solensia® (anticorpo monoclonal contra o Fator de Crescimento Nervoso – NGF), além de corticosteroides e suplementos nutricionais, o que contribuiu para a redução dos sinais clínicos, podendo ter mascarado a manifestação completa da doença em outros exames.

Cerca de 12% dos animais apresentaram resistência à manipulação clínica associada à dor e ao desconforto articular, enquanto 40% possuíam histórico de fraturas, traumas, lesões ou claudicação prévia, e 32% apresentavam sinais comportamentais compatíveis com o quadro. Observou-se que todos os gatos com sinais de OA viviam em ambientes com piso liso, predominantemente em apartamentos, fator que pode contribuir para o agravamento das manifestações clínicas devido a redução no espaço para exercícios a longo prazo. Dentre os animais que possuíam sinais clínicos para osteoartrite, 50% demonstraram dificuldade para subir ou descer em móveis, sendo descrito principalmente camas, sofás e mesas, estando a dificuldade para subir relatada com maior frequência.
Os responsáveis expuseram alterações de comportamento motor, como evitar acessar locais que anteriormente frequentavam com facilidade, postura encurvada e rigidez ao andar; dentre os animais positivos, 35,7% apresentaram os sinais, 35,7% apenas postura encurvada e 28,6% apenas rigidez. Também foram observadas alterações no comportamento relacionado à caixa de areia, como hesitação ao entrar, esforço para se acomodar e preferência por locais com acesso mais fácil, sugerindo desconforto associado à mobilidade reduzida. Sendo 42,9% dos animais compatíveis urina ou fezes fora da caixa ou dificuldade para utilizá-la e entre esses 50% relatou que a caixa de areia era do tipo alta, o que dificultava o acesso e a utilização pelos animais, 14% diminuiu a frequência de ida à caixa ao decorrer dos anos observado em animais a partir de 8 anos e 35% apresentaram esforço ou desconforto ao entrar ou sair dela.

Dos animais com sinais compatíveis com OA, 50% apresentaram sintomas preferencialmente pela manhã, 64,3% em dias frios e chuvosos, 42,9% ao acordar ou após longos períodos de descanso, 78,6% passaram mais tempo deitados ou dormindo do que o habitual, 85% passaram a dar prioridade a superfícies mais macias, 21,4% apresentaram comportamento mais recluso, buscando menos contato com pessoas e outros animais e 28,6% demonstraram irritação ao serem tocados.

Esses comportamentos indicam que a osteoartrite afeta não apenas a mobilidade e o conforto geral dos gatos, mas também hábitos essenciais de higiene, refletindo alterações significativas na saúde, rotina e bem-estar dos mesmos.

Conclusão
O estudo evidenciou que a osteoartrite é uma condição prevalente em felinos com idade prioritariamente igual ou superior a cinco anos, sendo mais frequente em animais idosos, obesos ou portadores de comorbidades. Além das alterações clínicas, como dor, rigidez articular e dificuldade de locomoção, foram observadas mudanças comportamentais significativas levando em consideração a discrição em relação a dor da espécie tratada, além disso observou-se menor atividade, preferência por superfícies macias, reclusão social, irritabilidade e alterações na utilização da caixa de areia. Fatores ambientais, como pisos lisos e caixas de areia de difícil acesso, assim como condições climáticas e horários do dia, influenciam a manifestação dos sinais da doença.
Os achados reforçam a necessidade de estratégias de manejo integradas, que contemplem terapias farmacológicas, ajustes ambientais e orientação adequada aos tutores, visando prevenir, minimizar o desconforto, prolongar e melhorar a qualidade de vida dos animais. A pesquisa contribui para a compreensão da osteoartrite felina e facilita a observação desses sinais para os profissionais quanto ao diagnóstico, fornecendo informações relevantes para identificação precoce, manejo clínico adequado, cuidados comportamentais e reajustes ambientais.
Referências
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