ASPERGILOSE OCULAR EM PACIENTE IMUNOCOMPETENTE: RELATO DE CASO

OCULAR ASPERGILLOSIS IN AN IMMUNOCOMPETENT PATIENT: A CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601221358


Geovana Cabral Silva; Amanda Cabral Silva; Amanda Carolina de Melo Gonçalves; Gustavo Sampaio Oliveira Lima; Laura de Melo Rocha; Luana Facundo Rodrigues Borges; Luis Felipe Pinheiro de Souza; Pedro Lucas Carneiro Ramos; Monique Siqueira de Oliveira Faria; Raquel Prado Talone; Alexandre Augustus Costa Barbosa.


Resumo

A aspergilose orbitária configura-se como uma infecção fúngica rara e potencialmente grave, cujo diagnóstico é frequentemente desafiador devido à baixa especificidade das manifestações oculares iniciais. É causada por fungos do gênero Aspergillus, amplamente distribuídos no ambiente, especialmente em solo e matéria orgânica em decomposição. Embora classicamente associada a pacientes imunocomprometidos, há relatos crescentes de acometimento em indivíduos imunocompetentes, sobretudo na presença de fatores predisponentes. O presente estudo tem como objetivo relatar um caso de aspergilose ocular em paciente masculino, 59 anos, imunocompetente, portador de diabetes mellitus tipo 2 e residente em zona rural, que evoluiu com lesão escleral esbranquiçada inespecífica em olho esquerdo e turvação visual progressiva. Inicialmente tratado como infecção bacteriana, o diagnóstico definitivo foi estabelecido por meio de biópsia e cultura positiva para Aspergillus sp. O paciente foi encaminhado ao Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad, onde recebeu tratamento especializado com antifúngico sistêmico e acompanhamento conjunto das equipes de oftalmologia e infectologia. O caso ressalta a importância da suspeição diagnóstica precoce e da abordagem multidisciplinar em apresentações atípicas de aspergilose ocular.

Palavras-chave: Aspergilose ocular. Infecção fúngica. Esclerite infecciosa. Imunocompetente. Oftalmologia.

1 INTRODUÇÃO

A aspergilose é uma infecção fúngica causada por espécies do gênero Aspergillus, fungos filamentosos amplamente distribuídos no ambiente, especialmente em solo, poeira e matéria orgânica em decomposição. A exposição aos conídios ocorre de forma rotineira na população geral; entretanto, o desenvolvimento da doença está mais frequentemente associado a indivíduos imunocomprometidos, como pacientes com neoplasias hematológicas, transplantados, usuários de corticosteroides e portadores de doenças crônicas, nos quais as formas invasivas apresentam elevada morbimortalidade (AMORIM et al., 2004; WALSH et al., 2008).

Entre as diferentes manifestações clínicas da aspergilose, o acometimento ocular é considerado incomum, porém potencialmente devastador. A infecção pode envolver a córnea, esclera, órbita e, em casos mais graves, estender-se para o sistema nervoso central, manifestando-se como ceratite fúngica, esclerite infecciosa, endoftalmite ou aspergilose orbitária invasiva. A apresentação clínica frequentemente inespecífica e a semelhança com processos inflamatórios ou infecciosos bacterianos contribuem para atrasos diagnósticos, impactando negativamente o prognóstico visual (CHOI et al., 2008).

O tratamento da aspergilose invasiva baseia-se no uso de antifúngicos sistêmicos, sendo o voriconazol atualmente recomendado como terapia de primeira linha, em virtude de sua maior eficácia e melhor perfil de segurança quando comparado à anfotericina B convencional (HERBRECHT et al., 2002; WALSH et al., 2008). Nesse contexto, o relato de caso assume relevância científica ao contribuir para o reconhecimento de apresentações clínicas atípicas da doença, reforçando a importância do diagnóstico precoce e da conduta terapêutica adequada.

Este estudo tem como objetivo relatar um caso de aspergilose ocular sem acometimento de outras partes da órbita e sem evidência de infecção disseminada em paciente imunocompetente. A publicação do presente relato de caso justifica-se pela raridade da aspergilose ocular nesse grupo de pacientes e pela relevância clínica do diagnóstico diferencial em quadros de esclerite infecciosa de evolução atípica.

Além disso, a importância do presente estudo reside no fato de que a aspergilose ocular pode se apresentar com sinais e sintomas inespecíficos, mimetizando infecções bacterianas ou doenças inflamatórias oculares, o que favorece atrasos diagnósticos e a introdução de terapias inadequadas, como o uso empírico de corticosteroides. A escassez de casos descritos na literatura envolvendo pacientes imunocompetentes reforça a necessidade de discutir apresentações atípicas da doença, contribuindo para maior vigilância clínica, tomada de decisão mais precoce e redução do risco de complicações locais e perda visual irreversível.

2 METODOLOGIA 

Trata-se de um relato de caso clínico referente a um paciente masculino, 59 anos, imunocompetente, diagnosticado com aspergilose ocular em olho esquerdo. O acompanhamento ocorreu em ambiente hospitalar, no Hospital de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), localizado em Goiânia, Goiás, no ano de 2025.

A coleta de dados foi realizada por meio de revisão detalhada dos prontuários médicos, incluindo histórico clínico, exames laboratoriais, exames de imagem, avaliações oftalmológicas seriadas, resultados anatomopatológicos e microbiológicos, além da descrição da evolução clínica durante a internação e no seguimento ambulatorial. As informações obtidas permitiram a construção cronológica do caso e a identificação dos principais marcos diagnósticos e terapêuticos.

Os dados foram analisados de forma descritiva e interpretados à luz da literatura científica atual sobre aspergilose ocular e orbitária, com o objetivo de correlacionar os achados clínicos do caso com evidências previamente publicadas. O estudo respeitou os princípios éticos aplicáveis aos relatos de caso, preservando o anonimato do paciente.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Paciente P.R.R., sexo masculino, 59 anos, lavrador, residente da zona rural do município de Palmelo, Goiás, casado, com dois filhos. Foi admitido no Hospital de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad em 07/03/2025, transferido de forma regulada após internação prévia de cinco dias em unidade de pronto atendimento.

Portador de diabetes mellitus tipo 2, em uso regular de metformina 500 mg à noite. Negava alergias medicamentosas e cirurgias prévias relevantes. Relatava acompanhamento oftalmológico por glaucoma desde 2022 e histórico de exérese de pterígio bilateral há mais de 20 anos. Negava trauma ocular.

Procurou atendimento oftalmológico em 21/02/2025 devido a irritação ocular em olho esquerdo associada a dor, hiperemia e lacrimejamento com evolução superior a um mês (FIGURA 1). Ao exame oftalmológico do olho esquerdo apresentada: hiperemia conjuntiva bulbar 4+/4+ com injeção ciliar; câmara anterior formada; fibrina em câmara anterior e em borda pupilar; reação de câmara anterior 2+/4+; área extensa de esclera nasal medindo aprox 4mm com afinamento de aproximadamente 50% atingindo 1,5mm de córnea perilimbar nasal com infiltrado associado e aspecto de melting; presença de secreção mucosa. Diagnosticado com esclerite e afinamento escleral de etiologia a esclarecer até então, foi realizada coleta de material para biópsia e prescrito colírio com amicacina e prescrito doxiciclina + clavulin BD (Amoxicilina + clavulanato) até o retorno que seria em 24-48h. 

Após retorno ambulatorial, diante da suspeita de doença inflamatória, foi prescrito corticosteroide sistêmico antes da liberação dos resultados microbiológicos. Em 28/02/2025, paciente recebeu cultura positiva para Aspergillus SP no material que havia sido coletado no olho esquerdo, sendo então prescrito injeção subconjuntival e intraestromal perilesional de anfotericina B 0,005% e posteriormente prescrito colírio de anfotericina B e realizado encaminhamento para o serviço de infectologia no Hospital de Doenças Tropicais (HDT).

Na admissão no HDT, foi iniciado tratamento sistêmico com voriconazol endovenoso, conforme protocolo, com dose de ataque e dose de manutenção por 14 dias. Além disso, foi realizada investigação e exclusão de acometimento sistêmico ou disseminado e exclusão de invasão por contiguidade das estruturas perioculares através de exames de imagem e coleta de exames séricos. 

Desde o ocorrido, foi solicitado acompanhamento com o serviço de psicologia, uma vez que P.R.R. demonstra significativa preocupação com seu diagnóstico de aspergilose ocular. Durante as entrevistas, ele expressa um medo intenso de perder a visão, o que tem intensificado sua dificuldade de adaptação ao ambiente hospitalar, agravada pelo distanciamento de seus familiares. Para enfrentar essa angústia, P.R.R. recorre principalmente ao coping religioso, que tem se mostrado uma estratégia eficaz, pois ele demonstra uma fé profunda, a qual tem lhe proporcionado conforto e esperança diante da incerteza sobre seu prognóstico.

Durante internação com equipe de infectologia, em uma consulta de retorno no Hospital Fundação Banco de Olhos de Goiás foi indicado pela equipe de oftalmologia transplante de córnea tipo “patch”. P.R.R realizou o transplante no dia 23/03/2025, sem intercorrências e retornou ao HDT com prescrição de retornar com mais 7 dias de prednisona via oral. Após o sucesso do transplante, discutido entre as equipes assistentes que seria indicado tratamento para 6 meses com voriconazol oral.

Paciente recebeu alta do Hospital de Doenças Tropicais no dia 03/04/2025 com prescrição de voriconazol até finalizar 6 meses de tratamento. Manteve acompanhamento com equipe de oftalmologia associado. 

Durante acompanhamento com equipe de oftalmologia, paciente foi submetido à duas cirurgias de transplante de córnea para reforçar área afinada. Manteve acompanhamento com equipe de infectologia, finalizados os 6 meses de tratamento para aspergilose e desde então sem necessidade de novo tratamento. Atualmente, encontra-se em acompanhamento com equipe de oftalmologia devido complicações do quadro de esclerite infecciosa. 

4 ANÁLISE

A aspergilose é reconhecida como uma infecção fúngica potencialmente ameaçadora à vida, sobretudo quando ocorre sob a forma invasiva em pacientes imunocomprometidos, como aqueles com neutropenia prolongada, infecção pelo HIV avançada e transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea (WALSH et al., 2008). Entretanto, relatos crescentes têm demonstrado que apresentações localizadas da doença, incluindo o acometimento ocular, também podem ocorrer em pacientes sem imunossupressão clássica.

A forma pulmonar representa a manifestação mais comum da aspergilose em humanos, uma vez que a principal via de infecção ocorre por inalação de conídios. As formas extrapulmonares, embora menos frequentes, costumam apresentar maior gravidade, especialmente quando há envolvimento ocular, ósseo, cardiovascular ou do sistema nervoso central (AMORIM et al., 2004).

A aspergilose ocular e orbitária é geralmente descrita em associação à rinossinusite fúngica invasiva ou à disseminação hematogênica. A extensão para estruturas oculares ocorre mais facilmente em situações de comprometimento das defesas do hospedeiro. Contudo, estudos demonstram que pacientes imunocompetentes, especialmente portadores de comorbidades como diabetes mellitus, podem desenvolver a doença, possivelmente em decorrência de alterações na imunidade inata associadas à hiperglicemia crônica (CHOI et al., 2008).

No presente caso, além do diabetes mellitus, destaca-se a exposição ambiental contínua, uma vez que o paciente exercia atividade laboral em zona rural, com contato frequente com solo e matéria orgânica. Esses ambientes são reconhecidamente ricos em esporos de Aspergillus, o que pode aumentar a carga de inalação e favorecer a infecção, mesmo em indivíduos sem imunossupressão significativa. Embora a aspergilose não seja classificada como zoonose, o meio rural constitui um importante fator epidemiológico a ser considerado.

O tratamento da aspergilose invasiva sofreu avanços significativos nas últimas décadas. Ensaios clínicos randomizados demonstraram superioridade do voriconazol em relação à anfotericina B convencional, com melhores taxas de resposta clínica, maior sobrevida e menor incidência de efeitos adversos, consolidando-o como terapia de primeira linha (HERBRECHT et al., 2002). No caso relatado, apesar do tratamento antifúngico adequado, a extensão local da infecção e o comprometimento escleral exigiram abordagem cirúrgica complementar, ilustrando a complexidade do manejo dessas apresentações. Dessa forma, a análise do caso permite correlacionar os achados clínicos com a literatura e atender ao objetivo proposto de relatar uma apresentação atípica de aspergilose ocular em paciente imunocompetente.

5 CONCLUSÃO 

O presente relato evidencia que a aspergilose ocular pode ocorrer em pacientes considerados imunocompetentes, especialmente na presença de fatores predisponentes como diabetes mellitus e exposição ambiental intensa. O objetivo do estudo é plenamente atingido ao descrever um caso de aspergilose ocular sem acometimento sistêmico em paciente imunocompetente, contribuindo para a ampliação do conhecimento sobre apresentações atípicas da doença. O caso ressalta a importância da suspeição diagnóstica diante de lesões oculares atípicas e refratárias ao tratamento convencional, bem como a necessidade de confirmação etiológica precoce por meio de exames microbiológicos.

A abordagem multidisciplinar, envolvendo oftalmologia e infectologia, mostra-se fundamental para o adequado manejo do paciente, associando terapia antifúngica sistêmica prolongada e intervenção cirúrgica quando indicada. Dessa forma, o estudo contribui para o reconhecimento de apresentações incomuns da aspergilose ocular e reforça a relevância do diagnóstico precoce e do tratamento individualizado para a preservação da função visual e redução de complicações.

REFERÊNCIAS

AMORIM, D. S. de et al. Infecções por Aspergillus spp.: aspectos gerais. Pulmão RJ, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, p. 67–73, abr./maio/jun. 2004.

CHOI, H. S. et al. Clinical characteristics and prognosis of orbital invasive aspergillosis. Ophthalmic Plastic and Reconstructive Surgery, Philadelphia, v. 24, n. 6, p. 454–459, 2008.

GUS, P. I. et al. Aspergilose orbitária: relato de caso. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, São Paulo, v. 68, n. 1, p. 133–135, 2005. DOI: 10.1590/S0004-27492005000100025.

HERBRECHT, R. et al. Voriconazole versus amphotericin B for primary therapy of invasive aspergillosis. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 347, n. 6, p. 408–415, 2002.

LEVIN, L. A.; AVERY, R.; SHORE, J. W.; WOOG, J. J.; BAKER, A. S. The spectrum of orbital aspergillosis: a clinicopathological review. Survey of Ophthalmology, New York, v. 41, n. 2, p. 142–154, 1996.

WALSH, T. J. et al. Treatment of aspergillosis: clinical practice guidelines of the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, Chicago, v. 46, n. 3, p. 327–360, 2008.