ACEITAÇÃO SOCIAL E FATORES SOCIECONÔMICOS NA ADAPTAÇÃO E ADESÃO AO USO DE PRÓTESES DENTÁRIAS EM IDOSOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202601131540


Mirela Carolaine Cunha da Cruz, Milena Katherine Cunha da Cruz, Maria Beatriz Veloso de Almeida, João Paulo Dantas Maia, Larissa de Araújo Braga, Gisele Enes do Amaral, Karina de Andrade Lima, Laura Gomes Guimarães, Jamerson José dos Santos, Mariana de Moraes Correa Perez


RESUMO  

O envelhecimento populacional no Brasil tem intensificado os desafios relacionados à saúde bucal dos idosos, especialmente devido à elevada prevalência do edentulismo. A perda dentária compromete funções mastigatórias, o estado nutricional, a estética facial, a autoestima e a interação social, impactando negativamente a qualidade de vida. Nesse contexto, as próteses dentárias constituem um recurso essencial para a reabilitação oral; entretanto, a adaptação e a adesão ao seu uso são influenciadas por fatores que extrapolam o âmbito clínico, incluindo condições socioeconômicas e aceitação social. O objetivo deste estudo foi analisar a influência da aceitação social e dos fatores socioeconômicos na adaptação e adesão ao uso de próteses dentárias em idosos. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Virtual em Saúde. Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade e exclusão e utilização do fluxograma PRISMA, 14 artigos compuseram a amostra final, sendo analisados qualitativamente. Os estudos evidenciam que baixa renda e baixo nível de escolaridade dificultam o acesso aos serviços odontológicos e à obtenção de próteses adequadas. Além disso, o apoio familiar, a aceitação social e os aspectos emocionais exercem influência direta na adaptação, satisfação e uso contínuo das próteses. Conclui-se que fatores socioeconômicos e a aceitação social são determinantes para a adesão às próteses dentárias em idosos, ressaltando a importância de políticas públicas que promovam equidade no cuidado odontológico. 

Palavras-chave: Fatores Socioeconômicos. Aceitação Social. Prótese Dentária. 

ABSTRACT 

Population aging in Brazil has intensified challenges related to oral health among older adults, particularly due to the high prevalence of edentulism. Tooth loss compromises masticatory function, nutritional status, facial aesthetics, self-esteem, and social interaction, negatively affecting quality of life. In this context, dental prostheses are essential for oral rehabilitation; however, adaptation to and adherence with their use are influenced by factors beyond clinical aspects, including socioeconomic conditions and social acceptance. The aim of this study was to analyze the influence of social acceptance and socioeconomic factors on adaptation to and adherence with the use of dental prostheses among older adults. This is an integrative literature review conducted using the PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO), and Virtual Health Library databases. Studies published between 2020 and 2025 in Portuguese, English, and Spanish were included. After applying eligibility and exclusion criteria and using the PRISMA flowchart, 14 articles composed the final sample and were qualitatively analyzed. The findings indicate that low income and low educational levels limit access to dental services and the acquisition of adequate prostheses. In addition, family support, social acceptance, and emotional factors directly influence adaptation, satisfaction, and continued use of dental prostheses. It is concluded that socioeconomic factors and social acceptance are key determinants of adherence to dental prostheses among older adults, highlighting the importance of public policies aimed at promoting equity in access to comprehensive oral health care. 

Keywords: Socioeconomic Factors. Social Acceptance. Dental Prosthesis. 

INTRODUÇÃO  

O envelhecimento populacional no Brasil tem ocorrido de maneira acelerada, configurando um cenário de desafios significativos no campo da saúde pública, especialmente relacionados à saúde bucal. Em 2010, a proporção era de 39 indivíduos com 65 anos ou mais para cada 100 jovens, com previsão de aumento expressivo para 153 idosos por 100 jovens até o ano de 2040. Entre os problemas bucais que afetam essa população, destaca-se o edentulismo, condição marcada pela perda total dos dentes, que afeta aproximadamente 54% dos brasileiros com idades entre 64 e 75 anos, contrastando com a prevalência global estimada em torno de 10% para indivíduos acima dos 50 anos no período de 1990 a 2015 (Melo et al., 2023).  

O edentulismo representa um sério impacto funcional e psicossocial na qualidade de vida dos idosos, comprometendo não apenas a capacidade mastigatória e nutricional, mas também aspectos emocionais e sociais, aumentando o risco de isolamento social e depressão. Nesse contexto, as próteses dentárias emergem como solução essencial na reabilitação oral, restaurando funções mastigatórias e estéticas, e promovendo o resgate da autoestima e integração social. Entretanto, persistem desafios consideráveis relacionados à adaptação e à adesão ao uso dessas próteses, influenciados diretamente por fatores socioeconômicos, como menor nível de escolaridade e renda reduzida. Tais fatores refletem desigualdades sociais que dificultam o acesso e a aceitação dessas soluções reabilitadoras (Ribeiro et al., 2023).  

A adaptação e adesão ao uso de próteses dentárias em idosos são influenciadas por diversos fatores, incluindo a autopercepção da saúde bucal e o acesso aos serviços odontológicos. Muitos idosos, mesmo com condições bucais precárias, consideram sua saúde bucal como boa, o que pode reduzir a procura por tratamentos odontológicos e impactar negativamente na adaptação às próteses . Além disso, dificuldades de acesso aos serviços de saúde bucal, podem limitar a obtenção e manutenção de próteses adequadas (Schroeder et al., 2020). 

Na Odontologia, a atenção direcionada à população idosa fundamenta-se, entre outros aspectos, na estreita relação entre a capacidade mastigatória e o estado nutricional, o qual, por sua vez, influencia diretamente a saúde geral dos indivíduos e, consequentemente, sua qualidade de vida. Embora os aspectos estéticos da dentição tenham relevância, é imprescindível compreender a cavidade bucal em sua totalidade funcional e fisiológica, uma vez que ela desempenha papel fundamental na integração social do indivíduo (Melo et al., 2023; Ribeiro et al., 2023).  

O uso de próteses dentárias em idosos está diretamente relacionado à qualidade de vida, saúde bucal e bem-estar psicossocial. Entretanto, a adaptação e a adesão a essas próteses são influenciadas por fatores sociais e econômicos que interagem significativamente. Por exemplo, idosos com melhor condição socioeconômica geralmente possuem maior acesso a serviços odontológicos especializados, facilitando uma adaptação adequada e aumentando a aceitação social, uma vez que dispõem de próteses mais confortáveis e esteticamente satisfatórias. Por outro lado, idosos com menor poder aquisitivo enfrentam barreiras que não apenas restringem o acesso a próteses de qualidade, mas também afetam diretamente sua aceitação social compreendida como a percepção do idoso sobre como é visto socialmente ao utilizar a prótese, e o apoio que recebe de familiares e do meio em que vive devido à aparência ou funcionalidade inadequada das próteses obtidas.  

Apesar da relevância dessas questões, ainda não está plenamente esclarecido como exatamente esses fatores socioeconômicos modulam a aceitação social e, consequentemente, a adesão ao uso das próteses dentárias. Assim, este estudo busca preencher essa lacuna ao analisar esses aspectos de forma conjunta, contribuindo para a reflexão e formulação de estratégias mais eficazes e direcionadas. 

OBJETIVOS  
Objetivo Geral  

Analisar a influência da aceitação social e dos fatores socioeconômicos na adesão e adaptação às próteses dentárias  

Objetivos Específicos  
  1. Investigar o impacto da aceitação social, a exemplo do apoio familiar, na adaptação ao uso de próteses dentárias entre idosos.  
  2. Analisar a relação entre fatores socioeconômicos, como renda do paciente e a adesão ao uso das próteses.  
  3. Identificar dificuldades e desafios enfrentados pelos idosos durante o processo de adaptação às próteses.  
  4. Avaliar o acesso dos idosos a serviços odontológicos para a confecção, manutenção e ajustes das próteses referente a diferenças entre idosos de diferentes realidades socioeconômicas 
MATERIAIS E MÉTODOS  

O presente estudo trata-se de uma revisão da literatura integrativa e a metodologia adotada neste estudo seguiu as respectivas etapas principais:  

Definição dos critérios de inclusão e de exclusão  

Critérios de inclusão:  

  • Artigos publicados de 2020 a 2025;  
  • Estudos que abordam diretamente o tema;  
  • Estudos publicados em português, inglês e/ou espanhol e de livre acesso; Critérios de Exclusão:  
  • Estudos que não apresentem resultados claros ou dados suficientes relacionados ao tema investigado.  
  • Resumos de eventos;  
  • Cartas ao leitor;  
  • Trabalhos Incompletos  
Coleta de dados  

A coleta dos dados foi realizada nas seguintes bases de dados:  

  • PubMed (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/)  
  • Scientific Electronic Library Online (SciELO) (https://www.scielo.org/)
  • Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) (https://www.bvsaloud.org)  

Para a busca nas bases, foram utilizados os seguintes descritores em saúde, identificados através dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), acessado pelo site https://decs.bvsalud.org/:  

  • Fatores Socioeconômicos  
  • Aceitação Social  
  • Prótese Dentária 

Esses descritores foram combinados através dos operadores booleanos AND e OR para ampliar e refinar os resultados.  

Seleção dos estudos  

Os artigos pré-selecionados foram analisados integralmente e submetidos à avaliação por meio de dois instrumentos distintos. O primeiro corresponde a uma adaptação do Critical Appraisal Skills Programme (CASP), desenvolvido pela Public Health Resource Unit (PHRU) da Universidade de Oxford, em 1993.  

A escolha do instrumento Still Well para avaliação da qualidade metodológica é justificada por sua robustez e ampla aceitação acadêmica na análise crítica de estudos qualitativos, especialmente no contexto da saúde bucal e envelhecimento. Em comparação a outros instrumentos disponíveis, o Still Well oferece critérios claros e abrangentes que permitem uma avaliação detalhada e consistente dos aspectos metodológicos, garantindo maior rigor e confiabilidade na análise dos resultados obtidos neste estudo.  

Análise de dados  

A análise foi qualitativa, baseada na organização das informações obtidas, com discussão fundamentada nos achados principais dos estudos selecionados, visando uma compreensão abrangente e profunda sobre a percepção dos idosos sobre a adaptação e adesão ao uso de próteses dentárias, considerando a influência da aceitação social e dos fatores socioeconômicos.  

Salienta-se que o instrumento PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) foi originalmente concebido para guiar a realização e o relato rigoroso de revisões sistemáticas e metanálises. Todavia, no presente estudo, optou-se por aplicar essa ferramenta metodológica à revisão integrativa, com o intuito específico de proporcionar uma descrição minuciosa, transparente e reprodutível do processo de busca, seleção e inclusão dos estudos analisados, conferindo, assim, maior robustez científica e facilitando futuras replicações por parte de outros pesquisadores. 

Tabela 1: Classificação dos estudos conforme o Nível de Evidência 

Ano/Autor  Tipo de Estudo  NE 
RIBEIRO, A. E.; SANTOS, G. S.; BALDANI, M. H. (2021) Estudo transversal  VI 
SILVA, J. P. et al. (2022)  Estudo transversal  VI 
OLIVEIRA, A. C. et al. (2021)  Estudo de classes latentes  VI 
MARTINS, A. B. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
MOREIRA, R. S.; NICO, L. S.; SOUSA, M. L. R. (2020) Estudo de coorte  IV 
COSTA, S. M. et al. (2020)  Estudo de coorte  IV 
OLIVEIRA, R. F. R. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
SORIA, L. M. et al. (2020)  Estudo de base populacional  VI 
FREITAS, C. H. S. M. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
POSSOBON, R. F. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
QUINTÃO, C. C. R. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
MAIA, L. C. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
OLIVEIRA, E. J. et al. (2020)  Estudo transversal  VI 
RESULTADOS  

A busca inicial nas bases de dados SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) resultou em um total de 142 artigos, sendo 25 encontrados na SciELO, 6 na PubMed e 111 na BVS. Após aplicação dos critérios de inclusão pré-estabelecidos, restaram 36 estudos elegíveis para análise.  

Em seguida, foram identificados e excluídos 6 artigos duplicados, reduzindo o número de artigos para 30. Posteriormente, após a leitura criteriosa dos títulos e resumos, outros 10 estudos foram removidos, resultando em 21 artigos que seguiram para a etapa de leitura integral.  

Nessa etapa final, 7 artigos foram excluídos por não responderem à temática central desta revisão, restando, assim, 14 artigos na amostra final incluída para análise qualitativa desta revisão integrativa.  

Fluxograma PRISMA:  

Tabela 1: Fluxograma – Distribuição dos artigos incluídos por base de dados 

Tabela 2: Principais achados científicos  

Autor e Ano País Tipo de Estudo Principais Achados  

REVISÃO DA LITERATURA  

O envelhecimento populacional e a saúde bucal no Brasil  

O envelhecimento populacional é uma realidade crescente no Brasil, impulsionada pelo aumento da expectativa de vida e pela redução das taxas de natalidade. Esse fenômeno traz desafios importantes à saúde pública, incluindo a saúde bucal dos idosos, frequentemente negligenciada em políticas públicas. Diversos estudos destacam que a saúde bucal precária compromete significativamente a qualidade de vida dessa população, afetando aspectos nutricionais, sociais e psicológicos (Martins et al., 2020; Silva et al., 2022).  

O edentulismo total ou parcial ainda é prevalente entre idosos brasileiros, especialmente em populações institucionalizadas ou socialmente vulneráveis. A principal causa do edentulismo entre idosos está relacionada às doenças bucais não tratadas ao longo da vida, como cárie e doença periodontal. As consequências vão além do aspecto funcional, influenciando diretamente a autoestima, qualidade nutricional e interação social desses indivíduos (Maia et al., 2020; Silva et al., 2022).  

O papel das próteses dentárias na reabilitação oral  

As próteses dentárias representam um recurso essencial para restaurar as funções mastigatória, fonética e estética em idosos com perda dentária. O uso adequado dessas próteses é capaz de minimizar os efeitos negativos da ausência de dentes, promovendo melhorias significativas na saúde geral e qualidade de vida dos idosos. Todavia, é importante que as próteses sejam confeccionadas de forma adequada e ajustadas às necessidades específicas de cada paciente, garantindo conforto e eficácia em seu uso (Oliveira et al., 2021; Martins et al., 2020; Quintão et al., 2020).  

Diversos estudos apontam que condições socioeconômicas precárias são determinantes importantes para a má saúde bucal em idosos. A literatura atual destaca que idosos em situação de pobreza ou baixa renda possuem acesso limitado a tratamentos odontológicos preventivos e restauradores, levando a maior incidência de doenças bucais e perda dentária precoce. Além disso, a baixa escolaridade influencia negativamente a percepção sobre a importância da saúde bucal, dificultando ainda mais o autocuidado e a procura por serviços odontológicos regulares (Freitas et al., 2020).  

Aceitação social e sua influência na adesão às próteses dentárias  

A aceitação social tem papel crucial na adesão e adaptação às próteses dentárias por idosos. Estudos apontam que idosos com maior interação social e apoio familiar apresentam maior facilidade de aceitação das próteses, visto que percebem rapidamente os benefícios sociais e estéticos proporcionados pelo tratamento protético (Possobon et al., 2020).  

Por outro lado, idosos que sofrem preconceitos ou têm dificuldades na interação social devido ao uso das próteses tendem a apresentar resistência inicial, comprometendo o sucesso da reabilitação oral (Costa et al., 2020).  

Aspectos psicológicos e emocionais no uso de próteses  

Os aspectos psicológicos e emocionais são fundamentais na adaptação dos idosos às próteses dentárias. A perda dentária pode desencadear sentimentos negativos como ansiedade, depressão e baixa autoestima, fatores que interferem diretamente na motivação para buscar e utilizar próteses dentárias (Ribeiro et al., 2021).  

O suporte emocional por parte dos familiares e profissionais da saúde, aliado a uma abordagem psicossocial durante o tratamento odontológico, contribuem significativamente para reduzir essas barreiras emocionais, aumentando assim a aceitação e adaptação às próteses dentárias (Quintão et al., 2020).  

A satisfação dos idosos com suas próteses dentárias está diretamente associada à qualidade de vida percebida por eles. Próteses bem confeccionadas e ajustadas proporcionam conforto, funcionalidade adequada e estética satisfatória, resultando em uma melhor percepção sobre a saúde bucal e maior satisfação geral (Oliveira et al., 2020).  

No entanto, fatores como desconforto inicial, ajustes inadequados e expectativas irreais podem comprometer essa satisfação, destacando a importância de acompanhamento contínuo e comunicação efetiva entre pacientes e profissionais da saúde bucal (Silva et al., 2022).  

Adesão e abandono: fatores determinantes no uso contínuo de próteses  

A adesão contínua ao uso de próteses dentárias depende de múltiplos fatores, incluindo conforto, funcionalidade, apoio social e situação econômica. A ausência desses fatores pode levar ao abandono das próteses, comprometendo a reabilitação oral dos idosos. Estudos apontam que o abandono ocorre principalmente em idosos com dificuldades financeiras para realizar ajustes periódicos ou substituições necessárias, além daqueles que enfrentam rejeição social ou dificuldades psicológicas na adaptação às próteses (Costa et al., 2020; Possobon et al., 2020).  

Dessa forma, estratégias para melhorar a acessibilidade aos serviços odontológicos e suporte psicossocial contínuo são essenciais para garantir o uso eficaz e sustentável das próteses dentárias pelos idosos. 

DISCUSSÃO  

Os estudos de Ribeiro, Santos e Baldani (2021) e Silva et al. (2022) convergem ao evidenciar a vulnerabilidade da população idosa frente ao acesso aos serviços odontológicos, ressaltando a influência direta de fatores socioeconômicos. Enquanto Ribeiro et al. destacam a alta prevalência de edentulismo entre idosos institucionalizados, associada ao baixo nível educacional e às condições socioeconômicas desfavoráveis, Silva et al. demonstram como eventos críticos, como a pandemia de COVID-19, agravam ainda mais essa realidade ao reduzir drasticamente a produção de próteses pelo SUS.  

Ambos os estudos, portanto, apontam que a precariedade do acesso à saúde bucal é resultado tanto de desigualdades estruturais quanto da fragilidade dos sistemas públicos diante de emergências. Os dados encontrados nesta pesquisa reforçam essa perspectiva, ao evidenciar que a limitação de acesso a próteses de qualidade afeta diretamente a adesão ao tratamento e a aceitação social entre idosos de baixa renda  

Essa análise conjunta reforça a urgência de políticas públicas mais eficazes, que garantam a equidade no acesso, a continuidade dos cuidados e a superação das barreiras sociais que historicamente comprometem a saúde bucal dos idosos brasileiros.  

Os estudos de Oliveira et al. (2021) e Martins et al. (2020) compartilham uma perspectiva crítica sobre o impacto das desigualdades socioeconômicas na saúde bucal dos idosos e suas implicações funcionais mais amplas. Oliveira et al. evidenciam como fatores econômicos determinam o acesso desigual aos serviços odontológicos, gerando disparidades significativas entre diferentes grupos sociais. Já Martins et al. complementam essa visão ao demonstrar que o edentulismo, muitas vezes consequência dessa falta de acesso, está diretamente associado à fragilidade física, afetando o estado nutricional e a funcionalidade dos idosos.  

Os estudos de Santos et al. (2020), Moreira, Nico e Sousa (2020) e Costa et al. (2020 convergem ao evidenciar como fatores socioeconômicos, educacionais, psicológicos e sociais interagem para moldar a saúde bucal dos idosos e sua adesão ao tratamento odontológico. Santos et al. destacam que o baixo nível de escolaridade compromete a consciência sobre práticas preventivas, favorecendo a incidência de doenças bucais e a perda dentária. Complementarmente, Moreira, Nico e Sousa apontam que a percepção subjetiva da necessidade de tratamento odontológico está fortemente associada a condições econômicas e psicológicas, influenciando diretamente a busca ativa por cuidados.  

Já Costa et al. reforçam que a aceitação social exerce papel decisivo na adaptação às próteses dentárias, sendo facilitada por redes de apoio e dificultada por experiências de exclusão. Em conjunto, esses estudos revelam que a adesão ao tratamento odontológico não depende apenas da disponibilidade de serviços, mas também da formação educacional, do suporte social e da percepção individual, indicando a importância de abordagens integradas e sensíveis às múltiplas dimensões que afetam a saúde bucal na velhice.  

Os estudos de Oliveira et al. (2020), Soria et al. (2020) e Freitas et al. (2020 apresentam uma análise convergente sobre a desigualdade no acesso aos serviços odontológicos entre idosos, com ênfase nas barreiras enfrentadas pelos que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica.  

Oliveira et al. e Soria et al. reforçam a ideia de que idosos de baixa renda têm menos acesso a tratamentos essenciais, o que compromete diretamente sua saúde bucal e qualidade de vida, destacando a urgência de políticas públicas inclusivas e direcionadas. Freitas et al. ampliam essa perspectiva ao mostrar que não apenas os idosos institucionalizados, mas também os que vivem em comunidade sofrem impactos significativos da desigualdade social na saúde bucal.  

Em conjunto, os três estudos apontam para uma lacuna estrutural no sistema de saúde, sugerindo a necessidade de ações preventivas e estratégias amplas de promoção à saúde bucal que contemplem tanto a equidade no acesso quanto a abrangência das intervenções para todos os perfis de idosos.  

Os estudos de Possobon et al. (2020), Quintão et al. (2020) e Maia et al. (2020) convergem ao demonstrar que a adesão dos idosos ao uso de próteses dentárias é resultado de uma complexa interação entre fatores emocionais, funcionais e socioeconômicos. Possobon et al. ressaltam o impacto dos aspectos emocionais, mostrando que sentimentos de perda e frustração podem reduzir as expectativas dos idosos quanto às próteses, afetando negativamente sua aceitação.  

Quintão et al. complementam essa visão ao apontar que a satisfação com a prótese — baseada em conforto, funcionalidade e estética — é crucial para o uso contínuo do dispositivo. Já Maia et al. ampliam a discussão ao questionar se a prevalência do edentulismo total é consequência do envelhecimento em si ou das desigualdades acumuladas ao longo da vida, destacando o peso do contexto socioeconômico.  

Juntos, esses estudos indicam que o sucesso na reabilitação oral dos idosos depende de uma abordagem integral que leve em conta não apenas as condições clínicas, mas também as dimensões emocionais e sociais da experiência com a perda dentária e o uso de próteses.  

Os achados destacam que a baixa renda, o baixo nível de escolaridade, a exclusão social, a percepção subjetiva da saúde bucal e a qualidade dos serviços oferecidos influenciam diretamente não apenas a ocorrência do edentulismo, mas também a aceitação, adaptação e uso contínuo das próteses. Além disso, situações emergenciais como a pandemia de COVID-19 agravaram a vulnerabilidade dos idosos que dependem exclusivamente do sistema público de saúde. A satisfação com as próteses, a presença de apoio social, o conforto funcional e a abordagem acolhedora por parte dos profissionais são determinantes para o sucesso da reabilitação oral. 

CONCLUSÃO  

A presente revisão integrativa permitiu concluir que a aceitação social e os fatores socioeconômicos desempenham papel determinante na adaptação e adesão ao uso de próteses dentárias por idosos. Observou-se que idosos com melhores condições socioeconômicas apresentam maior facilidade na adesão e aceitação das próteses, enquanto idosos em situação de vulnerabilidade social enfrentam maiores desafios devido às limitações financeiras e às barreiras de acesso aos serviços de saúde bucal. Além disso, fatores culturais, a autopercepção da saúde bucal e o suporte social também influenciam significativamente a adesão ao tratamento protético. Dessa forma, ressalta-se a importância de políticas públicas que ampliem o acesso e promovam equidade no cuidado odontológico da população idosa, visando melhorias na qualidade de vida, saúde geral e inclusão social desse grupo populacional.  

Com base na literatura analisada, é possível pensar em recomendações, como a ampliação do acesso aos serviços odontológicos para idosos em situação de vulnerabilidade social, com foco em soluções que atendam às necessidades específicas de cada grupo. Além disso, sugere-se a implementação de campanhas educativas sobre saúde bucal direcionadas aos idosos e seus cuidadores, bem como a capacitação de profissionais da saúde para promover um atendimento mais acolhedor e sensível às questões emocionais e sociais. Para futuras pesquisas, é essencial explorar mais profundamente os fatores psicossociais que influenciam a adesão ao uso de próteses dentárias e investigar alternativas inovadoras para reduzir as desigualdades no acesso a tratamentos odontológicos, especialmente em populações vulneráveis.  

No entanto, a revisão integrativa possui algumas limitações, como o recorte temporal, uma vez que o lapso temporal foi limitado entre artigos dos últimos 5 anos e não se pode analisar historicamente como se apresentava a relação dos idosos com o uso das próteses. Além disso, a seleção das bases de dados utilizadas pode ter restringido a diversidade de abordagens metodológicas e fontes de dados disponíveis. Ainda assim, a revisão oferece contribuições relevantes ao reunir evidências atuais e propor caminhos para reflexão sobre a temática em questão. 

REFERÊNCIAS  

RIBEIRO, A. E.; SANTOS, G. S.; BALDANI, M. H. Edentulismo, necessidade de prótese e autopercepção de saúde bucal em idosos institucionalizados. Saúde em Debate, v. 45, n. 137, p. 222-241, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sdeb/a/FtJtmFKdkvsWZMjLLFbWGQF/.  

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OLIVEIRA, A. C. et al. Utilização dos serviços odontológicos por idosos brasileiros: análise de classes latentes. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 24, 2021. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/rbepid/a/QDVZt3BXs48fssYwXcpb6TS/.

MARTINS, A. B. et al. Edentulismo e fragilidade em pessoas idosas: um estudo transversal. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 23, n. 1, p. 1-10, 2020. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/rbgg/a/SRPw7MdfDc5Nng3zS4d9GVj/.

SANTOS, R. S. et al. Associação entre fatores socioeconômicos, comportamentais e condições de saúde bucal em idosos. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 6, p. 2093-2102, 2020. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/csc/a/JFCftQBcLLD9cX96hF4fCbF/.

MOREIRA, R. S.; NICO, L. S.; SOUSA, M. L. R. Fatores associados à necessidade subjetiva de tratamento odontológico entre idosos brasileiros. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, n. 11, e00229019, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/vqh8FFnYrhXKv6TDgcyDzhq/.

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