THE RELATIONSHIP BETWEEN WORK AND THE MENTAL WELL-BEING OF HEALTHCARE PROFESSIONALS.
LA RELACIÓN ENTRE EL TRABAJO Y EL BIENESTAR MENTAL DE LOS PROFESIONALES SANITARIOS.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511212308
Pedro Henrique França Grupioni¹; Gilmar Martins da Mota Filho²; Kayque Steven Marciano³; Davi Lisboa Silva⁴; Dhiego Gomes⁵; Débora Vieira⁶; Julice de Freitas⁷.
RESUMO
Analisando os diferentes aspectos do processo de trabalho na área da saúde, como carga horária extensa, alta demanda emocional, falta de autonomia profissional e apoio organizacional insuficiente, estão associados a uma deterioração da saúde mental dos profissionais da saúde. Dessa forma, esse estudo objetiva investigar os casos de transtornos mentais em profissionais da saúde que estão inseridos nos cenários de atenção em saúde secundária do município de Itumbiara – GO. Para a realização desse trabalho, será feito, visitas sistemáticas nas esferas públicas, UPA e o Hospital Modesto de Carvalho (HMMC), com o objetivo de entregar os formulários contendo o teste ERI e SRQ-20, que irão nortear as perguntas aos profissionais com a finalidade de avaliar a saúde mental. Posteriormente, será realizado a prevalência de casos de transtorno e a interpretação dos testes aplicados. Os resultados demonstram de forma clara que uma parcela significativa dos participantes (29,6%) apresentou rastreio positivo para TMC, indicando uma alta vulnerabilidade social da saúde mental, que merece atenção imediata da saúde pública e ocupacional. Em paralelo, a análise do desequilíbrio ERI revelou que 26,53% da amostra se encontra em situação de Alto Risco (Desequilíbrio E-R), onde o esforço supera as recompensas percebidas, demonstrando que a população do estudo, tem dificuldade em estabelecer uma relação positiva entre o esforço e o comprometimento, com o salário obtido.
Palavras-chave: Saúde mental, profissionais da saúde, jornada de trabalho.
ABSTRACT
Analyzing the different aspects of the work process in the healthcare field such as long working hours, high emotional demands, lack of professional autonomy, and insufficient organizational support reveals their association with the deterioration of mental health among healthcare professionals. Thus, this study aims to investigate cases of mental disorders among healthcare workers who operate within secondary healthcare settings in the municipality of Itumbiara, Goiás. To conduct this research, systematic visits will be carried out in public health institutions, including the UPA and the Hospital Modesto de Carvalho (HMMC), with the purpose of delivering the ERI and SRQ-20 questionnaires, which will guide the assessment of the professionals’ mental health. Subsequently, the prevalence of mental disorder cases and the interpretation of the applied instruments will be conducted. The results clearly demonstrate that a significant portion of participants (29.6%) screened positive for common mental disorders (CMD), indicating high social vulnerability in mental health that requires immediate attention from public and occupational health services. Additionally, the analysis of the ERI imbalance showed that 26.53% of the sample was classified as being at High Risk (Effort–Reward Imbalance), where effort outweighs perceived rewards. This finding indicates that the study population has difficulty establishing a positive relationship between the effort invested and the rewards received, including salary.
Keywords: Mental health, health professionals, working hours.
RESUMEN
El análisis de los diferentes aspectos del proceso laboral en el ámbito sanitario, como las largas jornadas laborales, las altas exigencias emocionales, la falta de autonomía profesional y el insuficiente apoyo organizativo, revela su asociación con el deterioro de la salud mental de los profesionales sanitarios. Por ello, este estudio tiene como objetivo investigar los casos de trastornos mentales en profesionales sanitarios que trabajan en centros de atención secundaria en el municipio de Itumbiara (GO). Para ello, se realizarán visitas sistemáticas a centros públicos, al Servicio de Urgencias (UPA) y al Hospital Modesto de Carvalho (HMMC), con el fin de distribuir formularios que incluyen las pruebas ERI y SRQ-20, las cuales guiarán las preguntas a los profesionales para evaluar su salud mental. Posteriormente, se determinará la prevalencia de los casos de trastornos mentales y se interpretarán las pruebas aplicadas. Los resultados demuestran claramente que una proporción significativa de los participantes (29,6%) obtuvo un resultado positivo en la prueba de detección de trastornos mentales, lo que indica una alta vulnerabilidad social a los problemas de salud mental, que requiere atención inmediata por parte de los servicios de salud pública y laboral. Paralelamente, el análisis del desequilibrio ERI reveló que el 26,53% de la muestra se encuentra en una situación de alto riesgo (desequilibrio E-R), donde el esfuerzo supera las recompensas percibidas, lo que demuestra que la población estudiada tiene dificultades para establecer una relación positiva entre el esfuerzo y el compromiso con el salario obtenido.
Palabras clave: Salud mental, profesionales de la salud, jornada laboral.
1 INTRODUÇÃO
O conceito de transtornos mentais foi desenvolvido na década de 1970 por meio de estudos sobre doenças mentais em contextos de atenção primária. Esse conceito foi definido por Goldberg e Huxley, e refere-se a sintomas como insônia, fadiga, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de concentração e queixas somáticas. Esses autores ressaltam que os transtornos, mesmo que inicialmente não sejam graves, causam enorme sofrimento e podem posteriormente estar associados à incapacidade e à ausência no trabalho (Thomas, 2020).
A temática sobre saúde mental tem sido de grande relevância, desde a reforma psiquiátrica ocorrida no Brasil, principalmente após o decreto 3048, editado em 06/05/1999 pelo Ministério da Previdência e Assistência Social, tendo nova regulamentação a respeito das doenças profissionais, em especial para casos em que profissionais da área da saúde são afetados (Brasil, 2020).
O próprio Ministério da Saúde admite que a organização de uma política de formação de recursos humanos na área da saúde mental é crucial para a consolidação da Reforma da Assistência Psiquiátrica no Brasil. A maioria dos profissionais de formação psiquiatra encontra-se nos centros urbanos maiores; os programas de capacitação formal são raros e concentrados geograficamente; não há mecanismos de supervisão continuada ou de fixação dos psiquiatras no interior; não há oferta de cuidados para as situações clínicas mais graves e os usuários são, consequentemente, encaminhados para internações nos grandes centros, onde geralmente se concentram os hospitais psiquiátricos (Thomas, 2020).
No âmbito da formação em saúde mental de profissionais da saúde, as universidades têm mostrado pouca ênfase nessa temática. A carga horária curricular destinada a disciplinas de saúde mental dos cursos de graduação e pós-graduação é geralmente insatisfatória, de cunho predominantemente teórico, sem a oferta de estágios práticos com supervisão adequada, havendo predomínio do modelo biomédico e centrada no atendimento hospitalar em detrimento dos aspectos psicossociais e comunitários (Carro, 2021).
Os transtornos mentais, embora não configurem uma entidade clínica específica, descrita em manuais nosológicos, estão relacionados, aos transtornos de ansiedade, somatização e depressão sem sintomas psicóticos, constituindo, portanto, uma dimensão desses fenômenos psicopatológicos, pode ser expressa em nível coletivo e é necessário estudos epidemiológicos sobre os transtornos, visto que estão cada vez mais comuns (Carro, 2021).
Outro fator desencadeador de grande importância, assim como o assédio moral, é o excesso de trabalho, pois isso resulta em cansaço mental, demandando uma maior carga de concentração e energia cerebral. Esse excesso pode levar a uma diminuição do desempenho em algumas atividades corporais, levando a mente a reagir de várias formas, evidenciando sintomas como dor de cabeça persistente, fadiga muscular e falta de energia (Piccinato, 2016).
Conforme a literatura existente, os transtornos mentais mais frequentemente observados no ambiente de trabalho estão principalmente associados à depressão e aos distúrbios de ansiedade, embora haja também outros tipos de transtornos que ocorrem comumente no local de trabalho e muitas vezes passam despercebidos. (Brasil, 2020).
Sendo assim, esse estudo procurou investigar os casos de transtornos mentais em profissionais da saúde que estão inseridos nos cenários de atenção em saúde secundária do município de Itumbiara – GO.
2 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional, analítico de corte transversal, com abordagem quantitativa, aprovado pelo comitê ético de acordo com o parecer nº 7.412.574, do qual investigou a prevalência de casos de transtorno mental em profissionais de saúde da rede de atenção secundária, UPA e HMMC, de Itumbiara, GO. Foi usado, a aplicação de questionários e a análise de variáveis que demonstrou a realidade da situação dos trabalhadores nos ambientes já citados, bem como, a categoria profissional mais afetada, além da avaliação do impacto disso no processo de adoecimento, principalmente, no que diz respeito aos transtornos mentais. O estudo foi conduzido na UPA e no Hospital Municipal Modesto de Carvalho (HMMC), durante o primeiro semestre de 2025.
A escolha dos participantes contou exclusivamente com pessoas que trabalhavam diretamente com a área da saúde em um órgão público, totalizando um total de 71 profissionais, independente da área de atuação. A escolha dos participantes foi feita de forma conjunta, os questionários foram empregados junto com o termo de consentimento livre esclarecido, que foi assinado por todos os participantes do trabalho antes da resposta dos questionários.
Os Transtorno Mental Comum (TMC) foram mensurados pelo Self Reporting Questionnaire (SRQ-20), que é um instrumento composto por 20 questões de sim ou não que avaliam sintomas ansiosos, somáticos e depressivos ocorridos nos últimos 30 dias. O ponto de corte para suspeitar de uma TMC é de sete ou mais respostas positivas, sendo assim, valores iguais a 7 ou maiores, já podem indicar que o profissional possui algum tipo de distúrbio na saúde mental relacionado ao trabalho (Gonçalves, 2008).
Para coleta de informações diversas, utilizou-se um questionário estruturado que contemplou condições sociodemográficas e econômicas, características do trabalho e avaliação do estresse ocupacional com base no modelo Effort-Reward Imbalance (ERI). Foram analisadas variáveis como gênero, faixa etária, estado civil, etnia, ocupação, formação acadêmica e experiência profissional. Além disso, investigaram-se aspectos do ambiente laboral, incluindo profissão, tipo de contrato, nível de satisfação geral, demandas emocionais e possíveis conflitos entre tarefas, permitindo uma compreensão abrangente dos fatores associados ao estresse ocupacional.
Já o estresse ocupacional foi avaliado, utilizando o modelo teórico e metodológico do ERI, um instrumento de 23 questões que analisa os esforços e recompensas no trabalho, dividido em três escalas: esforço (seis itens), recompensa (onze itens) e excessivo comprometimento com o trabalho (seis itens). As respostas para as escalas de esforço e recompensa foram classificadas em quatro níveis, variando de “nem um pouco estressado” a “muito estressado”, enquanto a escala de comprometimento excessivo com o trabalho foi medida em quatro pontos, variando de “discordo fortemente” a “concordo fortemente”.
A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva, contemplando a organização, codificação e tabulação das variáveis sociodemográficas, ocupacionais e dos instrumentos aplicados (SRQ-20 e ERI). No primeiro momento, realizou-se a verificação da completude dos questionários, acompanhada pela inserção dos dados em planilha eletrônica e aplicação de procedimentos de consistência interna. As variáveis categóricas foram analisadas por meio da distribuição de frequências absolutas e relativas, caracterizando o perfil dos participantes e a prevalência das variáveis. Já, para a identificação de transtornos mentais comuns (TMC), os escores do SRQ-20 foram calculados com base no somatório das respostas afirmativas, adotando-se o ponto de corte ≥7, conforme validação nacional e, dessa forma, estimando a prevalência de rastreio positivo na amostra.
O estresse ocupacional foi avaliado pelo modelo Effort-Reward Imbalance (ERI), calculando-se os escores das subescalas de Esforço, Recompensa e Comprometimento Excessivo, os quais foram dicotomizados em níveis “Baixo” e “Alto” utilizando a mediana como ponto de corte. A Razão Esforço-Recompensa (ERI Ratio) foi obtida a partir da divisão do escore de Esforço pelo escore de Recompensa ajustado pelo fator de correção (0,5), classificando valores superiores a 1,0 como Desequilíbrio E-R (Alto Risco). Essa abordagem analítica permitiu identificar a magnitude do estresse psicossocial, bem como sua distribuição entre as diferentes categorias profissionais, contribuindo para a interpretação integrada das condições de trabalho e sua relação com a saúde mental dos participantes.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A amostra do presente estudo foi composta por 71 participantes, que responderam integralmente ao instrumento de coleta de dados. Observou-se predominância do sexo feminino, representando 81,3 (n=61) dos respondentes, enquanto o sexo masculino correspondeu a 13,3 % (n=10). Em relação ao estado civil, verificou-se que 49,3% (n=37) eram casados e 44% (n=33) solteiros, havendo apenas um registro ausente. Quanto à etnia, prevaleceram indivíduos pardos (57,8%), seguidos de brancos (39,4%) e negros (2,8%) (Tabela 1).
Tabela 1. Frequencia e porcentagem dos participantes da pesquisa.

No que se refere à ocupação ou especialização, observou-se maior frequência de técnicos de enfermagem, refletindo o predomínio de profissionais da área da saúde entre os participantes. O tempo de atuação profissional variou amplamente, com registros desde menos de cinco até mais de vinte anos de trabalho.
A aplicação do Questionário Self Reporting Questionnaire (SRQ-20) evidenciou variações relevantes nos aspectos emocionais e físicos autorreferidos pelos participantes. Aproximadamente 45% relataram dores de cabeça frequentes, enquanto 15,5% apresentaram falta de apetite. Um total de 63,4% afirmou dormir mal, e 38,0% relataram assustar-se com facilidade. Além disso, 29,6% mencionaram tremores nas mãos e 71,8% declararam sentir-se nervosos, tensos ou preocupados com frequência. Tais achados indicam a presença expressiva de sintomas compatíveis com algum tipo de transtorno mental, como a ansiedade, indicando que o ambiente de trabalho é um fator predisponente na ocorrência de sintomas ansiosos, como inquietação, preocupação excessiva, falta de apetite e insônia.
Os achados demonstram uma alta prevalência de rastreio positivo para TMC na amostra estudada, (29,6%) dos indivíduos atingiu ou excedeu o ponto de corte estipulado (≥7 respostas “Sim”). É fundamental ressaltar que o SRQ-20 é uma ferramenta de rastreio, e não diagnóstica. Os participantes classificados como “Rastreio Positivo” (≥7 “Sim”) devem ser encaminhados para uma avaliação clínica e psiquiátrica completa, a fim de confirmar o diagnóstico e iniciar o manejo terapêutico adequado.
Tabela 2. Interpretação do Questionário SRQ-20.

A análise dos níveis de desequilíbrio Esforço-Recompensa foi realizada na amostra, utilizando a mediana dos escores de cada subescala como ponto de corte para a classificação dicotômica entre baixo e alto. Os resultados de frequência e porcentagem para cada dimensão são apresentados na Tabela 3.
O indicador central do modelo ERI, a Razão Esforço-Recompensa, é calculado com base nos valores superiores a 1.0, em que são definidos como Desequilíbrio EsforçoRecompensa (DER), o cálculo é feito com relação na soma do esforço extrínseco em que o entrevistado tem em relação ao trabalho, dividido pela recompensa, levando em conta o fator de correção (0,5%). Com base nisso, podemos ter a classificação dos entrevistados se há possível desequilibro na relação.
Tabela 3. Prevalência de TMC pela escala ERI

Na dimensão Esforço, observou-se que a amostra apresentou uma distribuição equilibrada, e 47,9% (n=34) foram classificados no nível Alto Esforço, indicando que grande parte dos entrevistados concordam que apresentam grande esforço no trabalho. No que concerne à dimensão Recompensa, a maioria dos participantes (n=43; 60,6%) foi classificada no nível Baixa Recompensa, refletindo uma percepção de recompensas aquém da esperada para a maioria da amostra. Em contraste, 39,4% (n=28) dos participantes reportaram Alto Nível de Recompensa, o que necessariamente não indica que estejam felizes com os salários, mas que acham justa a recompensa a partir do próprio esforço.
Por fim, a dimensão comprometimento excessivo, apresentou 45,1% (n=32) dos valores classificada no nível alto comprometimento excessivo, sugerindo que uma parcela considerável dos participantes demonstra atitudes e padrões de comportamento caracterizados por elevado esforço e dificuldade em se desvincular do trabalho, além disso, é possível observar que além do comprometimento excessivo, 47,9% dos entrevistados, possuem um alto nível de esforço em relação ao trabalho, como foi visto anteriormente, sendo assim, a escala esforço e comprometimento excessivo, não reflete em um nível bom de recompensa, visto que nessa escala, os valores para alta recompensa não foram satisfatórios.
Para avaliar o desequilíbrio psicossocial global no trabalho, foi calculada a Razão Esforço-Recompensa (ERI Ratio) para os 71 participantes, utilizando a razão de itens padronizada. A amostra foi então classificada em dois grupos de risco, conforme o ponto de corte recomendado de 1.0: Equilíbrio E-R (Baixo Risco, ERI Ratio (< 1) e Desequilíbrio E-R (Alto Risco, ERI Ratio >1). Os resultados da classificação são apresentados na Tabela 4.
A análise revelou que a grande maioria da amostra se enquadra na categoria de Equilíbrio Esforço-Recompensa (Baixo Risco). Um total de 53 participantes (equivalente a 73,47%) apresentou uma Razão ERI inferior a 1.0, indicando que o esforço despendido no ambiente de trabalho é percebido como equilibrado ou proporcional às recompensas recebidas.
Em contrapartida, 26,53% dos participantes (n=18) foram classificados na categoria de Desequilíbrio Esforço-Recompensa (Alto Risco), com uma Razão ERI maior ou igual a 1.0. Este grupo representa os indivíduos sob risco de estresse, nos quais a percepção de esforço supera as recompensas, conforme a premissa central do modelo, em uma pesquisa com 71 participantes, o n=18 tem um impacto significativo para os profissionais de saúde de Itumbiara.
Tabela 4. Classificação do desequilíbrio ERI.

Os estudos de corte transversal consideram um ponto no tempo. Isso dificulta a verificação da relação causa-efeito nos processos de adoecimento. Ainda assim, o objetivo de avaliar a associação entre estressores ocupacionais no trabalho e TMC entre os trabalhadores de Itumbiara – GO, foram alcançados na medida em que se evidenciou forte associação entre desequilíbrio das situações de esforço-recompensa e a ocorrência de TMC entre os trabalhadores estudados.
Os achados demonstram uma alta prevalência de rastreio positivo para TMC na amostra estudada, dado que grande parte dos indivíduos (29,6%) atingiu ou excedeu o ponto de corte estipulado (≥7 respostas “Sim”). Em um contexto de saúde pública e psicossocial, uma taxa de rastreio positivo superior a 20% é um indicador robusto da necessidade de atenção e investigação aprofundada. O SRQ-20, sendo um instrumento de fácil aplicação, cumpre seu papel ao sinalizar grupos ou indivíduos com maior vulnerabilidade ou risco para o desenvolvimento de quadros clínicos de ansiedade, depressão e somatização (Costa et al, 2020).
Neste estudo a prevalência de TMC representou 29,4%, sendo maior que um estudo de base populacional realizado com 848 mulheres por inquérito domiciliar em Campinas-SP que apresentou prevalência de 18%, outros estudos nacionais apresentaram prevalências semelhantes, dois deles realizados com profissionais de enfermagem em hospitais, um no hospital psiquiátrico com 25,7% e outro com 285 trabalhadores de hospital geral do Paraná, Brasil, com 32,6% de TMC. Esses dados demonstram o alto índice de trantornos mentais em profissionais da saúde (Senicato, 2018).
Os dados do SRQ-20 são um alerta claro. O achado de que 29,6% dos indivíduos atingiram ou excederam o ponto de corte de ≥7 respostas “Sim”, é um indicador robusto de alta prevalência de Transtornos Mentais Comuns (TMC). Esta taxa, superior à observada em muitas populações gerais, sugere que o ambiente e as exigências da ocupação (provavelmente hospitalar ou de atenção à saúde, dada a composição da amostra) são potentes fatores estressores. (Nonnenmacher, 2019).
A prevalência de desequilíbrio esforço–recompensa encontrada (26,53%) indica que uma parcela significativa dos profissionais de saúde vivencia dificuldades na relação entre as demandas laborais e suas recompensas, refletindo o forte impacto do contexto ocupacional sobre a saúde mental. Esse desequilíbrio foi observado em ambos os sexos; contudo, devido à predominância de participantes do sexo feminino na amostra e à baixa adesão masculina aos questionários, análises estratificadas por sexo poderiam apresentar baixa robustez, reduzindo a confiabilidade de comparações isoladas entre os grupos.
As prevalências de TMC foram mais altas nas situações de desequilíbrio entre esforços e recompensas, fortalecendo a hipótese de que o não balanceamento entre esforços e recompensas no trabalho pode ser nocivo à saúde mental dos trabalhadores. Portanto, os resultados reforçam existência de relação entre estressores ocupacionais, segundo o modelo ERI – desequilíbrio entre esforço e recompensa, e os TMC: alto esforço, baixa recompensa e comprometimento excessivo com o trabalho são fontes de adoecimento, afetando a saúde física e mental (Senicato, 2018).
A frequência do desequilíbrio, não demonstrou significância entre os profissionais, indicando que tanto médicos, quanto enfermeiros e técnicos da saúde estão expostos ao estresse ocupacional e no desequilíbrio entre recompensa-esforço. Além disso, o elevado comprometimento excessivo observado pode atuar como mediador nessa relação, potencializando o impacto do desequilíbrio. Indivíduos com altos níveis de pressão tendem a manter esforços mesmo diante de esgotamento emocional, o que contribui para a cronificação do estresse e aumento do risco de TMC (Sousa, 2019).
A alta prevalência de Desequilíbrio E-R, apesar de o estudo não ter definido um diagnóstico específico de adoecimento mental, aponta para uma situação de estresse ocupacional e, consequentemente, para um nível de suspeição de Transtornos Mentais Comuns (TMC) nessa população. O desequilíbrio consistente entre o alto esforço despendido e as recompensas limitadas ou insatisfatórias cria um ambiente propício para a sobrecarga de trabalho e o risco psicossocial (Sousa, 2019).
Apesar das limitações relacionadas a este estudo, como a impossibilidade de avaliar a sequência temporal entre os eventos estudados (visto ser um desenho pontual que avalia exposição e desfecho num mesmo ponto do tempo) e o chamado efeito do “trabalhador sadio” (que seleciona e mantém no trabalho apenas aqueles indivíduos saudáveis), as informações produzidas são de grande utilidade. Estes dados reforçam a necessidade urgente de ações no sentido de minimizar essa condição estressante e de desprazer no trabalho, principalmente para o trabalhador que atua junto a um público que, ele próprio, também se encontra em sofrimento.
4 CONCLUSÃO
Os resultados demonstram de forma clara que uma parcela significativa dos participantes (29,6%) apresentou rastreio positivo para TMC, indicando uma alta vulnerabilidade social da saúde mental, que merece atenção imediata da saúde pública e ocupacional. Em paralelo, a análise do desequilíbrio ERI revelou que 26,53% da amostra se encontra em situação de Alto Risco (Desequilíbrio E-R), onde o esforço supera as recompensas percebidas, demonstrando que a população do estudo, tem dificuldade em estabelecer uma relação positiva entre o esforço e o comprometimento, com o salário obtido, indicando que muitos profissionais estão sobrecarregados pelas altas jornadas de trabalho, não compensado seja financeiramente ou pela satisfação profissional.
A ausência de diferença significativa no desequilíbrio entre diferentes categorias profissionais (médicos, enfermeiros, técnicos) sugere que o estresse ocupacional e o desequilíbrio E-R são desafios transversais nesse ambiente de trabalho. Apesar das limitações inerentes ao estudo transversal, que não permite estabelecer a relação de causalidade temporal, as informações produzidas são concisas. Elas funcionam como um alerta claro e reforçam a urgência de intervenções.
Dessa forma, é importante considerar a implementação de um conjunto abrangente de estratégias de intervenção. Tais estratégias devem visar reduzir os fatores estressores intrínsecos ao ambiente de trabalho e o fortalecimento dos elementos de proteção psicossocial. Para a redução dos aspectos estressores, recomenda-se a adoção de medidas estruturais como o dimensionamento adequado do quadro de pessoal, a garantia de condições ambientais salubres e a otimização da carga horária semanal Paralelamente, é crucial elevar as dimensões protetoras do ambiente, o que inclui fomentar uma liderança participativa, incentivar a tomada de decisões compartilhada, estimular a autonomia dos trabalhadores sobre suas tarefas e implementar planos de carreira, cargos e salários transparentes e justos.
Para futuras investigações, recomenda-se o desenvolvimento de estudos longitudinais que possam verificar a sequência temporal entre o desequilíbrio EsforçoRecompensa e o desenvolvimento de TMC, além de amostras com maior equilíbrio de gênero para aumentar a confiabilidade dos achados.
REFERÊNCIAS
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PICCINATO, R. Cansaço mental e Síndrome de Burnout: as principais causas desses problemas e dicas práticas para aliviar sua mental. Bauru: Alto Astral, 2019.
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THOMAS M, BIGATTI S. Perfectionism, impostor phenomenon, and mental health in medicine: a literature review. International Journal of Medical Education, v. 11, p. 201-213, 2020.
¹Estudante de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO. E-mail: phgrupioni@gmail.com;
²Estudante de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO;
³Estudante de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO;
⁴Estudante de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO;
⁵Estudante de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO;
⁶Docente do curso de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO;
⁷Docente do curso de medicina. Faculdade Zarns. Endereço: Itumbiara – GO.
