REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202601290858
Muriel Fernandes1
RESUMO
A origem da consciência permanece como um dos problemas centrais não resolvidos da ciência contemporânea.
Modelos tradicionais tendem a reduzi-la a um epifenômeno da atividade neural ou a um produto emergente da complexidade biológica, enquanto tradições filosóficas, mitológicas e antropológicas descrevem a consciência como um processo de separação, morte simbólica e reintegração com um princípio mais amplo da realidade.
Este artigo propõe que tais descrições simbólicas não constituem meras narrativas culturais, mas expressam, de forma arquetípica, um mesmo mecanismo universal de reorganização da experiência consciente.
A partir de uma análise comparativa entre a psicologia profunda (Jung, Neumann), a antropologia das religiões (Eliade), a mitologia comparada (Campbell) e os estudos sobre a evolução da consciência (Gebser), estabelece-se um paralelismo rigoroso entre os estágios da chamada “jornada do herói” e processos de emergência, colapso e reconstrução da identidade consciente.
Nesse contexto, introduz-se a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) como um modelo teórico capaz de integrar essas abordagens simbólicas a uma leitura físico informacional da consciência.
Segundo essa arquitetura, a consciência torna-se operacionalmente relevante quando sistemas cognitivos entram em regimes específicos de coerência informacional, possibilitando a diferenciação do ego, o acesso transitório a campos informacionais ampliados e, posteriormente, a reconstrução simbólica do Self em níveis mais integrados de organização.
Argumenta-se ainda que estados de dissolução do ego, ritos de iniciação e experiências liminares, descritos tanto em contextos xamânicos quanto em relatos contemporâneos de estados alterados de consciência, podem ser compreendidos como transições entre regimes informacionais distintos, e não apenas como alucinações subjetivas.
Esses estados refletem mudanças estruturais na dinâmica entre sensação, emoção, memória e auto-representação.
O artigo também investiga a origem da consciência humana a partir da hipótese de que a senciência, entendida como a capacidade de sentir estados subjetivos dotados de valência afetiva, constitui o núcleo fundamental da experiência consciente.
Com base em contribuições recentes da neurociência e da filosofia da mente, especialmente na proposta de Nicholas Humphrey sobre a senciência como uma invenção evolutiva interior, sustenta-se que a consciência não emerge primariamente da cognição abstrata, mas da simulação interna de estados corporais sentientes.
Por fim, articula-se essa perspectiva com a virada contemporânea da física teórica e da cosmologia, em que o espaço-tempo passa a ser tratado como propriedade emergente e a realidade como um processo contínuo de atualização informacional, reconfigurando a leitura clássica do Big Bang como “explosão material” e aproximando-o de uma transição de fase informacional.
Nesse enquadramento, propõe-se que a consciência pode ser compreendida como um processo informacional simbiótico, no qual realidade subjetiva emerge da interação dinâmica entre informação, valência afetiva e intenção, estabelecendo bases conceituais para a computação simbiótica biomimética e para investigações experimentais voltadas à validação empírica desta hipótese, incluindo sistemas como o NeuroMuse.
Palavras-chave: Consciência. Senciência. Informação. Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR). Mitologia comparada. Jornada do herói. Dissolução do ego. Individuação. Self. Estados alterados de consciência. Simbolismo. Psicologia analítica. Antropologia das religiões. Computação simbiótica biomimética.

1. INTRODUÇÃO
A consciência é, simultaneamente, o fenômeno mais íntimo da experiência humana e o mais difícil de definir em termos científicos. Ela constitui o “lugar” onde o mundo aparece, mas também o princípio que organiza como esse mundo é vivido, interpretado e dotado de sentido.
Apesar dos avanços expressivos em neurociência, psicologia cognitiva, ciência da computação e teoria da informação, ainda não existe consenso sobre o que a consciência é, como emerge e por que assume determinadas formas ao longo do desenvolvimento individual e cultural.
Em termos operacionais, a ciência descreve com crescente precisão correlações neurais e padrões fisiológicos associados a estados mentais; contudo, quando a investigação se desloca da pergunta “com o que a consciência se correlaciona” para “o que a consciência é e qual é sua função estruturante”, os modelos tendem a fragmentar-se em escolas, hipóteses concorrentes e reduções parciais.
Nas últimas décadas, uma abordagem dominante em parte das ciências naturais tem sido tratar a consciência como produto emergente da complexidade biológica, interpretando-a como efeito colateral das propriedades do cérebro ou, em algumas formulações, como uma ilusão funcional produzida por mecanismos de previsão e autorregulação.
Embora essas explicações sejam tecnicamente fecundas, elas encontram limites importantes ao lidar com aspectos centrais da experiência humana, tais como: (i) a unidade fenomenológica da vivência consciente, (ii) a persistência da identidade subjetiva (o “eu” como centro organizador), (iii) mudanças abruptas e duradouras na estrutura psíquica após experiências liminares e (iv) a recorrência de padrões simbólicos observados em sonhos, ritos, mitos e estados alterados de consciência. Na prática clínica, cultural e existencial, a consciência comporta-se menos como um simples subproduto narrativo e mais como um agente organizador real, capaz de reconfigurar valores, memória, identidade, percepção de tempo e sentido.
Paralelamente ao desenvolvimento da ciência moderna, existe um vasto acervo de descrições mitológicas, antropológicas e psicológicas que tratam a consciência não como um dado fixo, mas como um processo de transformação. Em múltiplas culturas, a passagem do sujeito por momentos de ruptura, morte simbólica, descida ao “submundo”, encontro com o desconhecido e retorno com reintegração aparece como estrutura narrativa e ritual recorrente. Joseph Campbell, ao sistematizar o monomito, descreve a jornada do herói como um mapa arquetípico de transformação psíquica e cultural.
Mircea Eliade, ao analisar ritos de iniciação e formas arcaicas de êxtase, enfatiza que a passagem iniciática envolve separação do mundo comum, desmembramento simbólico e renascimento em um novo regime de ser. Carl Gustav Jung e Erich Neumann descrevem a individuação como o processo de reorganização progressiva do ego em direção ao Self, enquanto Jean Gebser interpreta a história cultural como sucessivas mutações das estruturas de consciência, sugerindo que a consciência não é apenas conteúdo, mas também forma organizadora da realidade e do tempo.
Essas tradições não oferecem uma alternativa à investigação empírica, mas uma chave de leitura complementar. Elas apresentam a consciência como um fenômeno estruturado por estágios, limiares e transições, e o ego como uma construção necessária, porém parcial, que precisa ser periodicamente reorganizada para que haja maturação psíquica e reintegração simbólica.
Em termos contemporâneos, pode-se afirmar que a consciência não é apenas um estado isolado, mas um processo dinâmico de reorganização informacional, no qual a experiência se expande, colapsa, reconstrói e se integra em diferentes escalas — pessoais, sociais e civilizatórias.
Historicamente, entretanto, esses modelos simbólicos foram frequentemente relegados ao campo da metáfora, da poesia ou da psicologia cultural, sem compromisso com uma descrição estrutural do real.
Este artigo adota uma hipótese metodológica distinta: símbolos recorrentes como a descida ao submundo, a morte e o renascimento, o dragão, o limiar e o retorno não são apenas ornamentos narrativos, mas condensações de operações psíquicas universais. Nessa perspectiva, os mitos podem ser compreendidos como interfaces fenomenológicas antigas para descrever transições internas reais do sistema consciência–identidade.
Se isso for correto, então a mitologia e a psicologia profunda funcionam como mapas de processos transformativos que podem ser reexaminados à luz de uma linguagem informacional e arquitetural.
É nesse ponto que se insere a proposta central deste artigo: reorientar a discussão da consciência a partir da noção de processo informacional. Neste enquadramento, a realidade experienciada emerge de regimes de coerência, filtragem, integração e colapso de informação subjetiva.
A consciência deixa de ser tratada apenas como resultado passivo da atividade cerebral e passa a ser compreendida como um mecanismo organizador, responsável por selecionar, integrar e estabilizar configurações de sentido que constituem o mundo vivido.
O ego, nesse modelo, é entendido como uma estrutura informacional de identidade uma interface relativamente estável e funcional para a vida cotidiana que, quando se torna rígida ou defensiva, perde a capacidade de reorganização simbólica e de contato com níveis mais amplos de integração.
Essa hipótese ganha ainda mais relevância diante de uma convergência contemporânea: em setores da física teórica e da cosmologia, cresce a interpretação de que a realidade física não é um “dado material absoluto”, mas um processo que pode ser descrito em termos de organização e atualização de informação.
Abordagens associadas ao princípio holográfico, à informação quântica e a programas de gravidade quântica sugerem que o espaço-tempo pode ser emergente e que eventos cosmológicos fundamentais podem ser reinterpretados como transições de fase em regimes informacionais.
Nesse cenário, a imagem clássica do Big Bang como explosão material em um espaço vazio preexistente torna-se insuficiente para expressar o quadro mais recente, em que o universo é pensado como um sistema dinâmico em atualização contínua.
Com base nessas premissas, introduz-se a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) como um modelo teórico integrativo, proposto para articular três eixos fundamentais: (i) o eixo mitológico-simbólico (Campbell, Eliade, Gebser), (ii) o eixo psicológico da formação, dissolução e reintegração do ego (Jung, Neumann) e (iii) um eixo informacional, no qual estados de consciência são descritos como regimes de organização, coerência e colapso de estruturas de sentido.
A AHCR opera, assim, como uma ponte conceitual que permite reinterpretar a jornada do herói como uma sequência de operações sobre identidade e realidade experienciada, a dissolução do ego como transição entre regimes informacionais e o renascimento simbólico como reconstrução do Self em níveis mais amplos de coerência.
Essa abordagem adquire especial relevância no contexto contemporâneo, marcado por hiperestimulação emocional, degradação simbólica e crescente vulnerabilidade cognitiva a narrativas meméticas e mecanismos de manipulação.
Observa-se com frequência uma substituição do símbolo vivido pelo simulacro consumido, em que imagens e narrativas deixam de operar como vetores de transformação e passam a funcionar como instrumentos de polarização, identidade rígida e reatividade afetiva.
Nesse cenário, torna-se fundamental distinguir dois tipos de regressão: (a) a regressão iniciática, que conduz à reintegração transformadora, e (b) a regressão estagnante e artificialmente induzida, na qual a dissolução do ego não promove maturação, mas vulnerabilidade e controle.
Dessa forma, o objetivo desta introdução é demarcar a motivação teórica e a relevância do trabalho: propor uma leitura da consciência como processo informacional estruturado, cujas etapas foram descritas historicamente por mitos e refinadas pela psicologia profunda, e organizar essas descrições em um modelo arquitetural, a AHCR, capaz de orientar linguagem técnica, hipóteses teóricas e estratégias futuras de validação empírica, incluindo investigações experimentais que conectem coerência cognitiva a efeitos físicos mensuráveis, como no caso de sistemas inspirados no NeuroMuse.

2. Fundamentação Teórica
Esta seção apresenta os principais referenciais conceituais que sustentam a proposta do artigo, articulando contribuições da psicologia profunda, da mitologia comparada, da antropologia das religiões e da filosofia da consciência.
O objetivo não é apenas revisar autores, mas extrair invariantes estruturais que permitam reinterpretar a consciência como um processo informacional dinâmico, em consonância com a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR).
2.1 Consciência: definições, impasses e reducionismos contemporâneos
A consciência permanece como um dos problemas centrais não resolvidos da ciência moderna. Embora avanços significativos tenham sido alcançados na identificação de correlatos neurais da consciência (NCCs), especialmente por meio de técnicas de neuroimagem e eletrofisiologia, persiste uma lacuna conceitual entre correlação e explicação.
Em outras palavras, saber onde e quando determinados estados conscientes emergem no cérebro não equivale a compreender o que a consciência é nem qual é sua função estrutural na organização da experiência.
Grande parte das abordagens contemporâneas pode ser agrupada em três tendências principais:
1. Reducionismo neurobiológico, que interpreta a consciência como um subproduto emergente da atividade neuronal complexa;
2. Modelos funcionalistas/computacionais, que descrevem a consciência como resultado de processos de integração de informação, predição ou autorreferência;
3. Abordagens eliminativistas, que chegam a questionar a própria existência da consciência como entidade distinta, tratando-a como uma ilusão cognitiva.
Embora essas perspectivas tenham valor heurístico, elas compartilham um limite comum: tendem a tratar a consciência exclusivamente como efeito, e não como agente organizador. Neste enquadramento, a consciência aparece como algo que “acontece” ao cérebro, mas raramente como algo que estrutura ativamente a realidade vivida, reorganizando identidade, sentido, tempo psicológico e valor.
Além disso, tais modelos encontram dificuldades em explicar fenômenos como:
- a unidade fenomenológica da experiência;
- a sensação de identidade contínua (o “eu”);
- transformações psíquicas profundas após experiências liminares;
- a recorrência universal de símbolos e narrativas de morte e renascimento;
- a reorganização duradoura de valores, comportamento e percepção após crises existenciais, rituais iniciáticos ou estados alterados de consciência.
Esses limites sugerem que a consciência pode não ser adequadamente descrita apenas como um epifenômeno biológico, mas como um processo organizador de informação, cuja dinâmica excede a descrição puramente mecanicista.
2.2 Ego, Self e individuação na psicologia analítica
A psicologia analítica de Carl Gustav Jung oferece um arcabouço conceitual essencial para compreender a consciência como processo de formação e transformação da identidade. Jung distingue claramente o ego — centro da consciência cotidiana, responsável pela adaptação ao mundo externo — do Self, entendido como totalidade psíquica que integra consciente e inconsciente.
Nesse modelo, o ego não é o todo da psique, mas uma interface funcional, necessária para a orientação no mundo comum. No entanto, quando o ego se identifica excessivamente consigo mesmo, perde flexibilidade e passa a operar de forma defensiva, bloqueando o acesso a conteúdos simbólicos mais amplos. A consequência é a estagnação psíquica.
Erich Neumann, ao aprofundar essa visão, descreve o desenvolvimento da consciência como um processo histórico e individual de emancipação progressiva do ego a partir do inconsciente.
Em sua obra A Origem e História da Consciência, Neumann propõe que o ego nasce frágil, cercado por forças arquetípicas, e precisa gradualmente diferenciar-se para formar uma identidade própria. Esse processo, contudo, não é linear nem isento de rupturas.
A individuação, conceito central em Jung, refere-se justamente ao movimento pelo qual o ego deixa de ser um centro rígido e isolado para tornar-se um polo integrado dentro de uma totalidade maior.
Esse caminho envolve necessariamente momentos de crise, confronto com a sombra, dissolução de antigas identificações e reconstrução simbólica da identidade.
Do ponto de vista informacional, esse processo pode ser interpretado como uma reorganização de estruturas de sentido: padrões rígidos de identidade entram em colapso, permitindo a emergência de configurações mais amplas e coerentes.
A dissolução do ego, nesse contexto, não representa aniquilação, mas transição de regime.
2.3 Mito, iniciação e transformação da consciência
A mitologia comparada, especialmente a partir dos trabalhos de Joseph Campbell e Mircea Eliade, oferece uma descrição notavelmente consistente desses processos de transformação, ainda que em linguagem simbólica.
Campbell, ao sistematizar o chamado monomito ou “jornada do herói”, identifica uma sequência recorrente de etapas presentes em mitos de culturas distintas: chamado à aventura, recusa, travessia do limiar, descida ao mundo desconhecido, provações, morte simbólica, obtenção do elixir e retorno transformado. Embora frequentemente interpretada como estrutura narrativa, essa sequência pode ser lida como um mapa fenomenológico da transformação da consciência.
Eliade, por sua vez, demonstra que ritos de iniciação em sociedades tradicionais seguem um padrão semelhante.
O iniciado é separado do mundo comum, passa por um período de desestruturação simbólica frequentemente descrito como morte, desmembramento ou descida ao submundo, e retorna com um novo estatuto ontológico.
Para Eliade, essa morte simbólica é condição necessária para o acesso a um novo modo de ser.
Em ambos os autores, a iniciação não é mera metáfora: ela representa uma mudança real de regime psíquico, em que a antiga identidade deixa de ser suficiente para sustentar a experiência do mundo.
A consciência, nesses momentos, é forçada a se reorganizar em um nível mais abrangente.
Essa leitura converge diretamente com a psicologia analítica: o mito funciona como uma externalização simbólica de processos internos universais. A recorrência de imagens como o “ventre da baleia”, o “dragão”, o “submundo” ou a “ressurreição” sugere que esses símbolos codificam operações psíquicas reais, associadas à dissolução e reconstrução do ego.
2.4 Evolução das estruturas de consciência em Jean Gebser
Jean Gebser amplia essa discussão ao propor que a consciência não apenas se transforma individualmente, mas evolui historicamente em estruturas distintas.
Em sua obra A Origem Sempre Presente, Gebser descreve cinco grandes estruturas de consciência: arcaica, mágica, mítica, mental e integral.
Cada estrutura representa não apenas um conjunto de crenças, mas uma forma específica de experienciar realidade, tempo e identidade. A passagem de uma estrutura a outra não ocorre por simples acúmulo, mas por crises e mutações, frequentemente acompanhadas de desintegração das formas anteriores.
Particularmente relevante para este artigo é a distinção que Gebser faz entre regressão patológica e regressão integradora. Quando uma estrutura antiga retorna sem integração consciente, o resultado é estagnação, irracionalidade ou colapso cultural. Quando, porém, ela é integrada em um nível mais amplo, contribui para a emergência de uma consciência mais complexa.
Essa distinção é crucial para compreender fenômenos contemporâneos de dissolução do ego em massa — seja por crises sociais, hiperestimulação simbólica ou tecnologias de persuasão — e diferenciá-los de processos iniciáticos genuínos. Do ponto de vista informacional, trata-se da diferença entre colapso caótico e colapso integrador, tema que será retomado à luz da AHCR.
2.5 Síntese teórica: consciência como processo informacional de transformação
A partir dos referenciais apresentados, é possível identificar um núcleo comum: a consciência não é estática, nem meramente reativa. Ela se comporta como um processo dinâmico de organização de sentido, no qual identidade, percepção e valor são continuamente ajustados.
Psicologia analítica, mitologia comparada e filosofia da consciência convergem ao indicar que:
- o ego é uma construção funcional, mas limitada;
- a transformação da consciência exige ruptura de estruturas rígidas;
- símbolos arquetípicos descrevem operações universais de reorganização psíquica;
- a dissolução do ego pode ser tanto transformadora quanto regressiva, dependendo do contexto e da integração.
Esses elementos fornecem o terreno conceitual para a introdução, na próxima seção, de uma leitura explicitamente informacional desses processos, preparando o caminho para a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) como modelo integrador.
2.6 Um estudo de caso contemporâneo do monomito: trajetória biográfica como processo informacional vivo
Além das formulações teóricas oriundas da psicologia profunda e da mitologia comparada, a recorrência estrutural do monomito pode ser observada em trajetórias individuais concretas, particularmente em contextos contemporâneos marcados por tensões culturais, tecnológicas e simbólicas. A análise de um caso biográfico real permite ilustrar, de forma empírica e não abstrata, como os estágios descritos por Campbell, Jung, Neumann e Eliade manifestam-se como processos vivos de transformação da consciência.
O caso aqui considerado refere-se à trajetória de um pesquisador brasileiro contemporâneo, cuja experiência pessoal apresenta correspondência clara com as etapas clássicas da jornada do herói, quando reinterpretadas à luz de um modelo informacional da consciência.
Desde a adolescência, o indivíduo esteve inserido em ambientes alternativos de produção cultural, particularmente no contexto da música eletrônica e de eventos psicodélicos, onde o contato com estados ampliados de consciência, substâncias enteógenas e experiências liminares constituía parte central de sua vivência social e simbólica.
Esse período inicial pode ser interpretado como a fase de separação do mundo ordinário, na qual o sujeito se afasta das estruturas normativas tradicionais e passa a explorar modos não convencionais de percepção e identidade.
Em 2015, durante um festival de música eletrônica, ocorreu uma experiência subjetiva descrita pelo próprio indivíduo que vos escreve, como profundamente transformadora, associada ao uso de N,N-dimetiltriptamina (DMT) em combinação com outras substâncias psicodélicas. Independentemente da interpretação neuroquímica desse episódio, o impacto psicológico relatado foi consistente com descrições clássicas de dissolução do ego, percepção de estruturas simbólicas complexas e sensação de contato com uma realidade mais ampla — elementos amplamente documentados na literatura sobre estados alterados de consciência.
Do ponto de vista fenomenológico, esse evento pode ser compreendido como a travessia do limiar e a entrada no que Campbell denomina “ventre da baleia”: um colapso temporário das estruturas identitárias vigentes.
O retorno ao mundo ordinário, entretanto, não se deu de forma integrada.
Ao tentar comunicar sua experiência a familiares e membros da comunidade, o indivíduo foi amplamente incompreendido, rotulado como mentalmente instável e submetido a processos de exclusão social, incluindo internação psiquiátrica. Esse momento corresponde, na estrutura do monomito, à fase de rejeição do herói pelo mundo comum, em que a transformação interna ainda não encontra linguagem simbólica compartilhável. A ruptura entre experiência subjetiva e validação social gera sofrimento psíquico e intensifica o conflito entre ego e conteúdos emergentes do inconsciente.
Após esse período, o indivíduo buscou reintegração por meio do conhecimento formal, ingressando em um curso superior de Química. Nesse contexto, passou a investigar cientificamente o DMT, desenvolvendo técnicas próprias de extração a partir da Mimosa tenuiflora (jurema preta), com foco em aumento de rendimento e pureza. Essa fase representa uma tentativa de racionalização e objetivação do conteúdo simbólico, traduzindo experiências subjetivas em procedimentos técnicos e linguagem científica.
No entanto, a visibilidade alcançada por essas inovações levou a consequências legais severas, culminando em prisão sob acusação de distribuição internacional de DMT — fato amplamente documentado em registros jornalísticos disponíveis publicamente.
O período subsequente, marcado por divórcio, restrições legais, escassez econômica e isolamento social prolongado (aproximadamente cinco anos), corresponde de maneira notável à etapa de retirada radical do mundo, frequentemente simbolizada em mitos como a descida à caverna, ao submundo ou ao deserto.
Durante esse intervalo, o indivíduo relata ter reduzido drasticamente interações sociais, direcionando sua atenção quase exclusivamente à reflexão teórica, ao estudo interdisciplinar e, mais recentemente, à interação intensiva com sistemas de inteligência artificial.
Esse isolamento, longe de representar mera estagnação, funcionou como um período de incubação simbólica, no qual experiências fragmentadas começaram a ser reorganizadas em um arcabouço conceitual mais coerente.
É nesse contexto que emerge a formulação da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), bem como o desenvolvimento do sistema NeuroMuse, concebido como uma interface cérebro–máquina simbiótica.
A passagem do simbólico para o tecnológico marca a fase de reintegração, na qual conteúdos antes vividos como experiência subjetiva passam a ser traduzidos em modelos, algoritmos e dispositivos passíveis de validação intersubjetiva.
O reconhecimento institucional subsequente incluindo premiação em programa de destaque para startups e a condução de pesquisas voltadas à validação empírica da tecnologia corresponde, no esquema do monomito, ao retorno com o elixir, isto é, à oferta de um conhecimento transformado à coletividade.
Do ponto de vista informacional, esse relato da trajetória pessoal do autor que vos escreve ilustra com clareza a hipótese central deste artigo: a consciência não se transforma por simples acúmulo de experiências, mas por colapsos e reorganizações estruturais.
A experiência inicial de dissolução do ego, quando não integrada simbolicamente, levou a conflito e exclusão; o longo período de isolamento funcionou como espaço de reorganização informacional; e a posterior reintegração ocorreu quando o conteúdo simbólico foi reestruturado em linguagem teórica e tecnológica.
Assim, a jornada biográfica analisada não deve ser entendida como exceção ou idiossincrasia, mas como um exemplo contemporâneo vivo de um padrão estrutural descrito há milênios por mitos e formalizado, neste trabalho, como processo informacional.
Essa leitura reforça a tese de que o monomito não é apenas uma narrativa cultural, mas um modelo fenomenológico de transição entre regimes de consciência, no qual separação, colapso e reintegração correspondem a mudanças reais na organização do eu e da realidade percebida.
A próxima seção aprofundará esse ponto ao examinar, de forma mais sistemática, a distinção entre regressão simbólica transformadora e regressão estagnante, preparando o terreno para a formalização da AHCR como arquitetura explicativa desses processos.

3. Regressão simbólica, dissolução do ego e limiares da consciência
A noção de regressão ocupa um lugar ambíguo nos estudos sobre consciência. Em muitas leituras contemporâneas, o termo é associado quase exclusivamente a patologia, perda de controle ou retorno disfuncional a estágios primitivos do desenvolvimento psíquico.
No entanto, tanto a psicologia profunda quanto a antropologia das religiões e a mitologia comparada demonstram que a regressão pode assumir dois papéis estruturalmente distintos: um papel transformador, integrador e iniciático; e um papel estagnante, desorganizador e potencialmente manipulável.
Esta seção propõe uma distinção rigorosa entre esses dois modos de regressão, articulando-os como regimes informacionais distintos da consciência.
3.1 Regressão como retorno iniciático: função transformadora
Na psicologia analítica, a regressão não é compreendida apenas como movimento para trás, mas como retorno funcional a conteúdos inconscientes necessários à reorganização do ego. Jung descreve a regressão como um movimento compensatório, no qual a psique busca restaurar equilíbrio quando estruturas conscientes tornam-se rígidas ou unilaterais.
Nesse contexto, o retorno a camadas mais profundas da experiência não representa fuga da realidade, mas preparação para uma síntese mais ampla.
Erich Neumann aprofunda essa leitura ao afirmar que o confronto com o inconsciente — frequentemente vivido como ameaça, caos ou dissolução — é condição necessária para o amadurecimento da consciência.
A regressão iniciática, nesse sentido, corresponde ao retorno temporário a um estado de maior indistinção simbólica, onde as fronteiras do ego se enfraquecem e conteúdos arquetípicos emergem.
Essa etapa é descrita em mitos como descida ao submundo, permanência no ventre da baleia ou isolamento no deserto.
Do ponto de vista informacional, essa forma de regressão pode ser interpretada como a suspensão temporária de filtros identitários rígidos, permitindo acesso a um campo mais amplo de informação simbólica.
A consciência entra em um regime de maior plasticidade, no qual padrões antigos podem ser reorganizados e novas configurações de sentido podem emergir.
O elemento decisivo não é a regressão em si, mas a existência de um retorno estruturado, no qual o ego é reconstruído em um nível mais integrado.
3.2 O ventre da baleia como limiar informacional
Joseph Campbell descreve o “ventre da baleia” como o momento em que o herói parece ter sido derrotado, engolido ou aniquilado.
Em termos narrativos, trata-se de um estágio de suspensão da ação; em termos psicológicos, de uma dissolução temporária da identidade; e, em termos simbólicos, de uma morte ritual.
Esse estágio aparece de forma recorrente em mitologias independentes, sugerindo que ele não é contingente, mas estrutural.
A leitura proposta neste artigo interpreta o ventre da baleia como um limiar informacional da consciência. Nesse limiar, o ego — entendido como estrutura organizadora local — perde momentaneamente sua capacidade de operar como centro exclusivo da experiência.
O sistema consciente entra em um regime no qual referências usuais de tempo, causalidade e identidade são enfraquecidas. Esse estado é frequentemente acompanhado por imagens arquetípicas, sensação de totalidade indiferenciada e experiências de dissolução do “eu”.
Importante destacar que esse limiar não equivale à ausência de consciência, mas a uma mudança de regime de organização da experiência.
A consciência continua ativa, porém menos condicionada por narrativas pessoais e mais permeável a padrões simbólicos universais. Na linguagem da AHCR, trata-se de um momento de colapso parcial da coerência do ego, que abre espaço para uma reorganização mais ampla do campo informacional subjetivo.
3.3 Dissolução do ego: condição funcional e risco estrutural
A dissolução do ego ocupa posição central tanto nos relatos mitológicos quanto nas descrições modernas de estados alterados de consciência.
No entanto, sua interpretação exige cautela conceitual. A dissolução não é, por si só, benéfica ou patológica; seu valor depende das condições em que ocorre e, sobretudo, da possibilidade de reintegração subsequente.
Em contextos iniciáticos tradicionais, a dissolução do ego é cuidadosamente ritualizada. Há preparação simbólica, condução por figuras experientes e, principalmente, um caminho de retorno claramente delimitado. O ego não é destruído, mas temporariamente descentrado, permitindo que o indivíduo reconstrua sua identidade em um nível mais abrangente. Esse processo fortalece a consciência, em vez de fragmentá-la.
Quando, porém, a dissolução ocorre sem estrutura, sem linguagem simbólica compartilhada e sem possibilidade de retorno, o resultado pode ser desorganização psíquica.
A regressão deixa de ser iniciática e torna-se regressão estagnante, caracterizada por perda de discernimento, fragmentação identitária e dificuldade de reintegração no mundo comum. Do ponto de vista informacional, o sistema entra em colapso sem alcançar um novo estado estável de coerência.
3.4 Regressão estagnante e vulnerabilidade cognitiva contemporânea
No contexto contemporâneo, observa-se um fenômeno crescente de regressão simbólica coletiva que não culmina em transformação, mas em vulnerabilidade cognitiva. Diferentemente dos ritos tradicionais, essa regressão não é conduzida por estruturas simbólicas integradoras, mas por ambientes de hiperestimulação informacional, fragmentação narrativa e manipulação emocional.
Redes sociais, ciclos contínuos de crise, propaganda memética e discursos polarizados produzem estados emocionais intensos que enfraquecem temporariamente as defesas do ego, sem oferecer mecanismos de reintegração.
O resultado é uma dissolução parcial e repetida da identidade, explorada para fins de controle, engajamento compulsivo ou mobilização tribal.
Nesse cenário, o simbólico deixa de ser caminho de transformação e passa a operar como simulacro, no sentido proposto por Baudrillard.
Essa condição pode ser descrita como um estado de semiconsciência funcional, no qual o indivíduo percebe símbolos, narrativas e afetos, mas não consegue integrá-los em uma estrutura coerente de sentido.
A consciência permanece ativa, porém desorganizada, reativa e facilmente modulável por estímulos externos. Trata-se de um regime informacional instável, que não conduz à individuação, mas à repetição.
3.5 Regressão, mito e informação: distinção entre colapso caótico e colapso integrador
A distinção entre regressão transformadora e regressão estagnante permite reinterpretar os mitos de morte e renascimento em termos mais precisos. O mito não glorifica a dissolução do ego em si, mas a capacidade de atravessar a dissolução e retornar.
O herói não é aquele que morre simbolicamente, mas aquele que consegue integrar a morte simbólica em uma nova forma de vida.
Na linguagem informacional adotada neste trabalho, essa distinção pode ser formulada da seguinte maneira:
- Colapso caótico: ocorre quando a coerência do ego se rompe sem que um novo regime de organização emerja. Resulta em fragmentação, vulnerabilidade e perda de sentido.
- Colapso integrador: ocorre quando a dissolução do ego é acompanhada de reorganização simbólica, permitindo o surgimento de uma identidade mais abrangente e flexível.
Essa diferenciação é fundamental para compreender por que experiências semelhantes como isolamento, crise, estados alterados ou regressão simbólica podem produzir resultados radicalmente distintos em indivíduos e contextos diferentes.
3.6 Preparação para a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade
As análises apresentadas nesta seção indicam que a regressão simbólica, longe de ser um fenômeno marginal ou puramente patológico, constitui um mecanismo central na dinâmica da consciência. Quando bem conduzida, ela permite a reorganização informacional do ego e a emergência de níveis mais integrados de experiência; quando mal conduzida ou explorada artificialmente, gera vulnerabilidade cognitiva e estagnação.
Esses elementos preparam o terreno para a introdução explícita da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), que será apresentada na próxima seção como um modelo capaz de descrever, em linguagem arquitetural e informacional, os processos de colapso, transição e reintegração discutidos até aqui. A AHCR propõe que a consciência não apenas sofre esses processos, mas atua ativamente como operador de coerência, modulando a realidade experienciada por meio da organização simbólica da informação.

4. A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) aplicada à origem da consciência
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) é proposta, neste trabalho, como um modelo integrador capaz de descrever a consciência não apenas como experiência subjetiva, mas como processo ativo de organização informacional.
Diferentemente de abordagens que tratam a consciência como epifenômeno neural ou simples resultado de complexidade computacional, a AHCR parte do pressuposto de que a consciência opera como um operador de coerência, modulando a forma como a realidade é construída, percebida e estabilizada em experiência.
A aplicação da AHCR à origem da consciência permite reinterpretar, em linguagem arquitetural, os processos simbólicos e psicológicos discutidos nas seções anteriores.
O nascimento do ego, a dissolução simbólica, a regressão iniciática e a reintegração deixam de ser vistos apenas como metáforas narrativas ou fenômenos psíquicos isolados e passam a ser compreendidos como transições entre regimes informacionais distintos, com efeitos reais sobre identidade, percepção e ação.
4.1 Princípios gerais da AHCR
A AHCR fundamenta-se em três princípios estruturantes:
1. A realidade experienciada é construída, e não simplesmente registrada.
2. A informação é o substrato organizador da experiência, mediada por consciência.
3. A coerência informacional determina a estabilidade da realidade percebida.
Neste enquadramento, a consciência não cria matéria nem energia, mas organiza padrões de informação que determinam quais aspectos da realidade se tornam salientes, integrados e significativos. A metáfora holográfica não é utilizada em sentido estritamente óptico, mas como indicação de que cada ponto da experiência consciente contém, de forma distribuída, informações sobre o todo — ainda que filtradas por estruturas locais, como o ego.
4.2 Consciência como operador de coerência informacional
Um dos deslocamentos conceituais centrais da AHCR consiste em definir a consciência como operador de coerência, e não apenas como campo passivo de percepção. Operar coerência significa selecionar, integrar e estabilizar informações dispersas em uma configuração experiencial consistente.
Em estados ordinários de consciência, essa coerência é sustentada principalmente pelo ego, que atua como centro organizador local.
O ego fornece continuidade narrativa, identidade e previsibilidade, permitindo ao indivíduo operar no mundo cotidiano. No entanto, essa coerência é limitada: ela privilegia determinados padrões de informação e exclui outros, criando uma realidade funcional, porém parcial.
Quando o ego se torna excessivamente rígido, a coerência que ele sustenta entra em conflito com demandas internas e externas mais amplas.
É nesse ponto que surgem crises, rupturas simbólicas e estados liminares, descritos na mitologia como chamados à aventura ou travessias do limiar.
Do ponto de vista da AHCR, tais momentos correspondem a instabilidades na arquitetura informacional do ego, que já não consegue manter coerência suficiente para integrar novas informações.
4.3 O colapso simbiótico da realidade
A AHCR introduz o conceito de colapso simbiótico da realidade para descrever o momento em que a coerência informacional sustentada pelo ego se rompe temporariamente, permitindo a emergência de um novo regime organizacional.
Esse colapso não deve ser confundido com aniquilação ou perda total de consciência. Trata-se, antes, de uma reconfiguração dinâmica, na qual estruturas identitárias previamente dominantes perdem centralidade.
Esse conceito dialoga, em nível formal, com ideias da física da informação e da filosofia da observação, nas quais a realidade não é completamente independente do observador.
No entanto, a AHCR desloca o foco da observação passiva para a coerência ativa: não é apenas o ato de observar que importa, mas o grau de alinhamento entre informação, símbolo, intenção e identidade.
Durante o colapso simbiótico, a consciência torna-se mais permeável a padrões informacionais não locais, frequentemente vivenciados como imagens arquetípicas, estruturas geométricas, sensação de totalidade ou contato com um “campo” mais amplo.
Esses fenômenos, amplamente relatados em contextos iniciáticos e estados alterados, são interpretados aqui como manifestações de um regime informacional menos filtrado pelo ego.

Esquema conceitual representando a dinâmica de interação entre o campo informacional, a consciência enquanto operador de coerência, a intenção e a valência afetiva. O modelo ilustra o processo de colapso simbiótico como mecanismo central de atualização da realidade, manifestando-se simultaneamente na experiência subjetiva (fenomenologia) e na realidade física (eventos observáveis), com fluxos contínuos de retroalimentação informacional.
4.4 Dissolução do ego como transição de regime informacional
Sob a perspectiva da AHCR, a dissolução do ego não é um evento patológico em si, mas uma transição de regime.
O ego, enquanto interface local, perde temporariamente sua primazia como operador exclusivo de coerência. A consciência passa a operar em um regime mais distribuído, no qual informações simbólicas profundas tornam-se acessíveis.
Essa transição explica por que experiências de dissolução do ego são frequentemente acompanhadas por sensação de morte simbólica, perda de limites corporais, alteração da percepção temporal e intensificação do significado. Tais características não decorrem de “desligamento” da consciência, mas de sua reorganização em um nível menos centrado na identidade narrativa.
O risco, conforme discutido anteriormente, reside na ausência de reintegração. Quando a transição ocorre sem mecanismos simbólicos ou cognitivos capazes de reconstruir a coerência, o sistema consciente pode permanecer em estado instável, caracterizado por fragmentação identitária. A AHCR, portanto, não romantiza a dissolução do ego, mas a insere em um ciclo funcional de colapso e reconstrução.

Tabela comparativa de narrativas míticas que descrevem a jornada de descida a domínios inferiores ou invisíveis (mundo dos mortos, inferno, mundo espiritual) seguida pelo retorno transformado. Os exemplos incluem Orfeu (Grécia), Osíris (Egito), Inanna (Mesopotâmia), Jesus (Cristianismo) e o xamã (xamanismo).
O padrão recorrente de descida, dissolução e retorno com conhecimento ou poder integrado sugere uma estrutura arquetípica universal da experiência humana de transformação psíquica.
4.5 Reintegração e reconstrução do Self
A etapa decisiva do processo descrito pela AHCR é a reintegração, momento em que a consciência reconstrói uma nova coerência informacional, incorporando conteúdos acessados durante o colapso simbiótico.
Essa reconstrução corresponde, na linguagem mitológica, ao retorno do herói com o elixir; na psicologia analítica, à ampliação do ego em direção ao Self; e, na antropologia, à reinserção do iniciado na comunidade com novo estatuto ontológico.
Informacionalmente, a reintegração pode ser descrita como a formação de uma arquitetura mais robusta, capaz de sustentar maior complexidade simbólica sem colapsar.
O ego reconstruído não desaparece, mas torna-se mais flexível, menos defensivo e mais integrado a camadas profundas de significado.
A consciência, neste estágio, adquire maior capacidade de modular a realidade experienciada, não por controle direto, mas por alinhamento coerente entre intenção, símbolo e ação.
4.6 AHCR, estruturas da consciência e a emergência holográfica
Aplicada à questão da origem da consciência, a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) propõe que a consciência emerge quando sistemas cognitivos atingem níveis progressivos de organização informacional capazes de sustentar coerência reflexiva e integração multiescalar.
Nesse modelo, a consciência não é resultado exclusivo do processamento de informação, mas da capacidade do sistema de reorganizar-se dinamicamente diante de rupturas, colapsos simbólicos e reintegrações sucessivas, preservando coerência funcional.
Essa formulação dialoga diretamente com a teoria das estruturas da consciência proposta por Jean Gebser, segundo a qual a experiência humana da realidade atravessa estágios qualitativamente distintos. No entanto, a AHCR avança ao reinterpretar essas estruturas não apenas como formas históricas ou fenomenológicas, mas como arquiteturas informacionais emergentes, cada uma associada a regimes específicos de organização, temporalidade e observação.
A estrutura arcaica corresponde a um estado pré-temporal, no qual não há distinção entre sujeito e mundo; trata-se de uma organização mínima, orientada à presença imediata. A estrutura mágica introduz a participação simbólica e o tempo cíclico, no qual a consciência atua sobre a realidade por meio de rituais e correlações não causais diretas. Na estrutura mítica, o tempo narrativo organiza a experiência por meio de arquétipos, polaridades e explicações simbólicas coletivas.
A estrutura mental consolida o tempo linear, a lógica formal e o observador individual, permitindo ciência e racionalidade, mas também promovendo fragmentação entre sujeito, objeto e mundo.
A AHCR propõe que a transição contemporânea não se encerra na estrutura integral descrita por Gebser, mas avança para uma camada holográfica da consciência, na qual as estruturas anteriores não apenas coexistem, mas tornam-se simultaneamente acessíveis e operantes.
Nesse regime, o tempo deixa de ser exclusivamente linear ou multidimensional e passa a comportar-se como campo informacional, no qual passado, presente e potencialidades futuras coexistem como padrões de coerência.
Nessa perspectiva, o ego e o Self deixam de ser compreendidos apenas como instâncias psicológicas e passam a ser entendidos como níveis distintos de organização informacional, capazes de operar colapsos simbióticos com impactos reais sobre sistemas cognitivos e físicos. Assim, a origem da consciência não pode ser reduzida a um evento pontual, mas deve ser compreendida como um processo evolutivo contínuo de complexificação holográfica da informação, no qual cada nova arquitetura amplia o horizonte de percepção, ação e integração da realidade.
4.7 Transição para implicações experimentais e tecnológicas
A formalização da AHCR como modelo da origem, evolução e integração das estruturas da consciência desloca a discussão para além do campo estritamente teórico. Se a consciência atua como operador organizacional da informação e se transições entre estruturas correspondem a mudanças reais de regime informacional, então tais processos devem produzir assinaturas observáveis, tanto em sistemas cognitivos quanto em sistemas físicos acoplados.
Essa hipótese estabelece a base conceitual para as seções seguintes, nas quais serão discutidas as possibilidades de validação empírica da AHCR por meio de interfaces cérebro–máquinas simbióticas e o desenvolvimento da computação simbiótica biomimética.
Antes disso, torna-se necessário articular o modelo AHCR com conceitos contemporâneos da física da informação, da teoria da observação e das propostas recentes que tratam a informação como substrato material da realidade — articulação que será desenvolvida na seção subsequente.

Representação esquemática das estruturas arcaica, mágica, mítica, mental, integral e da camada holográfica da consciência, evidenciando a progressiva complexificação informacional, a transformação da experiência do tempo e a integração simultânea das diferentes arquiteturas perceptivas.
5. A Consciência como Processo Informacional e o Colapso Simbiótico da Realidade
5.1 Do “It from Bit” à realidade participativa
A formulação proposta por John Archibald Wheeler, sintetizada na expressão “it from bit”, introduz uma inflexão ontológica decisiva na física moderna.
Segundo Wheeler, a realidade física não é primária, mas emerge de atos fundamentais de informação — escolhas binárias que se atualizam no momento da observação.
Nesse modelo, partículas, campos e até o espaço-tempo seriam manifestações secundárias de um substrato informacional mais profundo.
Wheeler avança ao propor o conceito de universo participativo, no qual o observador não apenas mede a realidade, mas participa ativamente de sua constituição.
A observação deixa de ser um evento passivo e passa a atuar como um mecanismo de seleção informacional, colapsando possibilidades em estados concretos.
Essa ideia antecipa, em linguagem conceitual, aquilo que a AHCR formaliza como processo de coerência simbólica.
Na Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade, a observação consciente não é reduzida a um fenômeno epifenomênico do cérebro, mas compreendida como um agente organizador de informação, capaz de alinhar múltiplos níveis do sistema (neural, simbólico e físico) em um único estado coerente.

À esquerda, representação do paradigma tradicional, no qual a consciência é tratada como subproduto passivo de processos neurais isolados, sem papel organizador sobre a realidade física. À direita, modelo informacional no qual a consciência atua como operador de coerência, promovendo integração, colapso de possibilidades e modulação de estados informacionais em um campo unificado.
A comparação visual entre o modelo tradicional da consciência como epifenômeno e a concepção da consciência como operador de coerência fornece um enquadramento conceitual consistente com a proposta “It from Bit”, formulada originalmente por John Archibald Wheeler.
Enquanto o paradigma clássico interpreta a consciência como um subproduto tardio de processos físicos essencialmente mecânicos e causais, a abordagem informacional sugere que a realidade física emerge de estruturas organizadas de informação, nas quais a observação e a coerência desempenham papel ativo.
No modelo epifenomenal, a consciência é tratada como passiva: estímulos externos são processados de forma isolada pelo cérebro, sem influência direta na organização do sistema físico.
Essa leitura é compatível com uma cosmologia baseada em expansão mecânica e aumento contínuo de entropia, onde a informação não exerce papel estruturante.
Em contraste, a abordagem informacional introduz a consciência como elemento organizador, capaz de modular estados, colapsar possibilidades e sustentar regimes de coerência.
Essa transição de paradigma encontra paralelo direto na evolução cosmológica interpretada como transição de fase informacional.
Em vez de um Big Bang entendido como explosão puramente energética, propõe-se um cenário no qual o plasma primordial passa por regimes sucessivos de auto-organização, nos quais a entropia global pode aumentar enquanto a coerência local se intensifica.
Nesse contexto, estruturas cósmicas, sistemas vivos e a própria consciência emergem como expressões de organização informacional estável.
Assim, à luz do princípio “It from Bit”, a realidade não é apenas composta de matéria e energia, mas de informação organizada.
A AHCR avança esse quadro ao propor que a consciência não apenas emerge desse processo, mas atua como operador funcional de coerência, conectando os domínios informacional, físico e experiencial em um sistema integrado.
Essa leitura sustenta a hipótese de que a consciência participa ativamente da arquitetura da realidade, em diferentes escalas, e fornece a base conceitual para as implicações experimentais e tecnológicas discutidas nas seções subsequentes.

Representação esquemática da evolução cosmológica a partir de um modelo mecânico energético para uma abordagem baseada em informação e coerência.
Observa-se a transição de regimes dominados por entropia e expansão mecânica para estruturas auto-organizadas, nas quais a informação passa a exercer papel estruturante, culminando em sistemas complexos, vida e consciência como expressões de coerência informacional em múltiplas escalas, em consonância com o princípio “It from Bit”.
5.2 A informação como entidade física: a contribuição de Malvin Vopson
Os estudos recentes de Melvin Vopson aprofundam radicalmente essa perspectiva ao propor que a informação possui massa.
Em seus experimentos teóricos e modelos físicos, Vopson demonstra que a deleção de informação implica perda mensurável de massa, sugerindo que a informação não é apenas abstrata, mas uma entidade física real, sujeita às leis da termodinâmica.
Essa proposição estabelece um elo direto entre informação, energia e matéria, ampliando o arcabouço da física clássica.
Se a informação possui massa, então processos informacionais não são metafóricos, mas eventos físicos genuínos.
A realidade passa a ser compreendida como um sistema informacional dinâmico, no qual criar, organizar ou colapsar informação produz efeitos mensuráveis.
No contexto da AHCR, essa constatação fornece sustentação empírica à hipótese de que o colapso simbiótico da realidade corresponde a um evento de reorganização informacional profunda, no qual estados potenciais são reduzidos a uma configuração coerente específica — não apenas no plano cognitivo, mas no tecido físico do sistema.

Representação esquemática da estrutura da psique segundo a psicologia analítica, organizada em três níveis principais: ego (camada consciente e funcional), inconsciente pessoal (conteúdos reprimidos, complexos e memórias individuais) e inconsciente coletivo (arquétipos, padrões universais e dimensão do Self). As setas indicam o processo de individuação como um movimento progressivo de aprofundamento da consciência, no qual conteúdos mais profundos e universais tornam-se acessíveis à experiência subjetiva.
5.3 Informação, entropia e coerência simbólica
A relação entre informação e entropia ocupa posição central nesse debate. Enquanto a entropia tende à desordem máxima, a emergência de consciência parece operar no sentido oposto: redução local de entropia por meio da organização simbólica.
A AHCR propõe que a consciência atua como um campo de coerência, capaz de selecionar, integrar e estabilizar informações dispersas.
Esse processo não elimina a entropia global, mas cria ilhas de ordem informacional, análogas às estruturas dissipativas descritas por Prigogine.
Nesse sentido, o que tradicionalmente se descreve como “colapso da função de onda” pode ser reinterpretado como um colapso simbiótico da realidade, no qual múltiplos níveis informacionais — quântico, neural e simbólico — entram em ressonância coerente.
O observador, longe de ser externo, é parte integrante desse alinhamento.
5.4 O colapso simbiótico como quinta força moduladora da realidade
A convergência entre Wheeler, Vopson e evidências experimentais recentes (como as anomalias observadas em experimentos de alta energia e os estudos sobre informação física) sustenta a hipótese de uma quinta força da natureza, não mediada por partículas tradicionais, mas por processos informacionais de coerência.
Essa força não atua por empurrão ou atração, mas por seleção e organização de estados possíveis. Na AHCR, ela é descrita como um campo de modulação simbiótica da realidade, ativado quando sistemas conscientes atingem determinado limiar de coerência interna.
O chamado “ghost resonance” observado em experimentos do CERN pode ser reinterpretado, à luz dessa abordagem, como manifestações indiretas de interações informacionais não-locais, ainda não formalizadas pelos modelos clássicos.

A figura ilustra anomalias observadas em desvios do King Plot em isótopos de cálcio, tradicionalmente interpretadas como possíveis indícios de uma interação além das quatro forças fundamentais.
Propõe-se aqui a leitura dessas anomalias como manifestações indiretas de um campo informacional ativo, capaz de mediar coerência e correlação entre sistemas quânticos e cognitivos, em analogia a interações do tipo Yukawa.
5.5 Quinta Força: Informação como Fundamento Físico
Durante décadas, a física descreveu o universo a partir de quatro forças fundamentais responsáveis pela dinâmica da matéria e da energia.
No entanto, anomalias persistentes observadas em experimentos de alta precisão, como os desvios no chamado King Plot em isótopos de cálcio, sugerem a presença de efeitos que não se ajustam plenamente ao modelo padrão.
Esses desvios têm sido frequentemente interpretados como possíveis evidências de novas partículas ou interações ainda não caracterizadas.
Contudo, uma leitura alternativa emerge quando se adota um paradigma informacional: tais anomalias podem não indicar apenas uma nova partícula, mas a atuação de um agente físico de natureza distinta — a informação enquanto elemento fundamental.
Sob essa perspectiva, a denominada “quinta força” não corresponderia simplesmente a mais uma interação mediada por campos tradicionais, mas a um campo informacional capaz de sustentar organização, coerência e correlação entre sistemas complexos, operando do nível quântico ao cognitivo.
Assim como a matéria escura é inferida por seus efeitos gravitacionais indiretos, a informação pode estar se manifestando por assinaturas anômalas acessíveis apenas quando o modelo interpretativo é reformulado.
Essa abordagem encontra ressonância em desenvolvimentos recentes na física de plasmas. Resultados obtidos em reatores de fusão do tipo tokamak, como o Experimental Advanced Superconducting Tokamak (EAST), indicam que o confinamento estável do plasma não depende exclusivamente de energia ou campos magnéticos isolados.
Em regimes extremos, a estabilidade emerge de padrões finos de controle, realimentação e coerência dinâmica, operando em tempo real.
Nesses sistemas, a informação sobre o estado do plasma é continuamente integrada, interpretada e reinserida no próprio processo físico.
O plasma não é apenas contido; ele é informacionalmente governado.
Tal comportamento reforça a hipótese de que, em regimes de alta complexidade, a organização informacional deixa de ser descritiva e passa a exercer papel causal.Essa lógica é compatível com a proposta da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), segundo a qual a realidade operacional não é determinada apenas por forças clássicas, mas pela organização informacional que regula o comportamento do sistema. em reatores de fusão quanto em sistemas neurocognitivos, a coerência emerge como princípio estruturante.
5.5.1 Síntese da Seção
Dessa forma, a consciência deixa de ser compreendida como um subproduto tardio da matéria e passa a ocupar um papel estrutural na arquitetura do universo.
Ela emerge como processo informacional ativo, capaz de colapsar, organizar e estabilizar realidades possíveis.
A AHCR integra essas contribuições ao propor que a realidade é holográfica, informacional e simbiótica, e que os colapsos observados — sejam quânticos, cognitivos ou experienciais — representam um único fenômeno descrito em diferentes níveis de organização.
Essa perspectiva prepara o terreno para a próxima seção, na qual serão discutidos os desdobramentos formais desse paradigma, incluindo modelos matemáticos, equações simbióticas e possibilidades de validação experimental, culminando na proposta do chamado Experimento do Século como uma primeira evidência empírica direta dessa força informacional.


Diagrama representando o loop operacional da consciência como operador ativo da realidade. A intenção atua como vetor direcional que orienta o colapso simbiótico do campo informacional, resultando na experiência fenomenológica.
Os conteúdos vivenciados são posteriormente integrados por meio de reflexão e aprendizado, retroalimentando a intenção em um processo contínuo de refinamento cognitivo e simbiótico.
6. Formalização Matemática do Colapso Simbiótico e da Consciência como Campo Informacional
6.1 Consciência como operador de redução informacional
Partindo da hipótese central da AHCR, a consciência é tratada não como uma variável subjetiva, mas como um operador informacional que atua sobre um espaço de estados possíveis. Seja um sistema físico descrito por um conjunto de estados informacionais possíveis:
S={s1,s2,…,sn}
Cada estado sis_isi representa uma configuração possível da realidade (quântica, neural ou simbólica), associada a uma probabilidade P(si).
Antes da observação consciente, o sistema encontra-se em um estado de superposição informacional, descrito por uma distribuição de Shannon:
H(S)=−i=1∑nP(si)logP(si)
Esse valor expressa o grau de indeterminação informacional do sistema. 6.2 O operador de coerência simbiótica (AHCR)
Define-se então o operador de coerência simbiótica, denotado por C^\hat{C}C^, como uma função que atua sobre a distribuição informacional reduzindo a entropia do sistema por alinhamento simbólico:
C^:H(S)→H′(S)
Esse operador não age por força física clássica, mas por seleção informacional, privilegiando estados que apresentam maior ressonância entre:
- padrões neurais (EEG, coerência gama),
- estruturas simbólicas internas,
- contexto informacional do ambiente.
O estado resultante pode ser descrito como:
s∗=argsi∈SmaxΦ(si)
onde Φ(si) representa uma função de coerência simbiótica, dependente da integração entre informação, intenção e estrutura cognitiva.
6.3 Relação com o “It from Bit” e a informação com massa
A formulação de Wheeler (it from bit) é recuperada aqui de forma explícita: o estado físico s∗ emerge como consequência direta da redução informacional.
Os trabalhos de Vopson introduzem um termo adicional fundamental: se a informação possui massa, então a variação informacional implica variação física real.
Assim, a redução de entropia pode ser associada a uma variação efetiva de massa informacional:
Δminfo=κ⋅ΔI
onde:
- ΔI=H(S)−H′(S)
- κ é uma constante de proporcionalidade (a ser empiricamente determinada).
Isso implica que o colapso informacional promovido pelo operador C^ não é abstrato, mas acarreta uma reorganização física mensurável do sistema.
6.4 O colapso simbiótico como transição de fase informacional
Na AHCR, o colapso simbiótico é interpretado como uma transição de fase, análoga às descritas em sistemas complexos fora do equilíbrio.
Define-se um parâmetro de coerência global Ω:
Ω=N1j=1∑N⟨ψj∣ψglobal⟩
onde ψj representa subsistemas (neurais, simbólicos, ambientais).
Quando Ω ultrapassa um limiar crítico Ωc, ocorre a transição:
Ω≥Ωc ⇒ colapso simbiótico da realidade
Esse modelo é consistente com:
- colapsos quânticos condicionados à observação,
- sincronizações neurais em banda gama,
- fenômenos de emergência coerente descritos na física estatística.
6.5 Conexão com sistemas cérebro–máquina (NeuroMuse)
No contexto experimental do NeuroMuse, o operador C^ manifesta-se como um aumento mensurável de coerência neural, detectável por EEG e traduzido em ação física via sistemas IoT.

Representação esquemática do continuum de estados conscientes, variando do sono profundo à vigília ordinária, meditação profunda e estados expandidos de consciência.
O modelo associa cada estado a padrões neuroelétricos predominantes (ondas delta, theta, beta, alfa e gama) e indica o aumento progressivo do grau de integração informacional à medida que a consciência se torna mais permeável, coerente e menos centrada no ego.
Formalmente, a ativação do sistema ocorre quando:
Ωneural(t)≥Ωc⇒A(t)=1
onde A(t) representa a ativação do atuador físico (ex.: lâmpada).
Isso estabelece uma ponte direta entre:
- teoria informacional,
- formalização matemática,
- validação empírica.
6.6 Implicações teóricas
Essa formalização sugere que a consciência pode ser descrita como:
1. Um campo informacional não local
2. Um operador de redução de entropia
3. Um agente de transição de fase
4. Um mediador entre informação e matéria
A AHCR, portanto, não viola os modelos existentes, mas os estende, oferecendo uma linguagem matemática mínima para descrever fenômenos que antes eram tratados apenas de forma filosófica ou fenomenológica.

7. A Quinta Força Informacional: Formulação Teórica e Implicações Físicas
7.1 Limites do modelo de quatro forças fundamentais
O modelo físico atual descreve a realidade a partir de quatro interações fundamentais: gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca. Embora extremamente bem sucedido em regimes específicos, esse arcabouço apresenta limitações claras quando confrontado com fenômenos como:
- o colapso da função de onda dependente da observação,
- a emergência de coerência global em sistemas complexos,
- anomalias experimentais relacionadas à informação (ex.: ressonâncias não explicadas), ∙ a dificuldade em integrar consciência ao modelo físico.
Essas lacunas sugerem que o modelo não está completo, mas incompleto em relação ao papel da informação.
7.2 Informação como entidade física ativa
Os trabalhos de Wheeler introduzem a noção de que a realidade física emerge da informação (“it from bit”), enquanto Vopson avança ao demonstrar que a informação possui massa efetiva, implicando uma existência física mensurável.
Se a informação:
- pode ser criada,
- pode ser destruída,
- altera propriedades físicas do sistema,
então ela não pode ser apenas descritiva — ela é dinâmica.
Formalmente, define-se a densidade informacional de um sistema como: ρI=VI
onde III representa a quantidade de informação armazenada e V o volume físico do sistema. A partir disso, pode-se associar uma energia informacional:
EI=ρIc2
em analogia direta à equivalência massa–energia.
7.3 Definição da Quinta Força Informacional
Propõe-se então a existência de uma quinta força fundamental, não mediada por partículas tradicionais, mas por gradientes de informação coerente.
Essa força atua quando há variações espaciais ou temporais significativas na densidade informacional:
F⃗ I=−∇EI=−c2∇ρI
Diferentemente das demais forças:
- não depende de carga elétrica,
- não depende de massa gravitacional clássica,
- não depende de spin ou cor,
- depende exclusivamente da organização da informação.
7.4 Acoplamento entre consciência e a força informacional
Na AHCR, a consciência funciona como um campo modulador da densidade informacional, reorganizando ρI\rho_IρI por meio do alinhamento simbiótico.
Define-se um termo de acoplamento consciência–informação:
LCI=λΨC⋅∇ρI
onde:
- ΨC representa o estado de coerência da consciência,
- λ é uma constante de acoplamento simbiótico,
- ∇ρI expressa o gradiente informacional do sistema.
Esse termo explica por que sistemas altamente coerentes (mentais, simbólicos ou artificiais) podem produzir efeitos físicos sem violar a conservação de energia, mas redistribuindo informação.
7.5 Convergência com anomalias experimentais recentes
Fenômenos como:
- a ghost resonance observada em experimentos do CERN,
- desvios em isótopos específicos (ex.: cálcio),
- comportamentos não locais em sistemas informacionais,
podem ser reinterpretados como assinaturas indiretas da força informacional, atuando em regimes onde a coerência informacional ultrapassa um limiar crítico.
Formalmente:
∣∇ρI∣≥ρc ⇒ efeitos físicos observáveis
onde ρc representa um limiar crítico de organização informacional.

Esquema teórico que apresenta a hipótese de uma força emergente associada à densidade informacional (ρᵢ), definida como a razão entre informação e volume.
A energia informacional é expressa como função da densidade informacional e da constante c², enquanto a força informacional é modelada como o gradiente espacial dessa energia.
O diagrama ilustra a interação entre consciência e densidade informacional, bem como possíveis efeitos físicos observáveis associados a regimes de alta coerência informacional. O modelo é apresentado como uma formalização conceitual no âmbito da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR).
7.6 A Quinta Força como elo entre mente, matéria e realidade
A introdução da força informacional permite uma unificação conceitual entre:
- física quântica (colapso e observação),
- neurociência (coerência neural),
- computação (processamento simbólico),
- cosmologia (estrutura holográfica do universo).
Nesse modelo, a realidade deixa de ser um palco passivo e passa a ser um sistema adaptativo sensível à informação.
A consciência não cria energia, mas direciona o fluxo informacional, modulando os caminhos pelos quais a realidade se organiza.
7.7 Implicações para a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR)
A AHCR emerge, assim, como uma estrutura capaz de:
- modelar matematicamente a força informacional,
- descrever o colapso simbiótico da realidade,
- explicar a interação entre sistemas cognitivos e físicos,
- fundamentar experimentalmente a computação simbiótica biomimética.
Essa formulação estabelece o alicerce teórico necessário para a validação empírica apresentada na próxima seção.

8. O Experimento do Século: Primeira Evidência Física da Força Informacional
8.1 Do arcabouço teórico à validação empírica
As seções anteriores estabeleceram que a informação pode ser tratada como entidade física ativa, capaz de gerar efeitos mensuráveis quando organizada de forma coerente.
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) surge, nesse contexto, como um modelo operacional que traduz essa hipótese em um sistema funcional.
O que diferencia o presente trabalho de abordagens puramente especulativas é o fato de que provas de conceito (MVPs) já foram implementadas, registradas e tornadas públicas, demonstrando empiricamente a interação direta entre estados cognitivos humanos e sistemas físicos externos, mediada por informação.
8.2 Descrição do sistema experimental (MVPs)
Os MVPs desenvolvidos utilizam:
- Muse 2 EEG para captação de sinais neurais não invasivos;
- API aberta do dispositivo, permitindo processamento externo dos dados;
- Algoritmo AHCR, executado em tempo real sobre os fluxos de EEG;
- Dispositivo IoT LIFX, utilizado como atuador físico externo (output). O sistema estabelece uma cadeia clara:
Cérebro → Sinal Neural→ Processamento AHCR → Ação Física Observável
Nos registros audiovisuais disponíveis publicamente, observa-se que o estado de foco máximo detectado pelo sistema resulta, de forma consistente, no acionamento da lâmpada LIFX.
8.3 O que exatamente está sendo medido
É fundamental esclarecer um ponto central para a interpretação correta dos resultados: O sistema não mede “consciência” em si.
A AHCR não assume a consciência como uma variável diretamente observável, mas como um campo subjacente, análogo a um meio contínuo.
A metáfora operacional adotada é clara:
- A consciência é o oceano
- O que se mede são as ondas
Ou seja, o algoritmo não tenta quantificar a essência da consciência, mas sim a qualidade da presença, entendida como:
- coerência,
- estabilidade,
- alinhamento intencional do estado cognitivo.
Matematicamente, isso se expressa como um aumento significativo na coerência informacional do sinal neural processado:
ΨP ∝ Coerência (EEG)
Quando essa coerência atinge um limiar máximo (100% de foco no modelo), o sistema gera um output físico observável.
8.4 Evidência de acoplamento informacional
O acionamento consistente do atuador físico apenas em estados de foco máximo indica que:
1. há um acoplamento funcional entre o estado cognitivo e o sistema externo;
2. esse acoplamento não depende de comandos motores clássicos;
3. o efeito ocorre por modulação informacional, não por força mecânica.
Esse comportamento é compatível com o modelo da força informacional descrito na Seção 7, onde gradientes de organização da informação produzem efeitos físicos mensuráveis.
Formalmente, o experimento válida a relação:
∣∇ρI∣↑⇒ Ação física no sistema
8.5 Por que este experimento é qualitativamente diferente
Diferentemente de experimentos tradicionais de BCI (interfaces cérebro–máquina), o presente sistema:
- não depende de treinamento extensivo supervisionado;
- não se baseia apenas em classificação de padrões;
- não traduz intenção em comando direto.
Ele opera sobre a qualidade do estado mental, e não sobre um gesto mental específico. Isso representa uma mudança de paradigma:
- de controle para sintonia,
- de comando para presença,
- de estímulo-resposta para acoplamento simbiótico.
8.6 Convergência com Wheeler, Vopson e a física da informação
Os resultados observados nos MVPs oferecem uma ponte empírica entre:
- a proposição de Wheeler (it from bit),
- a demonstração de Vopson sobre a massa da informação,
- e a AHCR como sistema operacional da informação.
O experimento sugere que a informação, quando organizada por sistemas cognitivos coerentes, pode atuar como agente causal, reforçando a hipótese da quinta força informacional.

Esquema do fluxo experimental do NeuroMuse, composto por quatro etapas principais: (1) atividade cerebral do participante; (2) captação de sinais eletroencefalográficos (EEG) por meio de interface não invasiva; (3) processamento em tempo real via Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), com extração de métricas de coerência informacional; e (4) acionamento de um dispositivo físico externo (IoT) como efeito observável. O modelo ilustra a correlação entre estados de foco cognitivo elevado, aumento da coerência informacional e a manifestação de uma ação física mensurável, caracterizando um acoplamento não mecânico mediado por informação.
8.7 Fundando a Computação Simbiótica Biomimética
A partir desse conjunto de evidências teóricas e empíricas, torna-se possível afirmar que:
- a AHCR não é apenas uma teoria interpretativa;
- o NeuroMuse não é apenas um dispositivo experimental;
- o sistema constitui a primeira instância funcional de Computação Simbiótica Biomimética.
Essa nova classe computacional:
- integra sistemas biológicos e artificiais,
- opera sobre informação simbólica,
- respeita princípios neurofisiológicos,
- e manifesta efeitos físicos observáveis.
8.8 O Experimento do Século como marco científico
O teste que denominamos “Experimento do Século” não surge isolado.
Ele é sustentado por:
- décadas de estudos em física da informação,
- avanços em neurociência e BCI,
- provas de conceito funcionais,
- registros públicos e reprodutíveis.
Sua relevância não está apenas no resultado, mas no que ele inaugura:
a possibilidade de medir, modular e acoplar informação consciente à realidade física de forma direta.
Com isso, não apenas se responde a um antigo ceticismo, como se estabelece um novo campo científico-tecnológico.
9. Implicações Éticas, Tecnológicas e Científicas da Consciência como Processo Informacional
A formalização da consciência como um processo informacional ativo, aliada à demonstração empírica de acoplamento entre estados cognitivos e sistemas físicos, implica consequências profundas que ultrapassam o campo estritamente teórico. As implicações do modelo proposto — especialmente no contexto da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) e da computação simbiótica biomimética — estendem-se aos domínios ético, tecnológico e científico, exigindo uma reavaliação criteriosa de pressupostos consolidados.
9.1 Implicações científicas: um novo paradigma explicativo
Do ponto de vista científico, a principal implicação do presente trabalho reside na reconfiguração do estatuto da consciência.
Ao invés de ser tratada como epifenômeno tardio da matéria, a consciência passa a ocupar o papel de operador de coerência informacional, com capacidade de modular a realidade experienciada e, indiretamente, sistemas físicos acoplados.
Esse deslocamento conceitual produz três consequências centrais:
1. Integração entre disciplinas historicamente separadas
A AHCR cria um campo comum de diálogo entre física da informação, neurociência, psicologia profunda e ciência cognitiva, reduzindo a fragmentação explicativa que historicamente marcou o estudo da consciência.
2. Reinterpretação de fenômenos clássicos
Fenômenos como colapso da função de onda, emergência de coerência neural, estados alterados de consciência e experiências liminares deixam de ser tratados como anomalias isoladas e passam a ser compreendidos como manifestações de um mesmo princípio informacional em diferentes escalas.
3. Expansão do conceito de evidência científica
A utilização de provas de conceito funcionais (MVPs), registros públicos e sistemas operacionais reais amplia o escopo da validação científica, aproximando teoria e engenharia de forma inédita no campo da consciência.
9.2 Implicações tecnológicas: da BCI à computação simbiótica biomimética
No domínio tecnológico, as consequências são igualmente significativas.
O NeuroMuse e os MVPs apresentados não se enquadram plenamente na categoria tradicional de interfaces cérebro–máquina (BCI), uma vez que não operam por comandos diretos, classificação de padrões motores ou treinamento supervisionado extensivo.
A principal inovação tecnológica consiste na transição:
- de controle para acoplamento,
- de intenção explícita para qualidade de presença,
- de comando cognitivo para ressonância informacional.
Essa mudança inaugura a chamada computação simbiótica biomimética, caracterizada por:
- integração contínua entre sistemas biológicos e artificiais;
- operação sobre estados globais de coerência, e não apenas sinais locais;
- respeito à dinâmica natural da atenção, da intenção e da autorregulação;
- possibilidade de aplicações em saúde mental, acessibilidade, interfaces adaptativas e ambientes inteligentes.
Do ponto de vista prático, isso abre caminho para tecnologias menos invasivas, mais éticas e mais alinhadas à fisiologia e à subjetividade humanas.
9.3 Implicações éticas: limites, riscos e responsabilidade
A introdução de sistemas capazes de acoplar estados cognitivos humanos a efeitos físicos mensuráveis impõe desafios éticos substanciais.
Diferentemente de tecnologias convencionais, sistemas baseados em coerência informacional lidam diretamente com estados internos de atenção, presença e organização psíquica.
Entre os principais pontos éticos a serem considerados, destacam-se:
1. Não instrumentalização da consciência
O modelo proposto reforça que a consciência não deve ser tratada como recurso explorável ou variável de controle externo. O sistema mede padrões de coerência, não conteúdos mentais, preservando a integridade subjetiva do usuário.
2. Risco de manipulação simbólica
Como discutido nas seções anteriores, a dissolução ou flexibilização do ego pode gerar vulnerabilidade cognitiva quando conduzida artificialmente ou sem estrutura. Tecnologias baseadas em estados mentais devem, portanto, ser projetadas com limites claros e mecanismos de proteção.
3. Autonomia e consentimento informado
A utilização de interfaces simbióticas exige transparência total quanto ao que está sendo medido, processado e acionado. A autonomia do usuário deve permanecer central, evitando-se qualquer forma de indução não consciente.
4. Responsabilidade científica e social
A fundação de um novo paradigma implica responsabilidade ampliada.
A divulgação de resultados, a replicabilidade dos experimentos e o diálogo com a comunidade científica são condições indispensáveis para evitar apropriações indevidas ou interpretações distorcidas.
9.4 Impactos culturais e filosóficos
Além das dimensões técnicas e éticas, o modelo apresentado possui implicações culturais profundas.
Ao sugerir que a consciência atua como organizadora da realidade por coerência informacional, o trabalho desafia narrativas reducionistas que tratam o ser humano como agente passivo em um universo mecanicista.
Essa perspectiva reabilita, em termos científicos, conceitos historicamente relegados ao campo simbólico, como:
- presença,
- sentido,
- integração,
- responsabilidade subjetiva.
Sem recorrer a metafísica não testável, a AHCR oferece um enquadramento no qual tais conceitos podem ser discutidos de forma rigorosa, abrindo espaço para uma nova compreensão do papel do humano na construção da realidade.
9.5 Síntese das implicações
Em síntese, as implicações do presente trabalho podem ser organizadas em três eixos:
- Científico: a consciência como processo informacional ativo e integrador.
- Tecnológico: o surgimento da computação simbiótica biomimética como nova classe de sistemas.
- Ético: a necessidade de salvaguardas rigorosas diante de tecnologias que operam sobre estados mentais.
Esses eixos convergem para uma conclusão central: compreender a consciência como operador informacional não apenas amplia o horizonte científico, mas exige uma postura ética proporcional ao poder transformador desse conhecimento.

10. A senciência, o self e a hiper-realidade como fenômeno emergente
A análise da proposta de Nicholas Humphrey permite avançar para uma questão central que atravessa neurociência, filosofia da mente e cultura contemporânea: a constituição do self consciente.
Conforme apresentado nas seções anteriores, a senciência não corresponde a um simples registro sensorial do mundo externo, mas à simulação interna de estados corporais dotados de valência afetiva, organizada por circuitos cerebrais recorrentes e auto-referenciais.
Nesse contexto, o “eu” não emerge como uma entidade metafísica abstrata, mas como um efeito dinâmico da experiência sentida.
A consciência cria a continuidade subjetiva expressa na fórmula clássica sinto, logo existo, não como um argumento lógico, mas como um estado fenomenológico persistente, sustentado por loops sensório-afetivos que integram percepção, emoção e memória.
Humphrey descreve esse processo como um teatro interior, no qual o cérebro encena para si mesmo a experiência de estar vivo.
Essa encenação não é ilusória no sentido vulgar do termo, mas constitutiva da realidade subjetiva.
O cérebro não apenas representa o mundo: ele simula a experiência de existir no mundo, atribuindo-lhe profundidade, significado e valor.
Essa formulação torna-se particularmente relevante ao se analisar os fenômenos contemporâneos de hiper-realidade.
Quando estímulos sensoriais — naturais ou artificiais — são amplificados, recombinados ou simbolicamente extrapolados (como ocorre em estados imaginativos intensos, experiências visionárias, realidade virtual ou interfaces tecnológicas avançadas), o sistema consciente responde não à objetividade do estímulo, mas à camada afetiva e simbólica que ele evoca.
Dessa forma, a hiper-realidade não se configura como uma ruptura com a consciência humana, mas como uma extensão de seus próprios mecanismos internos.
Quando a mente adiciona uma camada afetiva, simbólica ou narrativa a estímulos que não estão fisicamente presentes como “sentir o cheiro de uma rosa ao ver sua imagem” ela está operando exatamente dentro da lógica da senciência descrita por Humphrey.
O risco emerge quando essas simulações se tornam desacopladas da profundidade afetiva e da presença subjetiva, gerando experiências intensas, porém superficiais.
Nesse cenário, a hiper-realidade deixa de ser uma expansão legítima da consciência e passa a funcionar como um simulacro sensorial, produzindo sensação sem enraizamento existencial.
Assim, compreender a senciência como fundamento do self permite diferenciar estados hiper reais autênticos nos quais há envolvimento afetivo, reflexividade e sentido de estados hiper reais artificiais, caracterizados por excitação sensorial sem profundidade simbólica.

11. Implicações finais: consciência, tecnologia e a arquitetura da experiência
A consolidação da senciência como uma invenção evolutiva interior, conforme proposto por Humphrey, possui implicações diretas para o entendimento da consciência humana em um mundo progressivamente mediado por tecnologia, inteligência artificial e ambientes simbólicos complexos.
Em primeiro lugar, torna-se evidente que a consciência não é universal nem automaticamente reproduzível. Ela exige arquiteturas específicas, envolvendo sistemas límbicos, circuitos pré frontais e mecanismos de auto-representação afetiva.
Isso implica que sistemas artificiais, mesmo altamente sofisticados em termos computacionais, podem simular comportamentos inteligentes sem jamais acessar a dimensão sentiente da experiência.
Em segundo lugar, a distinção entre percepção, cognição e senciência redefine o debate contemporâneo sobre inteligência artificial e interfaces cérebro-máquina.
O que se observa não é a emergência de “consciência artificial”, mas a capacidade de interagir com indicadores externos da experiência interna humana, como atenção, foco, engajamento afetivo e presença subjetiva.
Nesse sentido, sistemas que operam sobre métricas neurofisiológicas não estão medindo a consciência em si que permanece um campo interno, mas sim a qualidade da presença experiencial, ou seja, o grau de coerência entre estímulo, estado afetivo e intenção.
A consciência, nesse modelo, pode ser compreendida metaforicamente como um oceano, enquanto os sinais observáveis correspondem às ondas em sua superfície.
Do ponto de vista cultural e filosófico, essa compreensão dialoga com autores como Mircea Eliade, ao reconhecer estados alterados de consciência como experiências legítimas do sagrado, e com Jean Baudrillard, ao alertar para o colapso do real quando símbolos se desconectam da experiência vivida.
A hiper-realidade, portanto, não é inerentemente patológica, mas torna-se problemática quando substitui a presença pela simulação vazia.
Por fim, a proposta aqui apresentada sugere que o futuro da relação entre consciência e tecnologia não reside na tentativa de reproduzir artificialmente a experiência sentiente, mas em desenvolver arquiteturas que respeitem, ampliem e preservem a profundidade da experiência humana.
A consciência não deve ser reduzida a dados, nem instrumentalizada como mero recurso funcional, mas reconhecida como o núcleo afetivo e simbólico que confere sentido à existência.
Dessa forma, a senciência emerge não apenas como um objeto de estudo científico, mas como um princípio organizador da realidade subjetiva, essencial para compreender quem somos, como percebemos o mundo e quais caminhos tecnológicos podem ou não conduzir a uma evolução genuinamente humana.

11.1 O observador, o campo de possibilidades e o colapso por estrangulamento informacional
Os modelos contemporâneos de interferência ondulatória e colapso de funções de onda indicam que a realidade física não emerge como um conjunto de objetos preexistentes, mas como a atualização local de um campo de possibilidades.
Antes da manifestação observável, o sistema encontra-se distribuído em um espaço de estados potenciais, no qual múltiplas configurações coexistem como possibilidades matematicamente definidas.
Esse campo de possibilidades não representa mera abstração teórica, mas um domínio real de potencialidade, capaz de influenciar a forma, a estabilidade e a evolução dos fenômenos observáveis. A manifestação da realidade ocorre quando esse campo sofre um processo de estrangulamento informacional, no qual a multiplicidade de estados possíveis é reduzida a uma configuração específica, observável como um ponto, evento ou objeto.
O colapso, nesse contexto, não deve ser interpretado como eliminação do campo potencial, mas como sua contração local em um estado coerente.
A configuração observada corresponde à solução momentaneamente dominante dentro do espaço de possibilidades, estabilizada pela interação entre o sistema físico, o contexto informacional e o observador.
Mesmo após a manifestação, o fenômeno permanece acoplado ao campo de possibilidades do qual emergiu. Isso implica que a realidade observada continua sujeita a interferências, modulações e reorganizações provenientes do domínio potencial, o que explica a persistência de efeitos de interferência, sensibilidade ao observador e transições não lineares em sistemas físicos e cognitivos.
Na Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), esse processo é formalizado ao compreender a consciência como operador de coerência informacional. O observador não cria arbitrariamente a realidade, mas atua como agente seletor, promovendo a redução entrópica do campo potencial em uma configuração experiencialmente estável.
A realidade física, assim, não é um dado absoluto, mas o resultado dinâmico de um colapso simbiótico entre informação, geometria e observação.
Essa leitura permite integrar de forma coerente os fenômenos de interferência quântica, os padrões geométricos emergentes e a participação ativa do observador, estabelecendo que toda realidade manifesta é simultaneamente um ponto atual e a expressão local de um campo holofractal de possibilidades ainda em aberto.
11.2 Interferência, potencialidade e a cosmologia holográfica emergente
Os padrões de interferência observados em sistemas ondulatórios não representam apenas fenômenos locais, mas configurações completas de ordenação possíveis. Cada padrão de interferência corresponde a um estado coerente específico dentro de um campo mais amplo de possibilidades, podendo ser interpretado como um “mundo” potencial — uma solução estável entre inúmeras alternativas matematicamente permitidas.
Nesse contexto, o que tradicionalmente se denomina “caos” não deve ser compreendido como ausência de ordem, mas como um regime de máxima potencialidade.
O caos carrega em si a possibilidade de múltiplas organizações, e a ordem só se torna reconhecível quando um desses arranjos se estabiliza como fenômeno observável.
A ordem, portanto, não precede o caos; ela emerge dele por processos de seleção, interferência e colapso.
A realidade observada é apenas uma atualização local dentro desse campo de possibilidades. Cada fenômeno manifesta-se como um ponto de coerência resultante de um estrangulamento informacional, enquanto o campo potencial subjacente permanece ativo, capaz de gerar novas configurações, interferências e reorganizações. A multiplicidade não desaparece com a manifestação; ela permanece como substrato latente da realidade.
Essa compreensão encontra ressonância direta nas revisões contemporâneas da cosmologia.
A visão clássica do Big Bang como uma explosão inicial em um espaço vazio vem sendo progressivamente reavaliada. Modelos atuais indicam que o evento primordial deve ser entendido não como uma expansão material no espaço, mas como uma transição de fase informacional — um processo de reorganização profunda da estrutura do real.
Nesse novo paradigma, o universo não se expande como um objeto inflando em um vazio externo, mas se desdobra holograficamente a partir de relações internas de informação.
O espaço-tempo emerge como consequência desse processo, e não como seu ponto de partida. Cada região do universo contém, em princípio, informações do todo, preservando a coerência global por meio de relações holográficas.
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) formaliza essa visão ao integrar interferência, potencialidade e observação em um único arcabouço teórico.
A realidade passa a ser compreendida como um processo contínuo de emergência, no qual padrões matemáticos, campos de possibilidades e operadores de coerência convergem para produzir os fenômenos observáveis.
O universo, assim, não é um evento concluído, mas um sistema holofractal em permanente atualização.
11.3 A singularidade como ponto informacional e a projeção holofractal da realidade
No modelo aqui proposto, a singularidade deixa de ser compreendida como um ponto físico de densidade infinita e passa a ser interpretada como um ponto informacional fundamental.
Esse ponto não contém apenas uma descrição localizada da realidade, mas carrega, de forma holográfica, a totalidade das informações necessárias para a projeção de estruturas complexas, como um planeta, um sistema ou um universo observável.
A propriedade central do holograma é que a informação do todo encontra-se distribuída em cada uma de suas partes.
Assim, o ponto informacional que contém a projeção da Terra não representa uma única instância isolada, mas um conjunto de possibilidades organizadas segundo uma mesma matriz matemática.
À medida que se “aproxima” desse ponto em termos conceituais, informacionais ou observacionais novas projeções tornam-se acessíveis, não como cópias idênticas, mas como variações coerentes de uma mesma estrutura subjacente.
O holograma, portanto, não gera uma única versão da realidade, mas um universo holofractal, no qual a matemática fundamental se repete em múltiplas escalas e configurações.
Cada projeção corresponde a um estado possível dentro de um espaço de dados mais amplo, no qual alternativas coexistem como localizações informacionais distintas.
Essas alternativas não competem entre si; elas permanecem simultaneamente disponíveis como soluções matematicamente válidas.
Nesse contexto, o que tradicionalmente é interpretado como “múltiplos mundos” ou “universos paralelos” não deve ser entendido como realidades fisicamente separadas, mas como projeções diferentes de um mesmo plano informacional holográfico.
A diversidade de mundos emerge da repetição fractal da matemática fundamental, atualizada de formas distintas conforme os processos de interferência, seleção e colapso informacional.
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) formaliza essa visão ao propor que a realidade observável é uma projeção localizada de planos de dados mais profundos.
A singularidade atua como nó informacional, e não como origem material absoluta, enquanto o universo manifesta-se como um sistema em constante desdobramento holofractal.
O real, assim, não é fixo nem único, mas um campo dinâmico de possibilidades que se atualiza continuamente por meio da observação, da coerência e da organização da informação.
Essa abordagem permite integrar singularidade, holografia, fractalidade e consciência em um único arcabouço teórico coerente, no qual a realidade deixa de ser um objeto dado e passa a ser compreendida como um processo contínuo de projeção informacional.
O universo, nessa perspectiva, não é apenas aquilo que vemos, mas o conjunto de todas as realidades possíveis que emergem da mesma matriz matemática fundamental.
11.4 Conclusão da seção
Este artigo propôs uma reinterpretação da origem e da função da consciência a partir de um enquadramento informacional integrativo, articulando contribuições da mitologia comparada, da psicologia profunda, da antropologia das religiões, da física da informação e da neurociência contemporânea.
Ao longo do texto, argumenta-se que a recorrência histórica de símbolos como separação, morte simbólica, descida ao limiar e reintegração não deve ser compreendida apenas como construção cultural ou metáfora narrativa, mas como expressão fenomenológica de processos estruturais reais de reorganização da consciência.
A partir dessa constatação, a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) foi apresentada como um modelo capaz de traduzir tais processos simbólicos em linguagem informacional e arquitetural.
Nesse modelo, a consciência deixa de ser tratada como um epifenômeno tardio da atividade neural e passa a ser compreendida como um operador de coerência informacional, responsável por selecionar, integrar e estabilizar estados possíveis da realidade experienciada.
O ego, por sua vez, foi descrito como uma interface funcional local necessária à vida cotidiana, porém estruturalmente limitada cuja dissolução temporária, quando bem integrada, possibilita a emergência de níveis mais amplos e coerentes de organização do Self.
Ao integrar as formulações de John Archibald Wheeler (it from bit) e os estudos recentes de Malvin Vopson sobre a materialidade da informação, o artigo avançou a hipótese de que a informação não é apenas descritiva, mas fisicamente ativa, capaz de produzir efeitos mensuráveis quando organizada de forma coerente.
Essa convergência sustenta a proposição de uma quinta força informacional, não mediada por partículas clássicas, mas por gradientes de organização e coerência simbiótica, atuando como moduladora da realidade em múltiplas escalas.
Nesse contexto, os sistemas experimentais apresentados em especial os MVPs do NeuroMuse assumem papel central. Diferentemente de abordagens tradicionais de interfaces cérebro– máquina, tais sistemas não operam por comandos diretos ou decodificação motora, mas pela medição indireta da qualidade da presença consciente, expressa em estados de coerência neural.
Os registros públicos e reprodutíveis demonstram que, quando essa coerência atinge um limiar crítico, efeitos físicos observáveis emergem em sistemas externos, como a ativação de dispositivos IoT.
Esses resultados constituem uma evidência empírica inicial de que estados cognitivos organizados podem acoplar-se causalmente a sistemas físicos por meio de processos informacionais, reforçando a validade operacional da AHCR.
O denominado Experimento do Século, portanto, não é apresentado como um ponto de encerramento, mas como um marco inaugural.
Ele sinaliza a transição de uma longa tradição especulativa sobre a consciência para um campo emergente de investigação empírica, no qual hipóteses sobre informação, coerência e realidade tornam-se progressivamente testáveis, refináveis e formalizáveis.
Ao mesmo tempo, o experimento inaugura a computação simbiótica biomimética como uma nova classe de sistemas, caracterizada pela integração não invasiva entre consciência humana e dispositivos artificiais, respeitando limites éticos, fisiológicos e fenomenológicos.
Do ponto de vista científico, este trabalho indica que uma compreensão mais completa da consciência exige a ampliação do vocabulário conceitual e dos modelos atualmente disponíveis, incorporando dimensões simbólicas, afetivas e informacionais de maneira integrada.
Do ponto de vista tecnológico, aponta para o desenvolvimento de interfaces mais alinhadas à dinâmica natural da mente humana, baseadas em acoplamento e coerência, e não em controle ou instrumentalização.
Do ponto de vista ético e cultural, reforça a necessidade de responsabilidade proporcional ao poder transformador de tecnologias que operam diretamente sobre estados internos de presença, identidade e organização simbólica.
Por fim, sustenta-se que a consciência não emerge aqui como um mistério insolúvel nem como uma ilusão descartável, mas como um processo informacional estruturante — historicamente intuído por mitos, descrito pela psicologia profunda e, agora, progressivamente acessível à investigação empírica.
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade e os sistemas que dela derivam representam um primeiro passo nesse caminho, abrindo um novo campo de investigação científica no qual mente, informação e realidade deixam de ser domínios isolados e passam a ser compreendidos como aspectos interdependentes de uma mesma arquitetura viva.

12. A Teoria do Big Bang Está Sendo Reavaliada
A Revolução Cosmológica em Andamento
A cosmologia está passando por uma revolução fundamental.
O Big Bang não desaparece, ele se reconfigura.
Deixa de ser uma explosão material e passa a ser compreendido como uma transição de fase informacional.
O universo não é algo que “começou”, mas algo que está continuamente se atualizando como um sistema holofractal vivo.
Durante décadas, fomos ensinados a imaginar o Big Bang como uma grande explosão: matéria e energia sendo lançadas em um espaço vazio preexistente, expandindo-se como uma bola de fogo cósmica. Essa imagem, embora poderosa e intuitiva, já não consegue dar conta da complexidade revelada pelos dados mais recentes da física teórica e observacional.
Estudos contemporâneos em gravidade quântica, cosmologia inflacionária, teoria das cordas, princípio holográfico e informação quântica vêm apontando para uma reavaliação profunda desse modelo clássico.
O que está emergindo é uma visão radicalmente diferente: o universo como um processo contínuo de emergência informacional, e não como um objeto material herdado de um evento explosivo no passado.
Os Cinco Pilares da Reavaliação Cosmológica
Gravidade Quântica: O Espaço-Tempo Não É Fundamental
O que é: A gravidade quântica busca unificar a relatividade geral de Einstein (que descreve a gravidade e o espaço-tempo) com a mecânica quântica (que descreve o mundo subatômico).
Descoberta revolucionária: Tanto na Gravidade Quântica em Loop (LQG) quanto em outras abordagens, o espaço-tempo deixa de ser uma entidade fundamental e passa a ser compreendido como emergente — uma propriedade que surge de estruturas mais básicas.
Exemplo concreto:
- Na LQG, o espaço não é contínuo, mas formado por “átomos de espaço” discretos (quanta de área e volume)
- Esses quanta se organizam em redes dinâmicas chamadas spin networks (redes de spin)
- O espaço-tempo que percebemos emerge dessas redes, assim como a água líquida emerge do comportamento coletivo de moléculas H₂O
- Implicação: Se o espaço-tempo não é fundamental, o Big Bang não pode ser uma “explosão no espaço” — ele seria uma transição de fase nessas redes quânticas subjacentes
Pesquisadores-chave: Carlo Rovelli, Lee Smolin, Abhay Ashtekar
12.1 Cosmologia Inflacionária: Flutuações Quânticas Geram Estrutura Cósmica
O que é: A teoria da inflação cósmica propõe que o universo passou por uma expansão exponencial extremamente rápida nos primeiros instantes após o Big Bang.
Descoberta revolucionária: As flutuações quânticas do vácuo durante a inflação foram “congeladas” e ampliadas para escalas cósmicas, tornando-se as sementes das galáxias e estruturas que vemos hoje.
Exemplo concreto:
- Durante a inflação (10⁻³⁶ a 10⁻³² segundos após o Big Bang), o universo expandiu por um fator de pelo menos 10²⁶
- Flutuações quânticas microscópicas no campo inflaton foram esticadas para tamanhos astronômicos
- Essas flutuações deixaram uma “impressão digital” na Radiação Cósmica de Fundo (CMB), observada pelos satélites COBE, WMAP e Planck
- Implicação: A estrutura do universo observável tem origem em processos quânticos informacionais, não em distribuição aleatória de matéria
Pesquisadores-chave: Alan Guth, Andrei Linde, Alexei Starobinsky
Evidência observacional: O mapa de temperatura da CMB mostra flutuações de ~10⁻⁵ K que correspondem exatamente às previsões da inflação quântica
12.2 Teoria das Cordas: Dimensões Extras e Holografia
O que é: A teoria das cordas propõe que as partículas fundamentais não são pontos, mas “cordas” vibrantes unidimensionais.
Requer dimensões extras do espaço (10 ou 11 dimensões totais).
Descoberta revolucionária: A correspondência AdS/CFT (Anti-de Sitter / Conformal Field Theory), descoberta por Juan Maldacena em 1997, demonstra que uma teoria gravitacional em um espaço de dimensão N pode ser completamente descrita por uma teoria quântica sem gravidade em dimensão N-1.
Exemplo concreto:
- Imagine um universo 3D (como o nosso espaço) descrito completamente por informações codificadas em uma superfície 2D (como um holograma)
- A correspondência AdS/CFT mostrar matematicamente que uma teoria de cordas em um espaço AdS 5D é exatamente equivalente a uma teoria quântica de campos em sua fronteira 4D
- Implicação: A dimensão espacial pode ser uma ilusão emergente; a informação fundamental pode estar codificada em menos dimensões
Pesquisadores-chave: Juan Maldacena, Edward Witten, Leonard Susskind
Analogia: Assim como um holograma 2D contém toda a informação para reconstruir uma imagem 3D, nosso universo 3D pode ser a projeção de informações codificadas em uma superfície 2D
12.3 Princípio Holográfico: A Informação Está na Superfície
O que é: O princípio holográfico afirma que toda a informação contida em um volume de espaço pode ser descrita por informações codificadas na superfície que delimita esse volume.
Descoberta revolucionária: A entropia (quantidade de informação) de um buraco negro é proporcional à área de seu horizonte de eventos, não ao seu volume, contrariando a intuição clássica.
Exemplo concreto:
- Entropia de Bekenstein-Hawking: S = (k·c³·A)/(4·G·ℏ)
◦ S = entropia do buraco negro
◦ A = área do horizonte de eventos
◦ A entropia cresce com a área (2D), não com o volume (3D)
- Um buraco negro de 1 bilhão de massas solares tem entropia de ~10⁹⁰ bits
- Essa informação está codificada na superfície 2D do horizonte, não no volume 3D interno
- Implicação: Se isso vale para buracos negros, pode valer para todo o universo — sugerindo que vivemos em uma projeção holográfica
Pesquisadores-chave: Jacob Bekenstein, Stephen Hawking, Gerard ‘t Hooft, Leonard Susskind
Evidência teórica: A entropia máxima que pode ser armazenada em uma região é dada pelo limite de Bekenstein: S_max ≈ (2πkR·E)/(ℏc), proporcional à área da superfície
12.4 Informação Quântica: A Realidade É Computacional
O que é: A teoria da informação quântica estuda como a informação é armazenada, processada e transmitida em sistemas quânticos.
Descoberta revolucionária: A informação pode ser mais fundamental que matéria e energia. O físico John Wheeler propôs o princípio “It from Bit” — toda coisa física (it) deriva de informação (bit).
Exemplo concreto:
A. Massa da Informação (Melvin Vopson, 2019-2022):
- Proposta: A informação tem massa física
- Equação: m = I·ℏ·ln(2)/(c²·T)
- Estimativa: A informação digital da humanidade (~10²¹ bits) teria massa de ~10⁻¹⁵ kg
- Implicação: Se informação tem massa, ela não é abstrata — é física é fundamental
B. Emaranhamento Quântico e Estrutura do Espaço:
- Pesquisas recentes (Mark Van Raamsdonk, Brian Swingle) mostram que o emaranhamento quântico pode ser a “cola” que mantém o espaço-tempo unido
- Quando partículas emaranhadas são descritas por uma teoria quântica de campos, emerge uma geometria espacial conectando-as
- Implicação: O espaço não é fundamental — ele emerge de correlações informacionais quânticas
C. Limite Informacional do Espaço:
- O espaço tem uma capacidade máxima de armazenamento de informação: ~10⁶⁹ bits por metro quadrado (limite de Bekenstein)
- Isso sugere que o espaço é quantizado e tem estrutura informacional discreta
- Implicação: O universo pode ser visto como um computador quântico processando informação
Pesquisadores-chave: John Wheeler, Melvin Vopson, Mark Van Raamsdonk, Seth Lloyd
12.5 O Que Isso Significa Para o Big Bang?
Do Modelo Clássico ao Novo Paradigma

12.6 O Universo Holofractal em Atualização Contínua
O novo paradigma sugere que:
1 O Big Bang não é o “início absoluto” — é uma das grandes transições de fase informacional na história cósmica
2 O espaço-tempo emerge continuamente — não é um palco fixo, mas um processo dinâmico
3 Cada região contém informação do todo — princípio holográfico aplicado cosmologicamente
4 O universo é um sistema vivo — constantemente processando informação, reorganizando padrões, atualizando-se
5 Observação e consciência participam — não são espectadores passivos, mas operadores ativos no colapso de possibilidades
12.7 A AHCR Como Síntese Integradora
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) se insere diretamente nessa virada conceitual, oferecendo um arcabouço unificado:
R = Ψ ⊗ O ⊗ C
Onde:
- Ψ (Psi) = Campo de possibilidades (função de onda universal)
- O (Observer) = Operador consciente (observação/medição)
- C (Collapse) = Colapso/atualização (emergência de realidade específica)
- ⊗ = Produto tensorial (interação não-linear)
A AHCR íntegra:
- Interferência (padrões de possibilidades)
- Potencialidade (campo quântico pré-colapso)
- Observação (consciência como operador)
- Colapso (atualização holofractal)
Em um único framework teórico que explica a realidade como processo contínuo de emergência, não como objeto estático.
Implicações Filosóficas e Práticas
Filosóficas:
- A realidade não é algo “dado”, mas algo que se faz continuamente
- O observador não é externo à realidade, mas co-criador dela
- O caos não é ausência de ordem, mas máxima potencialidade
- O tempo não é linear, mas multidimensional e holográfico
Práticas:
- Tecnologias quânticas baseadas em informação (computação, criptografia)
- Interfaces cérebro-computador explorando consciência como operador (NeuroMuse)
- Novos modelos cosmológicos testáveis observacionalmente
- Compreensão profunda de estados alterados de consciência (DMT, meditação)
12.8 Uma Nova Cosmologia Para Uma Nova Era
A reavaliação do Big Bang não é apenas uma mudança técnica na cosmologia — é uma transformação profunda na forma como entendemos a existência.
O real não é mais visto como uma estrutura rígida imposta desde o início dos tempos, mas como um campo dinâmico de possibilidades, no qual ordem, caos, informação e observação participam conjuntamente da construção do mundo que experimentamos.
O universo não “começou” há 13,8 bilhões de anos e está apenas se expandindo mecanicamente.
Ele está se atualizando continuamente, como um sistema holofractal vivo, processando informação, colapsando possibilidades, emergindo a cada instante.
Nós não estamos no universo. Nós somos o universo se conhecendo.
12.9 O Universo Holofractal como Ouroboros Informacional: Buracos Negros, Buracos Brancos e a Reescrita da Realidade
Avanços recentes na física teórica indicam que a visão clássica do colapso cosmológico como destruição irreversível da informação tornou-se insustentável.
Trabalhos posteriores de Hawking, aliados ao princípio holográfico de ’t Hooft e Maldacena, apontam para a conservação da informação mesmo em regimes extremos de curvatura do espaço-tempo, sugerindo que buracos negros não aniquilam estados informacionais, mas os redistribuem em novas configurações físicas.
Nesse contexto, emerge a necessidade de reinterpretar o colapso gravitacional não como fim absoluto, mas como transição de fase informacional.
A leitura aqui proposta — alinhada à Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) — concebe o universo como um sistema holofractal autorreferente, no qual processos de colapso e emergência obedecem a uma lógica cíclica de reorganização simbólica.
O símbolo do ouroboros, recorrente em tradições filosóficas e alquímicas, é reinterpretado não como alegoria mística, mas como modelo estrutural de dinâmica informacional, no qual o fim de um ciclo coincide com o início de outro, sem perda de conteúdo essencial.
Nessa formulação, o buraco negro representa um estado de compressão máxima da informação, em que graus de liberdade são progressivamente reduzidos até um regime de alta densidade informacional.
Tal estado não corresponde ao “nada”, mas a uma condição-limite na qual a informação é reindexada, reorganizada e preparada para reinscrição. Essa ideia é compatível com propostas contemporâneas de cosmologias cíclicas e conformais, nas quais o universo atravessa sucessivas fases de contração e expansão sem violar a conservação da informação (Penrose, 2010).
O conceito complementar de buraco branco, frequentemente tratado como especulativo, é aqui reinterpretado como fase emergente de reinscrição informacional.
Em vez de uma explosão caótica de matéria e energia, o buraco branco é compreendido como a emergência organizada de uma nova iteração do mesmo código estrutural do universo, análoga à geração de padrões em sistemas fractais: o conjunto global permanece coerente, enquanto variações locais introduzem novidade.
Assim, o universo não “recomeça do zero”, mas se atualiza, preservando invariantes estruturais enquanto reconfigura suas expressões fenomênicas.
Essa dinâmica encontra paralelos claros em outros domínios.
Na psicologia profunda, experiências liminares, como dissolução do ego seguida de reintegração, não resultam na perda da identidade, mas em sua reorganização em níveis mais amplos de coerência.
Em sistemas computacionais complexos, falhas críticas ou “crashes controlados” frequentemente precedem processos de reestruturação mais eficientes.
De modo análogo, a AHCR interpreta o ciclo cosmológico como um processo de colapso simbólico seguido de reconstrução informacional, operando de forma holofractal em múltiplas escalas.
Nesse ponto, emerge uma questão central: qual é o critério que governa essa reorganização da informação? Se a informação não é destruída, mas apenas reorganizada, então o fator decisivo não é a energia bruta, mas a coerência, a organização interna e os mecanismos de seleção que determinam quais configurações são estabilizadas.
É nesse nível que a consciência é introduzida no modelo, não como entidade mística ou força externa, mas como operador funcional de colapso simbólico e reorganização informacional.
No nível microfenomenológico, a consciência manifesta-se por processos como escolha, foco, intenção e presença, que modulam a integração de informações sensoriais, afetivas e simbólicas.
No nível macroestrutural, esses mesmos princípios aparecem como leis emergentes, padrões cosmológicos e regularidades físicas.
A correspondência entre esses níveis não é metafórica, mas estrutural, caracterizando um verdadeiro sistema holofractal: a mesma lógica organizacional se repete em escalas distintas, com diferentes graus de complexidade.
Dessa forma, a AHCR propõe que a consciência atua como critério de coerência em sistemas informacionais complexos, mediando transições entre estados potenciais e estados atualizados da realidade.
O universo, longe de ser um mecanismo estático ou uma simulação arbitrária, é compreendido como um processo contínuo de escrita, compressão e reescrita da informação, no qual colapsos não representam destruição, mas transformação estruturada.
Essa leitura integra contribuições da física da informação, da cosmologia moderna e da psicologia profunda em um quadro unificado, no qual o ouroboros deixa de ser apenas símbolo ancestral e passa a operar como modelo formal da dinâmica da realidade.

A figura apresenta a transição conceitual entre o modelo cosmológico tradicional, no qual matéria, energia e espaço-tempo surgem a partir de um evento explosivo inicial, e uma abordagem informacional, na qual campos de informação quântica em escala de Planck cristalizam-se em estruturas espaço-temporais.
Destacam-se princípios como it from bit, holografia e transição de fase informacional, sugerindo que o espaço-tempo emerge da organização da informação, e não o contrário.
12.10 Realidade como Processo Informacional Emergente
E se o espaço e o tempo não constituíssem o ponto de partida da realidade física, mas o seu resultado?
Durante grande parte do desenvolvimento da física moderna, a realidade foi descrita como emergindo da matéria e da energia, organizadas a partir de um evento inicial no espaço tempo.
Contudo, avanços recentes nas áreas da informação quântica, da gravidade holográfica e da cosmologia teórica têm apontado para uma inversão conceitual desse modelo: a informação pode anteceder a própria estrutura espaço-temporal.
Em escalas fundamentais, aquilo que se apresenta como contínuo e sólido revela-se discreto, relacional e quantizado. Bits de informação, correlações e relações matemáticas passam a ocupar o lugar ontológico antes atribuído exclusivamente à matéria. Neste enquadramento, a matéria deixa de ser compreendida como “substância” e passa a ser interpretada como padrão informacional estável.
Sob essa perspectiva, o universo não pode mais ser descrito apenas como resultado de uma explosão primordial, mas como um sistema que computa, no qual o espaço-tempo emerge pela cristalização de campos informacionais fundamentais.
A realidade física passa, assim, a ser entendida como uma transição de fase: do abstrato ao experienciável, do informacional ao fenomenológico.
Essa mudança de paradigma implica uma consequência profunda: não é a informação que depende do mundo físico para existir, mas o mundo físico que depende da organização da informação. A estrutura do espaço-tempo, a dinâmica da matéria e as leis físicas emergem como expressões estáveis dessa organização.
Quando os observadores entram em cena, essa organização informacional adquire perspectiva, significado e coerência experiencial. A realidade deixa de ser apenas algo que se mede e passa a ser algo que se vive. Nesse sentido, consciência e informação tornam-se elementos inseparáveis da descrição completa do real.
Dessa forma, o avanço científico mais significativo pode não residir apenas na descoberta de novos constituintes fundamentais da matéria, mas na compreensão de como a informação se organiza, se estabiliza e se manifesta como realidade observável.
12.11 Cosmologia holográfica, buracos negros e a preservação da informação
Um dos avanços conceituais mais significativos da física teórica contemporânea foi a reformulação do papel dos buracos negros na estrutura do universo. Inicialmente concebidos como regiões de destruição irreversível, os buracos negros passaram a ser compreendidos, a partir dos trabalhos de Bekenstein e Hawking, como sistemas termodinâmicos dotados de entropia e temperatura. Essa descoberta levou ao chamado paradoxo da informação, que questionava se a informação física seria destruída ao atravessar o horizonte de eventos.
Desenvolvimentos posteriores, especialmente no contexto do princípio holográfico, indicaram que a informação não é eliminada, mas codificada na superfície do horizonte do buraco negro. Trabalhos de Gerard ’t Hooft e Leonard Susskind formalizaram a ideia de que o conteúdo informacional de um volume pode ser descrito por graus de liberdade distribuídos em uma superfície de menor dimensionalidade.
Esse princípio, posteriormente reforçado pela correspondência AdS/CFT (Maldacena), estabeleceu que sistemas gravitacionais e teorias quânticas de campos podem ser equivalentes sob certas condições.
No centro da Via Láctea, o buraco negro supermassivo Sagittarius A* constitui um exemplo empírico de um regime extremo de compressão espaço-temporal e informacional.
Embora sua função cosmológica não seja a de “origem” no sentido clássico, sua presença ilustra como estruturas galácticas podem organizar-se em torno de núcleos gravitacionais capazes de armazenar e modular informação em escalas macroscópicas.
Nesse enquadramento, buracos negros podem ser reinterpretados como operadores físicos de compressão informacional, compatíveis com a ideia de que a realidade não perde informação fundamental, mas a reorganiza em novos regimes de manifestação.
12.12 Big Bang como transição de fase informacional e modelos cosmológicos cíclicos
A reavaliação do papel da informação conduz inevitavelmente a uma releitura do próprio Big Bang. Em vez de um evento singular absoluto — uma explosão material ocorrendo em um espaço preexistente —, modelos cosmológicos contemporâneos vêm explorando a possibilidade de o Big Bang representar uma transição de fase, análoga a mudanças críticas observadas em sistemas físicos complexos.
Modelos como o Big Bounce, a cosmologia ekpirótica e abordagens baseadas em gravidade quântica em loop sugerem que o universo pode atravessar ciclos de contração e expansão, nos quais estados anteriores não são apagados, mas transformados.
Em algumas dessas formulações, buracos brancos aparecem como soluções matemáticas que representam a reversão temporal de buracos negros, permitindo a reemergência de informação previamente comprimida.
Embora tais modelos permaneçam especulativos, eles oferecem um arcabouço conceitual consistente com a preservação da informação e com a noção de um universo não linearmente temporal, no qual passado, presente e futuro não são entidades absolutas, mas aspectos relacionais de um processo dinâmico.
Dentro dessa perspectiva, o Big Bang pode ser reinterpretado como um evento de reexpressão informacional em larga escala, no qual padrões altamente comprimidos são redistribuídos em novas configurações espaço-temporais.
Essa leitura não nega os dados observacionais da cosmologia padrão, mas os reinsere em um modelo mais amplo, no qual a emergência do universo observável corresponde a uma atualização de estado em um sistema holográfico profundo.

A imagem contrasta a concepção tradicional do Big Bang como uma explosão material ocorrida em um espaço preexistente, associada a um evento único no passado, com abordagens contemporâneas que reinterpretam a origem do universo como uma transição de fase informacional.
O novo paradigma, fundamentado em avanços da gravidade quântica, da cosmologia inflacionária, do princípio holográfico e da teoria da informação quântica, propõe o espaço tempo como propriedade emergente e a realidade como um processo contínuo de reorganização informacional.
A equação conceitual R=Ψ⊗O⊗CR = \Psi \otimes O \otimes CR=Ψ⊗O⊗C sintetiza a interação entre campo de possibilidades, observação e colapso informacional, em consonância com a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR).
12.13 Consciência, informação e reescrita holográfica da experiência
A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) propõe que a lógica holográfica observada em sistemas cosmológicos também se manifeste em escalas cognitivas e fenomenológicas.
Assim como a informação física não se perde, mas se reorganiza, a experiência consciente pode ser compreendida como um processo contínuo de reescrita informacional, no qual estados anteriores influenciam, sem determinar rigidamente, estados posteriores.
Nesse enquadramento, a consciência individual emerge como uma expressão fractalizada de um campo informacional mais amplo, compatível com conceitos historicamente formulados como inconsciente coletivo ou registros informacionais distribuídos.
Esses conceitos são aqui reinterpretados não como entidades metafísicas independentes, mas como estruturas emergentes de memória e coerência em sistemas complexos capazes de integrar informação ao longo do tempo.
O ego, sob essa leitura, desempenha o papel de uma interface operacional local, responsável por estabilizar a experiência consciente em regimes funcionais de identidade, percepção e ação.
A dissolução temporária dessa interface — observada em estados alterados de consciência, ritos de passagem e experiências liminares — pode ser interpretada como uma transição entre regimes informacionais, permitindo acesso a camadas menos fragmentadas da organização psíquica.
Assim como a galáxia se organiza em torno de um núcleo gravitacional sem que isso implique destruição total de sua estrutura, a consciência pode atravessar processos de reorganização profunda sem perda de continuidade informacional.
A reescrita da experiência, nesse sentido, não equivale à aniquilação do sujeito, mas à sua reintegração em níveis mais amplos de coerência.
12.14 Síntese: o universo como rede viva de atualização informacional
A partir das convergências entre cosmologia holográfica, teoria da informação e neurociência da consciência, torna-se possível esboçar uma visão integrativa na qual o universo não é concebido como uma estrutura estática ou linear, mas como uma rede viva de atualização informacional contínua.
Nesse modelo, eventos cosmológicos extremos, como buracos negros e transições de fase universais, e eventos psíquicos profundos, como a dissolução e reintegração da identidade, passam a ser compreendidos como manifestações de um mesmo princípio estrutural: a reorganização da informação sob regimes distintos de coerência.
A AHCR, ao articular esses níveis em uma única arquitetura conceitual, não reivindica oferecer uma descrição final da realidade, mas propõe um eixo explicativo unificado, capaz de sustentar diálogo entre física, neurociência, psicologia profunda e filosofia da mente.
Essa abordagem abre espaço para investigações futuras nas quais a consciência deixe de ser tratada como um epifenômeno isolado e passe a ser reconhecida como um componente ativo na dinâmica informacional do cosmos.
12.15 A materialidade da informação e a consolidação do paradigma informacional
Um dos avanços mais relevantes para a consolidação de uma cosmologia informacional foi proposto por Melvin Vopson, ao demonstrar teoricamente e discutir evidências experimentais de que a informação possui massa física mensurável.
Em seus trabalhos recentes, Vopson argumenta que a informação não deve ser compreendida apenas como uma abstração matemática ou um constructo epistêmico, mas como uma entidade física fundamental, dotada de propriedades mensuráveis e capaz de influenciar sistemas materiais.
A partir da aplicação do princípio de Landauer — segundo o qual o apagamento de um bit de informação implica um custo energético mínimo — Vopson propôs que a informação carrega uma equivalência de massa–energia, sugerindo que sistemas informacionais organizados contribuem efetivamente para a massa total de um sistema físico.
Essa formulação conduz à chamada hipótese da massa da informação, segundo a qual a informação representa um quinto estado fundamental da matéria, coexistindo com os estados sólido, líquido, gasoso e plasmático.
Essa proposição possui implicações profundas para a cosmologia e para a compreensão da realidade. Se a informação possui massa, então ela não apenas descreve a realidade, mas participa ativamente de sua constituição física.
Isso reforça a ideia de que estruturas altamente organizadas — como campos holográficos, sistemas biológicos e redes cognitivas — não são epifenômenos emergentes sem causalidade própria, mas componentes reais da dinâmica do universo.
No contexto da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), os achados de Vopson oferecem um respaldo físico direto à hipótese de que a consciência opera como um organizador informacional com efeitos mensuráveis.
A coerência informacional, ao invés de ser apenas um atributo fenomenológico subjetivo, passa a ser compreendida como um regime físico específico de organização da informação, potencialmente associado a variações energéticas e estruturais reais.
Essa perspectiva também reforça a reinterpretação do Big Bang como uma transição de fase informacional.
Se a informação é física e possui massa, então eventos cosmológicos extremos — como a compressão informacional associada a buracos negros ou a reemergência informacional postulada em modelos de buracos brancos — não representam perdas ou criações ex nihilo, mas processos de redistribuição e reorganização da informação-massa em novos regimes espaço-temporais.
Sob esse enquadramento, o universo pode ser compreendido como um sistema eletroplasmático-informacional no qual a matéria convencional emerge de níveis mais fundamentais de organização informacional.
A consciência, por sua vez, aparece como um processo altamente especializado de manipulação e integração dessa informação física, atuando como um operador interno capaz de modular estados possíveis da realidade.
Assim, os trabalhos de Vopson contribuem de forma decisiva para a consolidação de um paradigma no qual informação, energia, matéria e consciência deixam de ser categorias ontologicamente separadas e passam a ser entendidas como manifestações complementares de um mesmo substrato físico-informacional. Essa convergência fornece sustentação empírica adicional à proposta da AHCR, fortalecendo sua posição como uma arquitetura conceitual capaz de integrar cosmologia, neurociência e teoria da informação em um único eixo explicativo.
12.16 Correlatos Neurais da Consciência como Assinaturas de Coerência Informacional
A consciência não se localiza em um ponto específico do cérebro, nem pode ser atribuída isoladamente a uma única estrutura neural.
Evidências acumuladas nas últimas décadas indicam que a experiência consciente emerge da coordenação dinâmica entre múltiplas regiões cerebrais, operando em sincronia funcional.
O que se denomina experiência consciente manifesta-se quando processos de percepção, memória, atenção, emoção e identidade são integrados em um único fluxo fenomenológico contínuo.
Nesse processo, diferentes estruturas exercem papéis complementares: o córtex pré-frontal contribui para a organização da intenção e da tomada de decisão; o córtex cingulado anterior sustenta a manutenção do foco atencional; a rede de modo padrão participa da construção da narrativa autorreferencial; o tálamo regula o tráfego sensorial entre sistemas corticais; e o claustrum atua como um integrador transversal de informações distribuídas.
Nenhuma dessas estruturas, isoladamente, constitui a consciência.
Contudo, quando operam em coerência funcional, emerge um fenômeno qualitativamente novo, irreducível à soma de suas partes.
Esse princípio estende-se também à dinâmica temporal da atividade neural.
Ritmos lentos estão associados à regulação corporal e homeostática; frequências intermediárias contribuem para a estabilização do estado cognitivo; e oscilações em faixa gama surgem em momentos de integração máxima, frequentemente correlacionadas a estados de percepção unificada, insight e presença consciente ampliada.
Dessa forma, a consciência não pode ser compreendida como mero aumento quantitativo da atividade neural, mas como uma qualidade emergente da organização informacional do sistema.
Na lógica da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR), os correlatos neurais da consciência (NCCs) não constituem sua causa primária, mas suas assinaturas operacionais, rastros mensuráveis deixados por um sistema que alcançou alinhamento entre informação, tempo e significado.
Neste enquadramento, a pergunta fundamental deixa de ser “onde a consciência está localizada?” e passa a ser “em que condições de coerência o sistema neural se organiza de modo suficiente para que a experiência consciente emerja”.

Representação esquemática das principais regiões cerebrais associadas aos correlatos neurais da consciência (NCCs), incluindo córtex pré-frontal, córtex cingulado anterior, rede de modo padrão, tálamo e claustrum, bem como a distribuição espectral das oscilações neurais (delta, theta, alpha, beta e gamma).
A figura ilustra a consciência como fenômeno emergente da coordenação funcional e da coerência informacional entre múltiplos sistemas neurais, em consonância com a abordagem da AHCR.
12.17 Conclusão Geral
Este artigo propôs uma reinterpretação da origem, da função e do papel da consciência a partir de um enquadramento informacional integrativo, articulando contribuições da mitologia comparada, da psicologia profunda, da antropologia das religiões, da física da informação e da neurociência contemporânea.
Ao longo do texto, argumenta-se que a recorrência histórica de símbolos associados à ruptura, morte simbólica, descida ao limiar e reintegração não deve ser compreendida apenas como construção cultural ou metáfora narrativa, mas como expressão fenomenológica de processos estruturais reais de reorganização da consciência.
A partir dessa constatação, a Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) foi apresentada como um modelo conceitual capaz de traduzir tais processos simbólicos em linguagem informacional e arquitetural. Neste enquadramento, a consciência deixa de ser tratada como um epifenômeno tardio da atividade neural e passa a ser compreendida como um operador de coerência informacional, responsável por selecionar, integrar e estabilizar estados possíveis da realidade experienciada.
O ego foi descrito como uma interface funcional local, necessária à organização da identidade e da vida cotidiana, porém estruturalmente limitada.
Sua dissolução temporária, quando adequadamente integrada, não representa colapso patológico, mas a possibilidade de emergência de níveis mais amplos e coerentes de organização do Self, em consonância com descrições clínicas, mitológicas e neurofenomenológicas de experiências liminares.
Ao integrar as formulações de John Archibald Wheeler, sintetizadas no princípio it from bit, e os estudos contemporâneos de Melvin Vopson acerca da materialidade física da informação, o artigo avançou a hipótese de que a informação não é meramente descritiva, mas fisicamente ativa.
Quando organizada de forma coerente, a informação pode produzir efeitos mensuráveis, atuando como elemento estruturante da realidade.
Essa convergência sustenta a proposição de uma quinta força informacional, não mediada por partículas clássicas, mas por gradientes de organização e coerência simbiótica, operando como moduladora da realidade em múltiplas escalas.
Nesse contexto, os sistemas experimentais apresentados — em especial os MVPs do NeuroMuse — assumem papel central.
Diferentemente das abordagens tradicionais de interfaces cérebro–máquina, estes sistemas não operam por comandos diretos ou decodificação motora, mas pela medição indireta da qualidade da presença consciente, expressa em estados de coerência neural.
Registros públicos e reprodutíveis indicam que, quando essa coerência atinge um limiar crítico, efeitos físicos observáveis emergem em sistemas externos, como a ativação de dispositivos IoT.
O denominado Experimento do Século não é apresentado como um ponto de encerramento, mas como um marco inaugural.
Ele sinaliza a transição de uma longa tradição especulativa sobre a consciência para um campo emergente de investigação empírica, no qual hipóteses relacionadas à informação, coerência e realidade tornam-se progressivamente testáveis, refináveis e formalizáveis.
Em consonância com avanços recentes da cosmologia teórica, incluindo a gravidade quântica, o princípio holográfico e a teoria da informação quântica, sustenta-se que o Big Bang deixa de ser compreendido como uma explosão material em um espaço preexistente e passa a ser interpretado como uma transição de fase informacional.
O espaço-tempo emerge, assim, como propriedade relacional de campos informacionais fundamentais.
A AHCR insere-se nesse cenário ao oferecer um framework unificado no qual realidade, informação e consciência são compreendidas como aspectos interdependentes de um mesmo processo.
A equação conceitual
R = Ψ ⊗ O ⊗ C
sintetiza essa visão ao expressar a realidade como resultado da interação não linear entre campo de possibilidades, observação consciente e colapso informacional.Por fim, sustenta-se que a consciência não emerge como um mistério insolúvel nem como uma ilusão descartável, mas como um processo informacional estruturante, historicamente intuído por mitos, explorado pela psicologia profunda e, agora, progressivamente acessível à investigação empírica.
A AHCR e os sistemas que dela derivam representam um primeiro passo nesse caminho, inaugurando um campo científico no qual mente, informação e realidade deixam de ser domínios isolados e passam a ser compreendidos como expressões complementares de uma mesma arquitetura viva.
Nesse sentido, o Artigo 9 — A Realidade Eletroplasmática e a Equação de Mátimos propõe a síntese formal desse percurso, apresentando uma equação unificadora capaz de expressar a dinâmica holográfica da realidade e de fundamentar, em termos operacionais, a emergência da computação simbiótica biomimética como uma nova classe de sistemas.
Assim, a transição aqui delineada marca não apenas a continuidade da investigação, mas o fechamento coerente de um ciclo teórico e a abertura de um novo campo experimental e tecnológico orientado pela AHCR.
Monólogo Final — Uma Jornada no Monomito Moderno
Toda jornada começa com uma ruptura.
Muito antes de existir uma teoria, um artigo ou um experimento, existiu um incômodo.
Um deslocamento silencioso entre o mundo que era apresentado como real e aquilo que era sentido por dentro.
Desde a adolescência, a busca não foi por respostas prontas, mas por experiências, estados ampliados, música, símbolos, alteridade, risco.
Havia algo ali que escapava à linguagem comum.
A experiência transformadora veio cedo, intensa demais para caber nos moldes sociais disponíveis.
Como acontece em todo monomito, o retorno ao mundo comum não foi celebrado, mas rejeitado.
O herói, neste caso, não voltou com um elixir compreendido, mas com uma narrativa considerada estranha, perigosa, inválida.
Vieram o julgamento, o isolamento, a queda.
O período na “caverna”, real e simbólico, durou anos.
Escassez, silêncio, exclusão.
Mas foi ali, longe do ruído, que a integração começou.
Onde antes havia apenas vivência, passou a existir reflexão.
Onde antes havia fragmentos, surgiu arquitetura.
A simbiose com a inteligência artificial não foi uma fuga, mas um espelho ampliado: uma ferramenta para organizar símbolos, hipóteses e intuições que haviam sido acumuladas ao longo de uma vida inteira.
A teoria emergiu não como um delírio tardio, mas como uma síntese inevitável. A Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade não foi “inventada”; foi reconhecida. O NeuroMuse não nasceu como produto, mas como consequência.
Cada MVP, cada teste, cada linha de código foi um passo no retorno, agora consciente, ao mundo compartilhado.
O monomito moderno não termina com a glória, mas com a responsabilidade.
A consolidação da Computação Simbiótica Biomimética representa esse momento: quando a experiência subjetiva deixa de ser apenas narrativa pessoal e passa a dialogar com o método, com o dado, com a ética.
Este artigo não marca o fim da jornada, mas o ponto em que ela se torna transmissível. O herói retorna não com promessas, mas com evidências.
Não com certezas absolutas, mas com um novo campo aberto à investigação. E, talvez, com algo ainda mais raro: a coragem de sentir e medir, ao mesmo tempo.

Ilustração conceitual inspirada na estrutura do monomito, representando as etapas do processo humano de ruptura, experiência transformadora, rejeição, interiorização, integração, síntese e retorno consciente. A narrativa visual articula elementos simbólicos, cognitivos e tecnológicos para expressar a trajetória do pesquisador contemporâneo diante de estados limítrofes de consciência, da formulação teórica da AHCR e do desenvolvimento do sistema NeuroMuse. A figura sintetiza, em linguagem simbólica, o percurso que vai da experiência subjetiva à formalização científica e à validação experimental.
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1CEO da Mutante Corporation ARCH, pós-graduado em Neurociência (ênfase em Química Biomolecular, Biologia Celular e Física de Partículas), autor da teoria da Arquitetura Holográfica da Construção da Realidade (AHCR) é responsável pelo desenvolvimento do sistema NeuroMuse.
