REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602100840
Cleiton Luis Maldaner1
RESUMO
O presente artigo explora a trajetória evolutiva da gestão da informação em saúde, partindo de um campo historicamente focado na organização e processamento de dados para um ecossistema digital integrado de prestação de cuidados. Analisa-se a transição da informática em saúde, classicamente voltada à otimização de sistemas administrativos e registros clínicos, para a saúde digital, que engloba tecnologias emergentes e inovadoras centradas no paciente e na qualidade assistencial. o telessaúde é apresentado como a principal e mais visível manifestação dessa transformação paradigmática. A pandemia de COVID-19 atuou como um catalisador sem precedentes, acelerando exponencialmente a adoção de serviços remotos e reconfigurando o telessaúde de uma ferramenta meramente complementar de apoio para um pilar central e estratégico da assistência à saúde. A metodologia adotada foi a revisão bibliográfica qualitativa, construída sistematicamente a partir de estudos científicos atualizados sobre a matéria objeto de estudo. Conclui-se, a partir da revisão bibliográfica realizada, que, embora a infraestrutura tecnológica deficiente e a cultura organizacional resistente tenham imposto barreiras iniciais significativas, a urgente necessidade sanitária consolidou definitivamente o atendimento remoto, revelando um vasto potencial para o crescimento futuro do setor e para a melhoria substancial da equidade no acesso aos serviços de saúde.
Palavras-chave: Informática em Saúde. Saúde Digital. Telessaúde. Telemedicina. Evolução Tecnológica. COVID-19.
ABSTRACT
This article explores the evolutionary trajectory of health information management, moving from a field historically focused on data organization and processing to an integrated digital ecosystem for healthcare delivery. It analyzes the transition of health informatics, classically geared towards optimizing administrative systems and clinical records, to digital health, which encompasses emerging and innovative technologies centered on the patient and quality of care. Telehealth is presented as the main and most visible manifestation of this paradigmatic transformation. The COVID-19 pandemic acted as an unprecedented catalyst, exponentially accelerating the adoption of remote services and reconfiguring telehealth from a merely complementary support tool to a central and strategic pillar of healthcare. The methodology adopted was a qualitative literature review, systematically constructed from updated scientific studies on the subject matter. Based on the literature review, it can be concluded that, although deficient technological infrastructure and a resistant organizational culture imposed significant initial barriers, the urgent need for healthcare definitively consolidated remote care, revealing vast potential for future growth in the sector and for a substantial improvement in equity in access to health services.
Keywords: Health Informatics. Digital Health. Telehealth. Telemedicine. Technological Evolution. COVID-19.
1 Introdução
O tema desta investigação é a trajetória da aplicação computacional no setor de saúde. Esta evolução é marcada por uma profunda mudança de paradigma, saindo da mera digitalização de registros para a criação de complexos sistemas de atendimento remoto e gestão de dados em larga escala.
O problema central reside em compreender como essa transição ocorreu. O campo, que se iniciou lento e restrito a sistemas de informação, enfrentou barreiras de custo, infraestrutura e resistência cultural. Questiona-se: quais foram os vetores e as etapas dessa evolução, e como o telessaúde emergiu como a principal aplicação prática dessa transformação digital?
A hipótese é que a evolução da informática em saúde foi gradual e segmentada por décadas, até que um evento disruptivo, a pandemia de COVID-19, atuou como um acelerador forçado. Esse evento removeu barreiras regulatórias e culturais, consolidando o telessaúde não mais como um serviço periférico de apoio, mas como uma modalidade central e estratégica de prestação de cuidados.
A justificativa para este estudo tem por fundamento a necessidade de compreender este percurso histórico para subsidiar políticas públicas e decisões de gestão. A rápida maturação da saúde digital exige dos profissionais e instituições uma adaptação ágil, baseada nas lições aprendidas durante a crise sanitária.
O objetivo geral é, portanto, analisar a evolução conceitual e tecnológica da informática em saúde, destacando o telessaúde como seu estudo de caso mais proeminente. A metodologia adotada é a pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa.
O artigo está estruturado em duas seções: a primeira aborda a transição histórica e conceitual da informática em saúde para a saúde digital. A segunda foca no telessaúde como a principal expressão dessa evolução, analisando seu impacto e expansão, especialmente no contexto brasileiro e a pandemia de COVID-19.
2 Da Informática em Saúde à Saúde Digital
A consolidação da informática em saúde constitui uma resposta histórica a um problema logístico e organizacional crescente. Durante décadas, os registros clínicos eram predominantemente manuais, demandando grande esforço operacional e tornando-se insustentáveis diante do aumento exponencial de informações geradas pela complexificação da prática médica contemporânea (Oliveira, 2024).
O avanço da computação, nesse contexto, fomentou o surgimento de um novo campo de caráter interdisciplinar, articulando saberes oriundos da ciência da computação, da ciência da informação e das ciências da saúde (Sasso et al., 2024). O propósito inicial consistia em estruturar, armazenar e processar dados de modo a aprimorar a qualidade, a segurança e a eficiência dos processos clínicos e administrativos (Oliveira, 2024).
Todavia, a inserção efetiva dessas tecnologias nos sistemas de saúde não ocorreu de forma imediata. As primeiras décadas do século XXI foram marcadas por um avanço gradual, limitado por fatores estruturais, econômicos e culturais. A carência de infraestrutura tecnológica, os altos custos de implementação, a inexistência de protocolos consolidados de interoperabilidade e a resistência das instituições sanitárias configuraram barreiras notáveis (Sasso et al., 2024).
Adicionalmente, a limitada fluência digital dos profissionais da saúde e a manutenção de práticas organizacionais centradas no registro físico reforçaram percepções de que a digitalização representava mais um ônus administrativo do que um benefício clínico direto. Assim, essa fase inicial caracterizou-se pela digitalização elementar de processos e pela criação das bases técnicas e organizacionais que sustentariam os avanços posteriores (Sasso et al., 2024).
Com a maturação do campo, novas nomenclaturas emergiram, refletindo diferentes estágios de evolução conceitual e metodológica. O termo “informática médica”, predominante nas décadas de 1970 e 1980 e voltado à aplicação computacional em contextos estritamente clínicos, deu lugar à expressão “informática em saúde” e, posteriormente, à “e-Saúde”, incorporando abordagens mais amplas que incluem a gestão e a saúde pública. A etapa atual dessa trajetória é identificada como a “saúde digital”, conceito que ultrapassa os limites da informática em saúde (Penteado et al., 2021).
Embora tenha origem no mesmo arcabouço teórico, a saúde digital se caracteriza por uma extensão e complexidade muito maiores. Ela não se restringe ao gerenciamento de dados ou à infraestrutura de tecnologia da informação, eixo central da informática em saúde (Sasso et al., 2024).
Seu foco reside na aplicação direta de tecnologias emergentes ao cuidado e à promoção da saúde, com ênfase no bem-estar individual e coletivo. Inclui, entre outros recursos, aplicativos móveis (mHealth), dispositivos vestíveis (wearables), smartphones, computação em nuvem, inteligência artificial e aprendizado de máquina. Referidas ferramentas vêm sendo utilizadas em diagnósticos precoces, análises de imagem, monitoramento remoto, autogestão de condições crônicas e interação direta com pacientes. Assim, a saúde digital parte da infraestrutura informacional consolidada pela informática em saúde, mas aprofunda-se na dimensão humana e interativa da assistência, transformando dados em valor social e clínico (Penteado et al., 2021; Sasso et al., 2024).
Essa diferenciação também demanda novas competências profissionais. Enquanto a informática em saúde enfatiza a interoperabilidade, a governança de dados e a segurança das informações, a saúde digital requer conhecimentos voltados à aplicação e avaliação de novas tecnologias, à análise de grandes volumes de dados (big data) e à implementação de soluções inovadoras que promovam eficácia e equidade no cuidado (Sasso et al., 2024).
3 O Caso do Telessaúde e a Pandemia de COVID-19: De Apoio a Metasserviço
O telessaúde constitui, talvez, a manifestação mais tangível e abrangente da saúde digital contemporânea. Define-se como a prestação remota de serviços em saúde mediante o uso de tecnologias de informação e comunicação (TICs). É fundamental distinguir telessaúde de telemedicina: enquanto a telemedicina se restringe ao exercício médico à distância, o telessaúde abrange um escopo mais amplo, que inclui telenfermagem, telepsicologia, teleducação e práticas de gestão e suporte administrativo (Costa et al., 2024; Paloski et al., 2020).
Assim, o conceito engloba atividades de diagnóstico, tratamento, prevenção, pesquisa e capacitação profissional, configurando-se como um serviço de ampla cobertura e custo operacional reduzido (Paloski et al., 2020).
Desde sua institucionalização, programas nacionais como o Telessaúde Brasil Redes, criado em 2007, buscaram fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS) por meio de teleconsultorias, telediagnósticos e teleducação (Costa et al., 2024). Durante esse período, o telessaúde exerceu predominantemente um papel de suporte técnico, funcionando como ferramenta auxiliar no processo decisório dos profissionais e na racionalização do atendimento. No entanto, a pandemia de COVID-19 alterou substancialmente essa função. O distanciamento físico obrigatório e a necessidade de reduzir riscos de contágio forçaram a rápida adoção e expansão do atendimento remoto (Paloski et al., 2020).
As circunstâncias emergenciais impulsionaram mudanças legislativas, como a promulgação da Lei nº 13.989/2020, que regulamentou, em caráter excepcional, o uso da telemedicina no Brasil (Silva et al., 2021). Tal flexibilização normativa viabilizou a transformação de serviços preexistentes, como o TelessaúdeRS-UFRGS, originalmente voltado ao apoio técnico a equipes de APS, em plataformas de atendimento direto à população. O aumento da demanda por teleconsultas e telemonitoramento demonstrou a capacidade do sistema de se adaptar a um novo paradigma assistencial centrado na conectividade e na agilidade (Silva et al., 2021).
Embora a utilização do telessaúde em emergências sanitárias não seja inédita, já experimentada, por exemplo, na China após a epidemia de SARS em 2003, a escala e a permanência do fenômeno durante a COVID-19 consolidaram seu papel estratégico (Paloski et al., 2020). A tecnologia se mostrou essencial para triagem, acompanhamento clínico, alocação racional de recursos e redução de deslocamentos desnecessários. Ferramentas digitais, como sistemas automatizados de triagem e chatbots, possibilitaram monitoramento remoto e disseminação de informações confiáveis, diminuindo a sobrecarga dos serviços presenciais (Paloski et al., 2020; Silva et al., 2021).
A partir dessa experiência, o telessaúde deixou de ser apenas um serviço de apoio para se configurar como um “metasserviço”, caracterizado por sua atuação transversal e articuladora dentro da rede assistencial. Passou a integrar funções clínicas e administrativas, servindo como repositório de dados, instrumento de coordenação do fluxo de pacientes e plataforma de continuidade do cuidado (Silva et al., 2021). A ampliação regulamentar, exemplificada pela Resolução Cofen nº 696/2022, que reconhece e normatiza a atuação da Enfermagem na Saúde Digital, reforça o caráter multiprofissional e inclusivo dessa nova etapa (Costa et al., 2024).
Apesar dos avanços, persistem desafios estruturais e éticos. A consolidação do telessaúde como política pública depende da superação das desigualdades de acesso à internet, da alfabetização digital da população e da construção de ambientes virtuais pautados pela segurança, pela confiança e pela humanização do cuidado. Tais elementos são indispensáveis para que o telessaúde alcance seu potencial de ampliar o acesso, reduzir desigualdades e fortalecer a sustentabilidade dos sistemas de saúde contemporâneos (Costa et al., 2024).
4 Considerações Finais
A trajetória da informática em saúde demonstra uma evolução clara: de uma disciplina focada na gestão de dados para um ecossistema vital de prestação de cuidados. Os registros manuais, que colapsaram pela complexidade da medicina, deram lugar a sistemas de informação que, por décadas, amadureceram lentamente, superando barreiras de custo, infraestrutura e cultura.
A saúde digital emergiu como a fase atual dessa evolução, mas foi o telessaúde que se consolidou como sua aplicação mais transformadora. O que era um serviço de apoio à atenção primária foi reconfigurado pela pandemia de COVID-19. A crise sanitária atuou como um catalisador, forçando a maturação regulatória e operacional do atendimento remoto.
O telessaúde provou ser um mecanismo essencial para a racionalização de recursos, proteção de pacientes e profissionais, e garantia de acesso. A transição de ferramenta de suporte para “metasserviço” de saúde é irreversível. O futuro da informática em saúde, agora plenamente integrado à saúde digital, aponta para um crescimento exponencial, focado em padronizar a captura de dados e otimizar o atendimento remoto, embora a garantia de equidade no acesso digital permaneça como desafio central.
5 Referências Bibliográficas
Costa, I. C. P., Costa, A. S., Garbuio, D. C., Zamarioli, C. M., Eduardo, A. H. A., Carvalho, E. C. D., & Chaves, E. D. C. L. (2024). Telessaúde na assistência ao paciente por enfermeiros de prática avançada: revisão sistemática. Acta Paulista de Enfermagem, 38, eAPE0003141. https://doi.org/10.37689/acta-ape/2025AR0003141
Oliveira, D. C. (2024). A evolução da informática em saúde. Revista Políticas Públicas & Cidades, 13(2), e1462-e1462. https://doi.org/10.23900/2359-1552v13n2-362-2024
Paloski, G. D. R., Barlem, J. G. T., Brum, A. N., Barlem, E. L. D., Rocha, L. P., & Castanheira, J. S. (2020). Contribuição do telessaúde para o enfrentamento da COVID-19. Escola Anna Nery, 24(spe), e20200287. https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2020-0287
Penteado, B. E., Fornazin, M., Castro, L., & Freire, S. L. (2021). Mapeando a dinâmica da informática médica: uma análise bibliométrica do campo científico. Reciis, 15(4). https://doi.org/10.29397/reciis.v15i4.2395
Sasso, G. T. M. D., Marin, H., Peres, H. H. C., & de Souza Gaspar, J. (2024). Domínios, competências e habilidades em informática em saúde e saúde digital: análise documental. Journal of Health Informatics, 16. https://doi.org/10.59681/2175-4411.v16.2024.1440
Silva, R. S. D., Schmtiz, C. A. A., Harzheim, E., Molina-Bastos, C. G., Oliveira, E. B. D., Roman, R., … & Gonçalves, M. R. (2021). O papel da telessaúde na pandemia covid-19: uma experiência brasileira. Ciência & Saúde Coletiva, 26(6), 2149-2157. https://doi.org/10.1590/1413-81232021266.39662020
1Bacharel em Farmácia. Mestrando em Gestão de Saúde com Concentração em Gestão de Serviços de Saúde pela Must University. E-mail: cleitonmaldaner28310@student.mustedu.com
