OPTIMIZATION OF POSTOPERATIVE RECOVERY (ERAS) IN COLORECTAL SURGERY: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202602232238
Fabiana Rocha Jorge; Felipe Klinkowstrom Bruzetti; Fillipe Silva Costa; Gabriell Ferreira Barbosa; Mariana Malagutti Vieira; Ianca Alves Sobrinho; José Henrique Gorgone Zampieri
Resumo
O artigo analisa a aplicação do protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) na cirurgia colorretal eletiva, destacando seu papel na melhoria da recuperação pós-operatória. Trata-se de uma revisão de literatura que reúne evidências de diretrizes, estudos clínicos e meta-análises sobre o tema. O ERAS é um conjunto de intervenções multimodais aplicadas no período pré, intra e pós-operatório, com o objetivo de reduzir o estresse cirúrgico, manter a estabilidade fisiológica e acelerar a recuperação do paciente. Entre seus principais componentes estão: educação do paciente, redução do jejum pré-operatório, nutrição adequada, analgesia com menor uso de opioides, mobilização precoce e minimização do uso de sondas e drenos. Os resultados apresentados indicam que a implementação do protocolo está associada à redução do tempo de internação, menor incidência de complicações pós-operatórias e recuperação funcional mais rápida, sem aumento das taxas de reinternação. No contexto brasileiro, o ERAS mostra-se viável, desde que haja organização multiprofissional, padronização de condutas e monitoramento contínuo. Por fim, o estudo ressalta que o sucesso do protocolo depende da adesão da equipe e da integração entre os profissionais de saúde, sendo fundamental a adoção de protocolos institucionais e auditorias para garantir a efetividade e segurança do cuidado.
Palavras-chave: Recuperação Acelerada Após Cirurgia (ERAS); Cirurgia Colorretal; Recuperação Pós-operatória; Cuidados Perioperatórios; Desfechos Cirúrgicos.
INTRODUÇÃO
A cirurgia colorretal está associada a morbidade pós-operatória relevante, com complicações como íleo paralítico, infecção do sítio cirúrgico, complicações pulmonares e tromboembolismo venoso, além de aumento do tempo de internação e custos hospitalares. Em muitos serviços, práticas tradicionais como jejum prolongado, analgesia baseada predominantemente em opioides e mobilização tardia ainda podem contribuir para atraso na recuperação funcional.
Nesse contexto, o Enhanced Recovery After Surgery (ERAS), ou Otimização da Recuperação Pós-Operatória, consolidou-se como um conjunto de intervenções multimodais baseadas em evidências que busca reduzir o estresse cirúrgico, manter a homeostase fisiológica e acelerar a reabilitação do paciente. O ERAS combina ações no pré, intra e pós-operatório, incluindo educação do paciente, abreviação do jejum e estratégias de nutrição, analgesia multimodal com redução de opioides, fluidoterapia orientada por metas, minimização de drenos e sondas, alimentação precoce e deambulação precoce (LJUNGQVIST; SCOTT; FEARON, 2017).
Na cirurgia colorretal, as recomendações foram sistematizadas em diretrizes da ERAS Society para cirurgia de cólon e para cirurgia retal/pélvica, que descrevem medidas aplicáveis ao cuidado perioperatório eletivo e apontam benefícios em desfechos como complicações e tempo de permanência hospitalar (GUSTAFSSON et al., 2013; NYGREN et al., 2012). Revisões sistemáticas e meta-análises reforçam que programas ERAS, quando implementados com boa adesão, reduzem a morbidade global e o tempo de internação em comparação ao cuidado convencional (GRECO et al., 2014; LJUNGQVIST; SCOTT; FEARON, 2017).
No Brasil, experiências de implementação e estudos comparativos indicam que o ERAS pode ser factível em diferentes realidades institucionais, com potencial de reduzir tempo de internação e manter a segurança clínica, desde que haja organização multiprofissional, protocolos padronizados e auditoria de resultados (ENHANCED, 2018; PROGRAMA ERAS, 2019).
OBJETIVO
Revisar a literatura científica sobre a aplicação do protocolo Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) em cirurgia colorretal eletiva, descrevendo seus principais componentes e analisando sua influência em desfechos clínicos como tempo de internação, complicações pós-operatórias, reinternações e segurança.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão de literatura narrativa, de caráter descritivo e analítico. Foram consideradas evidências provenientes de diretrizes, revisões sistemáticas/meta-análises e estudos clínicos (ensaios clínicos e coortes) sobre ERAS em cirurgia colorretal. Critérios de inclusão: estudos com adultos submetidos à cirurgia colorretal eletiva, com aplicação/avaliação de protocolo ERAS e desfechos clínicos reportados. Critérios de exclusão: cirurgias de urgência, população pediátrica, relatos de caso e artigos sem descrição mínima do programa/itens do ERAS.
1. REVISÃO DE LITERATURA E DISCUSSÃO
1.1 Conceitos e componentes do ERAS na cirurgia colorretal
O ERAS é estruturado como um pacote (“bundle”) de intervenções interdependentes, cujo efeito decorre tanto do impacto individual de cada item quanto, sobretudo, do efeito cumulativo quando há alta adesão ao conjunto. De forma geral, os componentes do ERAS incluem: (a) preparo do paciente e otimização pré-operatória (educação, orientação, cessação de tabagismo e etilismo quando aplicável, manejo de anemia e avaliação de risco); (b) abreviação do jejum e estratégias de nutrição (ingestão de líquidos claros até poucas horas antes da anestesia, carboidrato pré-operatório em pacientes selecionados, e reintrodução precoce da dieta); (c) prevenção de náuseas e vômitos; (d) analgesia multimodal poupadora de opioides; (e) normotermia; (f) prevenção de tromboembolismo venoso; (g) fluidoterapia e hemodinâmica otimizadas; (h) minimização de sondas, drenos e cateteres; (i) mobilização precoce; e (j) auditoria contínua e melhoria de processo (GUSTAFSSON et al., 2013; NYGREN et al., 2012).
A adesão é considerada aspecto central: quanto maior o cumprimento dos itens, maior tende a ser a redução de complicações e tempo de internação. Assim, o ERAS não deve ser interpretado como uma intervenção isolada, mas como mudança de modelo assistencial.
1.2 Impacto em tempo de internação e complicações
Em meta-análises, programas ERAS em cirurgia colorretal têm sido associados à redução do tempo de permanência hospitalar e à diminuição de complicações, em comparação ao cuidado convencional. Greco et al. (2014) sintetizaram ensaios clínicos randomizados e observaram benefício do ERAS em desfechos relevantes, com manutenção da segurança clínica. Revisões mais amplas também apontam que a implementação do ERAS é compatível com menores taxas de complicações e menor tempo de internação, sem aumento proporcional de reinternações (LJUNGQVIST; SCOTT; FEARON, 2017).
Esses resultados tendem a ser explicados por mecanismos como: redução da resposta ao estresse cirúrgico, menor disfunção gastrointestinal pós-operatória, melhor controle da dor com menor uso de opioides e recuperação funcional mais rápida. Na prática, a alta hospitalar é orientada por critérios funcionais (deambulação, dieta oral tolerada, dor controlada e ausência de sinais de complicações), não apenas por tempo fixo após a cirurgia.
1.3 Experiência brasileira e implementação
Estudos brasileiros indicam factibilidade do ERAS, com redução do tempo de internação em comparação ao cuidado convencional em cirurgia colorretal eletiva, sem evidência de aumento de complicações graves (ENHANCED, 2018). Além disso, publicações nacionais enfatizam o papel da enfermagem e da equipe multiprofissional na padronização de rotinas e na garantia de adesão, especialmente em medidas como mobilização precoce, retirada de dispositivos e educação do paciente (PROGRAMA ERAS, 2019).
1.4 Desafios e pontos de atenção
Entre os desafios de implementação, destacam-se: necessidade de alinhamento entre equipes (cirurgia, anestesia, enfermagem, nutrição e fisioterapia), treinamento, revisão de protocolos internos, adaptação de recomendações à realidade institucional (recursos, disponibilidade de analgesia regional, fisioterapia, etc.) e criação de indicadores para auditoria contínua. A literatura ressalta que o sucesso do ERAS depende do componente organizacional e de melhoria de processo, além das intervenções clínicas (LJUNGQVIST; SCOTT; FEARON, 2017).
CONCLUSÃO
A literatura revisada sustenta que protocolos ERAS aplicados à cirurgia colorretal eletiva contribuem para recuperação pós-operatória mais rápida, com redução do tempo de internação e diminuição de complicações, sem comprometer a segurança quando implementados com adequada seleção de pacientes, monitorização e trabalho multiprofissional.
Diretrizes da ERAS Society e meta-análises apontam que o benefício do ERAS é mais consistente quando há alta adesão a múltiplos itens do protocolo. No Brasil, experiências publicadas sugerem viabilidade de implementação e resultados favoráveis, embora persistam desafios relacionados a recursos, cultura institucional e padronização.
Recomenda-se que serviços de cirurgia colorretal adotem protocolos escritos, auditoria de indicadores e educação permanente da equipe, visando aumentar adesão e garantir sustentabilidade do programa, além de estimular estudos nacionais que avaliem impacto clínico e econômico em diferentes cenários assistenciais.
REFERÊNCIAS
ENHANCED recovery after surgery protocol versus conventional care in colorectal surgery: a Brazilian randomized study. Revista Brasileira de Anestesiologia, Rio de Janeiro, v. 68, n. 4, p. 358-368, 2018.
GRECO, M. et al. Enhanced recovery program in colorectal surgery: a meta-analysis of randomized controlled trials. World Journal of Surgery, New York, v. 38, n. 6, p. 1531-1541, 2014.
GUSTAFSSON, U. O. et al. Guidelines for perioperative care in elective colonic surgery: Enhanced Recovery After Surgery (ERAS®) Society recommendations. World Journal of Surgery, New York, v. 37, n. 2, p. 259-284, 2013.
LJUNGQVIST, O.; SCOTT, M.; FEARON, K. C. Enhanced Recovery After Surgery: a review. JAMA Surgery, Chicago, v. 152, n. 3, p. 292-298, 2017.
NYGREN, J. et al. Guidelines for perioperative care in elective rectal/pelvic surgery: Enhanced Recovery After Surgery (ERAS®) Society recommendations. Clinical Nutrition, Edinburgh, v. 31, n. 6, p. 801-816, 2012.
PROGRAMA ERAS: cuidados de enfermagem associados ao programa Enhanced Recovery After Surgery®. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, v. 32, n. 5, p. 1-9, 2019.
