ONCE UPON A TIME THERE WAS A SONG: A CRITICAL-COMPARATIVE ANALYSIS OF THE CHILDREN’S SONG (2019), BY CÉSAR MC
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202602232217
Jamilly Delfino de Luna
Resumo
Lançada em 2019, Canção Infantil, do cantor e compositor César MC ganhou forte repercussão nas mídias digitais pelo seu teor crítico à sociedade, seus valores e às problemáticas causadas pela desigualdade social, demonstrando seu poder de mobilização política. Nesse sentido, este estudo realiza uma análise crítico-comparativa da música e suas intersecções com contos de fadas e outras produções literárias, a exemplo do poema A Casa (1970), do escritor Vinícius de Moraes, a fim de investigar as possíveis inspirações e referências encontradas entre os textos e realizar uma discussão analítica em relação às composições intertextuais. Nesse viés, a pesquisa utiliza como fundamentação teórica as contribuições de Cândido (2006), Carvalhal (2006), Genette (1997), para o viés da Literatura Comparativa, e outros autores que enriquecem a exploração dessa temática. Desse modo, explora-se a forma como César MC utiliza ferramentas linguísticas para construir uma narrativa que convida à reflexão sobre a infância em uma sociedade complexa e contraditória. Além disso, este estudo destaca a relevância da música no cenário cultural brasileiro, enfatizando seu papel na formação política e na criticidade coletiva.
Palavras-chave: Canção Infantil. Música. Contos de fadas. Literatura. Sociedade.
1 INTRODUÇÃO
A música, em suas infinitas formas e estilos, acompanha a humanidade desde os primórdios, servindo como expressão cultural, ferramenta de comunicação e fonte de entretenimento (SCHWENGBER, 2017). Entre seus gêneros, o rap se destaca por sua potência social e poética para servir como um retrato da realidade, questionar desigualdades e celebrar a cultura popular. É nesse universo sonoro que esse estudo será delineado, explorando a produção musical Canção Infantil1 (2019), do cantor César MC, um artista que ousa desafiar as fronteiras entre o rap e a literatura infantil.
Nesse sentido, tendo em vista o aumento do alcance que o rap tomou pelo Brasil pela sua grande repercussão, destaca-se a sua relevância ao desenvolvimento da formação política e a criticidade da população. Dessa forma o artista, após passar por uma transformação na sua forma de pensar, transmite essa transformação em suas músicas e atinge também o ouvinte (QUEIROZ, 2023).
A escolha de Canção Infantil como objeto de estudo se justifica por sua relevância no cenário musical brasileiro. Lançada em 2019, a canção rapidamente conquistou um público diversificado, transcendendo as barreiras geracionais e sociais. Esta pesquisa é conduzida por uma análise qualitativa de natureza bibliográfica, implicando uma revisão sistemática e detalhada com o objetivo de delinear um panorama abrangente e fundamentado do assunto em questão, utilizando como aporte teórico as contribuições de Cândido (2006), Carvalhal (2006), Genette (1997) para as discussões acerca da teoria comparativa literária, além de outros autores que corroboram com o encadeamento dessa temática.
Neste estudo, realiza-se uma análise da composição dessa obra singular, tecendo um diálogo entre o que é real e o que é fantasioso. Dessa forma, a canção será debruçada sob uma ótica analítica e comparativa entre os pontos de interligação da música com outras produções literárias, como os contos de fadas, através de uma lente crítica. Além disso, examina-se nesta pesquisa a forma em que César MC utiliza ferramentas linguísticas de ambos os gêneros narrativos para construir uma escrita que questiona estereótipos, denuncia injustiças sociais e convida à reflexão sobre a infância em uma sociedade e em um sistema político complexo e, ao mesmo tempo, contraditório. Além disso, busca-se investigar a questão da literalidade do título da canção através da seguinte indagação: “A Canção infantil será mesmo uma produção destinada ao público infantil? ”.
Ao concluirmos este estudo, espera-se ter contribuído para uma compreensão mais profunda de Canção Infantil, reconhecendo sua relevância artística, social e literária. O aprofundamento no assunto se dará nas discussões levantadas nos próximos tópicos.
2 CANÇÃO INFANTIL (2019), DE CÉSAR MC: SERÁ MESMO INFANTIL?
A música Canção Infantil (2019), de autoria do cantor, rapper e compositor brasileiro, César Resende Lemos, mais conhecido por César MC(nome artístico) comparticipação da cantora Cristal ao ser analisada sob a ótica do rap, encontra-se elementos que caracterizam o dito gênero musical: a linguagem coloquial, a crítica social e a valorização da cultura popular. Ao longo de sua carreira, César MC tem colaborado com artistas renomados como Emicida e Criolo, elevando seu impacto e relevância dentro da cena rap brasileira. Sua habilidade em combinar habilmente o ritmo fluído com letras profundas e provocativas tem garantido sua posição como um dos artistas inovadores do gênero no Brasil, atualmente.
O cantor utiliza versos contundentes para abordar temas e implicar questões como a pobreza, a fome, a seca, a marginalização, o papel da criança em prol de um futuro promissor, a segurança pública, consequentemente, a violência urbana, como também a detenção de valores/virtudes. Outrossim, denuncia as desigualdades sociais que marcam a realidade de muitas crianças no Brasil. A Canção Infantil será mesmo uma produção destinada ao público infantil? É uma música que carrega um teor inocente? Questões a serem investigadas a partir do seguinte fragmento:
Os monstros se tornaram literais
Eu brincava de polícia e ladrão um tempo atrás
Hoje ninguém mais brinca
Ficou realista demais
As balas ficaram reais, perfurando a eternit
Brincar, nóis ainda quer, mas o sangue melou o pique
O final do conto é triste, quando o mal não vai embora
O bicho-papão existe, não ouse brincar lá fora
Enquanto expõe essas problemáticas, a sua composição faz alusões simultâneas do que é fantasioso ou simbólico e do que é real. Nesse sentido, a música realiza diversos diálogos com outras produções textuais, como canções, elementos da cultura popular, contos de fadas e fábulas que, normalmente, são destinados ao público infantil; relação esta que pode ser identificada através dos “monstros” como o “bicho-papão”, elemento místico criado pela cultura popular, que agora é revelado como um bicho real, animal este que é o próprio homem, o qual representa o perigo.
“O sangue melou o pique”, em um viés interpretativo, expressa o fim trágico que foi causado pela negligência policial. A “eternit” simboliza, em forma de perífrase, o material do teto que é utilizado por grande parte da população marginalizada, principalmente, em favelas, ambiente aludido na música em análise, teto esse que fora atingido pelas “balas” que o perfuraram, assim como, essas “balas” são as mesmas que causaram alguma vítima que gerou o referido cenário ensanguentado. Assim, demonstra-se que o ato de brincar nas ruas foi impedido pela falta de segurança pública.
A partir dos levantamentos colocados, responde-se, neste momento, ao questionamento realizado no início deste tópico sobre a titulação de Canção Infantil, a qualencaminha ao ouvinte ou ao leitor a acreditar que o seu conteúdo, isto é, a sua letra é direcionado ao público infantil. No entanto, essa obra carrega uma forte crítica ao sistema político-social brasileiro, utilizando-se de intertextualidades com histórias, contos de fadas, canções, fábulas e outras produções literárias que são, preferencialmente, atribuídas às crianças. Além disso, são referenciados fatos policiais que aconteceram no Brasil e acometeram a vida de crianças. Dessa forma, é direcionada aos cidadãos brasileiros com o intuito discursivo de provocação à uma consciência e à uma reflexão coletiva, ou seja, ela não é diretamente visada às crianças.
2.1 A Comparatividade Como Diálogo e Descobertas
A teoria literária comparativa é aquela que transcende a mera comparação de semelhanças entre textos literários. Carvalhal (2006) argumenta que a literatura comparada evoluiu de uma análise de paralelismos binários para uma investigação mais profunda e abrangente que visa interpretar questões gerais manifestadas nas obras literárias. Esta abordagem requer uma articulação com contextos sociais, políticos, culturais e históricos mais amplos.
A presença da intertextualidade é fundamental na literatura comparada, pois cada obra literária contém referências e ecos de textos anteriores. Esta concessão de um texto a partir de outro revela-se essencial para explorar as relações dialógicas entre textos. Neste processo, o leitor desempenha um papel ativo ao dialogar, comparar e analisar materiais artísticos de maneira despretensiosa.
Para delinear os pontos de intersecção entre obras de gêneros distintos, a transtextualidade e a teoria da adaptação são ferramentas cruciais. Nesse sentido, Genette (1997) define a transtextualidade como “tudo aquilo que coloca um texto em relação com outros textos, seja essa relação manifesta ou secreta” (p.7). Assim, um conto original pode ser visto como uma expressão produzida em um contexto histórico e social específico, que posteriormente é transformado e situado em outro contexto e transmitida em uma mídia distinta.
A teoria da adaptação complementa esta análise ao examinar como essa passagem de um meio para outro é realizada. Dessa forma, a obra adaptada utiliza as pistas verbais do texto original, amplificando, ignorando, subvertendo ou transformando elementos para contar a mesma história sob um ponto de vista diferente. Como afirma Walter Benjamin (1992, p. 90), “contar histórias é sempre a arte de repetir histórias”.
Aplicada ao estudo das letras de canções, essa teoria possibilita analisar como as músicas refletem especificidades culturais e dialogam com outras produções literárias.
A letra da canção é um instrumento rico e com relevante potencial de aprendizagem efetiva. Ela incita a formação de um ser crítico em relação à escolha por um estilo musical, uma letra mais engajada ou uma busca por um texto mais poético, levando-o à construção de ideais, sonhos e tornando-o mais sensível e tolerante ao próximo, à vida (Silva, 2018, p. 14).
De acordo com os apontamentos anteriores de Silva (2018), a letra de canção possui um potencial significativo como instrumento de aprendizagem efetiva. A escolha por um estilo musical específico ou por letras mais poéticas pode levar os ouvintes a desenvolverem ideais, sonhos e uma maior sensibilidade e tolerância para com os outros e a vida em geral.
Tanto na literatura dos contos quanto na música as ferramentas linguísticas desempenham um papel crucial atuando como recursos estilísticos que enriquecem o texto, despertam emoções e facilitam a transmissão de significados complexos. Nos contos e nas músicas, esses recursos são utilizados de maneira estratégica para criar imagens vívidas, evocar sensações auditivas e visuais, além de construir atmosferas envolventes que capturam a atenção do leitor ou ouvinte.
Uma dessas ferramentas é a símile, ou comparação explícita, que estabelece uma relação de semelhança entre dois elementos distintos através do uso de conectivos. Essa figura de linguagem é frequentemente utilizada para ilustrar características dos personagens ou descrever cenários de forma mais rica e detalhada. Na música, a símile cria imagens mentais. Segundo Koch (1993), a símile é essencial para a construção de imagens poéticas e para a amplificação do sentido dos textos narrativos e líricos.
A onomatopeia, que consiste na imitação de sons naturais por meio de palavras, é um recurso utilizado tanto na literatura quanto na música. Nos contos, a onomatopeia dá vida às descrições, imitando sons de animais, objetos ou fenômenos naturais, proporcionando uma experiência de leitura mais imersiva. Na música, esse recurso ajuda a transmitir a atmosfera da canção e a envolver o ouvinte através de uma experiência auditiva direta (Fiorin, 2017).
Outra ferramenta é a metáfora, que estabelece uma relação de identidade entre dois termos diferentes, sem o uso de conectivos, provocando uma fusão de sentidos. Esse recurso é empregado para a criação de imagens complexas e multifacetadas, que estimulam a interpretação e o engajamento do leitor. Nas letras de canções, a metáfora é amplamente utilizada para transmitir emoções e ideias de maneira mais profunda e simbólica. De acordo com Lakoff e Johnson (1980), a metáfora é um mecanismo fundamental para a compreensão e expressão humana, pois permite que conceitos abstratos sejam representados por meio de imagens concretas.
A aliteração, que é a repetição de sons consonantais no início das palavras, e a assonância, que é a repetição de sons vocálicos, são ferramentas que contribuem para a musicalidade e ritmo dos textos. Essas figuras de linguagem são especialmente importantes na poesia e nas letras de música, onde o som desempenha um papel central na experiência estética. Conforme afirma Cândido (2006), a sonoridade das palavras pode intensificar o impacto emocional do texto e auxiliar na memorização das canções e poemas.
A hipérbole, que consiste na exageração de características, ações ou sentimentos para enfatizar uma ideia ou provocar um efeito dramático. Nos contos, a hipérbole destaca aspectos de personagens ou situações, aumentando a intensidade narrativa. Nesse sentido, esse recurso é frequentemente empregado para expressar emoções intensas, como amor ou dor, de maneira exagerada e impactante. Segundo Silva (2002), a hipérbole é utilizada para a criação de imagens vívidas e marcantes, que ressoam de uma forma mais impactante com o público.
A exploração dessas ferramentas evidencia a riqueza e a versatilidade da linguagem, destacando sua capacidade de transcender o literal e tocar o emocional. Dessa forma, os instrumentos linguísticos no geral compartilham com os leitores e ouvintes uma amplitude de sentidos que tornam a literatura um campo abrangente de significados, e assim, a comparatividade de produções literárias assume diversas configurações.
2.2 Os Contos De Fada Modernos: A Música Como Ferramenta De Conscientização Social
Verifica-se, nesta etapa, a importância da presença dos contos de fadas na formação individual das crianças, visto que esse é gênero mais aludido na composição em estudo. Como também, procura-se entender a relação deste gênero com o papel social que a música representa.
A relação entre a infância e os chamados contos de fadas é histórica e culturalmente substancial. Ao entrar em contato com um conto, a criança tem a oportunidade de enriquecer sua vida imaginativa, como também de trabalhar questões que figuram como desafiadoras para ela tanto na realidade psíquica quanto na relação com o mundo (Kielb e Silva, 2020).
Schneider e Torossian (2009) discutem o papel dos contos de fadas na clínica contemporânea, explorando suas origens e sua relevância psicológica, eles enfatizam que:
Os contos se caracterizam por serem uma narrativa cujos personagens heróis e, ou, heroínas enfrentam grandes desafios para, no final, triunfarem sobre o mal. Permeados por magias e encantamentos, animais falantes, fadas madrinhas, reis e rainhas, ogros, lobos e bruxas personificam o bem e o mal (p. 135).
Esse gênero trata-se, então, de uma construção simbólica, em que, ao falar de fantasia, referimo-nos a uma realidade psíquica. É justamente a fantasia o elemento mediador entre as realidades interna e externa (Radino, 2003).
Nesse sentido, pelo cenário caótico vigente no país, Canção Infantil levanta a hipótese de que esse público infantil que ao invés de estar construindo o seu identitário através da imersão em contos de fadas, tem se contraposto às suas realidades, quando o mesmo está inserido em um ambiente composto por inúmeras problemáticas, das quais está sendo vítima.
Por outro lado, constata-se que a literatura pode também servir como uma preparação, podendo esta ser psicológica, para o enfrentamento dessas questões, considerando a importância da infância que precisa, necessariamente, vivenciar fantasias e a ludicidade. Os contos de fadas transmitem mensagens simbólicas e significados manifestos e latentes. “Então será fácil aprender a ler, aprender a olhar e escutar, pois, a imaginação da palavra abre à criança as vias do verdadeiro conhecimento de si mesmo, dos outros e do mundo.” (Jean, 1990, p.222).
Nesse mesmo viés, se encontra a música que é uma arte que se faz presente em diversos momentos da vida, exercendo importante papel na formação do ser humano desde a infância. Sobre a música, Schopenhauer (2001) aponta que:
[…] é uma arte a tal ponto elevada e majestosa, que é capaz de fazer efeito mais poderoso que qualquer outra no mais íntimo do homem, sendo por inteiro e tão profundamente compreendida por ele como se fora uma linguagem universal, cuja compreensibilidade é inata e cuja clareza ultrapassa até mesmo a do mundo intuitivo (p. 227-228).
Compreende-se a partir deste conceito schopenhaueriano que a música é a cópia da própria vontade (Oliveira, 2013). Seguindo essa perspectiva, considera-se essa como um instrumento de manifestação expressiva, desempenhando uma função majestosa, a qual é capaz de externar do próprio sujeito o que o mesmo enxerga ao seu redor, ou seja, a sua realidade. Essa manifestação artística se faz presente nas mais variadas culturas. Por isso, compreender as suas intenções é estar a par de conhecer aquilo que está mais intimamente próximo do humano (Schwengber et. al, 2017).
Andrade e Silva (1962) afirmam que “O compositor que saiba ver um bocado além dos desejos de celebridade, tem uma função social neste país. […] O coro humaniza os indivíduos.” (p. 19), isto é, a proximidade entre os seres humanos e as obras musicais, as tornam ferramentas sociais, que podem carregar um caráter moralizador. Portanto, a música é vista como uma força que não apenas expressa emoções, mas também desempenha um papel crucial na construção de laços sociais e na formação de uma consciência coletiva.
Além disso, vale mencionar a ligação profunda existente da musicalidade com a Literatura pelo seu caráter poético, destacando também a musicalização de contos; Zipes (2002) argumenta que essas narrativas promovem a internalização de normas sociais e a construção de uma identidade, influenciando significativamente o desenvolvimento moral dos jovens leitores. Dessa forma, os contos infantis são instrumentos fundamentais para a construção dos valores e da moralidade nas crianças. No próximo tópico, será conduzida uma análise comparativa e intertextual envolvendo Canção Infantil e outras obras.
3 CONTOS E RECONTOS: UMA LEITURA COMPARATIVA
A obra Canção Infantil (2019), em toda sua composição, se interliga a uma diversidade de textos, e é por esse motivo que será realizada uma análise comparativa entre tais intertextualidades presentes na canção, a fim de discutir as correlações existentes entre tais produções e revelar as possíveis inspirações e referências presentes na composição. Em seu todo, essa canção dialoga com as seguintes composições textuais: as músicas1Cinco Patinhos (2000); Ciranda Cirandinha (2012); A fábula A Lebre e a Tartaruga (1981); O poema A Casa (1970); Os contos de fadas A Bela e a Fera (1740); Alice No País Das Maravilhas (1865); Cinderela (1950); Chapeuzinho Vermelho (1697); Rapunzel (1812); Pinóquio (1883). Para uma melhor compreensão desta investigação, foram selecionadas três destas obras, dentre as escolhas se encontram: o poema A Casa, do escritor Vinícius de Moraes, a música Cinco Patinhos (2000), lançada pela cantora Xuxa Meneghel, e Pinóquio (2017), publicado em sua versão original em 1883, por CarloCollodi.
Através do quadro abaixo, faz-se a primeira análise comparativa:
Quadro 1 – Textos a serem analisados

Fonte: Elaborado pela autora
No poema, é remetida a abstração do que se considera uma “casa”; nele, Vinícius de Moraes descreve uma casa que, de forma lúdica, é uma construção absurdamente incompleta. A ausência de elementos essenciais como “teto”, “chão”, “parede” e até mesmo um “penico” são apresentados de maneira humorística. Em consonância com Fernandes (1994):
Assim, a partir do momento em que a casa não possui estruturas físicas, fica claro, segundo as estruturas do imaginário, que ela se confunde como o próprio homem, à medida que o corpo se converte em referencial da casa. Se a casa real configura o centro do mundo e, portanto, uma morada cósmica, a casa da infância, ao se abstrair das formas convencionais e da matéria, consubstancia o abandono individual às convenções e, sobretudo, a saída do indivíduo do cosmos. É exatamente por isso que partes importantes, como o teto, figuram em sua abstratização (p.162).
Dessa forma, este lar, descrito no poema, é um símbolo de uma realidade em que a falta é notável, contrastando com o “esmero” que pelo qual foi feito. Já em Canção Infantil, são retratadas duas casas, estas, por sua vez, representam lugares que fisicamente podem existir, o que não seria possível de maneira concreta na “casa” apontada no poema. A primeira casa colocada na música, que, apesar de ser bem estruturada fisicamente, possui elementos que a condicionam e a fazem pertencer a uma possível família de alta classe social, como “piscina” e “arquiteto”, porém não possui valores como o “afeto”, que na segunda casa já existe, mesmo esta se encontrando em condições vulneráveis e precárias.
A segunda, embora pobre estruturalmente, como pode ser reconhecido em: “[…] Sem rua asfaltada, fora do padrão […] Eternit furada, pequena, apertada”, é rica em valores como a “fé”, “gratidão“ e “afeto”, evidenciando que o verdadeiro lar é construído com laços emocionais, não apenas com bens materiais. Nesse contexto, a canção de César MC critica a superficialidade das relações modernas, onde o valor humano é frequentemente substituído por bens materiais, refletindo uma sociedade que valoriza o ter em detrimento do ser, expondo as disparidades entre riqueza material e pobreza emocional.
Em uma segunda comparação, investiga-se a história de Pinóquio, a qual narra as aventuras de um boneco de madeira que deseja se tornar um menino de verdade. Criado por Geppetto, Pinóquio enfrenta várias dificuldades e aprende lições sobre honestidade e responsabilidade já que sai contando mentiras e o seu nariz de madeira cresce a cada inverdade inventada por ele. Através de suas peripécias, o boneco eventualmente se transforma em um menino real, simbolizando o crescimento pessoal e a realização de seus sonhos. Já na música se encontram os seguintes fragmentos:
A vida é uma canção infantil
É, sério, pensa, viu?
Belas e feras, castelos e celas
Princesas, Pinóquios, mocinhos e
É, eu não sei se isso é bom ou mal
[…] Somos Pinóquios plantando mentiras e botando a culpa no Gepeto
Precisamos voltar pra casa
Em Canção Infantil, verifica-se o personagem que inventa mentiras é o próprio homem que vive em sociedade. Nesse sentido, encontra-se também, a simbolização do Geppetto, personagem considerado o pai de Pinóquio, por ser o seu criador, referência aludida a Deus, que em uma perspectiva religiosa, é considerado também o criador do próprio ser humano, ou seja, o pai.
Dentre os trechos selecionados, é percebida a ideia do retorno, expresso no seguinte fragmento: “…precisamos voltar pra casa”, este representa a necessidade do fechamento de ciclos e a reconexão com o que é essencial, a integração das experiências vividas e a realização de um estado mais completo e equilibrado de ser.
Para a terceira e última comparabilidade, utiliza-se o quadro a seguir e, em seguida, as discussões acerca do mesmo:
Quadro 2 – Textos a serem analisados

Fonte: Elaborado pela autora
Com uma letra simples e repetitiva, a música infantil Cinco Patinhos é um clássico que narra a história de cinco filhotes de patos que saem para passear, mas um a um vão se perdendo pelo caminho, até que nenhum deles retorna. De maneira sútil, essa canção aborda temas como a preocupação materna e a saudade. Ao final, a música transmite uma mensagem de esperança e alívio, quando todos os patinhos finalmente retornam à sua mãe.
Identifica-se as relações entre esses textos, quando César MC utiliza-se de uma das ferramentas linguísticas que foram apresentadas anteriormente, a onomatopeia, para remeter ao som reproduzido pela mãe dos patinhos que grita “quá, quá, quá, quá” para chamar por seus filhotes, representada na sua canção como o som de disparos de tiros em “pá, pá, pá, pá”. Essa associação do som à sua fonte de reprodução fica mais clara quando o cantor utiliza os termos “polícia”, “engatilhou”, “disparos”. Essa parte em específico da música Canção Infantil diz respeito a um fato policial que envolveu a morte de cinco jovens fuzilados em uma troca de tiros que envolveu mais de cem disparos de armas de fogo, fato reconhecido também na letra quando diz: “foram mais de cem disparos nesse conto sem moral”, esse incidente ocorreu na cidade de Costa Barros, Rio de Janeiro, no ano de 2015, de acordo com o site G13 Assim, em contrapartida aos Cinco Patinhos, os cinco meninos que foram passear não retornaram para casa, ponto reconhecido pelo trecho: “nenhum, nenhum deles voltaram de lá”.
A comparação entre as obras apresentadas destaca como a canção utiliza intertextualidade para criticar questões sociais contemporâneas. Canção Infantil transforma a falta de afeto em uma crítica à superficialidade das relações modernas com A Casa, reinterpreta a busca de Pinóquio por autenticidade como um chamado ao retorno aos valores essenciais e utiliza a tragédia em diálogo aos Cinco Patinhos para abordar a violência urbana. Assim, a canção transcende a mera adaptação, promovendo uma forte reflexão.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A presente pesquisa possui abordagem qualitativa, pois busca interpretar os sentidos e significados construídos nos textos analisados, privilegiando uma compreensão crítica e simbólica da linguagem. Dessa forma, não se fundamenta em dados quantitativos, mas na análise discursiva e literária dos elementos presentes na obra selecionada.
Trata-se de um estudo de natureza bibliográfica, uma vez que o corpus investigado é composto por materiais já publicados, como a letra da música Canção Infantil (2019), de César MC, além de narrativas e canções tradicionais do universo infantil. O trabalho se apoia em referências teóricas da literatura e da crítica cultural, possibilitando uma leitura interpretativa do material.
A metodologia adotada consiste em uma análise literária comparativa, estabelecendo aproximações e contrastes entre a canção contemporânea e as estruturas típicas das histórias infantis. Foram observados aspectos como linguagem, imagens simbólicas, temática e construção narrativa, buscando compreender de que modo a música ressignifica elementos do imaginário infantil para produzir uma crítica social.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise empreendida sobre a música Canção Infantil de César MC demonstra a profundidade com que o rap pode abordar questões sociais, políticas e culturais, utilizando-se de elementos narrativos e linguísticos que remetem aos contos de fadas. Através dessa obra, percebe-se como o artista consegue transcender os limites do gênero musical para criar uma narrativa que não apenas entretém, mas também provoca reflexões críticas sobre a realidade contemporânea.
No que tange a música, especialmente no gênero rap, destaca-se a sua capacidade única de servir como ferramenta de manifestação pública e de mobilização política. A letra de Canção Infantil ilustra isso ao utilizar estratégias linguísticas que aproximam o ouvinte de textos familiares, enquanto carrega um teor fortemente político-social. Essa abordagem permite que temas complexos e muitas vezes dolorosos sejam apresentados de uma maneira que é ao mesmo tempo acessível e impactante.
Além disso, a escolha de utilizar referências aos contos de fadas, como a figura de Pinóquio e elementos típicos dessas histórias, reforça a ideia de que a infância é um período crucial para a formação do indivíduo. No entanto, ao contextualizar esses elementos dentro de um cenário contemporâneo e realista, a música de César MC convida o público a reconsiderar as lições desses contos à luz das desigualdades e desafios atuais. Considerando a importância de proporcionar às crianças uma infância rica em imaginação, mas também consciente das realidades que as cercam.
Finalmente, a obra de César MC exemplifica como a música pode desempenhar um papel conscientizador para a sociedade como um todo. Ao tecer uma narrativa que dialoga entre o real e o fantástico, a produção musical convida todos a refletirem sobre suas próprias experiências e responsabilidades sociais, promovendo uma visão crítica e engajada do mundo. Em suma, a análise de Canção Infantil revela a capacidade transformadora da música como arte, capaz de entrelaçar a crítica social com a estética literária, promovendo um espaço de reflexão e aprendizado contínuo.
1 A música Canção Infantil pode ser encontrada na íntegra na página 12, referenciada como Anexo A, no tópico onde se localizam os Anexos.
2 A música Cinco Patinhos pode ser encontrada na íntegra na página 14, referenciada como Anexo B, no tópico onde se localizam os anexos.
3 Link para acesso a reportagem do fato, no site G1: <https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/12/mais-de-100-tiros-foram-disparados-por-pms-envolvidos-em-mortes-no-rio.html>
ANEXOS
ANEXO A – Música Canção Infantil, de César MC.
Era uma casa não muito engraçada
Por falta de afeto, não tinha nada
Até tinha teto, piscina, arquiteto
Só não deu pra comprar aquilo que faltava
Bem estruturada, às vezes lotada
Mas memo’ lotada, uma solidão
Dizia o poeta, o que é feito de ego
Na rua dos tolos, gera frustração
Yeah, yeah, yeah
Hmm, hmm, hmm
Yeah, yeah, yeah, yeah
Hmm, hmm, hmm
Yeah, havia outra casa, canto da quebrada
Sem rua asfaltada, fora do padrão
Eternit furada, pequena, apertada
Mas se for colar, tem água pro feijão
Se o Mengão jogar, pode até parcelar
Vai ter carne, cerveja, refri e carvão
As moeda’ contada, a luz sempre cortada
Mas fé não faltava, tinham gratidão
Yeah, yeah, yeah
Mas era tão perto do céu
Yeah, yeah, yeah
Mas era tão perto do céu
Como era doce o sonho ali (como era doce o sono ali)
Mesmo não tendo a melhor condição (mesmo não tendo a melhor condição)
Todos podiam dormir ali (todos podiam dormir ali)
Mesmo só tendo um velho colchão (mesmo só tendo um velho colchão)
Mas era feita com muito amor (amor, amor)
Mas era feita com muito amor
A vida é uma canção infantil
É, sério, pensa, viu?
Belas e feras, castelos e celas
Princesas, Pinóquios, mocinhos e
É, eu não sei se isso é bom ou mal
Alguém me explica o que nesse mundo é real
O tiroteio na escola, a camisa no varal
O vilão que ‘tá na história ou aquele do jornal
Diz (diz) por que descobertas são letais?
Os monstros se tornaram literais
Eu brincava de polícia e ladrão um tempo atrás
Hoje ninguém mais brinca
Ficou realista demais
As balas ficaram reais, perfurando a eternit
Brincar, nóis ainda quer, mas o sangue melou o pique
O final do conto é triste, quando o mal não vai embora
O bicho-papão existe, não ouse brincar lá fora
Pois cinco meninos foram passear
Sem droga, flagrante, desgraça nenhuma
A polícia engatilhou pá, pá, pá, pá
Mas nenhum, nenhum deles voltaram de lá
Foram mais de cem disparos nesse conto sem moral
Já não sei se era mito essa história de lobo mau
Diretamente do fundo do caos procuro meu cais no mundo de cães
Os manos são maus, no fundo a maldade resulta da escolha que temos nas mãos
Uma canção infantil, à vera
Mas lamento, velho, aqui a Bela não fica com a Fera
Também pudera, é cada um no seu espaço
Sapatos de cristal pisam em pés descalços
A Rapunzel é linda sim, com os dreads no terraço
Mas se a lebre vem de Juliet, até a tartaruga aperta o passo
Porque (porque) é sim (é sim) tão difícil de explicar
E na ciranda, cirandinha, a sirene vem me enquadrar
Me mandando dar meia-volta sem ao menos me explicar
De Costa Barros a Guadalupe, um milhão de enredos
Como explicar para uma criança que a segurança dá medo?
Como explicar que 80 tiros foi engano?
80 tiros, 80 tiros, ah
Carrossel de horrores, tudo te faz refém
Motivos pra chorar, até a bailarina tem
O início já é o fim da trilha
Até a Alice percebeu que não era uma maravilha
Tem algo errado com o mundo
Não tire os olhos da ampulheta
O ser humano, em resumo, é o câncer do planeta
A sociedade é doentia e julga a cor, a careta
Deus escreve planos de paz, mas também nos dá a caneta
E nós, nós escrevemos a vida, iPhones, a fome, a seca
Os homi’, os drone’, a inveja e a mágoa
O dinheiro, a disputa, o sangue, o gatilho
Sucrilhos, mansões, condomínios e guetos
‘Tá tudo do avesso, faiamos no berço
Nosso final feliz tem a ver com o começo
Somente o começo, somente o começo
Pro plantio ser livre a colheita é o preço
A vida é uma canção infantil, veja você mesmo
Somos Pinóquios plantando mentiras e botando a culpa no Gepeto
Precisamos voltar pra casa
Onde era feita com muito amor
Onde era feita com muito amor
Fonte: https://www.letras.mus.br/cesar-mc/cancao-infantil/
ANEXO B – Música Cinco Patinhos, de Xuxa.
Cinco Patinhos
Cinco patinhos foram passear
Além das montanhas
Para brincar
A mamãe gritou: Quá, quá, quá, quá
Mas só quatro patinhos voltaram de lá
Quatro patinhos foram passear
Além das montanhas
Para brincar
A mamãe gritou: Quá, quá, quá, quá
Mas só três patinhos voltaram de lá
Três patinhos foram passear
Além das montanhas
Para brincar
A mamãe gritou: Quá, quá, quá, quá
Mas só dois patinhos voltaram de lá
Dois patinhos foram passear
Além das montanhas
Para brincar
A mamãe gritou: Quá, quá, quá, quá
Mas só um patinho voltou de lá
Um patinho foi passear
Além das montanhas
Para brincar
A mamãe gritou: Quá, quá, quá, quá
Mas nenhum patinho voltou de lá
A mamãe patinha foi procurar
Além das montanhas
Na beira do mar
A mamãe gritou: Quá, quá, quá, quá
E os cinco patinhos voltaram de lá
Fonte: https://www.letras.mus.br/temas-infantis/cinco-patinhos/
REFERÊNCIAS
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