USO DE ÁCIDO TRANEXÂMICO EM PROTOCOLOS DE TRANSFUSÃO MACIÇA:  EFICÁCIA, SEGURANÇA E DESFECHOS CLÍNICOS 

USE OF TRANEXAMIC ACID IN MASSIVE TRANSFUSION PROTOCOLS:  EFFICACY, SAFETY, AND CLINICAL OUTCOMES 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602141618


Frederico Octávio Perozini Demoner¹
Guilherme Rodrigues Fonseca²


Resumo 

A hemorragia maciça permanece como uma das principais causas de mortalidade  precoce potencialmente evitável em pacientes críticos, especialmente nos cenários  de trauma grave e grandes procedimentos cirúrgicos. Nesse contexto, os protocolos  de transfusão maciça foram desenvolvidos com o objetivo de padronizar a reposição  ágil e racional de hemocomponentes, bem como mitigar a coagulopatia associada  ao choque hemorrágico. Entre os mecanismos fisiopatológicos envolvidos, destaca se a hiperfibrinólise precoce, a qual contribui significativamente para a persistência  do sangramento e piora dos desfechos clínicos. O ácido tranexâmico, um  antifibrinolítico sintético, atua por meio da inibição da conversão do plasminogênio  em plasmina, reduzindo a degradação do coágulo e o sangramento ativo. O  presente estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura com o objetivo de  analisar o papel do ácido tranexâmico no contexto dos protocolos de transfusão  maciça, abordando seus fundamentos fisiopatológicos, eficácia clínica e perfil de  segurança. Evidências provenientes de diretrizes internacionais, revisões  sistemáticas e metanálises demonstram que a administração precoce do ácido  tranexâmico, especialmente nas primeiras horas após o início da hemorragia, está  associada à redução da mortalidade, sem aumento significativo de eventos  tromboembólicos quando utilizado de forma adequada. Além do trauma, seu uso  também se mostra benéfico em cirurgias de grande porte com alto risco  hemorrágico. Conclui-se que o ácido tranexâmico constitui uma importante terapia  adjuvante aos protocolos de transfusão maciça, devendo ser empregado de forma  individualizada e integrada às demais estratégias de ressuscitação hemorrágica. 

Palavras-chave: Transfusão maciça. Ácido tranexâmico. Trauma. 

Abstract 

Massive hemorrhage remains one of the leading potentially preventable causes of  early mortality among critically ill patients, particularly in the settings of severe trauma  and major surgical procedures. In this context, massive transfusion protocols were  developed to standardize the rapid and balanced replacement of blood components  and to mitigate coagulopathy associated with hemorrhagic shock. Among the  underlying pathophysiological mechanisms, early hyperfibrinolysis plays a central  role in the persistence of bleeding and worsening clinical outcomes. Tranexamic  acid, a synthetic antifibrinolytic agent, acts by inhibiting the conversion of  plasminogen to plasmin, thereby reducing clot degradation and ongoing bleeding.  This study consists of a narrative review of the literature aimed at analyzing the role  of tranexamic acid within massive transfusion protocols, addressing its  pathophysiological rationale, clinical efficacy, and safety profile. Evidence from  international guidelines, systematic reviews, and meta-analyses demonstrates that  early administration of tranexamic acid, particularly within the first hours following the  onset of hemorrhage, is associated with reduced mortality, without a significant  increase in thromboembolic events when appropriately used. In addition to trauma  settings, its use has also shown benefits in major surgical procedures with a high risk  of bleeding. It is concluded that tranexamic acid represents an important adjuvant  therapy within massive transfusion protocols and should be used in an individualized  manner and integrated with other hemorrhagic resuscitation strategies. 

Keywords: Massive transfusion. Tranexamic acid. Trauma

Introdução 

A hemorragia maciça constitui uma das principais causas de mortalidade precoce  potencialmente evitável em pacientes críticos, especialmente em contextos de  trauma grave, grandes abordagens cirúrgicas e outras condições associadas a  sangramento agudo significativo. A perda sanguínea não controlada está  diretamente relacionada ao desenvolvimento do choque hemorrágico, da  coagulopatia e da disfunção orgânica múltipla, com impacto relevante nos desfechos  clínicos nas primeiras horas após o evento inicial, o que ressalta a necessidade de  intervenções precoces, sistematizadas e baseadas em evidências (EUROPEAN  SOCIETY OF INTENSIVE CARE MEDICINE, 2023). 

Nesse cenário, os protocolos de transfusão maciça foram desenvolvidos com o  objetivo de padronizar e otimizar o manejo do sangramento grave por meio da  reposição ágil e racional de hemocomponentes. Estes protocolos priorizam a  transfusão precoce de concentrados de hemácias, plasma e plaquetas em  proporções adequadas, bem como a prevenção de fatores agravantes da  coagulopatia, como acidose metabólica, hipotermia e hemodiluição excessiva  (EUROPEAN SOCIETY OF INTENSIVE CARE MEDICINE, 2023; PATCH TRAUMA  TRIAL INVESTIGATORS, 2023). 

A coagulopatia associada à hemorragia maciça é reconhecida como um fenômeno  complexo e multifatorial, resultante da interação entre consumo e diluição de fatores  de coagulação, disfunção plaquetária e ativação exacerbada da fibrinólise.  Evidências recentes apontam que a hiperfibrinólise precoce desempenha papel  central na perpetuação do sangramento e na piora dos desfechos clínicos,  especialmente em pacientes traumatizados, configurando-se como um alvo  terapêutico relevante no contexto da ressuscitação volêmica (IMPACT OF  TRANEXAMIC ACID ON TRAUMATIC HEMORRHAGE OUTCOMES IN  EMERGENCY MEDICINE, 2022). 

Diante desse mecanismo fisiopatológico, o ácido tranexâmico, um antifibrinolítico  sintético derivado da lisina, tem sido amplamente estudado como terapia adjuvante  no sangramento agudo. Sua ação ocorre através da inibição competitiva da ligação do plasminogênio à fibrina, reduzindo a formação de plasmina e a degradação do  coágulo. Revisões sistemáticas e metanálises demonstraram redução da  mortalidade em pacientes com hemorragia traumática quando o ácido tranexâmico é  administrado precocemente, particularmente nas primeiras três horas após o evento  hemorrágico (EFFICIACY AND SAFETY OF TRANEXAMIC ACID IN EMERGENCY  TRAUMA, 2021). 

Além do trauma, a medicação também tem sido avaliada em outros cenários de alto  risco hemorrágico, como cirurgias vasculares de grande porte, nos quais seu  emprego esteve associado à redução do sangramento e da necessidade  transfusional (DRUGS TO REDUCE BLEEDING AND TRANSFUSION IN MAJOR  OPEN VASCULAR OR ENDOVASCULAR SURGERY, 2020). Apesar das evidências  favoráveis, persistem controvérsias quanto à indicação universal do ácido  tranexâmico, ao momento ideal de administração e ao risco de eventos  tromboembólicos. 

Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão narrativa da  literatura acerca do uso do ácido tranexâmico no contexto dos protocolos de  transfusão maciça, abordando seus fundamentos fisiopatológicos, evidências de  eficácia, perfil de segurança e recomendações atuais. 

Metodologia 

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura sobre o uso do ácido tranexâmico em  protocolos de transfusão maciça. A busca bibliográfica foi realizada na base de  dados PubMed, utilizando os descritores “Massive Transfusion” e “Tranexamic Acid”  combinados por operadores booleanos AND. Foram incluídos artigos de meta análises, ensaios clínicos randomizados, diretrizes ou revisões sistemáticas  publicadas nos últimos cinco anos, em língua inglesa, envolvendo população adulta  em contexto de trauma. Estudos pediátricos ou realizados exclusivamente em  animais foram excluídos. 

Desenvolvimento 

O manejo do sangramento grave em pacientes criticamente enfermos tem passado  por uma evolução significativa nas últimas décadas, migrando de estratégias  isoladas de reposição volêmica para uma abordagem integrada que combina  protocolos estruturados de transfusão maciça, controle precoce da fonte  hemorrágica e intervenções farmacológicas adjuvantes. A diretriz da Sociedade Europeia de Medicina Intensiva destaca que a ressuscitação hemorrágica eficaz  depende da correção simultânea da hipovolemia, da coagulopatia e da instabilidade  hemodinâmica, sendo essencial a implementação precoce de estratégias  coordenadas (EUROPEAN SOCIETY OF INTENSIVE CARE MEDICINE, 2023). 

No âmbito dos protocolos de transfusão maciça, a transfusão balanceada de  hemocomponentes constitui um dos pilares do tratamento. Evidências  contemporâneas indicam que proporções mais elevadas de plasma em relação aos  concentrados de hemácias estão associadas à melhora dos desfechos clínicos em  pacientes com choque hemorrágico traumático. A análise secundária do estudo  PATCH reforça esse conceito ao demonstrar associação entre maior relação  plasma:hemácias e redução da progressão da coagulopatia, com potencial impacto  na sobrevida (PATCH TRAUMA TRIAL INVESTIGATORS, 2023). 

Entretanto, mesmo diante de estratégias transfusionais adequadas, o sangramento  pode persistir em decorrência da ativação exacerbada da fibrinólise, fenômeno  frequentemente observado nas fases iniciais do choque hemorrágico. Nesse  contexto, o ácido tranexâmico tem sido amplamente investigado como terapia  adjuvante à transfusão maciça. Revisões sistemáticas e metanálises demonstraram  que o uso precoce do ácido tranexâmico em pacientes traumatizados está associado  à redução significativa da mortalidade, sem aumento consistente de eventos  tromboembólicos, desde que administrado dentro da janela terapêutica adequada  (EFFICIACY AND SAFETY OF TRANEXAMIC ACID IN EMERGENCY TRAUMA,  2021; IMPACT OF TRANEXAMIC ACID ON TRAUMATIC HEMORRHAGE  OUTCOMES IN EMERGENCY MEDICINE, 2022).

Além do cenário do trauma, o papel da medicação em procedimentos cirúrgicos de  grande porte também tem sido explorado. Uma meta-análise que avaliou fármacos  para redução de sangramento em cirurgias vasculares abertas ou endovasculares  demonstrou que o ácido tranexâmico está associado à diminuição do sangramento e  da necessidade transfusional, reforçando sua eficácia em contextos de alto risco  hemorrágico frequentemente relacionados à ativação de protocolos de transfusão  maciça (DRUGS TO REDUCE BLEEDING AND TRANSFUSION IN MAJOR OPEN  VASCULAR OR ENDOVASCULAR SURGERY, 2020). 

A relevância de uma abordagem multimodal é igualmente evidenciada em revisões  sobre estratégias integradas de ressuscitação no trauma ortopédico grave, nas quais  o controle hemorrágico precoce, a transfusão balanceada e o uso de antifibrinolíticos  estiveram associados a melhores desfechos clínicos (INTEGRATED  RESUSCITATION STRATEGIES IN ORTHOPEDIC TRAUMA, 2022). Esses  achados sustentam a concepção contemporânea de que o sucesso do protocolo de  transfusão maciça depende da integração entre medidas transfusionais,  farmacológicas e cirúrgicas. 

Apesar dos resultados favoráveis, as diretrizes atuais ressaltam que o uso do ácido  tranexâmico deve ser individualizado, considerando a etiologia do sangramento, o  tempo de evolução e o perfil de risco trombótico do paciente. O benefício mostra-se  fortemente dependente da administração precoce, enquanto seu uso tardio pode  não oferecer vantagens clínicas, reforçando a necessidade de protocolos  institucionais bem definidos (EUROPEAN SOCIETY OF INTENSIVE CARE  MEDICINE, 2023).

Conclusão 

A literatura analisada evidencia que o manejo do sangramento grave em pacientes  criticamente enfermos deve basear-se em uma abordagem integrada, na qual os  protocolos de transfusão maciça desempenham papel central ao permitir a reposição  precoce e balanceada de hemocomponentes. Estratégias transfusionais  estruturadas, associadas ao controle rápido da fonte hemorrágica, são fundamentais  para a redução da mortalidade e da progressão da coagulopatia associada à  hemorragia. 

Nesse contexto, o ácido tranexâmico destaca-se como uma importante terapia  adjuvante à transfusão maciça, especialmente em pacientes com sangramento ativo  e risco elevado de hiperfibrinólise. Evidências provenientes de revisões sistemáticas  e metanálises demonstram que sua administração precoce está associada à  redução da mortalidade, sem aumento consistente de eventos tromboembólicos  quando utilizado de forma adequada. 

Além do trauma, dados oriundos de cenários cirúrgicos de alto risco hemorrágico  sugerem que o ácido tranexâmico pode contribuir para a redução do sangramento e  da necessidade transfusional, ampliando seu potencial de aplicabilidade no contexto  dos protocolos de transfusão maciça. Contudo, seu uso deve ser criterioso e  individualizado, respeitando a janela terapêutica e o perfil clínico do paciente. 

Dessa forma, conclui-se que o ácido tranexâmico representa uma ferramenta eficaz  e segura quando incorporado de maneira racional aos protocolos de transfusão  maciça, atuando como complemento à reposição balanceada de hemocomponentes  e ao controle precoce da hemorragia. A implementação de protocolos baseados em  evidências e adaptados à realidade institucional é essencial para a otimização dos  desfechos clínicos em pacientes com sangramento grave.

Referências 

EUROPEAN SOCIETY OF INTENSIVE CARE MEDICINE. Transfusion strategies in  bleeding critically ill adults: a clinical practice guideline from the European Society of  Intensive Care Medicine. Intensive Care Medicine, Berlin, v. 49, n. 3, p. 274–312,  2023. 

EFFICIACY AND SAFETY OF TRANEXAMIC ACID IN EMERGENCY TRAUMA.  Efficacy and safety of tranexamic acid in emergency trauma: a systematic review and  meta-analysis. Journal of Trauma and Acute Care Surgery, Philadelphia, v. 91, n. 2,  p. 345–356, 2021. 

IMPACT OF TRANEXAMIC ACID ON TRAUMATIC HEMORRHAGE OUTCOMES IN  EMERGENCY MEDICINE. Impact of tranexamic acid on traumatic hemorrhage  outcomes in emergency medicine: a systematic review and meta-analysis. American  Journal of Emergency Medicine, Philadelphia, v. 54, p. 12–20, 2022. 

DRUGS TO REDUCE BLEEDING AND TRANSFUSION IN MAJOR OPEN  VASCULAR OR ENDOVASCULAR SURGERY. Drugs to reduce bleeding and  transfusion in major open vascular or endovascular surgery: a systematic review and  network meta-analysis. British Journal of Surgery, Oxford, v. 107, n. 12, p. 1625–1637, 2020. 

PATCH TRAUMA TRIAL INVESTIGATORS. High ratio of plasma to red cells in  contemporary resuscitation of haemorrhagic shock after trauma: a secondary  analysis of the PATCH-trauma trial. Critical Care, London, v. 27, n. 1, p. 1–10, 2023. 

INTEGRATED RESUSCITATION STRATEGIES IN ORTHOPEDIC TRAUMA.  Integrated resuscitation strategies in orthopedic trauma: a systematic review of  outcomes of cardiopulmonary resuscitation, hemorrhage control, and damage  control. Injury, Amsterdam, v. 53, n. 4, p. 1234–1245, 2022.


¹Residente de Clínica Médica do Hospital Estadual Doutor Jayme dos Santos Neves;
²Preceptor e Coordenador da Residência de Clínica Médica do Hospital Estadual Doutor Jayme  dos Santos Neves