REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602101710
Luiza Barbosa da Silva Lima
Thais Lazarino Maciel da Costa
RESUMO
Os serviços de saúde têm vivenciado, nas últimas décadas, um cenário marcado pelo aumento da complexidade assistencial, intensificação das demandas de trabalho e escassez de recursos humanos, fatores que impactam diretamente a saúde mental dos profissionais de enfermagem. Nesse contexto, a síndrome de burnout emerge como um agravo ocupacional relevante, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional, com potenciais repercussões sobre a qualidade da assistência e a segurança do paciente. O objetivo deste estudo foi analisar as implicações do burnout em profissionais de enfermagem para a qualidade do cuidado e a segurança do paciente nos serviços de saúde. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conduzida nas bases PubMed/MEDLINE, CINAHL, SciELO, LILACS e Web of Science, considerando publicações entre 2014 e 2024. Foram incluídos 22 estudos que abordaram a relação entre burnout, qualidade assistencial e desfechos de segurança do paciente. Os resultados evidenciaram alta prevalência de burnout entre profissionais de enfermagem, especialmente da dimensão de exaustão emocional, associada a falhas no processo de cuidado, omissões de enfermagem, erros de medicação, eventos adversos evitáveis e redução da qualidade da assistência. Observou-se ainda que fatores organizacionais, como subdimensionamento de pessoal, jornadas prolongadas e insuficiente suporte institucional, contribuem significativamente para o desenvolvimento da síndrome e para o enfraquecimento da cultura de segurança. Conclui-se que o burnout na enfermagem configura-se como um fator de risco sistêmico para a segurança do paciente, reforçando a necessidade de estratégias institucionais e políticas públicas voltadas à promoção da saúde do trabalhador, ao dimensionamento adequado das equipes e à construção de ambientes de cuidado seguros, éticos e humanizados.
Palavras-chave: Burnout; Enfermagem; Qualidade da assistência à saúde; Saúde do trabalhador; Segurança do paciente.
1. INTRODUÇÃO
Os serviços de saúde contemporâneos caracterizam-se por um cenário de crescente complexidade assistencial, marcado pela incorporação constante de tecnologias, pelo aumento da demanda por cuidados e pela necessidade de respostas rápidas e precisas diante de situações clínicas cada vez mais desafiadoras. Nesse contexto, a enfermagem ocupa posição central no cuidado, sendo responsável por atividades que envolvem vigilância contínua, tomada de decisão clínica, execução de procedimentos e coordenação do cuidado multiprofissional. Tal protagonismo, embora essencial para a qualidade da assistência, expõe esses profissionais a condições de trabalho intensas, frequentemente associadas a jornadas prolongadas, alta carga emocional e pressão constante por resultados, fatores que contribuem de forma significativa para o adoecimento psíquico no ambiente laboral (Aiken et al., 2018; Santos et al., 2021).
Entre os agravos relacionados à saúde mental dos profissionais de enfermagem, destaca-se a síndrome de burnout, compreendida como uma resposta crônica ao estresse ocupacional, caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional. Estudos recentes apontam elevada prevalência dessa síndrome entre enfermeiros que atuam em diferentes níveis de atenção, especialmente em contextos hospitalares e de alta complexidade, onde a sobrecarga de trabalho e a escassez de recursos humanos são recorrentes. O burnout, nesse sentido, ultrapassa a dimensão individual e passa a ser reconhecido como um fenômeno organizacional, diretamente relacionado às condições estruturais e aos modelos de gestão adotados nos serviços de saúde (Woo et al., 2020; Medeiros et al., 2023).
A literatura científica tem demonstrado que o burnout na enfermagem não se limita a repercussões sobre o bem-estar do trabalhador, mas exerce impacto direto sobre a qualidade da assistência prestada. Profissionais emocionalmente exaustos tendem a apresentar redução da atenção, comprometimento da capacidade de julgamento clínico e diminuição do envolvimento empático com o paciente, elementos essenciais para a prestação de um cuidado seguro e integral. Essas alterações no processo de trabalho favorecem a ocorrência de falhas assistenciais, omissões de cuidado e dificuldades na comunicação entre membros da equipe, comprometendo a continuidade e a resolutividade da assistência em saúde (Maslach & Leiter, 2016; Pradas-Hernández et al., 2018).
Nesse contexto, a relação entre burnout e segurança do paciente tem ganhado destaque na produção científica nacional e internacional. Evidências apontam que níveis elevados de exaustão emocional e despersonalização estão associados ao aumento de erros de medicação, eventos adversos evitáveis, infecções relacionadas à assistência à saúde e queda na qualidade percebida do cuidado. Assim, o burnout configura-se como um fator de risco silencioso para a segurança do paciente, muitas vezes negligenciado nas análises institucionais, que tendem a priorizar aspectos técnicos em detrimento das condições humanas do trabalho em saúde (Hall et al., 2016; Griffiths et al., 2019).
No Brasil, essa problemática assume contornos ainda mais complexos diante das fragilidades estruturais do sistema de saúde, como o subdimensionamento de pessoal, a precarização dos vínculos trabalhistas e a insuficiência de políticas institucionais voltadas à promoção da saúde do trabalhador. Estudos nacionais evidenciam que ambientes de trabalho marcados por alta demanda assistencial e baixo suporte organizacional apresentam maior prevalência de burnout entre profissionais de enfermagem, refletindo negativamente na adesão a protocolos de segurança e na qualidade da assistência prestada. Esse cenário revela que a segurança do paciente está intrinsecamente ligada às condições de trabalho da equipe, exigindo abordagens mais amplas e integradas (Silva et al., 2020; Oliveira et al., 2022).
Além de seus impactos assistenciais, o burnout na enfermagem deve ser compreendido também sob uma perspectiva ética e humanizada do cuidado. A impossibilidade de oferecer uma assistência compatível com os valores profissionais, em decorrência da exaustão física e emocional, gera sofrimento moral e fragiliza o sentido do trabalho em saúde. Tal vivência compromete não apenas a identidade profissional do enfermeiro, mas também a qualidade das relações estabelecidas com pacientes, familiares e colegas de equipe (Ramos et al., 2021; Morley et al., 2019). Diante disso, analisar as implicações do burnout para a segurança do paciente e a qualidade da assistência torna-se fundamental para subsidiar estratégias de gestão, fortalecer a cultura de segurança e promover ambientes de cuidado mais seguros, éticos e humanizados.
2. OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Analisar as implicações da síndrome de burnout em profissionais de enfermagem para a qualidade da assistência e a segurança do paciente nos serviços de saúde, à luz das evidências científicas disponíveis na literatura nacional e internacional.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Identificar os principais fatores associados ao desenvolvimento da síndrome de burnout em profissionais de enfermagem nos diferentes contextos assistenciais.
- Descrever a prevalência e as dimensões do burnout na enfermagem, considerando os instrumentos utilizados para sua mensuração.
- Analisar os impactos do burnout na qualidade do cuidado de enfermagem, com ênfase nos processos assistenciais e organizacionais.
- Investigar a relação entre a síndrome de burnout e a ocorrência de incidentes, eventos adversos e falhas relacionadas à segurança do paciente.
- Discutir estratégias institucionais e gerenciais descritas na literatura para a prevenção do burnout e a promoção de ambientes de trabalho seguros, éticos e humanizados.
3. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura, método amplamente utilizado na área da saúde por possibilitar a síntese crítica de resultados provenientes de diferentes delineamentos metodológicos, permitindo uma compreensão abrangente e aprofundada de fenômenos complexos relacionados à prática assistencial. A escolha desse método justifica-se pela necessidade de reunir e analisar evidências científicas sobre as implicações da síndrome de burnout em profissionais de enfermagem para a qualidade da assistência e a segurança do paciente, contemplando produções nacionais e internacionais que abordam o tema sob múltiplas perspectivas (Whittemore; Knafl, 2005).
A revisão foi conduzida de acordo com as seis etapas propostas por Whittemore e Knafl (2005): (1) identificação do problema e formulação da questão de pesquisa; (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão; (3) busca sistemática da literatura; (4) avaliação crítica dos estudos selecionados; (5) extração e síntese dos dados; e (6) apresentação e interpretação dos resultados. A questão norteadora que orientou o estudo foi: “Quais são as implicações da síndrome de burnout em profissionais de enfermagem para a qualidade da assistência e a segurança do paciente nos serviços de saúde?”
A estratégia de busca foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, CINAHL, SciELO, LILACS e Web of Science, selecionadas por sua relevância e abrangência na indexação de estudos da área de Enfermagem e Saúde. Foram utilizados descritores controlados dos vocabulários DeCS e MeSH, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, incluindo os termos: Burnout, Professional; Nursing; Patient Safety; Quality of Health Care; Adverse Events. Como exemplo de estratégia de busca, utilizou-se a combinação: “Burnout, Professional” AND “Nursing” AND “Patient Safety”, adaptada conforme as especificidades de cada base de dados.
Foram incluídos estudos originais, revisões sistemáticas e estudos multicêntricos publicados no período de 2014 a 2024, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem a síndrome de burnout em profissionais de enfermagem e sua relação com a qualidade da assistência e/ou a segurança do paciente. Excluíram-se editoriais, cartas ao editor, relatos de experiência, dissertações, teses, estudos duplicados e publicações que não apresentassem relação direta com a temática proposta.
O processo de seleção dos estudos ocorreu em três etapas sequenciais: inicialmente, realizou-se a leitura dos títulos; em seguida, procedeu-se à leitura dos resumos; e, por fim, à leitura completa dos artigos potencialmente elegíveis. Essa etapa foi conduzida por dois revisores de forma independente, a fim de reduzir vieses de seleção. As divergências identificadas durante o processo foram resolvidas por consenso entre os revisores. Para garantir a transparência e a reprodutibilidade da seleção, o processo foi organizado em um fluxograma baseado nas recomendações do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses).
A avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos foi realizada por meio do Critical Appraisal Skills Programme (CASP), adaptado conforme o delineamento de cada pesquisa (quantitativa ou qualitativa). Foram considerados critérios como clareza dos objetivos, adequação do método, rigor na coleta e análise dos dados, coerência dos resultados e relevância dos achados para a prática assistencial. Apenas estudos classificados com qualidade metodológica moderada ou alta foram mantidos na amostra final.
A extração dos dados foi realizada a partir de um instrumento elaborado pelas autoras, contendo as seguintes informações: autor(es), ano de publicação, país de origem, tipo de estudo, contexto assistencial, instrumento utilizado para mensuração do burnout (como Maslach Burnout Inventory, Copenhagen Burnout Inventory ou instrumentos correlatos), principais resultados relacionados à qualidade da assistência e desfechos associados à segurança do paciente, como erros de medicação, eventos adversos, omissões de cuidado e falhas na comunicação.
Os dados extraídos foram analisados por meio de uma abordagem temática e comparativa, permitindo a identificação de convergências, divergências e lacunas na produção científica. Os resultados foram organizados em categorias analíticas relacionadas aos fatores associados ao burnout, aos impactos na qualidade do cuidado e às implicações para a segurança do paciente. Para facilitar a compreensão e a síntese das evidências, os achados foram apresentados em tabelas elaboradas pelas autoras, destacando as características metodológicas dos estudos e os principais desfechos identificados.
Por se tratar de um estudo de revisão da literatura, que não envolve coleta de dados com seres humanos, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. No entanto, todos os princípios éticos foram respeitados, garantindo a fidedignidade das informações, a adequada citação das fontes e o rigor científico na análise e interpretação dos dados.
5. RESULTADOS
A busca sistemática realizada nas bases de dados resultou em 784 publicações inicialmente identificadas. Após a remoção de duplicatas e a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 22 estudos compuseram a amostra final desta revisão integrativa. As publicações analisadas foram distribuídas no período de 2014 a 2024, com maior concentração de estudos a partir de 2019, evidenciando o crescimento do interesse científico sobre a síndrome de burnout na enfermagem e suas repercussões na qualidade da assistência e na segurança do paciente, especialmente no contexto pós-pandemia.
Os estudos incluídos apresentaram diversidade metodológica, contemplando delineamentos quantitativos, qualitativos, estudos multicêntricos e revisões sistemáticas. Houve predominância de pesquisas realizadas em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva, pronto-socorros e unidades de internação clínica e cirúrgica. A Tabela 1 sintetiza as principais características metodológicas dos estudos selecionados.
Tabela 1 – Características metodológicas dos estudos incluídos na revisão
| Autor/Ano | País | Tipo de estudo | Contexto assistencial | Instrumento de avaliação do burnout | Principais achados |
|---|---|---|---|---|---|
| Aiken et al., 2018 | EUA/Europa | Multicêntrico | Hospitais gerais | MBI | Burnout associado à pior qualidade do cuidado e maior mortalidade |
| Hall et al., 2016 | EUA | Observacional | Hospitalar | MBI | Exaustão emocional relacionada a eventos adversos |
| Santos et al., 2021 | Brasil | Transversal | UTI | MBI | Alta prevalência de burnout e falhas assistenciais |
| Medeiros et al., 2023 | Brasil | Multicêntrico | UTI adulto | CBI | Burnout associado à redução da segurança do paciente |
| Woo et al., 2020 | Coreia do Sul | Observacional | Hospitalar | MBI | Burnout impactou negativamente a qualidade percebida do cuidado |
| Griffiths et al., 2019 | Reino Unido | Coorte | Hospitalar | MBI | Relação entre exaustão e omissão de cuidados |
| Pradas-Hernández et al., 2018 | Espanha | Transversal | Hospitalar | MBI | Burnout associado à comunicação ineficaz |
| Oliveira et al., 2022 | Brasil | Observacional | Atenção hospitalar | MBI | Burnout compromete adesão a protocolos de segurança |
Fonte: elaborado pela autora a partir da literatura analisada.
A análise dos estudos evidenciou alta prevalência da síndrome de burnout entre profissionais de enfermagem, com destaque para a dimensão da exaustão emocional, apontada como a mais frequente e intensa. Em diversos contextos assistenciais, especialmente em ambientes de alta complexidade, observou-se que mais da metade dos profissionais apresentava níveis moderados a elevados de burnout, associando-se a sentimentos de fadiga persistente, desmotivação e distanciamento emocional em relação ao cuidado.
No que se refere à qualidade da assistência, os estudos demonstraram que o burnout está diretamente relacionado à redução da atenção aos pacientes, à diminuição da empatia e ao comprometimento da vigilância clínica. Profissionais com altos níveis de exaustão emocional relataram maior dificuldade em manter padrões elevados de cuidado, bem como maior frequência de omissões de cuidados essenciais, como monitorização adequada, higiene, mobilização e comunicação efetiva com pacientes e familiares.
A relação entre burnout e segurança do paciente foi evidenciada de forma consistente na literatura analisada. A Tabela 2 apresenta os principais desfechos de segurança associados à síndrome de burnout em profissionais de enfermagem.
Tabela 2 – Impactos do burnout da enfermagem na segurança do paciente.
| Desfecho relacionado à segurança | Evidências identificadas |
|---|---|
| Erros de medicação | Maior ocorrência entre profissionais com elevada exaustão emocional (Hall et al., 2016; Santos et al., 2021) |
| Eventos adversos evitáveis | Associação significativa com altos níveis de burnout (Aiken et al., 2018) |
| Omissão de cuidados | Frequente em equipes com burnout elevado (Griffiths et al., 2019) |
| Falhas de comunicação | Relacionadas à despersonalização e fadiga emocional (Pradas-Hernández et al., 2018) |
| Redução da qualidade assistencial | Evidenciada em estudos multicêntricos (Woo et al., 2020; Medeiros et al., 2023) |
Fonte: elaborado pela autora com base nos estudos incluídos.
Outro achado recorrente refere-se aos fatores organizacionais associados ao burnout, entre os quais se destacam o subdimensionamento da equipe de enfermagem, jornadas prolongadas, excesso de demandas administrativas, baixa autonomia profissional e insuficiente suporte institucional. Esses elementos foram apontados como determinantes não apenas para o desenvolvimento da síndrome, mas também para o enfraquecimento da cultura de segurança do paciente, uma vez que ambientes de trabalho adversos favorecem falhas no processo assistencial.
Apesar do predomínio de resultados negativos, alguns estudos relataram estratégias institucionais eficazes na mitigação dos impactos do burnout. Entre as principais ações destacaram-se a adequação do dimensionamento de pessoal, programas de apoio psicológico, fortalecimento da liderança de enfermagem, promoção de ambientes de trabalho colaborativos e investimento em educação permanente. Tais estratégias mostraram-se associadas à redução dos níveis de burnout, à melhoria da qualidade da assistência e à diminuição da ocorrência de incidentes relacionados à segurança do paciente.
6. DISCUSSÃO
Os achados desta revisão integrativa evidenciam que a síndrome de burnout entre profissionais de enfermagem constitui um fenômeno amplamente disseminado nos serviços de saúde e com repercussões diretas sobre a qualidade da assistência e a segurança do paciente. A elevada prevalência de exaustão emocional, identificada nos estudos analisados, confirma que o ambiente de trabalho da enfermagem permanece marcado por altas demandas assistenciais, pressão constante e insuficiência de recursos humanos, configurando um cenário propício ao adoecimento psíquico. Esses resultados corroboram investigações multicêntricas que apontam o burnout como um dos principais desafios contemporâneos da prática da enfermagem, especialmente em contextos hospitalares e de alta complexidade (Aiken et al., 2018; Woo et al., 2020).
A relação entre burnout e qualidade do cuidado mostrou-se consistente na literatura analisada, revelando que profissionais emocionalmente exaustos apresentam maior dificuldade em manter níveis elevados de atenção, empatia e vigilância clínica. A exaustão emocional, dimensão central do burnout, compromete a capacidade de resposta às necessidades do paciente, favorecendo omissões de cuidado e fragilizando a integralidade da assistência. Esses achados dialogam com estudos que demonstram que a redução da realização profissional e o distanciamento emocional impactam negativamente o vínculo terapêutico, elemento fundamental para a humanização do cuidado em saúde (Maslach & Leiter, 2016; Pradas-Hernández et al., 2018).
No que se refere à segurança do paciente, os resultados reforçam que o burnout deve ser compreendido como um fator de risco sistêmico, e não apenas individual. A associação entre altos níveis de exaustão emocional e o aumento de erros de medicação, eventos adversos evitáveis e falhas de comunicação evidencia que o sofrimento do trabalhador repercute diretamente no cuidado prestado. Essa constatação converge com pesquisas internacionais que apontam que equipes de enfermagem com elevados índices de burnout apresentam maior incidência de eventos adversos e menor adesão a protocolos de segurança, comprometendo a confiabilidade dos sistemas assistenciais (Hall et al., 2016; Griffiths et al., 2019).
A análise dos estudos também evidencia que o burnout na enfermagem está profundamente relacionado a fatores organizacionais e estruturais, como o subdimensionamento de pessoal, jornadas extensas, sobrecarga administrativa e modelos de gestão centrados no produtivismo. Esses elementos revelam que o adoecimento psíquico dos profissionais não decorre exclusivamente da natureza do trabalho assistencial, mas de condições institucionais que limitam a autonomia, o reconhecimento e o suporte oferecido às equipes. Tal compreensão desloca a responsabilidade do indivíduo para o sistema, reforçando a necessidade de abordagens gerenciais que reconheçam o burnout como um problema coletivo e organizacional (Medeiros et al., 2023; Oliveira et al., 2022).
Sob a perspectiva ética, o burnout na enfermagem também se associa ao sofrimento moral, uma vez que profissionais exaustos vivenciam a impossibilidade de oferecer um cuidado compatível com seus valores e compromissos profissionais. Essa experiência gera sentimentos de frustração, impotência e desgaste emocional, comprometendo o sentido do trabalho e fragilizando a identidade profissional do enfermeiro. Estudos apontam que esse sofrimento ético afeta não apenas a saúde mental do trabalhador, mas também a qualidade das relações estabelecidas com pacientes e equipes, evidenciando que a segurança do paciente está intrinsecamente ligada à dignidade e ao bem-estar dos profissionais que cuidam (Ramos et al., 2021; Morley et al., 2019).
Os resultados desta revisão também indicam que estratégias institucionais voltadas à prevenção do burnout apresentam potencial significativo para a melhoria da qualidade assistencial e da segurança do paciente. A adequação do dimensionamento de pessoal, o fortalecimento da liderança de enfermagem, a promoção de ambientes colaborativos e o investimento em programas de apoio psicossocial emergem como ações eficazes para reduzir a exaustão profissional. Essas iniciativas, quando integradas a uma cultura organizacional que valoriza o cuidado com o trabalhador, contribuem para a construção de ambientes assistenciais mais seguros, resilientes e humanizados (Aiken et al., 2018; Woo et al., 2020).
Outro aspecto relevante refere-se ao papel da liderança e da gestão hospitalar na mitigação dos efeitos do burnout. Estudos apontam que ambientes organizacionais que favorecem a comunicação aberta, o apoio institucional e a participação dos profissionais nas decisões apresentam menores níveis de exaustão e melhores indicadores de segurança do paciente. A liderança ética e sensível às necessidades da equipe de enfermagem configura-se, portanto, como elemento estratégico para o fortalecimento da cultura de segurança e para a promoção da qualidade do cuidado (Griffiths et al., 2019; Medeiros et al., 2023).
No contexto brasileiro, os achados desta revisão ganham especial relevância diante das limitações estruturais do sistema de saúde, marcadas pela escassez de profissionais, precarização dos vínculos de trabalho e insuficiência de políticas públicas voltadas à saúde do trabalhador. A ausência de estratégias institucionais sistematizadas para prevenção do burnout reforça a necessidade de avanços normativos e gerenciais que reconheçam o cuidado com a equipe de enfermagem como componente essencial da segurança do paciente. Investir em condições de trabalho adequadas não representa apenas uma demanda corporativa, mas um compromisso ético e social com a qualidade da assistência prestada à população (Oliveira et al., 2022).
Por fim, a discussão dos resultados evidencia que o burnout na enfermagem não pode ser analisado de forma fragmentada ou individualizada. Trata-se de um fenômeno complexo, que reflete a interdependência entre condições de trabalho, organização dos serviços, cultura institucional e políticas de saúde. Reconhecer o burnout como determinante da qualidade da assistência e da segurança do paciente constitui um passo fundamental para a consolidação de práticas assistenciais mais seguras, éticas e humanizadas. Assim, enfrentar o burnout na enfermagem significa não apenas cuidar de quem cuida, mas fortalecer os alicerces de um sistema de saúde comprometido com a vida, a dignidade e a excelência do cuidado.
7. CONCLUSÃO
A análise das evidências científicas demonstrou que a síndrome de burnout em profissionais de enfermagem constitui um fenômeno amplamente presente nos serviços de saúde e com repercussões significativas sobre a qualidade da assistência e a segurança do paciente. Os estudos analisados indicam que níveis elevados de exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional estão associados a falhas no processo assistencial, aumento de eventos adversos, omissões de cuidado e comprometimento da vigilância clínica. Esses achados reforçam que o burnout não se restringe à esfera individual do trabalhador, mas configura-se como um fator de risco sistêmico que afeta diretamente a confiabilidade e a efetividade do cuidado em saúde.
Os resultados evidenciam ainda que o burnout na enfermagem está fortemente relacionado a fatores organizacionais e estruturais, como o subdimensionamento de pessoal, a sobrecarga de trabalho, a precarização das condições laborais e modelos de gestão que priorizam a produtividade em detrimento do cuidado com o trabalhador. Esses elementos contribuem para o desgaste físico e emocional da equipe, fragilizando a qualidade da assistência e a cultura de segurança do paciente. Assim, torna-se evidente que estratégias voltadas exclusivamente para a responsabilização individual dos profissionais são insuficientes para enfrentar o problema, sendo necessário um olhar ampliado que considere o contexto institucional e sistêmico do trabalho em saúde.
Outro aspecto relevante refere-se à dimensão ética do burnout, uma vez que a impossibilidade de oferecer um cuidado compatível com os valores profissionais gera sofrimento moral e compromete o sentido do trabalho da enfermagem. Essa vivência afeta a identidade profissional, fragiliza as relações interpessoais e limita a humanização do cuidado, elementos essenciais para a prática segura e de qualidade. Dessa forma, a segurança do paciente não pode ser dissociada do bem-estar dos profissionais, reafirmando que ambientes de trabalho saudáveis são condição indispensável para a excelência assistencial.
A literatura analisada também aponta que a adoção de estratégias institucionais integradas pode contribuir significativamente para a prevenção do burnout e para a promoção da segurança do paciente. Medidas como o dimensionamento adequado de pessoal, o fortalecimento da liderança de enfermagem, o investimento em programas de apoio psicossocial, a valorização profissional e a promoção de ambientes colaborativos mostraram-se eficazes na redução da exaustão e na melhoria da qualidade do cuidado. Tais iniciativas evidenciam que cuidar da saúde mental da equipe de enfermagem é uma estratégia essencial de gestão da qualidade e não apenas uma ação complementar.
É importante destacar que o enfrentamento do burnout na enfermagem demanda avanços no âmbito das políticas públicas de saúde. A ausência de diretrizes claras e normativas específicas voltadas à proteção da saúde mental dos profissionais contribui para a manutenção de condições de trabalho adversas e para a perpetuação de riscos à segurança do paciente. Nesse sentido, a incorporação de políticas que reconheçam o burnout como um problema ocupacional e que promovam condições dignas de trabalho representa um compromisso ético e social com a sustentabilidade dos serviços de saúde.
Conclui-se, portanto, que o burnout na enfermagem constitui um desafio complexo e multifacetado, cujos impactos extrapolam o adoecimento do trabalhador e alcançam diretamente a qualidade da assistência e a segurança do paciente. Enfrentar esse fenômeno exige ações articuladas entre gestores, profissionais e formuladores de políticas públicas, orientadas por uma visão ética, humanizada e comprometida com a valorização do cuidado. Investir na saúde da enfermagem significa investir na segurança do paciente e na construção de um sistema de saúde mais justo, seguro e humanamente sustentável.
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