INFECÇÕES CONGÊNITAS: IMPACTOS MATERNO-FETAIS E DESAFIOS NA GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602101636


Agheta Cristine Mendonça Tomasini
Felipe Leonardo Rossi Oliveira
Orientadores: Dra. Indira Barcos Balbino
Dr. Antonio Cícero Santana
Dra. Dayane Santos Silva


RESUMO 

As infecções congênitas representam um importante problema de saúde pública na prática obstétrica devido à sua capacidade de atravessar a barreira placentária e comprometer o feto em diferentes estágios da gestação. Agentes infecciosos como os do complexo TORCH (Toxoplasma gondii, outros incluindo sífilis, varicela-zóster, parvovírus B19, rubéola, citomegalovírus e herpes) e vírus emergentes (como Zika) estão associados a complicações materno-fetais significativas, incluindo malformações, prematuridade, restrição de crescimento intrauterino e morte perinatal. A prevalência, diagnóstico e manejo dessas infecções constituem desafios clínicos e laboratoriais relevantes, exigindo avaliação rigorosa no pré-natal e estratégias de vigilância efetivas. Estudos recentes destacam a importância da detecção precoce e de intervenções terapêuticas adequadas para reduzir a morbimortalidade perinatal e sequelas a longo prazo. A revisão aborda aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos, clínicos e diagnósticos, bem como os principais desafios enfrentados na área de Ginecologia e Obstetrícia. 

Palavras-chave: infecções congênitas; transmissão vertical; pré-natal; Ginecologia e Obstetrícia; TORCH. 

ABSTRACT 

Congenital infections are a significant public health concern in obstetric practice due to their ability to cross the placental barrier and compromise the fetus at various stages of gestation. Infectious agents such as those in the TORCH complex (Toxoplasma gondii, others including syphilis, varicella-zoster, parvovirus B19, rubella, cytomegalovirus, and herpes) and emerging viruses (e.g., Zika virus) are linked to major maternal-fetal complications, including congenital anomalies, preterm birth, intrauterine growth restriction, and perinatal death. The prevalence, diagnosis, and management of these infections pose significant clinical and laboratory challenges, requiring rigorous prenatal evaluation and effective surveillance strategies. Recent studies emphasize the importance of early detection and appropriate therapeutic interventions to reduce perinatal morbidity and long-term sequelae. This review addresses epidemiological, pathophysiological, clinical, and diagnostic aspects, as well as key challenges encountered in the field of Obstetrics and Gynecology. 

Keywords: congenital infections; vertical transmission; prenatal care; Obstetrics and Gynecology; TORCH. 

1. INTRODUÇÃO 

As infecções congênitas constituem um relevante problema de saúde pública na prática da Ginecologia e Obstetrícia, sendo caracterizadas pela transmissão vertical de agentes infecciosos da gestante para o feto, seja por via transplacentária, durante o parto ou no período neonatal precoce. Essas infecções estão associadas a elevados índices de morbimortalidade perinatal e podem resultar em consequências graves, como malformações congênitas, restrição de crescimento intrauterino, prematuridade, óbito fetal e sequelas neurológicas permanentes (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). 

O grupo de agentes tradicionalmente relacionado a essas infecções é conhecido pelo acrônimo TORCH, que engloba Toxoplasma gondii, Outros agentes incluindo sífilis e parvovírus B19, Rubéola, Citomegalovírus (CMV) e Herpes simplex. Esses patógenos apresentam elevada capacidade de atravessar a barreira placentária, especialmente quando a infecção materna ocorre durante o primeiro e o segundo trimestres gestacionais, períodos críticos para a organogênese fetal (FOWLER et al., 2023). 

Estudos recentes demonstram que, mesmo na ausência de manifestações clínicas maternas, determinadas infecções congênitas podem provocar danos fetais significativos, evidenciando a limitação da abordagem baseada exclusivamente em sinais e sintomas durante o pré-natal (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2021). O citomegalovírus, por exemplo, é atualmente reconhecido como a principal causa infecciosa de surdez neurossensorial não hereditária e atraso do neurodesenvolvimento em crianças, mesmo em casos de infecção materna assintomática (FOWLER et al., 2023). 

Além dos agentes clássicos, a emergência e reemergência de vírus com potencial teratogênico, como o vírus Zika, reforçaram a necessidade de vigilância epidemiológica contínua e atualização dos protocolos obstétricos. A infecção pelo Zika vírus durante a gestação foi associada a uma síndrome congênita específica, caracterizada por microcefalia, alterações oftalmológicas e comprometimento neurológico grave, destacando o impacto das infecções virais emergentes na saúde materno-fetal (BRASIL, 2023). 

A distribuição e a prevalência das infecções congênitas varia conforme fatores socioeconômicos, regionais e de acesso aos serviços de saúde, sendo mais frequentes em contextos com cobertura pré-natal inadequada. Nesse cenário, o diagnóstico precoce por meio de triagens sorológicas e testes moleculares, aliado ao acompanhamento ultrassonográfico fetal sistemático, é fundamental para a redução dos desfechos adversos associados à transmissão vertical (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). 

Dessa forma, o manejo das infecções congênitas representa um desafio contínuo para ginecologistas e obstetras, exigindo conhecimento atualizado, abordagem multidisciplinar e estratégias eficazes de prevenção, diagnóstico e tratamento. O presente artigo tem como objetivo discutir os principais impactos materno-fetais das infecções congênitas e os desafios enfrentados na prática da Ginecologia e Obstetrícia contemporânea, à luz das evidências científicas recentes. 

2. JUSTIFICATIVA 

As infecções congênitas permanecem como uma das principais causas evitáveis de morbimortalidade perinatal e de sequelas neurológicas permanentes, apesar dos avanços diagnósticos e terapêuticos observados nas últimas décadas. A persistência dessas infecções no cenário obstétrico está diretamente relacionada à transmissão vertical de agentes infecciosos, muitas vezes assintomáticos na gestante, o que dificulta a identificação precoce e a implementação de medidas preventivas eficazes (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). 

No contexto da Ginecologia e Obstetrícia, o reconhecimento adequado dessas infecções é fundamental, uma vez que o diagnóstico tardio ou a ausência de rastreamento sistemático no pré-natal pode resultar em desfechos fetais graves, como malformações congênitas, prematuridade, restrição de crescimento intrauterino e óbito fetal. Ademais, agentes como o citomegalovírus e a sífilis congênita continuam apresentando elevada incidência, mesmo em países com protocolos bem estabelecidos, evidenciando falhas na cobertura pré-natal e na adesão às diretrizes clínicas (FOWLER et al., 2023; BRASIL, 2023). 

Dessa forma, torna-se necessária a produção de estudos que sistematizem o conhecimento científico recente sobre infecções congênitas, enfatizando seus impactos materno-fetais e os desafios enfrentados na prática obstétrica atual. A presente revisão justifica-se pela relevância clínica do tema, pela necessidade de atualização contínua dos profissionais de saúde e pela contribuição ao aprimoramento das estratégias de prevenção, diagnóstico e manejo dessas infecções no âmbito da assistência pré-natal. 

3. OBJETIVOS 

3.1 Objetivo Geral 

Analisar os impactos materno-fetais das infecções congênitas e os principais desafios enfrentados na prática da Ginecologia e Obstetrícia, à luz das evidências científicas recentes. 

3.2 Objetivos Específicos 

  • Descrever os principais agentes etiológicos associados às infecções congênitas, com ênfase no complexo TORCH e em agentes emergentes; 
  • Discutir os mecanismos de transmissão vertical e suas repercussões no desenvolvimento fetal; 
  • Identificar as principais manifestações clínicas e complicações materno-fetais relacionadas às infecções congênitas; 
  • Analisar as estratégias atuais de rastreamento, diagnóstico e manejo dessas infecções no pré-natal; 
  • Evidenciar os desafios clínicos e assistenciais enfrentados pelos profissionais de Ginecologia e Obstetrícia na prevenção e controle das infecções congênitas. 

4. METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo de revisão narrativa da literatura, com abordagem qualitativa, desenvolvido a partir da análise de publicações científicas recentes sobre infecções congênitas no contexto da Ginecologia e Obstetrícia. 

A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Scholar, utilizando os descritores controlados e não controlados, em português e inglês: infecções congênitas, transmissão vertical, TORCH infections, prenatal care, obstetrics e maternal-fetal infections. Os descritores foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, de modo a ampliar a sensibilidade da busca. 

Foram incluídos artigos publicados entre 2021 e 2025, disponíveis na íntegra, que abordassem aspectos epidemiológicos, clínicos, diagnósticos ou terapêuticos das infecções congênitas. Como critérios de exclusão, foram descartados estudos duplicados, publicações fora do período estabelecido, artigos que não apresentassem relação direta com o tema proposto e revisões com escopo incompatível com os objetivos do estudo. 

A análise dos dados foi realizada de forma descritiva e interpretativa, permitindo a síntese crítica dos achados mais relevantes da literatura selecionada. As informações obtidas foram organizadas em eixos temáticos, contemplando agentes etiológicos, transmissão vertical, manifestações clínicas, diagnóstico e desafios na prática obstétrica. 

5. REVISÃO DE LITERATURA 

5.1 Transmissão vertical e fisiopatologia das infecções congênitas 

A transmissão vertical ocorre quando agentes infecciosos são transmitidos da mãe para o concepto por via transplacentária, durante o parto ou no período neonatal precoce. A via transplacentária é a mais relevante do ponto de vista das infecções congênitas, uma vez que permite a exposição fetal durante fases críticas do desenvolvimento embrionário e fetal, particularmente no primeiro trimestre gestacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). 

A capacidade de um agente atravessar a barreira placentária depende de diversos fatores, incluindo sua carga viral ou parasitária, o estado imunológico materno, a idade gestacional no momento da infecção e as características próprias do patógeno. Infecções adquiridas precocemente na gestação tendem a estar associadas a maiores taxas de malformações estruturais, enquanto aquelas adquiridas em períodos mais tardios estão mais relacionadas a manifestações inflamatórias, restrição de crescimento intrauterino e prematuridade (FOWLER et al., 2023). 

5.2 Complexo TORCH e principais agentes etiológicos 

O acrônimo TORCH permanece como a principal referência para o estudo das infecções congênitas clássicas. Entre esses agentes, destacam-se Toxoplasma gondii, Treponema pallidum (sífilis), vírus da rubéola, citomegalovírus (CMV) e vírus herpes simplex (HSV), todos associados a importantes repercussões materno-fetais (CDC, 2021). 

5.2.1 Toxoplasmose congênita 

A toxoplasmose congênita resulta da infecção primária materna pelo Toxoplasma gondii durante a gestação. A taxa de transmissão vertical aumenta progressivamente com a idade gestacional, porém a gravidade das manifestações fetais é inversamente proporcional ao período gestacional em que ocorre a infecção (DUNN et al., 2022). 

As principais manifestações incluem hidrocefalia, calcificações intracranianas, coriorretinite e comprometimento neurológico. Estudos recentes reforçam a importância do rastreamento sorológico no pré-natal e do tratamento precoce com espiramicina ou associação de sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico, visando reduzir a transmissão fetal e a gravidade das sequelas (MONTOYA; REMINGTON, 2023). 

5.2.2 Sífilis congênita 

A sífilis congênita continua sendo um grave problema de saúde pública, especialmente em países de média e baixa renda. A infecção fetal ocorre por transmissão transplacentária do Treponema pallidum, podendo acontecer em qualquer fase da gestação, com maior risco nos estágios primário e secundário da doença materna (BRASIL, 2023). 

As consequências incluem aborto espontâneo, natimortalidade, prematuridade e manifestações clínicas precoces e tardias no recém-nascido, como lesões cutâneas, hepatomegalia, alterações ósseas e neurossífilis. Evidências atuais demonstram que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado com penicilina benzatina durante o pré-natal são altamente eficazes na prevenção da transmissão vertical (WHO, 2022). 

5.2.3 Rubéola congênita 

A rubéola congênita, embora controlada em muitos países por meio da vacinação, ainda representa risco em populações com baixa cobertura vacinal. A infecção materna no primeiro trimestre está fortemente associada à síndrome da rubéola congênita, caracterizada por cardiopatias, catarata, surdez neurossensorial e microcefalia (REEVES et al., 2021). 

A literatura recente enfatiza que a prevenção por meio da imunização pré-concepcional continua sendo a principal estratégia para erradicação da doença, uma vez que não há tratamento específico eficaz durante a gestação (CDC, 2021). 

5.2.4 Citomegalovírus (CMV) 

O citomegalovírus é atualmente reconhecido como a principal causa de infecção congênita viral no mundo. A transmissão vertical pode ocorrer tanto na primoinfecção quanto na reativação viral materna, sendo frequentemente assintomática na gestante (FOWLER et al., 2023). 

As manifestações fetais incluem ventriculomegalia, calcificações periventriculares, restrição de crescimento intrauterino e surdez neurossensorial. Estudos recentes investigam o uso de antivirais e imunoglobulina hiperimune como estratégias terapêuticas, embora ainda não haja consenso definitivo quanto à sua eficácia rotineira (KAGAN et al., 2024). 

5.2.5 Herpes simples congênito 

A infecção congênita pelo vírus herpes simplex é menos frequente, porém associada a elevada letalidade e morbidade neonatal. A maioria dos casos ocorre por transmissão intraparto, especialmente quando a mãe apresenta infecção primária ativa no momento do parto (BROWN et al., 2022). 

As manifestações incluem doença cutânea, ocular, neurológica e infecção disseminada. O uso profilático de aciclovir em gestantes com história de herpes genital recorrente e a indicação criteriosa de cesariana são estratégias fundamentais para reduzir o risco de transmissão neonatal (ACOG, 2023). 

5.3 Agentes emergentes e infecções congênitas 

Nos últimos anos, a emergência de vírus como o Zika vírus evidenciou a vulnerabilidade do feto a novos agentes infecciosos. A infecção materna pelo Zika durante a gestação foi associada à síndrome congênita do Zika, caracterizada por microcefalia grave, alterações cerebrais, oftalmológicas e articulares (BRASIL, 2023). 

Além disso, estudos recentes avaliaram o impacto da infecção por SARS-CoV-2 durante a gestação, indicando que, embora a transmissão vertical seja rara, a infecção materna está associada a maior risco de prematuridade e complicações obstétricas, sem aumento consistente de malformações congênitas (SMITH et al., 2024). 

5.4 Diagnóstico e rastreamento no pré-natal 

O diagnóstico das infecções congênitas baseia-se na associação de triagem sorológica, testes moleculares e achados ultrassonográficos sugestivos. O rastreamento sistemático no pré-natal permite identificar infecções maternas ativas ou prévias e orientar condutas adequadas para minimizar o risco fetal (WHO, 2022). 

A ultrassonografia obstétrica desempenha papel fundamental na detecção precoce de alterações estruturais e funcionais fetais, sendo essencial no acompanhamento de gestantes com infecção confirmada ou suspeita (KAGAN et al., 2024). 

6. DISCUSSÃO 

A análise da literatura recente evidencia que as infecções congênitas permanecem como um desafio significativo na prática da Ginecologia e Obstetrícia, apesar dos avanços nos métodos diagnósticos e das estratégias preventivas implementadas nas últimas décadas. A persistência de elevados índices de morbimortalidade perinatal associados à transmissão vertical reflete, em grande parte, falhas na cobertura e na qualidade do pré-natal, bem como dificuldades na identificação precoce de infecções maternas assintomáticas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). 

Os estudos analisados reforçam que a gravidade das manifestações fetais está intimamente relacionada ao momento da infecção durante a gestação. 

Infecções adquiridas no primeiro trimestre apresentam maior potencial teratogênico, enquanto aquelas ocorridas em fases mais tardias tendem a resultar em prematuridade, restrição de crescimento intrauterino e inflamação sistêmica fetal (FOWLER et al., 2023). Esse padrão fisiopatológico destaca a importância do rastreamento precoce e contínuo ao longo da gestação, e não apenas na consulta inicial do pré-natal. 

No que se refere ao complexo TORCH, observa-se que, embora algumas infecções, como a rubéola congênita, tenham apresentado redução significativa em regiões com alta cobertura vacinal, outras, como a sífilis congênita e a infecção por citomegalovírus, continuam a representar importantes problemas de saúde pública. A sífilis congênita, em especial, destaca-se como uma condição evitável, cuja persistência indica falhas estruturais nos serviços de saúde, incluindo diagnóstico tardio, tratamento inadequado da gestante e ausência de abordagem do parceiro sexual (BRASIL, 2023; WHO, 2022). 

O citomegalovírus, por sua vez, configura-se como um dos maiores desafios atuais, uma vez que a maioria das infecções maternas é assintomática e não há consenso sobre estratégias de rastreamento universal durante o pré-natal. Estudos recentes apontam que, apesar do avanço das técnicas de diagnóstico molecular e do acompanhamento ultrassonográfico fetal, ainda existem limitações quanto à disponibilidade de terapias eficazes capazes de prevenir completamente as sequelas fetais, como a surdez neurossensorial (FOWLER et al., 2023; KAGAN et al., 2024). 

A emergência de agentes infecciosos como o vírus Zika reforçou a vulnerabilidade do feto a patógenos emergentes e evidenciou lacunas importantes nos sistemas de vigilância epidemiológica. A síndrome congênita do Zika demonstrou que infecções virais podem gerar padrões específicos e graves de comprometimento neurológico, exigindo rápida adaptação dos protocolos obstétricos e integração entre vigilância epidemiológica, assistência pré-natal e acompanhamento neonatal (BRASIL, 2023). 

No contexto da pandemia de COVID-19, a literatura recente sugere que, embora a transmissão vertical do SARS-CoV-2 seja rara, a infecção materna está associada a maior risco de complicações obstétricas, como parto prematuro e sofrimento fetal, ressaltando a necessidade de monitoramento cuidadoso dessas gestantes (SMITH et al., 2024). Esses achados reforçam a importância da avaliação contínua do impacto de novos agentes infecciosos sobre a gestação. 

Outro ponto amplamente discutido na literatura é o papel central do diagnóstico pré-natal por meio de exames sorológicos, testes moleculares e avaliação ultrassonográfica seriada. A integração dessas ferramentas permite a identificação precoce de alterações fetais sugestivas de infecção congênita, possibilitando intervenções oportunas e aconselhamento adequado às gestantes. No entanto, a implementação dessas estratégias ainda é desigual, especialmente em regiões com limitações de recursos e acesso restrito a serviços especializados (WHO, 2022). 

Dessa forma, a discussão dos estudos analisados evidencia que o enfrentamento das infecções congênitas exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo ações de prevenção, diagnóstico precoce, tratamento adequado e vigilância epidemiológica contínua. A atualização constante dos profissionais de Ginecologia e Obstetrícia, aliada à ampliação do acesso ao pré-natal de qualidade, constitui estratégia fundamental para a redução dos impactos materno-fetais associados a essas infecções. 

7. CONCLUSÃO 

As infecções congênitas configuram-se como um relevante desafio na prática da Ginecologia e Obstetrícia, em virtude de seu potencial de causar desfechos materno-fetais adversos, incluindo malformações congênitas, prematuridade, restrição de crescimento intrauterino, óbito fetal e sequelas neurológicas permanentes. Apesar dos avanços científicos nas áreas de diagnóstico e manejo clínico, a literatura recente evidencia que essas infecções permanecem como importantes causas evitáveis de morbimortalidade perinatal. 

A análise dos estudos demonstra que a transmissão vertical está diretamente relacionada ao momento da infecção durante a gestação, reforçando a necessidade de rastreamento precoce e contínuo ao longo do pré-natal. O complexo TORCH, especialmente a sífilis congênita e a infecção por citomegalovírus, mantém-se como principal responsável pelos casos de infecção congênita, evidenciando falhas estruturais nos serviços de saúde e na cobertura do pré-natal adequado. 

Além disso, a emergência de agentes infecciosos, como o vírus Zika, e a recente experiência com a pandemia de COVID-19 ressalta a vulnerabilidade do binômio mãe-feto frente a novos patógenos, destacando a importância da vigilância epidemiológica contínua e da atualização dos protocolos obstétricos. Tais eventos reforçam a necessidade de integração entre assistência pré-natal, diagnóstico laboratorial, acompanhamento ultrassonográfico e políticas públicas de saúde. 

Diante desse contexto, conclui-se que o enfrentamento efetivo das infecções congênitas depende de uma abordagem multidisciplinar, centrada na prevenção, no diagnóstico precoce e no manejo adequado das gestantes, bem como na capacitação contínua dos profissionais de Ginecologia e Obstetrícia. A ampliação do acesso a um pré-natal de qualidade e a implementação rigorosa das diretrizes clínicas são estratégias fundamentais para a redução dos impactos materno-fetais e para a promoção da saúde materna e neonatal. 

REFERÊNCIAS 

AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG).

Management of herpes simplex virus in pregnancy. Obstetrics & Gynecology, Washington, v. 141, n. 2, p. 1-12, 2023. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para prevenção da transmissão vertical de infecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 

BROWN, Z. A. et al. Neonatal herpes simplex virus infection: epidemiology and prevention strategies. Clinical Perinatology, Philadelphia, v. 49, n. 2, p. 317-332, 2022. 

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Congenital infections: guidelines and surveillance. Atlanta: CDC, 2021. 

DUNN, D. et al. Congenital toxoplasmosis: prevention, screening and outcomes. The Lancet Infectious Diseases, London, v. 22, n. 8, p. e240-e249, 2022. 

FOWLER, K. B. et al. Congenital cytomegalovirus infection: clinical outcomes and diagnostic challenges. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 388, n. 4, p. 345-356, 2023. 

KAGAN, K. O. et al. Prenatal diagnosis and management of congenital infections. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, Oxford, v. 63, n. 1, p. 5-18, 2024. 

MONTOYA, J. G.; REMINGTON, J. S. Toxoplasmosis of the fetus and newborn: an updated review. Infectious Disease Clinics of North America, Philadelphia, v. 37, n. 1, p. 1-20, 2023. 

REEVES, W. C. et al. Rubella and congenital rubella syndrome: global update. Vaccine, Amsterdam, v. 39, n. 32, p. 4501-4508, 2021. 

SMITH, E. R. et al. Pregnancy outcomes associated with SARS-CoV-2 infection: a systematic analysis. BMJ, London, v. 386, p. 1-10, 2024.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global guidance on prevention of congenital infections. Geneva: WHO, 2022.